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domingo, 16 de agosto de 2020

PALAVRA DA SALVAÇÃO (197)


20º Domingo do Tempo Comum | Solenidade da Assunção de Maria

 

Anúncio do Evangelho (Lc 1,39-56)

— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós!

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Lucas.

— Glória a vós, Senhor!

 

Naqueles dias, Maria partiu para a região montanhosa, dirigindo-se, apressadamente, a uma cidade da Judeia. Entrou na casa de Zacarias e cumprimentou Isabel. Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança pulou no seu ventre e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. Com um grande grito, exclamou: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre! Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar? Logo que a tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança pulou de alegria no meu ventre. Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu”.

Então Maria disse: “A minha alma engrandece o Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, porque olhou para a humildade de sua serva. Doravante todas as gerações me chamarão bem-aventurada, porque o Todo-poderoso fez grandes coisas em meu favor. O seu nome é santo, e sua misericórdia se estende, de geração em geração, a todos os que o respeitam. Ele mostrou a força de seu braço: dispersou os soberbos de coração. Derrubou do trono os poderosos e elevou os humildes. Encheu de bens os famintos, e despediu os ricos de mãos vazias. Socorreu Israel, seu servo, lembrando-se de sua misericórdia, conforme prometera aos nossos pais, em favor de Abraão e de sua descendência, para sempre”. Maria ficou três meses com Isabel; depois voltou para casa.

 — Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

https://liturgia.cancaonova.com/pb/

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Roger Araújo:


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ASSUNÇÃO DE MARIA: plenitude do seu “ser visitante”

 

“Maria ficou três meses com Isabel; depois voltou para casa”  (Lc 1,56)

Descobrimos o sentido da Assunção de Maria não tanto contemplando o céu, mas a terra. Na terra não veneramos a tumba de Maria, nem celebramos funerais por ela, ou em sua memória. Embora possa parecer estranho, os santuários onde se venera a memória de Maria são, para nós, não lugares funerários, mas fontes de vida, espaços onde a sentimos vivente, mãe, mulher do serviço, cuidadora nossa.

Ascenção, Assunção são dois nomes que damos a esta experiência de presença transformadora. Em Jesus, e a partir de Jesus, Maria também “é assunta” e se faz presente junto a seus filhos e filhas. Sua bendita presença nos abençoa e nos enche de graça.

Maria “foi assumida por Deus” porque “desceu” ao mais profundo da vida, comprometendo-se e sendo presença solidária. Ela viveu a “assunção” em todos os momentos de sua vida, de maneira especial, quando se deslocou em direção aos outros. Por isso, o Evangelho, indicado para a festa de hoje, nos fala da “presença visitante” de Maria.

Maria fecha a porta de sua pequena casa em Nazaré e inicia, apressada, o caminho para a montanha, onde vivia Isabel. O impulso do seu coração movia velozmente seus pés. Este relato nos mostra o que é “visitar”.

Maria “saiu em visita” porque, antes, foi “visitada” pela presença surpreendente de Deus. Ela entrou no fluxo do “Deus visitador”, prolongando e visibilizando as visitas divinas. Ela foi “assunta” porque, nas suas “visitas”, ela “subiu e desceu” em direção aos outros, numa atitude de serviço gratuito.

Maria foi visitar; podia não ter ido. Isabel, com mais idade e grávida, seguramente estava bem atendida. Mas, Maria foi... para estar, escutar, partilhar, ajudar...

Visitar implica mover-se, para perto ou para longe, sair, pôr-se em marcha; abandonar o espaço de conforto, adentrar-se na realidade do(a) outro(a), na expectativa de que este(a) outro(a) abra a porta de seu espaço e de sua vida, entrando em profunda sintonia com quem o(a) visita.

É uma ação pessoal, uma atitude aberta, um estar atentos aos detalhes da vida próxima, do entorno. Visitar não conta nas estatísticas. É uma ação muito silenciosa que não requer estruturas organizativas, nem contratuais. Visitar exige irremediavelmente investir tempo, gratuitamente; quem tem tempo hoje para presenteá-lo desinteressadamente?

A pessoa visitada tem também sua vida “expandida”, pois, receber o(a) outro(a) implica mudar a rotina do seu cotidiano, acolher a nova presença que vem, dedicar atenção e escuta...

Se re-lemos com atenção o relato de Lucas, encontraremos Isabel, a prima de Maria, como protótipo de uma vida “visitada”, de uma existência que poderia fechar-se na pequena felicidade de sua fecundidade surpreendente; no entanto, ela abriu passagem a uma voz que vinha mais além dela mesma. Isabel escutou aquela voz e soube reconhecer Maria como a nova Arca da Aliança que carregava a salvação dentro dela. E Lucas realça o detalhe de que “a criança pulou de alegria no ventre de Isabel”. 

Vamos nos deixar conduzir por Maria e vamos com ela “de visita” à casa de Isabel, para recuperar o sentido do “visitar” e “ser visitado” no nosso contexto atual.

Deus visita a nós e visita através de nós, assim como Ele nos visita por meio dos outros. Há uma infinidade de anjos mensageiros, cruzando nossos espaços cotidianos, inspirando-nos, ajudando-nos, movendo nossas vidas a saírem de seus lugares fechados, a romper muros, a ultrapassar fronteiras... A intolerância, o medo do diferente, a suspeita, o preconceito... são a morte de toda possibilidade de viver a “cultura da visita”.

Uma característica de nossa sociedade é o individualismo, o fechamento narcisista que nos centra e nos concentra em nosso “ego” como lugar preferencial de atenção, dedicação, cuidado e investimento de quase todas as nossas energias disponíveis. Neste contexto social em que vivemos, cada vez mais fragmentado e individualizado, as relações vão se tornando líquidas, restando as manifestações muito superficiais, reduzi-das, talvez, a um mero contato tecnológico através das redes sociais.

