Passar quatro dias sem ele é uma tortura inigualável, para
quem está completamente viciado a lidar com ele e, inesperadamente, ele falha
lhe deixando na mão, ou melhor, no desespero perto da loucura!
Obviamente que não estou falando de meu amante, homem que,
traiçoeiramente, me faltou nas horas mais precisas da minha cansada e bem
vivida vida!
Estou referindo-me ao meu adorado e querido computador! Que,
sorrateiramente, apresentou um pane, exatamente num fim de semana, quando a
minha assistência técnica estava fechada. Imagine vocês o meu cruel fim de
semana, sem poder usar essa poderosa máquina moderna!
Para pessoas como eu, setenta e oito anos, divorciado há
cinco anos, aposentado, adm. de empresas, professor de história e escritor (já
escrevi 12 livros) Membro da Academia Grapiúna de Letras, escrevo para jornais,
revistas e blogs. Tenham vocês uma ideia de como fiquei por estar tolhido, mas,
por mais que exagerem, a coisa foi muito pior e desastrosa, pois, fiquei numa
tristeza tão grande que parecia tinha morrido um parente próximo.
Pelo que expus acima, minha consideração a esse equipamento
é de namorada, amante, esposa, filhos (tenho dois morando fora e maiores),
amigos, companhia, informativos, contatos, pesquisas e mais uma série de coisas
que a internet oferece aos seus usuários que sabem desfrutar!
Essa confissão sincera e honesta é para que todos saibam
que, eventualmente, podemos ser atingidos pelas suas falhas e devemos não
enlouquecer, pois, até as máquinas precisam de manutenções eventuais para que
possam atender dignamente aos seus friccionados!
Não quero mais passar, tão cedo, por mais quatro dias sem
ele!
Tabocas
foi aumentando, com o tempo. Cada dia que se passava crescia a sua população e
as suas roças de cacau ampliavam-se. Os plantadores de cacau se embrenhavam
para as matas no rastro dos bons terrenos, para os lados da Boa Lembrança,
Preguiças, Virotes, Mutuns, Outeiro da Palha, Ribeirão de Areia, Boqueirão,
Ribeirão da Lama, Jacaré, até Macuco. Os moradores locais começaram a dizer que
Tabocas necessitada de uma igreja, porque terra sem Deus não andava para a
frente. E citavam fatos, que comprovavam a influência do “capeta” solto nas
ruas do povoado.
Reuniram-se os maios graduados da localidade. Falaram sobre religião,
discutiram sobre a construção da igreja. Firmino Alves, que era chefe, iniciou
o trabalho de uma igreja grande, que não concluiu, mas Joaquim Batista de
Oliveira edificou a capelinha de Santo Antônio, na qual o visitador, cônego
Moisés Gonçalves do Couto rezava missa, batizava o povo e pregava os seus
sermões, ensinando ao povo o temor de Deus e o amor ao próximo.
Todavia,
se o povo se tornava devoto, se as plantações cresciam, e as áreas do cacau se
alargavam, se os fazendeiros melhoravam de sorte, a tranquilidade pública
piorava, passava por graves agitações. Raro era o dia em que não se matava um
cidadão. Raro era o dia em que não se registrava uma arrelia.
Num dia de
abril, Tabocas foi, de surpresa, atacada por um grupo de clavinoteiros
procedentes de Conquista e de Belmonte. Morreram dois indivíduos e quatro
ficaram feridos. Mas o povo não correu, o povo lutou, até os clavinoteiros
recuarem. Naquele tempo o povo não corria, nem mesmo havia para onde correr,
desde quando as matas se apresentavam ainda mais terríveis, com o domínio dos
bandidos.
As
providências pedidas para a Capital davam melhor ideia doa que se passava em
Tabocas: “Manuel Bomfim Neto, indivíduo sem profissão decente, à frente a força
pública Tabocas cometendo depredações toda ordem, comércio fechado, população
horrorizada. Homens ordeiros trabalhadores e até fazendeiros barbaramente
espancados, no tronco. Minha residência, negócio, fazendas, sofrendo grandes
prejuízos, com vida arriscada. Peçam Governo providências. Tabocas em paz antes
chegada destacamento pedido para desabafo paixões Manuel Bonfim criminoso morte
é quem dirige polícia”. E terminava: “Tabocas não precisa soldados, quais devem
retirar-se bem da ordem progresso lugar”.
Dias
depois, um outro despacho explicava: “Os abaixo assinados, negociantes Tabocas,
protestam contra a revoltante calúnia publicada jornal dia 19 em que diz que a
força pública tem cometido absurdos. Ela é garantia ordem pública. O sargento
comandante procede corretamente. Pedimos conservação destacamento em bem da
ordem pública”.
As cenas
de sangue, entretanto, prosseguiam ao ponto de os cronistas registrarem que o
distrito “continuava a ser palco de arbitrariedades das autoridades policiais,
de saques de estabelecimentos comerciais, de assassínios, espancamentos,
prisões, indo e vindo os jagunços à vontade por toda a parte, sob a proteção
dos mandões da terra”.
E,
aliviando o alarma sobre tais desmandos, os mesmos cronistas escreviam: “Esta é
um fenômeno familiar das paragens recentemente exploradas, que pela abundância
das suas riquezas naturais atraem forasteiros de todas as condições sociais”.
Assim, aconteceu no Acre, no Amazonas, nas zonas diamantíferas das Lavras, do
Salobro e no rio das Garças”.
Tabocas
não podia fugir à regra. No seio fecundo das suas ubérrimas terras, o sangue
dos heróis anônimos sacrificados pelo ideal do trabalho tinha de ser o resgate
da opulência, que hoje resplandece nos cacauais e na riqueza do seu povo
progressista.
Desde 1997 o MST promove o chamado “abril vermelho”.
Financiado com dinheiro público, o gigantesco show de agitações reclamou sempre
a radicalização da reforma agrária e a implantação de outras pautas da
esquerda, etapas para a sonhada sociedade socialista (caminho para a presente
situação da Venezuela, na realidade). O MST, na linha de frente, era ajudado em
particular pela CPT e INCRA, trinca do barulho…
Há muitos lustros o agro tem sido atacado por vários meios
—, um dos quais, invasões de fazendas —, em especial pela ação concertada
dessas três entidades. O MST (primeira), organização comunista, braço do PT, e
a CPT (segunda), extrema-esquerda eclesiástica, protegida pela CNBB (à vera,
não apenas protegida, é órgão dela). A terceira, o INCRA.
Nos governos de esquerda, no INCRA diretoria, superintendências
e enxames de funcionários solícitos encarniçadamente conluiados com PT, MST e
CPT agrediam a propriedade particular no campo. No governo Temer, infelizmente
continuou o INCRA a favorecer objetivos do MST (um pouco menos
escancaradamente). Agora, sofreu uma trava. Continuam, porém, agentes do órgão
em obstinada atuação deletéria, pipocam aqui e ali funcionários efetivos e
superintendências empurrando no rumo antigo. As três organizações formaram na
prática um pactum sceleris (formaram no passado; a realidade ainda
existe hoje, diminuída).
Assomou para desgraça do Brasil respiro importante para o
MST. Em encontro com representantes da organização criminosa em fevereiro
passado, Rodrigo Maia, presidente da Câmara, comprometeu-se a não pautar
(colocar para votação) projetos que o criminalizem. Criminalizar a atuação do
MST ficou para as calendas. Foi promessa de campanha — espera-se que apenas de
momento arquivada. “Toda ação do MST e do MTST deve ser tipificada como
terrorismo”, repetia o candidato Jair Bolsonaro. Com o incumprimento do
compromisso, o MST preservaria suas possibilidades de ação no futuro.
Amarelou em 2019 o “abril vermelho”. Só pequena agitação em
Salvador, onde um petista, Rui Costa, é inquilino do Palácio de Ondina. A
própria Abin não julgou necessário alertar o governo sobre possíveis agitações.
Por quê?
Porque o “abril vermelho” desde sempre foi show totalmente
artificial, viveu do dinheiro público. Não representa em nada o sentimento do
homem do campo. Em parte, o INCRA, por causa da nova direção, já não impulsiona
abertamente a ação concertada do MST-CPT. Ficaram ainda focos infeccionados, já
disse. O presidente Jair Bolsonaro apontou outro fator: “Incra registra só
1 ocupação no 1º trimestre diante 43 ações no mesmo período de 2018. O MST está
mais fraco pela facilitação da posse de armas, iniciativa que terá derivações
pelo governo, falta de financiamento do setor público e de ONG”.
O ponto maior é esse, faltou dinheiro público para o
“abril vermelho”. Por exemplo, acabou a farra dos convênios. Contudo, estão
intactas as leis e, em boa medida, as estruturas utilizadas pelas mencionadas
três organizações. A anemia acabará no dia em que o dinheiro público voltar a
fluir.
Lamento prever, gostaria de estar errado, mas vai continuar
intacta a legislação e boa parte das estruturas. Não é politicamente correto
acabar com a infecção. Temos no Brasil tumores de estimação. São cancerígenos,
matam as possibilidades de avanço, prejudicam os pobres, mas são nossos tumores
de estimação. Um dos mais virulentos é o programa da reforma agrária.
É, repito, politicamente incorreto enunciar o óbvio ululante:
desde o início, lá pelos anos 60, a implantação da reforma agrária representou
retrocesso monumental, um atraso de proporções amazônicas. Se nunca no Brasil
se tivesse falado de reforma agrária, os pobres hoje estariam mais bem de vida
no campo e na cidade, os alimentos estariam mais baratos, seríamos hoje
potência agrícola mais poderosa. E as montanhas de dinheiro que foram
desperdiçados no programa maluco poderiam ter atendido larga e beneficamente a
saúde e a educação.
Inexistisse o xodó pelo tumor, a medida mais comezinha e
lógica seria acabar imediatamente com o programa da reforma agrária. Aqui não.
E continuam as declarações bestas do tipo: “Vamos aplicar a legislação, o
programa da reforma agrária não parou, vai ficar sério”. “Vamos aproveitar os lotes
abandonados”.
Todos sabem, são centenas de milhares de lotes com contratos
de gavetas, abandonados, empregados para outros fins, produtividade baixíssima.
Já foram utilizados 880 mil quilômetros quadrados nessa doidice (o Estado de
Minas Gerais, 586.528 km2, área do Rio Grande do Sul, 281.748 km2; soma dos
dois 868.266 km2). Ou seja, se somarmos a área de Minas Gerais e do Rio Grande
do Sul não dá a área esperdiçada na maluquice do programa de reforma agrária
(disseminação de favelas rurais, roubalheira, pobreza, clientelismo de
movimentos sociais). O agronegócio salva a economia brasileira, garante a
balança comercial, distribui riquezas, dá empregos. Sabem com que área? Vejam
esse dado: em 2016, a Embrapa Territorial havia calculado a ocupação com a
produção agrícola em 7,8% (65.913.738 hectares. 659.137 km2.
Relatório do TCU de 2016 indicava que o valor das áreas com
indícios de situação irregular dentro do programa de reforma agrária era de
R$159 bilhões, utilizada a avaliação do IBGE. Se for em valor de mercado, pode
facilmente chegar a R$300 bilhões. Terra tratada na esbórnia, na
desorganização, no desconhecimento. Advertia que bilhões de reais emprestados
poderiam não ser pagos (claro, nunca foram). Vejam o disparate nas palavras do
relatório do TCU: “Conforme informado pelo INCRA, os créditos eram
concedidos a estruturas associativas formais ou informais e distribuídos entre
os integrantes dos PAs (projetos de assentamento), não havendo registro
individualizado organizado sobre quem recebeu os créditos, ou seja, o prejuízo
pode ser muito maior.” Entenderam? Sociedades informais (patotas de
privilegiados dos movimentos sociais), sem registro individualizado recebiam
dinheiro público.
R$300 bilhões de terras na bagunça. Coloque os empréstimos
não devolvidos, os perdões de dívidas, a assistência técnica estatal para
aproveitadores, o controle tirânico dos assentamentos pelos agentes do MST, a
venda ilegal de madeira. Os escândalos do mensalão e do petrolão são fichinha
perto do escândalo do programa da reforma agrária.
Mas, é claro, não se pode extinguir o programa. Razão
técnica? Nenhuma. Não aumenta a produtividade. Razão social? Nenhuma. Piora a
situação dos pobres. Razão de paz social? Nenhuma. Tensiona a região em que se
implantam os assentamentos. Mas trona e sobrepassa tudo uma razão inamovível. É
tumor de estimação. Tumores de estimação são intocáveis.
Fala a ponta dos dedos batendo na mesa. Falam os pés
inquietos na cama. Fala a dor de cabeça. Fala a gastrite, o refluxo, a
ansiedade. Fala o nó na garganta atravessado. Fala a angústia, fala a ruga na
testa. Fala a insônia, o sono demasiado.
Você se cala, mas o falatório interno começa. As pessoas
adoecem porque cultivam e guardam as coisas não digeridas dentro de seus
corações.
O normal do ser humano seria a comunicação e conseguir dizer
o que está sentindo. Mas nem todos se habilitam para esse difícil exercício.
Nem sempre digerimos bem aquelas pequenas coisas, como mensagens mal
respondidas, as palavras que machucam...
Você finge que não ouviu, engole e tudo isso vai se
acumulando até que um dia enche. Esses pequenos fatos indigestos percorrem a garganta,
entram no estômago, invadem o peito, e se deixarmos, calará nossa boca e nossa
paz.
O importante é não deixar acumular ou achar que simplesmente
vai aliviar com o passar dos dias. O tempo até tem um papel importante, mas não
resolve tudo. Tentar mostrar que tudo sempre está bem requer muita energia, o
desgaste emocional é grande.
Não dá para engolir tudo e dizer amém! Eu sei.
Também não dá para cometer sincericídios por aí e sair
vomitando as coisas entaladas na sua garganta.
Mas dá para se expressar.
Tem hora que o sentimento pede pra ser dito, entendido,
descodificado, traduzido.
Tudo que ele quer é ser exorcizado pela palavra ou pela via
que lhe cabe melhor. Expressar tranquiliza a dor. Dor não é para sentir para
sempre. Dor é vírgula.
Então faz uma carta, um poema, um livro. Canta uma música.
Pega as sapatilhas, sapateia. Faz uma aquarela. Faz uma vida. Faz piada, faz
texto, faz quadro, faz encontro com amigos. Faz corrida no parque. Fala pro seu
analista, fala para Deus, para o universo... se pinta de artista.
Conversa sozinho, papeia com seu cachorro, solta um grito
pro céu, mas não se cale.
Pois “se você engolir tudo que sente, no final você se
afoga”.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
João.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: “Se
alguém me ama, guardará a minha palavra, e o meu Pai o amará, e nós viremos e
faremos nele a nossa morada. Quem não me ama, não guarda a minha
palavra. E a palavra que escutais não é minha, mas do Pai que me enviou.
Isso é o que vos disse enquanto estava convosco. Mas
o Defensor, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, ele vos ensinará
tudo e vos recordará tudo o que eu vos tenho dito.
Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; mas não a dou como o
mundo. Não se perturbe nem se intimide o vosso coração.
Ouvistes o que eu vos disse: ‘Vou, mas voltarei a vós’. Se
me amásseis, ficaríeis alegres porque vou para o Pai, pois o Pai é maior do que
eu. Disse-vos isso, agora, antes que aconteça, para que, quando
acontecer, vós acrediteis”.
Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. André
Teles:
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Deus não é nosso
hóspede, mas a essência do nosso ser
“...e nós viremos e faremos nele nossa morada” (Jo 14,23)
Continuamos com o discurso de despedida de Jesus, depois da
Última Ceia. O tema do domingo passado era o amor manifestado na entrega aos
demais. Terminávamos dizendo que esse amor era a expressão de uma experiência
interior, relação com o mais profundo de nós mesmos que é Deus.
Hoje o evangelho nos fala do que significa essa vivência
íntima. A Realidade que somos, é nosso verdadeiro ser. O verdadeiro Deus não é
um ser separado que está em alguma parte da estratosfera, mas o fundamento de
nosso ser e de cada um dos seres do universo.
Tudo está admiravelmente condensado e expresso nesta frase
com a qual se inicia o evangelho de hoje: “viremos a ele e faremos nele nossa
morada”. O ser humano está habitado por Deus, no sentido mais profundo que
possamos imaginar.
Quem toma consciência de sua identidade profunda, descobre-se
habitado e amado pelo Mistério e não pode fazer outra coisa senão amar e
experimentar a unidade com todos. Na linguagem do quarto evangelho, Deus e
Jesus são o “centro” último do nosso interior, o que constitui nossa identidade
mais profunda. Deus Trindade abraça e se expressa em toda a realidade; habita
tudo e em tudo se manifesta; envolve tudo e em tudo está presente. É o que
experimentaram e proclamaram os místicos: “Meu Eu é Deus e não reconheço outro
Eu que a Deus mesmo” (S. Catarina de Gênova).
João da Cruz escreve: “A alma mais parece Deus que alma, e
ainda é Deus por participação”. Não se trata, portanto, de que Deus habite
unicamente naqueles que cumprem a palavra de Jesus, num retorno à religião dos
méritos e das recompensas. Deus habita já todos os seres: nada poderia existir
“fora” d’Ele. Tudo é morada de Deus.
Segundo S. Inácio “Deus habita nas criaturas: nos elementos
dando o ser; nas plantas, a vida vegetativa; nos animais, a vida sensitiva; nas
pessoas, a vida intelectiva. Do mesmo modo em mim, dando-me o ser, o viver, o
sentir e o entender. E também fazendo de mim o seu templo” (EE. 235).
Tudo está inundado de Deus; tudo é sagrado, nada é profano.
Deus não permanece exterior nós, mas habita no mais profundo
de cada um; somos o que somos devido à presença de Deus em nós. A dignidade e o
significado último de cada ser humano não provêm dele mesmo, mas da presença de
Deus em seu interior.
Além disso, nós nunca estamos fora de Deus. Tudo que somos e
temos é manifestação de sua força, bondade e amor. Com-viver com Deus tem
sempre algo de aventura que assusta e encanta. É a chamada “experiência
numinosa”. Pois, Deus e o ser humano não são adversários, mas “diferenças que
se amam”. Por isso, ao abraçarmos cada pessoa, estaremos tomando nos braços não
apenas os seus limites, fragilidades e sombras, mas também o seu infinito
mistério: Deus mesmo.
Igualmente, distanciar-se do outro é expulsar-se de Deus, e
quem se fecha à novidade do outro, inevitavelmente limita a ação do Criador no
próprio interior. E para onde quer que olhemos, lá está Ele: silencioso, como
nosso próprio mistério. Está presente na distante profundeza do universo como
suprema fecundidade e nosso Pai, na proximidade dos seres humanos como
humildade e nosso irmão, em nós mesmos como sentido e o vigor que nos faz
viver.
Jesus viveu uma profunda identificação com o Pai que não
podemos expressar com palavras. “Eu e o Pai somos um”. Nós também somos
chamados a viver essa mesma identificação. Fazer-nos uma coisa só com Deus, que
é presença e que não está em nós como hóspede agregado que chega e sai, mas
como fundamento de nosso ser, sem o qual nada pode existir em nós. Essa
presença de Deus em nós não altera em nada nossa individualidade. Nós somos
totalmente nós mesmos e totalmente de Deus. Viver esta realidade é o que
constitui a plenitude do ser humano.
Uma coisa é a linguagem e outra a realidade que queremos
manifestar com ela. Deus não tem que vir de nenhum lugar para estar no mais
profundo de nosso ser. Está aí desde antes de existirmos. Não existe “alguma
parte” onde Deus possa estar, fora de nós e do resto da criação. Deus é Aquele
que torna possível nossa existência. Somos nós que estamos fundamentados n’Ele
desde o primeiro instante do nosso existir. Deus já não é esse Outro ao qual
temos que ir ou esperar que venha, senão que forma parte de nossa realidade, um
espaço do qual podemos nos diferenciar, mas não separar.
Descobri-Lo em nós, tomar consciência dessa presença, é como
se Ele viesse a nós. Esta verdade é a fonte de toda experiência espiritual. Os
místicos ousam dizer: “temos Deus dentro de nós; é tão unido a nós que Ele é a
nossa própria profundidade”.
Aqui está a grande novidade da mensagem e da experiência de
Jesus: revelar que o lugar da presença de Deus é o ser humano. Ele é
experimentado dentro de nós; mas também é preciso descobri-Lo dentro de cada um
dos outros seres humanos. A presença surge de dentro e nos sensibiliza a
percebê-Lo no outro.
“Deixar Deus ser Deus em nosso interior” significa
entrar no fluxo da dinâmica divina, ou seja, viver encontros divinizados, sendo
presença divinizada, expressando palavras e atos divinizados...
A presença de Deus em nosso interior fica atrofiada quando
nossa vida é carregada do veneno do preconceito, da intolerância, do
julgamento, da suspeita e do medo do diferente. É justamente essa presença
divina no eu profundo que nos diferencia e nos torna originais. Encontrar-nos
com Deus na própria morada interna não é fechar-nos num intimismo estéril;
implica ampliar o espaço do coração para acolher o outro que pensa, sente e ama
de maneira diferente, porque também ele é morada da Trindade.
O Espírito é o garantidor dessa presença dinâmica do Pai e
de Jesus em nós: “Ele vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que eu vos tenho
dito”. O verdadeiro Mestre – nosso “mestre interior” – que nos irá conduzindo
até a verdade é o Espírito de Deus, que se expressa no mais profundo de todo
ser humano. É a “voz” de Deus em nós, à qual temos acesso a partir da abertura
e disponibilidade interior.
O teólogo Schillebeeckx afirmou: “Se pudesse tirar de mim o
que há de mim, ficaria Deus; se pudesse tirar de mim o que há de Deus, ficaria
nada”.
Ao nos reconhecermos nessa morada interior, podemos receber
a paz da qual fala Jesus; não só isso: descobrimos que somos Paz. Não é a “paz
do mundo”, que sempre será oscilante e inconstante, senão a Paz que abraça
todas as situações da vida, porque estamos ancorados naquilo que realmente
somos.
O “shalom” judaico é muito mais rico que nosso conceito de
paz; mas o evangelho de João acrescenta um “plus” de significado sobre o já
rico significado judaico. A paz, de que fala Jesus, tem sua origem no interior
de cada um. É a harmonia total, não só dentro da pessoa, mas com os outros e
com a criação inteira. Corresponde ao fruto primeiro das relações autênticas em
todas as direções; expressa a consequência do amor que é Deus em cada um,
descoberto e vivido. A paz não é buscada diretamente; ela é fruto do amor. Só o
amor, ativado e manifestado no próprio interior, conduz à paz verdadeira.
Poder-se-ia dizer que esta “paz” não é algo diferente do Espírito. É a paz de
quem permanece ancorado em sua identidade profunda, sem identificar-se com os
altos e baixos das circunstâncias, nem perder-se com o “vai-e-vem” da mente.
