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quarta-feira, 17 de maio de 2023

Desviados da ternura

Cyro de Mattos



Dor é vida, sofremos porque vivemos, li no poeta Jorge de Lima. A vida torna-se leve quando habitada com amor. Há milênios que as religiões estão tentando mostrar ao ser humano que só o amor constrói. Braço ao abraço a rota fica mais fácil. Há milênios, nós os humanos estamos construindo a história de nossa condição com intolerâncias, violência, egoísmo, traição, infâmia, em atestado absurdo, quase sem fim, do quanto gostamos de cultivar o ódio, fazer uso da farsa e vaidade, escrever a vida às avessas. Desviados da ternura, mais para urubu do que para curió. O que sabe hoje o nosso pobre coração humano de Deus? Do enigma, da dor e do amor?

Essa lição fácil, dar alpiste aos desvalidos, injustiçados, pássaros tristes com as penas doídas, o filho unigênito de Deus, aquele homem de coração solidário, pleno de amor, ensinou no dia a dia. Por onde andou o seu coração foi para dizer que Deus existe. Podemos senti-lo na flor do coração. Basta amar o outro. A flor do coração sente-se em outros que em afeto se juntam. O semeador de esperança, curador de enfermidades, vencedor da morte, o que abriu as portas da esperança, o bem amado salvador da humanidade, no país dos que elegiam a vida sustentada com os valores materiais, em que o ouro e a prata ocupavam a primazia, disseminava que como cantiga plantada na ciranda do deserto a morada neste planeta se faz possível com todas as mãos numa só comunhão.

Ghandy lembra que a cada dia a natureza produz o suficiente para nossas carências. Se cada um de nós tomasse o que lhe fosse necessário, não haveria pobreza no mundo. Ninguém morreria de fome. O genial Charles Chaplin fala do caminho da vida com beleza e liberdade. Lamenta que tenha ocorrido o desvio da ternura. Ressalta que a inveja, o ciúme e a cobiça envenenaram a alma dos homens, ergueram muralhas de ódio no mundo, fazendo-nos marchar a passos de ganso para a miséria e horror dos morticínios.

Gostava de oferecer um abraço de bom coração a qualquer um quando percorria a cidade, em seu rito de amar o próximo como se fosse a si mesmo. Em linguagem simples, com amenidade de nuvem, dizia que todos nós somos missionários. Consistia a prática em doar-se ao outro, semear o amor entre os excluídos de uma vida digna, muitos deles sem saber a razão da fome e sede. Ele assim prosseguia sereno, ao mesmo tempo que era o pai, o filho, o irmão.

Homem que doou a vida ao outro como a maior prova de amor.  Um libertador para os enfermos e possuídos do mal. O que foi enviado para ser crucificado como resultado da bondade que a todos ofertou. O que no último gemido ainda pediu ao Pai eterno que nos perdoasse, não sabíamos o que estávamos fazendo com o Amor.

 

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Cyro de Mattos é ficcionista, poeta e ensaísta

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domingo, 14 de maio de 2023

Aprendi em Paraitinga

Ignácio de Loyola Brandão

 


Carmem e Marcelo Mercadante, médicos e amigos, ligaram: 'Aqui, em São Luiz do Paraitinga, começa uma feira literária, a primeira. Passem o fim de semana conosco'. Nem tinham desligado, estávamos lá com o compositor Hélio Ziskind e Carla, influencer, minha cunhada.

Nesse meio tempo, o casal tinha entrado em contato com Suzana Salles, a cantora, que se comunicou com Alexandre Gennari e outros curadores, de modo que cheguei como autor-surpresa. A Feira. Pequena, impecável. Quando se quer, se faz, não chora.

A prefeita Ana Lúcia Bilard Sicherle presente na primeira fila. Terceiro mandato de uma mulher. Três dias com Marcelino Freire, Penélope Martins, Leusa Araujo, Rubia Konstantyn, Alice Ruiz, Milton Hatoum, Tati Bernardi e eu. Mais escritores da região, essenciais.

