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domingo, 24 de julho de 2022

ITABUNA CENTENÁRIA UM POEMA: Meu Desejo - Álvares de Azevedo

 



Meu Desejo

Álvares de Azevedo

 

Meu desejo? Era ser a luva branca
Que essa tua gentil mãozinha aperta;
A camélia que murcha no teu seio,
O anjo que por te ver do céu deserta.

Meu desejo? Era ser o sapatinho
Que teu mimoso pé no baile encerra;
A esperança que sonhas no futuro,
As saudades que tens aqui na terra.

Meu desejo? Era ser o cortinado
Que não conta os mistérios do teu leito;
Era de teu colar de negra seda
Ser a cruz com que dormes sobre o peito.

Meu desejo? Era ser o teu espelho
Que mais bela te vê quando deslaças
Do baile as roupas de escumilha e flores
E mira-te amoroso as nuas graças!

Meu desejo? Era ser desse teu leito
De cambraia o lençol, o travesseiro
Com que velas o seio, onde repousas,
Solto o cabelo, o rosto feiticeiro...

Meu desejo? Era ser a voz da terra
Que da estrela do céu ouvisse amor!
Ser o amante que sonhas, que desejas
Nas cismas encantadas de langor!

 


Álvares de Azevedo (1831 - 1852) foi um escritor brasileiro que pertenceu à segunda geração do romantismo, também conhecida como fase ultrarromântica ou "mal do século".

* * *

sábado, 23 de julho de 2022

Dr. José Guilherme Beccari, Presidente do Secretariado da Casa Imperial,...

HOJE MELHOR DO MUNDO EM VITÓRIA/ES OLHA NO QUE DEU 23/07/22

A SOBERBA VIAGEM – Cyro de Mattos

 


A Soberba Viagem 

Cyro de Mattos

 

Sempre quis mundos ignorados,

a lua com sua prata na caverna 

resvalava no meu olho provocado.  

Saí como lesma de rastro brilhante

por entre pedras e escorpiões   

sem saber tomar a direção certa.

 

O tempo modelou meu grosso

pelo nas pegadas do primata,

teceu-me de ira excedida

na aurora sorvida com o sangue

do que encontrava, meus ciclos

como acasos, ocasos, ó infância.

 

O fogo que dominei após eras

aqueceu-me na aspereza das horas,

alimentou-me enquanto a noite  

obscura escondeu-me na caçada,

até hoje meu ser na vida instintiva 

sabe a caçador de répteis e insetos.

 

Rolei nos séculos com as mãos

que tudo transformam. Metade

terra, metade céu. Sem paraíso

meus pés andaram com os ventos,

na minha biografia vi-me como fera  

desde cedo nesse grito: “É meu!”

 

O egoísmo em que me inventei 

produziu territórios de avidez

que se atropelaram na mente,

armazenaram na alma a agonia.

Mastiguei o que chamei vitória

no litoral atacado de horrores,

agi com assombros e miasmas

da mãe terra no verde dizimada.

.

Nuvens de amanhecer na maré

prepararam-me outros abismos,

da rota longínqua concebida

de monstros, medos tenebrosos,

submeti Polifemo ao meu arco,

medusas desencantei, amei sereias. 

 

Singrei em ondas de escorbuto

com os que oravam em vão,

na aventura de funduras e largos

estendida por ondas incertas,

nos ventos de fé e esperança

dos que vieram ou ficaram

molhados de salgada aflição.

Esse amanhã heroicamente

de remoto reino edificado

na busca dos beijos da verdade.

 

Noite, tempo, vida, solidão,

água, fogo, terra, ar: os desvãos.

Bem soube, pois sou navegador,

que viver não é o que importa,

mais valia alcançar os horizontes,

recolher os frutos da vontade,

o mérito ter como saudade.  

 

Por essa luz de sol quente

um sino em mim se enroscou,

a tatuagem fixou-se nesses brios

a subir das espumas meu jeito

de tecedor de estrelas no peito

de tanto fiar dia e noite os ventos.

