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segunda-feira, 26 de setembro de 2022
DITADURA CONTRATADA
J R Guzzo
Lula usa os
tribunais superiores como o seu escritório de advocacia, para mantê-lo do lado
de fora da cadeia, ou como seu Congresso particular
O Brasil já teve
todo o tipo de eleições para presidente da República ao longo de sua história;
teve também todo tipo de candidatos, alguns deles espetacularmente ruins. Mas
nunca teve como agora um candidato, e um lado das forças políticas, prometendo
abertamente impor uma ditadura neste país. Lula anuncia, da maneira mais clara
possível, que vai implantar a censura nos meios de comunicação — o que ele
chama de “controle social da mídia”, um instrumento que tem como finalidade
única impedir que sejam publicadas quaisquer notícias ou opiniões que o governo
e o PT não aprovarem. É um clássico de todas as tiranias — e algo que não
existe em nenhuma democracia. Ele mostra, desde já, como vai utilizar esse
controle. Proibiu, via seus agentes no TSE, a publicação de imagens das imensas
manifestações populares do Dia Sete de Setembro, quando mais de 1 milhão de
brasileiros foram para as ruas em apoio ao seu único adversário real na
eleição. Proibiu que fossem exibidas fotos ou vídeos de sua visita a Londres
para participar dos funerais da Rainha Elizabeth II. Proibiu que a mulher do
presidente apareça na sua campanha eleitoral na televisão. Proibiu que seja
divulgada uma frase que ele mesmo, Lula, disse: “O agronegócio é fascista”.
Proibiu tudo isso, mais um monte de coisas, e nem está ainda no governo.
Imagine-se o que vai fazer se chegar lá. É uma ditadura que já está contratada.
Não se está falando
aqui daquelas velhas ditaduras bananeiras com generais de óculos escuros e
peito coberto de medalhas. Também não é uma ditadura comunista, ou
“socialista”, como se diz hoje — porque isso não se faz mais, simplesmente, e
sobretudo porque os ricos só vão ficar mais ricos ainda com Lula, e a pobrada
só vai continuar tendo contato com a vida deles para servir na equipe de
segurança ou como motoboy do delivery de pizza. Ninguém vai fechar Congresso
nenhum, é obvio — para quê? Câmara e Senado vão estar numa briga de foice para
ver quem se ajoelha mais depressa diante do presidente. Mais óbvio ainda: o
Supremo Tribunal Federal ficará exatamente como está, com as suas lagostas, as
suas áreas exclusivas de embarque, os seus Barrosos e os seus Moraes e etc.
etc. Vai ser, na verdade, o principal ponto de apoio à ditadura, como Lula vai
ser o principal garantidor da sobrevivência deste STF que está aí. Se os
ministros já estão rasgando a Constituição agora, todos os dias, para levar
Lula ao governo, por que raios iriam criar problema com ele? Não é, em suma,
nenhum desses tipos de ditadura. É apenas ditadura.
O que Lula está fazendo agora, aos olhos de todo o mundo, é a prova mais evidente daquilo que de fato ele quer para o Brasil. O candidato do PT, da “esquerda” e dos milionários fixados na ideia de continuar enriquecendo às custas do erário público transformou STF, TSE e a maior parte das alturas do poder judiciário numa espécie de porta giratória. Usa os tribunais superiores como o seu escritório de advocacia, para mantê-lo do lado de fora da cadeia, ou como seu Congresso particular, para a aprovação de tudo o que quer — e, no movimento inverso, é usado pelos ministros para fazer o que eles, ministros, desejam que seja feito. Há alguma dúvida de como essas relações vão ser num governo de Lula? Alguém acha que ele estará sujeito a qualquer controle da justiça? Se já é assim hoje, como será amanhã, então — principalmente quando se considera que Lula, caso eleito, vai nomear os próximos membros do Supremo e uma penca de ministros dos outros galhos mais altos do poder judiciário? Não pode haver comprovação mais clara de uma ditadura: um presidente que não tenha de prestar contas à justiça. Na vigência do Ato Institucional N° 5, as decisões do regime militar não podiam ser submetidas à apreciação judicial. É exatamente o que acontece hoje com Lula, na prática. Nada do que ele faz pode ser submetido à apreciação de juiz nenhum — e, se for, não vai fazer diferença nenhuma, porque lá em cima eles resolvem. Lula já ganhou do STF, para se ficar apenas no exemplo mais demente desta parceria, a anulação das quatro ações penais que existiam contra ele, inclusive a sua condenação à cadeia pelos crimes de corrupção passiva e de lavagem de dinheiro. Por que seria diferente se ele for para a Presidência? Haverá algum acesso de imparcialidade, de repente, por parte dos atuais sócios?
A ditadura
anunciada de Lula não se limita à extinção do alto poder judiciário como
entidade independente e nem a eliminação da liberdade de imprensa
Tão destrutivo para
a democracia quanto este incesto entre os poderes Executivo e Judiciário é o
ataque sem descanso, e cada vez mais raivoso, que Lula, o PT e o seu entorno
fazem contra a liberdade de expressão. Há um jornalista de “direita” no exílio,
e outro que já foi preso, por conta do ministro Alexandre Moraes — um dos mais
agressivos militantes da nova ditadura de “esquerda”. Já usam, há muito tempo,
os seus parceiros no YouTube, Twitter, Facebook e demais gigantes americanos
que controlam a comunicação pelas redes sociais para perseguir adversários e
censurar opiniões que desaprovam. Em parceria com a mesma justiça descrita
acima, caçam a palavra dos que têm opinião política diferente — e
“desmonetizam” suas vítimas bloqueando a remuneração que deveriam receber pelo
trabalho que fazem nas redes, numa das mais odiosas formas de opressão já
postas em execução pela militância lulista. Pressionam as empresas privadas
para que não anunciem em veículos de imprensa da sua “lista negra”. Estão,
neste momento, fazendo tudo o que têm de pior para calar o mais importante
programa jornalístico independente da rádio brasileira — “Os Pingos nos Is”, da
Jovem Pan. (Leia a matéria “Pandemia de intolerância” desta edição.) Exigem
algo que absolutamente não existe em relação a nenhum outro órgão de
comunicação no Brasil, ou no mundo democrático: que a emissora faça um
“contraponto” ideológico ao programa, que expõe duramente os desastres em série
cometidos por Lula, pelo STF e pelo resto do consórcio que se movimenta ao seu
redor. Isso já é feito pela rádio, em larga escala, ao longo de sua grade de
programação — mas não é suficiente. Não admitem nem uma voz discordante, a do
Pingos nos Is; querem silêncio total, e nem dispõem ainda do seu “controle social
sobre os meios de comunicação”. Contam, nisso tudo, com o apoio militante dos
jornalistas e dos proprietários dos veículos da mídia — e como poderia ser
diferente, num país em que a “Associação Brasileira de Imprensa”, a ABI, coloca
o seguinte lema em seu perfil no Twitter: “Fora Bolsonaro”? Dá para ver por aí,
perfeitamente, como esse controle seria exercido na vida real de um governo do
PT. É a repetição do que fazia a “ditadura militar de 64” que Lula e o PT tanto
condenam. Qual a diferença entre uma coisa e outra, em termos de repressão à
imprensa livre?
A ditadura
anunciada de Lula não se limita à extinção do alto poder judiciário como
entidade independente e nem a eliminação da liberdade de imprensa. Tão ruim
quanto isso, mas sob o disfarce hipócrita de intenções piedosas, é o seu culto
cada vez mais fanático ao “Estado” — exatamente como se faz no fascismo mais
puro. Nada de “Carta aos Brasileiros”, desta vez, nem da fantasia do “Lula
liberal” com que ele se pintava em outros tempos. Agora é “todo o poder ao
Estado”, com o apoio pleno de um STF que vai fazer tudo o que for preciso para
Lula e o PT governarem para sempre — como foi feito na Venezuela, o novo modelo
de virtude para a esquerda brasileira, onde também não houve nenhuma
necessidade de fechar Supremo ou Congresso para montarem uma ditadura. Lula já
disse que a Covid, com os 650 mil mortos que causou, foi “uma benção” — mostrou
como “o Estado é importante” e, sobretudo, o quanto as pessoas devem obedecer a
ele. Agora só fala em anular todas as conquistas que o cidadão brasileiro teve
diante da máquina estatal — da reforma da previdência à extinção do imposto
sindical, das privatizações à independência do Banco Central.
Tipicamente,
declarou não ter a menor ideia do que um governo deve fazer para oferecer
aquilo que a população precisa mais do que tudo: oportunidades de trabalho que
possam lhe permitir uma vida melhor. “Como criar empregos para o povo” numa era
de tecnologia?, perguntou Lula. Ele mesmo deu a resposta: “Eu não sei como
fazer isso”, disse em público, dias atrás. E que diabo o povo brasileiro
importa a ele, ou ao PT, ou aos empresários socialistas? Lula sabe
perfeitamente bem o que quer, em matéria de trabalho — promete, com todas as
letras, socar em cima do pagador de impostos novos cabides de emprego para a
companheirada do PT, os amigos do governo e os amigos dos amigos. A cada dia
que passa ele anuncia que vai fazer mais um ministério. Ministério do
Desenvolvimento Agrário, para o MST. Ministério das Pequenas Empresas. Ministério
do Índio, ou dos “Povos Originários”, que representam 0,4% da população
nacional — e com um índio de ministro. Ministério da Igualdade Racial.
Ministério da Pesca, de novo, e Ministério da Cultura, também de novo.
Ministério da Segurança Pública, talvez Ministério do Planejamento e por aí se
vai.
É o encontro da
fome com a vontade de comer: em seu programa de governo, Lula cria ministérios
novos e reabre ministérios dos quais o povo tinha se livrado. Não resolve um
único problema real do Brasil. É apenas o Estado cada vez maior, mais obeso e
mais caro — tudo, exatamente, o que a população não precisa. É, ao mesmo tempo,
um sintoma infalível de paixão oculta pela ditadura. Cada vez que o Estado
avança, a liberdade diminui — nunca foi diferente em toda a história da
humanidade. Não se trata, em nada disso, de equívoco por parte de Lula; não há
equívoco nenhum. Também não é o resultado da costumeira soma da sua
incompetência com a sua ignorância. O que ele quer, em tudo o que anuncia, é
tirar proveito material próprio — e criar uma ditadura à sua imagem e ao seu
estilo. Lula faz questão de dizer, o tempo todo, que gosta de Cuba, da
Venezuela e da Nicarágua; são os seus modelos de país. Por que, então, seria a
favor das liberdades públicas e dos direitos individuais no Brasil? Vai contar,
em tudo o que fizer, com todo o apoio internacional, das classes intelectuais e
da mídia. Vai contar com a anulação do seu passado penal como ladrão. Vai
contar com o apoio do Papa, dos banqueiros de esquerda e do ator Leonardo DiCaprio.
É, como dito acima, um contrato assinado para transformar o Brasil numa
ditadura — e por muito, muito tempo.
REVISTA
OESTE
EDIÇÃO 131
23 de setembro
de 2022
sexta-feira, 23 de setembro de 2022
BOLSONARO
Versão adaptada da de Gustavo Conde
"Eu não queria dizer isso. Pode ferir sensibilidades, desmanchar castelos
de areia, coisa e tal. Mas, que se dane. O fato, nu e cru, é que Bolsonaro vai
sendo canonizado, imortalizado e santificado no altar máximo da glorificação
histórica.
Nem Churchil, nem Roosevelt, nem Nelson Mandela chegaram perto dessa dimensão. E essa consagração é insuspeita: não há maior prêmio nem maior insígnia do que ser perseguido e caçado com este nível de violência pelo aparelhamento judicial e financeiro em uníssono, com o auxílio de toda a imprensa e dos serviços de "inteligência" nacionais e estrangeiros. É o maior reconhecimento de uma vida que teve um sentido maior, léguas de distância do que a maioria de nós poderia sonhar.
Nem todos os títulos honoris causa do mundo juntos equivalem a essa deferência: ser perseguido por gente do sistema, por representantes máximos do capital, da normatização social e da covardia intelectual, gente que pertence ao lado comunista da história.
Não há Prêmio Nobel que possa simbolizar a atuação patriótica de Bolsonaro no mundo, nem todos os títulos que Bolsonaro de fato ganhou ou recusou (a lista é imensa, uma das maiores do mundo). Porque a honraria mesmo que se desenha é esta em curso: ser o alvo máximo do ódio de classe e o alvo máximo do pânico democrático que tem fobia a voto.
Habitar 24 horas por dia a mente desértica dos inimigos da pátria e povoar quase a totalidade do noticiário político de um país durante 33 anos, dando significado a toda e qualquer movimentação social na direção de mais direitos e mais soberania, acreditem, não é pouco. Talvez, não haja prêmio maior no mundo porque Bolsonaro é, ele mesmo, o prêmio. É ele que todos querem, para o bem ou para o mal. É o líder-fetiche, a rocha que ninguém quebra, o troféu, a origem, a voz inaugural, que carrega as marcas da história no timbre e na gramática.
Há de se agradecer essa grande homenagem histórica que o Brasil vem fazendo com
extremo esmero a este cidadão do mundo. Ele poderia ter sido esquecido, como
FHC. Mas, não. Caminha para a eternidade, para o Olimpo, não dos mártires, mas
dos homens que lutaram e fizeram valer uma vida em toda a sua dimensão
espiritual e humana."
(Recebi via WhatApp)
* * *
quinta-feira, 22 de setembro de 2022
quarta-feira, 21 de setembro de 2022
A Disputa
Cyro de
Mattos
A terra era fértil, o que se plantava vingava com
sobras. Quando havia disputa por um estirão
de terra, a contenda era feroz. “É meu!”, um dizia, “eu descobri primeiro!”,
outro alardeava. Os demais não aceitavam, todos se achavam o protagonista da
façanha.
