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sábado, 13 de maio de 2023

Maio lusófono

Arnaldo Niskier

 


No mês de maio, os países lusófonos celebram o 'mês da língua portuguesa'. Essa homenagem ao idioma e à cultura de origem portuguesa é um reconhecimento à relevância da língua e dos traços culturais partilhados por aqueles países que têm com Portugal uma relação histórica?

Reiteradas vezes temos dito, na Academia Brasileira de Letras, que a nossa obrigação primeira é cuidar com desvelo da língua portuguesa. E isso, naturalmente, parte da educação oferecida aos jovens estudantes.

Em todos esses anos fiz um extraordinário esforço para entender o fenômeno da educação, procurando trabalhar pelo seu constante aperfeiçoamento. Como professor e homem público, sempre busquei separar o que era ensino do que representava educação. Sem confundir as responsabilidades de cada um.

Como professor de História e Filosofia da Educação da UERJ, como autor de mais de três mil artigos e 100 livros sobre educação publicados e como autor de dezenas de conferências em diversos estados brasileiros, posso afiançar que conheço muito bem quais são os melhores caminhos que devem ser percorridos pela nossa educação, para que seja devidamente aperfeiçoada e bem disseminados os saberes e letras da Língua Portuguesa.

A literatura aproxima mundos e sonhos diferentes. A arte define e revela quem somos, que mitos cultivamos, em que ideais estéticos nos espelhamos, quais sentimentos conjugamos.

Um texto mal escrito abala a imagem do profissional que o escreveu e, sem dúvida, desqualifica o trabalho. Infelizmente, o descaso com o nosso idioma é notório, como podemos notar nos estudos frequentes da Academia Brasileira de Letras.

O Português é anterior a Portugal. Trata-se da quinta língua mais falada no mundo, a terceira mais falada no Ocidente e a mais falada no Hemisfério Sul. Partilhada por nove países, essa língua é um traço cultural e identitário que os unifica em torno de uma mesma matriz linguística. Se olharmos para a Península Ibérica, no século sexto, o espanhol e o galego, ambos derivados do latim, se ouviam por aquelas bandas. Nas palavras de Fernando Venâncio, autor do livro 'Assim Nasceu uma Língua - edição portuguesa da 'Guerra & Paz' - 'a história do português é, em larga medida, a história das suas tentativas de afastamento do galego'. O que é válido para o passado, será válido para o presente e para o futuro: como esperar que a fala do Brasil (ou de Angola, ou de Moçambique) continue fiel ao português de Portugal?

É preocupante a falta de conhecimento de diversos profissionais de diferentes áreas em relação à Língua Portuguesa. Alegam essas pessoas que a simples troca de um z por um s não muda o valor de uma petição advocatícia, a receita de um médico ou, ainda, o relatório de um administrador. Puro engano: um texto mal escrito abala a imagem do profissional que o escreveu e, sem dúvida, desqualifica o trabalho. Infelizmente, o descaso com o nosso idioma é notório, como podemos notar nos estudos frequentes da Academia Brasileira de Letras.

Devemos ter cuidado com o que se fala e com o que se escreve, pois a nossa imagem está sempre sendo avaliada.

Chumbo Gordo, 10/05/2023

https://www.academia.org.br/artigos/maio-lusofono

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Arnaldo Niskier - Sétimo ocupante da Cadeira nº 18 da ABL, eleito em 22 de março de 1984, na sucessão de Peregrino Júnior e recebido em 17 de setembro de 1984 pela acadêmica Rachel de Queiroz. Recebeu os acadêmicos Murilo Melo Filho, Carlos Heitor Cony e Paulo Coelho. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 1998 e 1999.

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quinta-feira, 11 de maio de 2023

 

O Escritor e o Mundo Conturbado de Hoje

 

 Entrevista

 de Helena Parente Cunha 

  a Cyro de Mattos

 


Helena Parente Cunha nasceu em Salvador de Bahia.  Depois de lecionar no Curso de Letras, da Universidade Federal da Bahia, transferiu-se para o Rio de Janeiro onde viveu há décadas, foi reconhecida como Professora Emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro e se tornou docente da Pós-Graduação da Faculdade de Letras. Autora de trinta livros publicados (poesia, conto, romance, ensaio, crítica literária) e quase uma centena de volumes com outros autores, no Brasil e no exterior. Seus livros receberam prêmios em concursos de expressão nacional.  É dessa mulher de caráter afável, erudita, criativa, que procuramos saber sobre a condição do escritor e os caminhos da literatura no mundo massificado de hoje, cheio de fortes agressões e cobranças. 

 

 

Cyro de Mattos  - Thomas Mann acha que ser escritor é uma maldição, que começa cedo, terrivelmente cedo. Para  você, que caminha nessa estrada feita de solidões e desejos, dores e ternuras, o que é ser escritor? Destino, profissão, missão?

 

Helena Parente Cunha - Como escritora, vejo-me  levada a tentar dizer o que sinto no turbilhão de emoções em que a vida nos coloca. E também tentar dizer o que penso neste mundo de violência e atravessado de contradições e desacertos. Como a realidade é sempre mais do que as palavras podem abarcar, muitas vezes, na tentativa de dizer o indizível, é preciso ultrapassar a língua, mesmo desrespeitando a gramática e as normas da correção. Mas não pelo simples gosto da transgressão e sim pela urgência do dizer.

Não acho que ser escritor seja maldição. Escrever é muitas vezes doloroso na busca da palavra que se recusa a vir à tona.  Mas é sempre altamente gratificante e prazeroso.

 

 

CM - Hoje vivemos em uma sociedade que prioriza o estômago, o corpo e o poder. Que função tem a literatura  em um mundo que cada vez mais concebe os valores éticos e espirituais como expressão de nadas?

 

HPC- Acredito que a literatura não tenha obrigações salvacionistas, mas tem um compromisso com seu tempo, expressa as tendências da sua época, misérias ou grandezas, frustrações ou vitórias, vícios, esperanças.

 

CM - Atualmente, em várias cidades brasileiras, sei da existência de inúmeros grupos de poetas e poetisas que se reúnem periodicamente, uma vez por semana ou por quinzena, por exemplo, para dizer poemas da própria autoria, sentindo-se estimulados para escrever sobre temas variados que podem transformar-se em livros individuais ou coletivos. Pelo que entendi, produzem por indiscutível prazer em criar e divulgar sua produção no próprio grupo ou na internet ou em performances em várias cidades e até estados. Por não haver sido ainda legitimada pelos críticos ou pelos cursos de Letras, essa produção fica um tanto à margem da chamada literatura oficial. De uma forma ou de outra, constitui uma das belas características de nossa pós-modernidade multifacetada, onde convivem os extremos positivos e negativos.

 

HPC – A sociedade contemporânea cultiva, em grande escala,  a imagem e o som como linguagens para dizer a vida. O suporte do livro tradicional mudou com a chegada dos meios eletrônicos.  O livro impresso está na fase terminal?

Não acredito nesta visão um tanto apocalíptica. Da mesma forma que a fotografia não acabou com a pintura nem o cinema desbancou o teatro, acho que a riqueza do real exige novas linguagens para ser expressa, sem que uma necessariamente derrube a outra.

 

CM – Não se pode deixar de considerar que o texto literário abraçou  um novo espaço democrático graças à internet, através do exercício usual de blogs, jornais e revistas eletrônicas.   Isso  faz bem ou mal à literatura?

 

HPC - Cada época tem seu modo específico de considerar o texto literário. Nossa época se caracteriza por mudanças radicais ocorridas em tempo recorde, o que resulta na coexistência de vários aspectos díspares e contraditórios que disputam espaço na página ou na tela. A especificidade do ser literário também se altera ao sabor das características temporais. No novo espaço democrático oferecido pelos meios eletrônicos, sinto que há mais flexibilidade para o gosto não só das elites acadêmicas, mas também para um espaço democrático.

