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quarta-feira, 4 de outubro de 2023

Solidão em Gabriel García Márquez       

Cyro de Mattos


 

          A decadência do romance regionalista na literatura da América Latina, por volta de 1940, fez com que surgissem novos autores interessados pela temática universal, buscando operar o conto e o romance   não mais com os elementos supervalorizados da terra. A selva, o rio, o lhano e a zona andina não interessam mais com a sua grandeza e particularidades. Vale nesse tempo de sonho e desafio a imagem do homem contemporâneo com os vícios e virtudes de sua natureza pessoal.  Recorre-se então a Kafka, Joyce, Faulkner, Proust e Virgínia Woolf como influências positivas para a consciência crítica de novas técnicas no nível da história e no plano da elaboração formal.

           Uma literatura questionadora da essência humana vai surgindo para ocupar o lugar da geografia caracterizada pela paisagem física, que subjuga os valores do indivíduo.  O homem e seus aspectos essenciais, sua luta de transcender e de afirmação do seu caráter servem de motivação agora para as criações de contistas e romancistas.  E o que se percebe nessa mudança de atitude é o compromisso do escritor como testemunha do seu tempo, sem implicações de submissão do seu processo criativo à estética do regionalismo limitado, nem tampouco ao nível panfletário do conteúdo político.

          As interrogações e angústias desse homem contemporâneo são reveladas com novas técnicas, como vínculo de gravidade do   cotidiano. A modelação do espaço e tempo, a experimentação de nova   linguagem, o uso do mito, do onírico, do simbolismo e do monólogo interior são os meios empregados na narrativa interpelativa para mergulhar o leitor no mundo em processo, agora escavado em suas faixas metafísicas e de teor existencial. José Maria Arguedas, Alejo Carpentier, Julio Cortázar e José Revueltas são alguns desses nomes que se inscrevem na nova corrente de renovação da prosa de ficção hispano-americana. 

          Gabriel García Márquez tinha uma relativa notoriedade até 1961como escritor nos círculos intelectuais do México onde vivia e atuava como roteirista de cinema. Já havia escrito quatro livros, que obtiveram   resenhas favoráveis, mas que não lhe deram a fama de escritor maior de todos os tempos, como iria acontecer com Cem anos de solidão, publicado em 1967. Esse magnífico romance, que é como a assinatura especial do legado do autor colombiano, é considerado por alguns críticos o segundo mais importante da literatura mundial, sendo o primeiro Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes. Tornou-se em pouco tempo o mais importante do realismo mágico na literatura hispano-americana. O livro já vendeu mais de cinquenta milhões de exemplares, foi traduzido e publicado em mais de 32 idiomas, deu ao seu autor o Prêmio Nobel.

          Livro arrebatador, passivo de várias interpretações, quanto mais as suas páginas são lidas, a vontade quer, o coração sente e não cansa. Pode até a sua leitura ser dificultada e se tornar confusa com os nomes na história da família do coronel Aureliano Buendía, repetidos uma e outra vez.  Há quatro José Arcadio Buendía e três Aureliano Buendía nos cem anos em que decorre a história.  Esse comportamento na escrita fluente faz parte da estratégia para a construção da estrutura do romance. Mas nem essa particularidade, que pode confundir o leitor, tira do romance o seu poder mágico, a sedução do estilo no cronista que mescla a oralidade da linguagem com o imaginário fabuloso expresso com profundidade metafórica e largura intensa na ideia. Tanto isso é verdadeiro, faz sentir   sem esforço a realidade e a fantasia, que unidas aparentam ser uma coisa só como representação do mundo. 

           Para não usar o espaço tradicional, com a localização das cenas em determinado lugar do tempo histórico, evitar a narrativa linear operada através de acontecimentos extraordinários, com os momentos lineares de princípio, meio e fim, Gabriel García Márquez emprega o tempo circular no desenvolvimento da trama. Superpõe e justapõe situações com personagens do mesmo nome em gerações diferentes, como se girassem movidos pelo eixo da existência numa mesma órbita.

