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sábado, 5 de outubro de 2019

SOBRE MÃE E RELIGIÃO – Mônica Porto


Sobre Mãe e Religião
Por Mônica Maria Porto

Desde pequenina, até onde minha memória alcança as inúmeras lembranças sobre minha formação religiosa, fui criada na religião católica.

Minha mãe, mulher dedicada a Deus e à religião que escolheu, que desde cedo também foi orientada dentro do catolicismo por seus pais, abraçando a religião ao longo de toda sua vida; aderindo-a com personalidade... pois personalidade era uma de suas marcas principais.  Afirmo isso com veemência, pois a conheci desde minha concepção rsrs. - Estranho? Não!  A ciência diz em suas pesquisas que os bebês já reconhecem sua mãe a partir da convivência em seu útero, inclusive guardando memórias. Nesse caso sei da personalidade forte da minha mãe, principalmente nas suas escolhas. Acredito, então, que apesar dela ter herdado de seus pais a religião deles, entre tantas outras coisas, a escolha dela pela religião que abraçou até a sua morte, foi dela com muita crença e dedicação.

O que mais eu admirava nela, entre milhares de coisas, era exatamente a liberdade que nos deu, em mais tarde, quando tivéssemos idade suficiente, escolher nossa própria religião. Porém, enquanto crianças, a religião católica, a mesma dela, tinha que ser também a nossa.

Apesar da crença irrefutável na sua religião, nunca a vi criticar outras religiões e, muito menos, qualquer tipo de preconceito relativo a nenhuma delas.

Criou todos os 12 filhos no catolicismo e dentro das recomendações do mesmo: batismo, catecismo, crisma...

À proporção que fomos crescendo e ganhando conhecimento, lendo sobre outras religiões, a maioria dos filhos continuaram na religião católica, mas temos dentro da família tão numerosa, aqueles que aderiram à religião espírita Kardecista. Digo assim, porque dentro da religião espírita há várias vertentes como o candomblé, umbanda e tantas outras. Nesse momento estou falando sobre os filhos de Mônica Leite, minha mãe, e não dos netos e bisnetos. Esses entram mais tarde. Agora ficam de fora. Senão é história que não acaba mais rsrs.

Falar sobre religião é difícil quando cada um defende a sua como a certa ou a melhor...daí eu admirar o Dalai Lama, quando perguntado por Leonardo Boff, sobre “Santidade, qual a melhor religião?" e, ele responde:
"A melhor religião é a que te aproxima de Deus, do infinito."
"É aquela que te faz melhor."

Leonardo Boff, insiste:
"E o que me faz melhor?"

Dalai Lama:
"Aquilo que te faz mais compassivo. Aquilo que te faz mais sensível, mais desapegado, mais amoroso, mais humanitário, mais responsável, mais ético... A religião que conseguir isso de ti é a melhor..."

O que Leonardo Boff conclui:
"Não me interessa a tua religião ou mesmo se tens ou não uma. O que realmente importa é a tua conduta perante o teu semelhante, teu trabalho, tua comunidade, perante o mundo... Para muitos, ser feliz não é questão de destino, é questão de escolha. Pense nisso."

Concluo eu desse diálogo entre Leonardo Boff e Dalai Lama, é que minha mãe, apesar de nos ter dado uma religião da sua escolha, também nos deu a liberdade de fazermos nossas próprias escolhas na vida, através dos princípios éticos e morais que ela tão bem soube passar, sem sequer ter conhecido  Dalai Lama. Mas seu conhecimento veio através da sua filosofia de vida em proporcionar a seus 12 filhos, que através dela formam também seus descendentes dentro dos mesmos princípios morais que formaram nosso caráter. Caráter que ninguém destrói.

É isso: Concordo com Dalai Lama:
"A melhor religião é a que te aproxima de Deus, do infinito."

E vou concordar eternamente com mamãe:
Crie seu filho dentro de uma religião que seja a sua. Você está fazendo a sua parte. Mas dê a ele a liberdade de pensar, refletir sobre a mesma de forma crítica, para através dessa reflexão ter a sua própria religião, fazendo suas próprias escolhas, aquela que o faz mais sensível quando em empatia com o outro e sem preconceitos.

