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sábado, 22 de agosto de 2020

HISTÓRIA, SONHO REAL


             História, Sonho real

9 de agosto de 2020

Para esses dias em que esquerdistas esquizofrênicos procuram reescrever a História — editando-a de acordo com seus interesses ideológicos partidários — seguem algumas frases para refletirmos neste fim de semana.


 “A História é a testemunha dos tempos, a luz da verdade, a vida da memória, a mestra da vida, a mensageira da antiguidade”.

(Cícero)

“Cícero afirmou que a História é a mestra da vida; e eu digo que a vida é também a mestra da História, pois entendendo a vida se conhece melhor a História”.

(Plinio Corrêa de Oliveira)

“O historiador e o poeta se distinguem um do outro, não pelo fato de o primeiro escrever em prosa e o segundo em verso. Diferem entre si porque um escreve o que aconteceu, e o outro o que poderia ter acontecido”.

(Aristóteles)

“O romance é a história dos homens, e a História é o romance dos reis”.

(Alphonse Daudet)

“Afirma-se que a História é o breviário dos reis”.

(Henri de Saint-Simon)

 “A História, de qualquer modo que seja escrita, sempre encanta”.

(Plinio o Moço)

“A História não estuda só os fatos materiais e as instituições, seu verdadeiro objeto de estudo é a alma humana”.

(Fustel de Coulanges)

 

https://www.abim.inf.br/historia-sonho-real/

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sexta-feira, 21 de agosto de 2020

ENTRE VOLPI E MODIGLIANI - Marco Lucchesi


Mais longa vida é um dos livros mais fascinantes de Marina Colasanti. Não sei dizer ao certo se acabo de ler ou de ouvir essa pequena sinfonia de dor e harmonia, dissonância e bilinguismo, transfigurada nas modulações e células rítmicas. Como quem segue, arrebatado, o segundo movimento do concerto para piano, op. 21, de Mozart, o famoso K 467. Ou talvez devo ter lido seus poemas, como quem recebe uma carta, com selo e carimbo, escrita por um amigo fraterno, perdido em alguma parte do mundo. Em poucas palavras, varei a madrugada, insone, com essa partitura luminosa, com essa carta de fundo mozartiano.

Impressiona ver a ampla cultura literária de Marina, sua intimidade com a poesia italiana e luso-brasileira, sem fronteira ou franquia. Marina invoca um diálogo raro, um diálogo anfíbio e duplicado, nas tramas da alma, da terra e da língua. Ungaretti e Drummond, Bandeira e Montale, Camões e Cecilia, Al Berto e Quasimodo caminham de mãos dadas. Ninguém se engane: não se trata de influência, mas de confluência. A voz de Marina é clara e original, solitária e singular.

Impera neste livro a delicadeza. O princípio de Mozart, ou de Pixinguinha, não permite estridência. A dor e a morte ocupam uma circunscrição bem de#nida e apolínea. Não há excesso, entre Volpi e Modigliani, apenas o essencial. Mais longa vida guarda o mistério de um livro sem mistério. A simplicidade do que é altamente complexo. O mais no menos, a luz nas trevas, o princípio no fim.

Saúdo, comovido, o livro de Marina e seu leitor. Será um encontro definitivo, sem volta, amoroso e fraterno.

Comunità Italiana, 18/08/2020

 https://www.academia.org.br/artigos/entre-volpi-e-modigliani

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Marco Lucchesi - Sétimo ocupante da cadeira nº 15 da ABL, eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila, foi recebido em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha. Foi eleito Presidente da ABL para o exercício de 2018.

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quinta-feira, 20 de agosto de 2020

O ALIENISTA CAP. I - Machado de Assis

De como Itaguaí ganhou uma Casa de Orates

 

            As crônicas da vila de Itaguaí dizem que em tempos remotos vivera ali um certo médico, o Dr. Simão Bacamarte, filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas. Estudara em Coimbra e Pádua. Aos trinta e quatro anos regressou ao Brasil, não podendo el-rei alcançar dele que ficasse em Coimbra, regendo a universidade, ou em Lisboa, expedindo os negócios da monarquia.

             — A ciência, disse ele a Sua Majestade, é o meu emprego único; Itaguaí é o meu universo.

