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domingo, 7 de agosto de 2022
sábado, 6 de agosto de 2022
ALMAS MORTAS - Luíz Gonzaga Dias
Almas Mortas
Luiz Gonzaga Dias
Quem nunca amou, nunca sofreu. Não sabe,
A dor que na alegria
se resume.
Todo o prazer que no espírito cabe,
A tortura infernal que vem do ciúme.
Ao amor, na taba ou no serralho, árabe
Nem a velhice serve de tapume.
E a beleza que sem amor se acabe,
É comparada à rosa sem perfume.
Doce tormenta que aliena o juízo,
Metamorfoseia a vida em paraíso,
Para o infinito transportar destinos.
Coração sem amor – culto sem hinos!
Existência sem cor, sem vibração, perdida...
– Nunca viveu quem nunca amou na vida!
(CANÇÕES DE MINHA TERNURA)
Luiz Gonzaga Dias
* * *
ITABUNA CENTENÁRIA PELA SUA SAÚDE: Sofá Mata?
Sofá mata?
Curiosamente, 50% dos ossos de uma pessoa e 50% dos músculos estão nas duas pernas. Anda
As maiores e mais fortes articulações e ossos do corpo humano também estão nas pernas. 3-7k passos/dia
Ossos fortes, músculos fortes e articulações flexíveis
formam o Triângulo de Ferro que carrega a carga mais importante, ou seja, o
corpo humano.
70% da atividade humana e queima de energia na vida é feita
pelos dois pés.
Você sabe disso? Quando uma pessoa é jovem, suas coxas
têm força suficiente para levantar um carro pequeno de 800 kg!
O pé é o centro de locomoção do corpo.
Ambas as pernas juntas têm 50% dos nervos do corpo humano, 50% dos vasos sanguíneos e 50% do sangue flui através deles. É a maior rede circulatória que conecta o corpo.
Então caminhe diariamente.
Somente quando os pés estão saudáveis, a corrente
convencional do sangue flui suavemente, então as pessoas que têm músculos
fortes nas pernas definitivamente terão um coração forte. Caminhe.
O envelhecimento começa dos pés para cima À medida que uma pessoa envelhece, a precisão e a velocidade de transmissão de instruções entre o cérebro e as pernas diminuem, ao contrário de quando uma pessoa é jovem. Por favor, caminhe.
Além disso, o chamado Adubo Ósseo Cálcio mais cedo ou mais
tarde se perderá com o passar do tempo, tornando os idosos mais propensos a
fraturas ósseas.
As fraturas ósseas em idosos podem facilmente desencadear
uma série de complicações, principalmente doenças fatais como a trombose
cerebral.
Você sabe que 15% dos pacientes idosos geralmente morrem no máximo dentro de um ano de uma fratura do osso da coxa?
Caminhe diariamente sem falhar. Exercitar as pernas, nunca é tarde, mesmo depois dos 60 anos.
Embora nossos pés/pernas envelheçam gradualmente com o tempo,
exercitar nossos pés/pernas é uma tarefa para toda a vida.
Andar 3000-7000 passos Somente fortalecendo regularmente as pernas, pode-se prevenir ou reduzir o envelhecimento. Caminhada 365 dias
Caminhe por pelo menos 30-40 minutos diariamente
para que suas pernas recebam exercícios suficientes e para garantir
que os músculos das pernas permaneçam saudáveis.
Você deve compartilhar essas informações importantes com
todos os seus amigos e familiares com mais de 40 anos, pois todos estamos envelhecendo diariamente.
SOFÁ MATA!...
(Recebi via WhatsApp, sem menção de autoria)
* * *
sexta-feira, 5 de agosto de 2022
UMA FIGURA DE AVENTUREIRO – Carlos Pereira Filho
A notícia
correu de boca em boca. O tenente que foi preso, no Posto Indígena, regressou
com os soldados, desarmados e humilhados. As armas ficaram em poder dos
comunistas, dizia o tenente, que são muitos e se acham entrincheirados.
Todo mundo
rumou para o quartel para ver a cara avacalhada do tenente Salatiel e os seus
soldados, mas o quartel estava impedido com sentinelas de armas na mão. Um
murmúrio se espalhava no seio da multidão, através de comentários de todos os
feitios e para todos os sabores.
