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sexta-feira, 1 de outubro de 2021

HOJE, 1/10 É DIA DE: Santa Terezinha do Menino Jesus

 


Santa Teresinha do Menino Jesus

 

A vida da Santa Teresinha do Menino Jesus marca na História da Igreja uma nova forma de entregar-se à religiosidade. No lugar do medo do "Deus duro e vingador", ela coloca o amor puro e total a Jesus, amor puro, infantil e total, como deixaria registrado nos livros "Infância Espiritual" e "História de uma alma".

Teresinha nasceu na França, em 02 de janeiro de 1873. Foi batizada com o nome de Maria Francisca. Nasceu numa família muito religiosa. Aos quinze anos conseguiu permissão para entrar no Carmelo, em Lisieux, concedida especial e pessoalmente pelo Papa Leão XIII.

Sua obra não frutificou pela ação evangelizadora ou atividade caritativa, mas sim em oração, sacrifícios, provações, penitências e imolações, santificando o seu cotidiano enquanto carmelita.

Teresinha teve seus últimos anos consumidos pela terrível tuberculose que, no entanto, não venceu sua paciência com os desígnios do Supremo. Morreu em primeiro de outubro de 1897 com vinte e quatro anos, depois de prometer uma chuva de rosas sobre a Terra quando expirasse. Essa chuva ainda cai sobre nós, em forma de uma quantidade incalculável de graças e milagres alcançados através de sua intervenção em favor de seus devotos.

O papa Pio XI a chamou de "Padroeira especial de todos os missionários, homens e mulheres, e das missões existentes em todo o universo".

 

(Recebi via WhatsApp – Autor não mencionado)

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quinta-feira, 30 de setembro de 2021

ROMANCE DO NEGRO EM TORTO ARADO - Cyro de Mattos

                 Romance do negro em torto arado 

Cyro de Mattos*

                    

           Romance do baiano Itamar Vieira Junior, Torto arado (2019) conquistou o prêmio Internacional Leya, um dos mais prestigiados em língua portuguesa, que tornou o autor em um fenômeno da literatura contemporânea. Graças à láurea merecida foi conduzido para além das fronteiras nacionais. O prêmio conquistado deu fama ao autor que há pouco tempo só tinha publicado dois livros de contos: Os dias e Oração do carrasco. O romance rendeu ainda a Itamar Vieira Junior os cobiçados prêmios Jabuti e Oceanos de Literatura, o que expandiu ainda mais o seu nome de romancista e impôs a tradução da sua obra em outros idiomas. 

      Romance de narrativa segura, que encanta, dotado de uma uniformidade em sua construção estética que satisfaz, apresenta-se com dois planos no enfrentamento do tema, um de natureza histórica conectado à solidariedade da realidade social e o outro nas relações com o mágico, adotado por alguns de seus personagens, em convívio atemporal com os espíritos conhecidos como encantados. Intenso na carga dramática prende na medida em que vai desenvolvendo a trama vivida por Zeca Chapéu Grande, mãe Salu, as filhas Belonísia e Bibiana, vó Donana, e outras personagens paralelas, como Crispina, Crispiniana, Tobias, Severo, Domingas, Maria Cabocla, compadre Saturnino, o gerente Sutério, Miúda e até mesmo pelos encantados Velho Nagô e Santa Rita Pesqueira.

          O tema do romance atravessa o Brasil mascarado em outra face da escravidão do negro, esse desgraçado vivente que um dia estupidamente foi retirado de África para fornecer mão de obra gratuita nos longes de outras terras.  O discurso do baiano Itamar Vieira Junior motiva-se assim com o tema que envolve o descendente desse negro esquecido depois da abolição da escravatura. Quando então soube de outro tipo de escravidão, imposto no trabalho sem paga pelo dono da terra.

           Chegando à   fazenda, depois de vagar, vulnerável por todos os lados, recebia de favor a morada de adobe e vara trançada, de fragilidade visível para que não durasse com o uso e fosse substituída nos mesmos moldes pelos descendentes da mão servil e gratuita. No jogo que só favorecia ao dono da terra, não era permitido ao trabalhador que fosse construída uma casa de tijolo.  Na morada precária, sem água encanada e energia elétrica, exigia-se de seu morador que trabalhasse a terra sem receber remuneração e tudo que produzisse nela por mãos calosas, na lavoura de duração perene, era destinado ao dono da fazenda. 

