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terça-feira, 25 de agosto de 2020

FASCINAÇÃO RECÍPROCA – Péricles Capanema

24 de agosto de 2020

Péricles Capanema


A França tem nova embaixadora no Brasil, Brigitte Collet [foto ao lado]; assume o posto em momento de dificuldades nas relações entre os dois países. Passo ao lado dos assuntos espinhosos, não têm relação próxima com o tema de que vou me ocupar. Objeto também espinhoso. As matérias rugosas precisam ser ventiladas.

A nova representante gaulesa fez saudação de praxe aos franceses residentes no Brasil. Está na rede (“Premier message à la communauté française de l’ambassadrice, Mme Brigitte Collet”). Nela, a diplomata mencionou realidade cada vez menos lembrada, a “fascinação cultural recíproca” existente entre o Brasil e a França. Vem de longe, está inscrita na história dos dois países. Só vou analisar, na fala da embaixadora, a expressão acima referida, o resto fica para outra hora, se ensejo houver.

Nada mais verdadeiro, nada mais justificável que recordar a “fascinação cultural recíproca”, campo com enorme poder evocativo. Contudo, verdade triste, não apenas é expressão cada vez menos lembrada; pior, está se apagando por causas várias o fascínio recíproco, tanto na França, como no Brasil. É tragédia sem nome, estávamos em uma aurora, ainda imersa na neblina, que, afastados os efeitos das tempestades, poderia ter dado origem a progressos autênticos.

Espiadela sobre razões do apagamento.  O deslumbramento a que alude a Sra. Collet não é (ou era) apenas cultural. Ou era cultural em acepção ampla; como André Malraux via a cultura, “herança da nobreza do mundo”; de outro modo, junção harmoniosa de altas perfeições vicejando nos vários âmbitos da vida humana. O fascínio mútuo, encarando mais fundo, era a percepção de traços de personalidade, de valor extraordinário que, pelo enlevo assimilativo, completariam os “role models” predominantes nas duas culturas.

De nossa parte, olho daqui para lá, lembrando a distinção filosófica entre ato e potência, fascinava-nos sobretudo atos, realidades já construídas; uma ou outra vez energias latentes se transformando em atos. Examinando de lá para cá, minha opinião, os franceses eram sobretudo fascinados por potencialidades que avistavam no Brasil (em especial nas pessoas com as quais entravam em contato, para ser mais preciso). Tais pessoas, em geral, ou eram de condição social privilegiada, ou eram de inteligência e cultura privilegiadas. Ou ambas. Constituíam escol, representativo do que de melhor o Brasil, país ainda muito pobre, poderia na época oferecer ao mundo. Por indução, com base em tais amostras, era possível conceber noção real, traços gerais, esboço um tanto brumoso, do que o Brasil um dia poderia chegar a ser, se, entre outros esforços, continuasse aperfeiçoando e tornasse patrimônio comum do povo os valores psicológicos e morais percebidos naqueles encontros, expressos no comportamento.

Tal realidade incipiente de enorme riqueza potencial foi destroçada quase por inteiro. Não foi só desleixo. Houve ação contra, por vezes encarniçada. Se, em vez de lançar pedras, impulsionadas por preconceitos obscurantistas, tais grupos sociais — pessoas, também — fossem, com senso das proporções, prestigiados na vida da nação, ao longo das décadas teríamos tido das mais benéficas e produtivas iniciativas de inclusão social. Uma política autenticamente popular, e sem gastar um tostão do erário nisso. Por contato e admiração, círculos cada vez mais amplos, de forma gradual, partilhariam, ainda que de maneira diferenciada, tais maneiras de ver a vida, de grande potencial de ascensão (fonte de fascínio de estrangeiros que viviam no Brasil, em particular de franceses) florescentes então em particular em ambientes pequenos.

Nada ou quase nada disso aconteceu. Tais grupos informais — moldados por valores, percepções delicadas, modos de viver próprios —, repito, foram sufocados pela desatenção geral, quando não objeto de mofa e desprestígio. Surgiram outros “role models”, ocuparam a cena, relegando os anteriores, como velheiras inúteis, aos desvãos não frequentados das casas.

E era em tais grupos, ilhas no interior dos mundos da cultura e da sociedade educada, que latejava mais forte o fascínio pela França. Em direção contrária, ali em geral estava mais brilhante a origem do fascínio que o Brasil exercia na França. Fascinação recíproca, lembrou a embaixadora. Restam fiapos.

Em vez da subida em número e qualidade de setores autenticamente representativos e da ascensão popular generalizada, disse atrás, novos “role models” dominaram, postiços e caricatos, e com eles se impuseram socialmente em grande número de casos desigualdades desagregadoras e igualitarismos atrofiantes. Primarismos, boçalidades, má educação, incompreensão da vida, quando não a imoralidade solta, em boa parte são marcas distintivas dos primeiros lugares nas cenas pública e social do Brasil de hoje. Basta observar o que vemos e comparar com o que tivemos como figuras de expressão. São marcas da opção preferencial pelo atraso.

“Até o século XIX o idiota era apenas o idiota e como tal se comportava. E o primeiro a saber-se idiota era o próprio idiota. Não tinha ilusões. Julgando-se um inepto nato e hereditário, jamais se atreveu a mover uma palha, ou tirar uma cadeira do lugar. Em 50, 100 ou 200 mil anos, nunca um idiota ousou questionar os valores da vida. […] Descobriram que são em maior número e sentiram a embriaguez da onipotência numérica. […] Houve, em toda parte, a explosão triunfal dos idiotas. […] Os idiotas vão tomar conta do mundo […] O grande acontecimento do século foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota” (Nelson Rodrigues). Aconteceu no Brasil, restam fiapos dos ambientes de inundados de simplicidade, finura de percepção e cultivo da educação, onde desabrochavam pessoas com possibilidades de orientar a sociedade e encantar quem nos visitava. Contrastam com tantos homens de relevo do Brasil contemporâneo, figuras grotescas, toscas, contrafações popularescas ou arrogantes do que outrora houve, ainda que em ambientes limitados. Quase diria, uma bênção que evolou deixou no lugar maldição cuja fedentina se entranha em tudo.