É a paz que supera toda razão, porque nasce de um “lugar”
que está mais além da razão, mais além da mente, na compreensão do Mistério que
somos, e que não se vê afetado pelo que ocorre em nosso eu.
Texto bíblico: Jo 14,23-29
Na oração: Considerar, como devo, de minha parte, amar
as pessoas de tal maneira que me faça transparente, para que através de mim os
outros possam conhecer quem é Deus.
- Eu devo deixar “transparecer” a imagem de Deus, através da
bondade, justiça, serviço... Deus “habita em mim”, deixando suas pegadas;
através delas sou movido a dar testemunho de quem é Deus.
Filhos, netos, parentes, de bom gosto alardeavam o feito
incrível alcançado pelo patriarca. Caso raro no planeta.Alcançara a marca de 102 anos de idade. A
comemoração festiva, os familiares, a cada ano do aniversário.Ele nem ligava. As vozes fraternas pelos
cômodos da casa modesta.
Falava, escutava, cantarolava baixinho.
Gostava de pegar o banquinho, a enxada com o cabo pequeno.
Sentava-se no quintal, Ali, extirpava a erva daninha, paciente. Lavrador desde
jovem, hábito que cultivava prazeroso na passagem das estações. Mexia nas veias
e nervos, a tendência para lavrar a terra, lavouras de curta duração.
O tempo, benevolente, de mansinho ia sustentando-o. Ajudava
a carregar as porções da vida na cacunda.
Morava com a filha Nicota, costureira de mão cheia,
enviuvara quando andava nos seus 85 anos. Não tinha filhos, da vida não se
queixava.
Pela manhã, com o sol quente, encerrava o agrário ritual
pelo quintal.
Pela tarde, tirava um soninho, depois de fazer a refeição do
almoço. Constava apenas de mingau de aveia e um copo de limonada.
Voltava à tarde ao ritual no quintal quando o sol esfriava.
“Tá na hora de tomar seu banho”, dizia Nicota, chamando-o à
porta da cozinha, que dava para o quintal.
Recolhia-se para o banho fresco. Arrumava com cuidado os
cabelos ralos, a cabeça miúda.Aparecia
na sala para a última refeição do dia, mais uma merenda. Chá de cidreira com
bolacha ou rodelas de pão torrado.
Quando havia visita da vizinha ao lado, aparecia na sala.
Perfumado.Os olhinhos miúdos, como
duas contas, brilhavam. Vestido de camisa e calça azul, de mescla. A roupa
engomada com cuidado pela Nicota, como ele pedia sempre.
Dizia para a visita:
- Dona, me arranje uma namorada.
A vizinha Lenilda, viúva oitentona, sorria.
Doceira de mão cheia, de voz macia, dava água na boca só de
pensar nos doces que faziam as mãos dadivosas da vizinha Lenilda.
A cada visita da vizinha à filha Nicota, na encomenda de um
vestido ou blusa com florzinhas, o pedido dele não faltava.
- Me arranje uma namorada, dona...te dou um doce.
Um dia, a vizinha apresentou-se como a eleita, que tanto ele
procurava.Alegre, a voz cantante,
maviosa.
Casamento no padre e no juiz. Casório bastante comentado na
cidadezinha, aplaudido por uns, desaprovado por outros.
Agora, ao invés de oferecer um doce à antiga vizinha,
ganhava dela vários doces, uma delícia nos ingredientes caprichados. De
abacaxi, goiaba, batata doce, carambola, laranja, mamão, banana, jaca e até de
bala de jenipapo. Tinha também o de pudim de tapioca.Uma gostosura.
O doce de leite era o que ele mais gostava.
Não cansava de elogiar o predileto. Chegava a chorar, de
tanto comer esse tipo de doce. Se não recebesse um freio da Lenilda, era capaz
de acabar com a vida ali mesmo, de tanto comer e se lambuzar de doce de leite.