Sou do tempo em que ainda se faziam visitas. Lembro-me de minha mãe mandando a
gente caprichar no banho, porque a família toda iria visitar algum conhecido.
Íamos todos juntos, família grande, todo mundo a pé. Geralmente, à noite.
Ninguém avisava nada, o costume era chegar de paraquedas mesmo. E os donos da
casa recebiam alegres a visita.
Aos poucos, os moradores iam se apresentando, um por um.
– Olha o compadre aqui, garoto! Cumprimenta a comadre.
E o garoto apertava a mão do meu pai, da minha mãe, a minha mão e a mão dos
meus irmãos. Aí chegava outro menino. Repetia-se toda a diplomacia.
– Mas vamos nos assentar, gente. Que surpresa agradável!
A conversa rolava solta na sala. Meu pai conversando com o compadre e minha mãe
de papo com a comadre. Eu e meus irmãos ficávamos assentados todos num mesmo
sofá, entreolhando-nos e olhando a casa do tal compadre. Retratos na parede,
duas imagens de santos numa cantoneira, flores na mesinha de centro... casa
singela e acolhedora.
A nossa também era assim.
Também eram assim as visitas, singelas e acolhedoras. Tão acolhedoras que era
também costume servir um bom café aos visitantes. Como um anjo benfazejo,
surgia alguém lá da cozinha – geralmente uma das filhas – e dizia:
– Gente, vem aqui pra dentro que o café está na mesa.
Tratava-se de uma metonímia gastronômica. O café era apenas uma parte: pães,
bolo, broas, queijo fresco, manteiga, biscoitos, leite... tudo sobre a mesa.
Juntava todo mundo e as piadas pipocavam. As gargalhadas também.
Pra que televisão? Pra que rua? Pra que droga? A vida estava ali, no riso, no
café, na conversa, no abraço, na esperança... Era a vida respingando eternidade
nos momentos que acabam.... era a vida transbordando simplicidade, alegria e
amizade...
Quando saíamos, os donos da casa ficavam à porta até que virássemos a esquina.
Ainda nos acenávamos. E voltávamos para casa, caminhada muitas vezes longa, sem
carro, mas com o coração aquecido pela ternura e pela acolhida.
Era assim também lá em casa. Recebíamos as visitas com o coração em festa... A
mesma alegria se repetia. Quando iam embora, também ficávamos, a família toda,
à porta. Olhávamos, olhávamos... até que sumissem no horizonte da noite.
O tempo passou e me formei em solidão.
Tive bons professores: televisão, vídeo, DVD, internet, e-mail, Whatsapp ...
Cada um na sua e ninguém na de ninguém. Não se recebe mais em casa. Agora a
gente combina encontros com os amigos fora de casa:
– Vamos marcar uma saída!... – ninguém quer entrar mais.
Assim, as casas vão se transformando em túmulos sem epitáfios, que escondem
mortos anônimos e possibilidades enterradas. Cemitério urbano, onde perambulam
zumbis e fantasmas mais assustados que assustadores.
Casas trancadas.. Pra que abrir? O ladrão pode entrar e roubar a lembrança do
café, dos pães, do bolo, das broas, do queijo fresco, da manteiga, dos
biscoitos do leite...
Que saudade do compadre e da comadre!...
Créditos: José Antônio Oliveira de Resende
Professor de Prática de Ensino de Língua Portuguesa, do Departamento de Letras,
Artes e Cultura, da Universidade Federal de São João del-Rei.
— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Mateus.
— Glória a vós, Senhor.
Ao saber que João tinha sido preso, Jesus voltou para a
Galileia. Deixou Nazaré e foi morar em Cafarnaum, que fica às margens do
mar da Galileia, no território de Zabulon e Neftali, para se cumprir o que
foi dito pelo profeta Isaías: ”Terra de Zabulon, terra de Neftali, caminho
do mar, região do outro lado do rio Jordão, Galileia dos pagãos! O povo
que vivia nas trevas viu uma grande luz, e para os que viviam na região escura
da morte brilhou uma luz”. Daí em diante Jesus começou a pregar dizendo:
“Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo”.
Quando Jesus andava à beira do mar da Galileia, viu dois irmãos: Simão, chamado
Pedro, e seu irmão André. Estavam lançando a rede ao mar, pois eram pescadores. Jesus
disse a eles: “Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens”. Eles
imediatamente deixaram as redes e o seguiram.
