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sexta-feira, 23 de dezembro de 2022
A Zanga e o Sorriso de Papai Noel
Cyro de Mattos
Sorriso, abraço, ritual de arminho inocente, peito venturoso em carícia do velhinho bondoso.
Saco enorme de brinquedos. Véspera de Natal, o shopping com suas ondas de gente, vindo pra cá, indo pra lá. Escadas rolantes, subindo, descendo.
A cidade inteira em festa.
Guardador de ternas surpresas, a criançada em volta.
Foto, sorriso gordo, magia branca de velho pacífico.
Sorria, meu bom velhinho, sorria.
O que está acontecendo?
Nada de sorrir. Cansado do mesmo gesto, todos os anos.
Alegria para os outros, para ele não, nada de prometerem um presente para fazê-lo sorrir.
Aprisionado o célebre sorriso, rô, rô, rô...
Sem dar o abraço fraterno, aquecer o pequeno coração.
Rosto abraçado ao rancor.
Uma criança teve medo. Outra chorou. Teve uma que fugiu estabanada.
Até que uma chegou junto. Deu-lhe um abraço, fervoroso. Um beijo.
Disse:
- Feliz Natal, Papai Noel!
Comovido. Olhos azuis aguados.
Como num berço quente.
Abraçou uma a uma.
Tirou fotos, sorriso sereno.
Rô, rô, rô...
O Natal com cheiro de estábulo.
Retomado nos ares cativantes.
Sorridentes. Festivos.
Cyro de Mattos é ficcionista e poeta. Membro titular da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz.
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quinta-feira, 22 de dezembro de 2022
Uma Nota Triste
Cyro de Mattos
Lamento informar o falecimento de meu amigo, um conferencista magnífico, eterno mestre, Professor Hélio Rocha, aos 99 anos e quase nove meses, ocorrido na tarde de ontem. Ele era uma enciclopédia de saber, de tudo falava, e bem, seduzia com suas conferências intercaladas com palmas entusiasmadas da plateia.Editor da revista Afirmação, na qual colaborei com João de Goes Berbert, Renato Prata, Orlando Sena, Caetano Veloso, Noênio Spínola, Ildásio Tavares e tantos outros jovens intelectuais que nos idos de 60 frequentavam a Livraria Civilização na Rua Chile, como se comparecessem a um lugar abençoado em busca de verdades nos livros de autores renomados.
Foi professor a vida inteira, não teve outra atividade, amoldou a consciência de várias gerações. Uma pessoa digna do nome intelectual e da denominação de mestre do ensino, um homem simples e prestativo. Participei do documentário sobre sua vida realizado pelo cineasta Cícero Bathomarco. Quanta honra prestar depoimento sobre uma pessoa que muito contribuiu para a minha formação de escritor.
Aprimorou o sentimento de mundo de várias gerações. Um conferencista iluminado, notável artista da oratória e da escrita, um profissional da inteligência, uma pessoa decentíssima.
Sobre esse ícone do ensino na Bahia, ficará na memória o seu exercício de professor docente, como se fosse um iluminista contemporâneo. As suas aulas não se limitavam ao adorno da pompa do conhecimento, ao âmbito da mera informação do conteúdo, à limitada e repetitiva transmissão de saberes. Como se referiu o professor Jorge Portugal, “HÉLIO informava e formava. Fosse nas salas da UFBA e UnB, fosse numa sala de cursinho pré-vestibular.” Falava de literatura, história, política, pintura, música, teatro, e principalmente de filosofia, sempre com profundidade e elegância. Jazz e música clássica foram duas de suas predileções para enriquecer o espírito.
Ele estará sempre em nosso convívio, os que tiveram a sorte de conhecê-lo e se tornar gente através de seus exemplares ensinamentos. Nossa amizade nasceu em 1959, a ele devo uma porção de minha formação intelectual. O sepultamento será hoje, às 16 horas, no Cemitério Jardim da Saudade, em Salvador.
Cyro de Mattos - Cyro de Mattos é escritor e poeta. Membro
Titular da Academia de Letras da Bahia e do Pen Clube do Brasil. Primeiro
Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Um dos
idealizadores da Academia de Letras de Itabuna (ALITA).
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terça-feira, 20 de dezembro de 2022
Emmo Duarte e Seu
Porto de Esperança
Cyro de Mattos
Nas
antologias Itabuna, Chão de Minhas Raízes, Editora Oficina do Livro, Salvador,
1966, e Ilhéus de Poetas e Prosadores, Edição da Fundação Cultural da Bahia,
Coleção Letras da Bahia, Salvador, 1998, incluí os trechos Uma Progressista
Cidade e Doutor Corumbá, extraídos do romance Porto de Esperança, de Emmo
Duarte. Ambas as antologias têm meu prefácio, notas e seleção de texto. Como o
poeta Sosígenes Costa, Emmo Duarte nasceu na cidade de Belmonte, Sul da Bahia,
vindo ao mundo em 30 de outubro de 1920.
Passou sua infância em Ilhéus, foi
homem de imprensa com trânsito por Salvador, Maceió, Recife e Porto Alegre, São
Paulo e Rio de Janeiro onde também exerceu a advocacia. Traduziu ensaios sobre Graham Greene, William
Faulkner e o romance Os Donos do Orvalho, do haitiano Jacques Romain, um belo
livro de ficção engajada, de fundo telúrico, sem distorções entre o estético e
o realismo da vida como ela é, com suas verdades reveladas através de notas
pungentes, cruas pinceladas da realidade exterior, tocada pelos quadros
formados entre opressores e oprimidos, estes como personagens relegados ao
sabor da sorte enquanto seres excluídos pela dura lei da vida.
Em Porto de
Esperança, o belmontino Emmo Duarte mostra em passagens irreverentes a alma
lírica da cidade de Ilhéus, conta as histórias inspiradas pelo seu antigo porto
exportador de cacau para o mundo. Em
cenário bem construído, faz desfilar personagens que vivem o cotidiano da
cidade, movimentada com seus navios chegando e partindo, as longas conversas
nos bares, cafés, casas de mulheres e jornais.
O romance
Porto de Esperança sugere a ambiência realista retratada nos livros A Comédia
Humana, de Willian Saroyan, e Winesburg, Ohio, de Sherwood Anderson, a verdade
de cada um expressa por tipos grotescos produzidos nas relações advindas do
cotidiano. Focado na realidade exterior, o eixo romanesco do livro desdobra-se
sem forçar as cenas marcadas de amargura, fixadas nas frustrações flagradas de
uma pequena cidade com suas esperanças que se propagam como sonhos nunca
alcançados.
Emmo Duarte
deixou inédito o romance O Rei do Cacau e, em andamento, O País de Belmonte.
Adendo: quanto ao poeta Jacinta Passos, recomendo
consultar o Portal de Poetas Ibero-Americanos editado por Antônio Miranda, que
traz uma síntese biográfica da poeta baiana de Cruz das Almas, acompanhada de
um conjunto de poesias, que dão uma imagem suficiente de um poeta com o estro
apurado, estilo configurado nos moldes modernistas quando então o conteúdo de seus
veros reveste-se de assunto do nosso folclore e do cancioneiro popular.
Cyro de Mattos é ficcionista e poeta. Também editado no exterior. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa da UESC.
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quinta-feira, 15 de dezembro de 2022
terça-feira, 13 de dezembro de 2022
sexta-feira, 9 de dezembro de 2022
República Pinapá do Piripicado
novo romance de Cyro de Mattos
Acaba de ser publicado pela Editora Via Litterarum, o romance transgressivo República Pinapá do Piripicado, de Cyro de mattos, com capa do pintor e escultor Goca Moreno, no qual o autor quebra todas as regras do romance tradicional com a história narrada com princípio, meio e fim, pondo no seu lugar o uso de uma linguagem gráfico visual mesclada com o dialogismo extraído do cotidiano com vozes populares que não se calam, no seu comportamento espontâneo revelam-se na crítica da vida marcada de mazelas, distorções sociais e atitudes políticas absurdas.
O grande personagem é o povo que se define através de vozes nos comentários e
mensagens jocosas sobre o cotidiano da vida, nas críticas sobre corrupções de
políticos, que fazem do poder fonte inesgotável de sua ganância para o
enriquecimento ilícito. Há aqui cenas de causar pena vividas por uma
gente esquecida, relegada na camada inferior da vida, ao sabor da sorte, como
as do menino que é roubado no troco, dividido depois, longe de seus olhos, pelo
feirante com o guarda. E as do pastor que anda na feira sozinho, cambaleia com
sede e fome, carrega no pensamento contrito sua crença em Jesus, o salvador da
humanidade, mas que termina por sucumbir ante a indiferença e o repúdio dos
outros.
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