          Em certo trecho, lemos essa passagem sobre o círculo do tempo, no seu eterno retorno: 

 

 José Arcádio Segundo, ao reconhecer a voz de sua bisavó, vira a cabeça para a porta, tratou de sorrir e, sem saber, repetiu uma antiga frase de Úrsula.

- Que se há de fazer – murmurou – o tempo passa.

                   - É verdade – disse Úrsula – mas não tanto.

Ao dizê-lo, teve consciência de estar dando a mesma resposta que recebera do Coronel Aureliano Buendía na sua cela de sentenciado e mais uma vez estremeceu com a comprovação de que o tempo não passava, como ela acabava de admitir, mas girava em círculo.

 

             A estrutura do livro, portanto, é circular, desde o começo da fundação de Macondo, um povoado fictício, até a sua apocalíptica destruição. Na trama que nos envolve a cada instante, os elementos da vida constante vão sendo expostos misturados com os sonhos, ocorrendo com habilidade a fusão das circunstâncias entre o pensamento mágico e o pensamento lógico. E dessa forma de combinação entre magia e informes lógicos, ilusões e raciocínios objetivos, o admirável narrador e não menos admirável ficcionista vai conseguindo extrair uma sobrecarga espantosa de emoções e acontecimentos inusitados na história dos Buendías. Com poesia e ritmo arrebatador, a narrativa gira do seu eixo vibratório entrelaçada por entre as zonas do mito, realidade e fábula.

           Para os críticos que ressaltam Cem anos de solidão como o romance que expressa a condição humana, o seu discurso é apreendido como o da história de todos os homens, com os seus sonhos, suas perdas, suas frustrações, suas lutas e seus lutos. Nesse discurso marcado de fatalidades e paixões conota-se o  clima de sonho  misturando  seres e coisas com tudo que se encontrasse na vida: “... as mulheres de rua, que arruinavam o sangue; as mulheres de casa, que pariam os filhos com rabo de porco;  os galos de briga, que provocavam mortes de homens e remorsos de consciência para o resto da vida; as armas de fogo, que só com serem tocadas condenavam a vinte anos de guerra; as empresas audaciosas, que só  conduziam ao desencontro e à loucura,  e tudo, enfim, tudo que Deus criara  com a sua infinita bondade e que o diabo pervertera” (p. 324).

          O casal José Arcadio Buendía e Úrsula Iguarán, que fundou Macondo com suas trinta casas no início, ruas iluminadas e ventiladas, teve três filhos: José Arcadio, que era um rapaz disposto e trabalhador; Aureliano, que contrasta com o irmão mais velho, via-se que era filosófico, sereno e muito introspectivo; e por último Amaranta, a típica dona de casa de uma família de classe média do século dezenove. Soma-se a estas personalidades   Rebeca, que foi enviada da antiga aldeia de José Arcadio e Úrsula, sem pai nem mãe. A história com a sua mitologia doméstica é   ritmada como os sons das cordas e sopros dos metais, à volta desta geração e dos seus descendentes, filhos, netos, bisnetos e trinetos, tendo como característica o fato de que todas as gerações foram acompanhadas por Úrsula, que viveu entre 115 e 122 anos, morrendo de velhice e cega.

            Atacada pela catarata, cega nos derradeiros anos de vida, mas ainda identificando nos detalhes e movimentos pessoas e coisas íntimas, graças à sua apurada visão imaginativa, esta centenária personagem dará conta de que as características físicas e psicológicas dos seus herdeiros estão associadas a um nome, sendo os José Arcadio de natureza impulsiva, extrovertidos e trabalhadores, enquanto os Aurelianos são pacatos, estudiosos e muito fechados no seu próprio mundo interior. Os Aurelianos terão ao longo do livro a missão desafiadora de desvendar os misteriosos pergaminhos de Melquíades, o Cigano, personagem guardador de um mundo singular, que foi amigo de José Arcadio Buendía. Os pergaminhos guardam o segredo da história dramática da família e apenas serão decifrados quando o último da estirpe estiver às portas da morte.

