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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

CORAÇÃO NÃO É GAVETA


... Engole o choro.
Engole sapo.
Cala a boca.
Cala o peito.

Mas o corpo fala, e como fala.
Fala a ponta dos dedos batendo na mesa.
Falam os pés inquietos na cama.
Fala a dor de cabeça.
Fala a gastrite, o refluxo, a ansiedade.
Fala o nó na garganta atravessado.
Fala a angústia, fala a ruga na testa.
Fala a insônia, o sono demasiado.

... Você se cala, mas o falatório interno começa.
... As pessoas adoecem porque cultivam e guardam as coisas não digeridas dentro de seus corações...

Expressar tranquiliza a dor.
Dor não é para sentir pra sempre.
 Dor é vírgula.
Então faz uma carta, um poema, um livro.
Canta uma música.
Pega as sapatilhas, sapateia.
Faz piada, faz texto, faz quadro, faz encontro com amigos.
Faz corrida no parque.
Fala paro seu analista, fala para Deus, para o universo...
Se pinta de artista.
Conversa sozinho, papeia com seu cachorro, solta um grito pro céu, mas não se cale.

Pois “se você engolir tudo que sente, no final você se afoga”.
CORAÇÃO NÃO É GAVETA! 
O corpo fala!


(Recebi via Whats. Autor não mencionado)


* * *

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

ENCOLHIMENTO DA POPULAÇÃO DO BRASIL VAI ATRÁS DO JAPÃO CORROIDO FÍSICA E PSÍQUICAMENTE


04 Feb 2020 12:30 AM PST

Casas abandonadas aumentam em número.


O Brasil, infelizmente, vem percorrendo a mesma estrada rumo ao abismo populacional que empreendeu o Japão, embora ainda esteja mais distante do desastre nipônico.

O número de nascimentos registrados no estado de São Paulo vem caindo há anos, informou “OESP”.

Em 2018, ocorreram 605.630 nascimentos no Estado, quase 166 mil menos do que em 1982, de acordo com a mais recente estatística da Fundação Seade, malgrado o enorme aumento da população paulistana.

A queda em pouco menos de quatro décadas foi de 21,5%.

O número médio de filhos por mulher passou de 2,08 em 2000 para 1,70 em 2018.

Shinobu Ogura auxilia no fabrico dos 'habitantes' da cidade que morre

As mudanças têm também grandes consequências sociais, econômicas e fiscais.

Com o aumento auspicioso da longevidade – de 54,2 para 76,4 anos em relação a 1950 – começam a tomar corpo os desequilíbrios ora registrados no Japão, de insuficiência de trabalhadores ativos para sustentar os aposentados.

No Japão, em 2005 a população japonesa diminuiu pela primeira vez desde 1899, superando as piores expectativas.

Naquele ano, a redução foi de 10 mil habitantes, segundo cômputo governamental, com uma taxa de natalidade 1,29 filho por mulher, quase a metade do mínimo para repor as mortes, noticiou a “Folha de S. Paulo”.

As projeções anteriores previam que o Japão tivesse 27 milhões a menos em 2050, em parte pelo envelhecimento da população, e o governo previa que 25% dos japoneses teriam 65 anos ou mais em 2014.

Mas os índices pioraram para além do previsto e o governo vem lutando para manter a população acima de 100 milhões recorrendo à imigração, informou a Deutsche Welle, rádio oficial alemã.

O último censo apontou uma perda de quase 1(um) milhão de habitantes em apenas cinco anos.

A capital, Tóquio cresceu 2,7%, para 13,5 milhões ou 10,6% da população do país, sofrendo os males de uma cidade superpovoada.

A estimativa do Instituto Nacional de Pesquisa Populacional é de que o percentual de aposentados com 65 anos ou mais constitua 40% da população japonesa até 2060, ameaçando a força de trabalho necessária para garantir à expansão econômica do país, outrora famosa.

Sem um aumento significativo de nascimentos, a população do país cairá para 108 milhões até 2050 e para 87 milhões até 2060, acrescentaram as fontes citadas pela Deutsche Welle.

Em 2019, o Ministério do Bem-Estar estimou que o Japão tenha ficado com 512 mil pessoas a menos.

A natalidade caiu ao nível mais baixo desde 1874, quando, paradoxalmente a população era cerca de 70% menor que a atual, noticiou “O Estado de S.Paulo”.

As mortes, majoritariamente por idade, superaram as baixas do fim da Segunda Guerra Mundial, quando o país fora derrotado pelos EUA com bombardeios atômicos.


Boneca 'camponesa' dá 'vida' à paisagem rural de Nagoro.

Portanto, menos jovens passam a trabalhar, e os aposentados deixam vagas não preenchidas, pondo em xeque a vitalidade econômica e a estabilidade social daquele país.

O Japão não é exceção, o recorde da perda de natalidade é da Coreia do Sul.

E muitos outros países, incluindo vários da União Europeia, China e Estados Unidos já pensam em problemas de despovoamento e migrações de grandes massas de estrangeiros no futuro.

Vilas japonesas inteiras estão desaparecendo.

Os incentivos aos nascimentos se mostram insuficientes e o casamento está em declínio.

O Japão tenta multiplicar os robôs no trabalho e aumentar os imigrantes.

Exemplo patético foi narrado pelo “The New York Times” no vilarejo de Nagoro.

Lá, as últimas crianças nasceram há 18 anos e a escola primária foi fechada em 2012, por falta de alunos. Não há mais lojas.

No desespero do vazio, Tsukimi Ayano fez 350 bonecas – suas “amigas” – e as instalou em locais públicos para fingir animação.

Bonecos de alunos brincando na escola para preencher o vazio.

Bonecas do tamanho de crianças disputam uma corrida, brincam no balanço e arremessam bolas. Uma “senhora” cuida de um túmulo na beira da estrada. “Operários da construção” fumam cigarros. Na escola, há “alunos” sentados em carteiras, “camponeses” cuidam do campo, e muitos outros à beira da estrada ficam olhando...

Quando Tsukimi era criança, moravam 300 pessoas em Nagoro. Mesmo com subsídios agora o local não atrai novos moradores.

O mais incrível é que viajantes param para pedir informações às bonecas. “Se fossem humanos de verdade”, disse Kayoko Motokawa, 67, “esse seria um lugar verdadeiramente feliz”.



https://outlook.live.com/mail/inbox/id/AQQkADAwATY3ZmYAZS1hN2JkLTg1ZjAtMDACLTAwCgAQAPmnhx8Yh15NnJroV9ozJo0%3D


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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

CORAÇÃO DE MANOÉ SECCO – Catulo da Paixão Cearense



 Meu senhor: inté os bichos,
ainda despois de morto,
conhece quem foi marvado.
Prôs mato da minha terra
não tem boca que não conte
a históra de Manoé Secco.
Desse negro desgraçado.

Pru todo aquele fundão
não tinha um só coração,
que gostasse do danado.

Andava durante o dia
e quáge todas as noite
pulas vendinhas da roça
impilicando cum os mais.

O pai, o Zé do Camais
e a mãe, a Chica do Zé,
já fazia munto tempo
que tinha ajuntado os pé.

Somente inda a vozinha,
tão véia e tão pobrezinha,
inda no mundo sofria,
pruquê Deus ansim queria.
A véia, a pobre vozinha,
só descansava nas hora
que o neto andava nas venda,
bebendo córta-bainha.

Mas porém, chegando em casa,
moiado, cuspindo bala,
de tropelão, aos arranco,
xingava a pobre da véia,
sem um tico de arrespeito
pr’aqueles cabelos branco.

E veje só, meu patrão:
aquele santo “caquinho”
três vez já tinha sarvado
o raio daquele cão.

A premêra, quando o diabo
foi preso pra ser sordado;
a segunda foi, seu moço,
pul’uma coisa tão feia,
que eu devo fica calado;
e a terceira, quando  o Secco
pulo Juca Boca Negra
ia sendo isfaquejado.

Vendo assim, a pobre véia
inda fazia comida
prô raio do mafião!