Vou dar um exemplo notável de traços do Brasil de outrora (já tenho aludido a ele) que hoje impulsionariam avanços civilizatórios, escolhido entre vários, mas já enterrado na história. Postas as condições atuais, não mais acontecerão, desapareceram os ambientes em que nasciam e se firmavam. Vem de Fernand Braudel (1902-1985) [foto ao lado], muitas vezes considerado o maior historiador francês do século passado. Morou no Brasil entre 1935 e 1937, lecionando na então recém-fundada USP. Conheceu e privou com muitos brasileiros, parte deles intelectuais de expressão, estudou autores nacionais, imergiu na vida intelectual do país. Não só isso. Frequentou casas de família, ouviu observações de pessoas de todas as condições; de outro modo, escutou as palavras e delas percebeu o tom e os entretons. Viajou. Sentiu o calor, o perfume e a cor da sociedade brasileira; sua realidade e seu passado profundos. Ao lado da instrução, veio o embebimento, a educação por osmose.

Em simpósio sobre sua obra, realizado em Châteauvallon, 1985, ano do falecimento, explicou Fernand Braudel: “Eu me tornei inteligente indo ao Brasil. O espetáculo que tive diante dos olhos era um tal espetáculo de história, um tal espetáculo de gentileza social que eu compreendi a vida de outra maneira. Os mais belos anos de minha vida eu passei no Brasil”. Em outra ocasião, meses antes, na Academia Francesa, afirmou: “O Brasil foi o grande período de nossas vidas”. Ainda, “eu me tornei menos banal [no Brasil]”. Constatou agradecido, “foi no Brasil que me tornei o que sou hoje”. Sua grande obra foi “La Méditerranée et le monde méditerranéen à l’époque de Philippe II”. Dela disse: “Não creia que eu teria escrito sobre o Mediterrâneo um livro diferente dos outros, se eu não tivesse estado antes no Brasil”. Perguntado sobre o significado de se ter tornado inteligente no Brasil, respondeu sorrindo: “Talvez tenha sido porque lá eu aprendi a ser feliz”. Claro, em boa medida, é força de expressão dizer que se tornou inteligente no Brasil, utilizada para ressaltar com mais força a gratidão sentida pelo fato de a frequentação de ambientes nacionais lhe ter aberto horizontes mentais decisivos para sua vida intelectual.

Tendo como fundo as palavras de Fernand Braudel, é melancólico constatar, fechou-se um horizonte para nós, perdeu-se inconsideradamente ativo importante. Não haverá um Braudel 2. Por razão simples: mudaram os ambientes de formação, o principal dos quais era o interior das famílias, e com isso o Brasil perdeu uma de suas mais importantes características, digamos assim, nas pegadas do historiador francês, a de fazer os outros mais inteligentes, motor de progresso real. Seria possível recobrá-la? Sem dúvida. Duas palavras a respeito. A primeira coisa, lamentar a perda. Suporia reatar com aspectos do passado, um meia volta volver; quase uma ressureição. Para tal, pedir a Deus, claro. E ainda conhecer direito o que terá encantado tanta gente, pôr de lado contrafações. Daí, ambientes domésticos, comportamentos e “role models” renovados. Outro título para o artigo: brado de afeto e angústia.

https://www.abim.inf.br/fascinacao-reciproca/


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segunda-feira, 24 de agosto de 2020

POR QUE SE TÊM EMPREGADO O TERMO “ENTREGA” EM VEZ DE “CONSAGRAÇÃO”?

14 de agosto de 2020

Padre David Francisquini


Pergunta — Durante a pandemia do coronavírus, fiéis de vários países pediram a seus episcopados que renovassem a consagração de suas nações a Nossa Senhora, a fim de obter a sua benevolência e o fim da pandemia. Chamou-me a atenção que os bispos da Itália e de Portugal, nos respectivos atos litúrgicos que realizaram para atender a esse pedido, reservaram a palavra “consagração” exclusivamente a Jesus. No que se refere a Maria, empregaram em Fátima o termo “entrega”; e “no santuário italiano de Caravaggio, “affidamento”, que quer dizer a mesma coisa. Achei isso estranho, já que Nossa Senhora em Fátima pediu a “consagração” da Rússia (não apenas a “entrega”) ao Imaculado Coração de Maria. Se a Rússia pode ser consagrada à nossa Mãe do Céu, por que não Portugal ou Itália, quanto mais em uma emergência tão grave como esta?

Resposta — Essa reticência dos prelados e dos teólogos em empregar o termo “consagração” em relação a Nossa Senhora vem desde o tempo anterior ao Concílio Vaticano II, sob pretexto de que “uma consagração propriamente dita não se faz senão a uma Pessoa divina, pois a consagração é um ato de latria, cujo termo final apenas pode ser Deus”, como escreveu o jesuíta Pe. Juan Alfaro.[1]

De fato, em sentido estrito, a consagração é o ato pelo qual uma coisa é transferida de um uso comum e profano para um uso sagrado; ou o ato pelo qual uma pessoa ou coisa é dedicada ao serviço e ao culto de Deus por meio de orações, ritos e cerimônias. Assim, fala-se da consagração de uma igreja, de um altar ou de um bispo. O conceito tem um aspecto positivo, o de pertencer total e exclusivamente a Deus. E um aspecto negativo, que é o de subtrair o uso profano.

Ao longo dos séculos a Igreja não hesitou em empregar a palavra “consagração” para exprimir o dom e a oferenda que uma pessoa, um grupo humano ou uma região fazem de si a uma criatura de Deus, como Nossa Senhora, a Igreja ou uma Ordem religiosa, como um meio para melhor servir ao próprio Deus. Até na linguagem comum se utiliza esse termo para exprimir uma dedicação total. Por exemplo, quando dizemos que uma pessoa se consagrou a uma causa ou a um trabalho.