Temos a sensação de que, a partir de fora, tudo nos convida a viver auto-referenciados e surdos às vozes que nos vem do mais além de nós mesmos. Muitas forças externas a nós nos pressionam a reduzir nossa vida ao tamanho de um “bonsai”, a atrofiar os desejos até reduzi-los aos pequenos bens acessíveis e a conformar-nos com pequenas doses de prazer egoísta. 

Mesmo numa vida fechada, também aí irrompem as “visitações”; Maria, a “visitante” e Isabel, a “visitada”, podem nos ensinar a reconhecer Aquele que nos visita e vem a nós escondido no humilde e insignificante. Aquelas duas mulheres grávidas, Maria e Isabel, cheias e fé e grandes expectativas, envolvidas no silêncio da promessa de Deus, se encontram e no mesmo instante do abraço, a palavra se faz presente com a intensidade da compreensão, da acolhida, da alegria e da intimidade partilhada.

A visita começa a dar fruto desde o primeiro instante se há uma boa predisposição. A atitude de quem vai ao encontro e quem acolhe é elemento primordial.

Elas estavam felizes. Isabel gritou de júbilo e “a criança saltou de alegria em seu ventre”. E Maria proclamou, exultante, a oração de louvor e agradecimento ao Deus da Vida. “O Magnificat recolhe a prece da orante que se descobre, desde a humildade, fecundada por seu Senhor dentro da História da Salvação” (Mari Paz Lopes).

O Magnificat é o grande resumo da experiência de Maria; Magnificat não é um parêntese: supõe tudo o que Maria viveu. É impossível conhecê-la sem saborear demoradamente estas palavras, que são a tradução dos seus sentimentos íntimos diante da nobre missão de ser a mãe do Salvador.

No Magnificat, Maria canta a sua própria história. E isso nos desafia a fazer o mesmo. Ninguém vive uma vida espiritual fecunda enquanto não for capaz de construir a relação com Deus como um diálogo vivo entre um “eu” e um “Tu”. A oração de Maria não é feita de fórmulas. Ela expõe a sua vida naquilo que diz.

Através do Magnificat Maria vai ter a oportunidade de prolongar o seu “sim”, revelando que conhece bem as suas implicações profundas. No Magnificat, Maria sai de seu silêncio e explica o que significa o seu consentimento a Deus. E faz isso da forma mais simples e verdadeira, interpretando primeiro a sua própria experiência de fé e ancorando-se, depois, naquilo que a História da Salvação lhe ensina sobre a ação de Deus e sobre a missão do Povo de Deus neste mundo.

Maria permaneceu em casa de Isabel “três meses e voltou para sua casa”. Moveu-se, investiu seu tempo e podemos imaginar quê maravilhosos três meses passaram juntas, vendo como a vida crescia dentro delas, cuidando-se, rindo, partilhando.... Deixemo-nos inspirar por este “ícone da Visitação”. 

Texto bíblico:  Lc 1,39-56 

Na oração: Depois de empapar-se do evangelho deste dia é preciso perguntar-se: “o que me inspira o ‘movimento’ de Maria visitando Isabel? E se realmente, o fato de visitar, tem um significado em minha vida.

- Diante da situação pandêmica, quê outras formas de visita poderiam ser ativadas? São tantas as pessoas que estão esperando uma visita, mesmo virtualmente. Há muitas carências de abraços e de afeto.

- Recorde aqui as obras de misericórdia: duas delas se referem ao fato de “visitar” – “enfermos e presos”.

Pe. Adroaldo Palaoro sj

13.08.2020

https://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/2116-assuncao-de-maria-plenitude-do-seu-ser-visitante


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sábado, 15 de agosto de 2020

O MILAGRE DO VÍSTULA E A ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA – Luis Dufaur

14 de agosto de 2020

Dormição e Assunção da Virgem – Fra Angélico (1395-1455). The Isabella Stewart Gardner Museum, Boston (EUA)

As dores da Santíssima Virgem são representadas por espadas cravadas em seu Coração, e o dogma da Assunção evoca seu triunfo sobre tantos sofrimentos. Na festa da Assunção, em 15 de agosto, uma renovação desse triunfo foi a vitória da Polônia católica sobre os exércitos soviéticos, milagre cujo centenário comemoramos neste ano.

Luis Dufaur

A Assunção de Nossa Senhora foi confirmada como dogma de Fé pelo Papa Pio XII, na Constituição Apostólica Munificentissimus Deus, no dia 1° de novembro de 1950.[1] Essa verdade era professada desde os tempos dos Apóstolos, suas testemunhas oculares, que a narraram a seus sucessores. O dogma coloca a Santa Mãe de Deus acima de qualquer criatura, mesmo as canonizadas, justificando o culto de hiperdulia que a Igreja lhe tributa.

Após uma morte suavíssima, qualificada de “dormição de Nossa Senhora”, a Santíssima Virgem se ergueu como quem sai de um sono, numa transição efetuada pelo poder de Deus, e subiu aos céus na presença dos Apóstolos e fiéis reunidos em torno d’Ela. A glorificação e a alegria por este privilégio, sem equivalentes até o fim do mundo, só foram inferiores às da Ascensão triunfal de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Como figurar o esplendor da Assunção

Maria Santíssima foi elevada ao Céu, rodeada pelo respeito e recolhimento dos presentes, diante dos quais se acentuava assim, cada vez mais, sua semelhança com seu Filho Divino. O esplendor de Nosso Senhor transfigurado se comunicava a Ela, fazendo-a refulgir cada vez mais como rainha e mãe, até desaparecer dos olhos humanos. Ao mesmo tempo o Céu se transformava, porque sua Rainha nele ingressava em triunfo.

Pouco depois, na Terra tudo voltava à sua rotina, mas os primeiros católicos retornavam para suas casas com uma sensação parecida com a que tiveram na Ascensão de Nosso Senhor. Maravilhados, com enorme saudade, levando na retina algo que nem podiam ter imaginado a respeito de Nossa Senhora.