 

CM  – Com a presença forte da televisão e dos meios eletrônicos, a literatura passou a ter grandes  concorrentes como instrumentos de lazer e forma de conhecimento. De que maneira isso afeta o autor, que já foi muito prestigiado em outros tempos?

 

HPC - Houve tempos em que o poeta era cultuado como um profeta ou enviado dos deuses. Em outros tempos se destacava como porta-voz da ideologia vigente.

E hoje, onde a tendência se volta para a multiplicidade de expressão, muitas vezes o autor ou a autora se vê pressionado pela originalidade do texto e pela urgência em inovar, o que pode redundar em extravagâncias e obsessão pelo ineditismo. O prestígio vivido pelo escritor no passado me parece obscurecido pela excessiva valorização do poder econômico e seu afã de abranger e deformar valores e princípios.

 

CM - Uma enxurrada de autores continua a passar  por debaixo da ponte. Hoje se escreve mais para menos leitores?

 

HPC- Não sei se hoje se escreve mais para menos leitores, entretanto, talvez por conta da democratização trazida pelos meios eletrônicos, um número maior de autores encontrou mais possibilidades para suas publicações, considerando-se ainda as atuais tendências para abolir hierarquias e hierarquizações, rejeitar regras e formulações que em outros tempos se impunham para a criação literária.

 

CM – Seu romance, Mulher no Espelho, Prêmio Nacional Cruz e Sousa, da Fundação Cultural de Santa Catarina, já em décima edição, é um marco na moderna ficção feminina, a partir da década 70. Fale um pouco desse romance maior em nossas letras.

 

HPC -  Como disse,  escrevo para dizer o que sinto e também o que penso e muito do que imagino. E para apontar abusos, injustiças, violência da sociedade patriarcal, desesperos do sentimento de culpa, hipocrisias das fórmulas vazias da falsa convivência de uma sociedade refém das aparências, as certezas de verdades mentirosas, os preconceitos contra os excluídos, o desejo, o corpo, mulheres anuladas ante o todo-poderoso pai ou marido, distorções da cultura machista, dilaceramento entre dúvidas e milenares perguntas sem respostas. Entre momentos líricos, irônicos, satíricos, dramáticos, trágicos, se sucedem monólogos, reflexões e angústias.

Escrever este livro foi aprendizado cruel que me levou a mais de um ano de depressão. Mas o prazer dessa escrita me trouxe a recompensa de sentir que vale a pena ser escritora.

 

HPC  – Fale também sobre  Impregnações na Floresta, seu último livro de poesia,  motivado por uma viagem feita à Amazônia. Um belo livro  revestido  das percepções  íntimas, interiorizado por seu sentimento  e sensibilidade decorrente do seu estar no mundo. Como a crítica e seus leitores receberam o livro?   

- Foi um livro que procurou reviver momentos de silêncio e contemplação no encantamento indizível da floresta. Acho que, por este motivo, as pessoas que se comunicaram comigo me pareceram, de certo modo, integradas naquela magia.

 

CM  –.  Embora sua obra seja de alto nível, elaborada em várias frentes,   estudada em universidades, não desfruta da mídia que privilegia um pequeno grupo.  Como você encara esse tempo que divulga inverdades e valores duvidosos?

 

HPC- Para lhe dar uma resposta justa, teria que ler mais sobre o que a mídia  publica e mais dos livros com que a mídia se ocupa.

 

CM – Entre suas atividades literárias, qual a que mais lhe completa, a de ficcionista, poeta, ensaísta, crítica  ou professora universitária?

 

HPC -  A depender do meu estado de espírito, eu percebo o gênero que mais me convém naquele momento. Quando me deixo levar pela emoção, pela fantasia, escolho o lírico, porquanto me parece que o poema curto concentra melhor o transbordar do sentimento.  Diante de realidades concretas que me chamam a atenção pelo abuso do poder, intolerância, discriminação, prepotência, etc, prefiro narrar e assinalar minha revolta ante os absurdos de muitos dos relacionamentos humanos. Nessas circunstâncias, é preferível o conto ou o romance. No ensaio proponho um estudo sobre questões de ordem cultural, social, psicológica e que em geral tem a ver com minhas pesquisas ou temas de minhas aulas. Quando escrevo sobre escritores, jamais critico, mas se o texto não me agrada, prefiro me calar.

