O espírito consciente, criado através dos milênios, nos
domínios inferiores da natureza, chega à condição de humanidade, depois de
haver pago os tributos que a evolução lhe reclama.
À vista disso, é natural compreendas que o livre arbítrio
estabelece determinada posição para cada alma, porquanto cada pessoa deve a si
mesma a situação em que se coloca.
És hoje o que fizeste contigo ontem. Serás amanhã o que
fazes contigo hoje.
Chegamos no dia claro da razão, simples e ignorantes, diante
do aprimoramento e do progresso, mas com liberdade interior de escolher o
próprio caminho.
Todos temos, assim, na vontade a alavanca da vida, com
infinitas possibilidades de mentalizar e realizar.
O governo do Universo é a justiça que define, em toda parte,
a responsabilidade de cada um.
A glória do Universo é a sabedoria, expressando luz nas
consciências.
O sustento do Universo é o trabalho que situa cada
inteligência no lugar que lhe compete. A felicidade do Universo é o amor na
forma do bem de todos.
O Criador concede às criaturas, no espaço e no tempo, as
experiências que desejem, para que se ajustem, por fim, às leis de bondade e
equilíbrio que O manifestam. Eis por que permanecer na sombra ou na luz, na dor
ou na alegria, no mal ou no bem, é ação espiritual que depende de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
Marcos.
— Glória a vós, Senhor!
Naquele tempo, o Espírito levou Jesus para o deserto. E
ele ficou no deserto durante quarenta dias, e aí foi tentado por Satanás. Vivia
entre os animais selvagens, e os anjos o serviam. Depois que João Batista
foi preso, Jesus foi para a Galileia, pregando o Evangelho de Deus e
dizendo: “O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo.
Convertei-vos e crede no Evangelho!”
“E imediatamente o Espírito impeliu Jesus para o deserto...” (Mc
1,12)
É um privilégio iniciar este tempo litúrgico, intenso e
forte, chamado “tempo quaresmal”, deixando-nos “arrastar” pelo mesmo Espírito
de Jesus; tempo único que nos oferece a possibilidade de fazer uma estratégica
parada, de buscar o deserto em meio ao cotidiano, de plantar os pés na terra
firme do evangelho e assim viver um compromisso transformador em nossa
realidade. Nesse espaço e nesse tempo de maior despojamento, podemos sair de
nossas inércias, podemos deixar de lado nossas seguranças e comodidades para
transitar por novas paisagens. Há muitos modos de fazer isso: assumir com
seriedade esse momento, investir no cuidado interior, abster-nos do rotineiro
para abrir-nos ao inesperado e surpreendente...
Enfim, Quaresma sempre indica um tempo especial, de
crise-crescimento; hoje diríamos, de discernimento. E o que devemos
discernir? Qual é o crescimento-maturação que o tempo quaresmal nos
propõe? O discernimento implica, em primeiro lugar, uma escuta
atenta e uma profunda sintonia com o mesmo Espírito que atuava em Jesus, para
fazermos opções mais evangélicas, a serviço da vida. É o Espírito, força de
vida e amor, que nos conduz ao deserto para “desintoxicar-nos” de um modo de
viver atrofiado, imposto por um contexto social centrado na busca de poder e
prestígio, com seus inimigos mortais da competição, do consumismo, do
preconceito e que, lentamente, envenenam nossa vida, instigando-nos a romper as
relações de comunhão e compromisso. É preciso, de tempos em tempos, sair de
nossos espaços rotineiros e “normóticos”, deslocar-nos para os amplos espaços
do deserto, lugar despojado de tudo, para ali viver de novo o
encontro com a Voz e a Força que nos devolvem à vida, com outra inspiração.
Ali, guiados pelo Espírito, teremos a oportunidade de aprofundar nossa relação
com a Fonte do Amor que, depois, se expandirá numa nova relação com os outros e
com a natureza.
Neste ano, a CF está centrada no tema do “diálogo”; e
o deserto quaresmal ajuda a limpar os canais de comunicação que estão
obstruídos pelo excesso de gordura do nosso “ego”: auto-centramento, busca dos
próprios interesses, vaidades,... Sabemos que o diálogo implica um
des-centramento, uma saída de si, para escutar e acolher o outro na sua
diferença. O diálogo entre diferentes nos humaniza. Aqui não há mais lugar para
o julgamento, a suspeita, o fanatismo, a intolerância..., nas diferentes
situações da vida: religiosa, social, política, cultural, racial... Dialogar é
abrir-nos ao outro diferente, sair do nosso próprio mundo, criar vínculos com
outras pessoas, conhecer seu modo de ser e pensar..., multiplicando assim os
pontos de vista, para enriquecer-nos humanamente, dilatar os horizontes,
crescer pessoalmente.