Hoje, 02 de outubro de 2019
Em Itabuna/Ba.

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MÔNICA MARIA
Alegre, extrovertida, colorida.
Amante da natureza, 
principalmente dos animais, 
plantas e flores.

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sexta-feira, 4 de outubro de 2019

GANHAMOS UM NOBEL? - Arnaldo Niskier


Gostamos de competir sempre com a Argentina. Há um setor em que sofremos há muito tempo: é o da ciência. O país vizinho tem a honra de contar com um Prêmio Nobel (Bernardo Houssay), o que jamais ocorreu ao Brasil. Como se diz no esporte, batemos na trave algumas vezes, com Josué de Castro, autor de “Geografia da Fome”, Jorge Amado e D. Helder Câmara. Não contaram com a simpatia do governo brasileiro.

Agora, o assunto volta à tona, com os desastres ambientais da Amazônia. Fala-se no nome do cacique Raoni, lembrado para o Nobel da Paz, que é dado na Noruega.  É claro que as caneladas nesse país escandinavo estão longe de ajudar nessa conquista desejada, o mesmo podendo ser dito em relação à redução das verbas para os projetos de iniciação científica.

Mas temos outros caminhos, que passam pela medicina, física, química e  matemática, onde há nomes notáveis em grandes instituições brasileiras, como a Universidade Federal do Rio de Janeiro, a Universidade de São Paulo, a Unicamp e a Universidade Federal de Pernambuco, para só ficar nessas. O tema foi lembrado numa reunião na Academia Brasileira de Letras, com a presença do cientista Luiz Davidovich, presidente da Academia Brasileira de Ciências. São mais do que justas as reivindicações feitas.

Há uma clareira aberta recentemente pelo intercâmbio Brasil-Israel. Lideranças empresariais e políticas de Santa Catarina, como lembrou o jornalista Henrique Bernardo Veltman, visitaram a jovem nação, deixando fincadas as bases de um sólido intercâmbio, a partir da Universidade de Tel Aviv, hoje a maior instituição de ensino superior de Israel, com mais de 30 mil alunos, além de um quadro altamente qualificado de cientistas. Foi uma iniciativa da Conib (Confederação Israelita do Brasil). O mesmo fez a ABMES (Associação Brasileira das Mantenedoras de Ensino Superior), sob a liderança do reitor Celso Niskier (Unicarioca). Foram 30 reitores brasileiros a Israel, em busca do necessário intercâmbio. Deixaram assinados oito convênios com esse fim, de olho inclusive nas conquistas do Vale do Silício de Israel, onde há feitos de extraordinário valor para a humanidade. Temos outro dado positivo que é a existência há três anos do projeto Edupark, de que fazem parte a Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro e a Fundação Cesgranrio. Já foram exibidos nas escolas cariocas vários filmes israelenses (Planeta Casa, Dependentes da Vida e Livre para ser), todos em terceira dimensão, já assistidos com entusiasmo por 42.000 alunos.  Iniciativas assim fazem a diferença.

Já imaginaram se dessa parceria, que envolve os afamados Instituto Weizmann de Ciências e o Technion de Haifa, surgisse a conquista de um Prêmio Nobel? A ideia é perfeitamente possível, no quadro dos entendimentos internacionais que envolvem o Brasil e Israel, inclusive se pensarmos nos 4 milhões de km2 da região amazônica, com seus problemas e desafios, como a existência de queimadas que cresceram mais de 111%, de 2013 a 2019. É um fato que merece a ação prioritária dos cientistas.

Querem o exemplo de um nicho promissor? É o caso da venda consumada de 36 caças Grippen suecos ao governo brasileiro. Prevê-se, a partir do ano próximo, uma intensa troca de tecnologia aeronáutica – e isso pode envolver a nossa Embraer e a Aeronautics Ltd. ou a Israel Aerospace Industries. Dará um Nobel?

