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quinta-feira, 8 de abril de 2021

Lançamento do livro Canto até hoje de Cyro de Mattos

Cinebiografia do escritor Cyro de Mattos.

A COMUNICAÇÃO NO ATENDIMENTO PSICOLÓGICO - Antônio Baracho


Neste início de século podemos contabilizar a existência de 200 teorias diferentes fundamentando diferentes psicoterapias. Sabemos, provavelmente que psicoterapia é o nome que se dá a qualquer abordagem terapêutica.

E é a Sigmund Freud, que devemos creditar a pioneira teorização da psicoterapia. Sem dúvida, foi a partir dessa prática definida que as psicoterapias puderam proliferar até este número de 200, calculado pelo meticuloso Wilby.

O principal método psíquico das psicoterapias utiliza uma habilidade fundamental do ser humano, a linguagem, e consistiria em ouvir, com interesse e atenção, o que alguém passa, ao longo da vida nos períodos de transição ou situações críticas, provocando mudanças existenciais bastante extensas.

A utilização das formas terapêuticas de comunicação depende, fundamentalmente, de desenvolvimento da sensibilidade para enxergar não só a nossa maneira de ver, mas também para captar a visão subjetiva de outra pessoa, a fim de que nós possamos sintonizar verdadeiramente com ela. Trata-se, em suma, de aprender a ver e entender os outros.

As formas de comunicação fazem parte da linguagem que o psicólogo utiliza em seu trabalho para ajudar as pessoas a se sentirem mais compreendidas com o seu trabalho e com mais possibilidade de explorar suas vivências, sentimentos e emoções.

É importante ressaltar que estes recursos de comunicação não são fórmulas mágicas que resolvam todos os problemas e impasses, mas tentativas de abordar as situações que surjam a partir de uma nova perspectiva e de modo mais construtivo.

A reflexão de sentimentos é a forma básica de comunicação terapêutica, da qual dependem todas as outras que serão utilizadas. É uma excelente maneira de entrar em sintonia com o mundo interior de outra pessoa, e, dessa forma, impor aceitação e compreensão melhor.

O ajustamento é condição de afetividade na comunicação humana. Assim como o transmissor de rádio mal ajustado não é capaz de transmitir sons bem modulados, o receptor humano desajustado prejudica, ou mesmo impossibilita a comunicação humana.

 


ANTONIO BARACHO – Poeta, psicólogo.

Membro da Academia Grapiúna de Letras- AGRAL, ocupante da cadeira nº 11.

E-mail: antoniobaracho@hotmail.com

Tel. (73) 99102-7937 / 98801-1224

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quarta-feira, 7 de abril de 2021

'CANTO ATÉ HOJE', SESSENTA ANOS DE VIDA LITERÁRIA DO BRASILEIRO CYRO DE MATTOS



'Canto até Hoje', Sessenta anos de Vida Literária do Brasileiro Cyro de Mattos

Por Alfredo Pérez Alencart

Escritor brasileiro Cyro de Mattos lendo no Teatro Liceo em Salamanca (foto de José Amador Martín)

Neste dia 8 de abril, a Fundação Casa de Jorge Amado sediará, em suas redes virtuais, o lançamento da obra poética completa do meu bom amigo Cyro de Mattos, que aos 82 anos publicou 56 livros no Brasil e 14 na Espanha, Alemanha, França, Portugal, Rússia, Estados Unidos, México, Dinamarca, Suíça ou Itália. Eu mesmo traduzi uma antologia poética dele, intitulada "Onde estou e estou", que apresentamos no Encontro de Poetas Ibero-americanos de 2013. Anos depois, em 2017, uma edição espanhola foi feita sob o selo Editorial Verbum.

Valioso é a obra poética e narrativa de Cyro de Mattos (Itabuna, Bahia, 1939), poeta, narrador, jornalista, advogado e membro da Academia de Letras da Bahia, que obteve diversos prêmios, como o Prêmio Nacional Ribeiro Couto, o Prêmio Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras, o Prêmio Centenário Emílio Mora, o Prêmio Internacional de Literatura Maestrale Marengo D'oro (Gênova) ou o Prêmio Jorge Portugal das Artes, que facilitou a publicação da obra. Entre seus livros de poesia mais marcantes estão Vinte Poemas do Rio, Cancioneiro do Cacau, Ecológico, Vinte e Um Poemas de Amor, Devoto do Campo e Oratório de Natal, entre outros.