            Dito isso, meteu-se em Itaguaí, e entregou-se de corpo e alma ao estudo da ciência, alternando as curas com as leituras, e demonstrando os teoremas com cataplasmas. Aos quarenta anos se casou com D. Evarista da Costa e Mascarenhas, senhora de vinte e cinco anos, viúva de um juiz de fora, e não bonita nem simpática. Um dos tios dele, caçador de pacas perante o Eterno, e não menos franco, admirou-se de semelhante escolha e disse-lho. Simão Bacamarte explicou-lhe que D. Evarista reunia condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso, e excelente vista; estava assim apta para dar-lhe filhos robustos, sãos e inteligentes. Se além dessas prendas, —únicas dignas da preocupação de um sábio, D. Evarista era mal composta de feições, longe de lastimá-lo, agradecia-o a Deus, porquanto não corria o risco de preterir os interesses da ciência na contemplação exclusiva, miúda e vulgar da consorte.

            D. Evarista mentiu às esperanças do Dr. Bacamarte, não lhe deu filhos robustos nem mofinos. A índole natural da ciência é a longanimidade; o nosso médico esperou três anos, depois quatro, depois cinco. Ao cabo desse tempo fez um estudo profundo da matéria, releu todos os escritores árabes e outros, que trouxera para Itaguaí, enviou consultas às universidades italianas e alemãs, e acabou por aconselhar à mulher um regímen alimentício especial. A ilustre dama, nutrida exclusivamente com a bela carne de porco de Itaguaí, não atendeu às admoestações do esposo; e à sua resistência, —explicável, mas inqualificável, — devemos a total extinção da dinastia dos Bacamartes.

            Mas a ciência tem o inefável dom de curar todas as mágoas; o nosso médico mergulhou inteiramente no estudo e na prática da medicina. Foi então que um dos recantos desta lhe chamou especialmente a atenção, —o recanto psíquico, o exame de patologia cerebral. Não havia na colônia, e ainda no reino, uma só autoridade em semelhante matéria, mal explorada, ou quase inexplorada. Simão Bacamarte compreendeu que a ciência lusitana, e particularmente a brasileira, podia cobrir-se de "louros imarcescíveis", — expressão usada por ele mesmo, mas em um arroubo de intimidade doméstica; exteriormente era modesto, segundo convém aos sabedores.

            — A saúde da alma, bradou ele, é a ocupação mais digna do médico.

            — Do verdadeiro médico, emendou Crispim Soares, boticário da vila, e um dos seus amigos e comensais.

            A vereança de Itaguaí, entre outros pecados de que é arguida pelos cronistas, tinha o de não fazer caso dos dementes. Assim é que cada louco furioso era trancado em uma alcova, na própria casa, e, não curado, mas descurado, até que a morte o vinha defraudar do benefício da vida; os mansos andavam à solta pela rua. Simão Bacamarte entendeu desde logo reformar tão ruim costume; pediu licença à Câmara para agasalhar e tratar no edifício que ia construir todos os loucos de Itaguaí e das demais vilas e cidades, mediante um estipêndio, que a Câmara lhe daria quando a família do enfermo o não pudesse fazer. A proposta excitou a curiosidade de toda a vila, e encontrou grande resistência, tão certo é que dificilmente se desarraigam hábitos absurdos, ou ainda maus. A ideia de meter os loucos na mesma casa, vivendo em comum, pareceu em si mesma sintoma de demência, e não faltou quem o insinuasse à própria mulher do médico.

            — Olhe, D. Evarista, disse-lhe o Padre Lopes, vigário do lugar, veja se seu marido dá um passeio ao Rio de Janeiro. Isso de estudar sempre, sempre, não é bom, vira o juízo.