Diário Regional, 29/09/2019


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Arnaldo Niskier - Sétimo ocupante da Cadeira nº 18 da ABL, eleito em 22 de março de 1984, na sucessão de Peregrino Júnior e recebido em 17 de setembro de 1984 pela acadêmica Rachel de Queiroz. Recebeu os acadêmicos Murilo Melo Filho, Carlos Heitor Cony e Paulo Coelho. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 1998 e 1999.


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SÍNODO DA AMAZÔNIA: QUE OS BISPOS FALEM DE CRISTO E NÃO DE SINCRETISMO


4 de outubro de 2019

Roma, 4 de outubro de 2019

            Que o Sínodo Especial para a Região Pan-Amazônica seja a oportunidade para um verdadeiro reavivamento do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, evitando qualquer tentação ao sincretismo religioso.

            Este é o apelo lançado pelo Instituto Plinio Corrêa de Oliveira aos padres sinodais, que se reúnem em Roma de 6 a 27 de outubro.

            Hoje pela manhã, um representante do Instituto, o jornalista Nelson Ramos Barretto, entregou no Vaticano mais de 22 mil assinaturas recentemente coletadas durante campanha organizada pelos jovens voluntários do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira, que em 20 dias atravessaram vastas regiões amazônica.

            Em carta enviada ao cardeal Lorenzo Baldisseri, Secretário-geral do Sínodo dos Bispos, o presidente do Instituto, Adolpho Lindenberg, lembrou o trabalho meritório realizado pela Igreja na América ao longo dos séculos, destacando também como o Brasil sempre foi chamado de “Terra da Santa Cruz”.

            A maioria da população da região amazônica — escreve Adolpho Lindenberg — pede à Assembléia Especial do Sínodo dos Bispos “que não atue como uma caixa de ressonância de teorias que estão longe de ter a aprovação da comunidade científica e que poderiam jogar esse imenso território no atraso social e econômico”.

            “Essas teorias — acrescenta ele —, embora amplamente divulgadas pelos poderosos deste mundo, como as Nações Unidas, inúmeras ONGs extremamente ideológicas e a grande mídia, não representam o sentimento comum do homem da rua daquela região, como nossos jovens puderam ver e comprovar”.

            Para amanhã, 5 de outubro, o Instituto Plinio Corrêa de Oliveira organizou um fórum internacional, que será realizado no Hotel Quirinale, na Via Nazionale, das 9h30 às 18h00.

No evento, falarão o príncipe imperial do Brasil, Dom Bertrand d’Orleans e Bragança, autor do livro Psicose Ambientalista, recentemente citado pelo presidente Jair Bolsonaro; o Prof. Luiz Carlos Molion, meteorologista da Universidade Federal de Alagoas; o advogado Jonas Marcolino Macuxí, líder da etnia Macuxí de Roraima, na Amazônia.

                Em seguida, intervirão no fórum José Antonio Ureta, da Association Tradition, Famille, Propriété (TFP) da França; James Bascom, diretor do escritório de TFP de Washington; o Prof. Stefano Fontana, Diretor do Observatório Card. Van Thuận da Doutrina Social da Igreja e Prof. Roberto de Mattei, presidente da Fundação Lepanto. Julio Loredo, presidente da TFP italiana e autor de Teologia da Libertação – Um salva-vidas de chumbo para os pobres será o moderador.

                O programa do fórum de 5 de outubro no link:




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quinta-feira, 3 de outubro de 2019

ESPERAR É SABER – Péricles Capanema


29 de setembro de 2019

“Passeata dos Cem Mil”, em 26 de junho de 1968, no Rio de Janeiro

Péricles Capanema

“Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe, faz a hora, não espera acontecer”

É conhecido, os dois versos, símbolos das agitações de 1968 no Brasil, fazem parte de “Caminhando”, letra de Geraldo Vandré (ou “Para não dizer que não falei de flores”), ainda hoje repetidos a propósito de tudo e de nada. Não vou aqui discorrer sobre as disputas no interior da esquerda (inclusive a terrorista) refletidas nos mencionados versos. Quem conhecia as táticas revolucionárias, era a ilusão, poderia precipitar acontecimentos, passar por cima de atitudes prudenciais, enfatizadas por outros setores da esquerda, que postulavam a necessidade de esperar, em vista da apatia da opinião pública brasileira.
 “Pelas ruas marchando indecisos cordões”. O conhecimento traria a tática revolucionária eficaz, geradora da hora revolucionária, desencadearia engajamento nos vacilantes e apáticos; finalmente, causaria o acontecimento revolucionário decisivo.