Sei disso, saí do interior. Auditórios lotados - gente espalhada pelo chão - em todas as sessões. Professores das proximidades. O antigo clima de alegria das festas literárias recomposto.

A cidade é conhecida por sua resiliência desde a enchente de 2010, catástrofe vencida pela população. Na fala de Milton Hatoum, sujeito sóbrio, corajoso, o mediador fez uma pergunta complexa sobre tempos atuais, inteligência artificial, redes sociais, GPT, etc. Milton, tranquilo: 'Não sei responder'. Foi aplaudido.

Aos 86 anos, aprendi uma lição. Aprende-se em qualquer idade, estando disposto. Posso responder não sei. Mas, e a vaidade? A coragem? Admitir a incapacidade ou tentar enrolar?

Vi em São Luiz que a plateia gosta de sinceridade. Marcelino Freire e Tati Bernardi corajosamente falaram de suas famílias, mães e pais, e tias, amigos, tocaram pela coragem de admitir neuras, loucuras, esquizofrenices. Porque na plateia sempre tem uma história esquisita igual à nossa.

Alice Ruiz revelou como é fácil escrever um poema e uma letra de música. Mas vá fazer sua letra, seu poema. Dureza, sensibilidade.

Esteve tão bem e encantadora a Festa Literária de São Luiz que até os cães gostaram. Em todas as sessões, um vira-lata entrou, passeou pela primeira fila, achou um lugar, se acomodou ficou até o final. Compenetrado. Disseram-me que acompanha todas as procissões da cidade, que é lindinha. O cão só não tinha crachá!

Abh, cães! Quase me esqueço. Carmem e Marcelo abrigam em seu sítio duas cadelas, Pitanga e Canela. No dia em que chegamos, as duas tiveram um entrevero, Pitanga caiu de um deck, machucou-se. Marcelo, que é ortopedista, já tratei a lombar com ele, cuidou, enfaixou. Pitanga passou a mancar e todo mundo a agradava com afagos e comidas. Duas horas depois, Canela também estava mancando, esperando agrados. Cães são iguais a nós.

É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DE 'ZERO' E 'NÃO VERÁS PAÍS NENHUM'.

Jornal O Estado de S. Paulo, 07/05/2023

https://www.academia.org.br/artigos/aprendi-em-paraitinga

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Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11da ABL, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.

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sábado, 13 de maio de 2023

Maio lusófono

Arnaldo Niskier

 


No mês de maio, os países lusófonos celebram o 'mês da língua portuguesa'. Essa homenagem ao idioma e à cultura de origem portuguesa é um reconhecimento à relevância da língua e dos traços culturais partilhados por aqueles países que têm com Portugal uma relação histórica?

Reiteradas vezes temos dito, na Academia Brasileira de Letras, que a nossa obrigação primeira é cuidar com desvelo da língua portuguesa. E isso, naturalmente, parte da educação oferecida aos jovens estudantes.

Em todos esses anos fiz um extraordinário esforço para entender o fenômeno da educação, procurando trabalhar pelo seu constante aperfeiçoamento. Como professor e homem público, sempre busquei separar o que era ensino do que representava educação. Sem confundir as responsabilidades de cada um.

Como professor de História e Filosofia da Educação da UERJ, como autor de mais de três mil artigos e 100 livros sobre educação publicados e como autor de dezenas de conferências em diversos estados brasileiros, posso afiançar que conheço muito bem quais são os melhores caminhos que devem ser percorridos pela nossa educação, para que seja devidamente aperfeiçoada e bem disseminados os saberes e letras da Língua Portuguesa.

A literatura aproxima mundos e sonhos diferentes. A arte define e revela quem somos, que mitos cultivamos, em que ideais estéticos nos espelhamos, quais sentimentos conjugamos.

Um texto mal escrito abala a imagem do profissional que o escreveu e, sem dúvida, desqualifica o trabalho. Infelizmente, o descaso com o nosso idioma é notório, como podemos notar nos estudos frequentes da Academia Brasileira de Letras.

O Português é anterior a Portugal. Trata-se da quinta língua mais falada no mundo, a terceira mais falada no Ocidente e a mais falada no Hemisfério Sul. Partilhada por nove países, essa língua é um traço cultural e identitário que os unifica em torno de uma mesma matriz linguística. Se olharmos para a Península Ibérica, no século sexto, o espanhol e o galego, ambos derivados do latim, se ouviam por aquelas bandas. Nas palavras de Fernando Venâncio, autor do livro 'Assim Nasceu uma Língua - edição portuguesa da 'Guerra & Paz' - 'a história do português é, em larga medida, a história das suas tentativas de afastamento do galego'. O que é válido para o passado, será válido para o presente e para o futuro: como esperar que a fala do Brasil (ou de Angola, ou de Moçambique) continue fiel ao português de Portugal?

É preocupante a falta de conhecimento de diversos profissionais de diferentes áreas em relação à Língua Portuguesa. Alegam essas pessoas que a simples troca de um z por um s não muda o valor de uma petição advocatícia, a receita de um médico ou, ainda, o relatório de um administrador. Puro engano: um texto mal escrito abala a imagem do profissional que o escreveu e, sem dúvida, desqualifica o trabalho. Infelizmente, o descaso com o nosso idioma é notório, como podemos notar nos estudos frequentes da Academia Brasileira de Letras.

Devemos ter cuidado com o que se fala e com o que se escreve, pois a nossa imagem está sempre sendo avaliada.

Chumbo Gordo, 10/05/2023

https://www.academia.org.br/artigos/maio-lusofono

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Arnaldo Niskier - Sétimo ocupante da Cadeira nº 18 da ABL, eleito em 22 de março de 1984, na sucessão de Peregrino Júnior e recebido em 17 de setembro de 1984 pela acadêmica Rachel de Queiroz. Recebeu os acadêmicos Murilo Melo Filho, Carlos Heitor Cony e Paulo Coelho. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 1998 e 1999.

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quinta-feira, 11 de maio de 2023

 

O Escritor e o Mundo Conturbado de Hoje

 

 Entrevista

 de Helena Parente Cunha 

  a Cyro de Mattos

 


Helena Parente Cunha nasceu em Salvador de Bahia.  Depois de lecionar no Curso de Letras, da Universidade Federal da Bahia, transferiu-se para o Rio de Janeiro onde viveu há décadas, foi reconhecida como Professora Emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro e se tornou docente da Pós-Graduação da Faculdade de Letras. Autora de trinta livros publicados (poesia, conto, romance, ensaio, crítica literária) e quase uma centena de volumes com outros autores, no Brasil e no exterior. Seus livros receberam prêmios em concursos de expressão nacional.  É dessa mulher de caráter afável, erudita, criativa, que procuramos saber sobre a condição do escritor e os caminhos da literatura no mundo massificado de hoje, cheio de fortes agressões e cobranças. 

 

 

Cyro de Mattos  - Thomas Mann acha que ser escritor é uma maldição, que começa cedo, terrivelmente cedo. Para  você, que caminha nessa estrada feita de solidões e desejos, dores e ternuras, o que é ser escritor? Destino, profissão, missão?

 

Helena Parente Cunha - Como escritora, vejo-me  levada a tentar dizer o que sinto no turbilhão de emoções em que a vida nos coloca. E também tentar dizer o que penso neste mundo de violência e atravessado de contradições e desacertos. Como a realidade é sempre mais do que as palavras podem abarcar, muitas vezes, na tentativa de dizer o indizível, é preciso ultrapassar a língua, mesmo desrespeitando a gramática e as normas da correção. Mas não pelo simples gosto da transgressão e sim pela urgência do dizer.

Não acho que ser escritor seja maldição. Escrever é muitas vezes doloroso na busca da palavra que se recusa a vir à tona.  Mas é sempre altamente gratificante e prazeroso.

 

 

CM - Hoje vivemos em uma sociedade que prioriza o estômago, o corpo e o poder. Que função tem a literatura  em um mundo que cada vez mais concebe os valores éticos e espirituais como expressão de nadas?

 

HPC- Acredito que a literatura não tenha obrigações salvacionistas, mas tem um compromisso com seu tempo, expressa as tendências da sua época, misérias ou grandezas, frustrações ou vitórias, vícios, esperanças.

 

CM - Atualmente, em várias cidades brasileiras, sei da existência de inúmeros grupos de poetas e poetisas que se reúnem periodicamente, uma vez por semana ou por quinzena, por exemplo, para dizer poemas da própria autoria, sentindo-se estimulados para escrever sobre temas variados que podem transformar-se em livros individuais ou coletivos. Pelo que entendi, produzem por indiscutível prazer em criar e divulgar sua produção no próprio grupo ou na internet ou em performances em várias cidades e até estados. Por não haver sido ainda legitimada pelos críticos ou pelos cursos de Letras, essa produção fica um tanto à margem da chamada literatura oficial. De uma forma ou de outra, constitui uma das belas características de nossa pós-modernidade multifacetada, onde convivem os extremos positivos e negativos.

 

HPC – A sociedade contemporânea cultiva, em grande escala,  a imagem e o som como linguagens para dizer a vida. O suporte do livro tradicional mudou com a chegada dos meios eletrônicos.  O livro impresso está na fase terminal?

Não acredito nesta visão um tanto apocalíptica. Da mesma forma que a fotografia não acabou com a pintura nem o cinema desbancou o teatro, acho que a riqueza do real exige novas linguagens para ser expressa, sem que uma necessariamente derrube a outra.

 

CM – Não se pode deixar de considerar que o texto literário abraçou  um novo espaço democrático graças à internet, através do exercício usual de blogs, jornais e revistas eletrônicas.   Isso  faz bem ou mal à literatura?

 

HPC - Cada época tem seu modo específico de considerar o texto literário. Nossa época se caracteriza por mudanças radicais ocorridas em tempo recorde, o que resulta na coexistência de vários aspectos díspares e contraditórios que disputam espaço na página ou na tela. A especificidade do ser literário também se altera ao sabor das características temporais. No novo espaço democrático oferecido pelos meios eletrônicos, sinto que há mais flexibilidade para o gosto não só das elites acadêmicas, mas também para um espaço democrático.

 

CM  – Com a presença forte da televisão e dos meios eletrônicos, a literatura passou a ter grandes  concorrentes como instrumentos de lazer e forma de conhecimento. De que maneira isso afeta o autor, que já foi muito prestigiado em outros tempos?

 

HPC - Houve tempos em que o poeta era cultuado como um profeta ou enviado dos deuses. Em outros tempos se destacava como porta-voz da ideologia vigente.

E hoje, onde a tendência se volta para a multiplicidade de expressão, muitas vezes o autor ou a autora se vê pressionado pela originalidade do texto e pela urgência em inovar, o que pode redundar em extravagâncias e obsessão pelo ineditismo. O prestígio vivido pelo escritor no passado me parece obscurecido pela excessiva valorização do poder econômico e seu afã de abranger e deformar valores e princípios.

 

CM - Uma enxurrada de autores continua a passar  por debaixo da ponte. Hoje se escreve mais para menos leitores?

 

HPC- Não sei se hoje se escreve mais para menos leitores, entretanto, talvez por conta da democratização trazida pelos meios eletrônicos, um número maior de autores encontrou mais possibilidades para suas publicações, considerando-se ainda as atuais tendências para abolir hierarquias e hierarquizações, rejeitar regras e formulações que em outros tempos se impunham para a criação literária.

 

CM – Seu romance, Mulher no Espelho, Prêmio Nacional Cruz e Sousa, da Fundação Cultural de Santa Catarina, já em décima edição, é um marco na moderna ficção feminina, a partir da década 70. Fale um pouco desse romance maior em nossas letras.

 

HPC -  Como disse,  escrevo para dizer o que sinto e também o que penso e muito do que imagino. E para apontar abusos, injustiças, violência da sociedade patriarcal, desesperos do sentimento de culpa, hipocrisias das fórmulas vazias da falsa convivência de uma sociedade refém das aparências, as certezas de verdades mentirosas, os preconceitos contra os excluídos, o desejo, o corpo, mulheres anuladas ante o todo-poderoso pai ou marido, distorções da cultura machista, dilaceramento entre dúvidas e milenares perguntas sem respostas. Entre momentos líricos, irônicos, satíricos, dramáticos, trágicos, se sucedem monólogos, reflexões e angústias.

Escrever este livro foi aprendizado cruel que me levou a mais de um ano de depressão. Mas o prazer dessa escrita me trouxe a recompensa de sentir que vale a pena ser escritora.

 

HPC  – Fale também sobre  Impregnações na Floresta, seu último livro de poesia,  motivado por uma viagem feita à Amazônia. Um belo livro  revestido  das percepções  íntimas, interiorizado por seu sentimento  e sensibilidade decorrente do seu estar no mundo. Como a crítica e seus leitores receberam o livro?   

- Foi um livro que procurou reviver momentos de silêncio e contemplação no encantamento indizível da floresta. Acho que, por este motivo, as pessoas que se comunicaram comigo me pareceram, de certo modo, integradas naquela magia.

 

CM  –.  Embora sua obra seja de alto nível, elaborada em várias frentes,   estudada em universidades, não desfruta da mídia que privilegia um pequeno grupo.  Como você encara esse tempo que divulga inverdades e valores duvidosos?

 

HPC- Para lhe dar uma resposta justa, teria que ler mais sobre o que a mídia  publica e mais dos livros com que a mídia se ocupa.

 

CM – Entre suas atividades literárias, qual a que mais lhe completa, a de ficcionista, poeta, ensaísta, crítica  ou professora universitária?

 

HPC -  A depender do meu estado de espírito, eu percebo o gênero que mais me convém naquele momento. Quando me deixo levar pela emoção, pela fantasia, escolho o lírico, porquanto me parece que o poema curto concentra melhor o transbordar do sentimento.  Diante de realidades concretas que me chamam a atenção pelo abuso do poder, intolerância, discriminação, prepotência, etc, prefiro narrar e assinalar minha revolta ante os absurdos de muitos dos relacionamentos humanos. Nessas circunstâncias, é preferível o conto ou o romance. No ensaio proponho um estudo sobre questões de ordem cultural, social, psicológica e que em geral tem a ver com minhas pesquisas ou temas de minhas aulas. Quando escrevo sobre escritores, jamais critico, mas se o texto não me agrada, prefiro me calar.

 

Nota - Essa entrevista foi concedida para figurar no livro Palavras, de Cyro de Mattos, ainda inédito. Helena Parente Cunha faleceu em 11 de fevereiro de 2023.

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domingo, 30 de abril de 2023

 

Cyro de Mattos Ganha o Prêmio

Literário Casa das Américas 2023

 


            Cyro de Mattos conquistou o Prêmio Casa das Américas 2023 com o livro Infância com Bicho e Pesadelo e Outras Histórias, segundo anunciou no dia 28 o diretor Jorge Fornet da Casa das Américas, em Havana, Cuba. O Prêmio Casa das Américas consiste no valor de 3000 dólares e a edição do livro premiado em dez mil exemplares pelo Fondo de Cultura Editorial da Casa das Américas.

          Os escritores e críticos brasileiros Mário Araújo e Clara Dias, junto com a crítica cubana Ingrid Brioso Riemont, integraram a comissão julgadora dos livros de ficção publicados em português entre 2020 e 2022. Concorreram 452 candidatos. A Comissão Julgadora decidiu premiar o livro Infância com bicho e pesadelo (e outras histórias), de Cyro de Mattos, “por ser un libro que absorbe al lector por sus narraciones poéticas de una inquietante levedad, que cautivan a quien lee, y que revelan un sor­prendente dominio del lenguaje. El volumen posee una calidad literaria única que refleja la madurez del autor”.