            D. Evarista ficou aterrada, foi ter com o marido, disse-lhe "que estava com desejos", um principalmente, o de vir ao Rio de Janeiro e comer tudo o que a ele lhe parecesse adequado a certo fim. Mas aquele grande homem, com a rara sagacidade que o distinguia, penetrou a intenção da esposa e redarguiu-lhe sorrindo que não tivesse medo. Dali foi à Câmara, onde os vereadores debatiam a proposta, e defendeu-a com tanta eloquência, que a maioria resolveu autorizá-lo ao que pedira, votando ao mesmo tempo um imposto destinado a subsidiar o tratamento, alojamento e mantimento dos doidos pobres. A matéria do imposto não foi fácil achá-la; tudo estava tributado em Itaguaí. Depois de longos estudos, assentou-se em permitir o uso de dois penachos nos cavalos dos enterros. Quem quisesse emplumar os cavalos de um coche mortuário pagaria dois tostões à Câmara, repetindo-se tantas vezes esta quantia quantas fossem as horas decorridas entre a do falecimento e a da última bênção na sepultura. O escrivão perdeu-se nos cálculos aritméticos do rendimento possível da nova taxa; e um dos vereadores, que não acreditava na empresa do médico, pediu que se relevasse o escrivão de um trabalho inútil.

            — Os cálculos não são precisos, disse ele, porque o Dr. Bacamarte não arranja nada. Quem é que viu agora meter todos os doidos dentro da mesma casa?

            Enganava-se o digno magistrado; o médico arranjou tudo. Uma vez empossado da licença começou logo a construir a casa. Era na Rua Nova, a mais bela rua de Itaguaí naquele tempo, tinha cinquenta janelas por lado, um pátio no centro, e numerosos cubículos para os hóspedes. Como fosse grande arabista, achou no Corão que Maomé declara veneráveis os doidos, pela consideração de que Alá lhes tira o juízo para que não pequem. A idéia pareceu-lhe bonita e profunda, e ele a fez gravar no frontispício da casa; mas, como tinha medo ao vigário, e por tabela ao bispo, atribuiu o pensamento a Benedito VIII, merecendo com essa fraude aliás pia, que o Padre Lopes lhe contasse, ao almoço, a vida daquele pontífice eminente.

            A Casa Verde foi o nome dado ao asilo, por alusão à cor das janelas, que pela primeira vez apareciam verdes em Itaguaí. Inaugurou-se com imensa pompa; de todas as vilas e povoações próximas, e até remotas, e da própria cidade do Rio de Janeiro, correu gente para assistir às cerimônias, que duraram sete dias. Muitos dementes já estavam recolhidos; e os parentes tiveram ocasião de ver o carinho paternal e a caridade cristã com que eles iam ser tratados. D. Evarista, contentíssima com a glória do marido, vestira-se luxuosamente, cobriu-se de joias, flores e sedas. Ela foi uma verdadeira rainha naqueles dias memoráveis; ninguém deixou de ir visitá-la duas e três vezes, apesar dos costumes caseiros e recatados do século, e não só a cortejavam como a louvavam; porquanto, — e este fato é um documento altamente honroso para a sociedade do tempo, — porquanto viam nela a feliz esposa de um alto espírito, de um varão ilustre, e, se lhe tinham inveja, era a santa e nobre inveja dos admiradores.

            Ao cabo de sete dias expiraram as festas públicas; Itaguaí, tinha finalmente uma casa de orates.

 

Fonte:

MINISTÉRIO DA CULTURA

Fundação Biblioteca Nacional

Departamento Nacional do Livro

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Machado de Assis (Joaquim Maria Machado de Assis), jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 21 de junho de 1839, e faleceu também no Rio de Janeiro, em 29 de setembro de 1908. É o fundador da cadeira nº. 23 da Academia Brasileira de Letras. Velho amigo e admirador de José de Alencar, que morrera cerca de vinte anos antes da fundação da ABL, era natural que Machado escolhesse o nome do autor de O Guarani para seu patrono. Ocupou por mais de dez anos a presidência da Academia, que passou a ser chamada também de Casa de Machado de Assis.


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quarta-feira, 19 de agosto de 2020

TRÊS INÉDITAS VARIADAS

Fellini

Toda a Itália festeja este ano o centenário de um dos maiores gênios do Séc. XX, o cineasta Federico Fellini, de tantas obras-primas, patrimônios da Sétima Arte. São muitas as manifestações, e uma delas, talvez a mais significativa, será a inauguração do Museu Internacional Fellini, em Rimini, sua cidade natal, na costa adriática da bota italiana. E o mundo também o homenageia: aqui em Salvador, a Editora da Universidade Federal da Bahia - Edufba, dirigida por Flávia Goulart Rosa, acaba de lançar "Diálogos com Fellini", organizado por Cássia Lopes e Paulo Henrique Alcântara. O livro reúne textos deles, de Antonella Rita Roscilli (de Roma) e Mauro Porru, entre outros, num total de 11 artigos.

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Ateliê francês

Um grupo de jornalistas internacionais da APE, que é a Associação da Imprensa Estrangeira de Paris, já tem encontro marcado após as férias de verão, na capital francesa: vão visitar o fantástico ateliê da Reunião dos Museus Nacionais da França, e do Grand Palais que fica nos Champs-Élysées. É onde técnicos e artistas moldam e fabricam cerca de seis mil peças conhecidas mundialmente, a partir das obras-primas, e que ficam à venda nas butiques desses museus. Será no dia 19 de setembro, e à frente da iniciativa está a diretora de comunicação das butiques da RMN, Sophie Mestiri.

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Prosa e poesia

Membro das Academias de Letras da Bahia, de Ilhéus e de Itabuna,  publicado também  no exterior, Doutor Honoris Causa da Uesc - Universidade Estadual Santa Cruz, autor de extensa obra, de vários gêneros, o escritor e poeta Cyro de Mattos acaba de publicar pela editora baiana Via Litterarum o livro “Prosa e Poesia no Sul da Bahia”, com capa do consagrado desenhista Juarez  Paraís o,  também membro da Academia de letras da Bahia. Na obra, estuda autores que enfocam em seus textos a civilização cacaueira ou mantém com ela  laços de origem,  sintonizados na raiz com  um contexto de natureza, cultural, singular e importância histórica.

Segundo Cyro, esse livro de ensaios, alguns escritos ao longo do tempo,  reúne  nomes consagrados que  ultrapassaram as fronteiras nacionais, outros que  são reconhecidos em nível nacional e alguns que  são retirados   dos limites de seu município, onde se encontram,  por certas circunstâncias,  fora de uma circulação literária  mais abrangente, o que nem sempre parece justo.  A obra funciona como testamento crítico valioso sobre a produção de uma região poderosa no campo das letras, que vem contribuindo para a expansão do acervo cultural e literário da Bahia e do Brasil.

No volume de 350 páginas, Cyro de Mattos estuda obras de 47 autores sulinos do Estado da Bahia. Entre eles estão: Jorge Amado, Adonias Filho, Sosígenes Costa, Telmo Padilha, Valdelice Soares Pinheiro,  Sônia Coutinho, Ricardo Cruz, Lilia Gramacho, Florisvaldo Mattos, Marcos Santarrita,  Piligra, Abel Pereira, Jorge Medauar, Ildázio Tavares, Euclides Neto, Afrânio Peixoto, Adelmo Oliveira, Hélio Pólvora, Fernando Leite Mendes,  Margarda Fahel,  Jorge Araújo e  Minelvino, dentre outros.

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“Uma coisa admirável nos seus ensaios é o fato de não ficar citando Roland Barthes, Deleuze, Derrida etc etc etc. Seus ensaios são verdadeiros ensaios, como os compreendo, como José Paulo Paes compreendia. Atualmente, os ensaístas se preocupam apenas em citar vários nomes que estão na moda. Na verdade, não dizem nada, reproduzem os outros. Seus ensaios plasmam o resultado de sua reflexão após a leitura e, como escritor que você é, oferece ao leitor uma percepção aguda da leitura realizada.”

 Gerana Damulakis, crítica com vários livros publicados, durante dez anos assinou a coluna Leitura Crítica do Jornal A Tarde, pertence à Academia de Letras da Bahia

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terça-feira, 18 de agosto de 2020

ERA UMA VEZ UM CASTELO – Helena Borborema

 

Itabuna-Bahia. Praça Olinto Leone (ao fundo o antigo "Castelinho", propriedade do intendente Henrique Alves e a antiga Igreja Matriz, ambas as construções não existem mais.)

Fonte: http://historiadeitabuna.blogspot.com


Era Uma Vez um Castelo

Helena Borborema


            Assim começam as histórias infantis, assim também vou iniciar esta minha recordação de infância.

