Tomei emprestado para este artigo o título do livro de
Bernardim Ribeiro, que na minha adolescência fazia parte da formação clássica.
É velho como a Sé de Braga, como se diz em Portugal, de 1554. Começa — cito de
memória e me sujeito a erros — assim: “Menina e moça me levaram da casa de
minha mãe para muito longe. Que causa fosse então a daquela minha levada, era
ainda pequena, não a soube.”
Lembro isso pelo caso que nos revoltou pela violência e pela
maldade: a gravidez da menina de dez anos, violentada desde os seis, no
Espírito Santo. Não entra em nosso entendimento, neste conjunto de valores que
Deus nos deu, que se possa aceitar isso. É o mundo louco que a cada dia se
revela. Certamente minha avó diria “é o fim do mundo”.
Essa atrocidade revoltou o Brasil, nosso povo,
independentemente da formação religiosa, independente da controvertida posição
sobre o aborto. É uma brutal atrocidade que nos choca a começar pela
monstruosidade corporal. Uma criança pura de sentimentos, sem saber o que é
sexo e cujo corpo não está fisiologicamente apto para o ato sexual.
O nosso sistema jurídico só permite o casamento a partir dos
16 anos, assim mesmo com o consentimento dos pais, pois a idade legal de casar
é 18 anos. Com menos de 16 só em caso de gravidez. É verdade que a realidade é
bem outra. Estamos em 4º lugar em casamentos de crianças de até 15 anos,
precedidos pela Índia, Bangladesh e Nigéria. E pasmem: no Brasil o Estado onde
é primeiro é o Maranhão.
Uma vez ouvi em Bacabal de um chefe político a história de
um fazendeiro que tinha a fama de comprar virgindade, quase sempre de mocinhas
pobres. Fiquei chocado, mas atribuí a informação em parte a essas infâmias que,
no interior, colam nos adversários políticos para desqualificá-los e
destruí-los.
Verdade é que essa menina ficará como um caso ultrajante na
história dos nossos costumes. Pensar numa menina grávida aos dez anos,
violentada pelo tio, e no martírio da violação desde os seis anos de idade,
cria indignação e revolta.
É que o ato sexual não envolve só o contato corporal, mas
uma gama de sentimentos contraditórios que vão desde o amor até à vivência das
relações pessoais, do afeto até a devassidão e o ultraje, para os quais as
pessoas têm de ter a faculdade de reação. Envolve a pureza e o carinho de estar
junto. Foi o Criador, segundo o Gênesis, que melhor o definiu dizendo que
“serão dois em um”.
A inocência, esse aspecto de fragilidade e ternura que
envolve a meninice, nos leva a ter a infância como uma fonte sublime e pura da
existência humana. Ela se revela na alegria da graça da vida, num tempo que
forma nossas referências e fica como memória. Mas esse período ficará para essa
menina como apenas o horror desse bárbaro episódio.
A menina não perdeu somente a virgindade e inocência. Perdeu
o nome, perdeu a identidade, tem que ser outra para ser a mesma.
Como viverá daqui para frente? Como apagará essa indelével
mancha?
O Estado do Maranhão, 22/08/2020
................
José Sarney - Sexto ocupante da Cadeira nº 38 da ABL, eleito
em 17 de julho de 1980, na sucessão de José Américo de Almeida e recebido em 6
de novembro de 1980 pelo Acadêmico Josué Montello. Recebeu os Acadêmicos Marcos
Vinicios Vilaça e Affonso Arinos de Mello Franco.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
Mateus.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, Jesus foi à região de Cesareia de
Filipe e aí perguntou a seus discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do
Homem?” Eles responderam: “Alguns dizem que é João Batista; outros, que
é Elias; outros ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas”. Então Jesus
lhes perguntou: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Simão Pedro respondeu:
“Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. Respondendo, Jesus lhe disse:
“Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te
revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. Por isso, eu te digo que tu
és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno
nunca poderá vencê-la. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o
que tu ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra
será desligado nos céus”.
Jesus, então, ordenou aos discípulos que não dissessem a
ninguém que ele era o Messias.
“Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” (Mt 16,13)
Outra vez Jesus se retira com seus discípulos, agora para a
região de Cesaréia de Filipe. Vão tratar assuntos que ultrapassam a
problemática estritamente judaica; por isso, Mateus situa a cena em outro
território, fora do espaço onde prevalece uma concepção do Messias estritamente
nacionalista, para dar a entender que Jesus está aberto a outros povos.
