Aníbal Machado estreou em 1944 com Vila
Feliz, contos que seriam acrescidos de mais sete histórias inéditas,
formando o volume de Histórias Reunidas (1959). Compendiado como autor
de obras-primas com os contos “A Morte da Porta-Estandarte”, “O Iniciado do
Vento” e “Viagem aos Seios de Duílio”, publicou ainda a coletânea Cadernos
de João (1957), em que reúne breves meditações lírico-filosóficas e poemas
em prosa. João Ternura (1965, rapsódia romanesca, teve publicação
póstuma, após lendária gestação durante o período de quarenta anos.
Na longa gestação do romance, cujo
personagem tem uma alma impregnada de visões do mundo numa paisagem que não lhe
é vulnerável, considera-se que o clima em que se cumpre viver pelo personagem
conota no real coerência e naturalidade. Daí ser compreendido por particularidades
pessoais onde pulsa a ternura. Na peregrinação para escrever o livro,
contemporâneos que viveram no ambiente íntimo do criador de João Ternura informaram que Aníbal Machado passou por
momentos difíceis de sua jornada criativa, na iminência da conclusão ou
engavetamento dos escritos.
Aníbal Machado
ressalta na introdução de João Ternura:
É possível que
alguns leitores, de tanto ouvirem falar neste livro,
o recebam de
pedras na mão. Especialmente os da geração mais
antiga. Tal
seria a minha reação, se, em vez do autor, fosse aqui
o leitor (pág. 3).
Valeu a pena a espera, tantas são
as lições carregadas de humanismo que o herói terno-lírico transmite nas cenas
fomentadas na rotina obediente ao seu próprio ritmo de contradições. Porque é
simples, nascido cercado de desvelos, inquietações e expectativas, esse
personagem solto na realidade aparentemente generosa constitui um grito lúcido
contra a miséria da existência humana. Na pauta de egoísmo corriqueiro, em que funciona a vida competitiva, o que ele vê
não é um cenário desalentador, mas a necessidade que tem a natureza humana de
seguir em frente, dentro de uma normalidade, que gera movimento e comportamento
entranhados na rotina de expectativas e repressões.
Através de gestos ingênuos, o
personagem torna-se uma reflexão profunda da vida. Sem qualquer espécie de
partidarismo ou pieguice, é cativante no itinerário das ocorrências que
preenchem a biografia lírica cercada de intenções pequenas. Não se dá à
reflexão em face de gestos desconcertantes, porque as contradições e dúvidas
vêm desde os primeiros passos na infância quando o mundo adulto da
incompreensão e insolência começa a existir até os momentos desagregadores das
qualidades humanas. Na cidade grande que
esmaga, a vida mostra-se tal qual ela é, pulsa tendo como o principal os dias
constituídos de indiferenças, incoerências que não fazem sentido diante do
racional.
Esse passageiro tranquilo, símbolo
do vulgar ligado na ternura, “esse pobre João ternura que nas nuvens melhor
ficaria, uma vez que sua simplicidade e inocência nem sempre encontravam
resposta num mundo em que não conseguiu (e nem suportava) atingir a chamada
idade da razão e das conveniências sociais que tão tristemente já alcançamos”
(pág. 5). Ele não mede a vida com seus despropósitos porque a simplicidade é a
tônica da sua mentira verdadeira, da qual emerge a vulgaridade das ideias, que
nos sabem seres estranhos formados com a natureza das próprias conveniências.
Até mesmo nas reações ingênuas diante da morte quando tinha a ilusão que
poderia depois continuar de olhos abertos. Alguns anos em silêncio, sem direito
à vida, a espiar com prazer a sucessão das novas gerações no Brasil
progressista, com o seu crescimento material, a grandeza humana de seu povo,
enfim, com os homens vivendo com simplicidade, cordiais nas atitudes para longe
da exploração e do medo.
Frágil e forte, o personagem do
romancista mineiro acredita na inocência como uma coisa útil e, por ser terno,
não se corrige com as decepções que a vida oferece.
Aníbal Machado
explica:
E você pensa que
ele vai se corrigir? Duvido. É possível que um dia ainda abra os
olhos. Isso a poder de muita cabeçada. Precisa primeiro sofrer na pele, levar trancos. Mas esse
diabinho parece que não sofre, nem toma conhecimento da realidade. Não
analisa os fatos. Nem raciocina.
Falta-lhe espírito objetivo... (pág.125).
