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terça-feira, 3 de maio de 2022

ROMANCE EM TEMPO DE TERNURA – Cyro de Mattos



                             Romance em Tempo de Ternura

                                Cyro de Mattos

              

            Aníbal Machado estreou em 1944 com Vila Feliz, contos que seriam acrescidos de mais sete histórias inéditas, formando o volume de Histórias Reunidas (1959). Compendiado como autor de obras-primas com os contos “A Morte da Porta-Estandarte”, “O Iniciado do Vento” e “Viagem aos Seios de Duílio”, publicou ainda a coletânea Cadernos de João (1957), em que reúne breves meditações lírico-filosóficas e poemas em prosa. João Ternura (1965, rapsódia romanesca, teve publicação póstuma, após lendária gestação durante o período de quarenta anos.

             Na longa gestação do romance, cujo personagem tem uma alma impregnada de visões do mundo numa paisagem que não lhe é vulnerável, considera-se que o clima em que se cumpre viver pelo personagem conota no real coerência e naturalidade. Daí ser compreendido por particularidades pessoais onde pulsa a ternura. Na peregrinação para escrever o livro, contemporâneos que viveram no ambiente íntimo do criador de João Ternura   informaram que Aníbal Machado passou por momentos difíceis de sua jornada criativa, na iminência da conclusão ou engavetamento dos escritos.

Aníbal Machado ressalta na introdução de João Ternura:


 É possível que alguns leitores, de tanto ouvirem falar neste livro,

o recebam de pedras na mão. Especialmente os da geração mais

antiga. Tal seria a minha reação, se, em vez do autor, fosse aqui

o leitor (pág. 3).


            Valeu a pena a espera, tantas são as lições carregadas de humanismo que o herói terno-lírico transmite nas cenas fomentadas na rotina obediente ao seu próprio ritmo de contradições. Porque é simples, nascido cercado de desvelos, inquietações e expectativas, esse personagem solto na realidade aparentemente generosa constitui um grito lúcido contra a miséria da existência humana. Na pauta de egoísmo corriqueiro, em que   funciona a vida competitiva, o que ele vê não é um cenário desalentador, mas a necessidade que tem a natureza humana de seguir em frente, dentro de uma normalidade, que gera movimento e comportamento entranhados na rotina de expectativas e repressões.

             Através de gestos ingênuos, o personagem torna-se uma reflexão profunda da vida. Sem qualquer espécie de partidarismo ou pieguice, é cativante no itinerário das ocorrências que preenchem a biografia lírica cercada de intenções pequenas. Não se dá à reflexão em face de gestos desconcertantes, porque as contradições e dúvidas vêm desde os primeiros passos na infância quando o mundo adulto da incompreensão e insolência começa a existir até os momentos desagregadores das qualidades humanas.  Na cidade grande que esmaga, a vida mostra-se tal qual ela é, pulsa tendo como o principal os dias constituídos de indiferenças, incoerências que não fazem sentido diante do racional.

            Esse passageiro tranquilo, símbolo do vulgar ligado na ternura, “esse pobre João ternura que nas nuvens melhor ficaria, uma vez que sua simplicidade e inocência nem sempre encontravam resposta num mundo em que não conseguiu (e nem suportava) atingir a chamada idade da razão e das conveniências sociais que tão tristemente já alcançamos” (pág. 5). Ele não mede a vida com seus despropósitos porque a simplicidade é a tônica da sua mentira verdadeira, da qual emerge a vulgaridade das ideias, que nos sabem seres estranhos formados com a natureza das próprias conveniências. Até mesmo nas reações ingênuas diante da morte quando tinha a ilusão que poderia depois continuar de olhos abertos. Alguns anos em silêncio, sem direito à vida, a espiar com prazer a sucessão das novas gerações no Brasil progressista, com o seu crescimento material, a grandeza humana de seu povo, enfim, com os homens vivendo com simplicidade, cordiais nas atitudes para longe da exploração e do medo.

             Frágil e forte, o personagem do romancista mineiro acredita na inocência como uma coisa útil e, por ser terno, não se corrige com as decepções que a vida oferece.