De fato, Jesus entrou em conflito com a religião judaica e
suas instituições (sinagoga, templo de Jerusalém). Ele não foi sacerdote,
nem funcionário do Templo, nem ostentou cargo algum relacionado com a religião;
não foi um mestre da Lei; Jesus foi um leigo. Fugiu de todo poder, e se
preocupou especialmente em cuidar das pessoas mais pobres e marginalizadas. Não
se preocupou em fundar estritamente uma religião.Cercou-se de pessoas, mulheres
e homens, dispostos a continuar seu caminho, anunciando a mensagem do Reino de
Deus, proclamando as bem-aventuranças como projeto humanizador, denunciando as
opressões e injustiças e tornando realidade a salvação do Deus Pai e Mãe.
Este grupo de homens e mulheres acompanha Jesus em todas as
partes, fazendo com Ele vida itinerante; mas também encontramos um grupo mais
amplo de pessoas que, vivendo em suas casas e continuando em suas tarefas, são,
no entanto, discípulos(as) de Jesus, apoiando-o, recebendo-o, seguindo-o. Todos
eles formam o “movimento de Jesus”.
No evangelho deste domingo é a primeira vez que encontramos
o termo “Igreja” para determinar a nova comunidade dos(as)
seguidores(as) de Jesus. Mateus utiliza a palavra que na tradução dos setenta
se emprega para designar a assembléia (“eklesia”). Evidentemente, Jesus não
“instituiu” nenhuma “estrutura eclesial” propriamente dita: uma doutrina, uma
liturgia, um governo... Jesus pôs em marcha um movimento de vida, que,
através de muitas circunstâncias e vicissitude históricas, desembocará em
comunidades organizadas e, muito mais tarde, em uma Igreja centralizada.
Jesus começou atuando sozinho, mas logo reuniu um grupo de
discípulos em torno a si. Assim fizeram os grandes mestres na história da
humanidade: Buda, Confúcio, Sócrates...
Professar nossa adesão à pessoa de Jesus de Nazaré, é entrar
no movimento de vida iniciado por Ele, em torno à sua pessoa e à sua
mensagem que cura e liberta de toda escravidão e dominação. Também nós nos
sentimos e queremos ser discípulos(as) de Jesus. É o Reino de Deus que nos congrega,
que reforça vínculos e nos faz comunidade. Seu movimento nos impulsiona e
queremos impulsioná-lo. Move-nos a alegria, muitas vezes oculta, da mesma boa
notícia e a esperança difícil do Reino de Deus.
Somos Igreja de Jesus. Mas, como é a “Igreja” que
Jesus quis? É, antes de tudo, comunidade de pessoas, homens e mulheres que vão
amadurecendo no seguimento d’Ele. E é comunidade totalmente aberta ao mundo,
casa onde todos encontram lugar de acolhida e comunhão; uma “igreja em
saída”. O que é radicalmente contrário ao Evangelho da fraternidade é o
sectarismo, o fanatismo, o fechamento diante da realidade desafiante e a
discriminação de toda e qualquer pessoa.
Também hoje, Jesus dirige a cada um de nós a mesma pregunta
que um dia fez aos seus discípulos: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Ele
não nos pergunta para saber nossa resposta teológica sobre a identidade d’Ele,
mas para que revisemos nossa relação com Ele. Que podemos lhe responder a
partir de nossas comunidades? Somos seguidores(as) da pessoa de Jesus ou só
seguidores(as) de uma determinada religião, doutrinas, normas, leis? Conhecemos
cada vez melhor a Jesus, ou O fechamos em nossos velhos esquemas doutrinários
de sempre? Somos comunidades vivas, interessadas em colocar Jesus no centro de
nossas vidas e de nossas atividades, ou vivemos estancados na rotina e na
mediocridade?
Diante da pergunta de Jesus – “E vós, quem dizeis que eu
sou?” – o Evangelho deste domingo realça a resposta de Pedro e a missão que
Jesus lhe confere. Pedro é instigado a entrar no fluxo do amor-serviço do
Mestre; e isso não pode ser confundido com “transferência de poder”. Pior ainda
é quando confundimos o “poder das chaves” com a “chave do
poder”. Quem tem a chave tem o poder.
Nenhum exercício do poder é evangélico; muito menos
o “poder religioso”. Não há nada mais contrário à mensagem de Jesus que o poder. Jesus
não transfere “poder” a Pedro; reforça nele a liderança para o cuidado e
o serviço aos outros. Nenhum ser humano é mais que outro, nem está acima
do outro. “Não chameis a ninguém de pai, não chameis a ninguém chefe,
não chameis a ninguém senhor, porque todos vós sois irmãos”. A única
autoridade que Jesus admite é o serviço.
