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sábado, 13 de outubro de 2018

A TRAJETÓRIA BRILHANTE DE HELIO JAGUARIBE - Arnaldo Niskier



No dia 23 de abril de 1923, o Rio de Ja­nei­ro viu nas­cer o seu fi­lho ilus­tre, He­lio Ja­gu­a­ri­be de Mat­tos, co­nhe­ci­do ape­nas co­mo He­lio Ja­gu­a­ri­be. Fi­lho do Ge­ne­ral Fran­cis­co Ja­gu­a­ri­be de Mat­tos e de Fran­ce­li­na San­tos Ja­gu­a­ri­be de Mat­tos, já tra­zia na ba­ga­gem fa­mi­liar mui­ta res­pon­sa­bi­li­da­de, já que o seu pai ti­nha si­do ge­ó­gra­fo e car­tó­gra­fo da Co­mis­são Ron­don, che­fi­a­da pe­lo ma­re­chal Cân­di­do Ma­ri­a­no da Sil­va Ron­don, que de­sen­vol­veu um dos pro­je­tos so­ci­ais mais im­por­tan­tes do pa­ís, e a sua mãe, por­tu­gue­sa, era fi­lha de um gran­de ex­por­ta­dor de vi­nho do Por­to. Em re­la­ção aos es­tu­dos, a sua op­ção foi pe­lo Di­rei­to, se for­man­do em 1946 pe­la Pon­ti­fí­cia Uni­ver­si­da­de Ca­tó­li­ca do Rio (PUC-RJ). Mas ele não se de­te­ve ape­nas nes­ta área de atu­a­ção, já que é mui­to co­nhe­ci­do em to­do o pa­ís co­mo so­ci­ó­lo­go, ci­en­tis­ta po­lí­ti­co e es­cri­tor bra­si­lei­ro. E não ape­nas co­mo ad­vo­ga­do.

A sua par­ti­ci­pa­ção no Ins­ti­tu­to Su­pe­ri­or de Es­tu­dos Bra­si­lei­ros (Iseb), ór­gão cri­a­do em 1955, no Rio de Ja­nei­ro, vin­cu­la­do ao Mi­nis­té­rio de Edu­ca­ção e Cul­tu­ra, foi mar­can­te. Os de­ba­tes re­a­li­za­dos no lo­cal ti­ve­ram gran­de im­pac­to nos anos 1950 e 1960, prin­ci­pal­men­te du­ran­te o go­ver­no de Jus­ce­li­no Ku­bitschek, quan­do se bus­ca­va ca­mi­nhos pa­ra o de­sen­vol­vi­men­to in­dus­tri­al do pa­ís e al­ter­na­ti­vas pa­ra ga­ran­tir a di­mi­nu­i­ção das con­tra­di­ções so­ci­ais. A ques­tão cul­tu­ral tam­bém me­re­ceu a aten­ção do ins­ti­tu­to. O seu li­vro “O Na­ci­o­na­lis­mo na Atu­a­li­da­de Bra­si­lei­ra”, lan­ça­do em 1958, é con­si­de­ra­do uma de su­as prin­ci­pa­is obras.

O bri­lhan­tis­mo das idei­as lan­ça­das por Hé­lio Ja­gu­a­ri­be era um dos des­ta­ques do Iseb. Lá, ele que te­ve a com­pa­nhia de fi­gu­ras, tam­bém bri­lhan­tes, co­mo Ro­land Cor­bi­sier, Al­ber­to Guer­rei­ro Ra­mos, Ál­va­ro Vi­ei­ra Pin­to, Nel­son Wer­neck So­dré, An­to­nio Cân­di­do, Wan­der­ley Gui­lher­me dos San­tos, Cân­di­do Men­des, Ig­ná­cio Ran­gel e Car­los Es­te­vam Mar­tins. Sem fa­lar nos cha­ma­dos co­la­bo­ra­do­res, co­mo Cel­so Fur­ta­do, Gil­ber­to Freyre e Hei­tor Vil­la Lo­bos, que tam­bém aju­da­vam nas ati­vi­da­des, as­sim co­mo Mi­guel Re­a­le e Sér­gio Bu­ar­que de Hol­lan­da, con­si­de­ra­dos os mem­bros ilus­tres.

Após ser ex­tin­to, em 1964, os in­te­gran­tes do Iseb ti­ve­ram que se exi­lar. Foi quan­do He­lio Ja­gu­a­ri­be pas­sou a le­cio­nar nos Es­ta­dos Uni­dos: de 1964 a 1966 na Uni­ver­si­da­de de Har­vard, na Uni­ver­si­da­de de Stan­ford e no MIT – Mas­sa­chu­sets Ins­ti­tu­te of Tec­no­logy. Ao re­tor­nar ao Bra­sil, em 1969, foi con­tra­ta­do pe­lo Con­jun­to Uni­ver­si­tá­rio Cân­di­do Men­des, on­de atuou co­mo Di­re­tor de As­sun­tos In­ter­na­cio­nais. Na­que­la mes­ma ins­ti­tu­i­ção foi de­ca­no do Ins­ti­tu­to de Es­tu­dos Po­lí­ti­cos e So­ci­ais, fun­ção que exer­ceu até 2003, sen­do de­pois no­me­a­do De­ca­no Emé­ri­to, car­go que man­te­ve até a sua mor­te, ocor­ri­da no úl­ti­mo dia 9 de se­tem­bro de 2018.

He­lio Ja­gu­a­ri­be é dou­tor ho­no­ris cau­sa da Uni­ver­si­da­de de Jo­han­nes Gu­ten­berg, de Mainz, Ale­ma­nha, da Uni­ver­si­da­de Fe­de­ral da Pa­raí­ba e da Uni­ver­si­da­de de Bu­e­nos Ai­res. Na Aca­de­mia Bra­si­lei­ra de Le­tras, foi o no­no ocu­pan­te da Ca­dei­ra nº 11, su­ce­den­do a Cel­so Fur­ta­do, seu com­pa­nhei­ro dos tem­pos de Iseb. Foi elei­to em 3 de mar­ço de 2005 e to­mou pos­se em 22 de ju­lho de 2005, sen­do re­ce­bi­do pe­lo aca­dê­mi­co Can­di­do Men­des de Al­mei­da.

Pa­ra quem de­se­ja co­nhe­cer mais so­bre a obra de He­lio Ja­gu­a­ri­be, é in­te­res­san­te ver o do­cu­men­tá­rio “Tu­do é ir­re­le­van­te, He­lio Ja­gu­a­ri­be”, so­bre a vi­da do so­ci­ó­lo­go bra­si­lei­ro. Es­tá em car­taz em São Pau­lo. Di­ri­gi­do por sua fi­lha Iza­bel Ja­gu­a­ri­be e por Er­nes­to Bal­dan, a obra traz de­poi­men­tos de com­pa­nhei­ros nos­sos aqui da ABL, co­mo Fer­nan­do Hen­ri­que Car­do­so, Sér­gio Pau­lo Rou­a­net e An­to­nio Cí­ce­ro. O car­taz do fil­me é um ca­pí­tu­lo à par­te, mos­tran­do o nos­so sa­u­do­so aca­dê­mi­co sor­ri­den­te, mãos le­van­ta­das, num mo­men­to de des­con­tra­ção que mar­ca pro­fun­da­men­te a sua gran­de fi­gu­ra hu­ma­na. 

Diário da manhã (GO), 20/09/2018

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Arnaldo Niskier - Sétimo ocupante da Cadeira nº 18 da ABL, eleito em 22 de março de 1984, na sucessão de Peregrino Júnior e recebido em 17 de setembro de 1984 pela acadêmica Rachel de Queiroz. Recebeu os acadêmicos Murilo Melo Filho, Carlos Heitor Cony e Paulo Coelho. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 1998 e 1999.

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sexta-feira, 14 de setembro de 2018

HÉLIO JAGUARIBE - Marco Lucchesi

Hélio Jaguaribe 

Estamos aqui reunidos, nesta cerimônia de adeus, pela soma das virtudes que formaram seu espírito intrépido e generoso.  Não são apenas as palavras do presidente da Academia, mas as do outrora jovem professor que se preparava para lecionar história da Grécia. Segui seus livros, Hélio, com encantamento, não apenas os de uma especialidade que não exerci, mas todas as suas reflexões sobre a democracia grega e moderna, sua visão, por assim dizer, goetheana, revestida de ousadia, a desafiar slogans, formas de saber compartimentadas ad nauseam e monocórdias, desprovidas de saltos conceituais e de aventuras. Uma reflexão autônoma, cujo símbolo maior foi seu encontro com Karl Jaspers, rara abertura em nosso meio, cuja sensibilidade interdisciplinar parece ocupar espaço negativamente ficcional.  Como não dizer as reuniões de Itatiaia, a criação do Iseb, essa “grande máquina de pensar”, e uma rede de integração cultural com a América Latina, de que o Brasil não deve se apartar, porque se trata de uma origem e de um destino, que não pode prescindir de uma política real de vizinhança e integração. E nessa paisagem, Hélio, um programa dileto ao seu coração:   desenvolvimento, distribuição da riqueza, promoção da igualdade, democracia não limitada a um gradiente formal e abstrato. E depois o mundo, caríssimo Hélio, antes e depois do exílio, mas sem perder o território, poroso, sem perder o pertencimento de sua cultura radicada na emancipação de povo e nas instituições republicanas.

Nosso primeiro encontro deu-se em Brasília, quando você delineava um diálogo em rede, entre Oriente e Ocidente, um West-östlicher Diwan, caro a tantas dos que aqui se encontram. Como não recorrer a Candido Mendes,  empenhado igualmente, naquela quadra, a encurtar as distâncias da Terra, como pensavam os poetas futuristas.

Seu itinerário tem algo da sinfonia Heroica de Beethoven, um fascinante afresco de ideias, um salto quântico, por assim dizer, uma quebra de paradigma, com as suas últimas direções intelectuais, mediante um ardor geométrico e uma flegma conceitual, sobre o quase épico estudo crítico da história, do ponto de vista hermenêutico e filosófico, ou, ainda, quando esboça uma poética do homem no cosmos, de cuja complexidade e leveza saímos tocados. Atitude rara num cientista social, preso às malhas especiosas de um saber ciumento, de trincheira inamovível. Caro Hélio: você não se limitou a ser guarda de fronteira, a sua antropologia filosófica não quis, não pode, nem tampouco desejou fazê-lo. Você produziu uma ode à liberdade, sinfonia de muitas vozes na partitura de uma derradeira modernidade.  Essa coragem instrumental, seu sotaque, seu acento, combinada com um desejo onívoro de conhecimento, desde a métrica de um logos, seminal e rizomático, traduzem a sua estatura, aqueles antigos heroicos furores de que dizia Giordano Bruno.

Perde o Brasil um de seus maiores interpretes, uma lúcida inquietação, sutil e vigilante. Mas o princípio- esperança permanece inalterado. Enquanto não nos faltar esse princípio a sua ausência, Hélio, brilha e nos incita a prosseguir uma leitura radical da história e do cosmos.

Estarei enganado ou parece-me ouvir um inesperado hino à alegria, na sala dos poetas românticos, para dizer que você permanece mais vivo que os vivos?

Alocução do dia 12/09/2018
Sala dos Poetas Românticos
Portal da ABL, 13/09/2018


Marco Lucchesi - Sétimo ocupante da cadeira nº 15 da ABL, eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila foi recebido em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha. Foi eleito Presidente da ABL para o exercício de 2018.

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terça-feira, 11 de setembro de 2018

MORRE NO RIO DE JANEIRO, AOS 95 ANOS, O ACADÊMICO, JURISTA, SOCIÓLOGO E ESCRITOR HELIO JAGUARIBE.


O Acadêmico, jurista, sociólogo e escritor Helio Jaguaribe faleceu na noite do dia 9 de setembro, domingo, em sua residência, no bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro, vítima de falência múltipla dos órgãos. Seu corpo será velado na Sala dos Poetas Românticos, no Petit Trianon, a partir das 10 horas de quarta-feira, dia 12. O sepultamento está previsto para o mesmo dia, às 15 horas, no Mausoléu da Academia Brasileira de Letras, no Cemitério São João Batista, em Botafogo. O Acadêmico deixa viúva, Maria Lucia Charnaux Jaguaribe, e cinco filhos, Anna, Roberto, Claudia, Beatriz e Isabel.

