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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Tempos de Carnaval

Cyro de Mattos

 


O Carnaval no Rio de Janeiro não é o mesmo de Olinda, Recife, Salvador e outras cidades brasileiras. Conservando o elemento comum que os une, a participação coletiva que se extravasa na maior felicidade, o Carnaval no Rio tem na escola de samba sua marca pessoal. Na ópera popular, a se exibir na passarela do asfalto, sobressaem passistas, ritmistas, fantasias, carros alegóricos, samba-enredo, bateria com um grande número de figurantes, alas de baiana e comissões de frente. Figurações diversas que, em sua feição de cores e luxo, impressionam vivamente e deslumbram a quem assiste. A vida dança ritmos ardentes, solta desvairadas vibrações de corpo, cantos e prazeres numa maravilhosa ventura em torno do sonho. Em Olinda e Recife, bonecos gigantescos arrastam multidões sob o ritmo rápido do frevo. Passistas improvisam uma coreografia individual e frenética.

Ao fechar o banco, o escritório, a indústria, o comércio, o Carnaval é sempre o mesmo. Com a sua máquina de fazer alegria, inventar o êxtase e o riso varre as formas de viver do mundo rotineiro, trazendo os ventos da utopia para empurrar a onda humana que canta e pula na avenida. Em Salvador, com ou sem turista, dinheiro ou sem dinheiro, vibra na tanga do índio, na mortalha suada da moça, vocifera, trepida ao som do trio elétrico, mexe, remexe sob a nova dinâmica dos ritmos negros, suaviza a vida quando passa numa onda mística com o bloco “Filhos de Ghandy”.

Serve de extroversão a milhares de pessoas e de fuga aos que preferem à casa de praia ou de campo. Na Quarta-Feira de Cinzas, quando o coral frenético silencia, o carnaval oferece a muitas pessoas uma oportunidade de ganhar o sustento nessa incrível arte da sobrevivência. Muitos nesse Brasil tropical e carnavalesco estão a postos para limpar o lixo da euforia.

Tempo de carnaval. O banco, o escritório, a indústria e o comércio são substituídos por uma máquina de fazer alegria. Em Salvador de Bahia, no antigamente, o corso passava pela Avenida Sete numa maravilhosa ventura em torno do tempo perdido na história.  Improvisava figurações diversas, tinha feições de cores e luxo, inventava uma ópera no desfile do carro alegórico, lembrava a Grécia antiga, Veneza. O êxtase e o riso invadiam a Rua Chile. Começava a acontecer com a guitarra elétrica na fóbica, puxando atrás pequena multidão, formada por gente do povo nos intensos prazeres, vibrações de corpo que insinuavam uma dança frenética. O bar Cacique, antes Bob’s, vizinho ao Cine Guarani e ao cabaré Tabaris, era parada obrigatória do folião para o chope.

      O moço do interior impregnava-se no carnaval com sua forma extrovertida de conceber a vida, não querendo saber do mundo rotineiro. A onda humana fantasiava-se para cantar e dançar na avenida. Blocos antigos, afoxés, batucadas. Na tanga do índio, na mortalha suada da moça, no amor da colombina. A vida era assim embalada pelos ventos da utopia. Movimenta-se serena na onda mística do bloco Filhos de Ghandy.

            Tempo que transformava o branco no preto, o pobre no rico, o sacro no leigo, de mãos dadas passavam o padre e a freira. Não havia vencedores e vencidos, viver era igual a se divertir. O folião, todo alegre, como não devia deixar de ser, seguia pelo salão com a espada de pau. O olho tapado na cara de mau. E a cigana que fingia ser definitivo o seu amor passageiro no carnaval.  O chão cheio de confete, serpentina colorindo o ar, a lança que perfumava a melindrosa em cada volta. Aqueles risos com mais de mil palhaços no salão, pierrô fazendo suas juras, arlequim chorando pelo amor da colombina no meio da multidão. 

            Vestido de marujo o moço do interior, viajando pelo mundo de uma só cor, a da euforia. Na Quarta-Feira de Cinzas, quando o coral silenciava, sem o sopro no apito da alegria, descia da nau, que chegava ao porto, situado no jardim da Piedade. Chegava de madrugada a nau empurrada pelos ventos da alegria, polvilhada de fadiga pela cauda, puxando a manhã fresca e pura.

            Foi nessa viagem gasta na avenida que conhecemos a festa da alegria em Salvador.  Aquele grande alvoroço tive nos dias que eram apenas um cenário de euforia. Lindo marujo, de lá para cá haveria de perceber que sobre outra onda foi rolar o mundo. Na orla nunca soubera por que tudo haveria de acontecer sem agitação um dia, desligado do corpo da juventude, recolhido nos braços de um idoso sem brilho. E, assim, sem cores e sons, fosse levado, em silêncio, pelas marés da nostalgia. 

Ressalte-se que em Itabuna antigamente os vizinhos costumavam colocar cadeiras no passeio para desfiarem um dedo de prosa. Esse costume servia para que estreitassem os laços de amizade, distraindo assim a mente cansada dos afazeres diários. Com a lua clara resvalando sua prata no calçamento, prosseguia a conversa animada entre os vizinhos, geralmente em torno de um assunto interessante ligado à cidade, até quando fosse chegada a hora de se recolherem no sono que descansa e reconforta. Numa dessas conversas entre vizinhos, lá estava seu Zeca, o dono da farmácia, dizendo ao outro que o começo do carnaval na cidade que tropeçava nas pernas remontava ao ano de 1908. A festa naqueles idos era conhecida como “Domingo do Entrudo”.

O dono da farmácia informava que no começo os bailes carnavalescos eram realizados no armazém da rua do comércio ou no Cine Odeon. Com a inauguração do primeiro clube, em 1940, os bailes mudariam de cenário. Durante quatro noites e duas matinês, foliões adultos e pequenos iriam ser acolhidos agora nos salões de um clube. Ao lado do carnaval nas ruas, a folia passava a contagiar no clube os blocos formados por senhores e senhoras, rapazes e moças da elite. De bigode retorcido nas pontas, de braço dado com as esposas, esses senhores sisudos davam voltas contínuas no salão. Bem entusiasmados, não paravam de cantar as marchinhas “Linda Lourinha”, “Pirata da Perna de Pau”, “As Pastorinhas”, “Touradas em Madri”, “Alá-Lá-Ô” e tantas outras que ficaram famosas em nosso cancioneiro popular.

O Carnaval de ontem era do tempo da serpentina, confete e lança perfume só para animar. Era o carnaval da musa colombina, pierrô apaixonado, arlequim sonhador, palhaços que não paravam de brincar e soltar piadas para as moças. Era o Carnaval dos quadros satíricos em que não faltavam fantasias e brincadeiras bobas. Era comum a sátira ser usada por blocos e cordões. Aproveitava-se um fato político, econômico, social ou esportivo com repercussão no ano como assunto engraçado para animar o carnaval.

Pessoas de minha cidade, que pertencem a uma geração mais velha, tem saudade do Carnaval daquele tempo. Uma dessas pessoas é seu Sessa. Funcionário Aposentado do Banco do Brasil, outrora folião dos mais animados, disse certa vez que nunca vai se esquecer daquele palhaço irrequieto e da pastorinha enamorada. Daquele palhaço de calças folgadas e nariz de limão, que não parava de pular e soltar piadas no salão quando a orquestra fazia uma pausa para que os foliões descansassem um pouco.

Já vai longe o tempo em que o carnaval começava cedo, aos sábados. Vestindo calça listrada, sem camisa, usando cartola e fraque, o Zé Pereira aparecia tocando o bombo, com meninos sujos e afoitos atrás. Batia forte no bombo o Zé Pereira, em frente às lojas e armazéns. Já vai longe esse tempo, o Zé Pereira ordenava a toda voz aos comerciantes que fechassem suas portas. É pra já! Cedo a folia vai tomar conta da cidade, ele ordenava.

 

Cyro de Mattos - Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia, Academia de Letras de Ilhéus e Academia de Letras de Itabuna. Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz.

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terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

NADA É PARA LEVAR


 

"Nada é pra levar, tudo é pra comer aqui...

Você já se hospedou em um hotel tudo incluído?

Lembro-me que quando nos registramos naquele imponente resort, eles colocaram uma pulseira verde maçã no nosso pulso. Explicaram-nos que não devíamos perdê-lo, pois ele nos daria acesso a todas as instalações, que com ele podíamos desfrutar de tudo o que havia dessa porta em diante.

E assim foi.

Todos os dias podíamos percorrer aquele lugar incrível e tomar banho em qualquer uma de suas lindas piscinas.

Também me lembro que algumas pessoas preferem ficar no quarto, eu estava me perguntando como é possível que não queiram desfrutar desse presente?

Se já está tudo pago!

Naquele lugar também tínhamos acesso aos diferentes restaurantes que faziam parte do complexo. Havia uma variedade incrível de comidas, sobremesas e bebidas.

Só havia uma regra:

Nada se podia levar, tudo era pra comer lá

Assim é a Vida.

Ao nascer Deus nos coloca uma pulseira chamada Vida

e através dela, temos acesso a este mundo fascinante criado por ELE.

Enquanto o seu coração palpitar, você terá a chance de desfrutar da Vida que Deus lhe dá. Mas tal como aquele resort, neste mundo aplica a mesma regra: Nada é para levar, tudo é para comer aqui

A diferença entre um hotel e um Resort é que o primeiro foi feito apenas para dormir e ficar trancado e o segundo para percorrer e desfrutar.

A Vida não é um hotel!

É um Resort

Por isso, não fique trancado no quarto da sua mente, dos seus problemas, na amargura, na raiva, no medo, na dor ou na preocupação.

Se você está respirando é porque ainda tem a pulseira...

Aproveite hoje tudo de lindo que o Criador colocou para nós:

A natureza,

Um telhado,

Um trabalho,

A companhia de seus entes queridos,

Seus amigos,

Alimento na mesa,

De uma deliciosa sobremesa, uma saudação, um abraço. um beijo, um sorriso, um eu te amo, um eu preciso de você, me perdoe...

Da possibilidade de deixar o passado no passado.

De um eu te perdoo, de um bom descanso e acima de tudo

aproveite, ao vivo!

Porque ninguém viverá por você! ”

 

Na Vida é que você vai usar a pulseira... "em Vida. "

A VIDA NÃO É PARA LEVAR, É PARA COMER AQUI!


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(Recebi via WhatsApp, sem menção de autoria)

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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

À sombra dos escritos em flor

Arnaldo Niskier



Lidaram com o autor de 'Para o Lado de Swan' e a 'À sombra das moças em flor', mesmo sabendo da fama de que a sua obra era considerada 'difícil'?

Como instituição cultural de primeira grandeza, a Academia Brasileira de Letras não poderia deixar de lidar, em certos momentos, com a vida e a obra do renomado escritor francês Marcel Proust. Suas longas frases não assustaram escritores calejados como Alceu Amoroso Lima, José Lins do Rego e a minha estimada Rachel de Queiroz. Lidaram com o autor de 'Para o Lado de Swan' e a 'À sombra das moças em flor', mesmo sabendo da fama de que a sua obra era considerada 'difícil'.

Outros autores, como os amigos Rosa Freire d'Aguiar, minha colega da redação da revista 'Manchete', e Cláudio Aguiar ('O último romance de Proust') trataram do autor dos sete volumes de 'Em busca do tempo perdido' com a propriedade e a competência que deles se esperava. No caso deste último, pernambucano de boa cepa, ele cria, o que pode ser uma notável obra de ficção, um livro em que um contrabandista de obras de arte inglês envia a Olinda três auxiliares com a missão de roubar os manuscritos do que seria o seu último livro. A trama, situada em 1972, segue um caminho cheio de alternâncias ou reviravoltas.

A atual exposição da obra de Proust, revivendo o que aconteceu na Biblioteca Nacional da França, com a apresentação ação de 'Marcel Proust: La Fabrique de l'oeuvre' exibe um mergulho na produção da sua obra-prima, com pinturas, roupas de época e documentos descobertos recentemente. É o que acontece também na Biblioteca Pública de Porto Alegre, com a mostra de documentos, manuscritos e rascunhos do escritor francês.

Além do universo estético do seu tempo, Proust foi um dedicado usuário da pintura e da música, o que valoriza enormemente a sua extraordinária obra. Assim ele passa o tempo todo perguntando se vai ou não começar o seu livro. Quando o leitor se dá conta disso, a leitura já chegou ao fim.

Num primeiro momento, Proust produz sequências de textos isolados. Só organiza a narrativa num segundo momento. E assim ele desenvolve o seu trabalho, como se vê nas suas impressionantes memórias, com as características proustianas de supressões, deslocamentos e corta-cola da sua obra genial. A exposição de Porto Alegre expressa isso de forma bastante competente, como quis o seu curador Gilberto Schwartsman.

Site Chumbo Gordo, 01/02/2023

 https://www.academia.org.br/artigos/sombra-dos-escritos-em-flor

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Arnaldo Niskier - Sétimo ocupante da Cadeira nº 18, eleito em 22 de março de 1984, na sucessão de Peregrino Júnior e recebido em 17 de setembro de 1984 pela acadêmica Rachel de Queiroz. Recebeu os acadêmicos Murilo Melo Filho, Carlos Heitor Cony e Paulo Coelho. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 1998 e 1999.

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Legião Urbana - Perfeição

terça-feira, 31 de janeiro de 2023

Entre 90 e 190

Ignácio de Loyola Brandão

 


Mil Yanomami subnutridos, mais 700 mil mortos pela covid. Não é genocídio?

Difícil não foi ter descoberto a doença, mas sim ter dado com ela tardiamente, obrigando-me a mudar rotinas, vícios, hábitos aos 86 anos. Principalmente vícios, manias. Dizem que tudo se ajeita com boa vontade. Apontem um ser humano que tenha a noção absoluta de boa vontade. Ou não acredito na humanidade?

Agora, com a diabete, ou o diabetes - acho pernóstico este modo de dizer - tive de me adaptar a um aparelhinho que fica grudado em mim, a fim de

medir os níveis de glicemia. O médico me deu os limites considerados normais e recomendou a medição pela manhã, antes do almoço, antes do jantar, no final da noite. Ao menos nos primeiros tempos. Os amigos Vera e Márcio, garantiram ser uma tranquilidade, pode-se viver uma vida normal com diabete. O que é vida normal? Aquele aparelho grudado em minha pele é um dedo-duro do bem. Mudou meu ritmo. E virou vício. Todos lemos livros distópicos em que seres humanos são controlados pela tecnologia. Assim me considero vivendo, comandado por um pequeno círculo, quase uma tatuagem.

Tomei um suco. Pode? Levo o sensor ao braço, 111. Posso. Alívio. Como um lanche na padaria com pão branco. O sensor acusa 176. Epa! Próximo ao limite de 190 que o doutor Ophir recomendou.

Doce? Passo longe. Nunca mais comi doce de leite de Viçosa, doce de abóbora ou batata doce de lanchonete de estrada, manjar branco com calda, pão de ló, bolo de rolo que a Maria Eduarda Brennand me manda do Recife, cocada branca. Foi comer e o sensor bater no 240 e tantos. Paniquei.

Como este sensor é caro, uso dois por mês, recorro a outro mais barato, que me pica o dedo, transfiro o sangue para uma plaquinha que revela o Índice. Entre um e outro há sempre uma diferença. O do sangue é sempre mais alto. E. . . ?

Vivo na gangorra. Medi, deu 78, ameaça de hipoglicemia, desmaio, como uma barrinha. Outra vez, deu 65, pavor, comi um chocolatinho. Normalizou. Poder comer para combatera hipoglicemia devia me dar prazer. Ao contrário, angustia. Mas este mundo é louco mesmo. Nunca mais comi massa, o que adoro, principalmente um Carbonara. Numa revolta, outro dia comi. Bebi duas taças de vinho. Depois medi. 122. Impossível. Desconfiei do reloginho. Não se pode viver desconfiado. Troquei o aparelho. Igual. Consulto ene vezes por dia, mas vivo bem. Sonho com números, 132, 176, 192, 214, 98, 76, 149 - aliás dá tanto 149, que não sei explicar. Nem são números para apostar na Mega Sena. Números.

Lembrei-me de O Homem Que Calculava, de Malba Tahan, ainda um livro curioso. Ele era feliz. Só estou feliz entre 90 e 190. Mas, e se der pane no aparelho. . . ? Mas estou vivo, e bem. Reclamar do quê?

O Estado de S. Paulo, 29/01/2023

 

https://www.academia.org.br/artigos/entre-90-e-190

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Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.


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segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

TREM VAZIO PASSANDO APÓS SAIR DA DESVIADA GANHANDO VELOCIDADE NA SUBIDA ...

Na Onda do Carnaval

Cyro de Mattos


 

             Onda humana que se movimenta com vibração incontida. Elimina-se a repressão, a solidão e a tristeza. A vida sob a pulsação rotineira dá lugar à liberdade de atitudes eróticas e críticas. O Rei Momo instaura o reinado da alegria, decreta que as formas usuais do viver sejam substituídas pelo mundo do sonho. O tom maior da euforia manifesta-se em ladeiras, praças e becos, em torno do reinado da alegria o preto torna-se branco, o masculino vira feminino, o pobre igual ao rico.

           O Carnaval no Rio de Janeiro não é o mesmo de Olinda, Recife, Salvador e outras cidades brasileiras. Conservando o elemento comum que os une, a participação coletiva que se extravasa na maior felicidade, o Carnaval no Rio tem na escola de samba sua marca pessoal. Na ópera popular, a se exibir na passarela do asfalto, sobressaem passistas, ritmistas, fantasias, carros alegóricos, samba-enredo, bateria com um grande número de figurantes, alas de baiana e comissões de frente. Figurações diversas que, em sua feição de cores e luxo, impressionam vivamente e deslumbram a quem assiste. A vida dança ritmos ardentes, solta desvairadas vibrações de corpo, cantos e prazeres numa maravilhosa ventura em torno do sonho. Em Olinda e Recife, bonecos gigantescos arrastam multidões sob o ritmo rápido do frevo. Passistas improvisam uma coreografia individual e frenética.

          Ao fechar o banco, o escritório, a indústria, o comércio, o Carnaval é sempre o mesmo. Com a sua máquina de fazer alegria, inventar o êxtase e o riso varre as formas de viver do mundo rotineiro, trazendo os ventos da utopia para empurrar a onda humana que canta e pula na avenida. Em Salvador, com ou sem turista, dinheiro ou sem dinheiro, vibra na tanga do índio, na mortalha suada da moça, vocifera, trepida ao som do trio elétrico, mexe, remexe sob a nova dinâmica dos ritmos negros, suaviza a vida quando passa numa onda mística com o bloco “Filhos de Ghandy”. Serve de extroversão a milhares de pessoas e de fuga aos que preferem à casa de praia ou de campo.

          Na quarta-feira de cinzas, quando o coral frenético silencia, o carnaval oferece a muitas pessoas uma oportunidade de ganhar o sustento nessa incrível arte da sobrevivência. Muitos nesse Brasil tropical e carnavalesco estão a postos para limpar o lixo da euforia.

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 Cyro de Mattos é escritor e poeta. Membro Titular da Academia de Letras da Bahia e do Pen Clube do Brasil. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz.

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