           Aníbal Machado explica:

 E você pensa que ele vai se corrigir? Duvido. É possível que um dia ainda abra os olhos. Isso a poder de muita cabeçada. Precisa primeiro sofrer na pele, levar trancos. Mas esse diabinho parece que não sofre, nem toma conhecimento da realidade. Não analisa os fatos. Nem raciocina. Falta-lhe espírito objetivo... (pág.125). 

            Em sua maneira de contar com o mundo sem merecer inconformismos, vê-se que João Ternura acha tudo natural, a cegueira de lidar com a vida sem ver nela o sofrimento o absorve de tal maneira que suas relações com o cotidiano chegam a dar pena. Ele está sempre consciente de que entrou na vida inconsciente como qualquer um de nós. Não entrou nesta briga pensando em Dom Quixote, mas apenas trazendo como arma e bagagem uma maneira ingênua para sentir os seres humanos como agentes naturais das coisas que precisam ser alcançadas. Nessa visão desprevenida de que viver é rolar na vida com simplicidade, sem se importar com as agruras, manter com ele qualquer tipo de conversa que analise a realidade tal qual ela é não será proveitoso. Ele não pode entender, por exemplo, que há em cada esquina pelo menos meia dúzia de desgraçados precisando de socorro. Não consegue conceber o mundo como um nunca acabar de murros, com os fortes, em geral estúpidos, pisando nos fracos.

             Na escrita reveladora de candura, contradições e desconcertos, a fabulação sincopada em cada episódio sugere o ambiente necessário para revelar o conflito contado em determinadas passagens. Com isso quer traduzir a criatura humana em seus becos sem saída, prisões e medos.  Mostrá-la com a certeza de que quando se tem a natureza moldada com humildade a vida só pode ser vista no plano da realidade oposta à dos valores materiais,  não permitindo que se pise nela com a vontade de deter as coisas postas no mundo para satisfazer desejos e ambições.

              João Ternura nos faz refletir sobre a humanidade caminhando nas pegadas da distância de uns para com os outros, projetando-se tranquila, aparentemente generosa, na expressão feliz o rosto dá a entender da existência de uma realidade proveitosa. Como portador da brandura, esse personagem intrigante informa sobre o nosso gosto de apertar o nó na garganta, sem variar nosso apetite voraz  persistente de pender para o egoísmo, que vem de longe.

            O personagem lírico-vulgar resulta de inegável força criativa de autor experimentado, consistente em sua experiência de vida com bases humanísticas. Sabe valorizar sua mensagem pela atualidade vista nos gestos primitivos dos que se dizem civilizados, vivendo em ritmo tumultuado de hoje, cada vez mais intenso e veloz da cidade grande, “insone, cruel... maravilhosa ao longe, terrível ao perto. O texto que se move para a ingenuidade do personagem distante da realidade exterior, atinge momentos oníricos de rara beleza, de sonho sustentado na gravidade do diálogo difícil de ser formado nas zonas da morte onde tudo se dissolve.

             A economia vocabular, usada como uma constante para suportar o ritmo sugestivo da narrativa, a linguagem descontínua, composta de aforismos, artifícios, inversão de frases, acrobacias conscientes nas palavras, todas essas invenções formais com soluções só encontráveis na melhor ficção brasileira situam João Ternura num fluxo de beleza no qual se integram as fronteiras da poesia e do prosaico.

            Como adianta um escritor da época, não é exagero afirmar que em sua construção afetiva encontra-se aqui a síntese do comportamento literário de Aníbal Machado. A mesma síntese cristalizada na escrita de Histórias Reunidas ou Cadernos de João. Nesse livro póstumo do escritor mineiro, o excelente prosador sente-se como que à vontade. O pleno domínio da escrita poética novamente emerge do espírito sensível com sutilezas líricas, no plano de imagens o sonho circula saliente sob o ritmo que prende.  Ora acelerado, ora lento, irrompe nas passagens da prosa depurada com fragmentos, vozes e figuras de um mundo incompreensível que nos impinge viver como estranhos e assustados. Trata-se de texto com técnica renovadora do discurso literário, mostrado como o real transfigurado no literário passa a se identificar com a poesia imbricada na vida.

            Mas João Ternura não é apenas um texto com a forma apurada em sua grandeza técnica. Nas páginas de um discurso lírico bem construído, a vida pulsa com sentimentos que se mostram precisos nos momentos em que se desenham como achados felizes. É sentimento esteticamente realizado com sua mensagem forte formulada no diálogo aceso para iluminar o ser perdido na memória primitiva do tempo. O clima que se apreende no mundo singular de João Ternura muito se identifica com o espírito de seu criador. É como se o diálogo do personagem lírico-vulgar com a rotina das coisas não se esgotasse em si mesmo perante o lado incompreensível da vida. E fosse o grito lúcido do espírito tranquilo do próprio Aníbal Machado. Da razão penetrante e sentimento poético que se atraem e se unem para dizerem que o homem quando vive apoiado em padrão frágil de comportamento, imbuído de ternura, desligado da realidade exterior em seu lado cruel, não tem salvação para o pobre coitado, a vida deixa que se vá em sua clausura de alheamento até sucumbir acossado pela sua própria simplicidade.

             Ler essa fábula moderna, percorrer o texto rico de significados e significantes, é rever a figura de Aníbal Machado. O homem culto, sensível, atencioso, de bons préstimos. Durante anos influenciou geração de contemporâneos por meio de artigos, conferências, diálogos e sugestões. Como testemunham dois escritores de seu tempo, foi um escritor que compareceu à lide literária dotado de simplicidade, não se preocupando com o poder e a glória, não usando ressentimentos para ferir o talento dos companheiros de militância artística.

             Por ser criatura sem vaidades, cada vez mais rara entre os habitantes do país das letras, onde infelizmente circula o duvidoso como se fosse o verdadeiro, já podemos também dizer, como bem lembrou Carlos Drummond de Andrade, ao concluir a leitura do lendário livro, que ficamos sem saber se o criador de “João Ternura morreu efetivamente ou se é apenas uma de suas mágicas.”

 

REFERÊNCIAS

                        MACHADO, Aníbal. João Ternura, romance, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1965.

                      -----------------------------Histórias reunidas, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1959.

                      ------------------------Cadernos de João, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro,1957.

ANDRADE, Carlos Drummond de. “Balada em Prosa de Aníbal Machado”, in João Ternura, José Olympio Editora, 1957.

 

 * Cyro de Mattos é escritor premiado e publicado no exterior.

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segunda-feira, 2 de maio de 2022

ITABUNA CENTENÁRIA UM SONETO: Albérico Souza -Advertindo



Advertindo

Albérico Souza

 

Não temas se rebrama e se encapela

O mar da vida, assustador, feroz;

As naus da vida não velejam sós,

Se sopram ventos e se vem procela.

 

No além o Chefe dos poderes vela,

E a tempestade lhe obedece a voz;

Pois Ele ordena que ela passe e após,

Que frui bonança, o coração revela.

 

Sê forte e luta contra a vil fraqueza,

não sejas nunca da amargura presa.

Não tenhas medo, oh não fiques triste!

 

Levanta os olhos, fita o céu grandioso,

Enxuga o pranto, faz-te jubiloso,

E não te esqueças: o teu Deus existe.

 

(A CHAVE DA FELICIDADE E A SAÚDE MENTAL- Marcelo J. Fayard - Capítulo 11 - Emoções e enfermidades.)



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Agora - Direto da avenida Paulista. O Brasil acordou

domingo, 1 de maio de 2022

AO VIVO: PRESIDENTE BOLSONARO SE UNE A MANIFESTAÇÃO EM BRASÍLIA E FAZ PR...

PALAVRA DA SALVAÇÃO (263)



3º Domingo da Páscoa – 01/05/2022


Anúncio do Evangelho (Jo 21,1-19)

— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo João.

— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, Jesus apareceu de novo aos discípulos, à beira do mar de Tiberíades. A aparição foi assim: Estavam juntos Simão Pedro, Tomé, chamado Dídimo, Natanael de Caná da Galileia, os filhos de Zebedeu e outros dois discípulos de Jesus.

Simão Pedro disse a eles: “Eu vou pescar”. Eles disseram: “Também vamos contigo”.

Saíram e entraram na barca, mas não pescaram nada naquela noite. Já tinha amanhecido, e Jesus estava de pé na margem. Mas os discípulos não sabiam que era Jesus. Então Jesus disse: “Moços, tendes alguma coisa para comer?” Responderam: “Não”.

Jesus disse-lhes: “Lançai a rede à direita da barca, e achareis”. Lançaram pois a rede e não conseguiam puxá-la para fora, por causa da quantidade de peixes. Então, o discípulo a quem Jesus amava disse a Pedro: “É o Senhor!” Simão Pedro, ouvindo dizer que era o Senhor, vestiu sua roupa, pois estava nu, e atirou-se ao mar. Os outros discípulos vieram com a barca, arrastando a rede com os peixes. Na verdade, não estavam longe da terra, mas somente a cerca de cem metros. Logo que pisaram a terra, viram brasas acesas, com peixe em cima, e pão. Jesus disse-lhes: “Trazei alguns dos peixes que apanhastes”.

Então Simão Pedro subiu ao barco e arrastou a rede para a terra. Estava cheia de cento e cinquenta e três grandes peixes; e apesar de tantos peixes, a rede não se rompeu.

Jesus disse-lhes: “Vinde comer”. Nenhum dos discípulos se atrevia a perguntar quem era ele, pois sabiam que era o Senhor. Jesus aproximou-se, tomou o pão e distribuiu-o por eles. E fez a mesma coisa com o peixe.

Esta foi a terceira vez que Jesus, ressuscitado dos mortos, apareceu aos discípulos. Depois de comerem, Jesus perguntou a Simão Pedro: “Simão, filho de João, tu me amas mais do que estes?”

Pedro respondeu: “Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo”. Jesus disse: “Apascenta os meus cordeiros”. E disse de novo a Pedro: “Simão, filho de João, tu me amas?” Pedro disse: “Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo”. Jesus lhe disse: “Apascenta as minhas ovelhas”. Pela terceira vez, perguntou a Pedro: “Simão, filho de João, tu me amas?”

Pedro ficou triste, porque Jesus perguntou três vezes se ele o amava. Respondeu: “Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que eu te amo”. Jesus disse-lhe: “Apascenta as minhas ovelhas.

Em verdade, em verdade te digo: quando eras jovem, tu cingias e ias para onde querias. Quando fores velho, estenderás as mãos e outro te cingirá e te levará para onde não queres ir”. Jesus disse isso, significando com que morte Pedro iria glorificar a Deus. E acrescentou: “Segue-me”.

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

http://liturgia.cancaonova.com/pb/

 

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Ligue o vídeo abaixo, e acompanhe a reflexão do Pe. Donizete Ferreira, sacerdote da Comunidade Canção Nova:


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A Ressurreição revela sua força transformadora nos fracassos

 


Imagem: Sieger Koder

 

“Saíram e entraram na barca, mas não pescaram nada naquela noite” (Jo 21,3) 

vida é constituída de momentos de luta e de coragem, de sonhos e de esperança, de vitórias e de derrotas. Este é o material com o qual são construídas nossas histórias, pessoais e coletivas.

Todos nós já vivemos experiências de fracassos, quando tudo desmorona, quando tudo nos é tirado, quando perdemos o chão, quando parece que evapora tudo aquilo sobre o qual tínhamos investido todo o nosso amor e toda a nossa energia e criatividade.

Mas, no horizonte da Ressurreição, o fracasso tem seu lugar. Ele pode ser percebido como chance para crescimento ou amadurecimento, ou pode ser integrado à luz de outras experiências positivas. Aprendemos mais pelos nossos fracassos do que pelos nossos êxitos.

O fracasso pode ser, à luz da Ressurreição, des-velador da natureza do ser humano, que vai amadurecendo, superando o sentimento infantil de onipotência, descendo do pedestal de sua soberba para tornar-se mais humano, mais amoroso, mais confiante... Os fracassos podem se revelar como ocasião privilegiada para ativar outros recursos humanos que não tiveram chance de se expressarem.

Integrar os fracassos significa assumir as perdas ou carências que aparecem como uma negação de vida, mas que contém potencial de nova vida, de crescimento, de maturação pessoal. Em definitiva, de criativida-de humana, base da evolução pessoal e social.

Em nosso contexto social, o fracasso é vivido como uma perda de prestígio e poder. Mas se o situamos no horizonte da Ressurreição, ele pode ser elaborado saudavelmente e, então, poderemos descobrir que o fracasso pode ser fonte de fecundidade. A Ressurreição nos ajuda a re-siginificar, a re-ler, a re-interpretar todos os nossos dramas, crises, feridas, fracassos... Tudo é acolhido, tudo é integrado, tudo é mobilizado para dar um novo passo em direção a um novo futuro de vida.

Há um relato que sempre nos impacta muito e que aparece no capítulo 21 do evangelho de João. Trata-se da aparição do Ressuscitado aos discípulos no lago da Galiléia.

Normalmente nosso imaginário concebe a Ressurreição como uma grande “apoteose”; mas, se algo está ausente nas aparições do Ressuscitado, tal como os evangelhos nos relatam, é precisamente a apoteose.

O dicionário Houaiss da língua portuguesa a define como o ápice, o momento mais importante de um acontecimento, o apogeu, a glorificação, o júbilo, o entusiasmo, o cume... Mas, por mais que busquemos algo disso nos relatos pascais, não é possível encontrar nenhum rastro de semelhantes exaltações, resplen-dores, arrebatamentos...

Ao relatar como o Ressuscitado se conectava com os seus amigos e amigas, o que nos assombra é sua discreta maneira de fazer-se próximo, de surpreender-lhes em seus trajetos habituais, de lhes saudar com o “Shalon” de cada dia, de apresentar-se sob as aparências mais comuns: um trabalhador de parques e jardins, um forasteiro desinformado a quem é preciso atualizá-lo sobre os últimos acontecimentos, um desconhecido ocioso que, a partir da margem do mar, pergunta como foi a pescaria.

Mas há um dado constante nos relatos das Aparições do Ressuscitado: Ele se faz presente no meio do fracasso, da dor, da tristeza, da ferida..., e, aos poucos, vai iluminando a situação dramática de cada pessoa ou do grupo, vai reconstruindo vidas despedaçadas, vai abrindo horizonte de sentido e confirmando a missão de prolongar o “movimento de vida” iniciado na Galiléia.

No relato pascal deste domingo, o evangelista João revela que, à primeira vista, parece que a situação dos discípulos não tinha mudado; eles tinham perdido sua condição de seguidores, tocaram fundo na decepção que a morte lhes produziu e atrofiaram o sonho no qual acreditavam que estavam fundadas suas vidas.

Novamente eles se encontram junto à praia e entre redes, como no começo; o vazio, o abandono, a solidão, a escuridão da noite, a rotina de um trabalho cansativo e ineficaz, dominam a paisagem do texto; novamente a dureza de cada dia, em um cotidiano sem a presença de Jesus.

Mas, um “estranho”, muito cedo, da margem do lago, atreve-se a provocá-los, fazendo uma pergunta onde mais doía: “moços, tendes alguma coisa para comer?”

Diante de um “não” ríspido, o Ressuscitado faz um convite ousado: “Lançai a rede à direita da barca e achareis”. É como se dissesse: mudem de atitude, pesquem de maneira diferente, busquem outros lugares, saiam da rotina, sejam criativos... Também para lançar a rede existem dois lados: um lado conhecido e rotineiro; e outro lado alternativo e novo. Revendo o passado, os discípulos reconheceram que estavam trabalhando no lado errado, determinados pelo peso de uma tradição que não os deixava crescer.

