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domingo, 19 de setembro de 2021

A TRANSIÇÃO E A CONSTITUIÇÃO – José Sarney


A Transição e a Constituição

 José Sarney


Na noite da agonia de Tancredo colocaram o dilema político de quem devia assumir a Presidência da República. A minha decisão de só assumir com Tancredo Neves é de todos conhecida. Alguns segmentos políticos pensavam que deveria ser o Ulysses Guimarães. Mas este, como grande homem público, encerrou a discussão tendo comigo o seguinte diálogo, tantas vezes repetido: 'Não assumo porque a Constituição determina que é o Vice-Presidente', e incisivamente me disse: 'Sarney, não queira criar caso, lutamos para chegar até aqui, você não tem o direito de nos criar agora qualquer dificuldade. A Constituição determina que é você que deve assumir a Presidência.'

Assim fui Presidente pela força da Lei Maior: a Constituição.

Participei, por vezes como figurante, algumas vezes como protagonista durante mais de um terço do tempo da construção de nossa democracia, que começou em 1822. A Independência foi o primeiro passo bem-sucedido para escaparmos não só da condição colonial - que formalmente deixáramos em 1815 -, mas também da autocracia a que fôramos submetidos por mais de 300 anos. A obra dos nossos fundadores, sintetizados na figura de José Bonifácio, é a de instituir um país sob a regência da Lei, um Estado de Direito. A herança de 1822 é a Constituição de 1824.

O mesmo espírito inspirou os construtores das Cartas Constitucionais de 1892, 1934, 1945. Houve retrocessos, como a Constituição do Estado Novo. Vi o suicídio de um Presidente acuado por grave crise governamental. Vi, já Deputado, um Ministro da Guerra colocar tanques contra um Presidente desarmado. Vi a resistência de Juscelino Kubitschek a levantes armados. Vi, de muito perto, o desastre da tentativa de Jânio Quadros de sobrepor sua vontade à do Congresso Nacional por intermédio de hipotéticos 'braços do povo'. Parlamentarista, vi a imposição, contra meu voto, de um parlamentarismo que era uma simples diminuição do mandato de João Goulart.

Durante a transição para a democracia coube-me a tarefa, honrosa e patriótica, de Comandante em Chefe das Forças Armadas. Com elas estabeleci duas diretrizes: a de que, devendo todo comandante zelar por seus subordinados, cabia-me defender as Forças Armadas - e isso o fiz, garantindo que não se fizessem contra essa Instituição vendetas ou diminuições; em segundo lugar, afirmei que a Transição Democrática seria feita com as Forças Armadas, e não contra elas.

Faz 34 anos. Nunca, em nossa História, tivemos tanto tempo de regime democrático sem um pronunciamento militar. O respeito que juramos à Constituição tem nele seu ponto basilar, cabendo ao Supremo Tribunal Federal a sagrada missão de ser seu guardião (art.102 da Constituição Federal).

Assim, como testemunha e protagonista da História da Democracia no Brasil, peço que lembremos Rui Barbosa: 'Fora da lei não há salvação'.

Os Divergentes, 14/09/2021

 

https://www.academia.org.br/artigos/transicao-e-constituicao

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José Sarney - Sexto ocupante da Cadeira nº 38 da ABL, eleito em 17 de julho de 1980, na sucessão de José Américo de Almeida e recebido em 6 de novembro de 1980 pelo Acadêmico Josué Montello. Recebeu os Acadêmicos Marcos Vinicios Vilaça e Affonso Arinos de Mello Franco.

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sábado, 18 de setembro de 2021

PAPO DE CAMINHONEIRO, por Cyro de Mattos



                               Papo de Caminhoneiro

                                                         Cyro de Mattos

                

        (... os dois caminhoneiros estão no Restaurante Nego Bom, rodovia 301, em animado papo regado à cerveja.)

