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sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

COMO CONHECI PADRE JOZEF GRZYWACZ – Eglê S. Machado


Os católicos costumam argumentar sobre as pessoas que, por qualquer motivo se afastam da Igreja: "vamos à Igreja, não pelas pessoas, pelos movimentos, pelas pastorais, pelo padre, mas por Jesus Cristo". 
Eu costumo  retrucar: "claro que vou à Igreja por Jesus Cristo, mas, como me alegra contemplar o rosto humano de Jesus Cristo, na pessoa do Padre"!
....

      Meu primeiro contato com o Padre José   foi através da Internet. Ele apareceu pedindo registro no nosso site e foi aprovado. Ao ver sua foto do perfil percebi que aquele rosto alegre e sereno não me era estranho, afirmei comigo mesma, eu conheço este padre... Mas de onde?! Pouco depois o vi na foto de capa da minha página no Facebook, comigo e várias outras pessoas do clero e confrades meus. Fomos fotografados no dia da posse do nosso bispo diocesano Dom Ceslau Stanula, na Academia Grapiúna de Letras (AGRAL).

      Ficamos na amizade virtual por algum tempo. Um dia ele me convidou para visitar o Santuário da Piedade em dia de Romaria e prometi que iria, porém sem vontade alguma de subir a colina já que muitos aqui em baixo diziam que no bairro  imperava a violência, que só doido lá iria. Continuei de longe, acessando o blog da paróquia e me encantando cada vez mais com a simplicidade daquele Missionário Redentorista de sobrenome estrambótico cheio de consoantes, até que decidi enfrentar a ‘bandidagem’. Foi um final de tarde profícuo e delicioso que tive, pois não apareceu bandido algum para me atacar e naquela maravilhosa nave reinava a paz. Não fui reconhecida, não me apresentei, já que sou  tabaroa, mas fui tratada com tanta delicadeza pelo padre e pelos paroquianos, que me apaixonei por tudo aquilo. Um dia ele me cobrou uma visita à Piedade e eu disse-lhe que já estivera lá. Pronto, virei freguesa.
    
      Sempre tratando a todos igualmente, o pároco do Santuário da Piedade, padre José  nunca mudava de humor. Nem mesmo quando doente deixou de ser legal e alegre. Eu percebia que ele não estava bem, não por mudanças de comportamento, mas pelo meu sexto sentido muito aguçado que percebia certa inquietação escondida naquele olhar azul.

      Em dois ‘Caruru da Piedade’ que participei, ele era um dos últimos a se servir, pegava os pratos para nós, fazia-nos companhia à mesa, parecia um menino. E é de fato um menino vivaz e ao mesmo tempo de uma quietude que só existe mesmo na alma criança.

      Na Paróquia Santuário da Piedade rezei as Mil Ave-Marias, participei das carreatas que antecedem a novena da Padroeira,  visitei  as comunidades, me encantei com as crianças coroinhas, tão organizadas e fervorosas, aprendi a rezar a Novena Perpétua e recebi a bênção da Saúde. Ao final da cada peregrinação que acontece sempre no dia 15 de cada mês rezei aos pés de N.S. da Piedade no Momento Mariano e fui aspergida com água benta. Quando da visita do Senhor Bom Jesus da Lapa estive com o povo louvando e rendendo graças. Nos folguedos juninos festejamos o ‘forró da Piedade’. O padre José e seu colega, Pe. Cristóvão Dworak ficaram engraçados vestidos de caipiras.

      Também chorei com o povo do Maria Pinheiro a morte de alguns membros das comunidades.

      A Igreja esteve sempre tão limpa que, se fosse preciso podíamos sentar no chão. No Natal o presépio chamava a atenção, pela simplicidade e bom gosto com que o pessoal o ornamentava orientado pelo pároco. Em todos os momentos fortes a Igreja Santuário primou pelo bom gosto e aconchego.

      Em 2013, durante o Retiro Espiritual da Irmandade, o Pe. José nos falou da entrega do Ícone de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro aos Redentoristas pelo Papa Pio  IX,  enriquecendo a história com  inúmeras fotos. Educador, com muito cuidado para não ferir sensibilidades chamava a atenção dos participantes para conter-se às refeições, ao servir seu prato, e também solicitou de todos, o cuidado com o arvoredo e as flores, para  deixarmos tudo intocado.

      Das suas viagens  coleciona  camisetas com a imagem da Virgem do Perpétuo Socorro, cada uma diferente da outra. Interessei-me por uma bege - achava que era a ‘minha cara’. Quis comprá-la, não estava à venda. Negou-me cortesmente. Tenho quatro outras camisetas, duas das quais levei de graça. Ao saber que mudaria para Salvador, imaginei: quem sabe, agora, aquela camiseta bege...  Pelo Facebook perguntei-lhe se a coleção ficaria ou iria com ele...  Resposta: já foram.........

      Esmerado na missão em Itabuna mereceu o título de Cidadão Itabunense da Câmara Municipal,   criou o CEMI – Centro de Espiritualidade Mariana de Itabuna,  incentivou o “Arte na Periferia” – Concurso de criatividade em várias modalidades, premiando os participantes. Sempre tratou  com educação, carinho e respeito, o povo daquelas comunidades, objeto do seu desvelo. Ele conhecia de perto cada pessoa da paróquia; era capaz de citar cada paroquiano pelo nome.
  