Na
farmácia do Tourinho, sentado num banco, Henrique Félix contava ao farmacêutico
e a Carlos Sousa o que acabava de saber: que tinha chegado uma força do Governo
para seguir rumo o Posto Indígena. Havia desembarcado no cais de Ilhéus e no
dia imediato se transportaria para o campo de operação. Também narrou, pedindo
reservas, mais uma das do doutor Coriolano Antunes. A família do fazendeiro,
que ele mandara prender como comunista, mulher e sete filhos menores havia
procurado o Dr. Coriolano. A mulher se ajoelhara aos seus pés e pediu pelo amor
de Deus que mandasse soltar o seu marido. Confessou eu há dias ela e os filhos
não comiam nem dormiam. Tivesse paciência, fosse bom, providenciasse a
liberdade do marido. Ele não havia praticado nenhum mal, nunca foi comunista,
nem sabia que diabo significava comunismo.
O Dr.
Coriolano, fumando um charuto barato, com uma cara achinesada e um cabelo de
pastinha caído na testa, disse à mulher, fingindo sentimento, “que não podia
fazer coisa alguma, a situação estava negra, em estado de guerra, com garantias
constitucionais suspensas. Tinha pedido à polícia que não maltratasse o preso,
seu vizinho, seu compadre, que prezava tanto. Não havia outro jeito senão
aguardar com paciência o tempo passar. E depois, com aquele movimento do Posto
Indígena, as coisas pioravam, falavam até em fuzilamento.”
Novo
berreiro da mulher, dos filhos. Novo apelo. Pelo amor de Deus, salvasse o
marido, daria tudo pelo sua salvação, até a roça que era o pão daquelas
crianças. Ao ouvir a palavra “da roça”, o Dr. Coriolano estremeceu. A caça
estava chegando para o alvo mansamente, sem suspeitar de nada.
E quando a
comadre, depois de despedir-se ia saindo, com lágrimas nos olhos, o dr. Coriolano
chamou-a e disse: - Vá à cadeia, tome aqui esta carta, comunique ao seu marido
que tem de vender a fazenda senão ele será condenado como comunista e fuzilado.
A mulher
foi e encontrou o marido sentado, junto a outros presos. Narrou-lhe todo o
episódio e a solução que ela e ele tinham de tomar para se livrarem daquela
triste situação. O marido acabrunhado concordou. O irmão havia-lhe aconselhado
a mesma coisa. Somente, agora, estava compreendendo a razão da sua detenção.
Vendeu a roça miseravelmente barata ao próprio dr. Coriolano, que ainda ficou
com uma parte do dinheiro, para mandar o delegado rasgar o processo e que
jamais entregou ao delegado.
Esses são
os bons, concluiu Henrique Félix. Esse doutor foi o cidadão mais ladrão que
apareceu nestas terras. E ainda tem defeitos piores, gosta das mulheres dos
outros, adianta-se com as mocinhas e fala mal de todo o mundo, ataca a
honestidade de toda a gente.
Tourinho,
que até então se conservava calado, pigarreou e falou: - Esse sujeito, quando
chegou nesta terra, era um morto a fome, recebia consultas de vinte cruzeiros e
ainda exigia comissão nas receitas.
Mas,
reatando o fio dos acontecimentos, no dia seguinte chegou a tropa do governo.
Centenas de soldados, passaram para Itapé, rumo ao Posto Paraguaçu. O ataque
foi cerrado e violento. O Posto foi cercado por todos os lados e atrocidades se
cometeram de toda sorte. Mortos e feridos a granel. Os chefes do movimento
fugiram para Minas Gerais e a paz voltou a reinar no município.
Dos
tristes noticiários espalhados pela imprensa do País, com os devidos exageros,
as responsabilidades caíram nas costas do interventor federal Juraci Magalhães
e dos governantes seus auxiliares.
O dr. Coriolano
ganhou a batalha, alargou os seus domínios no Posto Paraguaçu e “comprou” a
fazenda de cacau, do compadre que mandou meter na cadeia como comunista.
E ainda
ficou com o gadinho dos comunistas corridos do Colônia, seus vizinhos de fazenda.
(TERRAS DE ITABUNA – Cap. XXV)
Carlos Pereira Filho
* * *
quinta-feira, 4 de agosto de 2022
Cyro de Mattos publica
livro sobre Jorge Amado
O escritor Cyro de Mattos acaba de publicar o livro Os saberes nas narrativas de Jorge Amado, reunindo 18 ensaios sobre a obra do famoso romancista, numa coedição da Fundação Casa de Jorge Amado e ALBA, editora da Assembleia Legislativa da Bahia. O livro traz o prefácio “Cyro Mattos e Jorge Amado: um encontro Grapiúna”, assinado pelo professor doutor em Letras Nelson Cerqueira, poliglota, membro da Academia de Letras da Bahia, ensaísta e ficcionista, e o posfácio “Cyro de Mattos pisando chão verdadeiro”, de Ângela Fraga, escritora e presidente da Fundação Casa de Jorge Amador (Salvador).
Este é o quinto livro de ensaio de Cyro de Mattoso, também é
o quinto publicado pela Fundação Casa de Jorge Amado, com o selo editorial Casa
de Palavras. Os outros foram Berro de Fogo e outras histórias, Canto a Nossa
Senhora das Matas, Poemas Ibero Americanos e Canto até hoje, obra poética
reunida, Prêmio das Arte Jorge Portugal, da Fundação Cultural do Estado e Lei
Aldir Blanc. Ele já publicou 62 livros de criação pessoal e possui 15 livros
publicados por editoras europeias.
Os ensaios inclusos em Os saberes nas narrativas de Jorge
Amado são estes: O menino grapiúna, Romances da juventude, Negro valente e
brigão, Mar de amor e morte, Meninos abandonados, Universo do cacau, Incursão
em Itabuna, Da caatinga para o desconhecido, Vadiagem e marinhagem, Pastores da
noite, Numa tenda dos milagres, Uma flor entre dois maridos, Duas mulheres
guerreiras, Uma história de feitiçaria, O romancista acadêmico, O criador de
personagens, Prosador e poeta, Autor para a garotada.
Cyro de Mattos e Jorge Amado: um encontro grapiúna*
Por
Nelson Cerqueira**
É um encanto o encontro temático que Cyro de Mattos realiza
com Jorge Amado ao apresentar em seu livro de ensaios um rico conjunto de
saberes sobre a obra do famoso romancista baiano. Nas leituras de romances e de
outros aspectos importantes, o ensaísta aborda primeiro a infância do
romancista quando era ainda um menino grapiúna, na época da conquista da terra.
Incursiona depois sobre o universo do
cacau, prossegue com os comentários sobre o fazer literário, no qual contempla
estudos sobre os temas, personagens, invenções com base na realidade popular,
enfim, em tudo que da narrativa prazerosa possa expressar uma forma de
biografia da vida no ato da escrita.
No aspecto construtivo do uso do saber da vida transposto
para o plano do fazer literário, o ensaísta dá-nos uma visão humanista da
criação e da vida existencial do célebre escritor. Suas leituras assim sobre o legado amadiano
facilitam o entendimento de uma obra de valor inconfundível para os novos e
velhos leitores. Estão tão bem urdidas acerca do comportamento feito de saberes
na escrita sensual e no imaginário do romancista que bem poderia esse livro de
ensaios funcionar como um manual literário para alunos da escola secundária,
das faculdades de letras e até mesmo para estudiosos que se disponham a rever e
refazer conceitos assumidos e propalados.
Sem falar na contribuição que poderia prestar a muitos
segmentos da crítica formalista que impera no meios acadêmicos e
universitários, nas mentes tradicionais às vezes tendenciosas, através de
interpretações engajadas, padrões de dominância analítica municiadas pelos preconceitos, situados esses
no discurso crítico conforme concebe Hans Georg Gadamer, em Wahrheit und
Methode, e até mesmo Francis Bacon, em seu Novum Organum, quando nos alerta
para os ídolos cultivados na escuridão, nas imagens pelas quais se pode ficar
aprisionado, sem ver a claridade dos seres e coisas nem vislumbrar uma face da
verdade.
As narrativas de juventude, junto com o universo do cacau,
pela primeira vez aparecendo na obra de Jorge uma incursão romanesca em
Itabuna, se constituem em capítulos capilares para a hermenêutica de romances
como Cacau, Terras do Sem Fim, Gabriela, Cravo e Canela, São Jorge dos Ilhéus,
A Descoberta da América pelos Turcos e Tocaia Grande. Os saberes são
apresentados aqui pelo ensaísta de forma erudita, referidos em crítica textual
eclética, na qual são selecionadas personagens como testemunhas reais e fictícias,
de acordo com o que se encaixa melhor para o resultado desejado no estudo.
Nenhum personagem ou momento existencial descrito recebe favorecimento teórico,
ao invés disso o ensaísta sempre vai descrevendo e provocando a reflexão do
leitor, auxiliando-o na fixação de sua opinião, para assim ir mostrando o texto
impregnado de lucidez interpretativa com os elementos extrínsecos e intrínsecos
necessários à elucidação da escritura em conexão com a vida, tanto na forma
quanto no conteúdo para conseguir o efeito.
Parece que Cyro está abraçado com o melhor da crítica do
século XIX quando se escrevia sem viés de preferência diante de um manuscrito,
com uma disposição poética e alexandrina que impressionavam. Conscientemente
usa elementos de muitas teorias literárias e filosofias da interpretação da
obra e assim permite que as ideias se interconectem com a fatura romanesca de
Amado, com sua existência, seu conhecimento abundante dos seres e das coisas,
valores, razões, pensamento mágico e lógico, linguagens literárias e populares.
Os saberes são apresentados, passo a passo, como numa atitude rosácea,
conduzida por uma variedade de estilos, que nos lembram a lição de Hume quando
observa que não existe um único caminho para se chegar à beleza, e pode ser,
por isso mesmo, o que Cyro preferiu nesse modelo de práxis literária com
diversos prismas para comentar os saberes de Jorge. O ensaísta debruça-se
principalmente sobre fontes primárias do saber e do fazer, ao mesmo tempo que
cobre o espaço de uma cultura mestiça do povo baiano com a variedade de ângulos
que elaborou com felizes descobertas e achados importantes no correr do estudo.
O capítulo analisando Capitães da Areia está tão bem urdido
que me trouxe de volta a análise que fiz das apropriações de Amado do universo
medieval, a narrativa centrada em Pedro Bala, louro com sua cicatriz vermelha,
a liderar o grupo, fugindo da tentativa bastarda de transformá-lo em negro,
para atender a supostos preceitos do politicamente correto, tão em voga nesses
dias de desvario em que se deseja até queimar todo o acervo de Monteiro Lobato.
O enfoque desse romance de aspirações sociais mostra como nesses pobres meninos
abandonados na areia acontecem mazelas, que são as de hoje, e que já existiam
na década de 30, mas ainda recalcitrantes quase cem anos depois, no novo
século.
Em certo momento da leitura que fiz preferi também ficar com
o ângulo idealizado de Amado no que diz respeito à imagem de personagens com a
dimensão dos contrastes raciais, dentro das discussões da época, lideradas por
Gilberto Freire em sua tese de estudos multirracial, escrita sob a orientação
de Franz Boas, vinculada a uma época em que se buscava novas ideias sobre raças
para dar uma resposta ao crescente arianismo defendido por Adolf Hitler.
As narrativas de pesquisas e memórias, contidas nesses
saberes de Jorge Amado, abordando a cidade da Bahia assentada numa cultura
popular mestiça e sua preferência pela vida urbana, com feitiçarias e heróis
míticos como os de Os Pastores da Noite e Tenda dos Milagres, assim como os
ensaios sobre as mulheres heroínas e guerreiras com suas imagens impregnadas de
ousadia e coragem, são todas elas
excelentes leituras para compreender a dimensão do ficcionista e seu
compromisso com as questões sociais, lutas de classe e escárnio à burguesia
dominante.
É magnífica
a interpretação do ensaísta sobre a realidade da vida popular no romance de Jorge Amado, como um dos
saberes configurado na expressão mística, fantástica, mágica, socialista,
enfatizado em Tenda dos Milagres, Os Pastores da Noite, O Sumiço da Santa e Dona
Flor, mas que navega em toda a narrativa do romancista, desde País do Carnaval,
a englobar, até mesmo, seu relato de caráter autobiográfico, onde existência e
imaginação se misturam como vinho e água durante certa navegação de cabotagem.
O ensaísta
Cyro de Mattos teve a iluminação para tratar de todas as variações de realismos
e estilos literários usados por Jorge Amado de uma forma poética e grapiúna,
dialogando com os pés na terra, viajando por toda complexificação do flutuar de
teorias, usando aqui a ali alguma fonte teórica, mas mantendo em suas leituras
dos saberes a base maior para o entendimento do autor: sua fortuna crítica
literária. Do ponto de vista crítico é marcante como esse conjunto de ensaios
ou crônicas teorizantes sobre o amado escritor baiano adote como pano de
pesquisa as obras do romancista e uma dose de referências a muitas ações
conjuntas, de amizade, advindas das relações sociais, vivências e convivência
no mundo grapiúna, no universo pré-místico do cacau, e que também inclui nelas
a religiosidade trazida pelos descendentes de africanos, sobretudo a religião
dos orixás, ijexá e dos Bantus de Angola e sul da África.
Os capítulos sobre o criador de personagens, o prosador e o
poeta, não podem deixar de ser apreciados com cuidado, em razão de sua riqueza
de detalhes.
Resulta esse livro de um conjunto de ensaios que produzem
uma análise clara e imprescindível para o conhecimento da obra de Jorge Amado.
O ensaísta Cyro distribui também farto conhecimento sobre os personagens
masculinos e femininos. Aponta como ocorre a fusão entre engenho e arte para
traçar o modo de construção desses protagonistas, tanto no romancista estudado
como em outros da grandeza de Machado de Assis e Graciliano Ramos. Tem razão
quando pergunta como esquecer Baleia, de Graciliano Ramos, Moby Dick, de
Melville, Dona Flor ou Pedro Archanjo, do autor de Tenda dos Milagres, personagens
que ocupam lugar de destaque na galeria das fascinantes criações de todos os
tempos, eternizadas como referências obrigatórias na literatura ocidental.
Por fim, lembremos que Jorge Amado rompeu com o partido
comunista, mas permaneceu, em toda sua dimensão de construção narrativa, ligado
às verdades essenciais de um sistema organizado com feição igualitária. Podemos
ver isso na delimitação de personagens, dentro da estética com mensagens de
teor libertário conduzido para um mundo melhor. Escreveu neste sentido a fábula
infantil O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, tão bem lembrada por Cyro em um de
seus lúcidos ensaios.
*Grapiúna é assim chamado o pioneiro ou o que nasceu no
tempo da conquista da terra. Ao longo
dos anos, o termo passou a significar aos que se identificam com as tradições e
valores de uma civilização criada com bases na lavra do cacau, no sul da
Bahia.
**Nelson Cerqueira é escritor, tradutor, poeta, professor
doutor em Letras.
* * *
quarta-feira, 3 de agosto de 2022
PURCINA MERGULHADA EM TREVAS - Ignácio de Loyola Brandão
É um volume pequeno, mas impacta e comove. Atualíssimo. Dona
Purcina, a Matriarca dos Loucos, da Oficina da Palavra de Teresina, foi escrito
com dor por Cineas Santos, filho desta matriarca nordestina, acolhedora e
generosa. Por que a produção do Norte e Nordeste não chega a São Paulo e ao
Rio? Há um vácuo e perdemos momentos de emoção. Purcina, figura complexa,
autoritária, doce e feita de certezas. Diz Cineas que ela, simples doceira do
sertão, 'com sua lógica enviesada, encontrava solução para os problemas mais
complexos'. Acrescenta: 'Para os muitos que a amavam foi extremamente doloroso
vê-la no final da vida, ausente de si mesma, sequestrada pelo mal de
Alzheimer'.
Este livro se encontra ao lado de quatro volumes que
considero fundamentais no gênero. O Álbum Branco, em que Joan Didion estuda o
luto, e Noites Azuis, em que a mesma autora fala do envelhecimento e da
senilidade; De Profundis, de José Cardoso Pires que sofreu um AVC, com perda
total de memória; e Perto das Trevas, de William Styron, que mergulhou em
profunda crise de depressão.
Cineas, em linguagem seca, fala da própria mãe com angústia,
mas sem melodrama. Os momentos de apagão e lucidez. O dia em que ela gritou por
socorro, estava com uma onça dentro do quarto. Na verdade, ela via a própria
figura refletida em um espelho. Cobriram todos espelhos da casa. Ou quando,
logo após negar água a um moleque, ela aconselhou o filho a jamais deixar de
dá-la a um sedento. Outra vez, Cineas chegou: 'A bênção dona Purcina! Ela: Deus
lhe dê vergonha. Cineas: A senhora sabe que dia é hoje? Ela: Não sou dona de
dia nenhum. Cineas: 20 de setembro, dona Purcina, dia do aniversário de seu
filho mais querido. Ela: Que filho? Ele: Eu. Ela: E quem lhe disse que você é
meu filho? Cineas: Quer dizer que resolveu me desfilhar? Sou um sem mãe, sem
rumo, sem tudo, um maior abandonado? Quem vai querer me adotar? Ela: Deixe de
bestagem, você não é meu filho, é meu irmão. E devia dar graças a Deus. Cineas:
Irmão? E que ganho isso? Ela: Se fosse meu filho, era obrigado a cuidar de mim,
sendo irmão, cuida se quiser'. Percorremos instante a instante a agonia de uma
memória que mergulha nas trevas.
Purcina é cuidada pela filha. 'Cuidar de alguém com
Alzheimer é meio caminho para a loucura', diz o filho. E a mãe pirava,
inquieta, agressiva, ansiosa. Não reconhecia mais a própria casa. Colocava três
vestidos, um sobre o outro, para que não a roubassem, tomava sorvete e cuspia,
dizendo que estava quente demais. Médicos deveriam ler esse livro, poético,
humano. Quando romperemos esta muralha invisível que atravessa o meio do Brasil?
E o Alzheimer? Terá cura um dia?
Um dia, gritou por socorro, tinha uma onça no quarto. Na
verdade, ela via sua imagem no espelho.
https://www.academia.org.br/artigos/purcina-mergulhada-em-trevas
Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11 da ABL, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.
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