Balelas. O amazônico acontecimento era outro. Ainda que escamoteado naqueles tempos em tantas análises, a apatia da opinião pública, que não aderia à pauta revolucionária, emperrava as possibilidades das correntes revolucionarias e inviabilizava seus planos. O povão estava noutra. Ainda hoje está noutra.

Com efeito, para ódio das lideranças comunistas e comunistoides, naquele ambiente de guerra fria, de choques entre comunismo e democracia liberal, entre religião e ateísmo, de tensões entre Rússia e Estados Unidos, o desinteresse popular pela esquerda no Brasil não publicado (ou divulgado) impedia o triunfo do programa revolucionário, favorecedor do bolchevismo.

Havia um matiz a pôr em relevo, existe forte ainda hoje: aderia de fato ao programa revolucionário apenas fatia minoritária da burguesia, do dinheiro ou da inteligência, enquistada sobretudo no alto empresariado, no clero, na academia e nos meios de divulgação. É a opinião publicada (diferente de opinião pública), gente muito divulgada. E, outrora como hoje, pois o quadro nas linhas gerais se mantém inalterado, tal fatia do público de forma arbitrária se julgava e ainda se julga porta-voz popular.

Convém lembrar, o ápice das mencionadas agitações foi a batizada pela mídia “Passeata dos 100 mil”, realizada em 26 de junho no Rio de Janeiro, várias vezes glosada entre outros por Nelson Rodrigues. Abaixo pincei um de seus comentários mais pertinentes:

“Vocês se lembram da Passeata dos Cem Mil, a famosíssima Passeata dos Cem Mil? Os meus leitores, se é que os tenho, já repararam que eu a cito muito. E por quê? Quem quiser entender as nossas elites e o seu fracasso encontrará nos Cem Mil um dado essencial. Não havia, ali, um único e escasso preto. E nem operário, nem favelado, e nem torcedor do Flamengo, e nem barnabé, e nem pé-rapado, nem cabeça de bagre. Eram os filhos da grande burguesia, os pais da grande burguesia, as mães da grande burguesia. Portanto, as elites. E sabem por que e para que se reunia tanta gente? Para não falar no Brasil, em hipótese nenhuma. O Brasil foi o nome e foi o assunto riscado. Picharam o nosso Municipal com um nome único: — Cuba. Do Brasil, nada? Nada. As elites passavam gritando: — “Vietnã, Vietnã, Vietnã!”.

Já disse, a situação continua hoje no miolo parecida à exposta pelo jornalista recifense décadas atrás: o povo distante das metas revolucionárias e um naco das elites, em parte por mimetismo e subserviência a modas estrangeiras, a elas atrelado. Formam um Brasil desnaturado, repito, mimetista e subserviente. Falador, expansivo — e divulgado. O mutismo toma conta da maioria. Será preciso que para felicidade nossa um dia os mudos falem. Para expandir uma boa influência.

É útil entronizar tal situação no alto de nossas reflexões ao analisar a presente crise a propósito da Amazônia e das queimadas que ali acontecem. Tal crise é muito mais presente no Brasil divulgado (o Brasil da opinião publicada) que no Brasil mudo. Aliás, a crise no presente está tomando rumo favorável ao Brasil. No curto prazo.

E no longo prazo? Só Deus sabe. É o que mais interessa, contudo. Desta crise, sob olhar de longo prazo, só vou pôr aqui em evidência um aspecto saneador, indispensável para sua boa solução, mas desconhecido quando não silenciado, como se poderá ver abaixo. Nunca devíamos nos esquecer dele.