Capa da obra poética completa de Cyro de Mattos. O retrato da contracapa é do pintor Miguel Elías

Agora estão todos reunidos, os publicados no Brasil e em outros países, no "Canto até hoje", um volume de 800 páginas sob o selo da Fundação Casa Jorge Amado e o apoio do Estado da Bahia por meio da Secretaria de Cultura e da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Programa Aldir Blanc Bahia). O volume, que será distribuído gratuitamente para bibliotecas públicas através da Fundação Pedro Calmon, também estará disponível para download gratuito em sua versão digital. Ao final do encontro de sua obra poética estão artigos e notas de escritores e críticos como Jorge Amado, Eduardo Portela, Nelly Novaes Coelho, Assis Brasil, Muniz Sodré, Heloísa Prazeres, Helena Parente, Graca Capinha, Maria Irene Ramalho, Juan Angel Torres Rechy e este, o que também assina a tradução completa de sua antologia poética 'Donde Estoy y Soy'.

Aqui eu recupero o pórtico que escrevi para aquela antologia sua, por mim traduzido.



 

POESIA E VIDA: CYRO DE MATTOS

A poesia, quando realmente é poesia, tem pouco a ver com literatura. Essa senhora esquiva está ligada à Vida : Poesia e Vida, como respirar e caminhar, como a profundidade milagrosa do Amor : poder salvador para alguns, aliviador para outros, Poesia remove o antifácio com a mão do mundo que é visto (e não visto) : e a vida aparece com sua culinária do futuro, verdadeira, mas especialmente com seu alfabeto do passado , com sua amostra do memorável na história do homem : é relâmpago e cicatriz, vida sem embaçamento...

2.

Eis que Cyro de Mattos nos mostra seu rastro de Vida, suas viagens íntimas : Cyro, o de Itabuna, nos permite viajar com ele; Ele nos oferece a chave para acessar os compartimentos mais seletos de versos dobrados à sua carne : Ele sempre carrega dentro da paisagem de sua pátria e sempre extrai, do fundo de sua inocência, algumas palavras que sustentam seus momentos de muitas décadas: "Naquele pequeno rio / todas as certezas do mundo".

Alves de Faria, Alencart, Tamura, Cyro de Mattos e Fragoso no Colégio Fonseca da Universidade de Salamanca (foto de Jacqueline Alencar, 2013)

3.

O telúrico passa por grande parte de sua criação lírica : "Pendure-me do vento e da chuva / a hora lírica do passado, / aquele que com emoção abençoada / à mão preenche as várias rações...", mas também o erótico : "Essa imensa vontade / de tirar seu corpo / com as duas mãos,/ mordê-lo como fruta, / beba-o como vinho..." : Poesia e Vida, forças suplicantes para engravidar o criado novamente, a paisagem que Cyro carrega na memória, as estações que o senhor sob seu céu, o tempo que passa com suas ameaças diárias : "Cada novo amanhecer / As sombras do tempo. / O autor de memórias" : um presente seguro, um carro alegórico para o tempo de vida eterno : Poesia...

4.

A criação está aos pés do Espírito. O ser humano sabe do Apocalipse, das revelações... Alguns fecham os ouvidos, outros cobrem os olhos – mas Cyro de Mattos racha os silêncios para que sangre Esperança e ensine seu Coração : ele se torna uma criança madura que olha através das fendas do mistério e, sem vergonha, testemunha sua fé : "Mas eu acredito naquela manhã / Anunciado em Belém..." : o cristão não diminui, sobe permeando honestidade a cada passo do poeta.

Alencart, Cyro de Mattos e Torres Rechy, do Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Salamanca (2013, foto de Pablo Rodríguez)

5.

Eis Cyro de Mattos, voando para trás como um beija-flor : mas depois limpa névoas ou gritos pela degradação do planeta : aqui está e é apresentado completamente um poeta brasileiro que merece um aplauso muito caloroso : Poesia e Vida, um longo caminho que agora é coletado para que não haja banimento : e nem se esqueça.