Saber escutar os outros sempre pode ser útil. O pior é a auto-suficiência que leva a acreditar que sabe tudo. Até o conselho de um desconhecido pode ser princípio do êxito.

A nova consciência transforma tudo. A vida ganha a plenitude da rede, torna-se vida em abundância.

Uma frugal refeição e a presença que se faz companhia foram a estratégia encontrada por Jesus para retomar o movimento de vida que fora bloqueado pela sua paixão; ao mesmo tempo, tornam-se o ambiente favorável para confirmar a missão dos seus mais íntimos, sobretudo de Pedro, que passara por uma profunda experiência de fracasso: negara a amizade com Jesus.

Há algumas brasas, que recordam aquela fogueira em torno da qual, alguns dias antes, o velho pescador jurou não conhecer Jesus, negando-o três vezes. Agora, junto ao fogo irmão, Jesus lavará com misericórdia a fraqueza de Pedro, transformando para sempre seu barro frágil em pedra fiel. 

O relato deste domingo (3º da Pásco) nos revela que é do meio do fracasso que pode brotar o impulso para uma adesão mais radical Àquele que no fracasso “desceu” ao mais “inferior” (“infernos”) da condição humana, Àquele que “se fez fracasso” para se fazer mais solidário com todos os fracassados da história.

Assim aconteceu com Pedro e os seus companheiros. Foi no contexto do fracasso (morte de Jesus, retorno à profissão de pescadores, pescaria infrutífera...) que Pedro foi perguntado três vezes sobre o “amor”.

Foi também nesse contexto que Pedro teve chance de se deixar reconstruir em sua identidade pela presença do Ressuscitado; também por três vezes expressa a radicalidade de seu amor à pessoa de Jesus Cristo, que se faz visível na identificação com Ele e na confirmação de sua missão: “apascenta minhas ovelhas”.

As perguntas de Jesus a Pedro nos revelam que a cura das feridas emocionais é, antes de tudo, um caminho novo que envolve afeto, amizade, amor.

Antes, um Pedro valente o suficiente para cortar a orelha do servo do Sumo Sacerdote com a espada, mas que perde a valentia em seguida, a ponto de negar conhecer o próprio Jesus.

O Pedro que emerge deste contato terapêutico com o Ressuscitado é um Pedro corajoso, decidido, mas também muito mais amoroso, humano, pronto para exercer o “ministério do cuidado” do rebanho, confiado pelo Ressuscitado. 

Texto bíblico:  Jo 21,1-19

Na oração: O encontro com o Ressuscitado possibilita re-ler a vida, ressignificar fatos, “reci-clar” perdas e feridas, “processar” fracassos..., para sair do “fatal ponto morto” e entrar no movimento expansi-vo da Vida.

- Diante das crises, feridas, fracassos..., qual é a sua tendência? Tentar deletá-los através do retorno ao cotidiano normótico (voltar a pescar)? Ou oportunidade para um despertar a outras dimensões da vida, mais ricas e ousadas?


Pe. Adroaldo Palaoro sj

https://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/2565-a-ressurreicao-revela-sua-forca-transformadora-nos-fracassos

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quinta-feira, 28 de abril de 2022

WILLIAM THOMAS WALSH — Escritor e Historiador Genuinamente Católico

 


Plinio Maria Solimeo

É difícil encontrar nos últimos tempos um historiador católico que tenha sido em seus livros inteiramente coerente e ufano de sua fé. Na primeira metade do século passado houve um que preencheu esses requisitos. Trata-se do americano William Thomas Walsh [foto acima].

Desse vibrante jornalista, escritor, romancista e historiador diz o site Catholic Authors: “William nasceu em Waterbury, Connecticut, em 11 de setembro de 1891, e ao longo dos anos recebeu uma sólida educação católica que o inspiraria nos anos posteriores com um desejo feroz de defendê-la”. Ao que acrescenta a Wikepedia em inglês: “A obra de Walsh é escrita de um ponto de vista declaradamente católico”.

Thomas Walsh era neto de irlandeses radicados nos Estados Unidos e, como diz o site acima, “recebeu sólida educação católica”. Muito precoce, já aos 16 anos, ainda no ginásio, tornou-se repórter e passou a escrever para alguns jornais. Aos 19 anos, aluno da famosa universidade de Yale, publicou seu primeiro livro, The Mirage of Many (A Miragem de Muitos), alertando contra o socialismo que estava se infiltrando na sociedade americana. Na mesma universidade estudou violino, fazendo-o com tanto sucesso que se tornou regente de sua orquestra sinfônica.

Em 1913, aos 22 anos, recebeu em Yale o título de Bacharel em Artes. No ano seguinte casou-se com Helen Gerard Sherwood, com quem teve seis filhos, entre eles um homônimo que faleceu na infância, e uma filha que se tornou religiosa.

Em 1918 lecionou na Hartford Public School, e depois tornou-se chefe do departamento de inglês da Roxbury School por quase 20 anos. Em 1933 tornou-se professor de inglês no Manhattanville College of the Sacred Heart, em Nova York, no qual lecionou por 14 anos.


Foi em 1930, praticamente 20 anos depois de ter publicado seu primeiro livro e seis anos antes do início da Guerra Civil espanhola, que Walsh escreveu sua segunda obra: Isabella of Spain – The Last Crusader (Isabel da Espanha – A Última Cruzada) [foto ao lado], a primeira de uma série dedicada pelo autor ao Século de Ouro da Espanha. Seu sucesso fez com que a obra fosse traduzida na Espanha, Alemanha e França.

Em 1935 publicou a documentadíssima obra Philip II [foto abaixo], sobre esse grande rei da Espanha, recebendo elogios do London Times e do New York Times, que escreveu: “O livro ’Felipe II’ está tão completamente documentado, que deve permanecer como um retrato calmo e realista de um homem e uma época, muitas vezes mais excitante para a imaginação do que ficção, enquanto a suavidade de seu estilo literário impecável oferece constante deleite.” E a poderosa mega-empresa Amazon diz dessa obra em seu anúncio de venda: “O maior livro de Walsh ‒ sobre o rei mais poderoso da Europa de todos os tempos. Mas, mais do que isso, é um panorama de todo o século XVI. Abrange o nascimento do protestantismo e os esforços secretos para minar a unidade católica, as guerras huguenotes na França, o saque de Roma, o Grande Cerco, a Batalha de Lepanto, a Armada Espanhola, o Concílio de Trento etc.. E, Henrique VIII, Maria Tudor, Isabel I, São Pio V, Santa Teresa de Ávila, Santo Inácio de Loyola etc.”.



A sofreguidão de Walsh em resgatar de toda uma legenda negra uma obra da Igreja levou-o a publicar em 1940 os Characters of the Inquisition (Personagens da Inquisição) [foto abaixo] , a cujo respeito diz a mesma Amazon: “Este livro é sobre a Inquisição, particularmente a Inquisição Espanhola em oposição à Inquisição Romana nos anos seguintes à Reconquista Espanhola. Walsh investiga a Inquisição, sua prática, propósito, história e personalidades. A Inquisição não foi um festival de BDSM [sadomasoquismo] sanguinário que enlouqueceu. Foi uma resposta racional à infiltração da Igreja Católica por inimigos da fé cristã que fingiam ser cristãos para perverter o culto, a doutrina, e enfraquecer a cristandade. Quem quiser entender a Inquisição faria bem em ler Personagens e aprender sobre os heróis da Fé, Cardeal Ximenes, Torquemada e outros que lutaram o bom combate por Jesus Cristo e sua Igreja. Depois de ler este livro, você nunca mais olhará a Inquisição do mesmo modo”.



