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sábado, 2 de julho de 2022

A INDEPENDÊNCIA DA BAHIA EM BAIANÊS



Oxe! Colé de mermo? Você fila aula e eu tenho que contar tudo de novo? Mas é niuma. Se ligue que você não sabe da terça-metade. Tá ligado que a Família Real partiu a mil de Portugal pra cá em 1808? Vazou com medo de Napoleão e quando chegou, deu uma de porreta e chamou a gente de Reino Unido. Ficou todo mundo de boa e a gente comeu essa pilha.

Tempo vai, tempo vem, rolou a crocodilagem: D. João VI e a Família Real partiram a mil de volta pra Portugal e ainda queriam que o Brasil voltasse a ser colônia. Aoooooooonde!

Quem anda pra trás é caranguejo, mô pai. O povo se retô, pegô ar e o pau comeu. Aí, D. Pedro I deu o zig na família e disse assim pra Portugal: “Quem vai é o coelho. Diga ao povo que fico!” Pô, véio, D. Pedro brocô.

Mas aí, o bicho pegô. Portugal ficou virado no estopô e a gente recebeu a galinha pulano: as tropas de Madeira de Melo armaram uma bocada nas ruas de Salvador e foi aquela muvuca. Nosso povo lutou, mas ximbou e se lenhou: o exército português tomou a cidade na tora.

O povo ficou injuriado e fugiu picado para o Recôncavo junto com nossos soldados. Lá, eles usaram o tutano pra organizar a reação: tiveram uma ideia massa e criaram o Exército Libertador. Tinha poucos soldados e muita gente do povo: pobres, negros libertos, negros escravizados, índios, agricultores, etc. Só tinha uma mulher que se alistou na cocó dizendo que era homem: Maria Quitéria. Já tinha pra mais de 10 mil pessoas, mas era tudo feito a migué: tinha poucas armas, ninguém sabia lutar, um mangue da porra.

E eu falo mesmo que eu não sou baú: o exército de Portugal virado no diabo e a gente ia lutar de badogue e barandão? Aí é barril dobrado. Mas o povo tava na pilha e o couro comeu. Um barco português chegou em Cachoeira atirando e os baianos renderam eles a bordo de canoas. Ô povo retado! Ô povo virado no estopô.

Enquanto isso, em Salvador, o exército português tava bagunçando, mandando e desmandando: uma esculhambação da porra. Foi então que eles invadiram o Convento da Lapa e mataram a Sóror Joana Angélica. Aí fedeu. Aí escancarou tudo. Eles foram fuleiro. A notícia deixou o povo agoniado e o Exército Libertador decidiu que ia arrodear Salvador.

Lá em Itaparica, o povo também deu testa ao exército português e não deixou invadir a ilha. Maria Felipa, uma negra retada, se juntou com mais 40 marisqueiras: elas ficaram de butuca e, na calada da noite, foram chavecar os vigias dos barcos. Levaram os donzelos pro mato e quando eles acharam que iam fazer ozadia, receberam foi uma surra de cansanção. Arde coma porra! É pior que tomar zunhada. Enquanto os vigias tavam nuzinhos, se coçando e se bulino, as mulheres colocaram fogo em mais de 40 barcos dos portugas. Receba, sinha miséra!

Já nas águas da Baía de Todos os Santos e no Rio Paraguaçu, foi João das Botas que lutou contra mais de 40 barcos portugueses com sua “Flotilha Itaparicana” que só tinha barco de pescador. É brincadeira um esparro desse? Mas ele tirou onda e segurou os portugueses. 

Até então, a briga era essa: o povo baiano contra Portugal. Mas aí, D. Pedro entrou na dança e mandou reforço. Pra terra, ele contratou o general francês “Labativs” (se falar Labatut, use o “lá ele” porque Labatut tem rima). Ele chegou com mais soldados do resto do Brasil e deu um trato no nosso Exército Libertador. Um tapinha aqui, outro ali, mas tudo continuou meio nas coxas, feito a facão. Mas como a guerra já era daqui pra li, e como baiano é baiano: se não guenta vara, peça cacetinho. Só tem tu, vai tu mesmo: imagine a paletada de Cachoeira até Salvador.

Já para o mar, D. Pedro contratou o Lord Cochrane (mas pode chamar de “Croquete” que é niuma). O cara era escocês e já tinha fama de mau lá nas Europa. Isso já assustou a marinha portuguesa: ponto pra D. Pedro.

O Exército Libertador tinha muita garra mas pouca experiência. Chegou e cercou a cidade mas levou um baculejo daqueles do exército português. Foi na Batalha de Pirajá: os caras bagunharam a gente. Foi barril de mil. Nem dava pra brincar de esconde-esconde ou gritar “um, dois, três, salve todos”. Já era, pai!

Só que o nosso Corneteiro Lopes recebeu uma ordem pra tocar “borimbora” (Tradução: recuar), deu revertério e tocou “se joga” (Tradução: Cavalaria avançar e degolar). Oxe! Aí, esculhambou tudo. O nosso exército sacudiu a poeira e pra se amostrar, deu-lhe uma carreira e passou a porra nos portuga que não entenderam nada. Os portuga vazaram quando ouviram o toque de “se pique” e a galera do mau correndo pra dentro.

Foi o maior migué da história da Bahia, do Brasil e do mundo porque a gente não tinha nem um cavalo pra contar história, que dirá uma cavalaria inteira. Só mesmo baiano pra ganhar uma guerra no grito. Isso né culhuda não, véio: foi assim mermo. O Corneteiro Lopes se armou porque deu certo, mas se desse merda, uzoto ia dizer que foi ideia de jerico.

Com isso, isolamos os portugueses dentro de Salvador e aí deixamos eles sem água e sem comida: não entrava nem geladinho, nem bolinho-de-estudante, nem um real de big big.

Aí, quando a esquadra de Lord “Croquete” (Lord Cockrane) chegou e se juntou à flotinha de João das Botas, o sacrista do Madeira de Melo viu que já tava com a moral de jegue, chamou o rebanho de soldado dele na surdina e se picou de madrugada. Saiu no lixo mas João das Botas foi na cola deles até alto-mar e uns e oto “me disseram” que ele a largou o doce assim, ó: Se plante, vú, seu Madeira! Não se abra não que eu não sou cupim. E nem volte aqui paroano!

Na moral, véio, o nosso povo tirou onda: Salvador fiou livre e o Brasil consolidou sua independência. E quem não lutou com armas, lutou cuidando dos feridos, conseguindo comida para os soldados, doando dinheiro para as batalhas.

Eita povo guerreiro! Eita povo boca de zero nove. E aí, painho, foi um arerê nas ruas de Salvador: o Exército Libertador entrou triunfante: todo mundo solto na buraqueira indo cumê água. A rua chega ficou apertada e assim nasceu o desfile do 2 de Julho. Né não é?

Tá rebocado que você não sabia dessa história. Agora, tá ligado porque a tocha vem do Recôncavo, passa por Pirajá e chega na Lapinha, né? Tá ligado porque a festa é do povo, né? E tá ligado porque tem o Caboclo e a Cabocla, né? Ó paí! Não tá ligado não, seu leso? Me faça uma garapa! É porque eles representam a mistura popular que nos deu força pra lutar pela independência. Tá vendo aí? Fiz um texto grande pra apertar sua mente, mas a história é de lenhar, né não?

 

(Texto de Louti Bahia da @amoahistoriadesalvador publicado em 30/06/2020)

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sexta-feira, 1 de julho de 2022

ODE AO DOIS DE JULHO – Castro Alves

 


Clique o vídeo abaixo:





Ode ao Dois de Julho

Castro Alves

 

Era no Dois de Julho. A pugna imensa

Travara-se nos serros da Bahia…

O anjo da morte pálido cosia

Uma vasta mortalha em Pirajá.