Em sua maneira de contar com o
mundo sem merecer inconformismos, vê-se que João Ternura acha tudo natural, a
cegueira de lidar com a vida sem ver nela o sofrimento o absorve de tal maneira
que suas relações com o cotidiano chegam a dar pena. Ele está sempre consciente
de que entrou na vida inconsciente como qualquer um de nós. Não entrou nesta
briga pensando em Dom Quixote, mas apenas trazendo como arma e bagagem uma
maneira ingênua para sentir os seres humanos como agentes naturais das coisas
que precisam ser alcançadas. Nessa visão desprevenida de que viver é rolar na
vida com simplicidade, sem se importar com as agruras, manter com ele qualquer
tipo de conversa que analise a realidade tal qual ela é não será proveitoso.
Ele não pode entender, por exemplo, que há em cada esquina pelo menos meia
dúzia de desgraçados precisando de socorro. Não consegue conceber o mundo como
um nunca acabar de murros, com os fortes, em geral estúpidos, pisando nos
fracos.
Na escrita reveladora de candura,
contradições e desconcertos, a fabulação sincopada em cada episódio sugere o
ambiente necessário para revelar o conflito contado em determinadas passagens. Com
isso quer traduzir a criatura humana em seus becos sem saída, prisões e
medos. Mostrá-la com a certeza de que
quando se tem a natureza moldada com humildade a vida só pode ser vista no
plano da realidade oposta à dos valores materiais, não permitindo que se pise nela com a vontade
de deter as coisas postas no mundo para satisfazer desejos e ambições.
João Ternura nos faz refletir
sobre a humanidade caminhando nas pegadas da distância de uns para com os
outros, projetando-se tranquila, aparentemente generosa, na expressão feliz o
rosto dá a entender da existência de uma realidade proveitosa. Como portador da
brandura, esse personagem intrigante informa sobre o nosso gosto de apertar o
nó na garganta, sem variar nosso apetite voraz
persistente de pender para o egoísmo, que vem de longe.
O personagem lírico-vulgar resulta
de inegável força criativa de autor experimentado, consistente em sua
experiência de vida com bases humanísticas. Sabe valorizar sua mensagem pela
atualidade vista nos gestos primitivos dos que se dizem civilizados, vivendo em
ritmo tumultuado de hoje, cada vez mais intenso e veloz da cidade grande, “insone,
cruel... maravilhosa ao longe, terrível ao perto. O texto que se move para
a ingenuidade do personagem distante da realidade exterior, atinge momentos
oníricos de rara beleza, de sonho sustentado na gravidade do diálogo difícil de
ser formado nas zonas da morte onde tudo se dissolve.
A economia vocabular, usada como
uma constante para suportar o ritmo sugestivo da narrativa, a linguagem
descontínua, composta de aforismos, artifícios, inversão de frases, acrobacias
conscientes nas palavras, todas essas invenções formais com soluções só
encontráveis na melhor ficção brasileira situam João Ternura num fluxo
de beleza no qual se integram as fronteiras da poesia e do prosaico.
Como adianta um escritor da época,
não é exagero afirmar que em sua construção afetiva encontra-se aqui a síntese
do comportamento literário de Aníbal Machado. A mesma síntese cristalizada na
escrita de Histórias Reunidas ou Cadernos de João. Nesse livro póstumo
do escritor mineiro, o excelente prosador sente-se como que à vontade. O pleno
domínio da escrita poética novamente emerge do espírito sensível com sutilezas
líricas, no plano de imagens o sonho circula saliente sob o ritmo que
prende. Ora acelerado, ora lento,
irrompe nas passagens da prosa depurada com fragmentos, vozes e figuras de um
mundo incompreensível que nos impinge viver como estranhos e assustados. Trata-se
de texto com técnica renovadora do discurso literário, mostrado como o real
transfigurado no literário passa a se identificar com a poesia imbricada na
vida.