Todo primeiro domingo da quaresma a liturgia nos conduz até
o deserto, onde Jesus foi “tentado”. Tradicionalmente, as tentações de
Jesus foram interpretadas num sentido moralizante; costumava-se dizer que Jesus
nos queria dar o exemplo de fortaleza para nos ajudar a superar nossas
tentações cotidianas. Tal interpretação não capta em toda sua profundidade
o sentido das “tentações de Jesus”.
As tentações não são tanto uma “prova” a superar
quanto um projeto que deve ser discernido. O que parece certo,
teológica e historicamente, é afirmar que Jesus, depois do batismo, buscou
o deserto para um tempo de discernimento, em oração, em solidão, diante do Pai
que o proclamou seu Filho, sob o impulso do Espírito; de algum modo teve de
refletir e discernir sobre qual seria seu estilo de messianismo que deveria
assumir para sua missão, em sua vida pública. É um tempo de confronto
interior, de crise.
A “crise” põe à prova sua atitude frente a Deus: como viver
sua missão e a partir de quê lugar? buscando seu próprio interesse ou escutando
fielmente Palavra do Pai? Como deverá atuar? dominando os outros ou pondo-se a
seu serviço? buscando poder e sua própria glória ou a vontade de Deus?...
As tentações são, pois, expressão da oferta de
dois tipos de messianismos, dois projetos, duas lógicas que se opõem.
* Por um lado, está a lógica da auto-suficiência, da
segurança, a partir do centro, a partir de cima, um messianismo
triunfalista, evitando conflitos com o poder político e religioso, alheio ao
sofrimento do povo; uma lógica que supõe adaptação ao “sistema”, ser servido
antes que servir.
* E, por outro lado, aparece a lógica da solidariedade, a
partir da margem e da periferia da sociedade política e religiosa, a partir do
povo, a partir de baixo, vivendo a filiação e a confiança no Pai, em
gratuidade, num estilo de simplicidade e pobreza alternativo ao “sistema”,
optando por servir antes que ser servido; uma lógica de inclusão e de
vulnerabilidade frente o sofrimento do povo, na linha do Servo de Javé e dos
grandes profetas de Israel.
Fruto da experiência batismal de sentir-se Filho e do
discernimento do deserto, Jesus elege a lógica da solidariedade e do serviço, a
partir dos últimos. Assim como foi “impelido” pelo Espírito ao deserto, Jesus
se deixa conduzir pelo mesmo Espírito em direção às margens excluídas, às
“periferias existenciais”.
A partir deste discernimento e opção, o messianismo de
Jesus se manifesta como “diferente” daquilo que muitos esperavam em Israel. O
fato surpreendente é que Jesus começa a falar e a agir a partir da margem geográfica,
cultural, religiosa e econômica da Palestina: a Galiléia. Jesus
rompeu com a família, afastou-se da vida normal que levava, iniciou uma
vida itinerante e passou a viver a partir de um sonho: a
utopia do Reino. Vivendo no meio de uma realidade conflituosa, de
exploração, de desintegração das instituições, de injustiças... Jesus, unido ao
Pai, torna-se aluno dos fatos, descobre dentro deles a chegada da hora de
Deus e anuncia ao povo: “O tempo já se completou e o REINO de Deus está
próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho!” (Mc 1,15). Ele
vem realizar as esperanças do povo, despertadas e alimentadas ao
longo dos séculos, pelos profetas. Com sua vida e sua palavra, Jesus
interrompe o discurso dos especialistas sobre Deus. Ele não tinha uma instituição em
que pudesse se apoiar; tudo brotava de dentro.
Enquanto todos tinham os olhos voltados para o centro (sobretudo
para o templo de Jerusalém onde era elaborado o saber que ia se expandindo até
chegar à menor das sinagogas), Jesus revela sua presença nas “periferias” do
mundo. A partir daí, todos nós também devemos dirigir constantemente o olhar
para as “novas periferias”, lugar onde Ele continua nos convocando.