Em síntese, agora um pouco utópico, mas que volte a ter relevância decisiva gente que represente de fato o Brasil no que tem de melhor em todos os âmbitos. É representação natural, nascida do fato, transcende a representação parlamentar e tende a moldá-la. Conta na vida real, ex facto oritur ius. Se não caminharmos nessa direção, o Brasil terá dias tristes pela frente. No caso, que seja excelente na correção, na inteligência, na habilidade, na firmeza. O clima seria outro, outros seriam os rumos e os resultados.

Existem ainda entre nós pelo menos raízes que, desenvolvidas, poderão dar origem a densa vegetação e finalmente dominar a paisagem, resgatando assim a imagem pátria, hoje maculada por quem não lhe quer bem. Será maneira de apagar incêndios, abafar queimadas, eliminar sequelas prejudiciais decorrentes da presente crise, se conduzida desastradamente. E de futuras.

Sem tal pano de fundo, o senso da necessidade de que o Brasil tenha uma representação à sua altura, será a bem dizer impossível escapar do ambiente tóxico em que a boçalidade, primarismo, oportunismo, arrogância, prepotência envenenam, por exemplo, as relações entre Brasil e França, de momento o entrevero mais doloroso, mas não único. É urgente que o vento leve embora tal fumaça e se restaure o clima puro, fresco, oxigenado, que em tempos passados começava a existir. Só nele os dois países poderão buscar seus melhores objetivos, sem sequelas de choques desnecessários, para dizer o mínimo. Pode demorar, é certo, mas que haja um trabalho nessa direção e se esperem os bons resultados. Esperar é saber.

Analiso então em rápidos traços a situação mais candente na crise atual, França e Brasil. A maior fronteira da França é com o Brasil. Mais importante que a linde extensa, a perder de vista, é a preservação e melhoria já de mais de século das relações especiais de apreço e consideração existentes entre os dois países; diria mais, tantas vezes de encanto mútuo. O francês já foi a segunda língua de todo brasileiro educado. E por sintomático repiso (já evoquei as palavras outras vezes) o que disse Fernand Braudel (1902-1985), dos maiores intelectuais franceses do século XX: “Foi no Brasil que me tornei inteligente. O espetáculo que tive diante dos olhos era um tal espetáculo de história, um tal espetáculo de gentileza social que eu compreendi a vida de outra maneira. Os mais belos anos de minha vida, eu passei no Brasil”.

Também emblemático, fato narrado por Gilberto Amado (1887 – 1969) em suas memórias deixa ver a relevância de se manter tal clima. Corria 1933, o homem público sergipano havia sido convidado para falar sobre Direito Penal na Sorbonne para professores de Direito e pessoas ligadas à área jurídica. Auditório benévolo, mas muito exigente, parte da alta cultura francesa ali presente. Um professor da Sorbonne, Georges Dumas (1866 – 1946), amigo do conferencista, o havia apresentado sob luz favorável. A expectativa era grande. Gilberto Amado assim começou sua conferência: “En venant du Brésil, ce pays du soleil, vers la France, je viens de la lumière vers la clarté” [Vindo do Brasil, este país do sol, para a França — venho da luz para a clareza]. Conquistados e encantados com o gancho, os presentes aplaudiram vivamente. A conferência foi um êxito. Antes de começar a lição, vê-se bem, o conferencista, na época das maiores expressões da inteligência brasileira, inclinava-se contente diante de uma das principais características da cultura francesa e a homenageava. Ali as elites da inteligência, de um e outro país, se oscularam para bem dos povos francês e brasileiro. É insano desprezar acervos assim, nutridos pela História, existentes nos mais variados âmbitos da vida social, determinantes, quando bem utilizados, para as relações benéficas entre os povos. Sem tal perfume, as reações entre a França e o Brasil (e também relações com outros países) terão sempre um travo azedo.

Falei da inteligência. Tratarei agora da inteligência, tato e firmeza. Um último fato. Há maneiras superiormente eficazes de lidar com os atentados à soberania e nós já as presenciamos. Em 1905 e 1906 (o caso Panther) foi violada a soberania brasileira em Itajaí, caso de marinheiro que trabalhava na canhoneira Panther. De um lado, estava uma das grandes potências do mundo, grande poder militar, a poderosa Alemanha do imperador Guilherme II. De outro, um país fraco e agrícola, com as relações exteriores a cargo do barão do Rio Branco (1845-1912) [Foto ao lado]. Hábil, seguro, educado e firme, o barão conduziu o caso de modo a que, a Alemanha julgasse melhor pedir desculpas formais ao Brasil. Qualquer biografia objetiva do barão do Rio Branco descreve bem o incidente. Por nota datada de 2 de janeiro de 1906, o representante alemão no Brasil, barão de Teutler, asseverou, não houvera intenção alguma de se desrespeitar a soberania do Brasil, bem como reiterou os votos de amizade. Mais ainda, informou que os responsáveis pelo incidente seriam submetidos a julgamento militar. Aqui está nota da pena do chefe da diplomacia brasileira: “O Governo Brasileiro aprecia devidamente a retidão e presteza com que o Governo Imperial procedeu no exame e decisão deste caso, dando mais uma prova dos seus elevados sentimentos de justiça. Não pode, entretanto — quaisquer que sejam os usos das marinhas de guerra em outros países — deixar de lamentar que o Comandante da Panther tivesse incumbido oficiais e praças da sua guarnição de fazer indagações em terra, mesmo obrando com a maior reserva e prudência, para verificar o paradeiro de um desertor, tanto mais quanto o mesmo Comandante declara que contava com a boa vontade das autoridades territoriais, às quais compete, incontestavelmente, praticar as diligências de polícia necessárias para a descoberta, captura e entrega de desertores”.

Por que recordo tudo isso? Preliminarmente, para tirar do mutismo (ou melhor, do olvido e do desconhecimento) fatos que merecem ser divulgados. Em segundo lugar, para subir os padrões de comparação, é sempre estimulante ter diante dos olhos modelos de excelência. Em terceiro, para lembrar a importância de criar ambiente permeado de elevação, em que floresçam a compreensão e a admiração mútuas (prévio ao surgimento de problemas), que facilite o bom encaminhamento das soluções. Todos os brasileiros que prestam esperam que passem as nuvens tóxicas, acabem as queimadas em nossa reputação (e as desautorizadas na Amazônia), para que o ar se torne cada vez mais impregnado de civilidade, inteligência e busca efetiva dos interesses nacionais. Como no exemplo de Gilberto Amado e do barão do Rio Branco que, nos casos relatados, agiram de maneira eficaz favorecendo interesses do Brasil. Esperemos e trabalhemos com paciência, com a esperança de chegar a bom porto. Em muitas ocasiões, esperar é saber.



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NULIDADE RELATIVA - Merval Pereira


Mesmo sem entrar no mérito da decisão que o Supremo Tribunal Federal (STF) vier a tomar, na conclusão do julgamento sobre qual o alcance da nova regra que exige que o réu delator fale antes dos demais réus nas alegações finais dos julgamentos, houve na sessão de ontem momentos que são definidores da posição de vários ministros, não sem frequência discordantes entre si, mas ontem com algumas concordâncias heterodoxas.

O ministro Marco Aurélio Mello tirou o presidente Dias Toffoli do sério ao classificar a decisão de “jeitinho brasileiro”, pois não existe nada que indique na legislação em vigor que réus são diferentes entre si.

Para Marco Aurélio, que se orgulha de estar quase sempre na contramão de seus pares, o STF está legislando sobre um tema que não lhe compete, que deveria ficar a cargo do Legislativo. Ele também foi contra que o plenário definisse uma orientação a ser seguida pelo sistema judiciário como um todo.

Disse que uma decisão generalista deixará de lado aspectos específicos de cada caso, impedindo milhares de réus que se considerem prejudicados em seus julgamentos de recorrer. Isso porque a decisão do plenário de anular a condenação de um ex-gerente da Petrobras por ter sido ouvido ao mesmo tempo que seus delatores, deve ser estendida apenas aos que reivindicaram, e não foram atendidos, desde a primeira instância, essa prerrogativa de ser ouvido depois do delator.