Mas João Ternura não é
apenas um texto com a forma apurada em sua grandeza técnica. Nas páginas de um
discurso lírico bem construído, a vida pulsa com sentimentos que se mostram
precisos nos momentos em que se desenham como achados felizes. É sentimento
esteticamente realizado com sua mensagem forte formulada no diálogo aceso para
iluminar o ser perdido na memória primitiva do tempo. O clima que se apreende
no mundo singular de João Ternura muito se identifica com o espírito de
seu criador. É como se o diálogo do personagem lírico-vulgar com a rotina das
coisas não se esgotasse em si mesmo perante o lado incompreensível da vida. E
fosse o grito lúcido do espírito tranquilo do próprio Aníbal Machado. Da razão
penetrante e sentimento poético que se atraem e se unem para dizerem que o
homem quando vive apoiado em padrão frágil de comportamento, imbuído de
ternura, desligado da realidade exterior em seu lado cruel, não tem salvação
para o pobre coitado, a vida deixa que se vá em sua clausura de alheamento até
sucumbir acossado pela sua própria simplicidade.
Ler essa fábula moderna, percorrer
o texto rico de significados e significantes, é rever a figura de Aníbal
Machado. O homem culto, sensível, atencioso, de bons préstimos. Durante anos
influenciou geração de contemporâneos por meio de artigos, conferências,
diálogos e sugestões. Como testemunham dois escritores de seu tempo, foi um
escritor que compareceu à lide literária dotado de simplicidade, não se
preocupando com o poder e a glória, não usando ressentimentos para ferir o
talento dos companheiros de militância artística.
Por ser criatura sem vaidades, cada
vez mais rara entre os habitantes do país das letras, onde infelizmente circula
o duvidoso como se fosse o verdadeiro, já podemos também dizer, como bem
lembrou Carlos Drummond de Andrade, ao concluir a leitura do lendário livro,
que ficamos sem saber se o criador de “João Ternura morreu efetivamente ou
se é apenas uma de suas mágicas.”
REFERÊNCIAS
MACHADO, Aníbal. João
Ternura, romance, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1965.
-----------------------------Histórias reunidas, Livraria José
Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1959.
------------------------Cadernos
de João, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro,1957.
ANDRADE, Carlos
Drummond de. “Balada em Prosa de Aníbal Machado”, in João Ternura, José
Olympio Editora, 1957.
* Cyro de Mattos
é escritor premiado e publicado no exterior.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
João.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, Jesus apareceu de novo aos discípulos, à
beira do mar de Tiberíades. A aparição foi assim: Estavam juntos Simão
Pedro, Tomé, chamado Dídimo, Natanael de Caná da Galileia, os filhos de Zebedeu
e outros dois discípulos de Jesus.
Simão Pedro disse a eles: “Eu vou pescar”. Eles disseram:
“Também vamos contigo”.
Saíram e entraram na barca, mas não pescaram nada naquela
noite. Já tinha amanhecido, e Jesus estava de pé na margem. Mas os
discípulos não sabiam que era Jesus. Então Jesus disse: “Moços, tendes alguma
coisa para comer?” Responderam: “Não”.
Jesus disse-lhes: “Lançai a rede à direita da barca, e
achareis”. Lançaram pois a rede e não conseguiam puxá-la para fora, por causa
da quantidade de peixes. Então, o discípulo a quem Jesus amava disse a
Pedro: “É o Senhor!” Simão Pedro, ouvindo dizer que era o Senhor, vestiu sua
roupa, pois estava nu, e atirou-se ao mar. Os outros discípulos vieram com
a barca, arrastando a rede com os peixes. Na verdade, não estavam longe da
terra, mas somente a cerca de cem metros. Logo que pisaram a terra, viram
brasas acesas, com peixe em cima, e pão. Jesus disse-lhes: “Trazei alguns
dos peixes que apanhastes”.
Então Simão Pedro subiu ao barco e arrastou a rede para a
terra. Estava cheia de cento e cinquenta e três grandes peixes; e apesar de
tantos peixes, a rede não se rompeu.
Jesus disse-lhes: “Vinde comer”. Nenhum dos discípulos se
atrevia a perguntar quem era ele, pois sabiam que era o Senhor. Jesus
aproximou-se, tomou o pão e distribuiu-o por eles. E fez a mesma coisa com o
peixe.
Esta foi a terceira vez que Jesus, ressuscitado dos mortos,
apareceu aos discípulos. Depois de comerem, Jesus perguntou a Simão Pedro:
“Simão, filho de João, tu me amas mais do que estes?”
Pedro respondeu: “Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo”.
Jesus disse: “Apascenta os meus cordeiros”. E disse de novo a Pedro:
“Simão, filho de João, tu me amas?” Pedro disse: “Sim, Senhor, tu sabes que eu
te amo”. Jesus lhe disse: “Apascenta as minhas ovelhas”. Pela terceira
vez, perguntou a Pedro: “Simão, filho de João, tu me amas?”