            Era uma vez... muito tempo atrás, bem no início da década de vinte, um rico senhor de terras e cacauais, movido mais pelo seu espírito de esteta do que por ostentação, desejou dar a uma de suas filhas noivas, como presente de casamento, uma bela mansão. Mas, como realizar o seu sonho numa terra onde tudo faltava, onde as coisas belas do espírito nem eram cogitadas, onde o homem vivia apenas em torno dos seus imensos cacauais, seu império e horizonte? O homem rico, porém, sonhava alto, tinha visão larga para o seu tempo e seu meio. Queria uma bonita vivenda, algo que embelezasse a sua cidade, e para isso embarcou para Salvador em busca de um arquiteto.

            A planta de uma bela obra foi traçada, um mini castelo moderno, estilizado, a ser erguido nessas terras grapiúnas que ainda cheiravam a lama, e em pleno século XX. No meio de um casario desprovido de quaisquer artifícios, surgiria uma bela construção. Para tal obra, foram contratados os mais hábeis operários da cidade, entre os quais se destacava um mestre-de-obras, o português seu Américo. Numa cidade onde o comércio não chegara ainda a conhecer o requinte dos vidros coloridos, tintas especiais, como levar avante obra tão exigente como o desenho da construção requeria? Apesar de todas as dificuldades, inclusive o transporte de muito material importado, a obra foi feita. A construção lembrava um castelo, com pequenas ameias no alto adornando-o e simulação de uma torre num dos seus lados. Elegante, com suas janelas adornadas de vidros coloridos, diferente dos castelos medievais ou quatrocentistas da Europa, austeros e sombrios, assemelhava-os, no entanto, em certas linhas e aspectos, dando um visual diferente de tudo o que já se vira em terras grapiúnas.

            Um pintor, verdadeiro artista, com prática de trabalho no Rio de Janeiro e em Salvador, foi chamado para decorar o sobrado interna e externamente. Suas salas e aposentos receberam linda pintura na qual sobressaíam artísticos ramalhetes e guirlandas dispostas entre delicados frisos dourados. Pintura suave, linda, nas paredes. Além desses detalhes, estavam os lustres de irisação que só o puro cristal podia dar sob o efeito das lâmpadas, pendentes no teto de madeira trabalhada, o piso de madeira nobre formando bonitos desenhos, janelas elegantes ornadas de vidros importados, portas e escada de madeira de lei trabalhada com arte. Tudo dava ao castelinho, como passou a ser chamado, um ar de muita beleza e aristocracia.

            Primitivamente, o castelinho ostentou na sua fachada duas grandes sereias, não sei se esculpidas por seu Américo, as quais sustentavam com os braços erguidos e dobrados para trás, uma grande sacada. Anos mais tarde, foram elas demolidas e substituídas por outro ornamento. Era o sobrado uma obra de arquitetura diferente de tudo o que já se vira em Itabuna e nas demais cidades da região.

            Pelos salões do bonito castelinho circulou, nos tempos áureos, a aristocracia do cacau, representada pelos seus proprietários, os Alves Brandão, e convidados que participavam das festas da família.

            Durante anos o castelo da Praça Olinto Leone, como era também chamado, se destacou como lindo cartão-postal. Era admiração para todos que perto dele passassem. Quem não o olhava curioso? Lá estava ele, de frente para a praça, esguio, principescamente lindo, dando um quê de nobreza a todo aquele pedaço de rua e de praça. Sobressaindo no meio do tradicional casario, era aquela construção o testemunho de uma época endinheirada, monumento de amor à terra que tanto prodigalizou as benesses aos que a ela se dedicaram, nela fizeram fortuna e souberam retribuir a sua dadivosidade. Era ele o símbolo, a expressão da crença de um homem, Firmino Alves, no futuro de uma cidade.

            O tempo foi passando, e com ele foi embora uma parte daquela geração de homens suados pelo trabalho da terra, por isso mesmo carregados de amor e apego ao chão de suas lutas e ideais. Novas gentes chegaram a Itabuna, como chegam as folhas novas de uma árvore após o outono. O tronco é o mesmo, não muda, mas as folhas são outras. Veio o desapego, o desamor à tradição. Para que conservar o que nada significava de amor para elas? E num triste dia, silenciosamente, na calada da noite, impiedosamente, sem protestos, sem o menor respeito ao sentimento de um povo, sem nenhuma causa justificável, o castelinho foi jogado abaixo, como se com ele jogassem no lixo as relíquias do passado de um povo, de uma cidade.