No momento da Assunção transpareceu a alegria e a vitória sobre as dores inenarráveis que Ela padeceu em vida, segundo lhe anunciara o profeta Simeão: “Uma espada transpassará a tua alma” (Lc 2, 35). O Prof. Plinio Corrêa de Oliveira se alegrava com essa arquitetonia da dor transformada em alegria eterna: “Nossa Senhora é representada com o coração circundado de gládios espirituais, que representam a alma d’Ela ferida pela espada da dor, de que falou o profeta Simeão. Eu gostaria de ser pintor para representar Nossa Senhora subindo ao Céu, com o coração ferido à mostra, mas saindo dessa espada as mais belas luzes que se possa imaginar. Porque a sua grande alegria era ter suportado os tormentos e ter vencido todas as batalhas.[2]

Glorificação no Céu e novos triunfos na Terra

Depois de ter passado por toda espécie de sofrimentos, angústias, dilacerações e humilhações, a Santa Mãe de Deus foi honrada por seu Divino Filho com a Assunção, um privilégio único na história do mundo. A glorificação de Maria deixa eclipsada a dos Césares vitoriosos aclamados na Via Triunfal de Roma, a dos exércitos aliados desfilando sob o Arco do Triunfo de Paris, e a de qualquer outra exaltação humana. Por isso sua glória na ordem do universo é o mais alto reflexo criado do resplendor supremo de Deus.

Em atenção a essa vitória, o católico deve levar ao último extremo sua combatividade pela glorificação da Corredentora do gênero humano, e lutar como um cruzado pelo seu reinado na Terra. São ainda de Plinio Corrêa de Oliveira estes comentários: “Algo da luminosa magnificência da Assunção se repetirá quando começar o Reino de Maria. Veremos então o mundo todo transformado, e Nossa Senhora brilhando sobre a Terra; pois seu reinado estará se efetivando, e estarão começando também dias maravilhosos de graças como nunca houve antes”.[3]

Após a Assunção, a Santíssima Virgem nunca mais estaria estavelmente na Terra, mas começava do Céu sua grande missão. Estabeleceu uma misteriosa comunicação com os seus devotos, sobretudo os que se consagraram a Ela com amor, coragem, constância e fé, virtudes recomendadas por São Luís Maria Grignion de Montfort. São estas virtudes necessárias sobretudo diante do neopaganismo moderno, monstro apocalíptico que tenta tiranizar os fiéis, privando-os de apoios terrenos para arrastar consigo grande número de tíbios e interesseiros.

O “milagre do Vístula” (agosto de 1920) – Jerzy Kossak, 1930.

O milagre do Vístula: vitória sobre o comunismo

Neste ano de 2020 a Igreja comemora o centenário de um exemplo característico da ação de Nossa Senhora da Assunção em favor dos fiéis: o “milagre do Vístula”, ocorrido em agosto de 1920 (trinta anos antes da proclamação do dogma).

Quatro corpos de exército da URSS comunista avançavam contra a capital da católica Polônia. Numa ordem dada a seus soldados em 4 de julho de 1920, o general bolchevista Mikhail Tukhachevsky foi lapidarmente claro: “No caminho para a conflagração mundial comunista, tem-se que passar sobre o cadáver da Polônia”.[4] Em Moscou, Lenin exigia ferozmente a “revolução mundial” e a aniquilação do “obstáculo polonês”. E os soldados comunistas cantavam: “Esta é nossa batalha última e decisiva. Surgirá a nova raça humana”.

Cena de um filme representando a batalha

Revoluções marxistas explodiam na Europa ocidental arruinada pela Primeira Guerra Mundial; a grande mídia anunciava falsamente que os russos já eram donos de Varsóvia; os embaixadores ocidentais fugiram da capital (com exceção do Núncio, que era o futuro Papa Pio XI); os especialistas militares ocidentais davam a situação por perdida; e a confluência das hostes russas com as massas subversivas europeias parecia um fato incontornável.

O Papa Bento XV enviou um apelo ao mundo católico, pedindo orações a Nossa Senhora de Czestochowa (Padroeira da Polônia) e à Mãe do Bom Conselho, por essa nação ameaçada de naufragar no próprio sangue, perseguida pelo exército vermelho. E o jornal socialista italiano Avanti debochava do Papa, espalhando sarcasticamente: “Fiquem tranquilos! O Pontífice Romano acredita na eficácia da Virgem!”.[5]

Na Polônia, anciãos, mulheres, adolescentes e feridos, prosternados em igrejas, ruas e praças, multiplicavam seus apelos ao Santíssimo Sacramento e a Nossa Senhora. A desproporção das forças era evidente, e só um milagre evitaria a catástrofe. Contudo, corria de boca em boca uma intuição, sem se saber sua origem: no dia 15 de agosto, festa da Assunção de Nossa Senhora, Ela faria o milagre.

Apesar das tendências socialistas do marechal Józef Piłsudski (1867–1935) [foto ao lado], coube a ele conduzir a guerra contra os soviéticos. Percebendo que na linha de ofensiva dos inimigos se abrira uma brecha, empreendeu uma manobra desesperada e muito ousada: retirou de Varsóvia as tropas habilitadas ao combate, que a defendiam, e preencheu as vagas das trincheiras convocando todos os que podiam segurar uma arma, ainda que não soubessem usá-la. Além de mulheres, velhos e feridos, destacaram-se nesse palco da batalha os escoteiros, que ali morreram em grande número na luta corpo a corpo contra soldados experimentados e cruéis.

Com o destacamento que conseguira em Varsóvia, o marechal Pilsudski atravessou a brecha sem ser percebido. Talvez sem se lembrar do significado daquele grande dia 15 de agosto, festa da Assunção, deu o golpe decisivo contra os exércitos soviéticos. Após um giro perigoso, atacou-os de surpresa, em manobra envolvente. A coincidência de datas empolgou os poloneses, que infligiram aos comunistas uma derrota da qual jamais se recuperariam, e foi completada por sucessivas batalhas posteriores. Narra-se que alguns soldados soviéticos teriam visto Nossa Senhora de Czestochowa aparecer sobre as nuvens.