Marco Aurélio alegou, concordando com o ministro Alexandre de Moraes, que haverá um tratamento desigual para casos semelhantes. O ministro Ricardo Lewandowski lembrou que réus que não tiveram condições de pagar um bom advogado podem ter perdido a chance de exigir essa prerrogativa que agora o STF tornou obrigatória.

Lewandowski e Moraes consideram que a nulidade é absoluta, enquanto Marco Aurelio não vê nulidade alguma. A maioria parece considerar que ela é relativa, e o que se discute é como demarcar a validade da decisão nos julgamentos já realizados.

A exigência de provar o prejuízo causado pelo não cumprimento dessa determinação é o ponto mais polêmico, porém importante, da proposta de Toffoli

Marco Aurélio disse que a decisão seria favorável aos tubarões, e que dificultaria o combate à corrupção. Mexeu com dois de seus pares, o próprio Toffoli, que em sua fala respondeu indiretamente, lembrando que a decisão vai alcançar todos os réus, não apenas os da Lava Jato, e ajudará também os mais pobres, e o ministro Gilmar Mendes, seu velho desafeto, que lembrou que sempre esteve a favor do combate ao crime, mas sem a utilização de outros crimes. Citou decisões que tomou para dizer que “aqui ninguém pode me dar lição de moral”.

O presidente do Supremo, ministro Dias Toffoli, acabou apoiado pela maioria do plenário na sua proposta de definir uma tese para ser seguida pelo Judiciário em todos os níveis. Em nome da segurança jurídica e do interesse social, viu sua tese ser apoiada pelo ministro Luis Roberto Barroso, que deu os argumentos técnicos para confrontar a tese de Lewandowski, que exigia um quorum de 8 votos para aprovar o que chamou de “modulação” proposta por Toffoli.

Desde a semana passada o ministro Gilmar Mendes repetia que o STF não faria uma modulação, que trata de inconstitucionalidades, mas definiria os termos da decisão. Tratava de evitar a armadilha do quorum qualificado, no que foi apoiado pela maioria.

O ministro Gilmar Mendes aproveitou a ocasião para tratar do assunto a que mais se dedica, falar mal dos procuradores de Curitiba e do ministro Sergio Moro, a quem acusou de transformar a prisão preventiva em “instrumento de tortura” para obter confissões dos presos: “Quem defende a tortura não pode fazer parte desta Corte”, asseverou, referindo-se à possibilidade de Moro vir a ser indicado por Bolsonaro para uma vaga no STF.

Tanto ele quanto o presidente Dias Toffoli usaram e abusaram de pausas dramáticas nas suas falas, Toffoli rebatendo as criticas de Marco Aurélio, sem citá-lo, mas olhando-o fixamente. Gilmar, para citar trechos do The Intercept que revelaram, segundo sua indignação, atitudes dos procuradores da Lava Jato contra ministros e o próprio Supremo Tribunal Federal.

Gilmar deu mais atenção às acusações reveladas pelas conversas roubadas dos celulares dos procuradores do que ao caso em si, que tratou como mais um desdobramento dos abusos de poder cometidos pela “República de Curitiba”. No auge de sua indignação, insinuou um “fetiche sexual” entre procuradores e juízes da Lava Jato.

O Globo, 03/10/2019


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Merval Pereira - Oitavo ocupante da cadeira nº 31 da ABL, eleito em 2 de junho de 2011, na sucessão de Moacyr Scliar, falecido em 27 de fevereiro de 2011, foi recebido em 23 de setembro de 2011, pelo Acadêmico Eduardo Portella.

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quarta-feira, 2 de outubro de 2019

QUANDO ERA ATACADA PELOS DEMÔNIOS, SANTA FAUSTINA RECORRIA AO ANJO DA GUARDA



Philip Kosloski | Out 02, 2019

As forças satânicas não gostavam que ela levasse os outros a abraçar a misericórdia de Deus

Desde o Jardim do Éden, Satanás tem sido obstinado em suas ações para frustrar os planos de Deus. Quando ele vê alguém fazendo o bem, tirando almas de suas mãos, isso o deixa furioso.