Pedro ficou triste, porque Jesus perguntou três vezes se ele
o amava. Respondeu: “Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que eu te amo”. Jesus
disse-lhe: “Apascenta as minhas ovelhas.
Em verdade, em verdade te digo: quando eras jovem, tu cingias
e ias para onde querias. Quando fores velho, estenderás as mãos e outro te
cingirá e te levará para onde não queres ir”. Jesus disse isso,
significando com que morte Pedro iria glorificar a Deus. E acrescentou:
“Segue-me”.
“Saíram e entraram na barca, mas não pescaram nada naquela
noite” (Jo 21,3)
A vida é constituída de momentos de luta e de
coragem, de sonhos e de esperança, de vitórias e de derrotas. Este é o material
com o qual são construídas nossas histórias, pessoais e coletivas.
Todos nós já vivemos experiências de fracassos, quando
tudo desmorona, quando tudo nos é tirado, quando perdemos o chão, quando parece
que evapora tudo aquilo sobre o qual tínhamos investido todo o nosso amor e
toda a nossa energia e criatividade.
Mas, no horizonte da Ressurreição, o fracasso tem
seu lugar. Ele pode ser percebido como chance para crescimento ou
amadurecimento, ou pode ser integrado à luz de outras experiências positivas.
Aprendemos mais pelos nossos fracassos do que pelos nossos êxitos.
O fracasso pode ser, à luz da Ressurreição, des-velador da
natureza do ser humano, que vai amadurecendo, superando o sentimento infantil
de onipotência, descendo do pedestal de sua soberba para tornar-se mais humano,
mais amoroso, mais confiante... Os fracassos podem se revelar como ocasião
privilegiada para ativar outros recursos humanos que não tiveram chance de se
expressarem.
Integrar os fracassos significa assumir as perdas ou
carências que aparecem como uma negação de vida, mas que contém potencial de
nova vida, de crescimento, de maturação pessoal. Em definitiva, de
criativida-de humana, base da evolução pessoal e social.
Em nosso contexto social, o fracasso é vivido como
uma perda de prestígio e poder. Mas se o situamos no horizonte da Ressurreição,
ele pode ser elaborado saudavelmente e, então, poderemos descobrir que o
fracasso pode ser fonte de fecundidade. A Ressurreição nos ajuda a
re-siginificar, a re-ler, a re-interpretar todos os nossos dramas, crises,
feridas, fracassos... Tudo é acolhido, tudo é integrado, tudo é mobilizado para
dar um novo passo em direção a um novo futuro de vida.
Há um relato que sempre nos impacta muito e que aparece no
capítulo 21 do evangelho de João. Trata-se da aparição do Ressuscitado aos
discípulos no lago da Galiléia.
Normalmente nosso imaginário concebe a Ressurreição como uma
grande “apoteose”; mas, se algo está ausente nas aparições do
Ressuscitado, tal como os evangelhos nos relatam, é precisamente a apoteose.
O dicionário Houaiss da língua portuguesa a define como o
ápice, o momento mais importante de um acontecimento, o apogeu, a glorificação,
o júbilo, o entusiasmo, o cume... Mas, por mais que busquemos algo disso nos
relatos pascais, não é possível encontrar nenhum rastro de semelhantes
exaltações, resplen-dores, arrebatamentos...
Ao relatar como o Ressuscitado se conectava com os seus
amigos e amigas, o que nos assombra é sua discreta maneira de fazer-se próximo,
de surpreender-lhes em seus trajetos habituais, de lhes saudar com o “Shalon”
de cada dia, de apresentar-se sob as aparências mais comuns: um trabalhador de
parques e jardins, um forasteiro desinformado a quem é preciso atualizá-lo
sobre os últimos acontecimentos, um desconhecido ocioso que, a partir da margem
do mar, pergunta como foi a pescaria.
Mas há um dado constante nos relatos das Aparições do
Ressuscitado: Ele se faz presente no meio do fracasso, da dor, da tristeza, da
ferida..., e, aos poucos, vai iluminando a situação dramática de cada pessoa ou
do grupo, vai reconstruindo vidas despedaçadas, vai abrindo horizonte de
sentido e confirmando a missão de prolongar o “movimento de vida” iniciado na
Galiléia.
