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quarta-feira, 3 de agosto de 2022

PURCINA MERGULHADA EM TREVAS - Ignácio de Loyola Brandão



É um volume pequeno, mas impacta e comove. Atualíssimo. Dona Purcina, a Matriarca dos Loucos, da Oficina da Palavra de Teresina, foi escrito com dor por Cineas Santos, filho desta matriarca nordestina, acolhedora e generosa. Por que a produção do Norte e Nordeste não chega a São Paulo e ao Rio? Há um vácuo e perdemos momentos de emoção. Purcina, figura complexa, autoritária, doce e feita de certezas. Diz Cineas que ela, simples doceira do sertão, 'com sua lógica enviesada, encontrava solução para os problemas mais complexos'. Acrescenta: 'Para os muitos que a amavam foi extremamente doloroso vê-la no final da vida, ausente de si mesma, sequestrada pelo mal de Alzheimer'.

Este livro se encontra ao lado de quatro volumes que considero fundamentais no gênero. O Álbum Branco, em que Joan Didion estuda o luto, e Noites Azuis, em que a mesma autora fala do envelhecimento e da senilidade; De Profundis, de José Cardoso Pires que sofreu um AVC, com perda total de memória; e Perto das Trevas, de William Styron, que mergulhou em profunda crise de depressão.

Cineas, em linguagem seca, fala da própria mãe com angústia, mas sem melodrama. Os momentos de apagão e lucidez. O dia em que ela gritou por socorro, estava com uma onça dentro do quarto. Na verdade, ela via a própria figura refletida em um espelho. Cobriram todos espelhos da casa. Ou quando, logo após negar água a um moleque, ela aconselhou o filho a jamais deixar de dá-la a um sedento. Outra vez, Cineas chegou: 'A bênção dona Purcina! Ela: Deus lhe dê vergonha. Cineas: A senhora sabe que dia é hoje? Ela: Não sou dona de dia nenhum. Cineas: 20 de setembro, dona Purcina, dia do aniversário de seu filho mais querido. Ela: Que filho? Ele: Eu. Ela: E quem lhe disse que você é meu filho? Cineas: Quer dizer que resolveu me desfilhar? Sou um sem mãe, sem rumo, sem tudo, um maior abandonado? Quem vai querer me adotar? Ela: Deixe de bestagem, você não é meu filho, é meu irmão. E devia dar graças a Deus. Cineas: Irmão? E que ganho isso? Ela: Se fosse meu filho, era obrigado a cuidar de mim, sendo irmão, cuida se quiser'. Percorremos instante a instante a agonia de uma memória que mergulha nas trevas.

Purcina é cuidada pela filha. 'Cuidar de alguém com Alzheimer é meio caminho para a loucura', diz o filho. E a mãe pirava, inquieta, agressiva, ansiosa. Não reconhecia mais a própria casa. Colocava três vestidos, um sobre o outro, para que não a roubassem, tomava sorvete e cuspia, dizendo que estava quente demais. Médicos deveriam ler esse livro, poético, humano. Quando romperemos esta muralha invisível que atravessa o meio do Brasil? E o Alzheimer? Terá cura um dia?

Um dia, gritou por socorro, tinha uma onça no quarto. Na verdade, ela via sua imagem no espelho.


Folha de S. Paulo, 31/07/2022

https://www.academia.org.br/artigos/purcina-mergulhada-em-trevas


Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11 da ABL, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.

* * *

segunda-feira, 1 de agosto de 2022

 

Dísticos

Cyro de Mattos *



 

O bandolim

Tocou tanto para a lua no jardim

que ficou com as cordas de prata

 

A Garça

Em cima da pedra,

a noiva pernalta

 

Infância

O mundo é uma criança

com palhaço e lambança

 

O Grilo

Todo o peso terrestre

nesse cricri constante

 

O Beija-flor

Beijar e amar

essa a vida do ar

 

A Isca

Quando vem à tona

como se arrisca

 

Adivinha

No avião faz proezas  

e é o rei da criação?

 

A Poesia

Sentimento e pensamento

nos fios sem fim do sonho

 

O Cais

Água batendo

pedra em saudade

 

O Rio

Morrendo de sede

Cachoeira o seu nome

 

O Canário

Pinga cantiga no paraíso

começando de novo.