           Difícil que em ambiente de tamanha dificuldade o trabalhador arranjasse tempo para zelar de sua lavoura de pouca duração na várzea quando estava seca, isso era tarefa para a mulher e os filhos. O quintal da casa era também onde a mulher plantava a abóbora, a batata-doce, o quiabo, o tomate e o alface. O alimento sempre era escasso nos períodos de seca prolongada ou de chuva em abundância. Nessas horas de mais vexame, recorria-se ao parente e ao vizinho para arranjar algo que abrandasse o duro passadio.  No estio demorado, o trabalhador alimentava-se com beiju de jatobá, peixe pequeno pescado no rio empoçado. Nas cheias, em algum braço do rio ou lagoa que se formava na várzea, pescava-se o peixe grande, o que até certo ponto aliviava.

           Torto arado conta a história das irmãs Bibiana e Belonísia, que ainda pré-adolescentes sofrem o acidente com a faca de cabo de marfim e lâmina que brilha como espelho, escondida entre as roupas velhas da avó Donana, na mala debaixo da cama.  É quando a aguçada curiosidade das irmãs força que descubram o que existe guardado na mala debaixo da cama, fazendo que se vejam surpresas diante da faca de intenso brilho na lâmina e com o cabo de marfim. Ocorre o acidente em que uma delas tem a língua cortada enquanto a outra apenas fica ferida. A irmã que ficou sem a língua só será revelada no final do romance, recurso que o autor usa com habilidade na técnica de sustentar o suspense para aprofundar a narrativa na trama, em cujos atalhos de passagens impressionantes desenvolvem-se outros acontecimentos arrojados vividos pelas duas personagens. 

      Com o acidente, uma irmã fica como responsável na transmissão   dos sentimentos da outra, do significado dos dizeres em silêncio provocados pela espontaneidade do riso ou desconforto da tristeza. Na situação que sempre existia com a compreensão recíproca, numa convivência de gestos expressos com o sentimento de amor fraterno, como antes nunca deixou de existir. Mais unidas estavam agora, apreensivas, até certo ponto cautelosas, uma pressentindo o que se passava no coração da outra, sem poder expressar suas reações diante dos seres e das coisas.    

            Aparece em suas vidas o primo Severo para separá-las nos sentimentos bons que existiam entre elas, naquela irmandade formada pela cadência do viver desprovida de animosidade. As chamas do amor surgem para aquecer de repente o coração de cada uma, as pulsações agora são causadas pelas visões que as inquietam, originadas pela jovialidade do primo. A desconfiança e o ciúme são mazelas que nascem dessas chamas para separá-las no rancor, que não souberam antes em qualquer circunstância.   O diálogo nutrido pelo afeto já não se faz disponível pela alma que teme ser ofendida pela vitória do amor da outra, a que não ficou emudecida com o acidente provocado pela faca de cabo de marfim.  Somente no final é também revelado o mistério que envolve a faca de lâmina brilhante, durante tanto tempo guardando o segredo de algo fatal por Donana, que reage zangada quando pressente que o instrumento afiado possa ser descoberto por algum curioso.           

           Bibiana faz-se agricultora com o passar do tempo enquanto a irmã Belonísia acompanha o marido quando ele se afasta da fazenda Água Negra em busca de melhores dias na cidade. É lá, em chão estranho, de desafio e dificuldade, que ela consegue se formar em professora.  De volta às origens tempos depois, o marido entrega-se à causa de conscientização dos que trabalham na terra com as mãos incansáveis, recebendo no final como recompensa o descanso no cemitério Viração. E dessa  maneira, conscientes do  discurso solidário, possam se libertar do jugo imposto na rotina do trabalho sem paga,  que exaure, torna a vida sofrida, inconcebível, sugada na lavra até a derradeira gota de suor, que só encontra sossego no sumidouro de uma cova rasa.  Severo é assassinado. Belonísia decide retomar a luta do marido para a libertação dos que vivem submissos à canga do dono da terra, o único que tira proveito do trabalho exercido em condição desumana.      

            Em Torto arado, romance audacioso na denúncia social, como Beira rio beira vida, do piauiense Assis Brasil, o autor não se omite quando é para dar seu testemunho crítico sobre a questão social da terra usada em níveis desumanos. Faz ecoar de suas páginas o grito pungente riscado nas dores de uma realidade soprada pelo vento de amanhecer áspero, que só encontra alento no escape para uma hora mais branda vivida no plano espiritual com os encantados. 

       No final de romance tão belo quanto revelador da vida encalhada numa estrutura arcaica, a personagem Salu deixa seu grito ecoar contra os donos da terra e o uso dela de maneira desumana, num misto de coragem assombrosa e grandeza humana:

 

         “Vocês podem até me arrancar dela como uma erva ruim, mas nunca irão arrancar a terra de mim.” (página 230, edição 2020)

 

             Para esse romance de incursão intimista e social na realidade rural brasileira, motivado pela gente do quilombo, a mensagem de uma épica contemporânea é encerrada com o pensamento reflexivo de afirmação lúcida.

                                  

        “Sobre a terra, há de viver sempre o mais forte.”  (página 262,   

                                              ano 2020)


         À afirmação de mensagem poderosa pode ser adicionada a bandeira do sentimento do amor, que é de fato o mais forte, e o da liberdade, o mais valoroso. 

 

 Referência

 JUNIOR, Itamar Vieira, Torto arado, romance, Prêmios Leya, Jabuti e Oceanos de Literatura, Editora Todavia, São Paulo, 2020.


 


*Cyro de Mattos
é autor de 80 livros, de diversos gêneros. É também publicado em Portugal, Itália, França, Espanha, Alemanha, Dinamarca, Rússia e Estados Unidos.  Membro da Academia de Letras da Bahia, Pen Clube do Brasil e Instituto Geográfico e Histórico da Bahia.  Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México.

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quarta-feira, 29 de setembro de 2021

NA GUERRA DA CORÉIA, O MILAGRE DE SÃO MIGUEL ARCANJO



Neste dia 29 de setembro, a Santa Igreja Católica celebra o dia de São Miguel Arcanjo. Em memória dessa efeméride, reproduzimos uma história impressionante ocorrida durante a Guerra da Coréia (1950).

Trata-se de uma verdadeira história que se passou com um marine (fuzileiro naval norte-americano), ferido naquela guerra.

Escrevendo para sua mãe, ele lhe contou sobre um fascinante encontro que teve durante a guerra. O Padre Walter Muldy, um capelão da Marinha que conversou com o jovem fuzileiro e sua mãe, como com o comandante do grupo de combate, sempre confirmou a veracidade desta história prodigiosa. Nós a ouvimos de uma pessoa que leu a carta original e relata a história em todos seus detalhes e o faz em primeira pessoa, para melhor transmitir algo do impacto que o fato deve ter causado quando pela primeira vez escrita pelo filho à sua mãe.

"Querida mamãe:

Estou escrevendo à senhora de uma cama de hospital.


Mãe não se preocupe, eu estou bem. Fui ferido, mas o médico disse que logo estarei de pé. Mas, não é sobre isso que preciso escrever-lhe. Algo aconteceu comigo que não ouso contar a ninguém com medo de que não acreditem. Mas, preciso contar a senhora — única pessoa em quem posso confiar, embora mesmo a senhora possa julgar como inacreditável.

A senhora se recorda da oração a São Miguel que me ensinou a rezar, quando eu era pequeno? “Miguel, Miguel da manhã…*” Antes de partir para a Coréia, a senhora recomendou com insistência que eu me lembrasse dessa oração antes de qualquer confronto com o inimigo. Mas, realmente, mãe, a senhora não precisaria me ter lembrado isso. Eu sempre a rezei e quando cheguei à Coréia, frequentemente eu a rezava, várias vezes durante o dia, enquanto marchava ou descansava.