Como é isso possível, se somente Deus, Criador e Senhor de tudo quanto existe, tem direito à pertença (domínio) total e exclusiva de suas criaturas? A resposta é que se trata aí da aplicação deste princípio conhecido: quando se diz algo de Deus, a referência é em sentido próprio; quando se diz o mesmo de uma criatura, o sentido é apenas analógico.

O protestantismo é contrário à vassalagem a Nossa Senhora


Na Basílica de São Pedro, imagem de São Luís Maria Grignion de Montfort

Já no século IV a noção de pertencer a Nossa Senhora aparece nos escritos de Santo Efrem, o Siríaco; e no século seguinte, uma “santa servidão” a Ela, pela qual os que a praticavam eram chamados “servos de Maria”. No século VII, provavelmente em 626, depois do cerco dos ávaros e dos persas, a cidade de Constantinopla exprimiu no hino Akathistos sua pertença Àquela que os tinha salvo: “A Vós, capitã e defesa, canções de vitória e de gratidão. Mãe de Deus, eu consagro vossa cidade, libertada de ameaças horríveis”. Santo Ildefonso de Toledo (+667) difundiu a ideia da consagração a Nossa Senhora, ou mais precisamente “da dedicação plena ao seu serviço”.

No século VIII, São João Damasceno elaborou ainda mais o tema da consagração a Maria. Numa passagem de seu sermão sobre a dormição, escreveu: “A Vós consagramos nossas mentes, nossas almas e nossos corpos – em uma palavra, todo nosso ser”. Empregou sem hesitar o verbo grego anathemeni, que significa reservar para uso sagrado, configurar como presente votivo, dedicar, separar.

Na sociedade feudal da Idade Média, não causava nenhuma estranheza a ideia da dedicação total a um senhor feudal inferior. A sociedade era então baseada sobre um sistema de vassalagens sucessivas, pelo qual o senhor de um vassalo era, por sua vez, vassalo de um senhor mais alto, até chegar ao rei. E todos compreendiam que, se cada vassalo em seu respectivo nível servisse bem ao seu senhor, o maior beneficiário final dessas dedicações era o soberano.

Assim, a ideia da consagração a Deus por meio de Maria entrou muito fundo na espiritualidade de muitos santos, de várias Ordens, congregações e do próprio povo. O conceito de vassalagem a Nossa Senhora só foi questionado pela revolução protestante, com a orgulhosa pretensão de que cada batizado estabeleça uma relação direta com Deus, sem nenhuma intermediação da Igreja, de seus sacramentos e de seu magistério. O pretexto para isso é que tal vassalagem afastaria de Cristo, único Mediador.

O Cardeal Pierre de Bérulle (+1629), fundador da chamada “escola francesa” de espiritualidade, impôs à Congregação do Oratório e aos carmelitas o voto de servidão a Maria. Levantou-se então grande ofensiva de libelos anônimos motivados pelo jansenismo, que era uma versão moderada dos erros protestantes. O voto de escravidão proposto pelo Cardeal de Bérulle foi condenado pelas universidades de Louvain e Douai.

Consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria

No Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, São Luís Maria Grignion de Montfort fundamenta de modo irrefutável que a escravidão a Maria é o meio mais rápido, fácil e seguro de se conformar a Jesus Cristo. Para evitar uma condenação semelhante à do Cardeal de Bérulle, o grande santo mariano tomou o cuidado de intitular sua fórmula de escravidão mariana “Ato de consagração a Jesus Cristo, a Sabedoria Encarnada, pelas mãos de Maria”. A descoberta desse livro em meados do século XIX fez com que a Mariologia se desenvolvesse resolutamente nos meios teológicos, e que dezenas de milhares de fiéis fizessem sua consagração a Nossa Senhora nos termos propostos por São Luís de Montfort.

Esse movimento de entusiasmo por parte dos escravos de amor da Santíssima Virgem foi indiretamente convalidado pelas aparições de Nossa Senhora em Fátima, nas quais Ela disse que viria solicitar a consagração da Rússia ao seu Imaculado Coração, a ser realizada pelo Papa em união com todos os bispos do mundo.

No dia 31 de outubro de 1942, num momento crítico da Segunda Guerra Mundial, o Papa Pio XII, numa Radiomensagem aos fiéis portugueses, fez um ato de consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria, nos seguintes termos: “A Vós, ao vosso Coração Imaculado, nesta hora trágica da história humana, confiamos, entregamos, consagramos não só a Santa Igreja, corpo místico de vosso Jesus, que pena e sangra em tantas partes e por tantos modos atribulada, mas também todo o mundo, dilacerado por mortíferas discórdias, abrasado em incêndios de ódio, vítima de suas próprias iniquidades”. Um pouco adiante o Papa fez uma analogia entre seu ato e aquele de seu predecessor Leão XIII: “Como ao Coração do vosso Jesus foram consagrados a Igreja e todo o gênero humano, […] assim desde hoje Vos sejam perpetuamente consagrados também a Vós e ao vosso Coração Imaculado, ó Mãe nossa e Rainha do mundo”.

Honrando a Santíssima Virgem, honra-se Jesus Cristo

Papa Pio XII

Dez anos mais tarde, em julho de 1952, o mesmo Pio XII, atendendo às instantes súplicas recebidas do mundo inteiro, declarou solenemente na Carta Apostólica Sacro Vergente Anno: “Tal como há alguns anos Nós consagramos todo o gênero humano ao Coração Imaculado de Maria, Mãe de Deus, hoje consagramos e confiamos todos os povos da Rússia a este Imaculado Coração”.