 

A Canção

Doce como a chuva

venha comigo se molhar

 

A Casa

As flores no vaso

a mesa só ternura 

 

A Harpa

Cativante nos céus

enquanto as nuvens sonham

 

O Pinto

Minúsculo amanhecer

no pio no trisco

 

Os Janeiros

A cidade de brinquedo

um tempo de frutas

 

As Formigas

De folhinha em folhinha

o amor pela natureza

 

 O Campeador

No meu burrico

venço a solidão

 

A Hiena

Gargalhada anuncia

o espectro da fome

 

O Cão

O meu cão em hino

músculos me festejam

 

A Avó

Saudade assim

fixa o ouro na memória

 

O Coqueiro

Abano do vento

folhas pestanejam

 

 

*Cyro de Mattos é ficcionista, poeta e ensaísta

* * *

domingo, 31 de julho de 2022

RECORDAÇÕES DE UMA TERRA MARAVILHOSA - Carlos Pereira Filho



            Carlos Sousa, durante muitos anos, viveu em Itabuna. Teve roça de cacau, fazenda de pecuária, indústrias, e um grande número de amigos. Desfrutou das melhores condições sociais, políticas e econômicas. Não foi feliz, fracassou no comércio, na lavoura, na pecuária. Fracassou, onde todos prosperavam. Faliu, onde todos enriqueceram. Perdeu o nome, ele que poderia ser considerado um homem de bem e onde um simples trabalhador rural conseguia, em pouco tempo, o pomposo título de “coronel do cacau”, título de riqueza e consideração.

            Afastou-se de Itabuna, sem uma queixa, sem mágoa, sem ressentimento. Não havia amealhado o ouro, mas havia vivido numa terra maravilhosa, na convivência de seres humanos, dotados de qualidades, de inteligência, de capacidade de trabalho, um gênio empreendedor.

            Jamais poderia esquecer-se de Oscar Marinho, das suas palestras macias, sutis, maliciosas, da sua objetividade e daquela expressão que usava, quando confessava que tinha dois corações, um do lado direito, que funcionava para os negócios, outro do lado esquerdo, que funcionava para a vida do seu corpo. Carlos Sousa só possuía o coração do lado esquerdo.

            E de outros velhos companheiros, como Zacarias de Sousa Freire, de Ápio Lopes, Nicodemos Barreto, Artur Nilo de Santana, Astério Rebouças, Alfeu Suzart de Carvalho, Martinho Conceição, lutadores do progresso itabunense. Isto para não falar mais do Tourinho da farmácia, das suas palestras, das suas má-criações.

            Nunca ouviu Tourinho falar bem de um companheiro. Dos santos, ele só se referia bem a São José; ao resto não dava a menor atenção. Num tempo em que todo mundo respeitava os “responsos” do Moura Teixeira, para curar moléstias e picadas de serpentes, Tourinho mangava abertamente desses “milagres”.

            Gente ordinária, Carlos Sousa havia também conhecido, em Itabuna, mas preferia esquecê-la, como aquele pecuarista do “Pau Vermelho”.

            Que homem estúpido, malcriado, cheio de si, como se ele no invés do dinheiro, valesse alguma coisa. Também essa gente servia para contraste. Se não fosse um cidadão miserável como esse, como poderia avaliar a bondade de um cidadão, como foi Astério Rebouças?

            Tudo isso pertencia ao passado. Agora, em outra terra, Carlos Sousa tratava de uma vida, exercia outras atividades. O mundo não mudava. Sempre foi assim. No particular, Moura Teixeira talvez estivesse com a razão, quando afirmava que, neste vale de lágrimas, a vida é passageira, é uma provação.

            Em Itabuna ele, Carlos Sousa, passara uma parte da sua vida. Certamente o espírito que vivia no seu corpo era aquele que lhe havia revelado, numa sessão, “D. Ceci”, o espírito de um insatisfeito. Um espírito  que lutava para possuir uma fortuna imensa, para acumular riqueza enorme. Tanto que se metia em dezenas de negócios, com uma ânsia desesperadora de enriquecer. Não se contentava com o pouco, queria muito, dominar o muito, e por isso mesmo caíra como pássaro sem asas. Antes assim. Pior seria que seu espírito fosse atormentado pela ganância furiosa e a sovinice miserável que dominavam aquele médico, Dr. Coriolano Antunes. Que monstruosidade, que sofrimento! O homem  só queria ganhar e não gastar. Era de uma miserabilidade incompreensível. E como sofria a sua mulher! Coitada, não tinha direito a nada, nem a se vestir, nem a comer, nem a se divertir e, ainda, era obrigada a suportar a falta de respeito do marido, com as amas, as visitas, que frequentavam a sua casa. Parecia a Carlos Sousa que a provação do Dr. Coriolano se revestia de uma pena mais severa, mais dura. Quantos corpos, quantas vidas, não necessitaria o espírito do Dr. Coriolano para purificar-se até ao ponto de estender a mão para dar uma esmola?

            Enfim Carlos Sousa não queria pensar muito nestas coisas, com medo de perder o juízo. Estava pobre e fora de Itabuna.

            Consolava-se, é verdade, com as revelações espiritualistas, mas, no fundo, tinha a certeza de que tudo isso era consequência da luta materialista e capitalista. Luta cruel da concorrência, na qual um empobrecia, outro enriquecia. Um acumulava, outro se esvaziava. Homens e nações se empenhavam nessa batalha tremenda de amontoar riquezas e, quando um homem, ou uma nação conseguia amealhar, outro homem e outra nação sofriam as consequências e eram levados à miséria. Os resultados se positivavam em desequilíbrios sociais que levavam à fome, às revoluções e à guerra, de quando em quando.

            Falava-se num mundo melhor que a Rússia estava criando. Não acreditava muito nesse mundo povoado pelos homens secularmente defeituosos.

            Os homens, como as feras, como as serpentes, possuíam qualidades que o nascimento dava e somente a cova tirava. Quantos homens, antes e depois de Cristo, tinham imaginado um mundo mais justo e mais tolerante, no qual a infância não sofresse e a velhice não permanecesse abandonada?

            A cobiça humana sepultava os sentimentos bons. Muitas vezes ele sonhava que a humanidade era um pantanal sem fim, no qual brotava, , de longe em longe, a flor da virtude representada num lírio, alvo, como a luz da manhã, que entrava pela janela do seu quarto na casa que morava â beira do oceano, no bairro proletário do Malhado, na cidade de Ilhéus. Pensava nestas coisas e se contentava. Afinal de contas a felicidade não estava na riqueza como não estava na pobreza. Encontrava-se na paz do espírito. Não havia nas suas mãos dinheiro que desse para comprar o que desejava de luxo ou capricho; existia, todavia, espaço para o seu espírito elevar-se, pairar no reino das coisas belas e maravilhosas, que somente a inteligência pode construir, para lenitivo e paz da consciência.

 

(TERRAS DE ITABUNA – Cap. XXIX)

Carlos Pereira Filho

HOJE: Motociata pró Bolsonaro em Niterói - Bruno Jonssen e Carlos Jordy

sábado, 30 de julho de 2022

Motociata Com Bolsonaro - Brasília Moto Capital Week

ITABUNA CENTENÁRIA UM SONETO: A Imortal – Luiz Gonzaga Dias



A Imortal

Luiz Gonzaga Dias

 

A esperança é o futuro... A hora que finda

É um anseio que morre ou se completa.

– Um velho sonho... Uma ilusão infinda,

Uma ambição que se mantém secreta.

 

Por mais velha, a esperança é sempre linda!

E nunca morre, embora atinja a meta,

Que se esperava... Vai vivendo ainda,

Enquanto há vida é sempre incompleta.

 

Não envelhece não! Se bem que nova,

Ela tem outro tom róseo matiz

Que esmaece ao se beirar da cova.

 

Mas a esperança continua forte...

Porque, este anelo humano – ser feliz,

Não finda com a vida: vence a morte!

 


 

(IMAGENS MUTILADAS)

Luiz Gonzaga Dias

* * *