Certo dia, fomos convocados para fazer um reconhecimento em busca de guerrilheiros comunistas.

Era um dia em que fazia muito frio. Quando já havia caminhado um tanto, percebi outro soldado andando ao meu lado e olhei para ver quem era. Era um rapaz alto, um fuzileiro alto de quase 2 metros e constituição forte. Estranho, mas eu não o conhecia e pensei que nunca o havia visto em minha unidade. Fiquei satisfeito por ter companhia e quebrei o silencio entre nós.

— “Faz frio, hoje, não?” Comecei então a rir baixinho, porque de repente me pareceu um absurdo conversar sobre o clima, quando estávamos avançando para enfrentar o inimigo!

Ele também sorriu.

— “Acho que conheço todo mundo em minha unidade, mas nunca o vi antes”.

— “Não”, ele concordou. “Eu acabo de chegar, meu nome é Miguel!”

— “Verdade? É também o meu nome”.

— “Eu sei. Miguel, Miguel da manhã…”

Mamãe; fiquei realmente surpreso que ele soubesse assim minha oração, mas eu havia falado dela a tantos rapazes, que supus que o recém-chegado ouvira falar disso através de algum deles. Na verdade, isso se tornara tão conhecido, que alguns de meus companheiros me chamavam de “São Miguel”.

Então, de repente, Miguel disse:

— “Vamos ter problemas à frente”.

Surpreendi-me, pois não podia perceber como ele sabia disso. Eu respirava fortemente, por causa da marcha e meu hálito enchia o ar frio com densas nuvens de neblina. Miguel parecia estar em ótima forma, porque eu não percebera sua respiração, até então. Nesse momento, começou a nevar tão fortemente, que logo não mais pude ouvir ou ver o restante da minha unidade. Fiquei um pouco assustado e gritei:

— Miguel !!”

Senti, então, sua forte mão em meu ombro e ouvi sua voz:

— “Vai clarear logo”.

De repente, a nevasca parou. E então, a uma pequena distância de nós, assustadoramente reais, estavam sete guerrilheiros comunistas, eu diria quase cômicos com seus chapéus típicos. Mas não havia nenhuma graça em suas atitudes: suas armas estavam engatilhadas e apontadas exatamente em nossa direção.

— “Para baixo, Miguel”, gritei, e mergulhei para me proteger.

No chão, olhei para cima e vi Miguel ainda em pé, paralisado, e achei que era por medo, como julguei naquele momento. Balas espocavam de todos os lados e não havia lugar que os comunistas não atingissem a tão curta distância.

Eu pulei para fazê-lo deitar-se e foi então que fui ferido. Senti a dor como uma forte queimadura em meu peito e desmaiei. Enquanto ia perdendo os sentidos, ainda me recordo que pensei: “devo estar morrendo”.


Alguém estava me erguendo, um braço forte me segurava e me colocava com cuidado sobre a neve. Apesar do choque, abri os olhos e o sol pareceu penetrar neles. Miguel ainda estava em pé e havia um enorme clarão em sua face. De repente, abrasou-se como o sol, um resplendor o rodeava intensamente, como as asas de um anjo. Quando perdi a consciência, ainda vi que Miguel segurava uma espada em sua mão e que ela faiscava como milhares de luzes.

Mais tarde, quando recobrei os sentidos, meus companheiros vieram me ver, com o sargento, que me perguntou:

— “Como você fez aquilo, rapaz?”

— “Onde está o Miguel?” O sargento pareceu perplexo. “Miguel, o fuzileiro alto, que andou comigo até o último momento. Eu o vi, quando desmaiei”

— O sargento disse gravemente: “Você é o único Miguel em minha unidade. Posso pesquisar entre todos os demais soldados, mas só há um Miguel, que é você. Ademais, você não estava caminhando com ninguém. Eu o observava, porque você se distanciou muito de nós, e fiquei preocupado. Agora, conte-me, como você fez aquilo?”

Era a segunda vez que me fazia essa pergunta, e eu me irritei.

— “O que eu fiz?”

— “Como você enfrentou e conseguiu matar aqueles sete guerrilheiros comunistas?”

— “O quê?”

— “Rapaz, os guerrilheiros estavam estendidos ao seu redor, cada um morto por um golpe de espada”.

Esta é, mamãe, a minha história. Pode ter sido o ferimento, o clarão do sol ou o frio. Eu não sei, mamãe, mas de uma coisa estou certo: ISTO REALMENTE ACONTECEU! …

Com todo amor de seu filho Miguel.


* Eis o texto da oração (em inglês e a tradução):


Michael Michael of the morning
Fresh chord of dawn adorning
Keep me safe today
And in time of temptation
Drive the devil away.
Amen!

Miguel, Miguel da manhã,
Canção suave da aurora ornada
No dia de hoje me guarde em segurança
e na hora da tentação
leve o demônio embora.

Amém!

___________

Fonte: Revista da TFP americana Cruzade, Novembro/dezembro de 2002.

Saint Michael the Archangel Saves U.S. Combat Marine – TFP Student Action

 https://www.abim.inf.br/na-guerra-da-coreia-o-milagre-de-sao-miguel-arcanjo/

 

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29 DE SETEMBRO - SÃO MIGUEL, SÃO GABRIEL E SÃO RAFAEL

São Miguel, São Gabriel e São Rafael

 

A Igreja unificou a celebração dos três arcanjos mais famosos da história do catolicismo e das religiões, Miguel, Gabriel e Rafael, para o dia 29 de setembro. Esses três arcanjos, de acordo com a teologia católica, estão ao redor de Deus e Lhe servem como mensageiros.

Miguel, que significa "Ninguém é como Deus", ou "Semelhança de Deus" é considerado o Príncipe guardião e guerreiro, Defensor do trono celeste e do povo de Deus. Fiel escudeiro do Pai Eterno, chefe supremo do exército celeste e dos anjos fiéis a Deus. Miguel é o arcanjo da justiça e do arrependimento, padroeiro da Igreja Católica. É citado três vezes na Sagrada Escritura. O seu culto é um dos mais antigos da Igreja.

Gabriel, seu nome significa "Deus é meu protetor" ou "Homem de Deus". É o Arcanjo anunciador por excelência das revelações de Deus e é, talvez, aquele que esteve perto de Jesus na agonia entre as oliveiras. Padroeiro da diplomacia, dos trabalhadores dos correios e dos operadores dos telefones. Comumente está associado a uma trombeta, indicando que é aquele que transmite a Voz de Deus, o portador das notícias. Foi ele quem fez o maior anúncio da história: a encarnação do Filho de Deus.

Rafael, cujo significado é "Deus te cura" ou "Cura de Deus", teve a função de acompanhar o jovem Tobias, no Antigo Testamento, em sua viagem, como seu segurança e guia. Foi o único que habitou entre nós. Guardião da saúde e da cura física e espiritual, é considerado também o chefe da ordem das virtudes. É o padroeiro dos cegos, médicos, sacerdotes e, também, dos viajantes, soldados e escoteiros.

A Igreja Católica considera esses três arcanjos, poderosos intercessores dos eleitos ao trono do Altíssimo. Durante as atribulações do cotidiano eles costumam nos aconselhar e auxiliar, além é claro, de levar as nossas orações ao Senhor, trazendo as mensagens da divina providência.

 

(Recebi via WhatsApp sem menção de autoria)

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URGENTE REPARAÇÃO em DEFESA de NOSSA SENHORA APARECIDA - ATO de DESAGRAVO

terça-feira, 28 de setembro de 2021

SHERAZADE VENCE A MORTE - Ignácio de Loyola Brandão


E
u era criança e ficava feliz quando meus pais me levavam à casa de Maria do Carmo Mendonça, parente cujo grau jamais consegui decifrar. A família dela tinha posses, uma casa boa, geladeira. Ter geladeira era indício de bem situado. Nada disso me importava, Maria do Carmo era dona de dois tesouros: a coleção completa da revista Tico-Tico e a coleção completa da Biblioteca Infantil Melhoramentos, mais de cem volumes. Havia um acordo entre ela e meu pai. Ela me emprestava um exemplar por vez da Biblioteca Infantil ou de O Tico-Tico. Cada vez que eu devolvia, ela examinava com lupa se não havia manchas de dedos sujos, nada rasgado, perfeito estado de conservação. Assim, aprendi a cuidar de livros.