Caminhando um pouco mais, Jesus viu outros dois irmãos: Tiago, filho de
Zebedeu, e seu irmão João. Estavam na barca com seu pai Zebedeu consertando as
redes. Jesus os chamou. Eles imediatamente deixaram a barca e o pai, e o
seguiram. Jesus andava por toda a Galileia, ensinando em suas sinagogas,
pregando o Evangelho do Reino e curando todo tipo de doença e enfermidade do
povo.
“Eles, imediatamente deixaram as redes e o seguiram” (Mt
4,20)
Mudanças são a essência e o sabor da vida. O ser humano é um
ser de mudança; só é humano quem vive em “estado de mudança”. A mudança é o
elemento que traz energia, variedade, surpresa, côr e vida à vida. Trata-se de
um “hábito do coração”: descobrir, examinar, purificar e substituir os hábitos
inertes, os esquemas mentais fechados, as condutas petrificadas, os projetos
sem horizontes...
É saudável questionar-se, abrir-se e aventurar-se a ver as
coisas de maneira diferente e a responder às circunstâncias com espontaneidade
nova.
Deus não nos deu um espírito de timidez, de medo, de fuga,
de acomodação... mas de audácia, de criatividade, de luta, de participação...
Movidos por sua força, vemos a possibilidade de questionar toda nossa atitude
conformista, sacudir nossas convicções, ampliar nossos horizontes e animar
nossa vida.
Toda mudança implica sair de nós mesmos, de nosso estreito
mundo, de nossas práticas arcaicas, daquilo que nos protege e nos esteriliza
para que possamos avançar em direção às novas fronteiras do espaço sem limites,
que nos espera aberto e acolhedor.
Ser seguidor de Jesus, portanto, consiste em colocar-nos nos
seus “passos”, com suficiente visão da realidade para ir adiante, e com
bastante disponibilidade para mudar de caminho quando o sopro do Espírito assim
nos sugerir.
O texto do evangelho de hoje nos situa diante de um
denominador comum que é a mudança. O próprio Jesus vive um momento de mudança
radical: rompe com sua família, com seu ambiente, afasta-se da estrutura
religiosa centrada na Lei e no Templo e opta por deslocar-se para a margem
social e religiosa de seu tempo (Galiléia e terra de Zabulon). Sua mudança de
vida desencadeia um processo de mudanças nas pessoas, de maneira especial no
grupo dos primeiros seguidores.
O olhar e o chamado de Jesus ativam um movimento na vida dos
primeiros discípulos: deixam seu estreito mar e seu rotineiro trabalho para
fazer caminho com o Mestre. Tudo começou às margens do mar da Galiléia... Jesus
caminha e, ao passar ao longo do mar, viu aqueles homens que estavam retornando
da pesca e entra no espaço vital deles. Exatamente ali, naquela vida tão
normal, acontece algo novo. Jesus os chama do mar, os faz descer da barca e os
convida a segui-Lo, para mergulhá-los no Seu mar, para fazê-los subir noutra
barca, para atraí-los a uma vida diferente.
O seguimento só se realiza quando alguém se deixa conduzir
para águas profundas num novo mar. Partindo do lugar e das coisas que
representam as esperanças, as dificuldades, as decepções, os sucessos, as
derrotas daqueles homens pescadores, Jesus pronuncia sua Palavra mobilizadora:
“Segui-me e farei de vós pescadores de homens”, ou seja, compartilhar Sua mesma
missão, “pescar” o que há de mais humano e nobre nas pessoas, ajudá-las a viver
com sentido, tirando-as do mar da desumanização.
E Jesus tem a capacidade de extrair o maior bem possível do
outro, de garimpar a autêntica qualidade humana de cada um, sem necessidade de
dar-lhe lições ou arrastá-lo com argumentos racionais. “Eles deixaram as redes
e o seguiram”: seguir Jesus é uma libertação. Na realidade, o que eles deixam
não são só redes, mas tudo aquilo que aprisiona, enreda e que impede a vida ter
uma dimensão maior.
Tocados pelo dinamismo de Sua voz e de sua Palavra, os
pescadores se dão conta d’Aquele que estava passando: eles já tinham sido
vistos, conhecidos, amados, escolhidos. Aquela Palavra que vibra forte, abre os
olhos, a mente e o coração daqueles homens rudes do lago. Sentem-se chamados
pelo nome, conseguem compreender melhor a si mesmos e redescobrem um sentido
novo, um significado inimaginável para a própria existência. Eles descobrem o
quão estreito era o seu mar cotidiano e entram no dinamismo da vida de Jesus,
deslocando-se para o vasto oceano do Reino.