       Afligiu-se com os problemas de cada um, vibrou com as vitórias de muitos, contribuiu com afinco pelo crescimento espiritual de todos. Nas comunidades ninguém se destacava por estar bem ou mal vestido, pois todos usavam uma camiseta da paróquia (quem não podia pagar levava de graça, claro). Esse cidadão do infinito nas horas vagas cultivava uma  horta aos pés da imagem do Cristo Redentor que fez questão de colocá-la de costas para a cidade – quando lhe falei que estranhava a estátua não estar do alto abraçando a cidade de Itabuna respondeu-me que  a imagem abraçaria o povo amado da colina. Depois de tudo acabado tive a grata surpresa de constatar  quão  feliz  foi a sua decisão, pois à frente, à direita e à esquerda do Cristo Redentor no Monte Calvário estava o povo da paróquia e ao fundo o mais belo pedaço de céu de Itabuna com suas mais belas nuvens, suas luzes, seus prédios majestosos, - um encanto! Essa imagem ficou tão impregnada na minha vida que em qualquer lugar que eu esteja, vendo um céu azul coalhado de nuvens, me vem à lembrança aquele lugar.

      O Santuário esteve lotado, no dia 14 de janeiro de 2015. Muitos dos seus colegas de sacerdócio, diáconos permanentes, irmãs consagradas, movimentos, pastorais, grupos, e o povo de Deus da Diocese estiveram representados na concelebração de envio do Padre José, presidida pelo Bispo Diocesano de Itabuna Dom Ceslau Stanula. No final, muitas homenagens, com votos de sucesso, presentes, e manifestações de saudades, sem chororô, sem ninguém  contra sua partida, porque o Padre José soube muito bem transmitir a mensagem de missionário sem apegos. Partiu levando tão somente o que trouxe: um coração voltado para os menos favorecidos e muita, muita paz!

      E o pessoal da Diocese de Itabuna, sente aquela doce saudade. E a Paróquia Santuário da Piedade, depois da sua passagem por aqui ficou mais rica e bem mais feliz! Que as nossas luzes interiores e o estímulo desse Missionário nas nossas vidas nos impulsionem a seguir com um serviço  acolhedor, apesar dos conflitos e medos deste mundo inquieto,  em desarmonia!


Eglê S Machado
Academia Grapiúna de Letras-AGRAL
Itabuna (BA), 23/02/2015

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terça-feira, 14 de novembro de 2017

UM COMOVENTE DEPOIMENTO DO CINEGRAFISTA QUE TRABALHOU ANOS COM WILLIAM WAACK.

O velho Waack


“Eu sou preto.

Já trabalhei com ele na França, em Portugal, na Espanha, na Índia e em São Paulo.

Nesta caminhada de 30 anos, fazendo imagens e contando histórias, poucos colegas foram tão solidários quanto o velho Waack. Ele faz parte dos pouquíssimos globais que carregam o tripé para o repórter cinematográfico preto ou branco. Na verdade, não me lembro de ninguém na Globo que o faça. O velho sabe para que serve cada botão da câmera e o peso do tripé.

Quando um preto sugere um restaurante mais simples, ele não dá atenção porque paga a conta dos colegas que ganham menos no restaurante melhor.

Como ele fez piada idiota de preto, ele faz dele próprio, suas olheiras, velhice etc.

O que a Globo mais tem são mocinhos e mocinhas de cabelos arrumadinhos, vindos da PUC ou da USP, que são moldados ao jeito da casa.

Posso dar o exemplo de quando estávamos gravando uma passagem no meio da rua, onde havia um acidente, e sugeri a uma patricinha repórter que prendesse o cabelo devido ao vento. Ela o fez. Gravamos na correria porque estávamos a duas horas do RJ. No dia seguinte, na redação, que aparece no cenário do JN, ela comenta:

— Você viu a matéria ontem?

— Não.

— Sobrou uma ponta do cabelo, fiquei parecendo uma empregada doméstica.

Ao que respondi:

— Eu sou repórter cinematográfico, cabeleireiro não havia na equipe.

Posso lembrar-me de muitas coisas como, quando fazíamos uma matéria para o Fantástico, uma mesa de discussão, e, ao ouvido, ouço o repórter falar.

— Põe aquela pretinha mais para trás.

Isto faz parte do cotidiano. Os verdadeiros racistas estão por todas as partes, mas são discretos.

Também tem a famosa, que chegou ao prédio onde vive, e uma moradora (namorada de um amigo) segurou o elevador.

A famosa negra não agradeceu, e ficou de braços cruzados. O elevador começou a subir.

Jornalista Famosa:

— Você não sabe qual é o meu andar?

— Sei, mas não sou sua empregada.

No vídeo, ela é uma “querida”, jamais trata mal o entrevistado, se estiver gravando…

Voltando ao "racista" William Waack:

Quando íamos para a Índia — eu vivia em Lisboa — fui três dias antes para Londres, de onde partiríamos para Dheli.

Eu ia ficar em um hotel, mas o racista que havia trabalhado comigo até então somente uma vez em Cannes convidou-me para ficar em sua casa, onde vivia com esposa e dois filhos, esposa essa a quem ele, 'preconceituosamente', chamava de “flaca” devido à sua magreza. Eu via como uma forma de carinho.Comemos, bebemos bom vinho e, em nenhum momento, alguém quis se mostrar mais erudito que eu, nem mais racista.”

Gil Moura


Enviado do meu smartphone Samsung Galaxy.

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