 

- você sabe quando vai acabar essa corrupção na República Pinapá do Piripicado? – pergunta o primeiro

- não faço ideia – responde o segundo 

- quando morcego doar sangue – responde o primeiro

- boto fé no novo presidente

- o que ele pode fazer com essa praga miserável?

-  com o presidente Louro-Brabo o jogo é outro, corrupção não                         tem vez

- pode não ser corrupto, mas pra mim não passa de um doido

- o homem é militar, está cercado de ministros militares, com ele ou vai ou racha, só esperar pra ver

- ver o quê?

- o homem está decidido a botar até tanque com canhão nas ruas,  tropa armada de metralhadora e granada,  mas ninguém vai ouvir falar mais  em corrupção na República Pinapá do Piripicado, o dinheiro público é do povo,  com o povo, para o povo, fora do povo  não há salvação, Louro-Brabo falou tá falado!

- ando farto desse engodo, meu caro, sai presidente, entra presidente, com o vírus da corrupção não há vacina que dê jeito, onde está o bicho-homem tem o fedor da mentira e podridão

- oh! que saudades que eu tenho dos anos que não voltam mais

- que saudades? que anos?

- do presidente Militinho com a sua sabedoria

- o que é que ele dizia?

- à paz, ao progresso, à igualdade de oportunidades, à vida sem fome para o pobre, ele dizia sim, à corrupção não!

- isso é bom pra se dizer, quero ver fazer acontecer

- não tiro sua razão

 

*Cyro de Mattos é autor de 80 livros, de diversos gêneros. É também publicado em Portugal, Itália, França, Alemanha, Espanha, Dinamarca, Rússia e Estados Unidos. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Membro da Academia de Letras da Bahia, Pen Clube do Brasil e Instituto Geográfico e Histórico da Bahia.

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SE PRECISAR, CHAME O AFONSO PENA

 Ignácio de Loyola Brandão


Encontrei Afonso Pena tomando suco de mamão com laranja na CPL. Nos encontramos todos ali, aos domingos de manhã. Antes da pandemia éramos oito, a ler jornal, trocar ideias, bem cedinho. Tinha quem emendava para o chopinho antes do almoço em dias quentes. Agora, somos quatro. Gradualmente os pequenos encontros cotidianos começam a ser reativados. Estava feliz, comuniquei: - Finalmente, de sorte, encontrei uma podóloga ótima aqui no bairro. Há tempos precisava dar um tratamento nos pés. A gente muda a vida, fica leve, solto.

- Podóloga? Por que não me disse?

Há tempos conheço uma ótima e aqui no bairro. Não tem melhor. Vou te dar o telefone.

-Não preciso marcar, a minha me deixa bem contente. A gente precisa ficar feliz e uma das maneiras é um bom trato nos pés.

- Não, você vai mudar. Nem imagina como a Rosanilce é incrível. Os aparelhos que têm. . .

-A minha tem todos, de última geração, impressionante a suavidade dela, as carícias que me faz com as mãos. Às VEZES, durmo.

- E que você não conhece a Rosanilce. A massagem dela é daquelas de harém de filme chinês.

Você cochila, tem sonhos celestiais. Vai, anote aí o celular dela. Aliás, vou fazer outra coisa. Eu chamo e aviso que você vai. Para que tenha tratamento especial.

- Não precisa se incomodar. Já agendei encontro coma minha para todos os meses. Não fizesse isso, não conseguiria vaga, há uma baita fila.

- Você não sabe o que está perdendo, mas é problema teu, cada um sabe o que os pés precisam. Azar o seu!

Passadas semanas, encontrei Afonso Pena na mesma mesa da padaria. Desta vez foi na calçada, o tempo estava ameno. Contei que vinha tendo uns engasgos esquisitos, talvez fosse o tempo seco, a poeira das sete construções em torno de nós na mesma quadra. Mas que iria ao médico naquela mesma tarde.

Médico? E quem é teu médico?

- José Eduardo de Lorenzo, filho do meu médico em Araraquara quando eu era jovem. O pai, Syrtes, o único Syrtes que conheci na vida, nome bom para personagem, era muito considerado.

- Qual a especialidade dele?

- Clínico-geral. . .

- Pare, pare, você tem que ir a um especialista. Tenho um impressionante. Tive o mesmo problema, achei queia morrer. Fui ao Pasetinho, cara superlegal, resolveu tudo.

-Mas o De Lorenzo é ótimo, engasgo é sua especialidade.

- Não é igual ao Pasetinho. Ele é tão bom que tem fila para agendar consulta. Fez cursos na Universidade de Illinois, em Nanterre, até salvou um xeque dos Emirados. Vou dar um jeito, você tem de se tratar com o Pasetinho, sujeito como figura humana.

Infelizmente o Pasetinho só tinha consulta livre para daqui a dois anos, andava tratando uma paciente superespecial chamada Tatiana, das maiores assistentes da Unesp. Deixei para lá.

Quarta-feira passada subia a pé para a Avenida Doutor Arnaldo onde ficam as floriculturas, uma atrás da outra, coisa bonita de se ver, vale passar a pé por ali para repousar a vista e a mente. Com quem dei? Com Afonso Pena. Toques de mão. Ele: - O que faz aqui?

- O que se faz aqui? Vim comprar flores.

- Escute! Venha cá! Sei de um lugar muito melhor para comprar flores. Você nunca mais vai comprar em outro lugar. Consegui me desvencilhar do Afonso, mas tenho um conselho a dar a vocês.

Se alguém tiver problemas com febre reumática, lumbago, coqueluche, falta de ar, dor na lombar, enxaqueca, refluxo, pressão baixa, labirintite, desequilíbrio, pedra no rim, precisa de uma costureira para emergência, um dentista, me avise, chamo o Afonso Pena. Ele conhece alguém melhor que o seu profissional.

O Estado de S. Paulo, 27/08/2021

 

https://www.academia.org.br/artigos/se-precisar-chame-o-afonso-pena

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Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11 da ABL, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.

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quinta-feira, 16 de setembro de 2021



CURIOSIDADES SOBRE A SUPREMA CORTE DOS ESTADOS UNIDOS, A MAIS RICA E PODEROSA DEMOCRACIA DO MUNDO

Plinio Arabá Vieira Lins

 

         -Tem apenas 9 ministros, todos com mandato vitalício e escolhidos pelo Chefe da Nação;

          - Cada ministro tem direito a apenas 4 (quatro) assessores, estes com contratos de 2 anos, no máximo;

          - Só o presidente da Corte. (escolhido pela maioria) tem direito a carro com motorista. Os demais dirigem e custeiam seus próprios carros e têm direito apenas a uma vaga no estacionamento do Tribunal;

          - Não há restaurante privativo no prédio, mas sim comunitário e cada um arca com sua própria despesa;

          - Recebem um ótimo salário, algo em torno de US$ 23.000/mês, mas sem qualquer outro adicional. Não existem subsídios, tipo auxílio moradia, alimentação, milhas de viagens, paletó, funeral, anuênios, quinquênios, etc.

Outras características:

          - É um Tribunal do tipo Apelação, cujas duas competências são: 1) Apreciação de recursos que questionam decisões dos Tribunais Federais e Estaduais; 2) Fiscalização da constitucionalidade das leis. Somente isso, ou seja, jamais serão chamados a decidir quem ficará com o gato da casa na separação de um casal;

          - Não há transmissão ao vivo das sessões. Houve apenas uma exceção, via áudio, por ocasião da implantação das restrições em decorrência da pandemia do Corona Vírus.

Como decidem:

          - Reúnem-se numa sala fechada, debatem entre si e um dos ministros da parte majoritária dos votos é selecionado para anunciar o resultado. Discretíssimo, raramente dão entrevistas e jamais opinam sobre temas que possam subir à exame pelo Tribunal.

          - A Constituição que juram guardar e defender tem apenas 7 artigos e 23 emendas, apesar de ser a segunda em vigor mais antiga do mundo, com 234 anos de existência. A nossa Carta Magna, com 33 anos de existência, tem 245 artigos, mais de 1,6 mil dispositivos, 116 reformas, sendo 108 emendas constitucionais!!!

          - A maioria da população dos EUA não sabe seus nomes, mas confia cegamente na instituição por saber que lá estão para manter o justo equilíbrio entre direitos e deveres de todos os cidadãos. São homens e mulheres que não se julgam deuses, não acusam, não investigam e não se afastam uma vírgula sequer do texto constitucional. Apenas julgam, sempre com base nos fatos e nas provas e não em suas ideologias ou em razão dos nomes envolvidos. Talvez isso explique ser impossível achar-se brechas para soltar políticos e empresários corruptos, ladrões e traficantes.

          - Não se tem, jamais se teve, conhecimento de um juiz da Suprema Corte americana tentar influenciar e/ou limitar decisões dos demais poderes da República e provavelmente seria taxado de louco aquele (s) que acusasse(m) publicamente o presidente dos EUA de torturador, genocida, homofóbico, fascista ou nazista. Esses juízes sabem que estão lá exclusivamente para servir a Nação e não para se servirem dela. Que é uma HONRA e não favor; ORGULHO e não sacrifício, servir seu povo. Enfim, sabem que devem ser EXEMPLO, por isso sua segunda maior recompensa é a do dever cumprido. A primeira é a certeza de que podem sair à rua sem guarda-costas, viajar de metrô ou avião de carreira e ir à praia ou ao parquinho com os netos, sem ouvir vaias e xingamentos.

 

https://www.facebook.com/plinioaraba

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quarta-feira, 15 de setembro de 2021

O ALIENISTA CAP. IX – Machado de Assis


Dois Lindos Casos


Não se demorou o alienista em receber o barbeiro; declarou-lhe que não tinha meios de resistir, e, portanto, estava prestes a obedecer. Só uma coisa pedia, é que o não constrangesse a assistir pessoalmente à destruição da Casa Verde.

— Engana-se Vossa Senhoria, disse o barbeiro depois de alguma pausa, engana-se em atribuir ao governo intenções vandálicas. Com razão ou sem ela, a opinião crê que a maior parte dos doidos ali metidos estão em seu perfeito juízo, mas o governo reconhece que a questão é puramente científica e não cogita em resolver com posturas as questões científicas.. Demais, a Casa Verde é uma instituição pública; tal a aceitamos das mãos da Câmara dissolvida. Há, entretanto, — por força que há de haver um alvitre intermédio que restitua o sossego ao espírito público.

O alienista mal podia dissimular o assombro; confessou que esperava outra coisa, o arrasamento do hospício, a prisão dele, o desterro, tudo, menos... 

— O pasmo de Vossa Senhoria, atalhou gravemente o barbeiro, vem de não atender à grave responsabilidade do governo. O povo, tomado de uma cega piedade que lhe dá em tal caso legitima indignação, pode exigir do governo certa ordem de atos; mas este, com a responsabilidade que lhe incumbe, não os deve praticar, ao menos integralmente, e tal é a nossa situação. A generosa revolução que ontem derrubou uma Câmara vilipendiada e corrupta, pediu em altos brados o arrasamento da Casa Verde; mas pode entrar no ânimo do governo eliminar a loucura? Não. E se o governo não a pode eliminar, está ao menos apto para discriminá-la, reconhecê-la? Também não; é matéria de ciência. Logo, em assunto tão melindroso, o governo não pode, não deve, não quer dispensar o concurso de Vossa Senhoria. O que lhe pede é que de certa maneira demos alguma satisfação ao povo. Unamo-nos, e o povo saberá obedecer. Um dos alvitres aceitáveis, se Vossa Senhoria não indicar outro, seria fazer retirar da Casa Verde aqueles enfermos que estiverem quase curados e bem assim os maníacos de pouca monta, etc. Desse modo, sem grande perigo, mostraremos alguma tolerância e benignidade.