“Neste lençol tão largo, tão extenso,

“Como um pedaço roto do infinito …

O mundo perguntava erguendo um grito:

“Qual dos gigantes morto rolará?!…

 

Debruçados do céu... a noite e os astros

Seguiam da peleja o incerto fado…

Era tocha — o fuzil avermelhado!

Era o Circo de Roma — o vasto chão!

Por palmas — o troar da artilharia!

Por feras — os canhões negros rugiam!

Por atletas — dois povos se batiam!

Enorme anfiteatro — era a amplidão!

 

Não! Não eram dois povos que abalavam

Naquele instante o solo ensanguentado…

Era o porvir — em frente do passado,

A liberdade — em frente à escravidão.

Era a luta das águias — e do abutre,

A revolta do pulso — contra os ferros,

O pugilato da razão — com os erros,

O duelo da treva — e do clarão!…

 

No entanto a luta crescia indômita...

As bandeiras – como águias eriçadas —

Se abismavam com as asas desdobradas

Na selva escura da fumaça atroz…

Tonto de espanto, cego de metralha

O arcanjo do triunfo vacilava…

E a glória desgrenhada acalentava

O cadáver sangrento dos heróis!...

 

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Mas quando a branca estrela matutina

Surgiu do espaço... e as brisas forasteiras

No verde leque das gentis palmeiras

Foram cantar os hinos do arrebol,

Lá do campo deserto da batalha

Uma voz se elevou clara e divina:

Eras tu — liberdade peregrina!

Esposa do porvir — irmã do Sol!…

 

Eras tu que, com os dedos ensopados

No sangue dos avós mortos na guerra,

Livre sagravas a colúmbia Terra,

Sagravas livre a nova geração!

Tu que erguias, subida na pirâmide

Formada pelos mortos do Cabrito,

Um pedaço de gládio — no infinito…

Um trapo de bandeira — n’amplidão!...

 

                                   (São Paulo, junho de 1868)

 

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          Antônio de Castro Alves nasceu na comarca de Cachoeira, Estado da Bahia, a 14 de abril de 1847, sendo filho do médico Antônio Alves e de sua mulher, D. Clélia Brasília da Silva Castro. Faleceu na cidade do Salvador a 6 de julho de 1871. Na expressão de Afrânio Peixoto Castro Alves “Pôs suas ideias à frente do seu sentimento e, num tempo em que a miséria da escravidão não comovia ninguém,  despertou com os seus poemas arrebatadores, piedosos ou indignados, a sensibilidade humana e patriótica da geração que, vinte anos mais tarde, viria a conseguir a liberdade. Por isso lhe deram o nome invejável de Poeta dos Escravos. Das alturas do seu gênio compreendera que não há grande homem sem uma grande causa social a que tenha servido, e não aspirava a outra glorificação que a dessa obra realizada. A morte, depois, não importaria...

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quinta-feira, 30 de junho de 2022

O JOGADOR - Ignácio de Loyola Brandão

 




Dificilmente confiro os resultados. Nunca sei se perdi ou ganhei. Talvez tenha ganho fortunas.

Para Dostoievski, humildemente.

Sou igual à maioria dos brasileiros. Um tolo que joga na Mega Sena. Sei, sabemos todos, que não vamos ganhar. Mas jogo, acreditando que naquele dia tudo vai virar. Assim como já virou no Brasil e deu o que está dando, um recuo como nunca se viu, logo estaremos na pré-história. Políticos iguais, assembleias legislativas medíocres (para a estadual não voto nunca mais). Penso se vale a pena votar para prefeito. Olho as ruas, sujeira, lama correndo junto ao meio-fio, produzida por construtoras, ônibus nas mãos da bandidagem. Olhem as crateras que os caminhões deixam no asfalto das ruas, o prejuízo que dão à comunidade. Quem é o prefeito atual? Olhando a cidade abandonada, tenho certeza de que não existe. Mas nada de desânimo, assim como sei que um dia ganharei a Mega Sena, teremos políticos íntegros. Devemos sonhar com utopias.