Jesus não exerceu poder porque o poder nunca
é mediação para a libertação do ser humano (seja poder político, religioso, ou
qualquer outra expressão de poder). Jesus despoja-se do poder; Ele
tem autoridade: “ensinava-lhes com autoridade e não como os escribas”. Sua autoridade é
caminho para o serviço e a promoção da vida. Por isso a autoridade de
Jesus não tem nada a ver com o poder que domina ou a liderança que
se impõe.
Jesus tem “autoridade” porque o “centro” está no
outro; Ele veio para servir. Jesus tem autoridade porque ativa a autoria e a
autonomia no outro; sua autoridade desperta o melhor que há em cada pessoa; ela
não cria dependência e nem tira do outro a capacidade de dar direção à sua
própria vida. Quem tem “poder”, ao contrário, o centro está em si mesmo;
por isso é que toda expressão de poder é violenta, exclui, impõe-se ao outro,
decide por ele... O poder alimenta dependência e submissão.
O olhar profundo de Jesus levará Pedro também a se conectar
com seu ser mais profundo (aquilo que é mais sólido), com sua realidade mais
verdadeira, com os desejos de seu coração ainda não configurados pelo amor.
Quando Jesus fixa o olhar em Simão, seus olhos descobrem no interior deste
homem um nome escondido (Pedro), e ao pronunciá-lo, possibilita-lhe despertar
essa vocação já inscrita no mais profundo de seu ser. Aqui começa para Pedro
uma nova história, que já não será narrada por ele sozinho, mas em comunhão com
Jesus, entre idas e vindas, fragilidades e fortalezas, tentativas no amor e
fracassos...
Nas itinerâncias de Jesus, Pedro foi convidado a “fazer
caminho com Ele”, começando pelo próprio interior; impactado pela ternura
cuidadosa de Jesus em sua vida, Pedro irá sendo conduzido a descobrir-se, a ser
cada vez mais consciente de si mesmo e adentrar-se por rotas novas de
liberdade, de vida, de entrega...
Mateus faz um sugestivo jogo de palavras entre dois nomes
gregos comuns: “petros” (pedra) e “petra” (rocha). “Petros” tem
o significado de pedra comum, pedregulho, sem consistência; “petra”, por
sua vez, significa rocha, pedra sólida sobre a qual se assenta um
edifício. “Tu és petros e sobre esta petra...”
Aparece, então, a comparação-oposição entre a fragilidade e
a pequenez da pedra frente à segurança e robustez da rocha. Pedro é “pedra” em
sua fragilidade humana, mas é “rocha” em sua manifestação de fé. A
rocha não é a pessoa de Pedro, mas a fé de Pedro. Sobre essa rocha-fé de
Pedro Jesus deseja edificar sua comunidade de seguidores.
Nesse sentido, o Evangelho de hoje também nos ajuda a ler nossa
vida. Ali afirma-se também a nossa identidade; e a nossa identidade se revela
por aquilo que é sólido, consistente... no nosso interior, que não se desfaz
com as adversidades do mundo no qual vivemos (crises, fracassos...).
Toda pessoa possui dentro de si uma profundidade que
é seu mistério íntimo e pessoal. Sobre essa “rocha” construímos nossa
maneira de seguir a Jesus.
Texto bíblico: Mt 16,13-20
Na oração: Devemos aprender a olhar a vida e as
pessoas como Jesus as olhava, ou seja, um olhar capaz de vislumbrar o mais
humano e mais divino em cada um(a), um olhar que faz emergir a rocha
consistente, sobre a qual construir um estilo de vida, à maneira de Jesus.
- Ao sentir-se olhado por Jesus, como Pedro, você é capaz de
vislumbrar outros dons, recursos, capacidades... do seu próprio interior e que
darão a solidez à sua própria vida? O que é “petra” no seu interior?
Para esses dias em que esquerdistas esquizofrênicos procuram
reescrever a História — editando-a de acordo com seus interesses ideológicos
partidários — seguem algumas frases para refletirmos neste fim de semana.
“A História é a testemunha dos tempos, a luz da
verdade, a vida da memória, a mestra da vida, a mensageira da antiguidade”.
(Cícero)
“Cícero afirmou que a História é a mestra da vida; e eu digo
que a vida é também a mestra da História, pois entendendo a vida se conhece
melhor a História”.