            Hoje, já não podemos mais ostentar aquela obra de arte da Itabuna antiga, saída da destreza das mãos de artistas que a ergueram. Apenas choramos o seu desaparecimento. Os jovens itabunenses vão saber do Castelinho por ouvir contar: “era uma vez um castelo...”.

            Fui mais feliz do que eles, pois ainda guardo, como boa lembrança de infância, os momentos que olhei o lindo castelo com prazer, e o encantamento que suas grandes sereias proporcionaram ao meu espírito infantil. Recordo a sua entrada elegante, sua porta de madeira lindamente trabalhada e a escadaria externa, diante da qual muitas vezes parei, na volta da escola primária, na tentação de querer brincar de escorregar pelos seus degraus abaixo, animada pelo convite que a magia do Castelinho fazia ao meu espírito de criança, sob o olhar de pedra duro e frio das duas sereias.

 

(RETALHOS)

Helena Borborema

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HELENA BORBOREMA  

Nasceu em Itabuna. Professora de Geografia lecionou muitos anos no Colégio Divina Providência, na Ação Fraternal e no Colégio Estadual de Itabuna. Formada em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia de Itabuna. Exerceu o cargo de Secretária de Educação e Cultura do Município. (A autora)

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Conhecida professora itabunense, filha do Dr. Lafayette Borborema, o primeiro advogado de Itabuna. É autora de ‘Terras do Sul’, livro em que documento, memória e imaginação se unem num discurso despretensioso para testemunhar o quadro social e humano daqueles idos de Tabocas. Para a professora universitária Margarida Fahel, ‘Terras do Sul’ são estórias simples, plenas de ‘emoção e humanidade, querendo inscrever no tempo a história de uma gente, o caminho de um rio, a esperança de uma professora que crê no homem e na terra’.  (Cyro de Mattos em ITABUNA, CHÃO DE MINHAS RAÍZES 1996)

 

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segunda-feira, 17 de agosto de 2020

CÂNTICO DO CALVÁRIO – Fagundes Varela

 


À memória de meu filho, morto a 11 de dezembro de 1863.


 Eras na vida a pomba predileta 
 Que sobre um mar de angústias conduzia 
 O ramo da esperança. — Eras a estrela 
 Que entre as névoas do inverno cintilava 
 Apontando o caminho ao pegureiro. 
 Eras a messe de um dourado estio. 
 Eras o idílio de um amor sublime. 
 Eras a glória, — a inspiração, — a pátria, 
 O porvir de teu pai! — Ah! no entanto, 
 Pomba, — varou-te a flecha do destino! 
 Astro, — engoliu-te o temporal do norte! 
 Teto, caíste! — Crença, já não vives! 

 Correi, correi, oh! lágrimas saudosas, 
 Legado acerbo da ventura extinta, 
 Dúbios archotes que a tremer clareiam 
 A lousa fria de um sonhar que é morto! 
 Correi! Um dia vos verei mais belas 
 Que os diamantes de Ofir e de Golgonda 
 Fulgurar na coroa de martírios 
 Que me circunda a fronte cismadora! 
 São mortos para mim da noite os fachos, 
 Mas Deus vos faz brilhar, lágrimas santas, 
 E à vossa luz caminharei nos ermos! 
 Estrelas do sofrer, — gotas de mágoa, 
 Brando orvalho do céu! — Sede benditas! 
 Oh! filho de minh’alma! Última rosa 
 Que neste solo ingrato vicejava! 
 Minha esperança amargamente doce! 
 Quando as garças vierem do ocidente 
 Buscando um novo clima onde pousarem, 
 Não mais te embalarei sobre os joelhos, 
 Nem de teus olhos no cerúleo brilho 
 Acharei um consolo a meus tormentos! 
 Não mais invocarei a musa errante 
 Nesses retiros onde cada folha 
 Era um polido espelho de esmeralda 
 Que refletia os fugitivos quadros 
 Dos suspirados tempos que se foram! 
 Não mais perdido em vaporosas cismas 
 Escutarei ao pôr do sol, nas serras, 
 Vibrar a trompa sonorosa e leda 
 Do caçador que aos lares se recolhe! 