        As obras Mesmo sem saber pra onde, de JR Bellé, e Máquina rubro-negra, de Gustavo Castanheira, receberam menções nesta categoria de Literatura brasileira. Mais de 450 candidatos concorreram ao certame na categoria Conto. 

          Um dos mais antigos e prestigiados certame de literatura no Continente, tendo atuado nele  como jurado Alejo Carpentier, Mário Vargas Llosa, Carlos Fuentes, José Saramago, João Ubaldo Ribeiro, o Prêmio Literário Casa das Américas já foi conquistado pelos brasileiros Oduvaldo Viana Filho, Ziraldo, Chico Buarque de Holanda, Nélida Piñon, Ledo Ivo, Ângela Leite,  Maria Valéria Rezende, Rubem Fonseca,  Moacyr Scliar e Silviano Santiago, entre outros.

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sexta-feira, 28 de abril de 2023

Heloísa agora é imortal

Arnaldo Niskier

 


Na casa de Machado de Assis, em recente votação, ninguém estranhou a quantidade de votos obtidos pela escritora, crítica literária a ensaísta Heloísa Buarque de Hollanda: 34 votos, quase a totalidade dos imortais existentes.

Na vaga nº 30, que foi lindamente ocupada por Nélida Piñon, a primeira mulher a ser presidente da Academia (fui o seu Secretário-Geral), Heloísa é uma das principais formuladoras e compiladoras do pensamento feminista brasileiro. É a décima mulher imortal da ABL.

A votação, pela primeira vez, aconteceu utilizando urnas eletrônicas. Consagrou a autora da coletânea '26 Poetas Hoje' e premiou a professora emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro, instituição na qual fez o seu doutorado em literatura brasileira.

Conheci Heloísa por intermédio da minha madrinha Rachel de Queiroz. Elas eram muito amigas e, na casa de Rachel, no Leblon, tivemos a oportunidade de um encontro que ficou marcado para sempre.

Com a morte de Nélida Piñon, aos 85 anos de vida, abriu-se a vaga na qual Heloísa Buarque de Hollanda foi eleita. No dia da comemoração, em Copacabana, ela contou que era prima do cantor Chico Buarque. Com muito orgulho.

São suas palavras: 'a ABL é uma instituição muito poderosa, de muito respeito e prestígio. Está num momento de abertura, o que muito me encanta. Prometo trabalhar muito na instituição.'

Depois, lembrou suas relações com Nélida: 'Era muito sua amiga, frequentava bastante a sua casa. Vou procurar dar continuidade ao seu trabalho, de defesa da literatura e das mulheres.' Não deixou de citar o que hoje a ABL faz pela literatura, particularmente pelos jovens e os escritores das periferias. Daí ter lançado diversos autores dessas regiões.

O presidente Merval Pereira destacou aspectos da sua personalidade, a paixão pelo feminismo, onde pesquisou bastante.

Heloísa é formada em Letras Clássicas pela PUC/Rio e tem mestrado e doutorado em Literatura pela UFRJ. E tem pós-doutorado em Sociologia da Cultura na Universidade de Colúmbia (USA). Hoje, coordena o Laboratório de Tecnologias Sociais, no projeto Universidade das Quebradas. Um dos seus últimos livros é 'O feminismo como crítica da cultura', lançado em 1994. E lançou a coleção Pensamento Feminista, em 2020.

Como se vê, uma escritora altamente qualificada.

Chumbo Gordo, 26/04/2023

 

Arnaldo Niskier - Sétimo ocupante da Cadeira nº 18 da ABL, eleito em 22 de março de 1984, na sucessão de Peregrino Júnior e recebido em 17 de setembro de 1984 pela acadêmica Rachel de Queiroz. Recebeu os acadêmicos Murilo Melo Filho, Carlos Heitor Cony e Paulo Coelho. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 1998 e 1999.

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