(Plinio Corrêa de Oliveira)
“O historiador e o poeta se distinguem um do outro, não pelo
fato de o primeiro escrever em prosa e o segundo em verso. Diferem entre si
porque um escreve o que aconteceu, e o outro o que poderia ter acontecido”.
(Aristóteles)
“O romance é a história dos homens, e a História é o romance
dos reis”.
(Alphonse Daudet)
“Afirma-se que a História é o breviário dos reis”.
(Henri de Saint-Simon)
“A História, de qualquer modo que seja escrita, sempre
encanta”.
(Plinio o Moço)
“A História não estuda só os fatos materiais e as
instituições, seu verdadeiro objeto de estudo é a alma humana”.
Mais longa vida é um dos livros mais fascinantes de Marina
Colasanti. Não sei dizer ao certo se acabo de ler ou de ouvir essa pequena
sinfonia de dor e harmonia, dissonância e bilinguismo, transfigurada nas
modulações e células rítmicas. Como quem segue, arrebatado, o segundo movimento
do concerto para piano, op. 21, de Mozart, o famoso K 467. Ou talvez devo ter
lido seus poemas, como quem recebe uma carta, com selo e carimbo, escrita por
um amigo fraterno, perdido em alguma parte do mundo. Em poucas palavras, varei
a madrugada, insone, com essa partitura luminosa, com essa carta de fundo
mozartiano.
Impressiona ver a ampla cultura literária de Marina, sua
intimidade com a poesia italiana e luso-brasileira, sem fronteira ou franquia.
Marina invoca um diálogo raro, um diálogo anfíbio e duplicado, nas tramas da
alma, da terra e da língua. Ungaretti e Drummond, Bandeira e Montale, Camões e
Cecilia, Al Berto e Quasimodo caminham de mãos dadas. Ninguém se engane: não se
trata de influência, mas de confluência. A voz de Marina é clara e original,
solitária e singular.
Impera neste livro a delicadeza. O princípio de Mozart, ou
de Pixinguinha, não permite estridência. A dor e a morte ocupam uma
circunscrição bem de#nida e apolínea. Não há excesso, entre Volpi e Modigliani,
apenas o essencial. Mais longa vida guarda o mistério de um livro sem mistério.
A simplicidade do que é altamente complexo. O mais no menos, a luz nas trevas,
o princípio no fim.
Saúdo, comovido, o livro de Marina e seu leitor. Será um
encontro definitivo, sem volta, amoroso e fraterno.
Marco Lucchesi - Sétimo ocupante da cadeira nº 15 da ABL,
eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila, foi
recebido em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha. Foi eleito
Presidente da ABL para o exercício de 2018.
As
crônicas da vila de Itaguaí dizem que em tempos remotos vivera ali um certo
médico, o Dr. Simão Bacamarte, filho da nobreza da terra e o maior dos médicos
do Brasil, de Portugal e das Espanhas. Estudara em Coimbra e Pádua. Aos trinta
e quatro anos regressou ao Brasil, não podendo el-rei alcançar dele que ficasse
em Coimbra, regendo a universidade, ou em Lisboa, expedindo os negócios da
monarquia.
— A ciência, disse ele a Sua
Majestade, é o meu emprego único; Itaguaí é o meu universo.
Dito isso, meteu-se em Itaguaí, e
entregou-se de corpo e alma ao estudo da ciência, alternando as curas com as
leituras, e demonstrando os teoremas com cataplasmas. Aos quarenta anos se
casou com D. Evarista da Costa e Mascarenhas, senhora de vinte e cinco anos,
viúva de um juiz de fora, e não bonita nem simpática. Um dos tios dele, caçador
de pacas perante o Eterno, e não menos franco, admirou-se de semelhante escolha
e disse-lho. Simão Bacamarte explicou-lhe que D. Evarista reunia condições
fisiológicas e anatômicas de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia
regularmente, tinha bom pulso, e excelente vista; estava assim apta para
dar-lhe filhos robustos, sãos e inteligentes. Se além dessas prendas, —únicas
dignas da preocupação de um sábio, D. Evarista era mal composta de feições,
longe de lastimá-lo, agradecia-o a Deus, porquanto não corria o risco de
preterir os interesses da ciência na contemplação exclusiva, miúda e vulgar da
consorte.
D.