 

Nota - Essa entrevista foi concedida para figurar no livro Palavras, de Cyro de Mattos, ainda inédito. Helena Parente Cunha faleceu em 11 de fevereiro de 2023.

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domingo, 30 de abril de 2023

 

Cyro de Mattos Ganha o Prêmio

Literário Casa das Américas 2023

 


            Cyro de Mattos conquistou o Prêmio Casa das Américas 2023 com o livro Infância com Bicho e Pesadelo e Outras Histórias, segundo anunciou no dia 28 o diretor Jorge Fornet da Casa das Américas, em Havana, Cuba. O Prêmio Casa das Américas consiste no valor de 3000 dólares e a edição do livro premiado em dez mil exemplares pelo Fondo de Cultura Editorial da Casa das Américas.

          Os escritores e críticos brasileiros Mário Araújo e Clara Dias, junto com a crítica cubana Ingrid Brioso Riemont, integraram a comissão julgadora dos livros de ficção publicados em português entre 2020 e 2022. Concorreram 452 candidatos. A Comissão Julgadora decidiu premiar o livro Infância com bicho e pesadelo (e outras histórias), de Cyro de Mattos, “por ser un libro que absorbe al lector por sus narraciones poéticas de una inquietante levedad, que cautivan a quien lee, y que revelan un sor­prendente dominio del lenguaje. El volumen posee una calidad literaria única que refleja la madurez del autor”.

        As obras Mesmo sem saber pra onde, de JR Bellé, e Máquina rubro-negra, de Gustavo Castanheira, receberam menções nesta categoria de Literatura brasileira. Mais de 450 candidatos concorreram ao certame na categoria Conto. 

          Um dos mais antigos e prestigiados certame de literatura no Continente, tendo atuado nele  como jurado Alejo Carpentier, Mário Vargas Llosa, Carlos Fuentes, José Saramago, João Ubaldo Ribeiro, o Prêmio Literário Casa das Américas já foi conquistado pelos brasileiros Oduvaldo Viana Filho, Ziraldo, Chico Buarque de Holanda, Nélida Piñon, Ledo Ivo, Ângela Leite,  Maria Valéria Rezende, Rubem Fonseca,  Moacyr Scliar e Silviano Santiago, entre outros.

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sexta-feira, 28 de abril de 2023

Heloísa agora é imortal

Arnaldo Niskier

 


Na casa de Machado de Assis, em recente votação, ninguém estranhou a quantidade de votos obtidos pela escritora, crítica literária a ensaísta Heloísa Buarque de Hollanda: 34 votos, quase a totalidade dos imortais existentes.

Na vaga nº 30, que foi lindamente ocupada por Nélida Piñon, a primeira mulher a ser presidente da Academia (fui o seu Secretário-Geral), Heloísa é uma das principais formuladoras e compiladoras do pensamento feminista brasileiro. É a décima mulher imortal da ABL.

A votação, pela primeira vez, aconteceu utilizando urnas eletrônicas. Consagrou a autora da coletânea '26 Poetas Hoje' e premiou a professora emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro, instituição na qual fez o seu doutorado em literatura brasileira.

Conheci Heloísa por intermédio da minha madrinha Rachel de Queiroz. Elas eram muito amigas e, na casa de Rachel, no Leblon, tivemos a oportunidade de um encontro que ficou marcado para sempre.

Com a morte de Nélida Piñon, aos 85 anos de vida, abriu-se a vaga na qual Heloísa Buarque de Hollanda foi eleita. No dia da comemoração, em Copacabana, ela contou que era prima do cantor Chico Buarque. Com muito orgulho.

