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segunda-feira, 21 de outubro de 2024

Memória de Itabuna Agredida

Cyro de Mattos

 


Sugeri há dias, no “zap” de correspondência social da Academia de Letras de Itabuna, que a entidade devia se manifestar com uma nota de repúdio contra a demolição do prédio onde morou o comendador Firmino Alves, fundador de Itabuna. Agora fico sabendo que a dose da danosa demolição foi dupla. Demoliram a casa onde morou o poeta Firmino Rocha. Essas duas agressões estúpidas foram dadas na cara da cidade, situada ali na praça Olinto Leoni, local onde se encontra o esfacelado Centro Histórico de Itabuna. A Galeria Walter Moreira, pintor renomado das paisagens e tipos da cidade, erguida também na praça Olinto Leoni, foi demolida pela atual administração do município.

A demolição dos prédios que serviram de residência ao Comendador Firmino Alves e ao poeta Firmino Rocha vêm na mesma esteira do que aconteceu com o Castelinho, um primor de arquitetura colonial, representativa da beleza antiga forjada no auge da lavoura cacaueira. Ressalte-se que o Comendador mandou construir o Castelinho para dar à sua filha Áurea como presente de casamento. Como se nada significasse, o destino desse prédio de beleza antiga rara e importância histórica incontestável teve como final desastroso o de ser engolido pela boca insaciável da ganância imobiliária

Quando em 2011 fomos presidente da Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania, demos parecer contrário à venda do prédio onde funcionou o Ginásio Divina Providência, educandário que contribuiu para que jovens se tornassem dignos cidadãos e profissionais valorosos. O prédio daquela instituição de ensino fora tombado em 2008. Uma empresa se interessou em adquirir à Sociedade de São Vicente de Paula, dona do imóvel, comprometendo-se em construir no local um shopping que daria emprego a 600 pessoas. Edital do Executivo Municipal determinou que fosse criada uma comissão para examinar o assunto. A Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania não integrou essa comissão. Consultada para que desse parecer sobre a questão, nos manifestamos para que o Executivo Municipal desapropriasse o imóvel e em seu lugar instalasse o Museu de Educação de Itabuna e o Memorial Lindaura Brandão, educadora que dedicou sua vida para que sempre estivesse em pé com dignidade o educandário de grande valor histórico no ensino e educação, locais e regionais.

Apesar de nosso parecer contrário à venda do prédio onde funcionou o Ginásio Divina Providência durante décadas, o negócio da venda do imóvel foi realizado, pasmem os céus, e um shopping que foi construído na metade do terreno apenas deu emprego a poucas pessoas. Conservou-se apenas a fachada do prédio construído na metade do terreno, e o seu interior foi destinado ao comércio.

Na época em que fomos presidente da FICC listamos uma série de prédios históricos que deveriam ser objeto de tombamento por lei municipal, incluindo-se nesta os imóveis onde residiram o Comendador Firmino Alves e o poeta Firmino Rocha, localizados na praça Olinto Leoni. Não tive assistência jurídica municipal eficiente para levar adiante o projeto de tombamento de prédios com importância histórica para Itabuna. Não sei se os prédios listados em minha gestão foram tombados posteriormente através de processo administrativo.

Estou de pleno acordo com os membros da Academia de Letras de Itabuna que querem que o caso da demolição abrupta dos prédios onde residiu o Comendador Firmino Alves e o poeta Firmino Rocha seja motivo de uma nota de repúdio. E me associo também aos que desejam que o fato calamitoso seja levado ao conhecimento do representante do Ministério Público para as medidas cabíveis de lei e para que inclusive, por extensão, seja preservado o pouco que resta do patrimônio histórico de uma cidade com papel importante na formação da civilização cacaueira baiana.

Já não basta o que estamos fazendo com o rio Cachoeira? Antes de fontes puríssimas e peixe em abundância, era chamado de pai dos pobres, agora enfermo, afogando-se nas águas viscosas derramadas por bocas de vômito. Pobre rio, de vida saudável outrora, habitado por gente simples, hoje não passa de esgoto a céu aberto.

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Cyro de Mattos é poeta e ficcionista. Jornalista com livros editados no exterior.

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quinta-feira, 10 de outubro de 2024

 Livros do Escritor Baiano Cyro de Mattos na Festa Literária de Paraty 

(FLIP 2024)




 

quarta-feira, 9 de outubro de 2024

ALITA ENTREGA MEDALHA JORGE AMADO EM SOLENE CERIMÔNIA NA UESC




No próximo dia 11 de outubro de 2024, às 17:00, a Academia de Letras de Itabuna- ALITA, realizará a Outorga da Medalha Jorge Amado em uma cerimônia solene no Auditório Paulo Souto, na Universidade Estadual de Santa Cruz- UESC. Esta importante honraria, que celebra grandes contribuições para as artes, ciências e cultura, será concedida a duas personalidades de destaque que impactaram profundamente a região.

A ex-reitora da UESC, professora Renée Albagli, será homenageada por seu trabalho notável e transformador no campo do ensino superior, pesquisa e extensão. Sob sua gestão, a UESC passou por uma fase de expansão e consolidação acadêmica, especialmente com a ampliação do corpo docente e a criação de cursos pioneiros. Renée Albagli é amplamente reconhecida como uma das figuras mais influentes na história da educação superior da Bahia.

Além dela, a Santa Casa de Misericórdia de Itabuna será igualmente homenageada por sua contribuição inestimável na área da saúde, prestando assistência à população há mais de um século, com destaque para seu trabalho humanitário e sua dedicação à melhoria do atendimento médico e hospitalar na região.

A criação da Medalha Jorge Amado foi idealizada pelo escritor Cyro de Mattos, presidente de honra da ALITA, e aprovada por unanimidade pelos membros da academia. A presidente da ALITA, Raquel Rocha, reforça a relevância do evento: “Reconhecer e homenagear aqueles que contribuíram de forma significativa para o desenvolvimento de nossa região é uma forma de perpetuar o legado de Jorge Amado, que tão bem representou nossa cultura e nossa gente.”

A cerimônia contará com a presença de autoridades, intelectuais, membros da Academia e convidados especiais, consolidando este como um evento de grande importância cultural e social para a Bahia.


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quinta-feira, 3 de outubro de 2024

AO VIVO: JAIR BOLSONARO FAZ PRONUNCIAMENTO PARA O BRASIL - LUTA PELA LIB...

 

Escolha Aí Seu Candidato

Cyro de Mattos



Para vereador

Vote em Valdenor

Sempre com o eleitor

Na dor e no amor

 

Pinapá tem jeito

Na hora de votar

Prefeito Zé Preto

Cidadão perfeito

 

Pra vereador

Luís Bigodão

Ao seu dispor

De coração

 

Juca Magarefe

Com ele de novo

Pro que der e vier

Em favor do povo

 

Vá com Pilequinho

Promete e cumpre

Parceiro no chope 

De dia e de noite

 

Totonho Ceguinho

Vote com atenção

Sou contra prefeito

Mafioso e trapalhão

 

Zezito Passarinho

Vereador melhor

Espanta a tristeza

Canta como curió           

 

Não vá de trambique

Não vá nessa onda

Vereador porreta

O Tonico-Espoleta

 

Com cara de mau

Não é de brincadeira

Não explora o povo

Josevandro Ratoeira

 

Quer andar seguro

Sem temer ladrão

Ou bala perdida

Vereador Juca Leão

 

Prefeito preguiçoso

Trapaceiro e ladrão

Comigo não tem vez

Vereador Cassação

 

Vote em Chiranha

Vereador legal

Prefeito safado

Comigo apanha

 

Sou Juvenal

Não temo o furacão

Sou o pirata

Da cara de mau 

 

Vote em Da-Banda

Cuidando da saúde

Do doente de asma

 E da mulher grávida.

   

Caboclo Bem-te-vi

Defensor do índio

Filho de Jandira

E do cacique Inuri

 

Negro Quilombola

Confio na negrada

Não fique aí embaixo

Tomando pancada

 

Zi do Cassetete

Vereador atuante

Contra desmando

De gente cafajeste

 

Lembre Pastor Babá

Quando for votar

Ele tira seu coração

De qualquer aflição

 

Bom é Arimateia

Aqui no Pinapá

Casa e comida

Ele vai te dar

 

Contra o ímpio

Contra o pornô

Padreco Joca 

Faça-me o favor

 

De Cafuringa

Tenha certeza

Cidade limpa

  Sem catinga

 

 Coveiro Jupará

 É só me chamar

Cubro o fedor

Com a minha pá

 

 Prezado eleitor
 Sou Zé Berimbau
 Vote com o bem
 Nunca com o mal. 

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Cyro de Mattos é poeta e ficcionista. Possui prêmios literários importantes. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Autor de mais de 50 livros de diversos gêneros                    

segunda-feira, 30 de setembro de 2024

Eleições daquele tempo

Cyro de Mattos


 

               Os comícios aconteceram naquele ano sem as ofensas pessoais dos oradores, que costumavam fazer uns para os seus rivais com veemência.  Prosseguiram num clima de paz, no centro comercial e bairros, até mesmo nos distritos de Mutuns e Ferradas, onde sempre terminavam em correria, pancadaria no meio dos zumbidos de bala.

               O povo cada vez mais ficava vivamente impressionado com os programas partidários, divulgados também pelo alto-falante na medida em que o dia das eleições ia se aproximando. Os candidatos esgoelavam-se no palanque, alguns no ponto máximo das promessas disparadas até choravam, uns davam a entender que podiam desmaiar a qualquer momento no meio das palavras que soltavam radiantes da garganta empolgada. Propagavam com firmeza a chegada de ventos mais do que justos e generosos para soprarem, constantemente, em qualquer sociedade que se dizia civilizada.

                Quem lá esteve, no último comício da situação, custava a acreditar como na praça coube tanta gente. Não havia lugar para uma agulha no ambiente  abarrotado de gente jovem, amadurecida e idosa, alguns mal podiam andar apoiados na bengala. Havia muitas faixas e bandeiras desfraldadas, cartazes grandes com o retrato do Coronel mais abastado da cidade, sério, bigode retorcido nas pontas, trajado com o uniforme da Guarda Nacional. 

                Na noite contagiada de euforia, com uma temperatura que chegava a 40 graus, parecia ali a cidade uma só voz barulhenta, queimando as palavras recheadas de promessa. Os mais empolgados não cansavam de dar vivas e aplaudir os candidatos a vereador, quando então um deles era apresentado para pronunciar o discurso pela ordem de chamada do locutor Timóteo, com a voz já rouca, mas ainda cheia de entusiasmo. 

                  Naquela noite com muita alegria, quem poderia imaginar que alguém da oposição soltaria o boi brabo para correr no meio da multidão que se apertava na praça. Foi aí, no ponto mais arrojado do discurso daquele homenzarrão agitado, a rigor trajado com o uniforme da Guarda Nacional, só faltando engolir o microfone, que de repente se ouviu irromper do meio da multidão o grito ameaçador:

               – Corre que é boi brabo!

              Não se viu outra coisa do que gente correr para todos os lados. O palanque desabou com os candidatos locais e a comitiva visitante. Homens sisudos meteram-se debaixo dos carros. A gritaria generalizou-se com a multidão esparramada como num estouro de boiada.

                O locutor Timóteo relatou no outro dia pelo alto-falante do Serviço Regional de Propaganda Comercial o noticiário dos acontecimentos daquela noite tumultuada, que de repente se tornou num corre-corre generalizado, cheia de rostos medonhos, de aflição com os gritos repetidos, Deus me acuda, não me empurre, me socorre, sai da frente, se não quiser ser pisado. Felizmente não houve mortes, apenas alguns casos de ferimentos leves. Nada disso impediu que a situação tivesse a vitória apertada nas urnas apuradas.