           O tema da violência,  que deforma o comportamento humano, do incesto em que os filhos do casal do mesmo sangue  nascem com o rabo de porco, a história da solidão, que não é  apenas a do coronel  Aureliano Buendía, mas a  de toda a sua família, desde a fundação de Macondo, quando  não se sabia os nomes das coisas, não se conhecia  uma dentadura postiça e  o gelo,  e  até que o último Buendía se suicida, cem anos depois, todos esses momentos dentro de um processo em que se alternam certos acontecimentos históricos, com guerras e revoluções civis, o amor em tempo instável de paixões e frustrações,  formam o painel  humano e  fantástico contendo o percurso de todos os seres humanos  no mundo. Expande-se uma humanidade fantástica na circularidade dos instantes em que marcas dramáticas e, ao mesmo tempo, cheias de um realismo mágico são expressões de um ritmo obsessivo, de grandeza insólita na escrita com extraordinária poetização da vida.  

                Filiado à corrente do realismo mágico, expressão que não agradava ao autor de Cem anos de solidão, que achava como eventos naturais aqueles que aconteciam na aparência irreal, em Macondo, o romance está impregnado de momentos inusitados do cotidiano.  A peste da insônia que deixa os moradores de Macondo sem memória, desligados do mundo,  submissos à  inércia repetitiva e enfadonha dos fatos e atos; as borboletas que acompanham Maurício Babilônia, a ascensão de Remédios, a Bela, levada pelos lençóis ao céu;  as crianças  nascidas com o  rabo de porco como fruto de incesto;  a caixa com cartas dos parentes e amigos levada  para os mortos,  colocada  dentro do caixão do falecido; os mortos que apareciam e conversavam com os vivos; todas estas situações são encaixadas nas cenas  como se resultassem de uma lógica racional, que comanda o tempo cronológico dos habitantes de Macondo. A realidade, assim, não é trabalhada para que, desfeita, se instaure o mágico, visto que este faz parte das manifestações da vida no cotidiano.

        Da leitura desse soberbo romance constata-se que Macondo tornou-se em pouco tempo um território incorporado definitivamente ao mapa da literatura ocidental, alcançou um espaço inserido no contexto político-histórico da América Latina.  Além disso, foi transformado em uma espécie de sinônimo do realismo mágico, representativo, mesmo que idilicamente, do desejo de unidade da América Latina.

        O livro deixa que seu espaço, por onde circulam personagens e ações, seja visto como referencial relativo ao Caribe, à Colômbia e por consequência à América Latina. Pode ser visto como uma espécie de metáfora da situação latino-americana, entrelaçada com a história da Colômbia, suas guerras civis e militares, traições, lutas pelo poder, entre liberais e conservadores, atos absurdos como o massacre de três mil trabalhadores, acuados e fuzilados pelo Exército, que manda levar os corpos em vagões de trem para que fossem jogados no mar. 

.        Outros críticos pensam Cem anos de solidão dentro do cruzamento entre história e mito, e, nessa interpretação metafórica, o romance deve ser visto como criação e síntese do mundo. Trata-se de uma metáfora da condição humana revelada através dos membros da família Buendía. No entanto, entre os que interpretam como uma grande metáfora da condição humana e aqueles que concebem a invenção ímpar do romancista colombiano como uma chave de acesso ao contexto histórico do continente, não se pode deixar de considerar que esse livro tem o tamanho eterno do homem, com todo o seu medo de sombras, que o acompanham no mundo e não se explicam desde não sei quando. Para que sobrevivam sempre, basta que o coração as aceite como camadas noturnas do ser. 

    .     Na circularidade do tempo, no fatal determinismo que comanda com rigor  a vida dos Buendía, no tamanho soberbo da solidão que pesa sobre seus personagens principais e secundários, na impotência ante as forças indomáveis da natureza e dos instintos humanos,  na obra vista como  a denúncia dos problemas sociopolíticos locais, na matança dos trabalhadores, na violência imposta pelo poder, no roubo de terras e na opressão ostensiva sobre os excluídos e fracos, esse romance de expressão imensa construído sob o ritmo de uma orquestração extraordinária possui  suficiente autonomia  como se fosse uma ficção-poema de intensa carga lírica.  Plasmada de simbolismos, a palavra aqui, tomada emprestada ao sonho para revelar as verdades e ilusões do cotidiano, poreja de magia e música surpreendentes, que alcançam os melhores níveis da criação literária com repercussão universal.