Durante sua visita a Fátima, no cinquentenário das aparições, Paulo VI publicou a exortação Signum Magnum,na qual encorajou todos os filhos da Igreja “a renovar sua consagração ao Imaculado Coração de Maria”. No sermão que fez em Fátima no dia 13 de maio de 1982, João Paulo II declarou: “Consagrar o mundo ao Coração Imaculado de Maria significa aproximar-nos, mediante a intercessão da Mãe, da própria Fonte da Vida, nascida no Gólgota. […] Consagrar o mundo ao Imaculado Coração da Mãe significa voltar de novo junto da Cruz do Filho. Mais quer dizer, ainda: consagrar este mundo ao Coração transpassado do Salvador, reconduzindo-o à própria fonte da Redenção”. Em 25 de março de 1984, diante da imagem de Nossa Senhora de Fátima, levada a Roma para a ocasião, João Paulo II proclamou: “Abraçai, com o amor da Mãe e Serva do Senhor, este nosso mundo humano, que Vos confiamos e consagramos, cheios de inquietude pela sorte terrena e eterna dos homens e dos povos. De modo especial Vos entregamos e consagramos aqueles homens e aquelas nações que desta entrega e desta consagração têm particularmente necessidade”.

Não obstante essa utilização pelos Papas da expressão “consagração”, em ocasiões solenes, para referir-se à entrega do mundo a Maria ou ao seu Imaculado Coração, nos ambientes progressistas o emprego dessa expressão é asperamente contestado, em nome dos princípios do Concílio Vaticano II. Para os prelados e os teólogos dessa corrente, a inserção da Igreja no mundo leva a uma minoração do sagrado e da ideia de consagração, enquanto implicando uma separação do mundo, em lugar de uma presença e comunhão fraternas junto a ele. Além do mais, a redescoberta da consagração fundamental a Deus, no batismo, tornaria supérfluas quaisquer outras consagrações ou devoções. E alegam finalmente que um maior rigor na linguagem teológica desaconselharia aplicar o mesmo vocábulo para se referir à entrega a Deus e a Maria.


No peito da imagem, o medalhão com as belas palavras: “Consagração da Paróquia d’Ars a Maria concebida sem pecado, feita em maio de 1836 pelo Pe. João Maria Vianney, o cura d’Ars”. [Foto: Frederico Viotti]

Essas críticas fazem lembrar aquilo que São Luís Grignion de Montfort diz a respeito dos devotos escrupulosos: “São pessoas que têm receio de desonrar o Filho ao honrar a Mãe, de rebaixar o primeiro ao elevar a segunda. Eles conseguem suportar que se deem à Santa Virgem louvores muito justos, como lhe deram os santos Padres; eles não suportam senão com dificuldade que haja mais gente de joelhos diante de um altar da Santa Virgem do que diante do Santíssimo Sacramento, como se um fosse contrário ao outro; como se aqueles que rezam à Santa Virgem não rezassem a Jesus Cristo! […] Trata-se de uma perigosa e sutil armadilha do maligno, com a desculpa de promover um bem maior; pois jamais se honra mais a Jesus Cristo do que quando se honra a Santíssima Virgem, porquanto não se honra a Mãe a não ser com a finalidade de honrar mais perfeitamente o Filho, pois só se vai a Ela como sendo o caminho para encontrar o termo aonde se vai, que é Jesus Cristo”.

A conclusão do santo é de que a melhor forma de devoção a Nossa Senhora é consagrar-se a Ela como escravo, pois “esta Consagração é feita conjuntamente à Santíssima Virgem e a Jesus Cristo: à Santíssima Virgem como ao meio perfeito que Jesus Cristo escolheu para se unir a nós e nos unir a Ele; a Nosso Senhor como ao nosso fim último, a quem devemos tudo o que somos, como a nosso Redentor e nosso Deus. Com esta devoção damos a Jesus Cristo tudo o que lhe podemos dar, e da maneira mais perfeita, porque o fazemos pelas próprias mãos de Maria”.

Pelo exposto, compreende-se que é totalmente infundado, e contrário ao ensino constante do Magistério e dos santos, o receio dos bispos italianos e portugueses de empregar o termo “consagração” no ato de confiar seus países e seus povos a Nossa Senhora, pedindo sua proteção na atual epidemia.

Não duvidamos em afirmar que essa frieza de altos prelados em relação à sua Mãe é o espinho mais doloroso que fere o Sagrado Coração de seu Filho. Ofereçamos a Ele, em reparação, nossa mais terna devoção a Nossa Senhora e nossa consagração a Ela, de preferência segundo o método de São Luís Maria Grignion de Montfort.


[1] “Il cristocentrismo della consacrazione a Maria nella congregazione mariana”, Stella mattutina, Roma, 1962, p. 21.

https://www.abim.inf.br/por-que-se-tem-empregado-o-termo-entrega-em-vez-de-consagracao/


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MENINA E MOÇA - José Sarney

Tomei emprestado para este artigo o título do livro de Bernardim Ribeiro, que na minha adolescência fazia parte da formação clássica. É velho como a Sé de Braga, como se diz em Portugal, de 1554. Começa — cito de memória e me sujeito a erros — assim: “Menina e moça me levaram da casa de minha mãe para muito longe. Que causa fosse então a daquela minha levada, era ainda pequena, não a soube.”

Lembro isso pelo caso que nos revoltou pela violência e pela maldade: a gravidez da menina de dez anos, violentada desde os seis, no Espírito Santo. Não entra em nosso entendimento, neste conjunto de valores que Deus nos deu, que se possa aceitar isso. É o mundo louco que a cada dia se revela. Certamente minha avó diria “é o fim do mundo”.

Essa atrocidade revoltou o Brasil, nosso povo, independentemente da formação religiosa, independente da controvertida posição sobre o aborto. É uma brutal atrocidade que nos choca a começar pela monstruosidade corporal. Uma criança pura de sentimentos, sem saber o que é sexo e cujo corpo não está fisiologicamente apto para o ato sexual.