Purificar a emoção, Poesia!

Junho e Tejares (2013)

Alfredo Pérez Alencart

Universidade de Salamanca

Alfredo Pérez Alencart e Cyro de Mattos (foto de Jacqueline Alencar)



‘Canto hasta hoy’, sesenta años de vida literaria del brasileño Cyro de Mattos (salamancartvaldia.es)


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terça-feira, 6 de abril de 2021

CENTURIÕES ROMANOS NO NOVO TESTAMENTO - Plinio Maria Solimeo

6 de abril de 2021


Centuriões representados na Coluna de Trajano em Roma

Plinio Maria Solimeo

Excetuando-se obviamente nosso Divino Salvador, sua Mãe Santíssima, os Apóstolos e as Santas Mulheres, dentre as figuras mais atraentes do Novo Testamento estão alguns centuriões romanos que aparecem nos Evangelhos e nos Atos dos Apóstolos. Embora geralmente fossem pagãos, seguindo a Lei Natural que Deus colocou na alma de todos os homens, muitos deles praticavam a caridade e as boas obras, o que os predispunha a receber a verdadeira fé.

O exército do Império Romano dividia-se em várias unidades. Sua grossa maioria, como é compreensível, compunha-se dos simples soldados, ou “legionários”. Logo acima destes vinham os chamados “decanos”, que tinham sob seu comando 10 legionários (ou uma decúria). O “centurião”, por sua vez, era um oficial que comandava 10 decanos (100 homens, ou uma centúria). Acima dele estava o “tribuno”, que tinha a seu cargo quatro ou cinco centuriões, ou seja, de 400 a 500 homens, ou uma “coorte”. Vinha acima o “legado”, que comandava 10 tribunos, ou seja, cerca de cinco mil homens. Esses legados prestavam obediência ao primeiro escalão político, o dos cônsules, na época republicana, e o dos comandantes gerais na época Imperial. Estes, por sua vez, comandavam toda uma Legião.

O posto de centurião equivaleria hoje ao de um capitão de exército na hierarquia militar. Geralmente eram escolhidos entre os da tropa, tendo em vista sua coragem e confiabilidade, após 15 a 20 anos de serviço. Entretanto, alguns poderiam ser nomeados diretamente pelo Senado ou pelo Imperador.

Além de comandar seus homens, cabia ao centurião garantir a ordem local das províncias, e mesmo organizar o recolhimento dos impostos.

Os centuriões citados no Novo Testamento, em geral o são de forma positiva, por seu respeito aos judeus e imparcialidade de julgamento.

O primeiro de que nos ocupamos é um centurião de Cafarnaum, mencionado nos Evangelhos de São Mateus (8, 5-13) e de São Lucas (7, 2-10).

Embora seu nome não tenha passado para a História, por seus traços fornecidos pelos evangelistas vemos tratar-se de um oficial muito coerente, responsável, e de tal maneira aberto para com o povo dominado, que tinha vários amigos entre eles, e construiu mesmo sua sinagoga. Sobretudo era compassivo e acessível para com seus servos e subordinados, como veremos.

Quando um deles, a quem estimava especialmente, ficou muito doente com perigo de vida, esse centurião — que ouvira falar de Nosso Senhor Jesus Cristo e de seus milagres — mandou alguns de seus amigos judeus para procurá-Lo e pedir a cura do servo.

São Mateus e São Lucas narram esse episódio com pequenas diferenças, mas coincidindo no essencial, que foi quando o Divino Salvador, atendendo ao pedido do militar, prontificou-se a ir curar seu servo, que este lhe mandou dizer: “Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha casa. Dizei uma só palavra e meu servo será curado. Pois eu também sou um subordinado e tenho soldados às minhas ordens. Eu digo a um: Vai, e ele vai; a outro: Vem, e ele vem; e a meu servo: Faze isto, e ele o faz… Ouvindo isto, cheio de admiração, disse Jesus aos presentes: Em verdade vos digo: não encontrei semelhante fé em ninguém de Israel”. Assim, esse centurião deu provas de uma crença do poder curativo do Messias, que dificilmente encontrava paralelo, mesmo entre os judeus daquele tempo.