             Gabriel García Márquez ficou mergulhado em dezoito meses de trabalho para escrever Cem anos de solidão, enfrentando toda espécie de privação face o esgotamento das reservas econômicas. Já não tinha as mínimas condições para suprir as necessidades domésticas imediatas no final da conclusão do romance.  Recorria à venda das joias restantes da esposa Mercedes e aos objetos da casa.

           Nascido em Arataca, Colômbia, em 6 de março de 1927, Gabriel García Márquez foi jornalista, editor e ativista político colombiano. Faleceu no dia 17 de abril de 2014, aos 87 anos, na cidade do México. Em pleno brilho do ouro da glória.

 

 Leituras Sugeridas

MÁRQUEZ, Gabriel García. Cem anos de solidão, Editora Record, Rio de Janeiro, trigésima edição.

JOSEF, Bela. História da literatura hispano-americana, Editora Vozes, Petrópolis, RJ, 1971.

CERQUEIRA, Dorine. America América: amostragem da ficção hispano atual, Editus, editora da Uesc, Ilhéus, Bahia, 2011.

 

*O texto “Solidão em Gabriel García Márquez” integra o livro Kafka, Faulkner e Borges e outras solidões imaginadas, da EDUEM, editora da Universidade Estadual de Maringá, Paraná.

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quarta-feira, 27 de setembro de 2023

Pegando fogo

José Sarney



A marchinha de Francisco Mattoso lança o grito que nos últimos dias está na pele de todos: “Meu coração amanheceu / Pegando fogo, fogo, fogo!” Coração e braços e pernas estão assando com o caloraço de setembro. Nada da morena que passou perto: foram os recordes de temperatura que nos deixaram assim.

Nós aqui no Maranhão até que escapamos das temperaturas quarentenárias e não precisamos entrar em quarentena, mas no Sul Maravilha a coisa foi feia. Felizmente nós somos um povo que é antes de tudo um forte e não tivemos a mortandade que as canículas deste século têm feito no hemisfério norte, sobretudo entre os velhinhos como eu. Lá, quando a maré de caldo quente vem chegando, eles precisam começar as campanhas: “fique em casa”, “hidratação de hora em hora”, “feche bem a casa”.

Feche a casa? Pois é. Na Europa eles descobriram que as casas, bem isoladas para manter-se aquecidas no inverno, funcionam no verão para não deixar entrar o calor. Aqui nessa nossa cidade de São Luís temos felizmente os ventos alísios passando pelas casas de pé direito alto e ventilação cruzada, solução equatorial que nos deixaram os construtores portugueses.

Mas de onde vem este fogo infernal? Hoje não há dúvida de que das mudanças climáticas provocadas pelo homem. Aqui no Brasil não temos, infelizmente, dado a contribuição que devíamos. Continuamos desmatando e tocando fogo, a passos largos, na Amazônia, no Cerrado, até na Mata Atlântica — na minúscula fração da Mata Atlântica que ainda está de pé. É claro que o centro do problema está na Floresta Amazônica, que é tão generosa e acolhedora para o homem e que ele teima em destruir.

No começo do século passado ficou muito conhecido um livro — aliás o nome de um livro — de Alberto Rangel. Era um escritor empolado e difícil de ler, mas o nome colou e virou um apelido injusto. Aliás o conto que dá nome ao livro fala de um engenheiro que invectiva a floresta, que, na voz de Rangel, “poderia responder”:

“Fui um Paraíso. Para a raça íncola nenhuma pátria melhor, mais farta e benfazeja. Por mim as tribos erravam no sublime desabafo dos instintos de conservação… Inferno verde do explorador moderno, vândalo inquieto… alma ansiada de paixão por dominar a terra virgem que barbaramente violenta. Eu resisto à violência dos estupradores…”