O nosso sistema jurídico só permite o casamento a partir dos 16 anos, assim mesmo com o consentimento dos pais, pois a idade legal de casar é 18 anos. Com menos de 16 só em caso de gravidez. É verdade que a realidade é bem outra. Estamos em 4º lugar em casamentos de crianças de até 15 anos, precedidos pela Índia, Bangladesh e Nigéria. E pasmem: no Brasil o Estado onde é primeiro é o Maranhão.

Uma vez ouvi em Bacabal de um chefe político a história de um fazendeiro que tinha a fama de comprar virgindade, quase sempre de mocinhas pobres. Fiquei chocado, mas atribuí a informação em parte a essas infâmias que, no interior, colam nos adversários políticos para desqualificá-los e destruí-los.

Verdade é que essa menina ficará como um caso ultrajante na história dos nossos costumes. Pensar numa menina grávida aos dez anos, violentada pelo tio, e no martírio da violação desde os seis anos de idade, cria indignação e revolta.

É que o ato sexual não envolve só o contato corporal, mas uma gama de sentimentos contraditórios que vão desde o amor até à vivência das relações pessoais, do afeto até a devassidão e o ultraje, para os quais as pessoas têm de ter a faculdade de reação. Envolve a pureza e o carinho de estar junto. Foi o Criador, segundo o Gênesis, que melhor o definiu dizendo que “serão dois em um”.

A inocência, esse aspecto de fragilidade e ternura que envolve a meninice, nos leva a ter a infância como uma fonte sublime e pura da existência humana. Ela se revela na alegria da graça da vida, num tempo que forma nossas referências e fica como memória. Mas esse período ficará para essa menina como apenas o horror desse bárbaro episódio.

A menina não perdeu somente a virgindade e inocência. Perdeu o nome, perdeu a identidade, tem que ser outra para ser a mesma.

Como viverá daqui para frente? Como apagará essa indelével mancha?

O Estado do Maranhão, 22/08/2020

 

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José Sarney - Sexto ocupante da Cadeira nº 38 da ABL, eleito em 17 de julho de 1980, na sucessão de José Américo de Almeida e recebido em 6 de novembro de 1980 pelo Acadêmico Josué Montello. Recebeu os Acadêmicos Marcos Vinicios Vilaça e Affonso Arinos de Mello Franco.


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domingo, 23 de agosto de 2020

PALAVRA DA SALVAÇÃO (198)

21º Domingo do Tempo Comum – 23/08/2020


Anúncio do Evangelho (Mt 16,13-20)

— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Mateus.

— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, Jesus foi à região de Cesareia de Filipe e aí perguntou a seus discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” Eles responderam: “Alguns dizem que é João Batista; outros, que é Elias; outros ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas”. Então Jesus lhes perguntou: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Simão Pedro respondeu: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. Respondendo, Jesus lhe disse: “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. Por isso, eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que tu ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será desligado nos céus”.

Jesus, então, ordenou aos discípulos que não dissessem a ninguém que ele era o Messias.

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

https://liturgia.cancaonova.com/pb/

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe.  Roger Araújo:


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A solidez em nossa vida

 

 “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” (Mt 16,13)

 

Outra vez Jesus se retira com seus discípulos, agora para a região de Cesaréia de Filipe. Vão tratar assuntos que ultrapassam a problemática estritamente judaica; por isso, Mateus situa a cena em outro território, fora do espaço onde prevalece uma concepção do Messias estritamente nacionalista, para dar a entender que Jesus está aberto a outros povos.

De fato, Jesus entrou em conflito com a religião judaica e suas instituições (sinagoga, templo de Jerusalém). Ele não foi sacerdote, nem funcionário do Templo, nem ostentou cargo algum relacionado com a religião; não foi um mestre da Lei; Jesus foi um leigo. Fugiu de todo poder, e se preocupou especialmente em cuidar das pessoas mais pobres e marginalizadas. Não se preocupou em fundar estritamente uma religião.Cercou-se de pessoas, mulheres e homens, dispostos a continuar seu caminho, anunciando a mensagem do Reino de Deus, proclamando as bem-aventuranças como projeto humanizador, denunciando as opressões e injustiças e tornando realidade a salvação do Deus Pai e Mãe.

Este grupo de homens e mulheres acompanha Jesus em todas as partes, fazendo com Ele vida itinerante; mas também encontramos um grupo mais amplo de pessoas que, vivendo em suas casas e continuando em suas tarefas, são, no entanto, discípulos(as) de Jesus, apoiando-o, recebendo-o, seguindo-o. Todos eles formam o “movimento de Jesus”

No evangelho deste domingo é a primeira vez que encontramos o termo “Igreja” para determinar a nova comunidade dos(as) seguidores(as) de Jesus. Mateus utiliza a palavra que na tradução dos setenta se emprega para designar a assembléia (“eklesia”). Evidentemente, Jesus não “instituiu” nenhuma “estrutura eclesial” propriamente dita: uma doutrina, uma liturgia, um governo... Jesus pôs em marcha um movimento de vida, que, através de muitas circunstâncias e vicissitude históricas, desembocará em comunidades organizadas e, muito mais tarde, em uma Igreja centralizada.

Jesus começou atuando sozinho, mas logo reuniu um grupo de discípulos em torno a si. Assim fizeram os grandes mestres na história da humanidade: Buda, Confúcio, Sócrates...

Professar nossa adesão à pessoa de Jesus de Nazaré, é entrar no movimento de vida iniciado por Ele, em torno à sua pessoa e à sua mensagem que cura e liberta de toda escravidão e dominação. Também nós nos sentimos e queremos ser discípulos(as) de Jesus. É o Reino de Deus que nos congrega, que reforça vínculos e nos faz comunidade. Seu movimento nos impulsiona e queremos impulsioná-lo. Move-nos a alegria, muitas vezes oculta, da mesma boa notícia e a esperança difícil do Reino de Deus.