O que levou Nosso Senhor a elogiar a atitude desse oficial romano, que apesar de provir do mundo pagão estava tão aberto a segui-Lo, como explica São Lucas: “Ouvindo isto, Jesus maravilhou-se dele e, virando-se para a multidão que O seguia, disse: ‘Digo-vos que nem mesmo em Israel encontrei tamanha fé’”.

Comenta esse episódio o ilustre arcebispo de São Paulo, D. Duarte Leopoldo e Silva, em sua atualíssima Concordância dos Santos Evangelhos:

“Admirável a humildade, a confiança deste soldado, cujas obras de caridade lhe mereceram a graça da fé. A Igreja reteve as suas palavras, e sempre que um fiel se apresenta para receber em seu coração a Jesus sacramentado, Ela o faz repetir o mesmo ato de humildade e confiança: ‘Senhor, não sou digno de entrardes em minha morada; mas dizei uma só palavra, e minha alma ficará sã’”.

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Outro centurião de que fala o Evangelho teve a desdita de ser o responsável pela execução de Cristo Jesus. Pagão, julgando ser o réu que ele tinha que sentenciar apenas mais um dos criminosos comuns confiados à sua guarda, preocupava-se somente em que tudo corresse segundo os procedimentos normais. Por isso supõe-se que, acostumado à crueza sanguinária de seu ofício, aparentemente não teria tido nenhuma emoção diante de tantos e cruéis tormentos infligidos àquele Sentenciado.

Entretanto, algo inesperado ocorreu. Quando Jesus expirava — segundo narram São Mateus (27, 54), São Lucas (23, 47) e São Marcos (15, 39) —, obteve que esse centurião tivesse uma brusca mudança de opinião: Pois “O centurião que estava em frente dele [Jesus], vendo de que maneira Ele expirava, disse: ‘Verdadeiramente este homem era Filho de Deus’”. E abriu assim seu coração para a graça divina. O mesmo diziam os aterrorizados soldados à vista dos portentos ocorridos.

D. Duarte Leopoldo comenta também esse episódio:

“Os prodígios que rodearam a morte de Jesus, atemorizaram os soldados, dispondo-os a reconhecer a intervenção de um poder superior. A paciência, a mansidão do moribundo, a majestade dos últimos momentos, falavam ao coração, e estes homens que, mais do que os judeus, ignoravam o que faziam crucificando o Autor da vida, proclamavam sua divindade. Assim, a primeira reparação do deicídio se faz no mesmo lugar do crime, e dos seus próprios algozes recebe Jesus a primeira homenagem dos homens ao vencedor do Inferno. Digna vingança de um Deus: dar a vida aos que lhe deram a morte”.

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Contudo, o mais emblemático de todos os centuriões citados no Novo Testamento é Cornélio, residente em Cesareia, capital da Judéia, que por suas orações e boas obras mereceu a graça de receber o batismo com todos os de sua casa.

É o evangelista São Lucas quem no-lo apresenta, com todo o charme de suas descrições, no capítulo 10 dos Atos dos Apóstolos.

Pertencente à “coorte Itálica”, Cornélio era um homem “piedoso e temente a Deus com toda sua casa, fazia muitas esmolas ao povo e orava a Deus continuamente”. É curiosa essa afirmação, pois certamente tanto ele quanto os seus eram ainda pagãos, tendo sido batizados por São Pedro só mais tarde. O que mostra que, com as luzes da Lei Natural, também se pode chegar ao conhecimento de Deus.

Narra São Lucas que, num determinado dia, o centurião teve uma visão de um Anjo, que lhe disse: “Cornélio […] tuas orações e esmolas foram lembradas diante de Deus”. Pois chegara assim, para ele, o tempo de conhecer a verdadeira fé. Por isso devia mandar alguns homens de sua confiança à casa de Simão, o curtidor, na cidade de Jope, onde estava outro Simão, chamado Pedro, que deveria instruí-lo na religião de Jesus Cristo.


“Êxtase de São Pedro”. Obra de Domenico Fetti (1619), 
atualmente no Museu de História da Arte em Viena.