O seu pade Capellão
disse uma vez cum rezão,
que aquele negro languento,
mao, prevérso, arreliado,
tinha os bofe envenenado
e o coração fedorento.

E tinha toda a rézão
o seu pade Capellão.

Apois, ói!! D’uma feita,
a sua vó, com carinho,
lhe aconseiando baixinho,
dizia assim: meu netinho!
Tu tá cheio de inimigo!
Não anda fora de hora
nos capoão dos caminho,
pruquê tem munto perigo!”

Agora sabe o patrão
o que é que fez o negrão?!

Manoé Secco deu na véia
um tamanho trumbição,
que a véia cuspiu prá longe,
caindo assarapantada,
cum a cabeça esfrangaiada
na barriga dum pilão!”

Tá vendo vancê, patrão?

Agora escute o mió:
- a santazinha da vó,
que tanto e tanto penou,
despois daquela mardade,
prá sempre os óio fechou!

Todo o mundo cum piedade
oiava aquele cadáve!

Pruquê Deos botou no mundo
um home tão miserave?!

O interro daquela santa
foi mêmo uma romaria,
em tempo de impidimia.

Só quem não acompanhava
era o prevérso do neto,
que dia e noite vagava,
se amofunbando nos mato.

Que coração fedorento!...

Que árma de Pé de Pato!

Mas porém, aqui, no mundo,
neste mundo de venêta,
quem ao Capêta fizé,
tem de se vê cum o Capêta.

Três mês ao despois do crime,
do crime do mafião,
foi achado o seu cadáver
prú debaixo d’um Páu Rôxo,
prás banda do varjadão.

Ninguém, patrão, não queria
pegá naquela porquêra
prá se pudê interrá.

Seu pade Féli Imbuzêro
pagou ao Zé Benedito
e mais cinco cachacêro,
prá carregá, n’um giráu,
o cadáver do mardito,
do Secco, desse hôme máu!

Seu pade não consentindo
que ele fosse sipurtado
no çumitero de lá,
os cachacêro dêxáro
o cadáve do difunto
no brejo d’um chavascá...

Que ali ficasse estirado,
inté quando os aribú
não désse fé lá do á!

Já fazia um mez ou mais
que os hôme tinha jogado
lá, naquele chavascá,
o fio do Zé Camais.

Um dia que eu percurava
umas fôia de torêm
prá fazê uma meizinha,
vassuncê não adivinha
o que eu vi, meu bom patrão!

Daquele pobre cadáver
do matadô da vovó,
só restava o coração,
que táva prá lá, prá cá,
ingrovinhado de lama,
rolando no lamaçá.

Tudo o mais os aribú
já tinha tudo comido,
prú fora, cumo prú dento!

Aqueles bicho nojento
só não podia comê
o coração fedorento!

Vassuncê sabe o que eu fiz?

Cavei uma buraquêra,
garrei um páu, que panhei,
fui empurrando, empurrando
o coração do mardito,
inté vê caí no fundo
toda aquela fedintêra...
e, despois, soquei... soquei.

Eu sei que o meu bom sinhô
vai dizê que eu tô mentindo,
pruquê só se vancê visse,
vassucê creditaria.

Apois, no fim de três dia,
eu vortei no chavascá,
somentes prá móde óiá!

O coração do Tinhoso
táva fora do buraco,
fedendo que nem gambá!!

Vancê não via  aribú
passa naquele lugá!!!

Despois, entonce, é que eu súbe
que ali, naquelas parage,
ninguém passava, cum medo
de pudê se impestiá!

E o coração, noite e dia,
cum o Só, cum a chuva, a pená!

Tive pena, seu doutô,
pruquê entonce eu me alembrei
que eu era um hôme... um cristão!

Se fosse um figo, um purmão,
um bófe, um rim, um estômbo,
as tripa d’uma cabeça...
vá lá, vá lá, seu patrão!...

Mas porém... um coração!!!

E assunte bem vassuncê:
 - um coração que nem mêmo
os aribú quis comê!!!

Eu não sei lê, seu doutô!

Vancê é um hôme inducado!
Mas porém eu lhe agaranto
que aqui, dentro deste mundo,
não tem coração prevérso!...