São suas palavras: 'a ABL é uma instituição muito poderosa, de muito respeito e prestígio. Está num momento de abertura, o que muito me encanta. Prometo trabalhar muito na instituição.'

Depois, lembrou suas relações com Nélida: 'Era muito sua amiga, frequentava bastante a sua casa. Vou procurar dar continuidade ao seu trabalho, de defesa da literatura e das mulheres.' Não deixou de citar o que hoje a ABL faz pela literatura, particularmente pelos jovens e os escritores das periferias. Daí ter lançado diversos autores dessas regiões.

O presidente Merval Pereira destacou aspectos da sua personalidade, a paixão pelo feminismo, onde pesquisou bastante.

Heloísa é formada em Letras Clássicas pela PUC/Rio e tem mestrado e doutorado em Literatura pela UFRJ. E tem pós-doutorado em Sociologia da Cultura na Universidade de Colúmbia (USA). Hoje, coordena o Laboratório de Tecnologias Sociais, no projeto Universidade das Quebradas. Um dos seus últimos livros é 'O feminismo como crítica da cultura', lançado em 1994. E lançou a coleção Pensamento Feminista, em 2020.

Como se vê, uma escritora altamente qualificada.

Chumbo Gordo, 26/04/2023

 

Arnaldo Niskier - Sétimo ocupante da Cadeira nº 18 da ABL, eleito em 22 de março de 1984, na sucessão de Peregrino Júnior e recebido em 17 de setembro de 1984 pela acadêmica Rachel de Queiroz. Recebeu os acadêmicos Murilo Melo Filho, Carlos Heitor Cony e Paulo Coelho. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 1998 e 1999.

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quarta-feira, 26 de abril de 2023

As Metamorfoses de Helena Parente Cunha

 Cyro de Mattos

 


             Em Cem Mentiras de Verdade, livro de contos, a baiana Helena Pereira Cunha inova a moderna prosa de ficção curta no Brasil. Denuncia nestes contos brevíssimos, alguns nem chegando a dez linhas, uma marcante economia de meios, funde os limites da poesia e ficção, revela fino espírito de observação do real e sutilíssima capacidade de condensação literária.

            A escritora sensível e criativa observa o real, perscruta-o, parte sempre da situação concreta para repoetizar a vida na sua rotina feita de abismos e sonhos. A ficcionista busca um único objetivo, oferecer um aspecto, um gesto, uma impressão, o instante do desencontro de uma humanidade ínfima, prisioneira do viver e do sofrer. Da metamorfose literária expressa no texto, concentrada de emoção e sentimento, a imagem ganha relevo com a cena breve. O fragmento agudo na trama, implícito de tão vivo, faz-se tangível. Existem em Cem Mentiras de Verdade alusões líricas, que comovem e encantam.  Nas estórias em que entra passarinho, o riso tem lugar no gesto e jeito de ser do coronel Titino Cravo. Com sabor de obras-primas, as duas últimas estórias protagonizadas pelo coronel Titino Cravo são armadas, em seu fino humor, para desarmar o sério do leitor mais concentrado.

            O descritivo, o factual e o denotativo são componentes que estão sempre nos contornos da prosa literária, mas não se fazem presentes nestes mini contos de Cem Mentiras de Verdade. A narrativa de forma objetiva, o diálogo cerrado, o tempo passado do personagem, ingredientes do conto realista entre nós, com ressonância até hoje em alguns contistas, não participam das minúsculas   verdades, tão bem fingidas no lado inexplicável da vida. Ausentes de lógica visível, a escrita dessas ficções breves assenta-se numa pontuação psicológica, conotativa, organizando-se em períodos diminutos, às vezes se constituindo de uma só palavra. Os termos são inventados, formas verbais transladam-se em substantivos e advérbios, a língua torna-se linguagem inventada por quem bem sabe os recursos. Exemplos dessa linguagem experimentada encontram-se em   neologismos como “brancamanhecido”, “devagarosa”, “sorrindissimamente’, “infazia”, “atemorecida”, “despresença”, “dessapato”, dentre outros. Assim, a linguagem com termos inventados torna o contexto mais rico para exprimir o gesto daquela vida apagada em sua angústia sufocante. Faz-se mais crítica a metáfora quando em sua abrangência do real estende-se sobre um território humano a exibir verdade no dia-a-dia de suas misérias subjetivas.