Nesse ínterim, em Jope, o futuro chefe da Igreja rezava no alto de um terraço, quando sentiu fome. Enquanto lhe preparavam algo para comer, teve um êxtase [quadro ao lado]: “Ele viu o céu aberto, e de lá descia alguma coisa como um grande pano, sustentado pelas quatro pontas, baixando sobre a terra. Nele havia todo o gênero de quadrúpedes, répteis da terra e aves do céu. Uma voz lhe disse: Levanta-te, Pedro, mata e come”. O Príncipe dos Apóstolos, muito caracteristicamente, respondeu: “De maneira nenhuma, Senhor, pois jamais comi qualquer coisa que fosse manchada. Disse o Senhor: Não chames de impuro o que Deus purificou”. Isso ocorreu três vezes, depois do que o pano foi recolhido ao céu.

O Apóstolo ficou pensando no que isso queria dizer, quando lhe informaram que alguns homens o procuravam. Ele os atendeu, e estes lhe explicaram o motivo da visita. “Pedro convidou-os a entrar, e hospedou-os. No dia seguinte partiu com eles, acompanhado de alguns irmãos de Jope”.

Cornélio, entretanto, sabendo que a entrevista com Pedro deveria ter uma consequência transcendental, convidara para ela todos seus parentes e amigos íntimos. Quando o enviado de Deus chegou, o centurião prosternou-se a seus pés “e adorou-o”. O apóstolo o fez levantar-se, dizendo “Levanta-te, pois eu também sou homem”. Cornélio então lhe contou a visão que tivera, e lhe disse: “Agora, pois, todos nós estamos em presença de Deus, prontos a escutar o que te foi ordenado pelo Senhor”.

À vista de tudo isso, Pedro compreendeu então o sentido mais profundo da visão que tivera: “Agora reconheço deveras que não há em Deus acepção de pessoas, mas que em toda nação aquele que teme a Deus e pratica a justiça lhe é aceito”. E transmitiu a doutrina do Evangelho aos ávidos presentes.

Foi então que algo surpreendente ocorreu: enquanto ele falava, “desceu o Espírito Santo sobre todos os que ouviam a prática, e os fiéis da circuncisão que tinham vindo com Pedro, maravilhavam-se de que o dom do Espírito Santo se derramasse sobre os gentios, porque os ouviam falar em várias línguas e glorificar a Deus”.

O que levou o primeiro Papa a dizer: “Poderá, acaso, alguém negar a água do batismo a estes, que receberam o Espírito Santo como nós?”. E mandou batizá-los. Essas foram as primícias da universalidade da Igreja.

É preciso uma explicação para se compreender a importância transcendental da conversão desse centurião romano. No-la dá o Frei Mateus Hoepers, O.F.M., em sua obra Novo Testamento:

“A história da conversão de Cornélio tem uma importância especial no corpo dos Atos dos Apóstolos. O problema mais grave da Igreja primitiva eram a impureza dos incircuncisos para os judeus, e ainda todas as prescrições de pureza levítica que tornavam impossível a convivência com os pagãos. A instrução, que o supremo chefe da Igreja recebe do céu e do Espírito Santo, foi decisiva para a missão entre os gentios. No Concílio dos apóstolos, Pedro se refere ao episódio de Cornélio (15, 7 e ss) para a solução definitiva da questão. Só removidos estes obstáculos, Paulo podia dedicar-se à sua grande missão. Por isso São Lucas deu um destaque particular a essa história pelo agrupamento literário dos quatro cenários e quatro cenas”.

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         Os Atos falam de vários outros centuriões anônimos que participaram mais ou menos ativamente da prisão e encarceramento do Apóstolo São Paulo. Contudo, nada fizeram de mais notável, razão pela qual deve ser mencionado apenas de passagem o centurião Júlio, responsável pelo transporte de São Paulo a Roma. Embora ele tivesse ignorado os conselhos do Apóstolo, que teriam impedido o trágico naufrágio de sua nave; e depois, para salvá-lo, não permitiu que seus soldados matassem os prisioneiros que estavam a bordo, dando-lhes a oportunidade de nadar para a praia. Com isso o Apóstolo dos Gentios pôde chegar são e salvo a Roma.

https://www.abim.inf.br/centurioes-romanos-no-novo-testamento/

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domingo, 4 de abril de 2021

PALAVRA DA SALVAÇÃO (227)

 


Páscoa do Senhor | Domingo, 04/04/2021


Anúncio do Evangelho (Jo 20,1-9)

— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo João.