Os delegados soviéticos chegam para as negociações do armistício depois da humilhante derrota comunista na Batalha do Vístula em 1920

A batalha é considerada uma das mais importantes da história universal. Lenin, o tirânico pai da URSS, lamentou em Moscou a “enorme derrota”, que reduziu a supremacia da revolução bolchevista a um único país, a Rússia. O sonho da “revolução mundial” ficou espatifado, pois o próprio Lenin considerava que, para a “experiência socialista” dar certo, deveria ser universal. Em 24 de agosto o embaixador britânico SirHorace Rumbold (1869–1941) chegou a Poznan, Alemanha, procedente de Varsóvia. Espantado com a inversão da sorte das armas, comentou: “É uma repetição da derrota dos turcos sob os muros de Viena, em 1683”.[6]

No enterro do marechal Pilsudski, em 12 de maio de 1935, o Cardeal Primaz da Polônia August Hlond afirmou: “A vitória do heroico exército polonês, chamada de ‘milagre do Vístula’, teve a importância de Lepanto e Viena”.[7] O Papa Pio XI, falando sobre a Mãe de Deus, referiu-se ao “milagre sobre o Vístula”, resumindo-o com estas palavras: “O anjo das trevas empreendeu uma gigantesca batalha contra o anjo da luz”.[8] As forças armadas polonesas adotaram Nossa Senhora da Assunção como Padroeira principal.

Assunção e a glorificação da Igreja

Finalizamos com mais um oportuno e valioso comentário do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira aos seus amigos e discípulos:

“Depois da Ascensão de Nosso Senhor, o fato mais esplendorosamente glorioso da História humana foi quando Nossa Senhora subiu ao Céu ante os olhos humanos. Por seu caráter ordenativo, ele é comparável apenas ao dia do Juízo Final. A implantação do Reino de Maria — por assim dizer, a assunção da Igreja Católica — é o que devemos desejar na festa da Assunção. E desejar também que a tristeza e o gládio de dor que traspassou o Imaculado Coração de Maria nos preparem para compreender a alegria imensa dessa vitória, refulgindo com a maior formosura desde os tempos apostólicos.

“Na festa da Assunção devemos pedir a Ela que olhe para nossas falhas e nos conceda o perdão, para atravessarmos a nossa época com a certeza de que, quanto mais profunda for a tristeza, maior ainda será a alegria que teremos depois, na aurora do Reino de Maria Assunta aos Céus”.[9]


[1]http://www.vatican.va/content/pius-xii/pt/apost_constitutions/documents/hf_p-xii_apc_19501101_munificentissimus-deus.html.

[2] Palestra de 15 de agosto de 1966. As palestras citadas neste artigo não foram revistas pelo autor.

[3] Palestra de 14 de agosto de 1965.

[4] “Devocionário e novena a Nossa Senhora da Defesa”, Edições Loyola, SP, 2003, pág. 67 na edição Google, https://books.google.com.br/books?id=roS2x71wX1sC&pg=PA64&lpg=PA64&dq=milagre+do+vistula&source=bl&ots=rIflf1DmkA&sig=ACfU3U2WGFmJT4D8ANAfgszJv6_YZwkFXw&hl=pt-BR&sa=X&ved=2ahUKEwjh2sXHwozqAhU0GbkGHVIGBAAQ6AEwF3oECGoQAQ)

[5] http://casaggi.blogspot.com/2011/09/cosi-leuropa-fu-salvata-dallarmata.html.

[6] “Devocionário…”. pág. 68.

[7] id. ibid.

[8] http://sunday.niedziela.pl/artykul.php?dz=z_historii&id_art=00072.

[9] Palestra de 14 de agosto de 1963.

 

http://www.abim.inf.br/o-milagre-do-vistula-e-a-assuncao-de-nossa-senhora/


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sexta-feira, 14 de agosto de 2020

CURIOSIDADES SOBRE O LÍBANO

O Líbano tem 18 comunidades religiosas.

No Líbano falam-se 3 línguas: Árabe, Francês e Inglês

40 jornais diferentes circulam diariamente.

O nível de alfabetização é de 99 %

Ele tem 42 universidades.

Existem mais de 100 bancos diferentes.

70 % dos alunos estão em escolas privadas.

40 % da população libanesa é cristã (é a maior percentagem do mundo árabe).

Há um médico por cada 10 pessoas. (Na Europa e América tem um médico por cada 100 pessoas)

O nome do Líbano aparece 75 vezes no testamento antigo.

O nome Cedro também aparece 75 vezes no testamento antigo.

Beirute foi destruído e reconstruído 7 vezes (por isso é comparado com a Phoenix)

Existem 4.5 milhões de libaneses no Líbano.

Há aproximadamente 14 milhões de libaneses fora do Líbano.

Só em Beirute tem mais de 350 centros noturnos.

O país foi ocupado por mais de 16 países (Egito-Hititas-Asírios-Babilônios-Persas-O exército de Alexandre-O Império Romano Bizantino-A Península Arábica-Os Cruzados-Os Otomanos-França-Israel e Síria).

Byblos é a cidade mais velha do mundo que ainda existe.

O nome do Líbano persistiu por 4.000 anos sem mudar (é o nome mais velho de um país do mundo que ainda existe)

O Líbano não tem desertos.

Existem 15 rios no Líbano e todos vêm de suas próprias montanhas.

Seus sites arqueológicos são dos mais populares do mundo.

O primeiro alfabeto foi criado em Byblos (encontra-se no museu do Líbano e está escrito no túmulo de Ahiram rei de Biblos

O único templo de Júpiter (O mais importante Deus Romano) está em Balbeck.

O Líbano é o único país do mundo árabe que não tem um ditador.