            Partindo sempre do real, a contista atenta ao detalhe, rica de humanidade, não se faz submissa ao factual, como se a sangue–frio relatasse a vida. Íntima do fragmento, separa o essencial do acessório, subverte a sintaxe tradicional da prosa literária e, na expressividade tensa da linguagem, fixa episódios curtos em sua exígua ambiência interior. Com isso deixa sempre a imagem que serve como profunda análise vertical da alma humana. Em “O Fim da Tarde”, a mulher prepara todos os dias a mesa para os dois. Duas cadeiras. Duas xícaras. Duas velas. Dois castiçais. O jarro com flores. A toalha de linho engomada. A arrumação convincente. Todas as tardes, sozinha, tomando chá diante do vazio. Em “A Moça Bonita”, com a sua lindeza, no bonde, olhos nos olhos do rapaz, “simpatia em pé no estribo”. A nota sofrida no visível. A amiga ajudante. Dentro das botas ortopédicas, segurando nas muletas. “A moça, com paixão caminhava. Quando buscou o rapaz, não viu mais. Faltaram-se”. Em “Acordo”, o amor amargo dos cinquenta e dois anos de vida conjugal. O acordo mostra-se na discórdia consumada. Quase aos oitenta anos de idade. Decidiram o divórcio.

            Oscilando entre a razão e a emoção é que o real desrealiza-se nestas Cem Mentiras de Verdade. O imaginário resolve-se com a fidelidade de uma sonda sensível, usada pela escritora que, num átimo, diz ser o mundo constituído de falhas, descativante, pende mais para o trauma do que para o verso azul da canção. O mundo reinventa-se todos os dias no verso inverso das fissuras, o micro atinge o macro com fragmentos que cortam, ritmando-se com mágoa, tristeza em discursos brevíssimos, por vezes nem ressoando nos atalhos doloridos da natureza humana.

            Em Cem Mentiras de Verdade, a baiana Helena Parente Cunha prefere a concisão máxima, a concentração de efeitos para expor drama e poesia extraídos do real. Sem chegar a ser maldita, em seu compromisso estético e sentimento de mundo, detalha a vida cotidiana e consegue a proeza da ilusão na síntese. Como Dalton Trevisan, Luís Vilela, Vander Piroli, Caio Porfírio Carneiro e Ricardo Ramos, dentre outros contistas do implícito na síntese por excelência, traz em sua escrita a marca da grande contista. Fala pouco em suas breves verdades fingidas, dizendo muito sobre o mistério da vida.

            Quase trinta anos depois, a autora volta a exercitar a prosa de ficção breve em Falas e falares, um conjunto de textos por ela chamado de minicontos. Apresenta a mesma técnica de sugerir o drama com a concentração dos efeitos, a linguagem veloz, aliciante, que alcança ritmo galopante em alguns desses textos, como vemos na “Primeira estória de motorista de táxi”. Encontramos em alguns desses mini contos ou poemas vozes ecoando vindas da infância, do tempo com dores e desejos, alusões a figuras de mulheres em seu convívio interior de paisagens, nas quais aves traçam “os desenhos alados na superfície do ar ...”

            Em narrativas transitando entre Rio, Salvador ou em algum lugar qualquer, encontramos a sensibilidade delicada da autora, para com sabedoria e arte inovadora forjar seus textos. Em “O aniversário dele”, flagra os olhos do menino, “se abrem mais e cabem nos tons amarelos das margaridas e dos girassóis, papai aqui é a casa do sol.” Em “Fofurinha do papai”, primor de mini conto, temos esse achado luminoso, em amenidade de linguagem fundamentada na natureza, quando se diz que “há seres que contam os anos e os séculos e eclipses do seu mundo interior, você não sabia, as árvores, quanto mais velhas são, mais jovens serão,”.