 

Rosários de luz cintilavam

nos olhos do infante antes

pela janela do quarto,

bisaram meus olhos vítreos

no sem fim de galáxias

pela janela da nave hoje.

                    

 No seio da moça pousei, 

vi quanto o meu querer

fez dos sonhos a esperança. 

Chorei, supliquei aos anjos

que me livrassem da máquina

monstruosa que fabriquei 

para matar-me e aos outros

nos anos de fogo onde tombo. 

 

Contente senti o coração

na manhã seguinte com doçura,   

livre dos grilhões que impediam

fosse generosa essa viagem,    

houvesse nos prados os pássaros.  

Voltei com rações promissoras,

água da fonte boa para todos,

linda lira tocava com as cores  

do arco-íris em suas cordas.        

  

Assim o aerólito colombino,

pelas vastidões do sem fim

optou pelo canto mavioso

do novo dia, sem abrir mão

desse bendito ramo verde

tirado de coisas sensatas  

para encher de sereno a ternura.   

 

Da cena enramada no bico

deixei que eu viesse utópico,

sabedor duma união geral

no sono que mantém um sonho

capaz de derrotar todos os danos

no enfrentamento dessa vida

urdida há milênios por ódios.

Já me avistava no lar esférico

do que me tornei com fortes laços.  

 

Pelos campos onde os olhos

aprendem o amor com sobras

exalavam suspiros e enleios. 

Sem mais precisar da lágrima

que derrame dores constantes  

advindas de disputas perversas,

que a vida se torna afável quando

venerada nas tuas leis, mãe azul.

 

Basta-me ser os agrados

 que dos céus herdastes

pois que dos céus és filha.

E eu no enigma de ti sou fruto

mais o outro no jogo do mundo.

Decerto agora razão e emoção 

no som dessa música próxima

afloram anunciando a benção

dessas rações de tudo para todos,

entre os verdes que despontam

e os maduros caindo aos montes.

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Cyro de Mattos é ficcionista e poeta. Também editado no exterior. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris  Causa da UESC.

* * *

quinta-feira, 21 de julho de 2022

III WEBINÁRIO ESTUDOS AMADIANOS:

HOMENAGEIA CYRO DE MATTOS




Clique nos links:

https://youtu.be/ffk6IfJIJOw



Pelo terceiro ano consecutivo irão se reunir em torno de Jorge Amado dezenas de universidades, academias de letras, grupos de pesquisas, casas de cultura, prefeituras, pesquisadoras e pesquisadores de diversos estados brasileiros, Itália, França e Estados Unidos da Américas. O evento é o III Webinário Estudos Amadianos sob a coordenação geral do grupo de pesquisa CLIC (Crítica Literária e Identidade Cultural), liderado pelo professor Gildeci de Oliveira Leite (UNEB). Como nos anos anteriores, as palestras/lives serão transmitidas pelo Canal Universidade da Gente, hospedado no Youtube https://www.youtube.com/channel/UCIn2MteQibM5p2l3NpKWdNA/featured , no mesmo endereço poderá ser visualizada a programação completa.
A abertura acontecerá dia 08 de agosto às 19:00 horas com a mesa “Cyro de Mattos: diálogo com Jorge Amado”. A homenagem a Cyro de Mattos coaduna com espírito amadiano de confraternização e reconhecimento dos pares. Ao todo serão 16 mesas em horários variados de 08 a 16 de agosto de 2022. As lives serão abertas ao grande público e aos que desejarem certificados as inscrições já se iniciaram através do link https://forms. gle/Wv3DC34v9gQ9bHTKA . A certificação será proporcional à participação.
Entre os convidados confirmaram-se com as presenças de Eduardo de Assis Duarte (UFMG), Antonella Rita Roscilli (ALB / UFBA-CNPq / IGHB / Diretora "Sarapegbe"-Rivista Italiana Bilingue di Dialogo Interculturale), Tiziana Tonon (Università degli studi di Genova, ANITI — Associazione Nazionale Italiana Traduttori e Interpreti), Edvaldo A. Bergamo (UnB), Paula Sperb (jornalista e crítica literária), Rita Olivieri-Godet (Université de Rennes II), Charles Perrone (University of Florida), Dain Borges (University of Chicago), Antônio Luciano Tosta (University of Kansas). Serão mais de sessenta apresentações de pesquisas sobre a vida e obra de Jorge Amado, constituindo-se, também, em oportunidade de formação de leitores dos diversos níveis de proficiência leitora e principalmente para a formação docente.
Direto das terras amadianas do cacau as Academia de Letras de Ilhéus (ALI) e a Academia de Letras de Itabuna (ALITA) confirmaram mesas com Cyro de Mattos, Tica Simões, Baisa Nora, Reheniglei Rehem, Heloísa Prata e Prazeres (ALB/UFBA), Nelson Cerqueira (ALB/UFBA), Pawlo Cidade, André Rosa (ALI/UESC), Neuza Maria Kerner (ALI), Maria Luiza Heine (ALI), Jane Hilda Badaró (ALI). A Academia de Letras da Bahia (ALB), uma das signatárias do evento, também confirmou contribuição através de seus membros e com presença confirmada de seu presidente Ordep Serra.
Dentre os diversos signatários, alguns já citados, estão a Fundação Casa de Jorge Amado, Casa do Rio Vermelho (juntamente com Prefeitura de Salvador), Academia de Letras de Aracaju, Center for Global and International Studies, University of Kansas, Prefeitura de Seabra e o apoio cultural da Editus (Editora da UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz) e da Companhia das Letras na Educação. É importante lembrar os importantes papéis dos nove programas de pós-graduaç&a tilde;o, a exemplo do PPGEL (Programa de Pós-graduação em Estudo de Linguagens) e MPEJA (Mestrado Profissional de Educação de Jovens e Adultos), os dois da UNEB (Universidade do Estado da Bahia).
Seguem a lista  de signatários, a programação da abertura deonisio e a equipe de coordenação
 

Ord

REALIZAÇÃO/SIGNATÁRIO/APOIO

 

CLIC (Grupo de Pesquisa Crítica Literária e Identidade Cultural)
Coordenação Geral

 

EICon (Grupo de Pesquisa Estudos Interdisciplinares sobre Contemporaneidade)

 

Programa de Pós-graduação em Estudo de Linguagens
(PPGEL) – UNEB

 

MPEJA (Mestrado Profissional em Educação de Jovens e Adultos) - UNEB

 

PROEX (Pró-reitoria de Extensão) UNEB – Edital PROAPEX 024/2022

 

Fundação Casa de Jorge Amado (FCJA)

 

Casa do Rio Vermelho – Prefeitura Municipal de Salvador (Apoio Institucional)

 

Academia de Letras da Bahia (ALB)

 

Academia de Letras de Aracaju

 

Academia de Letras de Ilhéus (ALI)

 

Academia de Letras de Itabuna (ALITA)

 

Center for Global and International Studies, University of Kansas

 

Centro de Estudos Portugueses Hélio Simões (CEPHS-DLA/UESC)

 

Círculo Fluminense de Estudos Filológicos e Linguísticos (CiFEFiL) 

 

Companhia das Letras na Educação (APOIO CULTURAL)

 

CRELL (Grupo de Pesquisa Cultura Resistência Etnia, Linguagem e Leitura) — Coordenação sediada na UNEB (Universidade do Estado da Bahia)

 

EDITUS – Editora da UESC

 

GELC (Grupo de Pesquisa em Estudos Literários Contemporâneos) — Coordenação sediada na UEFS

 

Grupo de Pesquisa Literatura, História e Cultura: Encruzilhadas Epistemológicas - UESC

 

PPGEAFIN (Programa de Pós-graduação em Estudos Africanos, Povos Indígenas e Culturas Negras) — UNEB

 

PPGH (Programa de Pós-Graduação em História) — UESC (Universidade Estadual de Santa Cruz)

 

PPGL (Programa de Pós Graduação em Letras) — UNEB – Teixeira de Freitas

 

PPGL (Programa de Pós-Graduação em Letras e Representações) — UESC (Universidade Estadual de Santa Cruz)

 

Prefeitura Municipal de Seabra – Bahia (Apoio Institucional)

 

PROGEL (Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários) – UEFS (Universidade Estadual de Feira de Santana)

 

Programa de Pós-graduação em Letras -UEMA

 


III WEBINÁRIO ESTUDOS AMADIANOS
PROGRAMAÇÃO
TODAS AS ATIVIDADES ACONTECERÃO NO
CANAL UNIVERSIDADE DA GENTE

DATA E HORÁRIO

ATIVIDADE

08.08.2022
19:00 horas
MESA 01

ABERTURA
CYRO DE MATTOS: DIÁLOGOS COM JORGE AMADO

Coordenação: Prof. Dr. Gildeci de Oliveira Leite (PPGEL- Programa de Pós-graduação em Estudo de Linguagens MPEJA- Mestrado Profissional em Educação de Jovens e Adultos-UNEB)

Cyro de Mattos, um escritor consagrado
Raquel Rocha (ALITA – Academia de Letras de Itabuna)

Cyro de Matos de poeta universal a uma leitura de Jorge Amado
Nelson Cerqueira (ALB – Academia de Letras da Bahia /UFBA)

Cyro de Mattos - Uma obra de multiplicidade
Tica Simões (ALITA/UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz)

O humanismo em Cyro de Mattos
Baisa Nora (ALITA/UESC)

Ave, Cyro! Salutant vos qui vivunt
Reheniglei Rehem (ALITA/UESC)

A exaltação da experiência nos ‘Inéditos - Nesses rumores e mares’ em Canto até hoje
Heloísa Prata e Prazeres (ALB/UFBA – Universidade Federal da Bahia)

 * * *

terça-feira, 19 de julho de 2022

Médicos e Remédios

Helena Borborema

 


          Itabuna sempre teve excelentes médicos. Em épocas passadas, quando não havia ainda hospital na cidade, nem pronto-socorro, os médicos que aqui se estabeleceram realizaram maravilhas, verdadeiros milagres quando não contavam com os muitos recursos que existem hoje na área da medicina. Um médico sozinho desempenhava todos os tratamentos, tanto em adultos como em crianças. Não havia especialidade para isso ou aquilo. Um médico fazia partos, tratava de febres, doenças infantis, varíola, gripes epidêmicas, fraturas, pequenas cirurgias de emergência e, o que era de espantar, apesar da falta de recursos no meio e na própria medicina, quando não se falava aqui em antibióticos, eletrocardiogramas, ultrassom, radiografias e recursos outros, ele lutava para atingir o melhor com a sua competência e conhecimento.

            Em tempos difíceis como aqueles primeiros de Itabuna como vila e como cidade nascente, sem meios de transporte a não ser o burro, o médico estava sempre pronto para atender a qualquer chamado de emergência, a qualquer hora do dia ou da noite, na cidade e na zona rural, indo a pé, se a casa era perto, percorrendo ruas escuras e becos perigosos pelas tocaias, ou montado a cavalo, se a casa era afastada. Às vezes tinha de atravessar pedaços de cacauais, iluminado pela candeia do acompanhante, ou atravessar de canoa ou balsa um rio cheio, pondo em risco a própria vida, apesar de saber que não receberia nenhum pagamento, mas sabendo que uma vida estava a depender dele: uma mulher que se esvaía em trabalho de parto difícil sem que a parteira pudesse fazer mais nada, uma criança ardendo em febre, um pai de família prostrado por algum mal, sem socorro, sem nenhuma assistência. Às vezes a remuneração era uma carga de milho verde, um caçuá de laranjas, ou uma leitoa, um peru. Sei que a lembrança deles ficou gravada na memória e no coração de muita gente de Itabuna. Há o caso do Dr. Soares Lopes, que aqui clinicava, e teve de atender a um homem trazido da roça dentro de uma rede, em situação crítica, com o corpo várias vezes perfurado pelas balas de dois jagunços. A salvação seria uma cirurgia de emergência. Mas onde, se não havia hospital? Naquela situação  difícil, pediu o Dr. Soares Lopes que lhe arranjassem uma sala vazia ou um galpão e uma mesa, e a operação foi feita com toda aquela precariedade. Um braço foi amputado acima do cotovelo. Os ossos de uma perna e um queixo quebrados pelas balas foram consertados, e ou outros orifícios de tiros, tratados. Eu, menina, conheci o homem muitos anos depois do fato, já envelhecido, puxando de uma perna, um braço amputado, com duas fundas cicatrizes no peito, andando na rua e trabalhando ativo numa banca de jogo na praça Adami, como eu o vi numa noite de Natal. Isto graças à presteza e coragem de um médico do interior, que guardava sob a sua modéstia a alma de um santo e a competência de um grande profissional da medicina.

            Houve em Itabuna outra figura de médico um tanto diferente dos demais por sua extrema simplicidade. Era o doutor Ápio Lopes, muito procurado pela confiança que a clientela tinha em suas receitas. Modesto, pouco ligava para a sua aparência pessoal e do consultório. Não sei quando chegou a Itabuna, nem de onde veio, já o conheci bem velho. Tinha consultório numa das ruas do centro, a Oswaldo Cruz. Branco, rosto corado, fanhoso, era querido e respeitado pela clientela. Alguns diagnósticos ele dava só examinando a língua, os olhos e a tonalidade da pele. Creio que acertava em cheio, porque eu, menina, só ouvia elogios à eficiência do bom doutor.

            Ótimos médicos prestaram os seus serviços a Itabuna naqueles tempos difíceis de atentados à vida, epidemias e doenças várias que assolavam a população. A cidade pode se orgulhar de seus médicos, que dignificaram e enobreceram a profissão, no presente e no passado.

            Além do tratamento médico, havia a medicina caseira, muito aplicada. Esta, muitas vezes, era para as crianças um terror. Se o menino não queria comer, andava pálido, sem apetite, a primeira providência era chamar a rezadeira. Podia ser “olhado”. Esta era convocada e já chegava trazendo seus ramos de arruda ou pinhão-roxo. Ainda vejo nitidamente as figuras de dona Maria e dona Bertolina, muito procuradas e acreditadas. Feita a reza, às vezes uma só não bastava, eram três ao todo, aguardava-se a melhora. Se a falta de apetite continuava era sinal de vermes, as lombrigas. A sorte da criança estava lançada. Eu, no caso, entrava em clima de terror, porque sabia não ia demorar muito meu pai chegar em casa com o vidro de “Lombrigol”. A data era marcada: no minguante ou lua nova, caso contrário os vermes não morriam. Era um óleo grosso, intragável, de cheiro repugnante. No dia escolhido eu era acordada bem cedo, ainda no lusco-fusco. A cena que meus olhos viam, metia medo; minha mãe, de pé, com o vidro de remédio numa mão e a colher na outra, e meu pai ao lado, para dar reforço. Eu fazia horrores, chorava, trancava a boca, até por fim ser dominada e obrigada a engolir a colherada da droga. Depois disso vinha o resguardo: trancada no quarto o dia inteiro, sem ver a luz do sol e nenhuma cor verde. Se ocorresse olhar uma planta ou a claridade do sol, as lombrigas não morriam. A alimentação era bem fraca: chá preto e torradas para enfraquecer os vermes. No segundo dia, podia comer umas mantinhas de carne grelhada, com arroz, quase sem sal.

            O óleo de rícino era outro pavor da meninada. Não sei por que muito usado naqueles tempos. Se uma comida fazia mal, tinha um problema digestivo, se curava com chás. Se persistia o problema, não havia dúvida, entrava em cena o óleo de rícino. Era outro desespero. Minha mãe amenizava a minha angústia convencendo-me a segurar uma chave na mão – ajudava a não sentir o gosto do remédio, me dizia ela -, enquanto com a outra mão segurava uma banda de laranja, para chupar assim que engolisse o óleo grosso de cheiro repugnante que descia pela minha garganta.

            Nos casos de gripe forte, o remédio era um chá de sena com maná, comprado na farmácia. Era tomado frio, e tinha gosto intragável. Se aparecia o sarampo, para o tratamento buscava-se a flor do sabugueiro. Havia grande variedade de folhas para chás e para banhos, indicadas nos mais diversos males.

            Um tratamento muito usado era a “Emulsão de Scott”. Creio que toda criança de Itabuna, da minha geração,  a conheceu; era indispensável se tinha tosse ou após uma gripe. Muitos a tomavam para ajudar no crescimento. Se a criança andava magra ou anêmica, o remédio era “Capivarol”.

            Antigamente o resguardo era fator importante para consolidar a cura de qualquer enfermidade; para a parturiente, então, ele era importantíssimo: sete dias no quarto em repouso, pés calçados com meias de lã para evitar friagem, e algodão nos ouvidos para não ouvir barulho; alguém da família vinha para tomar conta da casa: a mãe, a tia, a irmã, e, em último caso, uma comadre. Para a alimentação da parturiente só canja de galinha nova ou frango. Tudo o mais era vetado. Verduras que davam em ramagens, como o maxixe e a abóbora, eram considerados veneno. Limonada, nem falar. Peixe de couro era proibido; peru ou pato só podia comer um ano depois da criança nascida. Era com todas essas precauções que as senhoras enfrentavam os nascimentos de cinco, oito, doze, quinze filhos. Como não havia hospital nem maternidade, os partos eram feitos em casa, geralmente por parteiras eficientes pela prática e dedicadas pelos cuidados. Itabuna teve boas parteiras como dona Joventina, dona Glicéria, dona Guilhermina, e mais tarde, as diplomadas dona Otaciana, Olga Couto, e dono Júlia.

            O pior tratamento a que uma criança era submetida era o dentário. Não havia dentista só para crianças, como hoje. Quando se entrava num gabinete dentário, a primeira coisa que se via era um armário de vidro, e, nas prateleiras, bem arrumada, a exposição da aparelhagem toda, instrumentos que pareciam de tortura, agressivamente à vista. O meu drama começava logo que olhava para eles. Era assustador; desatava a chorar e a tremer. Assim, quando sabia que seria levada ao dentista, a minha primeira reação era esconder os sapatos; até que fossem encontrados, já tinha passado o horário, e assim, ia me safando daquela ameaça e da dor. Em casa, quando eu tinha dor de dentes, esta era aliviada com a “Cera do Dr. Lustosa”, então muito usada.

            Na minha infância, um dos cuidados que as mães tinham com os filhos, era a proteção contra o “vento sul” que, conforme eu ouvia falar, causava doenças. Quantas vezes eu estava brincando fora de casa, quando chegava a ordem: “entre; o vento sul está soprando, ele trás doenças“. – Que vento era aquele que minha mãe tanto temia? De onde vinha? Muito mais tarde fiquei sabendo que era o vento frio que soprava do Sul, vindo das matas próximas, carregado de umidade; como a cidade era mais aquecida, ele provocava uma queda repentina de temperatura e isso causava gripe, resfriado, alergias, etc.

            Sob os aspectos da saúde, as crianças de hoje são muito mais felizes do que as de anos atrás, porque desconhecem o pavor do consultório dentário que eu conheci, desconhecem as regras draconianas da medicina caseira, o cheiro e gosto horríveis da sena, do óleo de rícino e do “lombrigol”.

 

(RETALHOS)

Helena Borborema

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