O livro foi prefaciado pelo extraordinário Euclides da Cunha. E se a visão de Rangel é a oposta do “inferno verde”, a explicação de Euclides tem o toque do livro inacabado, “O Paraíso Perdido”. “Daí as surpresas. […] as mudanças extraordinárias e visíveis ressaltam no simples jogo das forças físicas mais comuns. É a terra moça, a terra infante, a terra em ser, a terra que ainda está crescendo…”Seu plano era falar do impacto, da dificuldade de apreender, compreender a floresta. “…o que se me abria às vistas desatadas naquele excesso de céus por cima de um excesso de águas[,] lembrava (ainda incompleta e escrevendo-se maravilhosamente) uma página inédita e contemporânea do Gênese.”

Mas a nossa visão contemporânea, para nós que podemos ver a floresta de avião ou mesmo do espaço, ainda é muitas vezes de incompreensão. Mesmo quando se vê as imagens com sensores que veem através do dossel das grandes árvores e se vê a devastação, há uma resistência em compreendermos a finitude que também a alcança. E aí se toca fogo. E nossa floresta está pegando fogo, causa e resultado das mudanças climáticas.

A coisa é difícil. Assim vamos ficar na situação de outra marchinha, essa de Haroldo Lobo e Nassara: “Allah-la-ô ô ôôô / Mas que calor ô ôôô / Atravessamos o deserto de Saara / O sol estava quente / Queimou a nossa cara / Allah-la-ô, ô ôôôôô / Mas que calor, ô ôôôô ô...”

Imirante, 26/09/2023

 https://www.academia.org.br/artigos/pegando-fogo

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José Sarney - Sexto ocupante da Cadeira nº 38, eleito em 17 de julho de 1980, na sucessão de José Américo de Almeida e recebido em 6 de novembro de 1980 pelo Acadêmico Josué Montello. Recebeu os Acadêmicos Marcos Vinicios Vilaça e Affonso Arinos de Mello Franco.

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quinta-feira, 14 de setembro de 2023

Ruy Póvoas fala de seu nascimento, sua infância e seu propósito.

A propósito do conto machadiano Pílades e Orestes (ou casadinhos de fresco)

 Godofredo de Oliveira Neto



O colega fazia conferência no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, no centro do Rio, no belo prédio construído nas primeiras décadas do século XIX, onde funcionou a Academia Real Militar. O IFCS vai tremer, me confidenciou ele, que chegou ao local junto comigo. Ele faria a conferência ao lado de um professor da Universidade de Berlim, um dos maiores militantes da causa gay na Europa, o colega precisou. Gênero, identidades e política o tema. O professor brasileiro abriu a conferência. Leu umas frase que me soaram conhecidas.

- "A união dos dois era tal que uma senhora chamava-lhes casadinhos de fresco". Me lembrei das frases no conto Pílades e Orestes, do Machado . Nunca pensara em Quintanilha e Gonçalves (os personagens do conto) desse prisma. Mas me assustei. Alguém da plateia interrompeu brutalmente a exposição gritando " você não vai nos dizer que Machado de Assis escreveu texto com esse viés de gênero!"

Outros levantaram a voz criticando o exaltadinho, pedindo silêncio. A coisa logo degringolou. Choveram acusações, houve quem cuspisse em vizinhos de cadeira na plateia. E é aí que eu entro. O que que o professor da Letras acha? Gelei. Tinha tido um pesadelo horrível à noite e ainda estava sonolento. Meu professor de Latim do Colégio Santo Antônio de Blumenau, Frei Odorico Durieux, me passava um sabão: quer dizer que o meu aluno preferido, que consegue passar para o Português trechos inteiros da Eneida e verter para o Latim trechos mal traduzidos para o português, o maior latinista discente que tive até hoje, gosta, como me disseram, de ouvir música profana que elogia belzebu e a devassidão em pura blasfêmia?

- É só brincadeira, respondi. É carnavalização.

Como reação, meus dois ouvidos doeram com as palmadas tipo telefone desferidas pelo amado professor. A pergunta da plateia do IFICS doeu igual.