A experiência do encontro com a pessoa de Jesus, seu olhar
compassivo e terno, a proposta ousada e desafiante que Ele nos faz... despertam
dinamismos profundos e desejos nobres em nosso interior, sacodem nossa rotina e
ampliam nosso atrofiado olhar.
Ao “fixar seu olhar” em cada um de nós, chamando-nos pelo
nome, seremos movidos a assumir opções mais radicais e integrais pelo Reino,
segundo o modo de ser, de viver e de fazer do próprio Jesus.
São grandes os riscos de se viver em horizontes tão
estreitos. Tal estreiteza aprisiona a solidariedade e dá margem à indiferença,
à insensibilidade social, à falta de compromisso com as mudanças que se fazem
urgentes. O próprio lugar se torna uma couraça e o sentido do serviço some do
horizonte inspirador de tudo aquilo que se faz. Ampliar os espaços do coração implica
agilidade, flexibilidade, criatividade, solidariedade e abertura às mudanças e
às novas descobertas.
Vivemos um tempo caracterizado por constantes mudanças e
pelo movimento. No entanto, de uma maneira dissimulada, percebemos a presença
de uma paralisia que perpassa nossa condição humana. E paralisia é o que ocorre
quando algo que deveria mover-se e fluir, não se move, nem flui. Esse “algo”
são processos, projetos, relações, aspirações, causas... E é essa mudança
verdadeira que, quando não ocorre, nos faz sentir estancados, angustiados e sem
brilho, embora aparentemente as coisas parecem andar bem.
Uma pergunta que normalmente costuma protagonizar nossas
conversações com amigos e parentes é: “por quê você vai mudar?” Aumenta a
curiosidade quando alguém que gosta muito do que está fazendo, sobretudo no
campo profissional, decide mudar: “é verdade que você vai deixar? A gente
percebia você tão feliz!”
Acontece que, às vezes, não há nada “mau” com o que estamos
fazendo, mas sem entender muito bem por quê, há algo dentro de nós que nos
impulsiona a sair, a ir além de nós mesmos, a levantar novo vôo. Alguém poderia
nos perguntar: “Mas, se estava bem, para quê complicar-se ao começar algo
novo?”.
A resposta que damos nunca poderá ser totalmente racional.
Porque disso se trata: toda mudança nos leva a desatar nossa essência, isso que
somos na verdade e que clama por sair.
O certo é que avançar supõe fazer opções, renunciar à
comodidade do conhecido e dar lugar à mudança. Mas mudar nos dá medo e o medo,
às vezes, paralisa. Temos medo de nossas próprias capacidades; tememos nossas
máximas possibilidades; assusta-nos chegar a ser aquilo que vislumbramos em
nossos melhores momentos. No entanto, não podemos ser “bonsais” de nós
mesmos”, atrofiando nossos recursos internos e tirando o brilho de nossa vida.
Desprender-nos do antigo e dar lugar ao novo implica um
processo sempre enriquecedor mas também doloroso. Muitas vezes, para escapar do
sofrimento, preferimos evitar os riscos em vez de assumir o fato de que, para
dar à luz algo novo, necessariamente devemos tomar a decisão de soltar o que
nos mantém ancorados no nosso estreito mar e não nos permite singrar os vastos
oceanos.
Texto bíblico: Mt 4,12-23
Na oração: No fundo do seu coração cheio de velhas barcas,
redes inúteis, mar estreito... é aí que o Senhor passa... e com sua Palavra
provocante o acorda para uma ousadia maior. Compete a você dar-lhe acolhida.
- Seguir o Desconhecido do lago significa aceitar a vida
como sacramento do encontro, onde ressoa a Palavra d’Aquele que passa, vê,
conhece, ama, chama pelo nome... Aos poucos você vai intuindo que a vida não é
questão de certezas, mas de busca e de desejos, de caminhar com Aquele que o
chama para ficar com Ele e com Ele constituir a grande comunidade de
servidores.
Uma palavra de afeto, sincera, elogiosa, proferida no
momento certo e na hora certa faz um bem maior ao nosso coração. Gera
felicidade! Gera momentos felizes.