No relato pascal deste domingo, o evangelista João revela
que, à primeira vista, parece que a situação dos discípulos não tinha mudado;
eles tinham perdido sua condição de seguidores, tocaram fundo na decepção que a
morte lhes produziu e atrofiaram o sonho no qual acreditavam que estavam
fundadas suas vidas.
Novamente eles se encontram junto à praia e entre redes,
como no começo; o vazio, o abandono, a solidão, a escuridão da noite, a rotina
de um trabalho cansativo e ineficaz, dominam a paisagem do texto; novamente a
dureza de cada dia, em um cotidiano sem a presença de Jesus.
Mas, um “estranho”, muito cedo, da margem do lago, atreve-se
a provocá-los, fazendo uma pergunta onde mais doía: “moços, tendes alguma
coisa para comer?”
Diante de um “não” ríspido, o Ressuscitado faz um convite
ousado: “Lançai a rede à direita da barca e achareis”. É como se
dissesse: mudem de atitude, pesquem de maneira diferente, busquem outros
lugares, saiam da rotina, sejam criativos... Também para lançar a rede existem
dois lados: um lado conhecido e rotineiro; e outro lado alternativo e novo.
Revendo o passado, os discípulos reconheceram que estavam trabalhando no lado
errado, determinados pelo peso de uma tradição que não os deixava crescer.
Saber escutar os outros sempre pode ser útil. O pior é a
auto-suficiência que leva a acreditar que sabe tudo. Até o conselho de um
desconhecido pode ser princípio do êxito.
A nova consciência transforma tudo. A vida ganha a plenitude
da rede, torna-se vida em abundância.
Uma frugal refeição e a presença que se faz companhia foram
a estratégia encontrada por Jesus para retomar o movimento de vida que fora
bloqueado pela sua paixão; ao mesmo tempo, tornam-se o ambiente favorável para
confirmar a missão dos seus mais íntimos, sobretudo de Pedro, que passara por
uma profunda experiência de fracasso: negara a amizade com Jesus.
Há algumas brasas, que recordam aquela fogueira em torno da
qual, alguns dias antes, o velho pescador jurou não conhecer Jesus, negando-o
três vezes. Agora, junto ao fogo irmão, Jesus lavará com misericórdia a
fraqueza de Pedro, transformando para sempre seu barro frágil em pedra
fiel.
O relato deste domingo (3º da Pásco) nos revela que é do
meio do fracasso que pode brotar o impulso para uma adesão mais radical Àquele
que no fracasso “desceu” ao mais “inferior” (“infernos”) da condição humana, Àquele
que “se fez fracasso” para se fazer mais solidário com todos os fracassados da
história.
Assim aconteceu com Pedro e os seus companheiros. Foi no
contexto do fracasso (morte de Jesus, retorno à profissão de pescadores,
pescaria infrutífera...) que Pedro foi perguntado três vezes sobre o “amor”.
Foi também nesse contexto que Pedro teve chance de se deixar
reconstruir em sua identidade pela presença do Ressuscitado; também por três
vezes expressa a radicalidade de seu amor à pessoa de Jesus Cristo, que se faz
visível na identificação com Ele e na confirmação de sua missão: “apascenta
minhas ovelhas”.
As perguntas de Jesus a Pedro nos revelam que a cura das
feridas emocionais é, antes de tudo, um caminho novo que envolve afeto,
amizade, amor.
Antes, um Pedro valente o suficiente para cortar a orelha do
servo do Sumo Sacerdote com a espada, mas que perde a valentia em seguida, a
ponto de negar conhecer o próprio Jesus.
O Pedro que emerge deste contato terapêutico com o
Ressuscitado é um Pedro corajoso, decidido, mas também muito mais amoroso,
humano, pronto para exercer o “ministério do cuidado” do rebanho, confiado pelo
Ressuscitado.
Texto bíblico: Jo 21,1-19
Na oração: O encontro com o Ressuscitado possibilita
re-ler a vida, ressignificar fatos, “reci-clar” perdas e feridas, “processar”
fracassos..., para sair do “fatal ponto morto” e entrar no movimento expansi-vo
da Vida.
- Diante das crises, feridas, fracassos..., qual é a sua
tendência? Tentar deletá-los através do retorno ao cotidiano normótico (voltar
a pescar)? Ou oportunidade para um despertar a outras dimensões da vida, mais
ricas e ousadas?
É difícil encontrar nos últimos tempos um historiador
católico que tenha sido em seus livros inteiramente coerente e ufano de sua fé.