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Cyro de Mattos - Cyro de Mattos é poeta e ficcionista. Possui prêmios literários importantes. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Autor de mais de 50 livros de diversos gêneros

terça-feira, 17 de setembro de 2024

Nossa Biblioteca

 Cyro de Mattos

 


          A Câmara de Vereadores engole a cada ano mais um espaço da Biblioteca Municipal Plínio de Almeida. Não devia fazer isso. Essa pobre casa de livros, desassistida há anos pelo poder público, tem um acervo desatualizado, sem condições ideais para fomentar a leitura como pede uma cidade do porte cultural de Itabuna. Os que lá atuam como serventuários do órgão nada têm a ver com essa situação lamentável. Não recebem o apoio necessário para o eficiente desempenho da função, nem sequer são reciclados em cursos pertinentes ao setor para que melhor sirvam numa casa dessa natureza aos que procuram conhecer a vida através dos livros.  Certamente para isso lá não estão. 

           Melhor deixá-los precários na função do expediente repetitivo, subalternos ao descaso do poder público do que fazê-los ativos, inquietos com as falhas na engrenagem. Se um dia quisessem virar a chave, não se atrevessem nessa iniciativa temerária. No grau de revoltados impotentes poderiam ser recompensados com o despejo do emprego.

              Uma cidade com cerca de 250 mil habitantes, uma rede de ensino abrangente, em nível superior e secundário, com duas universidades, faculdades, escolas públicas e particulares, ser tão frágil, de causar pena, quando o assunto é a Biblioteca Municipal Plínio de Almeida. Uma lástima na sua prestação de serviços.  Até quando os políticos, a Secretaria de Educação e a Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania vão tomar consciência de que são agentes institucionais do fomento ao saber e à cultura? Sempre omissos ante um problema grave dessa natureza, como se nada de mais estivesse acontecendo com a nossa biblioteca municipal. Espaço que não é nem lazer nem fonte eficiente do saber.  

              Podem me chamar de sonhador do que vou dizer adiante, sinto-me confortado com o elogio. Lembro que os sonhadores do bem são necessários em qualquer dimensão da vida.  Itabuna devia ter uma biblioteca com o acervo constituído de um livro para cada habitante. Para que assim fosse dona desse espaço fértil, saudável, onde pudesse doar-se às suas gentes com a mão cheia de livros, fazendo-se de fato útil ao pensamento e sentimento da criatura humana na dura lei da vida. E assim desse seu contributo para se aprender a andar melhor na existência, conhecer o que presta e o que não presta, principalmente em tempo de eleição, na hora da escolha de seus representantes, daqueles que soubessem de verdade reger seu destino político com competência e ética nos dias do ano, como deve ser.  

              Vejo assim a sugestão dada como o caminho plausível para tirar nossas gentes dos caminhos obscuros da vida, na boa leitura respirando o ar sadio pelas ruas do mundo e do saber. Através da conversa com os livros, tornando nossa biblioteca espaço de convivência atuante, pródiga parceira no comportamento de rica troca de significados. 

             Pobre cidade nossa, deveria ter uma biblioteca funcionando com oficinas, lançamento de livros, teatrinho com meninos e jovens, bom não esquecer os idosos, pois os velhos são gente boa, muito têm a nos dizer. Assim fosse dotada de uma plataforma que valorizasse os autores da terra, com palestras, encontros, seminários, saraus e recitais. Usasse o diálogo saudável com os estudantes. Não permanecesse como algo de pouco proveito, nessa maneira abominável que empobrece a vida, não sendo jamais a ideal para nos retirar da parte obscura do ser e do estar na existência.   

            Itabuna de um rio enfermo, como esgoto a céu aberto, que hoje chora água, um dia foi chamado pai dos pobres. Cidade que respira os ares tristes pelo desfalque contínuo do patrimônio histórico tecido de beleza antiga. E que vem sendo dilapidado pelo descaso dos que cumprem preservá-lo como um tesouro inestimável, conquistado com engenho e arte, labor e esforço ao longo dos anos.       

             Itabuna, que tem um povo vocacionado para o progresso, querendo fazer a vida com alma, força e conhecimento. Minha cidade querida, usina de tantos valores humanos no ciclo das estações, ó quão dessemelhante!

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Cyro de Mattos é jornalista, cronista, contista, romancista, poeta e autor de livros para crianças. Publicado em Portugal, Itália, França, Espanha, Alemanha, Rússia, Dinamarca, México e Estados Unidos. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia, Academia de Letras de Ilhéus e Academia de Letras de Itabuna. Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz.