Total de visualizações de página
segunda-feira, 1 de maio de 2023
domingo, 30 de abril de 2023
Cyro de Mattos Ganha o Prêmio
Literário Casa das Américas 2023
Cyro de
Mattos conquistou o Prêmio Casa das Américas 2023 com o livro Infância com
Bicho e Pesadelo e Outras Histórias, segundo anunciou no dia 28 o diretor Jorge
Fornet da Casa das Américas, em Havana, Cuba. O Prêmio Casa das Américas
consiste no valor de 3000 dólares e a edição do livro premiado em dez mil
exemplares pelo Fondo de Cultura Editorial da Casa das Américas.
Os
escritores e críticos brasileiros Mário Araújo e Clara Dias, junto com a
crítica cubana Ingrid Brioso Riemont, integraram a comissão julgadora dos
livros de ficção publicados em português entre 2020 e 2022. Concorreram 452
candidatos. A Comissão Julgadora decidiu premiar o livro Infância com bicho e
pesadelo (e outras histórias), de Cyro de Mattos, “por ser un libro que absorbe
al lector por sus narraciones poéticas de una inquietante levedad, que cautivan
a quien lee, y que revelan un sorprendente dominio del lenguaje. El volumen
posee una calidad literaria única que refleja la madurez del autor”.
As obras Mesmo
sem saber pra onde, de JR Bellé, e Máquina rubro-negra, de Gustavo
Castanheira, receberam menções nesta categoria de Literatura brasileira. Mais
de 450 candidatos concorreram ao certame na categoria Conto.
Um dos mais
antigos e prestigiados certame de literatura no Continente, tendo atuado
nele como jurado Alejo Carpentier, Mário
Vargas Llosa, Carlos Fuentes, José Saramago, João Ubaldo Ribeiro, o Prêmio
Literário Casa das Américas já foi conquistado pelos brasileiros Oduvaldo Viana
Filho, Ziraldo, Chico Buarque de Holanda, Nélida Piñon, Ledo Ivo, Ângela
Leite, Maria Valéria Rezende, Rubem
Fonseca, Moacyr Scliar e Silviano
Santiago, entre outros.
* * *
sexta-feira, 28 de abril de 2023
Heloísa agora é imortal
Na casa de Machado
de Assis, em recente votação, ninguém estranhou a quantidade de votos obtidos
pela escritora, crítica literária a ensaísta Heloísa Buarque de Hollanda: 34
votos, quase a totalidade dos imortais existentes.
Na vaga nº 30, que
foi lindamente ocupada por Nélida Piñon, a primeira mulher a ser presidente da
Academia (fui o seu Secretário-Geral), Heloísa é uma das principais
formuladoras e compiladoras do pensamento feminista brasileiro. É a décima
mulher imortal da ABL.
A votação, pela
primeira vez, aconteceu utilizando urnas eletrônicas. Consagrou a autora da
coletânea '26 Poetas Hoje' e premiou a professora emérita da Universidade
Federal do Rio de Janeiro, instituição na qual fez o seu doutorado em
literatura brasileira.
Conheci Heloísa por
intermédio da minha madrinha Rachel de Queiroz. Elas eram muito amigas e, na
casa de Rachel, no Leblon, tivemos a oportunidade de um encontro que ficou
marcado para sempre.
Com a morte de
Nélida Piñon, aos 85 anos de vida, abriu-se a vaga na qual Heloísa Buarque de
Hollanda foi eleita. No dia da comemoração, em Copacabana, ela contou que era
prima do cantor Chico Buarque. Com muito orgulho.
São suas palavras:
'a ABL é uma instituição muito poderosa, de muito respeito e prestígio. Está
num momento de abertura, o que muito me encanta. Prometo trabalhar muito na
instituição.'
Depois, lembrou
suas relações com Nélida: 'Era muito sua amiga, frequentava bastante a sua
casa. Vou procurar dar continuidade ao seu trabalho, de defesa da literatura e
das mulheres.' Não deixou de citar o que hoje a ABL faz pela literatura,
particularmente pelos jovens e os escritores das periferias. Daí ter lançado
diversos autores dessas regiões.
O presidente Merval
Pereira destacou aspectos da sua personalidade, a paixão pelo feminismo, onde
pesquisou bastante.
Heloísa é formada
em Letras Clássicas pela PUC/Rio e tem mestrado e doutorado em Literatura pela
UFRJ. E tem pós-doutorado em Sociologia da Cultura na Universidade de Colúmbia
(USA). Hoje, coordena o Laboratório de Tecnologias Sociais, no projeto
Universidade das Quebradas. Um dos seus últimos livros é 'O feminismo como
crítica da cultura', lançado em 1994. E lançou a coleção Pensamento Feminista,
em 2020.
Como se vê, uma
escritora altamente qualificada.
Chumbo Gordo,
26/04/2023
Arnaldo Niskier - Sétimo ocupante da Cadeira nº 18 da ABL,
eleito em 22 de março de 1984, na sucessão de Peregrino Júnior e recebido em 17
de setembro de 1984 pela acadêmica Rachel de Queiroz. Recebeu os acadêmicos
Murilo Melo Filho, Carlos Heitor Cony e Paulo Coelho. Presidiu a Academia
Brasileira de Letras em 1998 e 1999.
* * *
quarta-feira, 26 de abril de 2023
As Metamorfoses de Helena Parente Cunha
A
escritora sensível e criativa observa o real, perscruta-o, parte sempre da
situação concreta para repoetizar a vida na sua rotina feita de abismos e
sonhos. A ficcionista busca um único objetivo, oferecer um aspecto, um gesto,
uma impressão, o instante do desencontro de uma humanidade ínfima, prisioneira
do viver e do sofrer. Da metamorfose literária expressa no texto, concentrada
de emoção e sentimento, a imagem ganha relevo com a cena breve. O fragmento
agudo na trama, implícito de tão vivo, faz-se tangível. Existem em Cem Mentiras
de Verdade alusões líricas, que comovem e encantam. Nas estórias em que entra passarinho, o riso
tem lugar no gesto e jeito de ser do coronel Titino Cravo. Com sabor de
obras-primas, as duas últimas estórias protagonizadas pelo coronel Titino Cravo
são armadas, em seu fino humor, para desarmar o sério do leitor mais
concentrado.
O
descritivo, o factual e o denotativo são componentes que estão sempre nos
contornos da prosa literária, mas não se fazem presentes nestes mini contos de
Cem Mentiras de Verdade. A narrativa de forma objetiva, o diálogo cerrado, o
tempo passado do personagem, ingredientes do conto realista entre nós, com
ressonância até hoje em alguns contistas, não participam das minúsculas verdades, tão bem fingidas no lado
inexplicável da vida. Ausentes de lógica visível, a escrita dessas ficções breves
assenta-se numa pontuação psicológica, conotativa, organizando-se em períodos
diminutos, às vezes se constituindo de uma só palavra. Os termos são
inventados, formas verbais transladam-se em substantivos e advérbios, a língua
torna-se linguagem inventada por quem bem sabe os recursos. Exemplos dessa
linguagem experimentada encontram-se em
neologismos como “brancamanhecido”, “devagarosa”, “sorrindissimamente’,
“infazia”, “atemorecida”, “despresença”, “dessapato”, dentre outros. Assim, a
linguagem com termos inventados torna o contexto mais rico para exprimir o
gesto daquela vida apagada em sua angústia sufocante. Faz-se mais crítica a
metáfora quando em sua abrangência do real estende-se sobre um território
humano a exibir verdade no dia-a-dia de suas misérias subjetivas.
Partindo
sempre do real, a contista atenta ao detalhe, rica de humanidade, não se faz
submissa ao factual, como se a sangue–frio relatasse a vida. Íntima do
fragmento, separa o essencial do acessório, subverte a sintaxe tradicional da
prosa literária e, na expressividade tensa da linguagem, fixa episódios curtos
em sua exígua ambiência interior. Com isso deixa sempre a imagem que serve como
profunda análise vertical da alma humana. Em “O Fim da Tarde”, a mulher prepara
todos os dias a mesa para os dois. Duas cadeiras. Duas xícaras. Duas velas.
Dois castiçais. O jarro com flores. A toalha de linho engomada. A arrumação
convincente. Todas as tardes, sozinha, tomando chá diante do vazio. Em “A Moça
Bonita”, com a sua lindeza, no bonde, olhos nos olhos do rapaz, “simpatia em pé
no estribo”. A nota sofrida no visível. A amiga ajudante. Dentro das botas
ortopédicas, segurando nas muletas. “A moça, com paixão caminhava. Quando
buscou o rapaz, não viu mais. Faltaram-se”. Em “Acordo”, o amor amargo dos
cinquenta e dois anos de vida conjugal. O acordo mostra-se na discórdia
consumada. Quase aos oitenta anos de idade. Decidiram o divórcio.
Oscilando
entre a razão e a emoção é que o real desrealiza-se nestas Cem Mentiras de
Verdade. O imaginário resolve-se com a fidelidade de uma sonda sensível, usada
pela escritora que, num átimo, diz ser o mundo constituído de falhas,
descativante, pende mais para o trauma do que para o verso azul da canção. O
mundo reinventa-se todos os dias no verso inverso das fissuras, o micro atinge
o macro com fragmentos que cortam, ritmando-se com mágoa, tristeza em discursos
brevíssimos, por vezes nem ressoando nos atalhos doloridos da natureza humana.
Em Cem
Mentiras de Verdade, a baiana Helena Parente Cunha prefere a concisão máxima, a
concentração de efeitos para expor drama e poesia extraídos do real. Sem chegar
a ser maldita, em seu compromisso estético e sentimento de mundo, detalha a
vida cotidiana e consegue a proeza da ilusão na síntese. Como Dalton Trevisan,
Luís Vilela, Vander Piroli, Caio Porfírio Carneiro e Ricardo Ramos, dentre
outros contistas do implícito na síntese por excelência, traz em sua escrita a
marca da grande contista. Fala pouco em suas breves verdades fingidas, dizendo
muito sobre o mistério da vida.
Quase trinta anos depois, a autora
volta a exercitar a prosa de ficção breve em Falas e falares, um conjunto de
textos por ela chamado de minicontos. Apresenta a mesma técnica de sugerir o
drama com a concentração dos efeitos, a linguagem veloz, aliciante, que alcança
ritmo galopante em alguns desses textos, como vemos na “Primeira estória de
motorista de táxi”. Encontramos em alguns desses mini contos ou poemas vozes
ecoando vindas da infância, do tempo com dores e desejos, alusões a figuras de mulheres
em seu convívio interior de paisagens, nas quais aves traçam “os desenhos
alados na superfície do ar ...”
Em
narrativas transitando entre Rio, Salvador ou em algum lugar qualquer,
encontramos a sensibilidade delicada da autora, para com sabedoria e arte
inovadora forjar seus textos. Em “O aniversário dele”, flagra os olhos do
menino, “se abrem mais e cabem nos tons amarelos das margaridas e dos
girassóis, papai aqui é a casa do sol.” Em “Fofurinha do papai”, primor de mini
conto, temos esse achado luminoso, em amenidade de linguagem fundamentada na
natureza, quando se diz que “há seres que contam os anos e os séculos e
eclipses do seu mundo interior, você não sabia, as árvores, quanto mais velhas
são, mais jovens serão,”.
Em “Riso de risada ensolarada”, o
leitor é de logo surpreendido em carícia no início com o achado de sonoridades
luminosas, “timbres remotos e inflexões reinventadas e imprevistas ondas que se
expandiam do gabinete do diretor pelos corredores, até as salas de aula,”.
Mini
contos ou poemas, não é preciso procurar muito para saber que Em Cem mentiras
de verdade o tom dos dizeres ressoam para as negações do existir enquanto em
Falas e falares o nível do discurso pende para as afirmações em que nossa precária
condição de ser-estar vai sendo reconhecida com as suas circunstâncias
críticas, apresentadas na proeza de no mínimo ressoar a dor maior.
Referências
CUNHA, Helena Parente. Cem mentiras de verdade, Prêmio
Bienal Nestlé de Literatura (Menção Honrosa), José Olimpio Editora, Rio de
Janeiro, 1985.
----------------------------------
* * *
terça-feira, 25 de abril de 2023
Viva Pernambuco
Em seu Discurso de
Posse na Cadeira 39 da Academia Brasileira de Letras, Marco Maciel declarou que
'Pernambuco é um sol a brilhar no infinito'. Referia-se ao hino de nosso Estado,
claro. Mas, também, a uma história que vem de longe e nos orgulha. Em nossa
terra, permitam dizer com modéstia bem pernambucana, o Brasil nasceu?
Em um dia como o de
amanhã (22 de abril), a data é oficial, o Brasil foi descoberto. Mas seria bom
voltar no tempo e ver isso com mais vagar, seja para precisar melhor a data,
seja para situar o papel de Pernambuco nesse descobrimento. Em seu Discurso de
Posse na Cadeira 39 da Academia Brasileira de Letras, Marco Maciel declarou que
'Pernambuco é um sol a brilhar no infinito'. Referia-se ao hino de nosso
Estado, claro. Mas, também, a uma história que vem de longe e nos orgulha. Em
nossa terra, permitam dizer com modéstia bem pernambucana, o Brasil nasceu.
Quando, em 26/01/1500, Vicente Yáñez Pinzón (por esse feito condecorado pelo
rei Fernando II, de Aragão) desembarcou no hoje Cabo de Santo Agostinho, por
sua expedição então logo denominado Cabo de Santa Maria da la Consolación. Um
ancoradouro natural, onde está o Porto de Suape. Assim que chegou, pronunciou frase
que entrou para os livros 'Esse é o lugar de mais luz da terra'. E tudo bem
antes do tal 21 de abril.
Trata-se da mais
antiga viagem, documentalmente comprovada, ao território nacional. Desde quando
a esquadra de suas quatro caravelas partiu de Palos de la Frontera, em
19/11/1499. Tudo como bem descrito pelos cronistas (historiadores) da época,
Pietro Martire D'Anghiera e Bartolomeu de las Casas. Não sendo reivindicada
pela Espanha, sua posse, apenas por caberem essas terras a Portugal ? em razão
do Tratado de Tordesilhas. Dando-se que por ele, de 1494, restaram divididas as
terras 'descobertas e por descobrir' a partir de meridiano 370 léguas a oeste
da ilha de Santo Antão, no arquipélago de Cabo Verde. A oeste, caberia ao reino
de Castela (Espanha). E, a leste, Portugal. Onde estava Pernambuco, descoberto
por Pinzon.
Só que nem sempre a
descoberta do Brasil foi comemorada nesse 22 de abril. Até 1817, se dava em 3
de maio. Tudo culpa do historiador Gaspar Correia (1495-1561); que imaginava
ser, a data, homenagem ao próprio nome dessas terras ? então Ilha de Vera Cruz
(e, logo depois, terra de Santa Cruz). Celebrando-se, em dito 3 de maio, o Dia
da Santa Cruz. Até quando aqui veio dar a família real, tangida por Junot,
general preferido por Napoleão, O filho dileto das vitórias. E, com essa
família, veio também a Carta de Pero Vaz de Caminha. Aquela em que pedia ao Rei
D. Manuel, O Venturoso, um emprego para seu genro Jorge d'Osoiro. Morrendo
Caminha, em Calicute, sem saber que seu pedido, em favor do destrambelhado
genro, foi afinal atendido. Sendo, tal carta, lida com atenção pelo padre
Manuel Aires de Casal; sabendo-se então, por ela, que o Monte Pascoal foi
afinal avistado num 22 de abril. Fosse pouco, a data chegou a ser um feriado
nacional. Em boa hora revogado por Getúlio Vargas, junto com outras datas
comemorativas, por achar demais tanta folga para os brasileiros.
Mas outras dúvidas
persistem. Para o escritor potiguar Lenine Pinto, por exemplo, Cabral chegou ao
Brasil em 1500, mas não na Bahia; e, sim, no Rio Grande do Norte. Indicando,
com argumentos convincentes, que o Monte Pascoal, primeiro ponto de terras que
teria sido avistado por Cabral, simplesmente não é visível a partir do mar. O
que viu Cabral, na verdade, teria sido o Pico do Cabugi ? no interior, hoje a
uma hora de automóvel do litoral. Um monte que atende perfeitamente, esse
Cabugi, à descrição de Cabral. Por ser visto com destaque, ainda hoje, pelos
marinheiros. E muitos acreditam nisso. Entre eles, o ministro do STJ Marcelo
Navarro.
Em Portugal, também
se diz que o primeiro descobridor dessas terras teria sido, na verdade, Duarte
Pacheco Pereira, navegador luso que Camões definia como 'Aquiles Lusitano'.
Duarte escreveu, em 1505, o livro Esmeraldo de Situ Orbis; indicando que ele
próprio teria chegado em algum ponto da costa entre o Maranhão e o Pará, entre
novembro e dezembro de 1498; daí se dirigindo ao norte, alcançando a foz do
Amazonas e a ilha de Marajó. No livro está que 'É achado nela (na terra
descoberta) muito e fino Brasil. Com outras muitas coisas de que os navios
nestes reinos vêm grandemente povoados'. Não sendo tornada pública, dita
viagem, por saber Portugal que caberiam, as terras, ao Reino de Castela, em
razão do Tratado de Tordesilhas (como vimos, de 1494). Sem qualquer outra
prova, tudo se baseia somente nesse relato. E muitos, hoje, acreditam que assim
aconteceu mesmo. Como o escritor português Miguel Souza Tavares. Fique o
registro.
Seja como for, hoje
como sempre, é prova de bom gosto e de sabedoria sempre dar vivas a Pernambuco.
P.S. Vênia para
louvar nosso estado em uma pequena história. Tudo começou com dona Celina Pina,
mulher do doutor Sizenando Carneiro Leão. Antônio, seu filho querido, iria ser
doutor pela Sorbonne. A realização de um sonho. No dia da viagem, o Aeroporto
dos Guararapes estava cheio com família, empregados, amigos, vizinhos, o mundo
inteiro para dar adeus a Toinho. Na hora do embarque, a mãe o chamou para
conversar.
Queria lhe dar três
conselhos, filho. Um, estude muito para ser o primeiro aluno da classe. Dois,
de noite, não saia para beber nem raparigar. Três, e nunca diga a ninguém que
nasceu em Pernambuco.
Toinho estranhou.
Minha mãe, os dois
primeiros conselhos até entendo, mas esse terceiro?
E ela completou
É por ser muita
falta de educação contar vantagem.
Chumbo Gordo,
23/04/2023
https://www.academia.org.br/artigos/viva-pernambuco
----------------
José Paulo
Cavalcanti - Nono ocupante da Cadeira nº 39, eleito em 25 de
novembro de 2021, na sucessão de Marco Maciel e recebido em 10 de junho de 2022
pelo Acadêmico Domício Proença Filho.
* * *
sábado, 22 de abril de 2023
PORTARIA ACADEMIA DE LETRAS DE ITABUNA – ALITA Nº 03/2023
O Presidente da Academia de Letras de Itabuna – ALITA, no uso de suas atribuições, lastreado no quanto disposto nos Artigos 21a do Regimento Interno /2011 e perante o documento abaixo anexado,
RESOLVE
Art. 1º – Revogar a Portaria ALITA Nº1/2023 e
restaurar os plenos direitos e deveres do acadêmico ocupante da
cadeira nº 09.
Art. 2º – Esta Portaria entra em vigor na data de sua
publicação.
Itabuna, 21 de abril de 2023.
WILSON CAETANO DE JESUS FILHO
PRESIDENTE
————————–
AOS ACADÊMICOS DA ALITA (II) – RILVAN SANTANA
Senhores Confrades:
Eu nasci no interior, em que a palavra era o documento
maior. Nós não sabíamos o que era justiça, delegacia, as contendas eram
resolvidas pelo membro mais velho da família e pelos vizinhos de bom senso.
Hoje, meio dia, a confreira Raquel Rocha me ligou,
informando-me que alguns confrades estão pensando numa “Restauração Judicial”,
peço-lhes que abandonem essa ideia, não quero retornar sob imposição judicial.
Quero voltar se for consenso interno e compreensão e generosidade de todos.
Por isso, peço desculpa pública a Cyro de Mattos e que me
desculpe o filho de Sônia Maron. Digo-lhes que nunca lhes quis mal e nunca
guardei ressentimento. Se lhes ofendi, não o fiz com maldade, mas, no calor da
opinião pessoal. Quando tenho uma opinião, defendo com unhas e dentes aquele
ideal, às vezes, pensamos que não estamos machucando outras pessoas.
Enfim, que os confrades compreendam que nada vale a pena
pela força, mas pelo tolerância, generosidade e amor. Certo da atenção dos
confrades, reitero protestos de estima e apreço.
São Caetano, Itabuna (BA), 19 de abril de 2023
Rilvan Santana
* * *
quinta-feira, 20 de abril de 2023
Capanga de Sonetos é o mais
novo livro de Cyro de Mattos
O AUTOR E O LIVRO
Baiano de
Itabuna, cidade no Sul da Bahia, jornalista com passagem na imprensa do Rio,
advogado aposentado, Cyro de Mattos é autor de mais de 60 livros pessoais,
entre o romance, o conto, o poema, a crônica, o ensaio e a literatura
infantojuvenil. É também editado em Portugal, Itália, França, Alemanha,
Espanha, Dinamarca e Estados Unidos. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e
México. Participa de dezenas de antologias no Brasil e exterior.
Autores da
melhor distinção e a crítica especializada têm ressaltado as qualidades de sua
poética integrada de sensualíssimo lirismo, “que em poemas da mais cristalina
corrente-do-existir dá a beber a precária realidade-de-ser”, como observa Maria
Irene Ramalho, ensaísta portuguesa e doutora em Letras. Mas sua poesia também
irrompe do fundo do homem e das coisas, pulsa em suas raízes como no
cancioneiro motivado pela civilização cacaueira baiana. Nasce, assim, com a
localização de vozes no lugar onde o homem teve origem, vive e morre. Também
revela uma modulação especial, que se constitui em atrativo amoroso no qual
recria o homem inundado do canto inspirado pela união carnal e espiritual com a
mulher para o que der e vier a acontecer. Temos então um comportamento mágico
da palavra, essa eternidade do Verbo naquilo que é “lampejo” existencial,
paixão indizível, que só a Poesia pode reviver e transcender”, como assinala a
ensaísta Nelly Novaes Coelho.
Desprezando
o uso da linguagem com apelos ao ornamento, operada com excessiva sonoridade
verbal, disfarces na sintaxe invertida para gerar efeitos ou daquela revestida
de expressão hermética cifrada, num código que só o autor entende, seus versos
configuram dizeres de um simples poeta do amor, da natureza, dos seres e das
coisas, que se permite retirar da capanga do tempo uma legítima disposição da
alma lírica nas formas da beleza. Nessa condição do poeta legítimo transmite ao
leitor pequenas porções de encantamento, identificando e celebrando a vida
ritmada com novos renascimentos.
Há nesta
capanga de sonetos os de formato tradicional e os de forma reduzida, que
estendem momentos querendo sustar o tempo riscado no instante breve do eterno.
No sopro da ilusão buscam elevar a alma segura de surpresas para ordenar a
existência. Encontramos neles o brilho dos seres e das coisas, da natureza
humana e física quando emite suas vozes e são capturadas na passagem do amor
imaginado com as suas afirmações e negações nas quais permanecemos ou fugimos
durante o tempo em que existimos.
Seis Poemas do Livro Capanga de Sonetos
estes sonetos com o vento fazendo
surpresas nos quintais, em cada instante,
que se cabe no amanhecer cantante.
Vê-se logo, de tudo um pouco tendo,
querem expressar alguns sentimentos
que por dentro e fora ferem momentos
vistos nos seres e coisas do mundo.
A forma neles mostra-se imperfeita,
sem brilho, vem de minha alma sedenta,
distante do engenho da natureza.
Leve o tempo nas asas fuga certa,
eterno encanto no que se sustenta,
em mim são como os vícios da beleza.
Dos Galos
Melhor tê-los nos seus clarins da aurora
quando anunciam claras madrugadas,
observá-los rubros com bico e espora
nas rações benditas, multiplicadas
por mãos de orvalho, telúricas na hora
sem rinha e rude medo das caçadas.
Melhor senti-los nos quintais de outrora
quando escavam o verde das jornadas
do que encontrá-los na multidão roucos,
incolores no alto e, no asfalto, loucos
ou sabê-los solitários nas noites
que passam sempre anônimas e tristes
e vê-los, emudecidos, na sorte
imutável que os tomba para a morte.
Da Flauta Plena
Canções aconteceram quando a vida
em carícia de flauta era sentida.
Agora, zangada, pisa na relva,
emerge nos gritos hostis da selva.
Canções aconteceram quando a vida
em carícia de lenço era tocada.
Tinha aquela música que não ceva
tremores fortes numas folhas de erva.
Ira erra e-l-e-t-r-ô-n-i-c-a de pantera,
telex informa calendas de guerra,
rosas enfermas: água, céu e terra.
Apesar dessas vozes que na cena
Ululam, febris na corrente insana,
Deixo que se vá minha flauta plena.
Do Momento Mágico
Se tudo é logro, sonhar é sabê-lo
em impulso mágico do existir.
Se buscar bem a razão do existir,
termina por encontrar, não o selo
que põe um fim aos problemas da vida,
mas o encantamento, inexplicável, da
poesia. A linguagem é a casa
do ser, a poesia mora na asa.
Com a beleza inspirada pelo sonho,
a palavra emprestada
pelo sonho,
o ser apresenta-se com as vestes da
vida e da morte, e se repete. Nada
fica nos anos, como o vento passamos.
Na solidão desse verso sonhamos.
Da Agonia
Não posso parar a dança que não
descansa numa sinistra pá. Não
posso encontrar a chave dessa porta
no lado de lá. E
porque essa porta
nunca se abre não sei para onde vou,
já não serve o rio que aqui findou.
Cerca-me esse mar triste, a voz assim
calada nada propõe,
sinto em mim
o inexorável de meu ser precário.
Incerto, sem ânimo, provisório.
Indago: se não fosse a poesia,
toda essa agonia como aguentar?
Como existir sem sua companhia?
Entre solidões como me encontrar?
Das Mãos na Goela das Águas
Venho sendo omisso pra refazer
virginais caminhos de água, dizendo
melhor, matei o que era para ser
vivo no seu amanhecer líquido.
Eu me acuso por ser indiferente
ao benefício, sempre abundante,
de água pura que jorrava na fonte,
peixe e rede no orvalho competente.
E como réu confesso que merece
por tão grave delito ser punido,
chegando do que lhe foi natural,
em noite morta, que nunca apetece,
lavro minha sentença, condenado
a viver no abismo do que há no Mal.
* * *