Só tem coração feliz
ou coração desgraçado!

Tive pena, meu sinhô,
tive dó do pobrezinho,
pruquê, cumo vancê sabe,
o coração é o ninho
do sofrimento e do amô!

Apois bem, meu bom patrão!...
Ajuêiádo no chão,
eu peguei o coração!

Táva frio, seu douto!

Rezei!... Rezei cum calô!...

Despois de rezá, chorei!...

Cum as aguinha destes óio
toda aquela sujidade
do coração alimpei!

A tarde vinha caindo,
assucegada e serena!

Entonce eu vi cum estes óio,
que o pobre do coração,
avoando aqui destas mão,
mais árvo que uma çucena,
sorrindo, sempre sorrindo,
pró céu, que táva tão lindo,
ia assubindo... assubindo...
cum as aza das suas pena!


(POEMAS BRAVIOS)
Catulo da Paixão Cearense


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NOÇÃO VIVA DO VERDADEIRO PERIGO – Péricles Capanema


5 de fevereiro de 2020

Péricles Capanema

Em começos de 1967 (governo Castelo Branco) o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira [Foto] tomou posição pública contra a Lei de Segurança Nacional (decreto-lei nº 314 de 13 de março de 1967), pedindo sua revogação ou, pelo menos, larga refusão. Suas declarações podem ser consultadas na revista Catolicismo, nº 196 de abril de 1967 (a coleção do mensário está na rede).

Começa o líder católico afirmando que a TFP apoia resolutamente o movimento que se esboçava em vários setores da opinião em prol da revogação ou refusão do decreto lei nº 314.

Enumera razões entre as quais destaco: “Nada mais eficaz para persuadir a quem quer que seja da necessidade de tal refusão, do que a análise — ainda que sucinta — de alguns dos dispositivos do referido diploma. Por exemplo, reza o seu art. 48: ‘A prisão em flagrante delito ou o recebimento da denúncia, em qualquer dos casos previstos neste decreto-lei, importará, simultaneamente, na suspensão do exercício da profissão, emprego em entidade privada, assim como de cargo ou função na administração pública, autarquia, em empresa pública ou sociedade de economia mista, até a sentença absolutória’. Assim, basta que seja recebida pelo Juiz a denúncia (o que de nenhum modo quer dizer que o crime e sua autoria estejam cabalmente provados) e já uma sanção severa se descarrega sobre o acusado. Essa sanção poderá durar por tempo indeterminado, pois, quando uma ação se inicia, é quase impossível prever quanto tempo levará para percorrer todos os seus trâmites, tantas vezes tumultuados por imprevistos de toda ordem. Sujeitar assim uma pessoa possivelmente inocente a uma punição gravíssima é contrário aos mais fundamentais princípios da Moral e do Direito, os quais preceituam a iliceidade de qualquer castigo aplicado ao inocente. […] Diante de tanta severidade, oposta à nossa formação jurídica e à índole de nosso povo, fica-se a perguntar qual o interesse público que a justifique”.

Ao analisar as supostas razões que a justificariam tem observações especialmente atuais o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira: “No Brasil, ninguém há que se oponha ao comunismo com intransigência tão constante e meticulosa quanto a TFP. Somos, pois, inteiramente insuspeitos para dizer que aqui o perigo comunista — considerado enquanto consistente na implantação direta de um regime marxista — é remoto. O Partido Comunista se arrasta entre nós, desprestigiado e impopular. […] O verdadeiro perigo comunista no Brasil não resulta diretamente da atuação do Partido Comunista, porém da expansão contínua, rápida, e o mais das vezes velada, de certas formas de progressismo, rotulado de socialista ou cristão, de demo-cristianismo esquerdista, etc. Ele tende a derruir o instituto da família por leis e costumes que lhe arruínem a estabilidade, e desprestigiem a autoridade paterna ou materna. Ele vai minando e mutilando gradualmente a propriedade privada por uma série de leis de índole socialista e confiscatória. Assim, sem o perceber, por um processo semelhante ao da erosão, o País vai perdendo seu húmus cristão.”

Humus cristão, seiva cristã, perdida muito mais pela decadência moral, pela derrocada do instituto da família, pelo progressismo religioso, que estão na origem de organismos como a CPT, CUT e MST, por leis e costumes que vão erodindo o caráter cristão do País do que pela pregação esclerosada do antigo PCB ou de seus êmulos de hoje. Ali se aninhava o verdadeiro perigo comunista em 1967, advertia o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira. Aqui continua a se aninhar o verdadeiro perigo comunista em 2020.


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terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

A RUA PAULINO VIEIRA - Helena Borborema


Foto Waldyr Gomes
  
           Para uma criança, no meu tempo era bom demais morar na Paulino Vieira. Antiga rua da Laranjeira, sempre foi uma rua estreita, o que permitia a seus moradores um conhecimento pelo qual todos se davam bem. Situada perto do Rio, tinha a vantagem de proporcionar às famílias que nela residiam, mais facilidade de água para o gasto, numa época em que esta dependia exclusivamente dos aguadeiros que, com seus barris no lombo de um jumento, enchiam os tanques das residências. Isto lá pelas décadas de vinte e de trinta. A proximidade do rio oferecia ainda aos meninos da rua os banhos de folguedo após as aulas da tarde. Tomar banho no rio era uma diversão que não deixava de ser preocupante para os pais, em virtude dos “peraus”, lugares profundos e traiçoeiros que existiam em água aparentemente tranquilas. Um desses “peraus” ficava num trecho chamado Pau de Alho, e o outro mais adiante, na Pedra do Gelo, em frente à fábrica desse produto. Esse trecho perigoso do Rio Cachoeira ficava em frente da atual avenida Fernando Cordier. Situada perto da fábrica de gelo, a Paulino Vieira dava aos seus moradores mais facilidade de adquirir esse produto, vendido sob a forma de grandes barras, e que era muito importante numa época em que não existia ainda nas casas a geladeira. Essa fábrica, situada na beira do rio, mais ou menos no local onde se ergue hoje o edifício Santa Paula, era propriedade do senhor Pedro Borges, um sergipano radicado em Itabuna, fazendeiro e homem de iniciativa. Por essa época, ainda na década de trinta, sorvete em Itabuna era artigo de luxo, pouquíssimas família se davam ao requinte de prepará-lo em casa, em pequenas máquinas manuais.  Por isso, não foi pequena a animação da criançada, e até de adultos, quando seu Homero (Merinho) apareceu pelas ruas da cidade empurrando o primeiro carrinho de sorvete, vendido em pequenas tabocas e fabricado por ele em sua máquina ambulante.


            Os meninos da Paulino Vieira tinham para brincar a beira do rio, onde, num gramado ralo, jogavam bola, organizados em times. O perigo dessas jogadas era a passagem das boiadas com algum boi brabo. Vindo pela beira do Rio, que era passagem obrigatória, a boiada era tangida em direção da Taboquinhas (Rua Barão do Rio Branco), e daí para o matadouro que ficava num terreno alto, no lugar onde se encontra hoje o IMEAM (Instituto Municipal de Educação Aziz Maron). Mas para a molecada a passagem da boiada não deixava de ser um divertimento, quando todos corriam espavoridos buscando abrigo por todos os lados. Uma outra atração para as crianças da Paulino Vieira era a chegada da tropa de cacau do Coronel Oscar Marinho, que morava e tinha um grande armazém na rua. A chegada dos animais era anunciada pelo tilintar do sino da besta-madrinha, que num passo cadenciado, toda enfeitada de fitas coloridas pendentes da cabeça e com um bonito peitoral cheio de enfeites prateados e guizos, vinha na frente guiando a tropa carregada de sacos de cacau. E eram muitos animais. Os tropeiros, de calça arregaçada até o meio da canela, alguns com um lenço amarrado na cabeça, chicote na mão, tangendo e gritando, davam mais vivacidade ao conjunto. Não havia menino ou menina na rua que não corresse para ver a chegada da tropa do coronel.