Em 1943 William Thomas escreveu um de seus mais conhecidos livros, sobre a grande mística e Doutora da Igreja Santa Teresa d’Ávila [foto ao lado], porque: “Quando li uma tradução inglesa da Autobiografia de Santa Teresa […] me perguntei se uma mulher na qual o divino e o humano se encontraram de maneira tão surpreendente poderia realmente ter sido tão banal, tão arrogante , tão conscientemente ‘literária’ como muitas vezes ela aparecia naquelas páginas. Mais tarde, quando pude ler o texto em espanhol, descobri que as qualidades irritantes não eram dela, mas de seu devoto tradutor”. Assim, com o texto original espanhol em mãos, escreveu um livro baseado nas “minhas próprias traduções, e tão literalmente quanto possível, mesmo com algum sacrifício de eufonia, sem excluir os ocasionais lapsos de gramática, referências errôneas e coloquialismos vigorosos de quem escreveu sem olhar para o efeito livresco, mas no momento em que ela falava — rápida, concisa, de vez em quando bastante desajeitada”.



No decurso do ano de 1946 ou 1947, Walsh tomou conhecimento dos surpreendentes acontecimentos em Fátima, Portugal. Impressionou-se tanto com eles, que resolveu deixar de lado todas as suas outras obras para ir àquele país recolher material para um livro que contaria a história do que lá se passou em 1917. Ele estava convencido de que nada é mais importante do que propagar o que a Mãe de Deus pediu nessas aparições tão incompreendidas, e das quais dependem o próprio futuro da humanidade. Entre muitas pessoas, entrevistou no convento das Dorotéias a única testemunha viva dos acontecimentos, a Irmã Maria das Dores (Lúcia), no que resultou o livro Nossa Senhora de Fátima [foto abaixo], que foi fundamental para trazer sua mensagem à atenção de milhões de católicos americanos.



Thomas Walsh escreveu algumas outras obras de vários gêneros, que não tiveram tanta repercussão como as citadas.

O livro São Pedro Apóstolo [foto abaixo] , de 1948, um ano antes de sua morte, foi o último que publicou. Dele diz o site do Good Reads: “‘Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja’ (Mateus 16:18). Raramente em toda a História um mero homem foi encarregado de uma responsabilidade tão terrível como a que foi delegada ao Príncipe dos Apóstolos quando Nosso Senhor pronunciou essas palavras. E é a história deste humilde pescador, tão curiosamente negligenciado pelos autores modernos, que William Thomas Walsh conta de forma tão brilhante”.



William Thomas Walsh foi premiado com a Medalha Laetare pela Universidade de Notre Dame em 1941, em reconhecimento pelo contributo de um católico americano à Igreja e à nação; e em 1944 foi homenageado pelo governo espanhol com a mais alta honra cultural da Espanha: A Cruz de Comendador da Ordem Civil de Afonso, o Sábio. Walsh foi o primeiro escritor norte-americano a receber tal honra. Muito escrupuloso, ele entrou em contato com o Departamento de Estado para saber se um “leal cidadão dos Estados Unidos” poderia aceitar tal honra de um governo estrangeiro.

Em 1947, enfrentando problemas de saúde, o escritor se aposentou do ensino, concentrando-se em terminar seu romance Nossa Senhora de Fátima. No ano seguinte, agravando-se muito seu estado de saúde, foi internado no Hospital Santa Inês, em White Plains, no estado de Nova Yor, onde haveria de morrer.

Diz a Imitação de Cristo que talis vita finis ita (tal vida, tal morte). Tendo levado uma vida ilibada e sempre segundo os princípios da Igreja, esse grande batalhador morreu como viveu: como verdadeiro filho da Igreja.

Assim, quando lutava entre a vida e a morte, seu dileto amigo, o Pe. William C. Mc Grath, responsável pelas visitas da Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Fátima, a levou a seu quarto. Wash olhou fixamente para a bela Imagem, tendo com ela um profundo colóquio mudo.

No dia 22 de janeiro de 1949, com apenas 58 anos incompletos, o grande batalhador faleceu na esperança de receber no Céu a recompensa demasiadamente grande que Deus reserva aos seus eleitos.

 

https://www.abim.inf.br/william-thomas-walsh-escritor-e-historiador-genuinamente-catolico/

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