Somos Igreja de Jesus. Mas, como é a “Igreja” que Jesus quis? É, antes de tudo, comunidade de pessoas, homens e mulheres que vão amadurecendo no seguimento d’Ele. E é comunidade totalmente aberta ao mundo, casa onde todos encontram lugar de acolhida e comunhão; uma “igreja em saída”. O que é radicalmente contrário ao Evangelho da fraternidade é o sectarismo, o fanatismo, o fechamento diante da realidade desafiante e a discriminação de toda e qualquer pessoa. 

Também hoje, Jesus dirige a cada um de nós a mesma pregunta que um dia fez aos seus discípulos: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Ele não nos pergunta para saber nossa resposta teológica sobre a identidade d’Ele, mas para que revisemos nossa relação com Ele. Que podemos lhe responder a partir de nossas comunidades? Somos seguidores(as) da pessoa de Jesus ou só seguidores(as) de uma determinada religião, doutrinas, normas, leis? Conhecemos cada vez melhor a Jesus, ou O fechamos em nossos velhos esquemas doutrinários de sempre? Somos comunidades vivas, interessadas em colocar Jesus no centro de nossas vidas e de nossas atividades, ou vivemos estancados na rotina e na mediocridade?

Diante da pergunta de Jesus – “E vós, quem dizeis que eu sou?” – o Evangelho deste domingo realça a resposta de Pedro e a missão que Jesus lhe confere. Pedro é instigado a entrar no fluxo do amor-serviço do Mestre; e isso não pode ser confundido com “transferência de poder”. Pior ainda é quando confundimos o “poder das chaves” com a “chave do poder”. Quem tem a chave tem o poder.

Nenhum exercício do poder é evangélico; muito menos o “poder religioso”. Não há nada mais contrário à mensagem de Jesus que o poder. Jesus não transfere “poder” a Pedro; reforça nele a liderança para o cuidado e o serviço aos outros. Nenhum ser humano é mais que outro, nem está acima do outro. “Não chameis a ninguém de pai, não chameis a ninguém chefe, não chameis a ninguém senhor, porque todos vós sois irmãos”. A única autoridade que Jesus admite é o serviço. 

Jesus não exerceu poder porque o poder nunca é mediação para a libertação do ser humano (seja poder político, religioso, ou qualquer outra expressão de poder). Jesus despoja-se do poder; Ele tem autoridade: “ensinava-lhes com autoridade e não como os escribas”. Sua autoridade é caminho para o serviço e a promoção da vida. Por isso a autoridade de Jesus não tem nada a ver com o poder que domina ou a liderança que se impõe.

Jesus tem “autoridade” porque o “centro” está no outro; Ele veio para servir. Jesus tem autoridade porque ativa a autoria e a autonomia no outro; sua autoridade desperta o melhor que há em cada pessoa; ela não cria dependência e nem tira do outro a capacidade de dar direção à sua própria vida. Quem tem “poder”, ao contrário, o centro está em si mesmo; por isso é que toda expressão de poder é violenta, exclui, impõe-se ao outro, decide por ele... O poder alimenta dependência e submissão.

O olhar profundo de Jesus levará Pedro também a se conectar com seu ser mais profundo (aquilo que é mais sólido), com sua realidade mais verdadeira, com os desejos de seu coração ainda não configurados pelo amor. Quando Jesus fixa o olhar em Simão, seus olhos descobrem no interior deste homem um nome escondido (Pedro), e ao pronunciá-lo, possibilita-lhe despertar essa vocação já inscrita no mais profundo de seu ser. Aqui começa para Pedro uma nova história, que já não será narrada por ele sozinho, mas em comunhão com Jesus, entre idas e vindas, fragilidades e fortalezas, tentativas no amor e fracassos...

Nas itinerâncias de Jesus, Pedro foi convidado a “fazer caminho com Ele”, começando pelo próprio interior; impactado pela ternura cuidadosa de Jesus em sua vida, Pedro irá sendo conduzido a descobrir-se, a ser cada vez mais consciente de si mesmo e adentrar-se por rotas novas de liberdade, de vida, de entrega...

Mateus faz um sugestivo jogo de palavras entre dois nomes gregos comuns: “petros” (pedra) e “petra” (rocha). “Petros” tem o significado de pedra comum, pedregulho, sem consistência; “petra”, por sua vez, significa rocha, pedra sólida sobre a qual se assenta um edifício. “Tu és petros e sobre esta petra...”

Aparece, então, a comparação-oposição entre a fragilidade e a pequenez da pedra frente à segurança e robustez da rocha. Pedro é “pedra” em sua fragilidade humana, mas é “rocha” em sua manifestação de fé. A rocha não é a pessoa de Pedro, mas a fé de Pedro. Sobre essa rocha-fé de Pedro Jesus deseja edificar sua comunidade de seguidores.

Nesse sentido, o Evangelho de hoje também nos ajuda a ler nossa vida. Ali afirma-se também a nossa identidade; e a nossa identidade se revela por aquilo que é sólido, consistente... no nosso interior, que não se desfaz com as adversidades do mundo no qual vivemos (crises, fracassos...).

Toda pessoa possui dentro de si uma profundidade que é seu mistério íntimo e pessoal. Sobre essa “rocha” construímos nossa maneira de seguir a Jesus.

Texto bíblico:  Mt 16,13-20 

Na oração: Devemos aprender a olhar a vida e as pessoas como Jesus as olhava, ou seja, um olhar capaz de vislumbrar o mais humano e mais divino em cada um(a), um olhar que faz emergir a rocha consistente, sobre a qual construir um estilo de vida, à maneira de Jesus.

- Ao sentir-se olhado por Jesus, como Pedro, você é capaz de vislumbrar outros dons, recursos, capacidades... do seu próprio interior e que darão a solidez à sua própria vida? O que é “petra” no seu interior?

Pe. Adroaldo Palaoro sj 

https://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/2124-a-solidez-em-nossa-vida


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sábado, 22 de agosto de 2020

HISTÓRIA, SONHO REAL


             História, Sonho real

9 de agosto de 2020

Para esses dias em que esquerdistas esquizofrênicos procuram reescrever a História — editando-a de acordo com seus interesses ideológicos partidários — seguem algumas frases para refletirmos neste fim de semana.


 “A História é a testemunha dos tempos, a luz da verdade, a vida da memória, a mestra da vida, a mensageira da antiguidade”.

(Cícero)

“Cícero afirmou que a História é a mestra da vida; e eu digo que a vida é também a mestra da História, pois entendendo a vida se conhece melhor a História”.

(Plinio Corrêa de Oliveira)

“O historiador e o poeta se distinguem um do outro, não pelo fato de o primeiro escrever em prosa e o segundo em verso. Diferem entre si porque um escreve o que aconteceu, e o outro o que poderia ter acontecido”.

(Aristóteles)

“O romance é a história dos homens, e a História é o romance dos reis”.

(Alphonse Daudet)

“Afirma-se que a História é o breviário dos reis”.

(Henri de Saint-Simon)

 “A História, de qualquer modo que seja escrita, sempre encanta”.

(Plinio o Moço)

“A História não estuda só os fatos materiais e as instituições, seu verdadeiro objeto de estudo é a alma humana”.

(Fustel de Coulanges)

 

https://www.abim.inf.br/historia-sonho-real/

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sexta-feira, 21 de agosto de 2020

ENTRE VOLPI E MODIGLIANI - Marco Lucchesi


Mais longa vida é um dos livros mais fascinantes de Marina Colasanti. Não sei dizer ao certo se acabo de ler ou de ouvir essa pequena sinfonia de dor e harmonia, dissonância e bilinguismo, transfigurada nas modulações e células rítmicas. Como quem segue, arrebatado, o segundo movimento do concerto para piano, op. 21, de Mozart, o famoso K 467. Ou talvez devo ter lido seus poemas, como quem recebe uma carta, com selo e carimbo, escrita por um amigo fraterno, perdido em alguma parte do mundo. Em poucas palavras, varei a madrugada, insone, com essa partitura luminosa, com essa carta de fundo mozartiano.

Impressiona ver a ampla cultura literária de Marina, sua intimidade com a poesia italiana e luso-brasileira, sem fronteira ou franquia. Marina invoca um diálogo raro, um diálogo anfíbio e duplicado, nas tramas da alma, da terra e da língua. Ungaretti e Drummond, Bandeira e Montale, Camões e Cecilia, Al Berto e Quasimodo caminham de mãos dadas. Ninguém se engane: não se trata de influência, mas de confluência. A voz de Marina é clara e original, solitária e singular.

Impera neste livro a delicadeza. O princípio de Mozart, ou de Pixinguinha, não permite estridência. A dor e a morte ocupam uma circunscrição bem de#nida e apolínea. Não há excesso, entre Volpi e Modigliani, apenas o essencial. Mais longa vida guarda o mistério de um livro sem mistério. A simplicidade do que é altamente complexo. O mais no menos, a luz nas trevas, o princípio no fim.

Saúdo, comovido, o livro de Marina e seu leitor. Será um encontro definitivo, sem volta, amoroso e fraterno.

Comunità Italiana, 18/08/2020

 https://www.academia.org.br/artigos/entre-volpi-e-modigliani

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Marco Lucchesi - Sétimo ocupante da cadeira nº 15 da ABL, eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila, foi recebido em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha. Foi eleito Presidente da ABL para o exercício de 2018.

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quinta-feira, 20 de agosto de 2020

O ALIENISTA CAP. I - Machado de Assis

De como Itaguaí ganhou uma Casa de Orates

 

            As crônicas da vila de Itaguaí dizem que em tempos remotos vivera ali um certo médico, o Dr. Simão Bacamarte, filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas. Estudara em Coimbra e Pádua. Aos trinta e quatro anos regressou ao Brasil, não podendo el-rei alcançar dele que ficasse em Coimbra, regendo a universidade, ou em Lisboa, expedindo os negócios da monarquia.

             — A ciência, disse ele a Sua Majestade, é o meu emprego único; Itaguaí é o meu universo.

            Dito isso, meteu-se em Itaguaí, e entregou-se de corpo e alma ao estudo da ciência, alternando as curas com as leituras, e demonstrando os teoremas com cataplasmas. Aos quarenta anos se casou com D. Evarista da Costa e Mascarenhas, senhora de vinte e cinco anos, viúva de um juiz de fora, e não bonita nem simpática. Um dos tios dele, caçador de pacas perante o Eterno, e não menos franco, admirou-se de semelhante escolha e disse-lho. Simão Bacamarte explicou-lhe que D. Evarista reunia condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso, e excelente vista; estava assim apta para dar-lhe filhos robustos, sãos e inteligentes. Se além dessas prendas, —únicas dignas da preocupação de um sábio, D. Evarista era mal composta de feições, longe de lastimá-lo, agradecia-o a Deus, porquanto não corria o risco de preterir os interesses da ciência na contemplação exclusiva, miúda e vulgar da consorte.

            D. Evarista mentiu às esperanças do Dr. Bacamarte, não lhe deu filhos robustos nem mofinos. A índole natural da ciência é a longanimidade; o nosso médico esperou três anos, depois quatro, depois cinco. Ao cabo desse tempo fez um estudo profundo da matéria, releu todos os escritores árabes e outros, que trouxera para Itaguaí, enviou consultas às universidades italianas e alemãs, e acabou por aconselhar à mulher um regímen alimentício especial. A ilustre dama, nutrida exclusivamente com a bela carne de porco de Itaguaí, não atendeu às admoestações do esposo; e à sua resistência, —explicável, mas inqualificável, — devemos a total extinção da dinastia dos Bacamartes.