 Não mais! A areia tem corrido, e o livro 
 De minha infanda história está completo! 
 Pouco tenho de ansiar! Um passo ainda 
 E o fruto de meus dias, negro, podre, 
 Do galho eivado rolará por terra! 
 Ainda um treno, e o vendaval sem freio 
 Ao soprar quebrará a última fibra 
 Da lira infausta que nas mãos sustento! 
 Tornei-me o eco das tristezas todas 
 Que entre os homens achei! O lago escuro 
 Onde ao clarão dos fogos da tormenta 
 Miram-se as larvas fúnebres do estrago! 
 Por toda a parte em que arrastei meu manto 
 Deixei um traço fundo de agonias! ... 

 Oh! quantas horas não gastei, sentado 
 Sobre as costas bravias do Oceano, 
 Esperando que a vida se esvaísse 
 Como um floco de espuma, ou como o friso 
 Que deixa n’água o lenho do barqueiro! 
 Quantos momentos de loucura e febre 
 Não consumi perdido nos desertos, 
 Escutando os rumores das florestas, 
 E procurando nessas vozes torvas 
 Distinguir o meu cântico de morte! 
 Quantas noites de angústias e delírios 
 Não velei, entre as sombras espreitando 
 A passagem veloz do gênio horrendo 
 Que o mundo abate ao galopar infrene 
 Do selvagem corcel? ... E tudo embalde! 
 A vida parecia ardente e douda 
 Agarrar-se a meu ser! ... E tu tão jovem, 
 Tão puro ainda, ainda n’alvorada, 
 Ave banhada em mares de esperança, 
 Rosa em botão, crisálida entre luzes, 
 Foste o escolhido na tremenda ceifa! 

 Ah! quando a vez primeira em meus cabelos 
 Senti bater teu hálito suave; 
 Quando em meus braços te cerrei, ouvindo 
 Pulsar-te o coração divino ainda; 
 Quando fitei teus olhos sossegados, 
 Abismos de inocência e de candura, 
 E baixo e a medo murmurei: meu filho! 
 Meu filho! frase imensa, inexplicável, 
 Grata como o chorar de Madalena 
 Aos pés do Redentor ... ah! pelas fibras 
 Senti rugir o vento incendiado 
 Desse amor infinito que eterniza 
 O consórcio dos orbes que se enredam 
 Dos mistérios do ser na teia augusta! 
 Que prende o céu à terra e a terra aos anjos! 
 Que se expande em torrentes inefáveis 
 Do seio imaculado de Maria! 
 Cegou-me tanta luz! Errei, fui homem! 
 E de meu erro a punição cruenta 
 Na mesma glória que elevou-me aos astros, 
 Chorando aos pés da cruz, hoje padeço! 

 O som da orquestra, o retumbar dos bronzes, 
 A voz mentida de rafeiros bardos, 
 Torpe alegria que circunda os berços 
 Quando a opulência doura-lhes as bordas, 
 Não te saudaram ao sorrir primeiro, 
 Clícia mimosa rebentada à sombra! 
 Mas ah! se pompas, esplendor faltaram-te, 
 Tiveste mais que os príncipes da terra! 
 Templos, altares de afeição sem termos! 
 Mundos de sentimento e de magia! 
 Cantos ditados pelo próprio Deus! 
 Oh! quantos reis que a humanidade aviltam, 
 E o gênio esmagam dos soberbos tronos, 
 Trocariam a púrpura romana 
 Por um verso, uma nota, um som apenas 
 Dos fecundos poemas que inspiraste! 