Respondi academicamente: As pulsões do personagem tornam o pecado uma realidade, mas o leitor não é o pecador - se existisse pecado aí.

O texto alforria o leitor . Fez-se silêncio na plateia. Também achei confusa a minha resposta, mas me abriu espaço para sair e pegar o ônibus em direção ao Fundão. Esqueci de precisar que madame K. estava comigo no evento - você lacrou, ela disse baixinho. Até hoje não entendi bem o sentido de lacrou. Fui, através das janelas embaçadas do busão, apreciando a paisagem carioca saudoso do frei Odorico. Os ouvidos doíam.

Facebook/ Redes Sociais, 14/09/2023

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Godofredo de Oliveira Neto - Sexto ocupante da Cadeira nº 35, eleito em 9 de junho de 2022, na sucessão de Candido Mendes de Almeida e recebido em 2 de setembro de 2022 pela Acadêmica Ana Maria Machado.

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segunda-feira, 4 de setembro de 2023

CARTA DA NAÇÃO ÀS FORÇAS ARMADAS BRASILEIRAS



Se acham que pediremos mais uma vez, inutilmente, que intercedam pelo Brasil, estão redondamente enganados.

Vocês venceram a sociedade pelo cansaço e pela traição. No entanto, trata-se de uma vitória amarga, constrangedora. Vocês se lembram de quando Rubinho Barrichello parou o carro a poucos metros da linha de chegada para que Schumacher vencesse a prova? O alemão subiu ao pódio sob vaias, e aquela “vitória” desonrosa manchou as dezenas de outras vitórias que ele obteve durante sua carreira. Pagou um alto preço pela covardia.

Esse deve ser o provável sentimento de todos os militares incluindo os que ainda gozam de um mínimo de decência, de vergonha na cara, por vossa culpa, generais de araques e sem valor. Para esses comandantes, merecem as mesmas vaias e desprezo que o piloto de Fórmula 1 recebeu na ocasião. A diferença é que serão vaias muito mais duradouras e que respingarão, infelizmente, nas pessoas com as quais convivem. Até seus filhos e netos se envergonharão de vocês.

Deve ser difícil agora levantar cedo e ter que vestir uma farda diante da esposa e dos filhos. A farda se tornou agora um sinal de covardia, de submissão, de decadência moral, de vergonha, de conivência com tudo que há de repugnante. Permitam-nos um trocadilho: convenhamos que, literalmente, sentirão, mais do que nunca, o peso do fardo, pois nunca tiveram o respeito de quem agora os governa e perderam o respeito de quem sempre os defendeu.

Essas medalhas que carregam no peito jamais foram por atos de bravura, porque de bravos vocês não têm nada, mas de covardia. É uma mistura de burrice com traição.

Se acham que os anos pós-governos militares foram difíceis (pelas críticas que receberam da esquerda), não imaginam o que virá pela frente, pois agora estão sozinhos e sob ordens de quem sempre os odiou e que os eliminará aos poucos ou os trocarão por cidadãos indignos. Vocês extrapolaram o limite da indecência ao preferir prestar continência a um ladrão condenado que a um colega de farda - seu presidente e a autoridade máxima da nação - num ato de insubordinação, cometendo crime de lesa-pátria e traição previsto no artigo 55 do Código Penal Militar, que prevê fuzilamento por tais atos. É o que de fato vocês merecem, a pena de morte.

A gota d’água da conduta vergonhosa dos senhores foi o de ainda conduzirem manifestantes indefesos para um campo de concentração comunista. Isso chegou às raias da bizarrice. Cena digna de um Gulag de Stalin. Vocês não perceberam que haviam ali mulheres, idosos e crianças? Pessoas incapazes de destruir o patrimônio público!

Vocês são mesmo tão ignorantes a ponto de não perceberem que o quebra-quebra foi articulado por militantes petistas infiltrados? É sério?

Há duas possibilidades: vocês já se venderam à proposta autoritária deste governo criminoso ou vocês foram feitos de trouxas mesmo. Qualquer resposta representa a desmoralização final das tropas brasileiras, uma instituição que gozava do mais alto grau de nossa confiança. Não há justificativa plausível para aceitarem o estado de absurdos da conjuntura brasileira com tantos gatunos no comando para causar o caos e dominar o povo como fez Hitler. Acham mesmo que isso não lhes afetará e que poderão continuar indo a todos os lugares livremente como antes? Vocês já viraram chacota nas redes sociais e em breve essa instituição será desmantelada, sucateada por aqueles a quem se venderam e serão execrados publicamente.

Judiciário opressor, eleições extremamente burladas, um bandido na presidência, presos políticos, jornalistas censurados, laços com ditaduras e narcotraficantes refeitos, uma armadilha que cedo ou tarde pegará vocês também e suas famílias.

Registra-se, neste momento, a página mais vergonhosa e constrangedora da história das Forças Armadas do Brasil. Os soldados, como os da gloriosa FEB, que outrora enfrentavam nazistas em prol da liberdade, agora prestam continência para um bandido comunista, corrupto, que possui estreitas relações com narcotraficantes, terroristas e ditadores.

Os senhores, por gerações, farão parte da história do dia em que protagonizaram o enterro do Brasil na lama, desviando-o do caminho que trilhava para o primeiro mundo e se livrar das ratazanas que sempre o destruíram.

Quando a velhice vos alcançar, fazemos votos para que o remorso da covardia devore vossas consciências por todo mal causado a 220 milhões de pessoas por mera vaidade. Um inferno para vocês é muito pouco para a covardia e desonra causada à nossa Pátria! REPÚDIO E VERGONHA!

A NAÇÃO BRASILEIRA


(Recebi via WhatsApp – autoria não mencionada)

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domingo, 3 de setembro de 2023

De primeiro foi o abecê

Cyro de Mattos

 


          Sem esconder uma certa alegria na voz, a mãe disse:

          - Segunda-feira você vai aprender o abecê na Escola Montepio dos Artistas.

          Ela finalizou dizendo que primeiro o menino aprende o abecê, que são as letras do alfabeto. Depois vai começar a soletrar as palavras para aos poucos aprender a ler o nome das coisas.

          Na pequena pasta de couro havia sido guardado o abecê, o caderno de caligrafia, outro para os primeiros exercícios de aritmética, um lápis, uma caneta esferográfica, uma caixa de lápis de cor e uma borracha. A merenda, pão com queijo, fora embrulhada com papel brilhante comprado na livraria. Foi posta na sacolinha com a garrafa plástica contendo o suco de uva.

          A mãe disse que todos os dias que fosse à escola ia levar a pasta de couro com os objetos escolares e a merenda escolar. Além disso levaria também a sacolinha com a garrafa de plástico contendo o suco de uva, uns palitos e dois guardanapos de papel.

          As aulas começavam às 8 horas e encerravam às 11, 30. Havia um intervalo de meia hora para os alunos merendarem no pátio da escola. Acontecia às 10 horas.

          Entre assustado e receoso tentou se aproximar daquele grupo de meninos da sua mesma idade, talvez cada um com seis anos. Sentou em uma das carteiras que formavam a primeira fileira no salão grande, ventilado e iluminado. No primeiro dia não quis ficar sozinho. Começou a chorar quando ouviu a mãe dizer para ele que viria buscá-lo perto de 11,30 horas quando então voltaria com ela para casa. Pensou inconformado, era muito tempo ficar à espera que a manhã passasse até que a mãe viesse buscá-lo na escola quando encerrasse o dia de aula para os alunos das primeiras lições escolares. Abriu a boca no berreiro quando viu a mãe saindo pelo corredor para deixar a escola pela porta larga da entrada. Todos ficaram assustados com o berreiro dele, nunca havia acontecido isso antes. A professora pediu que a mãe ficasse aqueles primeiros dias com o filho na escola até que ele se acostumasse com os novos colegas num ambiente que lhe era estranho, estava conhecendo pela primeira vez.

