Livros do Escritor Baiano Cyro de Mattos na Festa Literária de Paraty
(FLIP 2024)
ALITA ENTREGA MEDALHA JORGE AMADO EM SOLENE CERIMÔNIA NA UESC
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Escolha Aí Seu Candidato
Cyro de Mattos
Para vereador
Vote em Valdenor
Sempre com o eleitor
Na dor e no amor
Pinapá tem jeito
Na hora de votar
Prefeito Zé Preto
Cidadão perfeito
Pra vereador
Luís Bigodão
Ao seu dispor
De coração
Juca Magarefe
Com ele de novo
Pro que der e vier
Em favor do povo
Vá com Pilequinho
Promete e cumpre
Parceiro no chope
De dia e de noite
Totonho Ceguinho
Vote com atenção
Sou contra prefeito
Mafioso e trapalhão
Zezito Passarinho
Vereador melhor
Espanta a tristeza
Canta como curió
Não vá de trambique
Não vá nessa onda
Vereador porreta
O Tonico-Espoleta
Com cara de mau
Não é de brincadeira
Não explora o povo
Josevandro Ratoeira
Quer andar seguro
Sem temer ladrão
Ou bala perdida
Vereador Juca Leão
Prefeito preguiçoso
Trapaceiro e ladrão
Comigo não tem vez
Vereador Cassação
Vote em Chiranha
Vereador legal
Prefeito safado
Comigo apanha
Sou Juvenal
Não temo o furacão
Sou o pirata
Da cara de mau
Vote em Da-Banda
Cuidando da saúde
Do doente de asma
E da mulher grávida.
Caboclo Bem-te-vi
Defensor do índio
Filho de Jandira
E do cacique Inuri
Negro Quilombola
Confio na negrada
Não fique aí embaixo
Tomando pancada
Zi do Cassetete
Vereador atuante
Contra desmando
De gente cafajeste
Lembre Pastor Babá
Quando for votar
Ele tira seu coração
De qualquer aflição
Bom é Arimateia
Aqui no Pinapá
Casa e comida
Ele vai te dar
Contra o ímpio
Contra o pornô
Padreco Joca
Faça-me o favor
De Cafuringa
Tenha certeza
Cidade limpa
Sem catinga
Coveiro Jupará
É só me chamar
Cubro o fedor
Com a minha pá
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Cyro de Mattos é poeta e ficcionista. Possui prêmios literários importantes. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Autor de mais de 50 livros de diversos gêneros
Eleições daquele tempo
Cyro de Mattos
Os comícios aconteceram naquele ano sem as ofensas pessoais
dos oradores, que costumavam fazer uns para os seus rivais com veemência. Prosseguiram num clima de paz, no centro
comercial e bairros, até mesmo nos distritos de Mutuns e Ferradas, onde sempre
terminavam em correria, pancadaria no meio dos zumbidos de bala.
O povo cada
vez mais ficava vivamente impressionado com os programas partidários,
divulgados também pelo alto-falante na medida em que o dia das eleições ia se
aproximando. Os candidatos esgoelavam-se no palanque, alguns no ponto máximo
das promessas disparadas até choravam, uns davam a entender que podiam desmaiar
a qualquer momento no meio das palavras que soltavam radiantes da garganta
empolgada. Propagavam com firmeza a chegada de ventos mais do que justos e
generosos para soprarem, constantemente, em qualquer sociedade que se dizia
civilizada.
Quem lá
esteve, no último comício da situação, custava a acreditar como na praça coube
tanta gente. Não havia lugar para uma agulha no ambiente abarrotado de gente jovem, amadurecida e
idosa, alguns mal podiam andar apoiados na bengala. Havia muitas faixas e
bandeiras desfraldadas, cartazes grandes com o retrato do Coronel mais abastado
da cidade, sério, bigode retorcido nas pontas, trajado com o uniforme da Guarda
Nacional.
Na noite
contagiada de euforia, com uma temperatura que chegava a 40 graus, parecia ali
a cidade uma só voz barulhenta, queimando as palavras recheadas de promessa. Os
mais empolgados não cansavam de dar vivas e aplaudir os candidatos a vereador,
quando então um deles era apresentado para pronunciar o discurso pela ordem de
chamada do locutor Timóteo, com a voz já rouca, mas ainda cheia de
entusiasmo.
Naquela noite com
muita alegria, quem poderia imaginar que alguém da oposição soltaria o boi
brabo para correr no meio da multidão que se apertava na praça. Foi aí, no
ponto mais arrojado do discurso daquele homenzarrão agitado, a rigor trajado
com o uniforme da Guarda Nacional, só faltando engolir o microfone, que de
repente se ouviu irromper do meio da multidão o grito ameaçador:
– Corre que
é boi brabo!
Não se viu
outra coisa do que gente correr para todos os lados. O palanque desabou com os
candidatos locais e a comitiva visitante. Homens sisudos meteram-se debaixo dos
carros. A gritaria generalizou-se com a multidão esparramada como num estouro
de boiada.
O
locutor Timóteo relatou no outro dia pelo alto-falante do Serviço Regional de
Propaganda Comercial o noticiário dos acontecimentos daquela noite tumultuada,
que de repente se tornou num corre-corre generalizado, cheia de rostos
medonhos, de aflição com os gritos repetidos, Deus me acuda, não me empurre, me
socorre, sai da frente, se não quiser ser pisado. Felizmente não houve mortes,
apenas alguns casos de ferimentos leves. Nada disso impediu que a situação
tivesse a vitória apertada nas urnas apuradas.
Cyro de Mattos - Cyro de Mattos é
poeta e ficcionista. Possui prêmios literários importantes. Primeiro Doutor
Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Autor de mais de 50
livros de diversos gêneros
Nossa Biblioteca
Cyro de Mattos
A Câmara de
Vereadores engole a cada ano mais um espaço da Biblioteca Municipal Plínio de
Almeida. Não devia fazer isso. Essa pobre casa de livros, desassistida há anos
pelo poder público, tem um acervo desatualizado, sem condições ideais para
fomentar a leitura como pede uma cidade do porte cultural de Itabuna. Os que lá
atuam como serventuários do órgão nada têm a ver com essa situação lamentável.
Não recebem o apoio necessário para o eficiente desempenho da função, nem
sequer são reciclados em cursos pertinentes ao setor para que melhor sirvam
numa casa dessa natureza aos que procuram conhecer a vida através dos
livros. Certamente para isso lá não
estão.
Melhor deixá-los precários na função do expediente
repetitivo, subalternos ao descaso do poder público do que fazê-los ativos,
inquietos com as falhas na engrenagem. Se um dia quisessem virar a chave, não
se atrevessem nessa iniciativa temerária. No grau de revoltados impotentes
poderiam ser recompensados com o despejo do emprego.
Uma
cidade com cerca de 250 mil habitantes, uma rede de ensino abrangente, em nível
superior e secundário, com duas universidades, faculdades, escolas públicas e
particulares, ser tão frágil, de causar pena, quando o assunto é a Biblioteca
Municipal Plínio de Almeida. Uma lástima na sua prestação de serviços. Até quando os políticos, a Secretaria de
Educação e a Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania vão tomar consciência
de que são agentes institucionais do fomento ao saber e à cultura? Sempre
omissos ante um problema grave dessa natureza, como se nada de mais estivesse
acontecendo com a nossa biblioteca municipal. Espaço que não é nem lazer nem
fonte eficiente do saber.
Podem me
chamar de sonhador do que vou dizer adiante, sinto-me confortado com o elogio.
Lembro que os sonhadores do bem são necessários em qualquer dimensão da
vida. Itabuna devia ter uma biblioteca
com o acervo constituído de um livro para cada habitante. Para que assim fosse
dona desse espaço fértil, saudável, onde pudesse doar-se às suas gentes com a
mão cheia de livros, fazendo-se de fato útil ao pensamento e sentimento da
criatura humana na dura lei da vida. E assim desse seu contributo para se
aprender a andar melhor na existência, conhecer o que presta e o que não
presta, principalmente em tempo de eleição, na hora da escolha de seus
representantes, daqueles que soubessem de verdade reger seu destino político
com competência e ética nos dias do ano, como deve ser.
Vejo
assim a sugestão dada como o caminho plausível para tirar nossas gentes dos
caminhos obscuros da vida, na boa leitura respirando o ar sadio pelas ruas do
mundo e do saber. Através da conversa com os livros, tornando nossa biblioteca
espaço de convivência atuante, pródiga parceira no comportamento de rica troca
de significados.
Pobre cidade nossa, deveria ter uma biblioteca funcionando
com oficinas, lançamento de livros, teatrinho com meninos e jovens, bom não
esquecer os idosos, pois os velhos são gente boa, muito têm a nos dizer. Assim
fosse dotada de uma plataforma que valorizasse os autores da terra, com
palestras, encontros, seminários, saraus e recitais. Usasse o diálogo saudável
com os estudantes. Não permanecesse como algo de pouco proveito, nessa maneira
abominável que empobrece a vida, não sendo jamais a ideal para nos retirar da
parte obscura do ser e do estar na existência.
Itabuna de
um rio enfermo, como esgoto a céu aberto, que hoje chora água, um dia foi
chamado pai dos pobres. Cidade que respira os ares tristes pelo desfalque
contínuo do patrimônio histórico tecido de beleza antiga. E que vem sendo
dilapidado pelo descaso dos que cumprem preservá-lo como um tesouro
inestimável, conquistado com engenho e arte, labor e esforço ao longo dos
anos.
Itabuna, que
tem um povo vocacionado para o progresso, querendo fazer a vida com alma, força
e conhecimento. Minha cidade querida, usina de tantos valores humanos no ciclo
das estações, ó quão dessemelhante!
Cyro de Mattos é jornalista, cronista, contista, romancista,
poeta e autor de livros para crianças. Publicado em Portugal, Itália, França,
Espanha, Alemanha, Rússia, Dinamarca, México e Estados Unidos. Premiado no
Brasil, Portugal, Itália e México. Membro efetivo da Academia de Letras da
Bahia, Academia de Letras de Ilhéus e Academia de Letras de Itabuna. Doutor
Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz.