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domingo, 25 de dezembro de 2022

Eu creio nessa manhã

Cyro de Mattos


 (Querido amigo Alfredo Com o poema do anexo, lembrando o querido amigo,  venho desejar-lhe um Natal de paz, saúde, alegria com poesia.

Abraço afetivo. Cyro )



Por que os homens

Amam a droga

E não da abelha

Os favos de mel?

 

Por que os homens

Amam as balas

E não a paz

Sem nenhum fuzil?

 

Por que os homens

Só enxergam o chão

E não a estrela

Em seus caminhos?

 

Por que os homens

Perfuram a rosa

Com a ponta aguda

E mais dura do espinho?

 

Viver amargos, sozinhos,

Viver nos escombros,

Viver na vida desigual,

É do que os homens gostam?

 

Mas eu creio nessa manhã

Anunciada pelo menino

Nascido na manjedoura.

No brilho dessa estrela                     

Espalhando o amor no chão.

 

Eu gosto de ouvir nesta hora

Essa canção que me afaga

Falando duma união geral,

Que viver vale a pena

Quando a vida é uma dança.

 

Com os homens como irmãos

No doce fruto da ternura,

No doce fruto da alegria

Sorrindo como criança.

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Cyro de Mattos - Cyro de Mattos é escritor e poeta. Membro Titular da Academia de Letras da Bahia e do Pen Clube do Brasil. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Um dos idealizadores da Academia de Letras de Itabuna (ALITA).

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Os sonhos de Nélida

Arnaldo Niskier



Foi uma amizade de muitos anos. É grande, pois, a dor sentida pela perda da escritora Nélida Piñon, que faleceu em Portugal, aos 85 anos de vida.

Tive o privilégio de ser o seu vice-presidente, na ABL, em 1997. Quantas ideias criativas e generosas, na primeira gestão de uma mulher à frente da Casa de Machado de Assis. Lembro que as bem sucedidas visitas guiadas nasceram da sua imaginação. E muitas outras profícuas iniciativas.

Autora consagrada de 'A República dos Sonhos', Nélida escreveu mais de 20 livros, todos com bela repercussão inclusive internacional. Doou ao seu amado Instituto Cervantes mais de 7 mil livros e documentos. Hoje, enriquece um belíssimo acervo que fica no bairro de Botafogo.

Ela foi uma intransigente defensora dos direitos humanos, especialmente das mulheres e dos negros. Escreveu sistematicamente sobre isso.

E amou seus cachorrinhos, o primeiro dos quais foi o famoso pinscher Gravetinho Piñon e, depois, vieram a pinscher Susy e a chihuahua Pilara Piñon, com os quais, inclusive, viajou para diversos países. Sua cultura era um poderoso misto de galego e português.

Fomos amigos por mais de 30 anos. Ela era formada em jornalismo pela PUC-Rio, com obras espalhadas por cerca de 30 países. Carioca, teve também um grande apreço pela sua descendência espanhola. Costumava se pintar antes de se apresentar e vestir sua melhor roupa. Era um ritual que sempre respeitava, com toda solenidade. Foi uma escritora de vários estilos, como demonstrou no seu clássico 'Vozes do deserto'. Sua paixão pela literatura veio desde cedo. E, assim, ganhou o Prêmio Príncipe de Astúrias, além de dois Prêmios Jabuti.

Pode-se registrar na sua rica biografia uma amizade relevante com famosos escritores como Gabriel Garcia Marques e Mário Vargas Llosa, com os quais costumava sempre se corresponder. Dizia que 'os livros nasceram pra viajar'. E ela ia com eles, espalhando suas ideias pelo mundo.

A perda de Nélida Piñon não é sentida apenas pela ABL, mas pelo país de um modo geral, pois ela foi uma figura muito querida. Sempre demonstrou solidariedade com os que sofrem, especialmente em nosso país.

Site Chumbo Gordo, 23/12/2022

 

https://www.academia.org.br/artigos/os-sonhos-de-nelida

 

Arnaldo Niskier - Sétimo ocupante da Cadeira nº 18 da ABL, eleito em 22 de março de 1984, na sucessão de Peregrino Júnior e recebido em 17 de setembro de 1984 pela acadêmica Rachel de Queiroz. Recebeu os acadêmicos Murilo Melo Filho, Carlos Heitor Cony e Paulo Coelho. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 1998 e 1999

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sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

Saudação de Final de Ano - Mensagem do Comandante do Exército Brasileiro

A Zanga e o Sorriso de Papai Noel

                               Cyro de Mattos



Barba branca, cabelos compridos, brilhantes, sedosos. Botas pretas, folgadas, cetim vistoso encarnado no vermelho.
Sorriso, abraço, ritual de arminho inocente, peito venturoso em carícia do velhinho bondoso.  
Saco enorme de brinquedos. Véspera de Natal, o shopping com suas ondas de gente, vindo pra cá, indo pra lá. Escadas rolantes, subindo, descendo. 
A cidade inteira em festa.
Guardador de ternas surpresas, a criançada em volta.
Foto, sorriso gordo, magia branca de velho pacífico.
Sorria, meu bom velhinho, sorria.
O que está acontecendo?
Nada de sorrir. Cansado do mesmo gesto, todos os anos.
Alegria para os outros, para ele não, nada de prometerem um presente para fazê-lo sorrir.
Aprisionado o célebre sorriso, rô, rô, rô...
Sem dar o abraço fraterno, aquecer o pequeno coração.
Rosto abraçado ao rancor.
Uma criança teve medo. Outra chorou. Teve uma que fugiu estabanada.
Até que uma chegou junto. Deu-lhe um abraço, fervoroso.  Um beijo.
Disse:
- Feliz Natal, Papai Noel!
Comovido. Olhos azuis aguados.
Como num berço quente.
Abraçou uma a uma.
Tirou fotos, sorriso sereno.
Rô, rô, rô...
O Natal com cheiro de estábulo.
Retomado nos ares cativantes.
Sorridentes. Festivos.  

 

Cyro de Mattos é ficcionista e poeta. Membro titular da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz.

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quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

Uma Nota Triste

Cyro de Mattos



            Lamento informar o falecimento de meu amigo, um conferencista magnífico, eterno mestre, Professor Hélio Rocha, aos 99 anos e quase nove meses, ocorrido na tarde de ontem. Ele era uma enciclopédia de saber, de tudo falava, e bem, seduzia com suas conferências intercaladas com palmas entusiasmadas da plateia.
           Editor da revista Afirmação, na qual colaborei com João de Goes Berbert, Renato Prata, Orlando Sena, Caetano Veloso, Noênio Spínola, Ildásio Tavares e tantos outros jovens intelectuais que nos idos de 60 frequentavam a Livraria Civilização na Rua Chile, como se comparecessem a um lugar abençoado em busca de verdades nos livros de autores renomados.
Foi professor a vida inteira, não teve outra atividade, amoldou a consciência de várias gerações. Uma pessoa digna do nome intelectual e da denominação de mestre do ensino, um homem simples e prestativo. Participei do documentário sobre sua vida realizado pelo cineasta Cícero Bathomarco. Quanta honra prestar depoimento sobre uma pessoa que muito contribuiu para a minha formação de escritor.
           Aprimorou o sentimento de mundo de várias gerações. Um conferencista iluminado, notável artista da oratória e da escrita, um profissional da inteligência, uma pessoa decentíssima.
 Sobre esse ícone do ensino na Bahia, ficará na memória o seu exercício de professor docente, como se fosse um iluminista contemporâneo. As suas aulas não se limitavam ao adorno da pompa do conhecimento, ao âmbito da mera informação do conteúdo, à limitada e repetitiva transmissão de saberes.  Como se referiu o professor Jorge Portugal, “HÉLIO informava e formava. Fosse nas salas da UFBA e UnB, fosse numa sala de cursinho pré-vestibular.” Falava de literatura, história, política, pintura, música, teatro, e principalmente de filosofia, sempre com profundidade e elegância. Jazz e música clássica foram duas de suas predileções para enriquecer o espírito.
             Ele estará sempre em nosso convívio, os que tiveram a sorte de conhecê-lo e se tornar gente através de seus exemplares ensinamentos.  Nossa amizade nasceu em 1959, a ele devo uma porção de minha formação intelectual. O sepultamento será hoje, às 16 horas, no Cemitério Jardim da Saudade, em Salvador.

 

Cyro de Mattos - Cyro de Mattos é escritor e poeta. Membro Titular da Academia de Letras da Bahia e do Pen Clube do Brasil. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Um dos idealizadores da Academia de Letras de Itabuna (ALITA).

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terça-feira, 20 de dezembro de 2022

                   Emmo Duarte e Seu 

              Porto de Esperança

                                Cyro de Mattos

 


          Nas antologias Itabuna, Chão de Minhas Raízes, Editora Oficina do Livro, Salvador, 1966, e Ilhéus de Poetas e Prosadores, Edição da Fundação Cultural da Bahia, Coleção Letras da Bahia, Salvador, 1998, incluí os trechos Uma Progressista Cidade e Doutor Corumbá, extraídos do romance Porto de Esperança, de Emmo Duarte. Ambas as antologias têm meu prefácio, notas e seleção de texto. Como o poeta Sosígenes Costa, Emmo Duarte nasceu na cidade de Belmonte, Sul da Bahia, vindo ao mundo em 30 de outubro de 1920. 

          Passou sua infância em Ilhéus, foi homem de imprensa com trânsito por Salvador, Maceió, Recife e Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro onde também exerceu a advocacia.  Traduziu ensaios sobre Graham Greene, William Faulkner e o romance Os Donos do Orvalho, do haitiano Jacques Romain, um belo livro de ficção engajada, de fundo telúrico, sem distorções entre o estético e o realismo da vida como ela é, com suas verdades reveladas através de notas pungentes, cruas pinceladas da realidade exterior, tocada pelos quadros formados entre opressores e oprimidos, estes como personagens relegados ao sabor da sorte enquanto seres excluídos pela dura lei da vida.

          Em Porto de Esperança, o belmontino Emmo Duarte mostra em passagens irreverentes a alma lírica da cidade de Ilhéus, conta as histórias inspiradas pelo seu antigo porto exportador de cacau para o mundo.  Em cenário bem construído, faz desfilar personagens que vivem o cotidiano da cidade, movimentada com seus navios chegando e partindo, as longas conversas nos bares, cafés, casas de mulheres e jornais. 

         O romance Porto de Esperança sugere a ambiência realista retratada nos livros A Comédia Humana, de Willian Saroyan, e Winesburg, Ohio, de Sherwood Anderson, a verdade de cada um expressa por tipos grotescos produzidos nas relações advindas do cotidiano. Focado na realidade exterior, o eixo romanesco do livro desdobra-se sem forçar as cenas marcadas de amargura, fixadas nas frustrações flagradas de uma pequena cidade com suas esperanças que se propagam como sonhos nunca alcançados.

          Emmo Duarte deixou inédito o romance O Rei do Cacau e, em andamento, O País de Belmonte.

 

Adendo: quanto ao poeta Jacinta Passos, recomendo consultar o Portal de Poetas Ibero-Americanos editado por Antônio Miranda, que traz uma síntese biográfica da poeta baiana de Cruz das Almas, acompanhada de um conjunto de poesias, que dão uma imagem suficiente de um poeta com o estro apurado, estilo configurado nos moldes modernistas quando então o conteúdo de seus veros reveste-se de assunto do nosso folclore e do cancioneiro popular. 

 

Cyro de Mattos é ficcionista e poeta. Também editado no exterior. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris  Causa da UESC.

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