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domingo, 29 de dezembro de 2024

O Menino e o Júri do Menino

Cyro de Mattos *

 


Era uma festa. A notícia vinha como manchete na primeira página do único jornal da cidade. Repetia-se pelo alto-falante do Serviço Regional de Propaganda Comercial. Na semana do júri era comentado, nos mínimos detalhes, o crime de morte que o homem aparentemente calmo havia cometido. Pela boca do povo na feira, rua do comércio, barbearias e alfaiatarias. Na privacidade dos lares pelo chefe de família exemplar. O homem ia pegar muito anos de cadeia, não merece outra sorte quem mata uma mulher indefesa quando estava dormindo, diziam os que tomavam partido pela condenação do réu. Uma mulher infiel deve pagar com a vida, a honra do homem nesses casos não deve ficar manchada, afirmavam os que queriam que o réu fosse absolvido. O padre na missa das sete, no domingo, rogava a Deus que iluminasse os jurados que iam compor o conselho de sentença para que julgassem de sã consciência. Aplicassem a boa justiça, não absolvessem um criminoso nem condenassem um inocente. Na dúvida, os jurados votassem a favor do réu, ele observava, os povos civilizados vinham ensinando isso como sabedoria ao longo dos anos.

Um poeta do povo escrevia folhetos sobre o júri do marido que matou a mulher na cama com sete facadas porque desconfiou que a esposa tinha um caso com o vizinho do sobrado em frente. O bicho-homem enfurecido sacou da peixeira afiada e desferiu golpes medonhos e ainda bebeu o sangue da mulher infiel e amada, informava em versos pungentes o poeta popular. Vendia centenas de folhetos nos pontos mais movimentados da cidade.

O pai levava o filho para assistir o júri.

Quem quisesse assistir sentado no auditório chegasse cedo à sala maior do fórum onde aconteciam as sessões do júri. Nas cadeiras da frente sentavam os parentes do réu e, no lado oposto, na mesma fileira, os da vítima. O pai dizia que no júri estavam em cena duas tragédias: a da família da vítima e a do réu. Às vezes, a mãe da vítima desmaiava quando o promotor de justiça exaltava as qualidades da esposa que sempre se dedicara ao marido, vítima de ciúme cego do réu que, no gesto covarde e traiçoeiro, ceifava a vida daquela que sempre honrara o lar sagrado. O pai do réu, visivelmente inconformado com as palavras proferidas pelo promotor, controlava-se na cadeira para não rebater a ofensa ao filho, injusta sob vários aspectos. Passava o lenço no rosto, temendo que o filho, tão jovem, fosse pegar trinta anos de prisão, passando quase uma vida sem liberdade.

No meio do povo, do lado de fora, o pai colocava o filho nos ombros. Queria que o menino observasse o juiz de direito interrogar o réu, algemado, cabisbaixo. Olhasse bem o advogado daquele réu impressionar os jurados com a palavra inflamada. Desfiar argumentos convincentes, que arrancavam murmúrios das pessoas na sala abafada, até mesmo aplausos. O juiz batia na sineta, pedindo ordem e silêncio, do contrário ia suspender a sessão por falta de condições para prosseguir os trabalhos. O pai queria que o filho prestasse atenção ao promotor de justiça, o seu jeito de olhar sério, acusando o réu que, matando a mulher, matava a sociedade, que não quer ser ofendida da maneira terrível como havia sido, afirmando que somente Deus põe e dispõe da vida desde que o mundo foi habitado por seres humanos.

O quarteirão da rua onde ficava o fórum permanecia sempre cheio de curiosos quando era dia de júri. O povo ouvia pelo alto-falante instalado no poste da esquina as vozes que vinham da defesa ou da acusação lá dentro do fórum. Os apartes se sucediam durante a sessão do júri, que entrava pela madrugada quando se tratava de caso rumoroso. A certa altura do júri, se algum gaiato ousasse dar uma gargalhada por causa de um aparte da defesa ou acusação sem sentido, logo ia se arrepender. Podia ser autuado em flagrante por crime de desacato à autoridade do juiz. Recomendava-se nessa hora guardar o sorriso no bolso, mais tarde soltá-lo com os amigos no bar quando então fosse lembrada a cara feia que o juiz fazia ante os aplausos arrancados da plateia pelo advogado de defesa, com mais um aparte inteligente.

O pai queria que o filho fosse estudar em Salvador e voltasse depois formado como advogado. Um advogado respeitado, desses que impressionam com a oratória imbatível na tribuna do júri. Conseguem a soltura do réu em crime hediondo quando todos afirmam que nem um milagre podia salvar da cadeia o homicida. Advogado que não atua no júri não fica famoso, dizia o pai, ressaltando que morre o homem fica a fama.

O pai não gostou quando anos depois o filho disse que podia até ser um advogado importante, mas gostaria mesmo era de ser escritor. Um contador de histórias.


*Cyro de Mattos é escritor e poeta. Autor de 70 livros pessoais e, entre eles, cinco de crônicas. Também editado no exterior. Advogado e jornalista. Colabora quinzenalmente com a revista da crônica Rubem, há mais de quinze anos editada pelo jornalista e cronista Henrique Fendrich em Brasília, como homenagem a Rubem Braga, o melhor cronista do Brasil. Conquistou o Prêmio Casa das Américas em 2023 com o livro Infância com Bicho e Pesadelo e outras histórias. 

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sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

 

Papai Noel ontem e hoje

Cyro de Mattos


 

A cidade tinha pouco mais de quinze mil habitantes. Servira de burgo de penetração aos forasteiros que adentravam o continente na conquista e povoamento da terra. Tinha poucas ruas calçadas, um cinema, uma praça, pequena igreja, um ginásio, três bairros. O comércio era ativo na avenida principal. O rio corria manso no estio, era valente na enchente. Tinha peixe em abundância nas águas de fontes claríssimas. 

Ninguém podia imaginar que um dia fosse inventada a televisão, na tela de um aparelho mágico se assistiria tudo que estava acontecendo no mundo. Os brinquedos seriam fabricados pelos meios eletrônicos como resultados dos avanços tecnológicos. Na pequena cidade respirava-se um clima de estábulo quando chegava o mês de dezembro. Comemorava-se o Natal como se a cidade fosse uma família grande. Todos, dos ricos aos mais humildes, integravam-se no clima da festa, que anunciava a vinda do menino para fazer a proeza de estrela iluminando uma só mesa com todas as mãos. Papai Noel existia no imaginário de cada criança. A mãe lembrava, na semana próxima ao Natal, que o filho fosse escrever a carta, colocasse no sapato quando for dormir, pedindo a Papai Noel o presente que você quer ganhar nesse ano. Foi o que o menino fez no mesmo dia, pedindo que queria ganhar uma bola de couro daquela vez para jogar futebol com os amigos no campo da praça Camacan.

Na véspera de Natal, a mãe disse que fosse dormir cedo, Papai Noel podia passar por aqui e se encontrasse você acordado não vai deixar seu presente no sapato. Ele só deixa o presente no sapato se o menino estiver dormindo, não podia esperar o garoto pegar no sono, tem muita criança para presentear naquele dia especial, consagrado ao nascimento do menino Jesus na manjedoura.

O velocípede, o jogo de botão, o dominó, o jogo de dama, o realejo e o pião que rodava na mão foram presentes que Papai Noel deixara quando acontecia o Natal. Estavam no baú onde também guardava as revistas de quadrinhos, guri e gibi.

Quando chegou finalmente a véspera de Natal, obedeceu ao conselho da mãe, foi dormir cedo, na certeza de que Papai Noel não ia se esquecer dele.

Acordou no outro dia com sono. O susto esplêndido teve quando clareava dia. Lá estava no par de sapatos a bola de couro como o presente de Papai Noel, que atendera o seu pedido.

O domingo brilhava com a sua luz forte que caía do céu sobre todas as coisas. De calção e peito nu, chamou os meninos para escolher os times para mais uma partida de futebol. Como dono da bola, na formação de seu time, tinha preferência para escolher os garotos que fossem os melhores jogadores.

De agora em diante, com esse privilégio, o time que escolhesse seria vencedor em todas as partidas no jogo de futebol. E isso tinha que agradecer ao Papai Noel.

Passados tantos anos, o homem idoso não esqueceu que Papai Noel mora em um lugar que neva. Chega no trenó puxado por renas. Entra pela janela para deixar no sapato o presente que o menino pediu, isso porque as casas da sua cidade não possuem chaminé.

 Veste roupa vermelha, usa uma barba branca crescida, o gorro cobre os cabelos sedosos. Não faz rô, rô, rô, nem tira foto com a criança no supermercado. Não é pretexto para motivar as vendas no comércio nessa fase do ano. Não é um Papai Noel protagonista da sociedade consumista.

É um encantado, o homem idoso prefere esse, que faz bem, torna a vida viável como se fosse uma grande mentira de verdade.

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Cyro de Mattos é poeta,  ficcionista e Jornalista. Autor de 70 livros, premiado, editado no Brasil e exterior. É também advogado.


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sábado, 23 de novembro de 2024



O Jovem Juan Marcos Veio me Visitar Hoje

Cyro de Mattos

 


Neto do cronista Antônio Lopes e da artista plástica Conceição Portela. Estuda biblioteconomia na UESC. Vocação promissora de poeta. Domina o francês. Presenteei-lhe na oportunidade com meu livro De tes instants dans le poème. edição bilíngue, publicação das Editions du Cygne, Paris, Coleção Poesia do Mundo.

Enviei através desse jovem leitor para Seu Walter, vô materno do poeta promissor, um homem de 95 anos, o meu livro Vinte Poemas do Rio, aprovado três anos no vestibular da UESC. O vô materno de Juan enviou-me a singela lembrança de sua autoria: Histórias de Seu Walter.

A vida é boa e bela com encontros dessa natureza.

 

(Recebi via WhatsApp do poeta Cyro de Mattos)

 

Cyro de Mattos é poeta,  ficcionista e Jornalista. Autor de 70 livros, premiado, editado no Brasil e exterior. É também advogado.


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quarta-feira, 20 de novembro de 2024

Dia do Negro

Cyro de Mattos




Você sabe quantos morreram
Para me ver aqui escrevendo,
Comer moqueca de peixe,
Jogar futebol na várzea,
Ir pra escola pra aprender,
Dançar com suas danças,
Louvar com os seus santos,
Cantar com os seus cantos,
Dizer que o caráter vale,
Todos temos a mesma alma,
Não importa a cor de pele,
Somos iguais e diferentes?

 

Cyro de Mattos é poeta,  ficcionista e Jornalista. Autor de 70 livros, premiado, editado no Brasil e exterior. É também advogado.


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domingo, 10 de novembro de 2024

Nosso Herói Jipe e Maria Camisão

Por Cyro de Mattos

 


                 Jipe não era apenas mais um doido manso com suas esquisitices que habitou minha infância cheia de sentimentos e graça. Era o mais querido por gente grande e pequena. Hélio Pólvora, nascido em Itabuna, ficcionista dos melhores da moderna literatura brasileira, dedicou-lhe o conto “No Peito o Motor”, que faz parte do livro Estranhos e Assustados, publicado pela editora Francisco Alves, Rio, 1977. Teve várias edições, deu ao autor o Prêmio Nacional da Fundação Castro Maia.

              Depois do conto primoroso do conterrâneo Hélio, tive a ousadia de escrever um texto de ficção breve sobre nosso herói do trânsito, que de repente se achara que era de corpo e alma um jipe. O título do meu texto é “Um Jipe nas Nuvens”. Faz parte do livro Nada Era Melhor, da Editus, 2017, é uma reunião de contos curtos ou romancinho da infância, se quiserem. Jipe aparece no meu romance Eterno Amanhecer, ainda inédito, com mais estaque.

            Os meninos de meu tempo consideravam os doidos mansos como uma gente indefesa, ingênua, engraçada, sofrida, invenção do destino. Tanta consideração tínhamos por eles, que meu livro Zurububuruna, Editora Batel, Rio, 2024, poesia satírica em formato de cordel, sobre uma gente que habita com suas vilanias uma localidade imaginária, é dedicado aos doidos mansos de minha terra, claro que na homenagem não podia faltar nosso famoso Jipe.


                 Eis a dedicatória no meu livro Zurububuruna:          

                                    Aos doidos mansos de minha terra, que não fazem mal a uma mosca. Ingênuos, indefesos, perseguidos pelo fado. Incansáveis intérpretes da vida diária, riso do trânsito. Mula-Manca, Maria Camisão, Ciro Mergulhador, o tal Jipe falado. Zeles Carnavalesco, mais Chiranha, mais Paturi, meio azoado, entre outros, dedico com muito gosto esses versos de pé quebrado.

                       

          Maria Camisão vestia uma camisa folgada, mangas compridas, de tão grande batia nos joelhos. Ela era de estatura baixa, os cabelos sempre assanhados, a boca desdentada.  Alguns diziam que guardara como lembrança meia dúzia de camisas do seu homem, um preto alto e forte. Vivia do ganho da roupa que lavava para a família abastada. Nas horas de crise aparecia na avenida do Cinquentenário. Revoltava-se, xingava a Deus e o mundo. Comentava-se que ela havia ficado adoidada depois que o marido amanheceu enforcado na cadeia, dizem que a mando do delegado Nero, que armara para ele uma cilada. O delegado mandou que os dois soldados tomassem as caças moqueadas e prendessem na feira o homem chamado Barba Preta.  Não demorou, não se sabe como, o delegado passou a ser o dono da rocinha de cacau e cereais, que o negro Barba Preta havia plantado nas Salteadas.

            Escrever sobre esses tipos curiosos de minha terra, convenhamos, é atender com prazer no tempo o aceno das distâncias. O aceno dos dias com sua graça e lamento. Eles preenchiam a minha infância como um episódio relevante da vida, sem que nada me custasse

 

Cyro de Mattos é poeta,  ficcionista e Jornalista. Autor de 70 livros, premiado, editado no Brasil e exterior. É também advogado.

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