“O discípulo-missionário é um des-centrado: o centro é Jesus
Cristo que convoca e envia. O discípulo é enviado para as periferias
existenciais. A posição do discípulo-missionário não é a de centro, mas de
periferias: vive em tensão para as periferias” (Papa Francisco)
Quê significa “fronteiras geográficas e existenciais”? É
preciso sair dos limites conhecidos; sair de nossas seguranças para
adentrar-nos no terreno do incerto; sair dos espaços onde nos sentimos fortes
para arriscar-nos a transitar por lugares onde somos frágeis; sair do
inquestionável para enfrentarmos o novo...
É decisivo estar dispostos a abrir espaços em nossa história
a novas pessoas e situações, novos encontros, novas experiências... Porque
sempre há algo diferente e inesperado que pode nos
enriquecer... A vida está cheia de possibilidades e surpresas; inumeráveis
caminhos que podemos percorrer; pessoas instigantes que aparecem em nossas
vidas; encontros, diálogos, aprendizagens, motivos para celebrar, lições que
aprenderemos e nos farão um pouco mais lúcidos, mais humanos e mais simples...
A periferia passa a ser terra privilegiada onde
nasce o “novo”, por obra do Espírito. Ali aparece o broto original do
“nunca visto”, que em sua pequenez de fermento profético torna-se um desafio ao
imobilismo petrificado e um questionamento à ordem estabelecida.
Texto bíblico: Mc 1,12-15
Na oração: Quaresma é tempo para
desintoxicação existencial: feridas mal curadas, fracassos, modos fechados
de viver, intolerâncias, legalismos e moralismos, ...
- De quê você precisa se desintoxicar? De quê você precisa
se alimentar ao longo deste tempo quaresmal?
O Clube Militar publicou uma nota sobre o caso do deputado
federal Daniel Silveira (PSL), que foi preso pelo STF nesta semana, “sem entrar
no mérito das palavras” dirigidas aos integrantes da Corte
O Pensamento do Clube Militar
“Sem entrar no mérito das palavras dirigidas aos
integrantes do STF, pelo Deputado Daniel Silveira, colocamos aqui algumas
reflexões:
1. Por que outros pronunciamentos semelhantes, porém
ditos por políticos e jornalistas de centro esquerda não são tratados como
crime?
2. Por que ameaças abertas contra a vida do Presidente da
República não são também tratadas como crime inafiançável?
3. Por que a liberdade de expressão só se aplica a esses
mesmos indivíduos de centro esquerda?
4. Por que esses supostos crimes praticados pelos
apoiadores do Presidente recebem alta prioridade nas investigações, enquanto
crimes cometidos por aliados ideológicos ou denúncias contra os próprios
Ministros do STF ficam sem investigação ou aguardando a prescrição?
5. Por que o Ministro Marco Aurélio ameaçou os Deputados,
dizendo que em caso de relaxamento da prisão do Deputado Daniel Silveira eles
prestariam contas com o povo, nas urnas, em 2022? Quem informou ao ilustre
ministro que a população apoia as arbitrariedades do STF?
6. Por que os ilustres Ministros do STF pensam que apoiar
o Regime Militar que foi instaurado a partir de 1964 é crime quando uma grande
parcela da população tem saudades daquela época? A Democracia que temos hoje no
Brasil começou em 1964....
7. Por que os amparados pelo Poder Judiciário continuam
sendo os criminosos já condenados? Esses, em sua grande maioria, enquanto
puderem sustentar os melhores advogados, jamais cumprirão suas penas, podendo,
inclusive, realizar passeios fora do Brasil, enquanto os que usam suas línguas
para falar não podem nem sair de casa (os de direita, é claro).
8. Por que os equipamentos do Adelio e de seus aliados
não são periciados?
9. Finalmente, para não citar outras dezenas de exemplos,
o crime propalado pelo STF e seus aliados de esquerda é referente a ameaças
verbais, ou, na realidade, é por ser o acusado apoiador daquele que foi eleito
pelo povo para governar o Brasil?
Gen Div Eduardo José Barbosa. Presidente do Clube Militar”
Desculpem-me o título na língua dos outros — a
união sagrada, em português. Justifico-me: a expressividade tem seus direitos,
a elocução francesa aqui torna mais viva a realidade que tomou a França durante
a 1ª Guerra Mundial em face das potências centrais, em especial da Alemanha.