Na primeira metade do século passado houve um que preencheu esses requisitos.
Trata-se do americano William Thomas Walsh [foto acima].
Desse vibrante jornalista, escritor, romancista e
historiador diz o site Catholic Authors: “William nasceu em
Waterbury, Connecticut, em 11 de setembro de 1891, e ao longo dos anos
recebeu uma sólida educação católica que o inspiraria nos anos
posteriores com um desejo feroz de defendê-la”. Ao que acrescenta
a Wikepedia em inglês: “A obra de Walsh é escrita
de um ponto de vista declaradamente católico”.
Thomas Walsh era neto de irlandeses radicados nos Estados
Unidos e, como diz o site acima, “recebeu sólida educação católica”.
Muito precoce, já aos 16 anos, ainda no ginásio, tornou-se repórter e passou a
escrever para alguns jornais. Aos 19 anos, aluno da famosa universidade de
Yale, publicou seu primeiro livro, The Mirage of Many (A
Miragem de Muitos), alertando contra o socialismo que estava se infiltrando na
sociedade americana. Na mesma universidade estudou violino, fazendo-o com tanto
sucesso que se tornou regente de sua orquestra sinfônica.
Em 1913, aos 22 anos, recebeu em Yale o título de Bacharel
em Artes. No ano seguinte casou-se com Helen Gerard Sherwood, com quem teve
seis filhos, entre eles um homônimo que faleceu na infância, e uma filha que se
tornou religiosa.
Em 1918 lecionou na Hartford Public School, e
depois tornou-se chefe do departamento de inglês da Roxbury School por
quase 20 anos. Em 1933 tornou-se professor de inglês no Manhattanville
College of the Sacred Heart, em Nova York, no qual lecionou por 14 anos.
Foi em 1930, praticamente 20 anos depois de ter publicado
seu primeiro livro e seis anos antes do início da Guerra Civil espanhola, que
Walsh escreveu sua segunda obra: Isabella of Spain – The Last
Crusader (Isabel da Espanha – A Última Cruzada) [foto ao lado], a
primeira de uma série dedicada pelo autor ao Século de Ouro da Espanha. Seu
sucesso fez com que a obra fosse traduzida na Espanha, Alemanha e França.
Em 1935 publicou a documentadíssima obra Philip II[foto
abaixo], sobre esse grande rei da Espanha, recebendo elogios do London
Times e do New York Times, que escreveu: “O livro ’Felipe
II’ está tão completamente documentado, que deve permanecer como um retrato
calmo e realista de um homem e uma época, muitas vezes mais excitante para a
imaginação do que ficção, enquanto a suavidade de seu estilo literário
impecável oferece constante deleite.” E a poderosa mega-empresa Amazon diz
dessa obra em seu anúncio de venda: “O maior livro de Walsh ‒ sobre o
rei mais poderoso da Europa de todos os tempos. Mas, mais do que isso, é um
panorama de todo o século XVI. Abrange o nascimento do protestantismo e os
esforços secretos para minar a unidade católica, as guerras huguenotes na
França, o saque de Roma, o Grande Cerco, a Batalha de Lepanto, a Armada
Espanhola, o Concílio de Trento etc.. E, Henrique VIII, Maria Tudor, Isabel I,
São Pio V, Santa Teresa de Ávila, Santo Inácio de Loyola etc.”.
A sofreguidão de Walsh em resgatar de toda uma legenda negra
uma obra da Igreja levou-o a publicar em 1940 os Characters of the
Inquisition (Personagens da Inquisição) [foto abaixo] , a cujo
respeito diz a mesma Amazon: “Este livro é sobre a Inquisição,
particularmente a Inquisição Espanhola em oposição à Inquisição Romana nos anos
seguintes à Reconquista Espanhola. Walsh investiga a Inquisição, sua prática,
propósito, história e personalidades. A Inquisição não foi um festival de BDSM
[sadomasoquismo] sanguinário que enlouqueceu. Foi uma resposta racional à
infiltração da Igreja Católica por inimigos da fé cristã que fingiam ser
cristãos para perverter o culto, a doutrina, e enfraquecer a cristandade. Quem
quiser entender a Inquisição faria bem em ler Personagens e aprender sobre os
heróis da Fé, Cardeal Ximenes, Torquemada e outros que lutaram o bom combate
por Jesus Cristo e sua Igreja. Depois de ler este livro, você nunca mais olhará
a Inquisição do mesmo modo”.