Nessa minha idealização de mundo, abro uma gavetinha onde guardo os resultados da Mega Sena e da Lotofácil. Não jogo fora os boletos das apostas. Os boletos estão divididos em grupos de um jogo, dois jogos, três jogos. Na hora de apostar, apanho aleatoriamente alguns, perfazendo uma quantia sóbria de dinheiro. Nunca joguei bolões. Apesar da insistência da Maria, linda atendente do guichê preferencial da lotérica que frequento. Tem alguns números que repito há anos, talvez décadas. Nunca saíram. Mas insisto. Para apostas uso: o dia em que nasci, ano em que entrei para a escola, ano em que tive o primeiro emprego, ano em que vim para São Paulo, ano em que conheci Marcia, minha mulher, ano em que repeti no científico, ano em que vi o primeiro teatro de revista em Araraquara com vedetes coxudas, ano em que minha mãe morreu, ano em que Alda me olhou, ano em que tirei 10 de matemática, ano em que entrei para a Academia Paulista e também para a Brasileira, superacontecimentos e assim por diante.

Agora, vem o mais importante. Dificilmente confiro os resultados. Nunca sei se perdi ou ganhei. Talvez tenha ganho fortunas. Ou melhor, perdido, porque não confiro. Tenho medo de, ganhando muito, minha vida se transtornar, eu assediado por centenas de 'amigos' que há muito não via ou por parentes que nunca tive. Ou então, alvo da bandidagem, de milícias, medo de ser colocado em um carro cheio de gás. De qualquer modo, toda semana penso em ganhar e refrescar minha vida. Que o psicoterapeuta Hiroshi explique o que nem Freud, Melanie Klein, Jung, Lacan (favorito de Betty Milan), Adler, Bion ou algum dos 980 psicanalistas existentes no Brasil (segundo o Google) conseguiram esclarecer.

O Estado de S. Paulo, 19/06/2022

https://www.academia.org.br/artigos/o-jogador

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Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.

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quarta-feira, 29 de junho de 2022

 

São Pedro e São Paulo: conheça a história dos santos juninos



Pedro era um pescador no Mar da Galileia e largou sua vida para seguir Jesus, sendo apontado como seu sucessor entre os doze apóstolos e teve a missão de construir uma igreja que continuasse a obra do Messias.

Uma das histórias mais conhecidas sobre a vida de Pedro foi a ocasião em que o apóstolo negou Jesus três vezes ao seu mestre ser preso, sendo tomado pelo arrependimento em seguida.

Para os católicos, São Pedro recebeu a missão de ser líder da Igreja de Cristo, assim como diz as escrituras “Tu és pedra, e sobre essa pedra edificarei a minha igreja” (Mateus 16:18).

Por outro lado, Paulo de Tarso, cuja conversão ocorreu quando estava em direção à cidade de Damasco, conforme os registros de Atos 9:3-5: “Durante a viagem, estando já em Damasco, subitamente o cercou uma luz resplandecente vinda do céu. Caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: ‘Saulo, Saulo, por que me persegues?’. Saulo então diz: ‘Quem és, Senhor?’. Respondeu Ele: ‘Eu sou Jesus, a quem tu persegues.”

Paulo, anteriormente chamado de Saulo de Tarso, foi um dos grandes perseguidores da Igreja e dos discípulos de Cristo. No entanto, converteu-se, mudou de nome e se tornou um dos grandes evangelizadores da igreja primitiva, tornando-se um dos responsáveis pela sua expansão.

Ambos morreram martirizados. São Pedro foi crucificado, mas pediu para que a cruz ficasse de cabeça para baixo, pois não se sentia digno de ter a mesma morte que seu mestre. Já São Paulo foi degolado em Roma.

https://www.calendarr.com/brasil/dia-de-sao-pedro-e-sao-paulo/


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terça-feira, 28 de junho de 2022


Ternura 

Cyro de Mattos*


 

            É preciso viver a vida com ternura. Não importa que seja um pouco. Vale viver no tempo cativante que o dia oferta quando os seus ares se fazem verdes.  Felizes, tudo transformam nesse momento fugaz, que comove, com seus lampejos trêmulos de amor. Pode até ser ilusão esse momento que sentimos, mas com suas asas brandas, cores e sons que acalmam, é bom que se repita, mostre que é capaz de reverter o que é triste em dons da felicidade.      