             Em “Riso de risada ensolarada”, o leitor é de logo surpreendido em carícia no início com o achado de sonoridades luminosas, “timbres remotos e inflexões reinventadas e imprevistas ondas que se expandiam do gabinete do diretor pelos corredores, até as salas de aula,”.

            Mini contos ou poemas, não é preciso procurar muito para saber que Em Cem mentiras de verdade o tom dos dizeres ressoam para as negações do existir enquanto em Falas e falares o nível do discurso pende para as afirmações em que nossa precária condição de ser-estar vai sendo reconhecida com as suas circunstâncias críticas, apresentadas na proeza de no mínimo ressoar a dor maior.

 

Referências

CUNHA, Helena Parente. Cem mentiras de verdade, Prêmio Bienal Nestlé de Literatura (Menção Honrosa), José Olimpio Editora, Rio de Janeiro, 1985.

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 Falas e Falares, Editora Mulheres, Santa Catarina, 2012.

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 Cyro de Mattos - Cyro de Mattos é poeta e ficcionista. Premiado no Brasil, México, Itália e Portugal. Publicado por editoras na Europa. Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz (Bahia).


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terça-feira, 25 de abril de 2023

Viva Pernambuco

José Paulo Cavalcanti



Em seu Discurso de Posse na Cadeira 39 da Academia Brasileira de Letras, Marco Maciel declarou que 'Pernambuco é um sol a brilhar no infinito'. Referia-se ao hino de nosso Estado, claro. Mas, também, a uma história que vem de longe e nos orgulha. Em nossa terra, permitam dizer com modéstia bem pernambucana, o Brasil nasceu?

Em um dia como o de amanhã (22 de abril), a data é oficial, o Brasil foi descoberto. Mas seria bom voltar no tempo e ver isso com mais vagar, seja para precisar melhor a data, seja para situar o papel de Pernambuco nesse descobrimento. Em seu Discurso de Posse na Cadeira 39 da Academia Brasileira de Letras, Marco Maciel declarou que 'Pernambuco é um sol a brilhar no infinito'. Referia-se ao hino de nosso Estado, claro. Mas, também, a uma história que vem de longe e nos orgulha. Em nossa terra, permitam dizer com modéstia bem pernambucana, o Brasil nasceu. Quando, em 26/01/1500, Vicente Yáñez Pinzón (por esse feito condecorado pelo rei Fernando II, de Aragão) desembarcou no hoje Cabo de Santo Agostinho, por sua expedição então logo denominado Cabo de Santa Maria da la Consolación. Um ancoradouro natural, onde está o Porto de Suape. Assim que chegou, pronunciou frase que entrou para os livros 'Esse é o lugar de mais luz da terra'. E tudo bem antes do tal 21 de abril.

Trata-se da mais antiga viagem, documentalmente comprovada, ao território nacional. Desde quando a esquadra de suas quatro caravelas partiu de Palos de la Frontera, em 19/11/1499. Tudo como bem descrito pelos cronistas (historiadores) da época, Pietro Martire D'Anghiera e Bartolomeu de las Casas. Não sendo reivindicada pela Espanha, sua posse, apenas por caberem essas terras a Portugal ? em razão do Tratado de Tordesilhas. Dando-se que por ele, de 1494, restaram divididas as terras 'descobertas e por descobrir' a partir de meridiano 370 léguas a oeste da ilha de Santo Antão, no arquipélago de Cabo Verde. A oeste, caberia ao reino de Castela (Espanha). E, a leste, Portugal. Onde estava Pernambuco, descoberto por Pinzon.