— Glória a vós, Senhor.

No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus, bem de madrugada, quando ainda estava escuro, e viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo.

Então ela saiu correndo e foi encontrar Simão Pedro e o outro discípulo, aquele que Jesus amava, e lhes disse: “Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o colocaram”.

Saíram, então, Pedro e o outro discípulo e foram ao túmulo. Os dois corriam juntos, mas o outro discípulo correu mais depressa que Pedro e chegou primeiro ao túmulo. Olhando para dentro, viu as faixas de linho no chão, mas não entrou.

Chegou também Simão Pedro, que vinha correndo atrás, e entrou no túmulo. Viu as faixas de linho deitadas no chão e o pano que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não posto com as faixas, mas enrolado num lugar à parte.

Então entrou também o outro discípulo, que tinha chegado primeiro ao túmulo. Ele viu, e acreditou.

De fato, eles ainda não tinham compreendido a Escritura, segundo a qual ele devia ressuscitar dos mortos.

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

https://liturgia.cancaonova.com/pb/

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Roger Araújo:

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O perfume da nova vida ressuscitada

“Maria Madalena e Maria, a mãe de Tiago e Salomé, compraram perfumes para ungir o corpo de Jesus. E bem cedo, no primeiro dia da semana, ao nascer do sol, elas foram ao túmulo” (Mc 16,1-2)

+ Na alegria da ressurreição, prepare a oração, criando um clima de profunda intimidade com o Ressuscitado.

+ Suplique a Deus o dom da alegria com Cristo Ressuscitado; que a experiência da Ressurreição o(a) impulsione a viver com mais intensidade em comunhão com toda a humanidade e toda a Criação.

+ Antes de contemplar o relato das mulheres que foram ao sepulcro de madrugada, repasse os “pontos” seguintes: 

- As mulheres revelaram uma presença fundamental nos relatos da Páscoa. Elas seguiram e serviram a Jesus com seus bens pelos caminhos da Galiléia e permaneceram fiéis até o final, até a Cruz. São testemunhas, como tantas mulheres de hoje, da fidelidade nas situações limite, onde o que lhes toca fazer é estar e acompanhar, na sua impotência e luto, até que emerja o inédito. São testemunhas da semente do amor entregue, que, embora invisível no ventre da terra, vai pouco a pouco abrindo caminho para a luz, afastando pedras e abrindo espaços, dando à luz o novo, porque o Deus de Jesus não é um Deus de mortos, mas de vivos. 

- Frente à traição e a ausência dos discípulos, as mulheres foram significativas por sua lealdade. Enquanto o grupo de homens se trancou na passividade covarde, elas optaram pelo enfrentamento da realidade, vencendo o medo, colocando-se a caminho.

Das mulheres que foram ao sepulcro na manhã de Páscoa levando perfumes podemos aprender sua capacidade de enfrentar os acontecimentos com sabedoria e audácia.

Elas são as mulheres “mirróforas”, ou seja, portadoras de perfumes, que madrugam para ir ungir o corpo de Jesus. São conscientes do tamanho da pedra e de sua impossibilidade de removê-la, mas isso não é um obstáculo em sua determinação de ir ao túmulo para fazer memória d’Aquele que abriu para elas um horizonte de sentido.

A alusão ao “primeiro dia da semana” e o “nascer do sol” acompanham a entrada delas em cena, na madrugada da Páscoa: estamos no começo da Nova Criação e a luz da Ressurreição as envolve em seu resplendor. 

- Quem busca, encontra; as mulheres foram as primeiras que viram este instigante sinal: a grande pedra tinha sido removida e o túmulo estava vazio. E foram as primeiras a “entrar”.

Entraram no túmulo: esta foi a experiência das discípulas de Jesus, ou seja, entraram no mistério que Deus realizou com sua vigília de amor. Não se pode fazer a experiência da Páscoa sem “entrar” no mistério.

As mulheres aprenderam uma lição inesquecível: é inútil busca Jesus no lugar da morte.