          Ela só ficou com ele apenas nos dois primeiros dias. Fez logo novos amigos nos últimos dias da primeira semana de aula, entre os meninos do seu tamanho. Se esforçou para aprender o abecê o mais depressa. Aprendeu em boa hora a soletrar os nomes. Não precisava dizer o quanto sorriu de contente quando começou a soletrar um bocado de palavras, que a professora ia soletrando, repetindo com paciência, uma a uma.

          Na primeira vez em que foi ler um texto pequeno, que falava do amanhecer numa fazenda, não gaguejou. Foi seguro e rápido. Arrancou aplausos dos colegas. Em casa contou à mãe que já estava começando a aprender a ler. Era uma questão de tempo agora para folhear o almanaque do Biotônico Fontoura ou até mesmo o jornal diário. E então começasse a saber o que acontecia na cidade, já pensando um dia em conversar com o pai sobre o fato que mais lhe chamasse atenção.

          Tempos depois pensaria que se não fosse o abecê jamais se tornaria um leitor desejoso de saber mais acerca da vida, cujos movimentos se manifestavam com o seu modo continuado de acontecer por entre os seres humanos, em cada dia.

          Nem saberia, nos seus detalhes, da importância das coisas criadas por Deus para que existisse o reino perfeito da natureza, com o sol e a chuva, a claridade e a noite, a nuvem e a árvore, o peixe e a água, o pássaro e o canto, enfim, o pai com o trabalho e a mãe como a companheira na construção de uma família com bases no amor e honradez.

 

Cyro de Mattos é baiano de Itabuna. Escritor e poeta, Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz (Sul da Bahia). Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia, Pen Clube do Brasil, Academia de Letras de Ilhéus e Academia de Letras de Itabuna.

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quarta-feira, 30 de agosto de 2023

Cheiro de bicho na serragem do circo

Godofredo de Oliveira Neto

 


Céu plúmbeo, o centro do Rio sombrio e úmido neste sábado, a Academia Brasileira de Letras impávida. Muitas mortes, poetas, pensadores e prosadores voando. Resta o livro nas mãos. Ao reler Cruz e Sousa e pensar em Mallarmé e Baudelaire, desponta inevitável a figura do palhaço, esse bufão tão presente desde o Renascimento que ora exige risos hiperbólicos, ora cobre de melancolia a plateia hipnotizada.

As quedas do nosso simbolista maior das sulistas terras açorianas relembram a fragilidade da condição humana, a derrota, a impotência, o palhaço esticado no picadeiro após espalhafatoso passo mal traçado. O rosto enfiado na serragem molhada com cheiro de elefante é o seu fado.


ACROBATA DA DOR (Cruz e Sousa)


Gargalha, ri, num riso de tormenta,

Como um palhaço, que desengonçado,

Nervoso, ri, num riso absurdo, inflado

De uma ironia e de uma dor violenta

 

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,

Agita os guizos, e convulsionado

Salta, gavroche, salta clown, varado

Pelo estertor dessa agonia lenta...

 

Pedem-te bis e um bis não se despreza!

Vamos! reteza os músculos, reteza

Nessas macabras piruetas d'aço...

 

E embora caias sobre o chão, fremente,

Afogado em teu sangue estuoso e quente,

Ri! Coração, tristíssimo palhaço.

 

Como o poeta sem lar, abandonado, achincalhado por seu público, sem carinho, sem calor, o excluído, o desmancha-prazeres. Mas que revela ao mundo a imagem de quem o olha e lê: palhaço somos nós!

O palhaço zombado e apedrejado é o avesso do Cristo ultrajado, segundo, se bem me lembro, uma frase de Starobinski. À seriedade de nossas certezas, o palhaço vibra e desfralda o escárnio, a derrota e a impotência. Nossa dignidade passa muito por brandir esse dístico. Um raiozinho de sol acaricia o Rio de Janeiro e a ABL.

Redes Sociais, 29/08/2023

 

https://www.academia.org.br/artigos/cheiro-de-bicho-na-serragem-do-circo

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Godofredo de Oliveira Neto - Sexto ocupante da Cadeira nº 35, eleito em 9 de junho de 2022, na sucessão de Candido Mendes de Almeida e recebido em 2 de setembro de 2022 pela Acadêmica Ana Maria Machado.

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