O Presidente da ABL, Marco Lucchesi, assim que foi informado do falecimento do Acadêmico, determinou que a bandeira da Academia fosse hasteada a meio mastro e afirmou: “Helio Jaguaribe foi um dos últimos grandes intérpretes de nosso país. Estudou o Brasil para transformá-lo, mediante uma abordagem desenvolvimentista, com a fundação do Iseb (Instituto Superior de Estudos Brasileiros), nos anos cinquenta”.

Marco Lucchesi disse, ainda, que “para Helio Jaguaribe, ação e pensamento permanecem indissociáveis, como Darcy Ribeiro e Celso Furtado, que o precederam na cadeira 11 da Academia Brasileira de Letras. Cientista político de alta erudição e consciência vigilante, deixou obra vasta e criativa. Cito apenas dois títulos: A dependência político-econômica da América Latina, verdadeiro clássico na área, e Um estudo crítico da história, divisor de águas da interpretação do processo histórico publicado em nosso país. Homem de gestos largos e entusiasmado, Helio continua vivo pelas virtudes de sua obra, saudosa do futuro”.

Nono ocupante da Cadeira nº 11 da ABL, Helio Jaguaribe foi eleito em 3 de março de 2005, na sucessão de Celso Furtado, e recebido em 22 de julho de 2005, pelo Acadêmico Candido Mendes de Almeida.

Helio Jaguaribe de Mattos, academicamente conhecido como Helio Jaguaribe, nasceu no Rio de Janeiro, em 23 de abril de 1923, diplomando-se em Direito, em 1946, pela Pontifícia Universidade Católica desta cidade. Em 1952, iniciou, com um grupo de jovens cientistas sociais, um projeto de estudos para a reformulação do entendimento da sociedade brasileira, fundando o Instituto Brasileiro de Economia, Sociologia e Política (Ibesp), de que foi Secretário Geral e Diretor da revista do Instituto, Cadernos de Nosso Tempo, de relevante influência no Brasil e na América Latina.

Em 1956, teve a iniciativa de promover a constituição do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (Iseb), uma instituição de altos estudos, do Ministério da Educação e Cultura, no campo das Ciências Sociais, do qual foi designado Chefe do Departamento de Ciência Política. Exonerando-se de ambas as funções em 1959, por discordância com mudanças na orientação do Instituto. Passou, então, alguns anos colaborando, sem vínculos permanentes, com diversas instituições acadêmicas, no Brasil e no exterior.

Em 1964, depois de pública condenação do golpe militar, afastou-se do país e foi lecionar nos Estados Unidos: de 1964 a 1966, na Universidade de Harvard; de 1966 a 1967, na Universidade de Stanford; e de 1968 a 1969, no MIT – Massachusets Institute of Tecnology.

Retornando ao Brasil em 1969, ingressou no Conjunto Universitário Cândido Mendes onde, por alguns anos, foi Diretor de Assuntos Internacionais. Com a fundação do Instituto de Estudos Políticos e Sociais, em 1979, foi designado Decano do novo Instituto, função que exerceu até 2003. Nessa data, completando 80 anos, propôs sua substituição por um scholar mais jovem, o professor Francisco Weffort, ex-Ministro da Cultura do Governo Fernando Henrique Cardoso, que foi escolhido para o cargo. A Helio Jaguaribe foi conferido o título de Decano Emérito e, nessa qualidade, continuou ativamente suas pesquisas no Instituto.

Por sua contribuição às Ciências Sociais, aos estudos latino-americanos e à análise das Relações Internacionais, recebeu o grau de Doutor Honoris Causa da Universidade de Johannes Gutenberg, de Mainz, RFA (em 1983); da Universidade Federal da Paraíba (em 1992); da Universidade de Buenos Aires (em 2001). Em 1996 foi agraciado, por sua contribuição às Ciências Sociais, com a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico. Em 1999, o Ministério da Cultura conferiu-lhe, por sua contribuição ao desenvolvimento cultural do país, a Ordem do Mérito Cultural.

10/09/2018


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