O nome Bíblia vem da cidade de Byblos.

No Líbano foi escrito o maior número de livros relacionados com a Bíblia.

Jesus Cristo fez seu primeiro milagre no Líbano, na cidade de Qana, (quando transformou a água em vinho).

Os fenícios no Líbano foram os primeiros a construir um navio e os primeiros navegadores da história.

Os fenícios também chegaram à América muito antes de Colombo. (Um navio fenício foi encontrado no Brasil)

A primeira faculdade de leis no mundo foi construída no centro de Beirute.

Diz-se que os Cedros do Líbano foram plantados pelas mãos de Deus por isso são chamados de cedros de Deus e ao Líbano a cidade de Deus na terra.

(Recebi via WhatsApp)

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quinta-feira, 13 de agosto de 2020

O SOFRIDO LÍBANO - José Sarney

O Maranhão tem uma certa ligação com o Líbano. É difícil encontrar uma família maranhense que com ele, de maneira direta ou indireta, não possua uma ligação de sangue, sentimental ou de amizade. Sírios e libaneses de vários credos religiosos buscaram para seus caminhos de imigração o Norte do Brasil. Aqui no Maranhão essa presença se tornou tão forte que muitos sírio-libaneses assumiram posições de liderança na política, no comércio, nas entidades de classe, com grande expressão.

Essa influência e miscigenação se tornou tão arraigada que chegou até a incorporar-se aos costumes e à culinária. Eu sempre digo que o Maranhão tem várias culinárias: a culinária da Costa, dos peixes e frutos do mar; a culinária portuguesa tradicional, que não abandonamos, de cozidões, tortas, caldeiradas; a do sertão, de carne de sol, maria isabel, pirão de leite etc; a libanesa de quibes, esfirras, quibe labanie; e a maranhense mesma, mistura da africana e da indígena com um toque libanês, de onde saiu o divino arroz de cuxá.

Antônio Dino, grande médico e alma boa, que foi meu Vice-Governador, me contou uma parte dessa saga da imigração libanesa dizendo que no início do século XX alguns refugiados políticos, seus ancestrais e muitos outros, vieram para o Maranhão, principalmente para o interior. Não guardei todo o relato, o que lamento, e faço uma sugestão para alguma tese acadêmica levantando essa história, que faz parte da nossa.

Eu mesmo tenho dentro de casa muitos Murad e Duailibe, genros e netos.

Quando o meu romance O Dono do Mar foi traduzido para o árabe, fui a Beirute para seu lançamento. A cidade tinha saído da guerra civil e estava toda destruída. O Rafik Hariri — que seis anos depois foi morto pela explosão de um carro bomba na hora em que passava seu comboio — era um grande político, fizera o Acordo de Faët acabando com 15 anos de guerra-civil, estava reconstruindo Beirute. Com ele e sua irmã construí mesmo uma relação de amizade. Tenho um serviço de jantar que foi ofertado por ele.

O Líbano tem uma história sofrida. Sua localização, espremido com fronteira do Israel, Síria e Chipre (pelo mar), o torna alvo de permanente agressão e envolvimento no caldeirão do Oriente Médio, tendo como centro a milenar luta de judeus e palestinos.

A tragédia que vive o Líbano com a gigantesca explosão e a destruição do seu porto e da cidade soma-se à crise econômica e política. Naquela época se assinalava a presença de 500 mil palestinos nos campos de refugiados, comandados pelo Hezbollah, que desequilibrava a divisão de poderes formada no pacto de independência, dividindo o poder dos xiitas com a milícia Amal. Com a guerra da Síria mais 1,5 milhões de refugiados entraram no país, que tinha 4,5 milhões. A insatisfação vem de toda parte. O filho de Hariri tentou recentemente substituir o pai e foi expulso pelos protestos de rua que exigem “fora todos os políticos”. A tragédia maior é um país essencialmente multicultural tornar-se inviável pela violência de seus vizinhos e pela incapacidade em exercer seu talento para a convivência.

Sofremos com o Líbano e somos solidários com o seu povo e nos juntamos àqueles que no mundo inteiro tem o dever de ajudá-los a ressurgir das cinzas.

 

O Estado do Maranhão, 08/08/2020

 

https://www.academia.org.br/artigos/o-sofrido-libano

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José Sarney - Sexto ocupante da Cadeira nº 38 da ABL, eleito em 17 de julho de 1980, na sucessão de José Américo de Almeida e recebido em 6 de novembro de 1980 pelo Acadêmico Josué Montello. Recebeu os Acadêmicos Marcos Vinicios Vilaça e Affonso Arinos de Mello Franco.


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DE NOVO A OPÇÃO PREFERENCIAL PELA EXCLUSÃO - Péricles Capanema

13 de agosto de 2020

Péricles Capanema

 

A jornalista Mônica Bergamo divulgou na “Folha de São Paulo” (26 de julho) “carta ao povo de Deus”, manifesto assinado por 152 bispos (em boa parte, resignatários), que deveria ter sido dado à publicidade quatro dias antes, a 22 de julho. Pelo que afirma a colunista, os signatários queriam, antes de propagá-la, esperar a opinião da Comissão Permanente da CNBB, cuja reunião para análise do texto ocorrerá proximamente. E temiam que a chamada “ala conservadora” da CNBB impedisse sua divulgação.

Tem sólidos fundamentos o temor do choque em setores conservadores. E não só da CNBB, em qualquer lugar, pois é traumático o conteúdo; trata-se de lídimo libelo petista, poderia ser assumido pela Comissão Executiva Nacional do PT.

De fato, na 2ª feira, 27 de julho, em nota a CNBB se distanciou (pelo menos, por enquanto) da mencionada tomada de posição, dizendo que “nada tem a ver” com ela, que é “responsabilidade dos signatários”. Teria então havido um vazamento para impedir o engavetamento do texto. Aqui não se trata de apoio ao governo Bolsonaro. É normal a oposição, cumpre papel necessário, terá justificativas que devem ser ponderadas.