Foi o que aconteceu com Santa Faustina, uma freira polonesa que viveu no início do século XX. Ela frequentemente recebia revelações particulares de Jesus, instruindo-a a espalhar a mensagem da Divina Misericórdia pelo mundo. Esta mensagem se concentrava no amor e misericórdia sem limites de Deus, que está pronto para aceitar até os pecadores mais endurecidos de volta ao seu rebanho.

Satanás não estava feliz e enviou uma série de demônios para amedrontá-la, esperando que ela desistisse da missão que Deus lhe confiara. Ela escreve sobre isso em seu “Diário”:

“Depois de dar alguns passos, uma grande multidão de demônios bloqueou meu caminho. Eles me ameaçaram com terríveis torturas, e ouviam-se vozes: ‘Ela roubou tudo o que trabalhamos [para conseguir] há tantos anos!’. Quando perguntei a eles: ‘De onde vocês veem em tão grande número?’, as formas perversas responderam: ‘Saia dos corações humanos; pare de nos atormentar!'”

Santa Faustina não recuou, mas pediu ajuda ao seu Anjo da Guarda.

“Vendo seu grande ódio por mim, imediatamente pedi ajuda ao meu Anjo da Guarda, e imediatamente sua figura radiante apareceu e me disse: ‘Não tema, esposa do meu Senhor; sem a permissão dele, esses espíritos não farão mal a você’. Imediatamente os maus espíritos desapareceram, e o fiel Anjo da Guarda me acompanhou, de maneira visível, até a minha casa. Seu olhar era modesto e pacífico, e uma chama de fogo brilhava em sua testa.”

Este não foi o último encontro com demônios que Santa Faustina teve, e toda vez que isso acontecia, ela rezava para seu Anjo da Guarda, que posteriormente os afugentava.

É uma crença católica que os anjos foram designados para cada indivíduo para protegê-los de todo ataque espiritual e guiá-los para mais perto do céu. Eles sempre estão prontos para vir em nosso auxílio, mas acredita-se que precisamos pedir ajuda a eles. É por isso que a Igreja incentiva o desenvolvimento de um relacionamento próximo com o seu Anjo da Guarda, recorrendo frequentemente a eles em seu momento de necessidade.

Aprenda com o exemplo de Santa Faustina e ore diariamente ao seu anjo da guarda, pedindo-lhe ajuda, especialmente em meio a tentações ou ataques espirituais.

Leia também:


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UM APÓLOGO: O Fósforo e a Vela


O Fósforo e a Vela


Certo dia, o fósforo disse para a vela:
– Hoje te acenderei!

– Ah não - disse a vela. 
Você não percebe que se me acender, meus dias estarão contados? Não faça uma maldade dessa...

– Então você quer permanecer toda a sua vida assim?  
Dura, fria e sem nunca ter brilhado? - perguntou o fósforo.

– Mas tem que me queimar? Isso dói demais e consome todas as
minhas forças - murmurou a vela.

Então respondeu o fósforo:
– Tem toda razão! Mas essa é a nossa missão. Você e eu fomos feitos para ser luz. O que eu, apenas como fósforo, posso fazer, é muito pouco. Minha chama é pequena e curta. Mas, se passo a minha chama para ti, cumprirei com o sentido de minha vida. Eu fui feito justamente para isso: para começar o fogo. Já você é a vela. Sua missão é brilhar. Toda sua dor e energia se transformará em luz e calor por um bom tempo.
Ouvindo isso, a vela olhou para o fósforo, que já estava no final da sua chama, e disse:
– Por favor, acende-me.
E assim produziu uma linda chama...
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Assim como a vela, às vezes, é necessário passar por experiências ruins, experimentar a dor e sofrimento para que o melhor que temos seja oferecido e que possamos ser luz. E a verdade é que mar calmo não faz bons navegadores. Os melhores são revelados nas águas agitadas. 
Então, se tiver que passar pela experiência da vela, lembre-se que espalhar o Amor é o combustível que nos mantém acesos. 
Você é Luz no mundo!
Brilhe e irradie essa Luz!


(Recebi via WhatsApp sem menção de autoria)

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