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segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

GERALDO VAZ DE QUADROS COMENTANDO "A Elaboração do Luto" de Melanie Klein

Olá

Pincei alguns tópicos (comentando-os levemente) de um texto do livro Folha Explica: “A Elaboração do Luto”, da notável psicanalista Melanie Klein; ei-lo:

... É preciso tempo para que se cumpra o processo de luto e para que se aceite a perda de alguém, conformando-se com o veredito da realidade. É preciso tempo... Para elaborar o caos de emoções ambivalentes e aceitar, acolhendo-as, tanto a realidade psíquica quanto a realidade externa, com suas exigências, seus inexoráveis juízos. Transformar em cosmos o caos interior requer tempo...

...Durante a infância celebram-se muitos lutos, pois não apenas criam-se vínculos, como também se inicia um quase interminável processo de separação dos pais, conduzindo à vida adulta e autônoma. Além disso, muita coisa precisa desaparecer: os sonhos de perfeição pessoal, a onipotência, os amores ideais, os devaneios em que tudo parece absoluto, grande e grandioso. Os ídolos e os ideais precisam morrer e renascer modificados.

...E o luto dos muitos microferimentos decorrentes de desatenções vividas ou imaginadas? Eles terão de ser feitos e refeitos milhares de vezes... Não apenas no momento em que ocorre uma perda por morte ou separação, mas porque a transitoriedade de tudo obriga, constantemente, a fazer o luto do momento presente para se ter acesso ao momento seguinte...

...O luto e a melancolia não são episódios contingentes e acidentais, mas partes integrantes e indispensáveis da travessia existencial de cada um de nós – a saúde mental não significa escapar a este destino, e sim, ao contrário, assumi-lo... É preciso renunciar a posse absoluta e exclusiva dos objetos de amor, é preciso aceitar substituições e remanejamentos...

...Em todo processo de luto há aceitação da morte e algum tipo de renascimento.  Morte, luto, renascimento: este movimento cíclico é também a melhor metáfora do processo de constituição do sujeito – de cada um em particular.

A primeira emergência... O luto primordial ocorre, em regra, em torno do desmame, e abrange tudo o que o seio (a “mãe boa”) representa: o amor, a bondade, segurança, a base da sobrevivência...

... Mas, se a função parental e a união conjugal entre os pais favorecer a criação de objetos internos vivos e vitalizados, o luto pode chegar a bom termo... Desses pais internos que se amam brota, de forma viva, um princípio de ordenação que ajuda a transformar o caos interior em cosmos. Por outro lado, se estão em guerra, em litígio, o caos se adensa e se aprofunda.

...Todo prazer sentido junto aos pais é uma garantia de que o objeto interno não está ferido nem se transformou em vingador. As experiências felizes diminuem o medo e aumentam a confiança: isto é crucial para que a depressão e o sentimento de perda sejam superados.

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Este resumo é uma pequena observação sobre uma das facetas da constituição do aparelho psíquico em geral, dos homens e mulheres... Mas, qual seria mesmo a utilidade? Bem, a resposta é subjetiva, isto é, depende de quem lê. Talvez, quem sabe, os mais velhos vejam ali, mesmo na penumbra, algumas coincidências com certas passagens de suas vidas, e, os mais novos, além disso, a possibilidade de poder olhar com mais cuidado e carinho, quando da condução dos seus bebês...

Talvez possa despertar a consciência de “alguém” para o fato de que ele não está assim tão desesperado e só. Isto, porque às vezes temos a impressão que estamos lutando contra gigantes (de variados matizes psíquicos e até físicos), como se fôssemos os únicos no mundo – ledo engano. Apesar de sermos absolutamente singulares em relação às demais criaturas humanas, há uma enormidade sem fim de situações que se abatem de igual modo sobre todos, sem exceção...

Talvez alguns nada vejam de interessante no texto acima – talvez isto seja bom... Por outro lado, outros poderão vislumbrar que existe alguma coisa ali que tem a ver consigo, e, ao lembrar que o que está ali é apenas uma pequena parte do todo, poderia até imaginar: “tô ferrado”!

A propósito, lembro que é o interior de cada pessoa em particular que determina como ela enfrentará os seus problemas – são inumeráveis as defesas que ela tem à disposição; entre elas: umas encobrem a cabeça para não vê-los; outras se acham eternas vítimas e vivem na espreita para ferrar quem passar pelo seu caminho, pois “se acham” credoras do mundo (que o mundo foi injusto com ela, etc. etc. e etc.)... Mas, há algumas, a maioria, que, apesar de não afrontá-los, os enfrenta dia após dia e os vence, destemidamente e de frente...

...NÃO, você não está ferrado. Fomos todos dotados (pelo Criador) de poderosos instrumentos internos que nos fazem adaptar a quaisquer circunstâncias... E, para não alongar mais ainda, sugiro lembrar as palavras de Paulo (Fil.3.13,14):

“Irmãos, eu não julgo que eu mesmo o tenha alcançado, mas uma coisa faço: esquecendo-me do que fica para trás e avançando para o que está diante, prossigo para o alvo, para o prêmio da vocação do alto, que vem de Deus em Cristo Jesus”.

... Além do mais, segundo as Escrituras, “ninguém recebe provação maior do que a que ele possa suportar”... E, complementando, o Mestre disse que: “No mundo teríamos aflições – mas, que as venceríamos”.


Geraldo Vaz de Quadros
Psicanalista – Pós em Filosofia e Doutor em Teologia – Membro efetivo da Academia Grapiúna de Letras-AGRAL.


Estes tópicos têm destinatário – um (uma pessoa, ou +) dos nossos confrades...

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Um comentário:

  1. sempre lembro das formidáveis paradas militares, no então 2º PEL\PM\EU, hoje 7ª CIPM\EU, one aprendiámos muitas lições de vida, proferida por este indubitável então CMT. Geraldo Vaz de Quadros. Tempo bom que não volta mais.

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