O chocante no caso é a assunção da linguagem e das bandeiras da esquerda, mesmo a mais extremada, o apelo a um trabalho coordenado, cujo êxito colocará o Brasil em situação próxima à da Venezuela ou Cuba, retrocesso cruel para todos, em especial para os pobres.

Desde décadas, tem sido excluída a maioria silenciosa dos católicos. 

Existem cerca de 500 bispos atuando no Brasil, pouco mais de 300 efetivos, pouco menos de 200 resignatários. Dos 152 subscritores, repito, parte importante é resignatária. O fato tem sua importância. Convém recordar, o bispo emérito não tem obrigações de pastorear diocese, está mais distante dos fiéis e do Clero, sente-se assim mais livre para agir segundo suas preferências ronceiras; no caso, a militância esquerdista, que por razões prudenciais preferiria esconder quando à frente de dioceses. Ali, precisariam pelo menos fingir levar em conta o clamor da maioria silenciosa e silenciada do povo; recordando linguagem bíblica, não poderiam atirar uma pedra para filhos que pedem pão, nem podem arrojar uma serpente ao escutá-los pedindo peixe.

Com efeito, observando a orfandade em que se encontra desde décadas a imensa maioria do laicato católico, excluída de forma intolerante pela opção preferencial pela esquerda levada a cabo por parte dos pastores, é normal se lembrar de passagens bíblicas atinentes. “Tenho visto atentamente a aflição do meu povo, que está no Egito, e tenho ouvido o seu clamor” (Ex 3, 7). “E qual o pai de entre vós que, se o filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou, também, se lhe pedir peixe, lhe dará por peixe uma serpente?” (Lc 11, 11). Para os aflitos, a política habitual tem sido pedras e serpentes. O manifesto em análise constitui, dói dizê-lo, mais um dos episódios lacerantes do misterioso processo de autodemolição da Igreja, em que tantas vezes o pastor espanca a ovelha indefesa, abre as portas do redil e saúda alegremente o lobo que avança.

Radicalização da exclusão. Mais um ponto a ter em vista. Os 152 signatários podem estar redondamente iludidos a respeito da real influência que seu demolidor libelo terá na opinião nacional, em especial na católica. Na prática, vai demolir pouca coisa, se tanto. O brasileiro é pacato, abomina agitações e dilacerações. E o intolerante texto as instiga. Imaginarão que sua condição de bispos da Igreja Católica dá à sua voz eco que no caso não existe? Na prática, incomodado com a ácida linguagem revolucionária, o laicato majoritariamente fechará os ouvidos à mensagem.

Outro aspecto importante. Nosso Senhor no Evangelho ensinou: “As minhas ovelhas conhecem a minha voz (Jo 10, 27). O sensus fidei faz com que o católico conheça o timbre da voz do bom pastor. Quando é estranho o timbre, dele se afasta. Em resumo, o palavrório amazônico terá repercussão escassa. Os católicos, em geral desgostosos com o disparatado do texto, sentir-se-ão ainda mais excluídos.

Outra maioria silenciosa. 

Certamente bem mais que 152 bispos foram sondados para darem seu apoio ao texto intoxicado por um esquerdismo primário e descabelado. Recusaram. Temos aqui uma maioria silenciosa, um pouco menos de 350 — destes, quantos foram sondados, não tenho como saber —, que pelas mais variadas razões, inclusive desconhecimento, imagino, abstiveram-se. Preferiram guardar distância do texto revolucionário. Isolaram-se assim dos 152 signatários, tangidos pelo vezo incoercível de se juntar às reinvindicações da esquerda, mesmo as mais radicalizadas.

Em 1976, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira publicou livro de grande repercussão “A Igreja ante a escalada da ameaça comunista — Apelo aos bispos silenciosos”. O trabalho continha o pedido para que os então bispos silenciosos, maioria clara, tomassem a frente do palco, tirando o protagonismo quase monopolístico dos bispos de esquerda.

Agora, também, a maioria está silenciosa. Dizia ele na ocasião: “Importa, com efeito, não ver em tal silêncio apenas a posição cômoda de quem está longe da luta. Mas também o desapego e a retidão que evitam obstinadamente a complacência ativa com o mal. […] Nas mãos dos silenciosos, pôs Deus todos os meios que ainda podem remediar a situação: são eles numerosos, dispõem de posições, de prestígio e de cargos. Atuem. Nós lhes imploramos. Falem, ensinem, lutem”. Estamos hoje em situação parecida. Os excluídos na Igreja, ansiando por inclusão e compreensão, hoje não pedem outra coisaa seus pastores. Não aprofundem ainda mais as valas da exclusão.

Apelo à união da esquerda em torno de programa demolidor. 

O libelo dos 152 está na rede e na imprensa escrita. Dele extraio trechos de maior significado. Ponto central, recusa qualquer complacência com o governo: “É dever […] posicionar-se claramente. […] A narrativa que propõe a complacência frente aos desmandos do Governo Federal, não justifica a inércia e a omissão”. Aos que não têm nenhuma complacência (os sem complacência) com o governo, a proposta: “O momento é de unidade. […] Por isso, propomos um amplo diálogo nacional”. A finalidade de tal frente popular salta do texto apaixonado: “As reformas trabalhista e previdenciária mostraram-se como armadilhas. […] É insustentável uma economia que insiste no neoliberalismo. […] uma ‘economia que mata’. […] O desprezo pela educação, cultura, saúde e diplomacia também nos estarrece. […] Demonstrações de raiva pela educação pública. […] escolha da educação como inimiga. […] No plano econômico, o ministro da economia […] privilegiando apenas grandes grupos […] grupos financeiros que nada produzem. […] O governo federal demonstra rechaço pelos mais pobres e vulneráveis. […] Este tempo não é para divisões”.

Esperemos que a CNBB recuse seu apoio a um texto favorecedor de retrocessos e exclusões. E que, enfim, para o bem do Brasil, falem os silenciosos do Episcopado.