Palavras açucaradas fazem um efeito magnífico na maioria das
pessoas. Um efeito amplo e positivo. Muita gente prefere ouvir o falso elogio
do que a sinceridade; a verdade, a realidade sem maquiagem.
O importante é a gente contemplar a beleza e manifestar
nossa gratidão tal como nossos sentimentos reagem.
Palavras açucaradas... Você é o maior e o melhor.
Palavras leves... Adoro amar você.
Palavras suáveis... Você é amado de todos nós.
Palavras de amor à vida... Deus é o nosso porto seguro.
Palavras que emitimos, que escrevemos, que representamos,
que notamos e anotamos; devem ser mensagens de aplausos, encorajamentos e
vibrações. Todo mundo gosta de ser notável, gosta de ser percebido, gosta de
ser destacado. Por isso, cada pessoa tem seu jeito próprio de ser.
Vaidade? Quem gosta de ser mais um na multidão?
Vaidade? Quem gosta de ser mais um anônimo?
Vaidade? Quem gosta de ficar no anonimato e não ser lembrado
por alguém algum dia?
Cada pessoa tem uma personalidade, uma aprendizagem, tem seu
momento único e exclusivo.
Existem pessoas que adoram ouvir as palavras adocicadas,
açucaradas, os elogios, em locais que têm ecos.
Que ecos! Eu me amo.
Que maravilha! Eu me adoro.
Que beleza! Eu sou do bem.
Que formosura! Eu sou amado.
Que presença! Eu sou belo.
Que beleza! Eu sou dez.
Que valor! Eu sou o Máximo.
As palavras afáveis; carinhosas, elogiosas, conotativa e
denotativa, fazem bem em nossa caminhada entre as flores e os espinhos, porque
cada coisa tem o seu sabor todo especial.
Faz bem a gente mudar o trato com as outras pessoas nos
momentos alegres e tristes, nos momentos gloriosos e gozosos, no convívio do
dia a dia, na sociedade em que vivemos e participamos ativamente naquela
projeção de fazer amigos. Eu disse: Amigos.
Vamos irradiar luz, irradiar o bem, fazer valer nossas ações
e elogios para quem passar por perto da gente. Oferecer presentes e mensagens
lindas.
Você é importante para mim. É verdade!
Você é uma pessoa maravilhosa. Sim, presente de Deus.
Você é duas vezes nota dez. Você é espetacular.
Você é uma pessoa legal. Gente do bem.
Você é uma pessoa sincera, benigna, amiga, gente boa, gente
fina, abençoada de Deus..
Obrigado por você existir.
Você é uma pessoa livre e cumpridora das suas obrigações.
Parabéns!.
Faz bem ouvir palavras positivas, sinceras, elogiosas e de
felicitações por nossas boas ações e procedimentos. Soa bem o elogio sincero,
verdadeiro, único, sem a bajulação dos puxa sacos e das pessoas inconvenientes
Viva os adjetivos...
Viva os elogios...
Viva as palavras açucaradas, porque elas fazem a grande
diferença no relacionamento com as outras pessoas e nos levam para uma
aprendizagem de vida maior e melhor.
Voltei. É tão bom voltar. Rever os amigos, chegar em casa.
Tão bom seria meu Deus, se todos tivessem para onde voltar. Mas um dia, depois
dessa carreira louca nesse mundo, todos têm para onde voltar.
Você, meu Deus, está com as portas abertas para receber
aqueles que quiserem e que o reconhecer como senhor de todos.
É bom recomeçar. E foi com alegria que recomecei meus
passeios matinais.
Fui ver o mar. Quarenta e cinco dias sem o ver. Como você
estaria meu querido mar? Azul, esverdeado, tranquilo ou as ondas muito fortes?
E lá me fui ansiosa para vê-lo. É tão bom estar perto de você novamente. Senti
uma alegria imensa ao vê-lo. Suas ondas mais bonitas pareciam convidar-me. Você
hoje estava mais bonito. O seu azul confundiu-se com o azul do céu.
Mas de repente – olhei a bandeira branca, bandeira branca,
amor – te peço paz.
Meu Deus! Será que você, meu querido mar, estava pensando
que eu estava brigada, que estava de mal com você? Não me viu mais aparecer e
pensou que eu o havia abandonado. Não, meu querido, estava viajando e por onde
andei levei você no coração. Em paris não o vi, mas você estava presente em
minha fantasia.