— Quantos mortos e feridos houve ontem no conflito? perguntou Simão Bacamarte depois de uns três minutos.

O barbeiro ficou espantado da pergunta, mas respondeu logo que onze mortos e vinte e cinco feridos.

— Onze mortos e vinte e cinco feridos! repetiu duas ou três vezes o alienista.

E em seguida declarou que o alvitre lhe não parecia bom, mas que ele ia catar algum outro, e dentro de poucos dias lhe daria resposta. E fez-lhe várias perguntas acerca dos sucessos da véspera, ataque, defesa, adesão dos dragões, resistência da Câmara etc., ao que o barbeiro ia respondendo com grande abundância, insistindo principalmente no descrédito em que a Câmara caíra. O barbeiro confessou que o novo governo não tinha ainda por si a confiança dos principais da vila, mas o alienista podia fazer muito nesse ponto. O governo, concluiu o barbeiro, folgaria se pudesse contar, não já com a simpatia senão com a benevolência do mais alto espírito de Itaguaí, e seguramente do reino. Mas nada disso alterava a nobre e austera fisionomia daquele grande homem, que ouvia calado, sem desvanecimento nem modéstia, mas impassível como um deus de pedra.

— Onze mortos e vinte e cinco feridos, repetiu o alienista depois de acompanhar o barbeiro até a porta. Eis aí dois lindos casos de doença cerebral. Os sintomas de duplicidade e descaramento deste barbeiro são positivos. Quanto à toleima dos que o aclamaram não é preciso outra prova além dos onze mortos e vinte e cinco feridos.

— Dois lindos casos!

— Viva o ilustre Porfírio! bradaram umas trinta pessoas que aguardavam o barbeiro à porta.

O alienista espiou pela janela e ainda ouviu este resto de uma pequena fala do barbeiro às trinta pessoas que o aclamavam: —

... porque eu velo, podeis estar certos disso, eu velo pela execução das vontades do povo. Confiai em mim; e tudo se fará pela melhor maneira. Só vos recomendo ordem. E ordem, meus amigos, é a base do governo...

— Viva o ilustre Porfírio! bradaram as trinta vozes, agitando os chapéus.

— Dois lindos casos! murmurou o alienista.

 


Fonte: 

MINISTÉRIO DA CULTURA

Fundação Biblioteca Nacional

Departamento Nacional do Livro

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Machado de Assis (Joaquim Maria Machado de Assis), jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 21 de junho de 1839, e faleceu também no Rio de Janeiro, em 29 de setembro de 1908. É o fundador da cadeira nº. 23 da Academia Brasileira de Letras.

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CYRO DE MATTOS, POEMAS DE TERREIRO E ORIXÁS*

                        Por Gildeci de Oliveira Leite**

 

          Degusto em uma qualificada barraca “Abará, acarajé/ adum, ajabô/ lelê, amalá/ arroz de hauçá/ caruru, vatapá/ xinxim de galinha/ aberém, acaçá/ bobó de camarão/ e ainda mungunzá.” Para produzir essas e outras especiarias, o chefe de cozinha precisa conhecer Palmares “ritmo da liberdade/ batuque da igualdade, manual de fraternidade”. Comidas assim, feitas de dendê e cereais, alimentam a alma e fazem a juventude saber que “Jesse Owens ganha de Hitler/ nas olimpíadas da Alemanha”, que Lima Barreto, Martin Luther King, Zumbi e Pelé possuem o “gingado, rebolado, a batida, / o canto. O riso escancarado/ na passarela da Sapucaí.” Eu bem sei como a felicidade vinda do axé incomoda!