O cenário da morte carece de respostas. A busca deverá ser feita no espaço onde se desenvolve a vida. As mulheres entendem que corresponde a elas tomar a iniciativa e tirar da covardia o grupo de discípulos, transmitindo um encargo a todos os que abandonaram Jesus e, em especial, a quem chegou a renegá-Lo: “...dizei a seus discípulos e a Pedro...” (v.7).

- Agora, finalmente, Marcos cita os discípulos. Através das mulheres, eles receberão o encargo de Jesus. Elas se converteram em mensageiras da boa notícia; elas assumiram o protagonismo e relançaram o projeto do Reino a partir da grande intuição de Jesus: na Galiléia começou a história e ali deverá ser reiniciada. Seguir as pegadas do Galileu confirma que Ele vai adiante guiando os seus seguidores e seguidoras. Percorrer seus passos garante ao grupo a experiência de contar com Ele: “Ele irá à vossa frente, na Galiléia; lá vós o vereis, como ele mesmo tinha dito” (v.7). 

- Voltar à Galiléia significa retomar e prolongar a mensagem e a proposta do Reino de Jesus. Foi ali na Galiléia que Jesus começou sua vida pública e atuou como aquele que veio aliviar o sofrimento humano, com a certeza de que o Reino tinha chegado e que Deus faria mudar a maneira de vida dos homens, partindo precisamente dos mais pobres e excluídos. Dessa forma, inicia-se um grande “movimento humanizador”, a partir de baixo, ou seja, dos últimos e pobres, anunciando e preparando a chegada do Reino na Galiléia.

- Esta volta à Galiléia marca o começo da nova comunidade dos seguidores e seguidoras de Jesus. A partir desse lugar deve iniciar-se o novo caminho do seguimento.

Por isso, os(as) discípulos(as) devem entrar em sintonia com o modo original de ser e de viver de Jesus na Galiléia. É ali que se devem encontrar todos os que são de Jesus (Pedro, as mulheres, os discípulos de Jerusalém), para também ali retomar e prolongar o movimento iniciado pelo Mestre de Nazaré.

Mas é sobretudo através do “modo cristificado de ser e viver” que os(as) seguidores(as) de Jesus exalam um bom odor, criam uma atmosfera perfumada ao seu redor.

- Assim, às vezes nos encontramos com ambientes que nos cativam e atraem, que desprendem um aroma agradável e prazeroso. São ambientes nos quais reina a acolhida, o diálogo amoroso, o compromisso, a simplicidade. Sempre agrada ficar por mais tempo. Nossa memória parte dali amavelmente carregada com energia salutar e nossos pulmões saem repletos de ar purificado, limpo...

Também existem outros ambientes cujo ar é irrespirável, fétido, com mau odor. São lugares onde há competições, agressividade e violência, onde as pessoas são manipuladas; são atmosferas arrogantes, infectadas, intolerantes, vazias. Saímos dalí meio asfixiados, desejando não querer voltar mais.

+ Como as mulheres “mirróforas”, tome consciência dos aromas que deve levar para perfumar os ambientes com odor de morte, de rigidez, de indiferença, de medo... para que se transformem em espaços com cheiro de vida, de liberdade, de ternura e acolhida.

+ Quê aromas prepara e espalha em sua casa, em sua comunidade, em seu ambiente?

+ Diante do Ressuscitado faça um profundo colóquio, expressando toda sua alegria e seu desejo de viver intensamente em favor da vida de todos.

+ Registre e dê nome aos sentimentos de consolação.

Mensagem final

Todos nós cristãos, fomos ungidos com o óleo santo no batismo, fomos besuntados e massageados com um bálsamo cristificante. Por isso trazemos a força sanadora do perfume de Cristo, para sermos presenças diferenciadas em lugares que cheiram à morte e poder manifestar a beleza da vida cristã com a qualidade do nosso aroma.

Somos uma fragrância que é o símbolo da vida, e que, derramada em favor das pessoas, inunda o mundo, comunicando a salvação.

Páscoa é expandir o perfume da vida que nos envolve.


Pe. Adroaldo Palaoro sj

https://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/2308-o-perfume-da-nova-vida-ressuscitada

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