            Mas a ciência tem o inefável dom de curar todas as mágoas; o nosso médico mergulhou inteiramente no estudo e na prática da medicina. Foi então que um dos recantos desta lhe chamou especialmente a atenção, —o recanto psíquico, o exame de patologia cerebral. Não havia na colônia, e ainda no reino, uma só autoridade em semelhante matéria, mal explorada, ou quase inexplorada. Simão Bacamarte compreendeu que a ciência lusitana, e particularmente a brasileira, podia cobrir-se de "louros imarcescíveis", — expressão usada por ele mesmo, mas em um arroubo de intimidade doméstica; exteriormente era modesto, segundo convém aos sabedores.

            — A saúde da alma, bradou ele, é a ocupação mais digna do médico.

            — Do verdadeiro médico, emendou Crispim Soares, boticário da vila, e um dos seus amigos e comensais.

            A vereança de Itaguaí, entre outros pecados de que é arguida pelos cronistas, tinha o de não fazer caso dos dementes. Assim é que cada louco furioso era trancado em uma alcova, na própria casa, e, não curado, mas descurado, até que a morte o vinha defraudar do benefício da vida; os mansos andavam à solta pela rua. Simão Bacamarte entendeu desde logo reformar tão ruim costume; pediu licença à Câmara para agasalhar e tratar no edifício que ia construir todos os loucos de Itaguaí e das demais vilas e cidades, mediante um estipêndio, que a Câmara lhe daria quando a família do enfermo o não pudesse fazer. A proposta excitou a curiosidade de toda a vila, e encontrou grande resistência, tão certo é que dificilmente se desarraigam hábitos absurdos, ou ainda maus. A ideia de meter os loucos na mesma casa, vivendo em comum, pareceu em si mesma sintoma de demência, e não faltou quem o insinuasse à própria mulher do médico.

            — Olhe, D. Evarista, disse-lhe o Padre Lopes, vigário do lugar, veja se seu marido dá um passeio ao Rio de Janeiro. Isso de estudar sempre, sempre, não é bom, vira o juízo.

            D. Evarista ficou aterrada, foi ter com o marido, disse-lhe "que estava com desejos", um principalmente, o de vir ao Rio de Janeiro e comer tudo o que a ele lhe parecesse adequado a certo fim. Mas aquele grande homem, com a rara sagacidade que o distinguia, penetrou a intenção da esposa e redarguiu-lhe sorrindo que não tivesse medo. Dali foi à Câmara, onde os vereadores debatiam a proposta, e defendeu-a com tanta eloquência, que a maioria resolveu autorizá-lo ao que pedira, votando ao mesmo tempo um imposto destinado a subsidiar o tratamento, alojamento e mantimento dos doidos pobres. A matéria do imposto não foi fácil achá-la; tudo estava tributado em Itaguaí. Depois de longos estudos, assentou-se em permitir o uso de dois penachos nos cavalos dos enterros. Quem quisesse emplumar os cavalos de um coche mortuário pagaria dois tostões à Câmara, repetindo-se tantas vezes esta quantia quantas fossem as horas decorridas entre a do falecimento e a da última bênção na sepultura. O escrivão perdeu-se nos cálculos aritméticos do rendimento possível da nova taxa; e um dos vereadores, que não acreditava na empresa do médico, pediu que se relevasse o escrivão de um trabalho inútil.

            — Os cálculos não são precisos, disse ele, porque o Dr. Bacamarte não arranja nada. Quem é que viu agora meter todos os doidos dentro da mesma casa?

            Enganava-se o digno magistrado; o médico arranjou tudo. Uma vez empossado da licença começou logo a construir a casa. Era na Rua Nova, a mais bela rua de Itaguaí naquele tempo, tinha cinquenta janelas por lado, um pátio no centro, e numerosos cubículos para os hóspedes. Como fosse grande arabista, achou no Corão que Maomé declara veneráveis os doidos, pela consideração de que Alá lhes tira o juízo para que não pequem. A idéia pareceu-lhe bonita e profunda, e ele a fez gravar no frontispício da casa; mas, como tinha medo ao vigário, e por tabela ao bispo, atribuiu o pensamento a Benedito VIII, merecendo com essa fraude aliás pia, que o Padre Lopes lhe contasse, ao almoço, a vida daquele pontífice eminente.

            A Casa Verde foi o nome dado ao asilo, por alusão à cor das janelas, que pela primeira vez apareciam verdes em Itaguaí. Inaugurou-se com imensa pompa; de todas as vilas e povoações próximas, e até remotas, e da própria cidade do Rio de Janeiro, correu gente para assistir às cerimônias, que duraram sete dias. Muitos dementes já estavam recolhidos; e os parentes tiveram ocasião de ver o carinho paternal e a caridade cristã com que eles iam ser tratados. D. Evarista, contentíssima com a glória do marido, vestira-se luxuosamente, cobriu-se de joias, flores e sedas. Ela foi uma verdadeira rainha naqueles dias memoráveis; ninguém deixou de ir visitá-la duas e três vezes, apesar dos costumes caseiros e recatados do século, e não só a cortejavam como a louvavam; porquanto, — e este fato é um documento altamente honroso para a sociedade do tempo, — porquanto viam nela a feliz esposa de um alto espírito, de um varão ilustre, e, se lhe tinham inveja, era a santa e nobre inveja dos admiradores.

            Ao cabo de sete dias expiraram as festas públicas; Itaguaí, tinha finalmente uma casa de orates.

 

Fonte:

MINISTÉRIO DA CULTURA

Fundação Biblioteca Nacional

Departamento Nacional do Livro

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Machado de Assis (Joaquim Maria Machado de Assis), jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 21 de junho de 1839, e faleceu também no Rio de Janeiro, em 29 de setembro de 1908. É o fundador da cadeira nº. 23 da Academia Brasileira de Letras. Velho amigo e admirador de José de Alencar, que morrera cerca de vinte anos antes da fundação da ABL, era natural que Machado escolhesse o nome do autor de O Guarani para seu patrono. Ocupou por mais de dez anos a presidência da Academia, que passou a ser chamada também de Casa de Machado de Assis.


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