            Ternura é esse cuidado que a mãe tem quando diz ao filho que primeiro é a obrigação depois a distração.  Com verões e graça, tudo na vida passa. E o pai ao se despedir do filho, sorrindo de contente, diz que você já é um homem, vá em paz, não se perca, nem esqueça que sempre estou aqui. Logramos extrair no acento circunflexo da palavra avô sensações que se alimentam de ternura, que não esquecemos, pois um homem assim, no terminal das estações acumuladas com saber, consegue o feito de ter o coração duas vezes com açúcar, tanto ele cativa e torna a vida doce.  

            A ternura da natureza tem seus hábitos protetores, que se proliferam e também cativam, seguindo uma ordem onde tudo é vida ou morte, mas com ordem.  O passarinho transmite sua afeição pela vida quando leva no bico o graveto para fazer o ninho. Daqui a pouco estará levando no bico a comida para os filhotes. Daqui a pouco estará voando com os filhos numa alegria que a natureza há tempos vem inventando durante as estações.

            A natureza mostra sempre que os bichos vivem à sua maneira, cheios de ternura. A onça mais feroz fica mansa, ao lamber as crias com a língua crespa, em ritual de afago e lambidas. Ai de quem tente interromper seu amor às crias nessa hora mansa, em lambidas de doçura.  Sua careta é tão feia que o mais corajoso predador sai em disparada para num instante não virar janta da mãezona zangada. 

            O gavião manso amanhece quando descobre a parceira para construir uma nova família. Lá estão eles bem no alto, com os bicos que se tocam e asas que abraçam. Lá como cá, embora fujam do verde odores do que encanta, a vida prossegue, além o azul inocente ressoa. Doce e eterna ternura penetra os seres e as coisas, revestindo nossa existência com o vento, o sol e a chuva.  É verdade, a ternura com seus pendores perdura dentro de cada um de nós.

            Aconteceu que certo dia o menino sorriu o sorriso mais feliz do mundo quando pela primeira vez entrou com o pai no estádio superlotado. Todo alegre ia ver o seu time querido disputar a partida final do campeonato.  Antes de a partida ter início, virou-se para o pai com o rosto festivo, deu-lhe um beijo.  Podia até não saber que estava fazendo um gol de placa com a marca da ternura, mas era o jogador mais incrível antes do vaivém da partida.

             Outro dia, um menino, que acreditava em Papai Noel, quando  viu o velhinho sentado na cadeira do supermercado, teve certeza que esse  homem gordo, vestido numa roupa vermelha, crescida barba branca,  soltava pelas mãos corações,  ao mesmo tempo que sorria fazendo rô, rô, rô  para cada um dos meninos. 

             No cinema, quando o mocinho salvava a mocinha dos bandidos que acabavam de assaltar o banco, o coração do menino queria saltar pela boca, de tanto alegria que tinha. O mocinho ganhava um beijo da mocinha. Na cena final a ovação era geral, o bem vencia o mal.

            Ternura só faz bem, mesmo quando a cena é triste e com ela a gente nunca se acostuma.  Daquela vez ele viu quando a mulher pediu para que ainda não descessem o caixão. Passou a mão no rosto do marido. Disse: “Vá em paz, fique certo que haverá no caminho a sua estrela-guia.”

            Ternura serve para espantar os males. Ela opera o milagre de nascer no mesmo chão, adormecer sob a vigília da esperança. Acordar, erguer-se com leveza, sair por aí para acontecer com hesitante tremor enquanto dura a vida com os fios sem fim do sonho no amanhecer fundamental. 

 

*Cyro de Mattos é jornalista, cronista, contista, romancista, poeta e autor de livros para crianças. Publicado em Portugal, Itália, França, Espanha, Alemanha, Rússia, Dinamarca, México e Estados Unidos. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia, Academia de Letras de Ilhéus e Academia de Letras de Itabuna. Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz.

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