Fico triste só em pensar que você sentiu minha falta. Não,
não estou triste, estou alegre. É bom a gente ser lembrada e, sobretudo, ser
amada. O meu mar querido pode por a bandeira vermelha, gosto de vê-lo com as
ondas furiosas, batendo com força na areia e nas pedras. Só assim o terei só
para mim, apesar de não possuí-lo, mas, ninguém também o possui. Em minhas
fantasias, eu o tenho. Você abre os braços para mim e como na estória da
carochinha, eu consigo chegar perto e, como nos sonhos de fadas, um caminho se
faz para eu passar.
(CARROSSEL)
Marília Benício dos Santos
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Marília escreve como quem canta. Naturalmente. Em sua prosa
fluente e agradável sentimos a vida palpitando, mesmo nos acontecimentos mais
triviais. Fragmentos do tempo, suas próprias vivências constituem seu tema
predileto, o qual sob uma aparência singela representa, em última análise, um
diálogo ininterrupto com Deus e com o mundo. Não se pense, porém, que se trata
de um livro religioso no sentido estrito da palavra. Em momento algum, a autora
tenta provar o que quer que seja. No desdobrar de suas reflexões despontam os
sentimentos mais intensos do seu coração e Marília possui aquela qualidade tão
rara em nosso tempo e tão marcante dos autores místicos: a capacidade de
transformar o seu dia-a-dia em uma busca constante de encontro entre a criatura
e o Criador.
Lendo este
livro, ou melhor, saboreando suas páginas, aos poucos nos apercebemos de que o
trivial é, para Marília, o lugar próprio do encontro e do diálogo. Assim, ela
nos prende e nos encanta desde o primeiro momento, precisamente pelo fato de
que canta a vida, em suas alegrias e em suas tristezas, mas. Sempre, na
perspectiva feliz da esperança.
Ligia Costa Moog (Prefácio do livro Carrossel de Marília Benício dos Santos)
No tumulto das inquietações da Terra, é provável encontres
igualmente os desafios que se erigem por testes de compreensão e serenidade, no
caminho de tantos companheiros de experiência.
Quanto possível, habitua-te a entesourar paciência, com a
qual disporás de suficientes recursos para adquirir as forças espirituais de
que necessitarás, talvez, para a travessia de grandes provas, sem risco de
soçobro nas correntes do desespero.
Provavelmente ainda agora estarás suportando a incompreensão
de pessoas queridas, em forma de prevenções e censuras indébitas; entretanto,
se o assunto diz respeito unicamente ao teu brio pessoal, cala-te e espera.
Se amigos de ontem transformaram-se em adversários de tuas
melhores intenções, tolera as zombarias e remoques de que te vês objeto e de
nada te queixes.
Diante de criaturas que te golpeiem conscientemente a vida,
impondo-te embaraços e desilusões, desculpa e esquece, renovando os próprios
pensamentos na direção dos objetivos superiores que pretendas alcançar.
E ainda mesmo que agressões e ofensas te firam nos recessos
da alma, sugerindo-te duros acertos de conta, à face da manifesta injustiça com
que te tratem, não passes recibo nas afrontas que te sejam endereçadas e nada
reclames em teu favor.
Não piores situações em que alguém te coloque, não te
revoltes, nem te lastimes.
Silencia e espera, porque Deus e o Tempo tudo esclarecem,
restabelecendo a verdade, e, para que os irmãos enganados ou enrijecidos na
ignorância se curem das ilusões e das crueldades a que se entregam,
bastar-lhes-á simplesmente viver.
Nascida na zona rural de Itabuna, Eglê Santos Machado não
terminou o segundo grau. Abriu mão de trabalhar e estudar para cuidar de seus
filhos, coisa cada vez mais rara hoje em dia. Mesmo sem diplomas e títulos, o
contato com os livros a fez uma mulher sábia, com grande bagagem de
conhecimento e escritora de lindos poemas.
Desde 2009 administra o Blog Itabuna Centenária onde
fala de cultura, cidadania, política, educação e poesia.
Em janeiro de 2014 concedeu-me gentilmente esta
entrevista, onde fala de sua infância, suas experiências e e sobre a região
cacaueira. Tudo para que pudéssemos conhecer um pouco mais da história dessa
mulher genuinamente grapiúna.
Obrigada Querida Eglê
ENTREVISTA
Por Raquel Rocha
Relembrando seu tempo de professora, como foi a experiência
de lecionar na zona rural?