Proclamou-se na ocasião a necessidade imperiosa de uma união sagrada, fundada
na trégua interna, que pudesse coligar para a defesa da pátria agredida todas
as correntes de relevância no país, até então em choque; republicanos, monarquistas,
católicos, ateus, livre-pensadores, socialistas, conservadores,
tradicionalistas, progressistas. A França polarizada daria lugar à França unida
na defesa da pátria atacada. Quem ficasse de fora da coligação de salvação
nacional se sentia mal; rejeitado socialmente, incompreendido mesmo dos seus,
poderia até acabar marcado com o labéu de covarde traidor — um pária. Situações
desse tipo acontecem, não são raras.
Essa aconteceu assim. Em 3 de agosto de 1914, a
Alemanha declarou guerra à França, que penava a derrota humilhante de 1870, com
a consequente perda de importantes províncias. Vieram então as gerações
“revanchardes”, ansiosas por revanche e vingança. A declaração de guerra abria
possibilidade para o acerto de contas; em resumo, parecia, tinha chegado a
hora. Esperava-se uma guerra rápida, com triunfo certo; veio uma guerra longa,
com sofrimentos sem fim e triunfo pela mão dos Estados Unidos.
Um dia antes, 2 de agosto, em ambiente de tensão
altíssima entre os dois países, o estado de sítio já havia sido declarado na
França, com convocação do Parlamento para o dia 4. Em 4 de agosto, René
Viviani, presidente do Conselho de Ministros, leu no Parlamento mensagem de
Raymond Poincaré [foto ao lado], presidente da França: “Na
guerra que começa, a França terá a seu lado o direito, do qual os povos, assim
como os indivíduos, não podem desconhecer impunemente o eterno poder moral. Ela
será heroicamente defendida por todos os seus filhos, nada quebrará sua união
sagrada; estão hoje fraternalmente congregados em uma mesma indignação contra o
agressor e em uma mesma fé patriótica”.
Nada quebrará sua união sagrada; aqui nasceu para a
política francesa a expressão “união sagrada”; durou anos, deixou marcas
profundas na vida de cada francês. O ardor da fé patriótica arredondou arestas
anteriores, a aproximação soldou diferenças dos franceses de todas as
tendências. O mais visível símbolo de tal coligação foi a chefia do exército
confiada ao marechal Ferdinand Foch [foto à esquerda], católico
conhecido, e a chefia do governo nas mãos de Georges Clemenceau [foto
abaixo] , anticlerical, livre-pensador, com raízes na esquerda. Já em
2 de agosto de 1914 o ministro do Interior mandou suspender a execução de
decretos que atingiam a Igreja Católica. Em outubro de 1915, Aristide Briand
colocou no governo Denys Cochin, católico, encerrando longo período de
hostilidade da república em relação à Igreja, iniciado em 1877.
Essa mesma política, intitulada na França de “union
sacrée”, com base no patriotismo e na defesa da pátria, foi adotada pela
Alemanha (Burgfrieden), Bélgica, Rússia, entre outros. Mas não tiveram a
repercussão e a carga simbólica da “union sacrée” francesa.
Com o triunfo da revolução bolchevista (novembro de
1917) e o fim da Guerra, os partidos de esquerda, já em parte reticentes em
relação a ela, denunciaram-na por inteiro e o quadro político voltou a ser
tenso e conflitivo. Os anos 20 assistiriam ao fortalecimento dos partidos de
esquerda, que suscitaram violentas reações, capitaneadas em geral pelo nazismo
e fascismo, ou organizações assemelhadas. Tais movimentos atraíram e desviaram
enormes contingentes católicos. Sem contar aqui a desorganização e morticínios
causados pelos quatro anos de guerra.
Em resumo, ponto que ninguém ou quase ninguém
ressalta, porém dever do analista católico salientá-lo, enorme tragédia se
abateu sobre grandes possibilidades de evangelização e restauração social: não
amadureceram de forma saudável em milhões de jovens os frutos de salvação que,
antes da Guerra, prenunciavam colheita de decisiva importância para a Europa e
o mundo. Para tal contribuíram a ingenuidade, a superficialidade, a
precipitação, bem como a má direção, tanto no âmbito eclesiástico, como no
temporal.
Por que em traços gerais lembro universo tão vasto?
Por necessidade, pela enorme atualidade potencial. “Historia lux
veritatis, vita memoriae, magistra vitae.”