 Que belos sonhos! Que ilusões benditas! 
 Do cantor infeliz lançaste à vida, 
 Arco-íris de amor! Luz da aliança, 
 Calma e fulgente em meio da tormenta! 
 Do exílio escuro a cítara chorosa 
 Surgiu de novo e às virações errantes 
 Lançou dilúvios de harmonias! — O gozo 
 Ao pranto sucedeu. As férreas horas 
 Em desejos alados se mudaram. 
 Noites fugiam, madrugadas vinham, 
 Mas sepultado num prazer profundo 
 Não te deixava o berço descuidoso, 
 Nem de teu rosto meu olhar tirava, 
 Nem de outros sonhos que dos teus vivia! 

 Como eras lindo! Nas rosadas faces 
 Tinhas ainda o tépido vestígio 
 Dos beijos divinais, — nos olhos langues 
 Brilhava o brando raio que acendera 
 A bênção do Senhor quando o deixaste! 
 Sobre o teu corpo a chusma dos anjinhos, 
 Filhos do éter e da luz, voavam, 
 Riam-se alegres, das caçoilas níveas 
 Celeste aroma te vertendo ao corpo! 
 E eu dizia comigo: — teu destino 
 Será mais belo que o cantar das fadas 
 Que dançam no arrebol, — mais triunfante 
 Que o sol nascente derribando ao nada 
 Muralhas de negrume! ... Irás tão alto 
 Como o pássaro-rei do Novo Mundo! 

 Ai! doudo sonho! ... Uma estação passou-se, 
 E tantas glórias, tão risonhos planos 
 Desfizeram-se em pó! O gênio escuro 
 Abrasou com seu facho ensanguentado 
 Meus soberbos castelos. A desgraça 
 Sentou-se em meu solar, e a soberana 
 Dos sinistros impérios de além-mundo 
 Com seu dedo real selou-te a fronte! 
 Inda te vejo pelas noites minhas, 
 Em meus dias sem luz vejo-te ainda, 
 Creio-te vivo, e morto te pranteio! ... 

 Ouço o tanger monótono dos sinos, 
 E cada vibração contar parece 
 As ilusões que murcham-se contigo! 
 Escuto em meio de confusas vozes, 
 Cheias de frases pueris, estultas, 
 O linho mortuário que retalham 
 Para envolver teu corpo! Vejo esparsas 
 Saudades e perpétuas, — sinto o aroma 
 Do incenso das igrejas, — ouço os cantos 
 Dos ministros de Deus que me repetem 
 Que não és mais da terra!... E choro embalde. 

 Mas não! Tu dormes no infinito seio 
 Do Criador dos seres! Tu me falas 
 Na voz dos ventos, no chorar das aves, 
 Talvez das ondas no respiro flébil! 
 Tu me contemplas lá do céu, quem sabe, 
 No vulto solitário de uma estrela, 
 E são teus raios que meu estro aquecem! 
 Pois bem! Mostra-me as voltas do caminho! 
 Brilha e fulgura no azulado manto, 
 Mas não te arrojes, lágrima da noite, 
 Nas ondas nebulosas do ocidente! 
 Brilha e fulgura! Quando a morte fria 
 Sobre mim sacudir o pó das asas, 
 Escada de Jacó serão teus raios 
 Por onde asinha subirá minh’alma.

(Fonte: ABL)

......


Fagundes Varela (Luís Nicolau Fagundes Varela), poeta, nasceu em São João Marcos, atualmente Rio Claro, RJ, em 17 de agosto de 1841, e faleceu em Niterói, RJ, em 17 de fevereiro de 1875. É o patrono da cadeira n. 11, por escolha do fundador Lúcio de Mendonça. Era filho do Dr. Emiliano Fagundes Varela e de Emília de Andrade, ambos de famílias fluminenses bem situadas. Passou a infância na fazenda natal e na vila de São João Marcos, de que o pai era juiz. Depois, residiu em vários locais. Primeiro em Catalão Goiás, para onde o magistrado fora transferido em 1851 e onde Fagundes Varela teria conhecido o juiz municipal Bernardo Guimarães. De volta à terra natal, residiu em Angra dos Reis e Petrópolis, onde fez os estudos do primário e secundário. Em 1859, foi terminar os preparatórios em São Paulo. Só em 1862 matricula-se na Faculdade de Direito, que nunca terminou, preferindo a literatura e dissipando-se na boêmia. Em 1861, publicara o primeiro livro de poesias, Noturnas.


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Sagrado Coração de Jesus, eu confio em voz!