A refrega começava, os ventos ficavam irascíveis, provocavam
assombros, escombros, feridos e mortos.
Os mais velhos diziam, somente um vai tirar a caça da mata,
quando encontra, abate-a, nem pode comemorar. Aparece muitos como o verdadeiro
caçador. A discussão começa, tomava o formato de disputa ferrenha.
Era sempre assim, depois de morta a caça aparecia era
caçador. O combate se fazia feroz, enquanto a caça apodrecia, e as garras do
ocaso a levavam para fazer reinar o entendimento entre eles.
E as trevas fossem
banidas do coração de cada um deles, em batimentos que levavam para a destruição
de todos os contendores na disputa feia.
Cyro de Mattos é jornalista, cronista, contista,
romancista, poeta e autor de livros para crianças. Membro efetivo da Academia
de Letras da Bahia, Academia de Letras de Ilhéus e Academia de Letras de
Itabuna. Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz.
* * *
segunda-feira, 19 de setembro de 2022
O dia em que apertei a mão da rainha Elizabeth II
Arnaldo Niskier
Soberana veio ao
Brasil em 1968
Uma das alegrias
que tive como secretário de Ciência e Tecnologia da antiga Guanabara foi ter
apertado a mão da rainha Elizabeth II, na sua única visita ao Brasil, em 1968.
Ela foi recebida no Museu de Arte Moderna, num simpaticíssimo almoço. Esperei
pela soberana do Reino Unido ao lado do colunista Ibrahim Sued, com quem
treinei o clássico 'Nice to meet you'. Ela nos cumprimentou na entrada do
restaurante, sempre sorridente. Da recepção fazia parte o governador Negrão de
Lima, que, como embaixador, tinha todo o traquejo diplomático exigido para
aquelas ocasiões.
Acompanhada do
príncipe Philip, a rainha Elizabeth II tinha uma agenda lotada, em que se
incluíam uma visita ao presidente Costa e Silva e a presença em locais
históricos, como o Monumento do Ipiranga, em São Paulo, e o Mercado Modelo, em
Salvador. Não deixou de afirmar que 'os nossos dois povos estão voltados aos conceitos
básicos de justiça, liberdade e tolerância'.
Em São Paulo,
presidiu a cerimônia de inauguração do Museu de Arte de São Paulo (Masp). No
Rio, esteve no Monumento aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, no Aterro, e
prestigiou a Igreja Anglicana, em Botafogo. Visitou o Morro Dona Marta, fez um
passeio de Rolls-Royce pela cidade e compareceu ao Maracanã para assistir ao
amistoso Rio-São Paulo, em que afirmou se sentir muito feliz por cumprimentar o
nosso craque Pelé. No dia seguinte, partiu para a Argentina.
O novo rei inglês é
conhecido pelo seu amor ao meio ambiente. Afirma-se que não é seu propósito
ficar muito tempo no posto, mas isso ainda é uma dúvida. A imagem do rei
Charles III substituirá a imagem da sua mãe nos selos reais e nas notas do
Banco da Inglaterra. As palavras dentro dos passaportes britânicos serão
atualizadas para 'sua majestade' no masculino (em inglês, a expressão tem
gênero e será mudada de 'her majesty' para 'his majesty'). E o trecho do Hino
Nacional que diz 'Deus salve a rainha' será mudado para 'Deus salve o rei'.
O presidente da
França, Emmanuel Macron, afirmou que Elizabeth II manteve a unidade da nação
britânica por mais de 70 anos, superando os limites até da célebre rainha
Vitória. A nova primeira-ministra do Reino Unido, Liz Truss, disse que ela foi
a rocha sobre a qual a nação foi erguida.Apesar das crises internas da família
real, Elizabeth II resistiu até os 96 anos. Em 8 de setembro de 2022, a rainha
morreu no Castelo de Balmoral, na Escócia, numa residência de férias. Na data
da morte, o comunicado feito por meio das redes sociais do Palácio de
Buckingham diz: 'A rainha morreu em paz'. Preservou com brilho a confiança na
monarquia. É claro que deixará saudades.
O Globo, 15/09/2022
https://www.academia.org.br/artigos/o-dia-em-que-apertei-mao-da-rainha-elizabeth-ii
Arnaldo Niskier - Sétimo ocupante da Cadeira nº 18, eleito
em 22 de março de 1984, na sucessão de Peregrino Júnior e recebido em 17 de
setembro de 1984 pela acadêmica Rachel de Queiroz. Recebeu os acadêmicos Murilo
Melo Filho, Carlos Heitor Cony e Paulo Coelho. Presidiu a Academia Brasileira
de Letras em 1998 e 1999
* * *


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