Evarista mentiu às esperanças do Dr. Bacamarte, não lhe deu filhos robustos nem
mofinos. A índole natural da ciência é a longanimidade; o nosso médico esperou
três anos, depois quatro, depois cinco. Ao cabo desse tempo fez um estudo
profundo da matéria, releu todos os escritores árabes e outros, que trouxera
para Itaguaí, enviou consultas às universidades italianas e alemãs, e acabou
por aconselhar à mulher um regímen alimentício especial. A ilustre dama,
nutrida exclusivamente com a bela carne de porco de Itaguaí, não atendeu às
admoestações do esposo; e à sua resistência, —explicável, mas inqualificável, —
devemos a total extinção da dinastia dos Bacamartes.
Mas a
ciência tem o inefável dom de curar todas as mágoas; o nosso médico mergulhou
inteiramente no estudo e na prática da medicina. Foi então que um dos recantos
desta lhe chamou especialmente a atenção, —o recanto psíquico, o exame de
patologia cerebral. Não havia na colônia, e ainda no reino, uma só autoridade
em semelhante matéria, mal explorada, ou quase inexplorada. Simão Bacamarte
compreendeu que a ciência lusitana, e particularmente a brasileira, podia
cobrir-se de "louros imarcescíveis", — expressão usada por ele mesmo,
mas em um arroubo de intimidade doméstica; exteriormente era modesto, segundo
convém aos sabedores.
— A saúde da alma, bradou ele, é a
ocupação mais digna do médico.
— Do
verdadeiro médico, emendou Crispim Soares, boticário da vila, e um dos seus
amigos e comensais.
A vereança
de Itaguaí, entre outros pecados de que é arguida pelos cronistas, tinha o de
não fazer caso dos dementes. Assim é que cada louco furioso era trancado em uma
alcova, na própria casa, e, não curado, mas descurado, até que a morte o vinha
defraudar do benefício da vida; os mansos andavam à solta pela rua. Simão
Bacamarte entendeu desde logo reformar tão ruim costume; pediu licença à Câmara
para agasalhar e tratar no edifício que ia construir todos os loucos de Itaguaí
e das demais vilas e cidades, mediante um estipêndio, que a Câmara lhe daria quando
a família do enfermo o não pudesse fazer. A proposta excitou a curiosidade de
toda a vila, e encontrou grande resistência, tão certo é que dificilmente se
desarraigam hábitos absurdos, ou ainda maus. A ideia de meter os loucos na
mesma casa, vivendo em comum, pareceu em si mesma sintoma de demência, e não
faltou quem o insinuasse à própria mulher do médico.
— Olhe, D.
Evarista, disse-lhe o Padre Lopes, vigário do lugar, veja se seu marido dá um
passeio ao Rio de Janeiro. Isso de estudar sempre, sempre, não é bom, vira o
juízo.
D. Evarista ficou aterrada, foi ter com o marido, disse-lhe
"que estava com desejos", um principalmente, o de vir ao Rio de
Janeiro e comer tudo o que a ele lhe parecesse adequado a certo fim. Mas aquele
grande homem, com a rara sagacidade que o distinguia, penetrou a intenção da
esposa e redarguiu-lhe sorrindo que não tivesse medo. Dali foi à Câmara, onde
os vereadores debatiam a proposta, e defendeu-a com tanta eloquência, que a
maioria resolveu autorizá-lo ao que pedira, votando ao mesmo tempo um imposto
destinado a subsidiar o tratamento, alojamento e mantimento dos doidos pobres.
A matéria do imposto não foi fácil achá-la; tudo estava tributado em Itaguaí.
Depois de longos estudos, assentou-se em permitir o uso de dois penachos nos
cavalos dos enterros. Quem quisesse emplumar os cavalos de um coche mortuário
pagaria dois tostões à Câmara, repetindo-se tantas vezes esta quantia quantas
fossem as horas decorridas entre a do falecimento e a da última bênção na
sepultura. O escrivão perdeu-se nos cálculos aritméticos do rendimento possível
da nova taxa; e um dos vereadores, que não acreditava na empresa do médico,
pediu que se relevasse o escrivão de um trabalho inútil.
— Os
cálculos não são precisos, disse ele, porque o Dr. Bacamarte não arranja nada.
Quem é que viu agora meter todos os doidos dentro da mesma casa?
Enganava-se
o digno magistrado; o médico arranjou tudo. Uma vez empossado da licença
começou logo a construir a casa. Era na Rua Nova, a mais bela rua de Itaguaí
naquele tempo, tinha cinquenta janelas por lado, um pátio no centro, e
numerosos cubículos para os hóspedes. Como fosse grande arabista, achou no
Corão que Maomé declara veneráveis os doidos, pela consideração de que Alá lhes
tira o juízo para que não pequem. A idéia pareceu-lhe bonita e profunda, e ele
a fez gravar no frontispício da casa; mas, como tinha medo ao vigário, e por
tabela ao bispo, atribuiu o pensamento a Benedito VIII, merecendo com essa
fraude aliás pia, que o Padre Lopes lhe contasse, ao almoço, a vida daquele
pontífice eminente.