 

http://www.abim.inf.br/de-novo-a-opcao-preferencial-pela-exclusao/ 

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quarta-feira, 12 de agosto de 2020

A DESCONHECIDA – Mariano Latorre

 

           O montanhês, um homenzarrão talhado a fio de machado em velhas madeiras indígenas, desembaraça sua carreta serrana, sem responder a pergunta que lhe acaba de dirigir o rapaz de pé perto dele. É um rapaz franzino, em seu rosto magro existe algo de gasto. Seus dedos sujos, se retorcem. Por certo ele teme que o carreiro se vá sem lhe responder a pergunta na qual se aferra todo o seu ser. Então repete com voz trêmula:

            - Que me diz, senhor? Leva-me até Recinto. Peço-lhe por tudo que o senhor mais queira...

            O carreiro responde com ar de troça...

            - É muito pequena a carreta, senhor. Ademais, os bois não comeram nesta caldeira.

            O moço torna à carga. Sua voz agora tem o tom humilde e pedichão dos mendigos.

            - Senhor, não posso dar-lhe mais de dez pesos... Perdi tudo... Nada mais tenho.

            O carreiro mostra o quadrilátero minúsculo de sua carreta:

            - Não vê que é pequena? E vai também a senhora... O senhor não cabe...

            O jovem olha para o semicírculo escuro onde nada vê. Com uma voz débil faz ainda uma última tentativa.

            - Posso ir com o senhor na frente?

            O carreiro sorri compassivo

            - No varal apenas eu me sento...

            E generoso acrescenta, como esmola, um conselho:

            - Amanhã a carreta do Bustamonte segue para Veguilhas, é maior que esta.

            O rapaz responde já convicto: 

            - Obrigado, muito obrigado.

            Uma voz de mulher, de aspereza masculina, entretanto ordena de dentro:

            - Labrego, diz ao cavalheiro que pode ir na carreta.

            Indeciso o viandante aproximou-se da parte posterior:

            - Senhora, se o permite?

            Do interior da carreta veio um murmúrio inarticulado que devia ser de aquiescência. Teve de estender-se ao comprido e estirar-se com cuidado para não molestar a companheira. Não havia folga possível porque a mulher que ia a seu lado era corpulenta. Por sorte, um macio colchão de campo cobria a cama da carreta e sua cabeça descansou em uma almofada comum como em um leito conjugal. Todavia, como uma esposa ofendida, a mulher dera-lhe as costas e ele só via a curva escura de seus quadris e o ângulo de seu ombro. O calor era asfixiante. O rapaz cerrou os olhos. Quem era essa companhia? Será uma doente contagiosa que se oculta para não se envergonhar? Por que não lhe dirige a palavra? É talvez uma aldeã que só se banha por indicação médica... De súbito sentiu mover-se inquieta.

Os estremecimentos de seu corpo eram tão visíveis que no fundo do seu ser ouviu também essa voz ancestral que desperta e ruge sempre que um homem e uma mulher estão próximos um do outro. Em seguida, sentiu um odor de pele limpa que transpira; isto o exasperou até o intraduzível; a mulher, nos movimentos involuntários do sono, se aproximara mais para o seu lado, e parte de seus músculos colavam ao seu joelho e ao seu corpo. O carreteiro, lá fora, cantava:

            Um fazendeiro tinha

            boi de muitas cores...

            malhados e pintados...

            Algo de imprevisto fez com que o rapaz não mais ouvisse a voz do condutor. O corpo da mulher que dormitava ao seu lado, ia-se aproximando paulatinamente do seu. Não era em absoluto, agora o percebia exatamente, a pressão sem malícia de um corpo na inconsciência do sono; sentiu depois, próximo, um cálido alento, abrasador; e uns lábios que buscavam os seus, com essa cegueira que só a morte e a vida dão aos movimentos dos homens.

            E naquela carreta que rodava pela montanha o mundo se deteve um minuto em seu eterno rodar pelos espaços, sobre os lábios de dois seres desconhecidos até então.

            - Quem será esta mulher?

            Cansado, adormeceu.

            Violento solavanco o fez despertar em sobressalto.

            - Levanta, patrão, que já estamos em Recinto, falou o carreiro com voz rouca.

            - Aqui estão os dez pesos.

            O homem ia estender a mão para receber, mas a voz da mulher pronunciou um não imperativo cortando-lhe em seco o gesto.

            A um grito do carreiro, a carreta escorregou silenciosamente sobre a terra vermelha e porosa do caminho. A sua silhueta perdia-se na penumbra do amanhecer. Na memória do jovem ficava apenas o fogo de uma boca ávida sobre seus lábios e a ponta disforme de um sapato de aldeã.

            Esperou ainda que uma mão aparecesse, ao longe, em romântico gesto de adeus. Mas não se notou nenhum movimento. O rapaz dirigiu-se para a estação.

 

(CONTOS DE ALCOVA – Dezembro de 1963)

Compilados por Yves Idílio

 

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MARIANO LATORRE 

          Mariano Latorre é por excelência o estilista da paisagem chilena. Seus livros encerram, por ciclos sucessivos, as regiões e as cidades do Chile, sua pátria.

          Iniciador da prosa “criolista”, mestre do conto descritivo sul-americano, Latorre nos dá nesta sua “A DESCONHECIDA”, uma pequena “vernissage” do seu poder de “conteur” que bem merece uma maior e larga difusão entre os povos de língua latina.

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Mariano Latorre 

(Cobquecura, 1886 - Santiago, 1955) Romancista chileno, principal representante junto com Marta Brunet da corrente crioula no Chile. Mariano Latorre deixou os estudos de direito pela pedagogia e tornou-se professor de espanhol. Posteriormente, deu aulas de literatura na Universidade do Chile, combinando seu trabalho docente com a atividade literária, na qual, além de conceber suas próprias criações, foi frequentemente solicitado a prefaciar obras de outros autores e colaborar em revistas e jornais.