Um dia, a parente abriu o jogo. Pode levar este livro aqui, mas esconda. Leia sem que ninguém veja. Tem muita coisa inapropriada. Uma vizinha, a Odete Malkomes, me explicou que inapropriado era algo proibido, sacanagem (eu lá sabia o que isso queria dizer?), pecaminoso, contra a lei de Deus. Bastou, escondi o livro no galinheiro, debaixo de um telhadinho que protegia as galinhas da chuva. Mil e Uma Noites, chamava-se este livro. Que li num repente. Mas onde estava a tal sacanagem? Não entendi e conversei com Odete, que era boa gente. E ela: 'Pois não viu que Sherazade conta uma história por noite ao sultão, depois o sultão come a moça?'.

Na verdade, eu não tinha entendido isso. O que queria dizer comia? Foi meu primo-irmão José de Anchieta, que tinha nome de santo, mas conhecia tudo que era safadeza, que me explicou o significado de 'comer'.

Dali em diante, e por décadas, reli As Mil e Uma Noites fantasiando tudo, a cabeça agitada, meu sonho era ser sultão. Lá pelos 16 anos soube que as edições de As Mil e Uma Noites eram todas expurgadas. Limpas, puras. O que havia de safadeza e indecência tinha sido eliminado por um tradutor de nome Galante, que, ao transportar do árabe para o francês, transformou o livro em cândidas histórias. Somente depois dos 70 anos descobri que um sujeito de nome imponente, Mamede Mustafa Jarouche, se meteu a buscar os originais de As Mil e Uma Noites em tudo que era país árabe, se enfiando em empreitada gigantesca. Traduzir as histórias de Sherazade como eram originalmente em toda sua sensualidade, lascívia, carnalidade. Ou seja, sua libidinagem. Assim ressurgiu em português, sem cortes, censuras, carolices, uma das mais lindas obras da literatura mundial. Pura poesia. Um livro que é também sobre o poder das mulheres

Nova edição, agora da Biblioteca Azul da Globo. Por causa de Sherazade faz semanas que nada sei da CPI da Covid, das sacanagens de Pazuello e do Queiroga e da Precisa, e do Marcony e dos que se meteram nesse trambique enorme, criminoso. Não tenho seguido esse rolo que envolve a morte de brasileiros. Negociatas que custaram vidas por causa de dinheiro. 'Money money, money makes the world go around, the world go around', como cantaram Liza Minelli e Joel Grey no filme Cabaret, de Bob Fosse. Não me ligo no noticiário. Não ouço rádio. Não leio jornal. Para não me contaminar. Sigo Sherazade. Delicio-me a cada noite.

Que astuta, esta mulher. Acaba uma noite, vem outra e as coisas se misturam, amor, poesia, sensualidade, esperteza, safadeza, humor, lirismo se imbricam. Que poder narrativo. E vou para a próxima, e leio e releio, e me encanto, e me esvazio das infâmias e dos rebaixamentos e das ignobilidades e vilipêndios e abjeções e opróbrios vomitados a cada momento nessa CPI da infâmia. Me enojo a cada resposta, e fica pior quando amparados pela lei, nada dizem, se culpando mais. Quanto mais silêncio, mais culpa parecem ter essas testemunhas. Tenho me entregue à Sherazade, atravessando suas 662 páginas com alegria, sorvendo-as sensualmente, lubricamente (epa), afetuosamente, porque aqui é tudo amor, literatura, fantasia, delírio, delícia, tesão, e a morte é vencida a cada dia, vencida por contos e recontos e relatos sem fim. A vida valendo ser vivida.

O Estado de S. Paulo, 24/09/2021

 

https://www.academia.org.br/artigos/sherazade-vence-morte

Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11da ABL, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.

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Coisas de palhaço /Cyro de Mattos/DIA DO CIRCO