Corta. Passo a relatar fato de hoje, distante mais
de século dos anos da “union sacrée´´. O caso do COVID-19 explodiu em Wuhan, na
China. Um ano depois, “Época” entrevistou um paulistano que lá vive, Kenviti
Shindo, 27 anos, estudante de mestrado. A vida em Wuhan é de quase
normalidade: “Aqui está praticamente normal, usamos máscara quando
entramos em locais fechados, como bares, restaurantes ou shopping centers.
Claro que existe uma preocupação de que o vírus volte, mas tudo já funciona
como antes”, observa Shindo. Não há registros de casos novos na
província de Hubei, da qual Wuhan é a capital. Em outubro, a província atraiu
52 milhões de turistas entre os dias 1 e 7, Semana Dourada, época festiva. Em
contraste lúgubre, o Ocidente ainda se debate com o vírus. O Brasil, nem falar.
Não dá inveja? Dá. Quem tem inveja procura imitar.
Corta de novo, terceira matéria em texto reduzido.
Em 2018 escrevi um livrinho “Brigo pelos homens atrofiados” sob
o pseudônimo de Zeca Patafufo. Um dos personagens do conto, Adamastor Ferrão
Bravo, sabido e bom observador, fez advertência que agora ficou candente. Vale
a pena ouvir Ferrão Bravo:
“— O cenário brilhante fica no Oriente. Na
paradeira de atores estafados, a China e outros poucos países asiáticos
disparam para tomar a boca do palco.
— Vai impingir seus intentos?
— Para lá somos arrastados. [Observou Ferrão
Bravo]. Não demora, o provável, assistiremos a multidões babando de
admiração pelo país que se deu bem e aí bamboleando atrás e remedando. Tem
aquele tanto de sortilégio, acho. A França, quando primeira no mundo, foi trend-setter.
Os Estados Unidos, passante de cem anos, ditam moda. São povos constituintes.
Ainda vai escutar um bucado de mães falando: — Aula de inglês? Não é tanta
prioridade, quente agora é o menino igual aprender o mandarim.
— Os Estados Unidos vão continuar na testa, está no
DNA deles, seu Adamastor. Lá o pelotão da frente não brinca em serviço.
— É conforme, deix’eutifalá, têm energia para
manter a mão na rédea. O século 20 foi o século americano-do-norte; o século 21
vai ser também, depende de os gringos quererem.
— A China periga dar certo? — o Cisco, espantado.
— No mundo da lua, vão agigantar tudo pela
propaganda. Pode estar iminente avalancha de soft power da
China, a mais do duro sharp power que começa a se generalizar
e já desperta vivas reações em vários países. Dando certo a ofensiva chinesa,
em cortejo, imantada, veremos atrás sarandear malemolente a bocojança,
multidões sem fim. Tanta gente modernosa não achou que a Rússia dos anos 30
tinha dado certo? O Stalin, besuntado de admirações abjetas, foi ícone de
cardumes de torcedores ignóbeis; décadas de chumbo aleluiadas em histeria, mais
que tudo pela intelligentsia progressista; via nos intentos
mitomaníacos de engenharia social, executados com frieza apavorante, a
construção da utopia socialista dos ‘amanhãs que cantam’; para tal, enfiada sem
fim de hojes desesperadores.
— Tem exorcismo contra tais modismos?
— Conheço um, destrinchar e divulgar preto no
branco essas alquimias de fundo totalitário. Cadê o esforço intelectual e a
valentia?
— Entendi, o enfeitiçamento bafeja situações
ditatoriais.”
Flui o conto, Adamastor Ferrão Bravo ali continua
com braveza aferroando, mas paro por aqui. Chamei a atenção de tal realidade
para quê? Para a possibilidade de manobra de soft power. No combate
ao vírus, a China sai na frente, elimina o problema, resolve. Cara da moeda. Na
coroa, chapina o resto do mundo; mortes, fechamentos, abatimentos,
desorientação. O mundo vai preferir cara ou coroa? “Multidões babando de
admiração e remedando”. E então poderia acontecer uma nova e adaptada “union
sacrée” em nossos dias, voltada contra a pandemia, no desenrolar da qual a
China despertaria admiração, atrairia simpatias e abateria barreiras, isolaria
opositores. Lucro evidente para os desígnios totalitários e imperialistas do
Partido Comunista Chinês. Olho vivo, moreno, seguro morreu de velho,
desconfiado ainda vive.