Por trinta anos ele viajou por todo o Chile, documentando-se sobre costumes, paisagens, flora, fauna, vestimenta, entonações de fala, etc. Seu trabalho bebia da observação direta da natureza, um meio que ele conhecia de suas contínuas excursões ao campo. Isso lhe permitiu desenvolver uma literatura que se destacasse por uma presença explícita do naturalismo e do costumbrismo, como já se apreciava em seu primeiro título, Cuentos del Maule (1912), um livro de contos em que o crioulo que prevaleceu ao longo de sua história começou a se definir. Produção.

Outros títulos do mesmo gênero são Cuna de condores (1918), Chilenos del mar (1929), On Panta (1935), Hombres y zorros (1937) e La isla de los rosas (1955). Dentre suas novelas, destaca-se Zurzulita (1920), em que o protagonista é a Cordilheira dos Andes, por onde desfilam uma série de personagens, como camponeses, pobres e marginalizados, vítimas dos poderosos elementos da natureza. Outros romances seus são Ully (1923) e La paquera (póstumo, 1958).

Em 1971 foram publicados seus ensaios, reunidos sob o título de Memórias e Outras Confidências . Em 1944, pelos seus méritos, laboriosidade e grande contribuição para o conhecimento dos costumes, da língua e do quadro patriótico natural, foi galardoado com o Prémio Nacional de Literatura. Um ano depois, foi nomeado acadêmico da Faculdade de Filosofia e Educação da Universidade do Chile. No campo da diplomacia, Mariano Latorre foi adido cultural na Espanha, Argentina, Colômbia e Bolívia.

https://www.biografiasyvidas.com/biografia/l/latorre.htm

 

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terça-feira, 11 de agosto de 2020

O CEGO MARUJO – Cyro de Mattos

                                O Cego Marujo

Cyro de Mattos

 

               Na minha infância conheci criaturas interessantes que, na maneira de ser de cada uma delas,  davam cores e sons à cidade. Faziam parte do espetáculo da vida onde  quer que se apresentassem.  O cego Marujo era uma delas. Fazia ponto com a sua viola inseparável no estacionamento  de ônibus, que ficava no centro da cidade, atrás do prédio do Instituto de Cacau da Bahia, perto do Ginásio Divina Providência.

         As marinetes, assim chamados os ônibus de cadeira dura daquela época,  chegavam e saíam daquele local  movimentado com  gente próspera e modesta. Ali,  os carregadores entregavam  os embrulhos grandes pelas janelas aos passageiros que  retornavam  a alguma cidade circunvizinha. Não importava o tempo, chuvoso ou de estio, lá estava o cego Marujo dedilhando a viola ao peito, a cuia ao lado.

         Ficava no passeio, embaixo da marquise, junto à entrada  para os guichês onde os passageiros compravam a passagem.  Antes que o ônibus partisse,  passageiros gostavam de ouvir o cego Marujo dedilhando a viola, que gemia ao peito. A cuia ia se enchendo de cédulas de dinheiro e  moedas na medida que ele ia tirando  suas cantigas, dizendo de coisas alegres e tristes, das ocorrências rotineiras que serviam de alimento à memória da cidade. 

     .  Desfiava na viola a história que falasse de algum assunto  bastante comentado na cidade, como o da mulher  que foi esfaqueada pelo marido ciumento quando o casal atravessava a Ponte  Velha.  O marido acusava de estar sendo traído pela mulher com o vizinho.  A pobre coitada só fazia cuidar dos  afazeres da casa e fazer a comida gostosa para o marido ciumento. No meio da discussão acirrada, o marido golpeou a infeliz com várias facadas. Melado de sangue,  sem saber o que fazer depois da cena alucinada,   o marido ciumento  jogou da ponte o corpo da mulher no rio e saiu disparado rumo ao centro da cidade,  gritando que era um homem desgraçado. 

      Outra vez o cego Marujo desfiou a cantiga da mulher que pariu no meio da Ponte Velha. Teve sorte. Deu à luz com a ajuda de duas mulheres idosas,  que cedo  iam fazendo a travessia na ponte.  Pariu um menino graúdo. Não deu um gemido durante o parto, não chorou, , não  fez cara feia.  Levantou-se com a ajuda das duas mulheres  que fizeram o parto. Saiu andando como se nada de mais tivesse acontecido, o menino nos braços, no rosto alegre o sorriso gordo.  

            Se o cego Marujo não enxergava, os olhos estavam submersos nas sombras,  como era que conseguia gravar aquelas histórias,  que pareciam  publicadas nos  cordéis escritos pelos  trovadores da cidade?  Comentava-se que o seu guia, um menino negro, esperto,  era quem lia as histórias de cordel  para ele no barraco onde moravam no bairro da Conceição. Ele fazia a música e encaixava a letra no  cordel  cujo conteúdo  mais o marcava. Mas também improvisava com  cantigas baseadas em histórias que ele mesmo inventava.

           Gostava de fazer o  público sorrir quando estava  aglomerado  diante dele. Certa vez, ouvi o cego Marujo  falar do tempo que era jovem, enxergava até agulha na areia, era pescador que saía cedo  para pegar o peixe  nos longes do mares bravios.

          O barco parecia brinquedo

          Nas mãos da onda gigante,

          Chamava por Deus a tripulação,

         Só eu era o que nada temia,

         Quanto mais fosse o perigo

         Causando a maior aflição.

 

       Não viesse pescar comigo   

       Nos mares distantes de Ilhéus,

      Homem que fosse frouxo,

     Desses  que gosta de cama boa, 

      Contar façanha na lorota,

      Comer mulher de bunda gorda.

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Cyro de Mattos, escritor e poeta. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia, Pen Clube do Brasil, Academia de Letras de Ilhéus e Academia de Letras de Itabuna. Autor premiado no Brasil, Portugal, Itália e México.

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