Só que nem sempre a descoberta do Brasil foi comemorada nesse 22 de abril. Até 1817, se dava em 3 de maio. Tudo culpa do historiador Gaspar Correia (1495-1561); que imaginava ser, a data, homenagem ao próprio nome dessas terras ? então Ilha de Vera Cruz (e, logo depois, terra de Santa Cruz). Celebrando-se, em dito 3 de maio, o Dia da Santa Cruz. Até quando aqui veio dar a família real, tangida por Junot, general preferido por Napoleão, O filho dileto das vitórias. E, com essa família, veio também a Carta de Pero Vaz de Caminha. Aquela em que pedia ao Rei D. Manuel, O Venturoso, um emprego para seu genro Jorge d'Osoiro. Morrendo Caminha, em Calicute, sem saber que seu pedido, em favor do destrambelhado genro, foi afinal atendido. Sendo, tal carta, lida com atenção pelo padre Manuel Aires de Casal; sabendo-se então, por ela, que o Monte Pascoal foi afinal avistado num 22 de abril. Fosse pouco, a data chegou a ser um feriado nacional. Em boa hora revogado por Getúlio Vargas, junto com outras datas comemorativas, por achar demais tanta folga para os brasileiros.

Mas outras dúvidas persistem. Para o escritor potiguar Lenine Pinto, por exemplo, Cabral chegou ao Brasil em 1500, mas não na Bahia; e, sim, no Rio Grande do Norte. Indicando, com argumentos convincentes, que o Monte Pascoal, primeiro ponto de terras que teria sido avistado por Cabral, simplesmente não é visível a partir do mar. O que viu Cabral, na verdade, teria sido o Pico do Cabugi ? no interior, hoje a uma hora de automóvel do litoral. Um monte que atende perfeitamente, esse Cabugi, à descrição de Cabral. Por ser visto com destaque, ainda hoje, pelos marinheiros. E muitos acreditam nisso. Entre eles, o ministro do STJ Marcelo Navarro.

Em Portugal, também se diz que o primeiro descobridor dessas terras teria sido, na verdade, Duarte Pacheco Pereira, navegador luso que Camões definia como 'Aquiles Lusitano'. Duarte escreveu, em 1505, o livro Esmeraldo de Situ Orbis; indicando que ele próprio teria chegado em algum ponto da costa entre o Maranhão e o Pará, entre novembro e dezembro de 1498; daí se dirigindo ao norte, alcançando a foz do Amazonas e a ilha de Marajó. No livro está que 'É achado nela (na terra descoberta) muito e fino Brasil. Com outras muitas coisas de que os navios nestes reinos vêm grandemente povoados'. Não sendo tornada pública, dita viagem, por saber Portugal que caberiam, as terras, ao Reino de Castela, em razão do Tratado de Tordesilhas (como vimos, de 1494). Sem qualquer outra prova, tudo se baseia somente nesse relato. E muitos, hoje, acreditam que assim aconteceu mesmo. Como o escritor português Miguel Souza Tavares. Fique o registro.

Seja como for, hoje como sempre, é prova de bom gosto e de sabedoria sempre dar vivas a Pernambuco.

P.S. Vênia para louvar nosso estado em uma pequena história. Tudo começou com dona Celina Pina, mulher do doutor Sizenando Carneiro Leão. Antônio, seu filho querido, iria ser doutor pela Sorbonne. A realização de um sonho. No dia da viagem, o Aeroporto dos Guararapes estava cheio com família, empregados, amigos, vizinhos, o mundo inteiro para dar adeus a Toinho. Na hora do embarque, a mãe o chamou para conversar.

Queria lhe dar três conselhos, filho. Um, estude muito para ser o primeiro aluno da classe. Dois, de noite, não saia para beber nem raparigar. Três, e nunca diga a ninguém que nasceu em Pernambuco.

Toinho estranhou.

Minha mãe, os dois primeiros conselhos até entendo, mas esse terceiro?

E ela completou

É por ser muita falta de educação contar vantagem.

Chumbo Gordo, 23/04/2023

 

https://www.academia.org.br/artigos/viva-pernambuco

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José Paulo Cavalcanti - Nono ocupante da Cadeira nº 39, eleito em 25 de novembro de 2021, na sucessão de Marco Maciel e recebido em 10 de junho de 2022 pelo Acadêmico Domício Proença Filho.

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