          Quando visitarem essa Barraca de “Poemas de Terreiro e Orixás”, saberão que há dois grandes tabuleiros diversos e coesos: um negro bazar. Lá se enaltece a “Abolição”, denuncia o “Pelourinho” e a “Escravidão”, lembra-se de ícones nossos como “Preto Domingos”, “Mestre Bimba”, “Severina Nigeriana”, “Negrinha Benedita”, “Rainha Menininha”, “Mãe Stella de Oxóssi”, Besouro, Samuel Querido de Deus, Algemiro Olho de Pombo, Feliciano Bigode de Seda, Pedro Porreta, Sete Mortes, Pastinha e Bimba. A leitura é uma delícia, pois os tabuleiros são fartos, de elevado nível, possuem visgo de jaca encantado, grudam de forma agradável desde a primeira palavra, é “Preceito, respeito”, diz de um jeito “Se for de paz, / venha cá, / vamos conversar com os orixás.”

          Nos tabuleiros, há diversão e aprendizado, há sorriso e contestação, um chama-se “Poemas de Terreiro” e o outro “Poemas de Orixás”. A respeito do primeiro, passei umas dicas sobre as delícias, que podem ser encontradas. Já no tabuleiro, “Poemas de Orixás”, a poesia bela e didática diz que orixá “Ouve a queixa, / aconselha. Dá remédio, / concede graça. Abre caminhos / desfaz quizila. Rumo que clareia todas as tormentas”. Com Cyro de Mattos é possível ouvir poesia, abrir imagens em nossa cabeças, saber sobre Exu, Ogum, Xangô, Oxóssi, Oxum, Iemanjá, Iansã, Oxalá, Boiadeiro, Vovó Maria Conga, Iroko, Nanã e outros encantados.

          Cá entre nós, o grande escritor e vivo ancestral Cyro de Mattos é um bom e agradável matreiro. Em dois grandes tabuleiros de um único livro, o poeta oferece ao leitor um valioso patrimônio poético, trazendo aos mais curiosos e/ou didaticamente comprometidos, um glossário com os ícones citados e com nossas afro-brasilidades. Assim, o livro com seus tabuleiros, se apresenta como obra de arte que é acompanhada de suporte aos que desconhecem aspectos de nossa cultura. Sugiro o livro de Cyro de Mattos para o deleite, a fruição, para compromissos com a diversidade e com a cultura negra, para “cantar o canto negro com todas as notas.”. 

(Transcrito de “A Tarde”, 5.9.2021)

 

* “Poemas de Terreiro e Orixás”, Cyro de Mattos, Edições Mazza, Belo Horizonte, 2019.

** Gildeci de Oliveira Leite, escritor, membro do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, professor do PPGELS/MPEJA — UNEB.

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terça-feira, 14 de setembro de 2021


DOIDO BOLSONARO!

 Artigo de Jimi Scarparo*

 

Qualquer um que goze de mínimo bom senso e que acompanha os passos desse presidente aí eleito, se choca com frases descabidas, atitudes “inapropriadas” para um líder de nação e certamente em algum momento pensou: será que votei certo?

Acho que também gozo de uma inteligência mediana, mas também não sou político. Daí me pergunto se, ele sendo político há mais de 30 anos, tudo que fala ou faz não compõe parte de sua estratégia recorrente de ludibriar aqueles que querem sua queda: bastou subir numa caminhonete, falar meia dúzias de palavras de duplo sentido e pronto, ninguém fala mais do ministro despedido.

Que homem louco, querendo avançar politicamente, peitaria a não tão mais poderosa REDE GLOBO? E o que colhe com isso? Ataques das 7 as 23 horas diariamente, com toda sorte de manipulação, distorção e mentiras para culpar o presidente pelos infortúnios do país, até mesmo um vírus. Não seria mais fácil cala-los com umas propagandas governamentais superfaturadas no seu canal? Não, manda seus jornalistas pastarem o lixo que produzem. Que doido esse Bolsonaro?

Se não bastasse essa insanidade, ele vai além. Resolveu peitar todo o mecanismo, o sistema apodrecido e corrupto, o tal presidencialismo de coalizão, o stablishment, o modus operandi de décadas comprando tudo e todos, sugando vampirescamente o sangue dos brasileiros. E não é que esse insano quebrou muitos tentáculos desse monstro, composto por um conluio entre legislativo, mídia e judiciário. Estancou a hemorragia, não aceitando o tal “diálogo” tão defendido pelo não-brasileiro presidente da câmara.

O que ouvimos e vemos é um mecanismo se contorcendo como que prevendo sua morte, agonizando em sua impotência: Derrota do governo no Congresso; Rodrigo Maia critica o Presidente; Alcolumbre ameaça o Presidente; Ministro do STF decide contra o Governo; Governadores repudiam Bolsonaro; Ministério Público Federal aciona contra decisão do Governo. Agonizam! Que coisa louca esse Bolsonaro fez.

E armam na calada da noite, se reúnem aqui e ali, quase loucos para derrubar o louco, mas nada parece funcionar bem. Já dizia Santo Agostinho: É quase impossível ofender um homem totalmente honesto. 

Era de se esperar, após ter formado a segunda maior bancada do congresso pelo PSL, seu partido de eleição, que se mantivesse lá, mas sai por que percebe manipulação dos 400 milhões do fundo eleitoral que o partido vai receber. Agora temos um presidente sem partido. Que doido um presidente sem partido abrir mão de tão forte recurso para sua reeleição, como que dizendo: meu partido é o Brasil!

Como um polo repelente da energia oposta, os infiltrados também foram se revelando e vazando: Dória, Witzel, Moisés, Pepa, Bebiano, Mandetta, Frota... a lista é grande. De novo, incompreensível isso, salvo pela sede precoce de poder deles, não permanecerem do lado daquele que praticamente os elegeram: o doido do Bolsonaro.

Por fim, esse doido não respeita a barulhenta e maquiavélica esquerdopatia, bem representados por artistas decadentes, os ELENÃO, petralhas e toda legião de demônios que preferem um presidente multiplamente condenado a um doido como o Bolsonaro.

O doido consegue fazer abortistas pedirem respeito à vida durante uma epidemia. Essa esquerdopatia é a que mais sofre em sua impotência. Esperneiam, gritam, torcem pelo vírus, quebram panelas, defendem perda de direitos para prejudicarem quem? O doido do Bolsonaro.

Deus deve gostar de doidos... Ele faz muitos, inclusive esse que vos escreve... Deus poderia mandar mais doidos para ocupar a presidência da câmara e do senado, 11 doidos para o STF, 27 doidos para governar os estados e milhares de doidos para as prefeituras do Brasil. Não seria doido isso?

O que é mais doido nesse paradoxo é que vivemos elegendo pessoas normais em vez de doidos, para sermos insistentemente roubados pelos “normais”. Somos ou não somos doidos?

Então, que elejamos doidos daqui para frente.

PS. Sou doido por Bolsonaro! Se um dia provarem que ele roubou, volto a ser normal, e escolho outro doido até que provem que o outro doido roubou, aí volto a ser normal novamente até acertar no doido certo.

 https://vindodospampasoretorno.blogspot.com/2020/04/doido-bolsonaro-artigo-de-jimi-scarparo.html



*Jimi Scarparo
médico endoscopista, gastroenterologista e cirurgião do aparelho digestivo com foco no tratamento da obesidade. Membro titular da Sociedade Brasileira de Endoscopia Digestiva e da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica. Diretor clínico e responsável técnico pela Clínica Scarparo Scopia. Coordenador médico do centro de treinamento avançado em endoscopia digestiva do Hospital Ipiranga. Médico assistente no Hospital 9 de Julho e Albert Einstein.


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