A Casa
Verde foi o nome dado ao asilo, por alusão à cor das janelas, que pela primeira
vez apareciam verdes em Itaguaí. Inaugurou-se com imensa pompa; de todas as
vilas e povoações próximas, e até remotas, e da própria cidade do Rio de
Janeiro, correu gente para assistir às cerimônias, que duraram sete dias.
Muitos dementes já estavam recolhidos; e os parentes tiveram ocasião de ver o
carinho paternal e a caridade cristã com que eles iam ser tratados. D.
Evarista, contentíssima com a glória do marido, vestira-se luxuosamente,
cobriu-se de joias, flores e sedas. Ela foi uma verdadeira rainha naqueles dias
memoráveis; ninguém deixou de ir visitá-la duas e três vezes, apesar dos
costumes caseiros e recatados do século, e não só a cortejavam como a louvavam;
porquanto, — e este fato é um documento altamente honroso para a sociedade do
tempo, — porquanto viam nela a feliz esposa de um alto espírito, de um varão
ilustre, e, se lhe tinham inveja, era a santa e nobre inveja dos admiradores.
Ao cabo de
sete dias expiraram as festas públicas; Itaguaí, tinha finalmente uma casa de
orates.
Fonte:
MINISTÉRIO DA CULTURA
Fundação Biblioteca Nacional
Departamento Nacional do Livro
............
Machado de Assis (Joaquim Maria Machado de Assis),
jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo, nasceu no Rio
de Janeiro, RJ, em 21 de junho de 1839, e faleceu também no Rio de Janeiro, em
29 de setembro de 1908. É o fundador da cadeira nº. 23 da Academia Brasileira
de Letras. Velho amigo e admirador de José de Alencar, que morrera cerca de
vinte anos antes da fundação da ABL, era natural que Machado escolhesse o nome
do autor de O Guarani para seu patrono. Ocupou por mais de dez anos a
presidência da Academia, que passou a ser chamada também de Casa de Machado de
Assis.
Toda a Itália festeja este ano o centenário de um dos
maiores gênios do Séc. XX, o cineasta Federico Fellini, de tantas obras-primas,
patrimônios da Sétima Arte. São muitas as manifestações, e uma delas, talvez a
mais significativa, será a inauguração do Museu Internacional Fellini, em
Rimini, sua cidade natal, na costa adriática da bota italiana. E o mundo também
o homenageia: aqui em Salvador, a Editora da Universidade Federal da Bahia -
Edufba, dirigida por Flávia Goulart Rosa, acaba de lançar "Diálogos com
Fellini", organizado por Cássia Lopes e Paulo Henrique Alcântara. O livro
reúne textos deles, de Antonella Rita Roscilli (de Roma) e Mauro Porru, entre
outros, num total de 11 artigos.
...........
Ateliê francês
Um grupo de jornalistas internacionais da APE, que é a
Associação da Imprensa Estrangeira de Paris, já tem encontro marcado após as
férias de verão, na capital francesa: vão visitar o fantástico ateliê da
Reunião dos Museus Nacionais da França, e do Grand Palais que fica nos
Champs-Élysées. É onde técnicos e artistas moldam e fabricam cerca de seis mil
peças conhecidas mundialmente, a partir das obras-primas, e que ficam à venda
nas butiques desses museus. Será no dia 19 de setembro, e à frente da iniciativa
está a diretora de comunicação das butiques da RMN, Sophie Mestiri.
............
Prosa e poesia
Membro das
Academias de Letras da Bahia, de Ilhéus e de Itabuna, publicado também
no exterior, Doutor Honoris Causa da Uesc - Universidade Estadual Santa
Cruz, autor de extensa obra, de vários gêneros, o escritor e poeta Cyro de
Mattos acaba de publicar pela editora baiana Via Litterarum o livro “Prosa e Poesia
no Sul da Bahia”, com capa do consagrado desenhista Juarez Paraís o,
também membro da Academia de letras da Bahia. Na obra, estuda autores que
enfocam em seus textos a civilização cacaueira ou mantém com ela laços de
origem, sintonizados na raiz com um contexto de natureza, cultural,
singular e importância histórica.
Segundo Cyro, esse
livro de ensaios, alguns escritos ao longo do tempo, reúne nomes
consagrados que ultrapassaram as fronteiras nacionais, outros que
são reconhecidos em nível nacional e alguns que são retirados
dos limites de seu município, onde se encontram, por certas
circunstâncias, fora de uma circulação literária mais abrangente, o
que nem sempre parece justo. A obra funciona como testamento crítico
valioso sobre a produção de uma região poderosa no campo das letras, que vem
contribuindo para a expansão do acervo cultural e literário da Bahia e do
Brasil.
No volume de
350 páginas, Cyro de Mattos estuda obras de 47 autores sulinos do Estado da
Bahia. Entre eles estão: Jorge Amado, Adonias Filho, Sosígenes Costa, Telmo
Padilha, Valdelice Soares Pinheiro, Sônia Coutinho, Ricardo Cruz, Lilia
Gramacho, Florisvaldo Mattos, Marcos Santarrita, Piligra, Abel Pereira,
Jorge Medauar, Ildázio Tavares, Euclides Neto, Afrânio Peixoto, Adelmo
Oliveira, Hélio Pólvora, Fernando Leite Mendes, Margarda Fahel,
Jorge Araújo e Minelvino, dentre outros.
--------------------
“Uma coisa admirável nos seus ensaios é o fato de não ficar
citando Roland Barthes, Deleuze, Derrida etc etc etc. Seus ensaios são
verdadeiros ensaios, como os compreendo, como José Paulo Paes compreendia.
Atualmente, os ensaístas se preocupam apenas em citar vários nomes que estão na
moda. Na verdade, não dizem nada, reproduzem os outros. Seus ensaios plasmam o
resultado de sua reflexão após a leitura e, como escritor que você é, oferece
ao leitor uma percepção aguda da leitura realizada.”
Gerana Damulakis, crítica com vários livros publicados,
durante dez anos assinou a coluna Leitura Crítica do Jornal A Tarde, pertence à
Academia de Letras da Bahia
Itabuna-Bahia. Praça Olinto Leone (ao fundo o antigo "Castelinho", propriedade do intendente Henrique Alves e a antiga Igreja Matriz, ambas as construções não existem mais.)
Fonte: http://historiadeitabuna.blogspot.com
Era Uma Vez
um Castelo
Helena
Borborema
Assim começam as histórias
infantis, assim também vou iniciar esta minha recordação de infância.
Era uma vez... muito tempo
atrás, bem no início da década de vinte, um rico senhor de terras e cacauais,
movido mais pelo seu espírito de esteta do que por ostentação, desejou dar a
uma de suas filhas noivas, como presente de casamento, uma bela mansão. Mas,
como realizar o seu sonho numa terra onde tudo faltava, onde as coisas belas do
espírito nem eram cogitadas, onde o homem vivia apenas em torno dos seus
imensos cacauais, seu império e horizonte? O homem rico, porém, sonhava alto,
tinha visão larga para o seu tempo e seu meio. Queria uma bonita vivenda, algo
que embelezasse a sua cidade, e para isso embarcou para Salvador em busca de um
arquiteto.
A planta de uma bela obra foi
traçada, um mini castelo moderno, estilizado, a ser erguido nessas terras
grapiúnas que ainda cheiravam a lama, e em pleno século XX. No meio de um
casario desprovido de quaisquer artifícios, surgiria uma bela construção. Para
tal obra, foram contratados os mais hábeis operários da cidade, entre os quais
se destacava um mestre-de-obras, o português seu Américo. Numa cidade onde o
comércio não chegara ainda a conhecer o requinte dos vidros coloridos, tintas
especiais, como levar avante obra tão exigente como o desenho da construção
requeria? Apesar de todas as dificuldades, inclusive o transporte de muito
material importado, a obra foi feita. A construção lembrava um castelo, com
pequenas ameias no alto adornando-o e simulação de uma torre num dos seus
lados. Elegante, com suas janelas adornadas de vidros coloridos, diferente dos
castelos medievais ou quatrocentistas da Europa, austeros e sombrios,
assemelhava-os, no entanto, em certas linhas e aspectos, dando um visual
diferente de tudo o que já se vira em terras grapiúnas.
Um pintor, verdadeiro artista, com
prática de trabalho no Rio de Janeiro e em Salvador, foi chamado para decorar o
sobrado interna e externamente. Suas salas e aposentos receberam linda pintura
na qual sobressaíam artísticos ramalhetes e guirlandas dispostas entre
delicados frisos dourados. Pintura suave, linda, nas paredes. Além desses
detalhes, estavam os lustres de irisação que só o puro cristal podia dar sob o
efeito das lâmpadas, pendentes no teto de madeira trabalhada, o piso de madeira
nobre formando bonitos desenhos, janelas elegantes ornadas de vidros
importados, portas e escada de madeira de lei trabalhada com arte. Tudo dava ao
castelinho, como passou a ser chamado, um ar de muita beleza e aristocracia.
Primitivamente, o castelinho
ostentou na sua fachada duas grandes sereias, não sei se esculpidas por seu Américo,
as quais sustentavam com os braços erguidos e dobrados para trás, uma grande
sacada. Anos mais tarde, foram elas demolidas e substituídas por outro
ornamento. Era o sobrado uma obra de arquitetura diferente de tudo o que já se
vira em Itabuna e nas demais cidades da região.
Pelos salões do bonito castelinho
circulou, nos tempos áureos, a aristocracia do cacau, representada pelos seus
proprietários, os Alves Brandão, e convidados que participavam das festas da
família.
Durante anos o castelo da Praça
Olinto Leone, como era também chamado, se destacou como lindo cartão-postal. Era
admiração para todos que perto dele passassem. Quem não o olhava curioso? Lá
estava ele, de frente para a praça, esguio, principescamente lindo, dando um
quê de nobreza a todo aquele pedaço de rua e de praça. Sobressaindo no meio do
tradicional casario, era aquela construção o testemunho de uma época
endinheirada, monumento de amor à terra que tanto prodigalizou as benesses aos
que a ela se dedicaram, nela fizeram fortuna e souberam retribuir a sua
dadivosidade. Era ele o símbolo, a expressão da crença de um homem, Firmino
Alves, no futuro de uma cidade.
O tempo foi passando, e com ele foi
embora uma parte daquela geração de homens suados pelo trabalho da terra, por
isso mesmo carregados de amor e apego ao chão de suas lutas e ideais. Novas gentes
chegaram a Itabuna, como chegam as folhas novas de uma árvore após o outono. O tronco
é o mesmo, não muda, mas as folhas são outras. Veio o desapego, o desamor à
tradição. Para que conservar o que nada significava de amor para elas? E num
triste dia, silenciosamente, na calada da noite, impiedosamente, sem protestos,
sem o menor respeito ao sentimento de um povo, sem nenhuma causa justificável,
o castelinho foi jogado abaixo, como se com ele jogassem no lixo as relíquias
do passado de um povo, de uma cidade.
Hoje, já não podemos mais ostentar aquela
obra de arte da Itabuna antiga, saída da destreza das mãos de artistas que a
ergueram. Apenas choramos o seu desaparecimento. Os jovens itabunenses vão
saber do Castelinho por ouvir contar: “era uma vez um castelo...”.
Fui mais feliz do que eles, pois
ainda guardo, como boa lembrança de infância, os momentos que olhei o lindo
castelo com prazer, e o encantamento que suas grandes sereias proporcionaram ao
meu espírito infantil. Recordo a sua entrada elegante, sua porta de madeira
lindamente trabalhada e a escadaria externa, diante da qual muitas vezes parei,
na volta da escola primária, na tentação de querer brincar de escorregar pelos
seus degraus abaixo, animada pelo convite que a magia do Castelinho fazia ao
meu espírito de criança, sob o olhar de pedra duro e frio das duas sereias.
(RETALHOS)
Helena
Borborema
...................
HELENA
BORBOREMA
Nasceu em Itabuna. Professora de Geografia lecionou
muitos anos no Colégio Divina Providência, na Ação Fraternal e no Colégio
Estadual de Itabuna. Formada em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia de
Itabuna. Exerceu o cargo de Secretária de Educação e Cultura do
Município. (A autora)
....................
Conhecida
professora itabunense, filha do Dr. Lafayette Borborema, o primeiro advogado de
Itabuna. É autora de ‘Terras do Sul’, livro em que documento, memória e
imaginação se unem num discurso despretensioso para testemunhar o quadro social
e humano daqueles idos de Tabocas. Para a professora universitária Margarida
Fahel, ‘Terras do Sul’ são estórias simples, plenas de ‘emoção e humanidade,
querendo inscrever no tempo a história de uma gente, o caminho de um rio, a
esperança de uma professora que crê no homem e na terra’. (Cyro de Mattos
em ITABUNA, CHÃO DE MINHAS RAÍZES 1996)