Em 1943 William Thomas escreveu um de seus mais conhecidos
livros, sobre a grande mística e Doutora da Igreja Santa Teresa d’Ávila [foto
ao lado], porque: “Quando li uma tradução inglesa da Autobiografia
de Santa Teresa […] me perguntei se uma mulher na qual o divino e o humano se
encontraram de maneira tão surpreendente poderia realmente ter sido tão banal,
tão arrogante , tão conscientemente ‘literária’ como muitas vezes ela aparecia
naquelas páginas. Mais tarde, quando pude ler o texto em espanhol, descobri que
as qualidades irritantes não eram dela, mas de seu devoto tradutor”. Assim,
com o texto original espanhol em mãos, escreveu um livro baseado nas “minhas
próprias traduções, e tão literalmente quanto possível, mesmo com algum
sacrifício de eufonia, sem excluir os ocasionais lapsos de gramática,
referências errôneas e coloquialismos vigorosos de quem escreveu sem olhar para
o efeito livresco, mas no momento em que ela falava — rápida, concisa, de vez
em quando bastante desajeitada”.
No decurso do ano de 1946 ou 1947, Walsh tomou conhecimento
dos surpreendentes acontecimentos em Fátima, Portugal. Impressionou-se tanto
com eles, que resolveu deixar de lado todas as suas outras obras para ir àquele
país recolher material para um livro que contaria a história do que lá se
passou em 1917. Ele estava convencido de que nada é mais importante do que
propagar o que a Mãe de Deus pediu nessas aparições tão incompreendidas, e das
quais dependem o próprio futuro da humanidade. Entre muitas pessoas,
entrevistou no convento das Dorotéias a única testemunha viva dos
acontecimentos, a Irmã Maria das Dores (Lúcia), no que resultou o livro Nossa
Senhora de Fátima [foto abaixo], que foi fundamental para
trazer sua mensagem à atenção de milhões de católicos americanos.
Thomas Walsh escreveu algumas outras obras de vários
gêneros, que não tiveram tanta repercussão como as citadas.
O livro São Pedro Apóstolo[foto abaixo]
, de 1948, um ano antes de sua morte, foi o último que publicou. Dele diz o
site do Good Reads: “‘Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a
minha igreja’ (Mateus 16:18). Raramente em toda a História um mero homem foi
encarregado de uma responsabilidade tão terrível como a que foi delegada ao
Príncipe dos Apóstolos quando Nosso Senhor pronunciou essas palavras. E é a
história deste humilde pescador, tão curiosamente negligenciado pelos autores
modernos, que William Thomas Walsh conta de forma tão brilhante”.
William Thomas Walsh foi premiado com a Medalha Laetare pela
Universidade de Notre Dame em 1941, em reconhecimento pelo contributo de um
católico americano à Igreja e à nação; e em 1944 foi homenageado pelo governo
espanhol com a mais alta honra cultural da Espanha: A Cruz de Comendador da
Ordem Civil de Afonso, o Sábio. Walsh foi o primeiro escritor norte-americano a
receber tal honra. Muito escrupuloso, ele entrou em contato com o Departamento
de Estado para saber se um “leal cidadão dos Estados Unidos” poderia aceitar
tal honra de um governo estrangeiro.
Em 1947, enfrentando problemas de saúde, o escritor se
aposentou do ensino, concentrando-se em terminar seu romance Nossa
Senhora de Fátima. No ano seguinte, agravando-se muito seu estado de saúde,
foi internado no Hospital Santa Inês, em White Plains, no estado de Nova Yor,
onde haveria de morrer.
Diz a Imitação de Cristo que talis vita finis ita (tal
vida, tal morte). Tendo levado uma vida ilibada e sempre segundo os princípios
da Igreja, esse grande batalhador morreu como viveu: como verdadeiro filho da
Igreja.
Assim, quando lutava entre a vida e a morte, seu dileto
amigo, o Pe. William C. Mc Grath, responsável pelas visitas da Imagem Peregrina
de Nossa Senhora de Fátima, a levou a seu quarto. Wash olhou fixamente para a
bela Imagem, tendo com ela um profundo colóquio mudo.
No dia 22 de janeiro de 1949, com apenas 58 anos
incompletos, o grande batalhador faleceu na esperança de receber no Céu a
recompensa demasiadamente grande que Deus reserva aos seus eleitos.