As crianças e os adolescentes da zona rural tinham a escola
como a coisa mais importante da vida, eram amorosas e atentas às aulas. A
professora era amada e sua palavra era lei. Como eu era muito jovem (havia
alunos e alunas da minha idade, alguns até mais velhos) lecionar era como
brincar de escola. Porém conseguia conduzir a sala de aula e ministrar as
lições com responsabilidade e paciência, mesmo porque a mamãe estava
disfarçadamente de olho em tudo o que acontecia naquela enorme sala com quase
cinquenta estudantes.
Você presenciou o auge da riqueza da região cacaueira e a
sua falência. O que você acha que piorou ou melhorou em Itabuna comparando o
passado com o presente?
Nasci e vivi até os 18 anos numa fazenda de cacau,
administrada pelo meu pai. Era muito grande e no auge da safra empregava pelo
menos vinte trabalhadores; os empregados casados tinham uma média de três
filhos, a esposa e algumas vezes um casal de idosos pais de um dos cônjuges. Os
domingos eram muito divertidos, pois todos os trabalhadores e familiares
reuniam-se para as compras na despensa da fazenda. Compravam carne seca, arroz,
sal, açúcar, sabão, fósforo, fumo e querosene; frutas, verduras e outros
produtos colhiam nas roças da fazenda. O rio lhes dava muitos peixes. Alguns
criavam galinhas, porcos, fabricavam farinha. O dono da fazenda só tinha
interesse no cacau. Morava na cidade, aparecia na fazenda quando muito uma vez
ao ano. O assunto cacau era o importante, tudo girava em torno do cacau, de
barcaças, de chuvas no tempo certo, de sol para a secagem das amêndoas, de boas
tropas para transportar o cacau seco para os armazéns da cidade.
Quando
começou a falência na região cacaueira eu já morava em Itabuna, mas pude muito
bem perceber o tamanho da calamidade, pelas pessoas que antes trabalhavam nas
fazendas e jaziam abandonadas nas periferias da cidade, crianças seminuas,
famintas; e o pior, muitos pais de famílias enxotados e agredidos, quando pegos
em alguma roça na beira das estradas cortando um cacho de bananas para amainar
a fome urgente dos filhos. Foi muito triste ver tudo isso, eu que sempre vi
tanta fartura na fazenda.
Quando começou com o ITABUNA CENTENÁRIA?
No final de 2009. Nasceu quase por acaso com o objetivo de
homenagear a cidade que festejaria centenário em 2010, por isso o nome. Foi bem
difícil o início, pois eu e algumas amigas mal sabíamos o básico em computação.
Quantos colaboradores o site tem? Quem são eles?
ITABUNA CENTENÁRIA abriga 282 membros. Já teve mais.
Poucos interagem, a maioria por dificuldade em lidar com o site. Além do
mais o Facebook é bem mais divertido. Esta semana eu comentava com um novo
membro que quem não tem alguma bagagem literária ou gosta de pesquisar na
Internet não consegue fazer algo na RSIC. Temos poetas, escritores,
padres, O Bispo de Itabuna, pastor protestante, atletas, psicólogo, gente da
região e muitos de outros estados. Alguns são membros, mas me enviam textos por
e-mail para eu postar. Todas as postagens feitas são compartilhadas no
Facebook, no Twitter e no Google + que são como vitrines da RSIC.
Qual a linha editorial do site? Sobre quais assuntos você
gosta de escrever?
Como se trata de uma rede social, sempre que entra um novo
membro, depois dos votos de boas-vindas é pedido que leia o regulamento
que sugere que em suas postagens conste sempre a fonte, que as
relações entre os membros sejam de cordialidade, gentileza e, sobretudo de
respeito, para fomentar uma convivência pacífica e harmônica. Eu gosto de
escrever poesias, mas no site posto artigos referentes a manifestações
artísticas na cidade e quaisquer textos enviados por contatos, confrades
e amigos, dando preferência a textos referentes a Itabuna e Região Grapiúna.
O que vale a pena ser preservado em nossa região?
Esta força do povo e sua capacidade de em momentos difíceis
praticar a gentileza e conservar a esperança.
Como você vê a vida cultural em Itabuna?
Tem altos e baixos, mas desde o segundo semestre do ano
passado percebo que tem se mantido bem efervescente.
O que a poesia representa em sua vida?
A poesia é inata em minha vida. Respiro. Faço poesia!