            Pela Paulino Vieira, aos sábados, havia muito movimento. Às vezes a dona de casa fazia a feira da semana sem precisar sair de casa.  Os vendedores vinham de suas roças e plantações, de passagem para a feira que ficava no centro da cidade, na praça Adami, e apresentavam nas portas os seus produtos, desde frutas e verduras, até feijão verde, pimenta, tapioca, a compridos paus de galinhas, cesta de ovos, perus. Diariamente passavam pescadores com grandes “rodas” de peixes tirados, quase na hora rio.  Bonitos robalos e carapebas, cordas de pitus, tudo tirado do dadivoso Cachoeira, em cujas água abundavam cardumes de corrós, bagres,  corcundas, acaris que fartavam tanto a mesa dos ricos quanto a dos pobres.  A pesca era feita de tarrafa em toda a extensão do rio, e de jereré nas partes rasas junto das margens.  Na rua, numa boa casa, morava o pescador seu João Luiz, que diariamente vendia o produto de suas pescarias aos moradores que quisessem comprá-lo. Peixes e galinhas não eram vendidos a quilo, mas a “olho”, depois de muito regateio. O comprador de galinha fazia suas exigências antes de fechar negócio. Soprava debaixo das asas da ave para ver se a mesma sofria de uma doença - a “mofina” -, apalpava o peito para ver se era carnudo e se a galinha estava gorda ou magra. Depois desses exames, discutia-se o preço. Era frequente a venda de caças como tatus, pacas, sariguês, teiús e passarinhos, crus ou moqueados, abatidos nas matas próximas. Na época do São João, milho verde e laranjas eram comprados na porta, sem necessidade de se procurar a feira, pois os vendedores que vinham das roças com seus burros carregados tinham, nas residências, que eram muitas, compradores certos.

            Todas as tardes, durante a semana, a meninada da Paulino Vieira, lá pelas 16:00h, ficava a postos esperando o“homem das massas”, que vinha da padaria com um grande baú de folha-de-flandres na cabeça, repleto de pães, doces e biscoitos, os mais variados. Cacetinhos, roscas lustrosas, sonhos, broas de milho, queijadas, bolachas e bolinhos diversos eram escolhidos a dedo, conforme a preferência. Havia ainda o bolachão “mata-fome”.

            Para o café da manhã, muitas famílias que não tinham quem comprasse o pão, colocavam, como já era de costume, um saco próprio para isso, pendurado num prego na porta da rua. Bem cedo, o padeiro colocava nos sacos os pães bem quentinhos, recém-saídos do forno e na quantidade previamente acertada. Ali eles ficavam até que alguém da casa fosse apanhá-los. Não havia falha na entrega, nem moleque faminto para roubá-los. Ainda pela manhã passava o leiteiro, montado num burrico com dois grandes vasilhames de leite, distribuindo os litros com a freguesia. Também passavam mercando, com seus tabuleiros na cabeça, os vendedores de carne de porco e de carneiro. Outro vendedor que frequentava a Paulino Vieira era seu Alexandre, que mercava os saborosos beijus de Água Branca. Negro, tinha uma mão aleijada, e passava todas as tardes puxando um burrinho carregando dois cestos de beijus, muito bem feitos, enrolados em folha de bananeira. A singularidade de Alexandre era que ele, para alertar a freguesia da sua passagem, ladrava tal e qual um cachorro.

            Na rua, havia residências simples e casas boas. Nas décadas de vinte e de trinta, nela residiam dois coronéis do cacau, Oscar Marinho Falcão - numa bonita casa cheia de janelas com um portão de ferro e pequeno jardim ao lado - e o austero Manuel Brandão (Neca), que usava roupa escura com um colete, relógio de ouro com corrente na algibeira e chapéu de feltro. Quatro famílias libanesas moravam também na rua nessa mesma época: os Barifaldi Hirs, os Habib, os Midlej, e o casal Alfredo Agle. Outros moradores desse período foram os senhores Francisco Ribeiro  - ourives muito conhecido e conceituado na cidade -, Arthur Pitta , o alfaiate Narciso Rocha, o coronel Laudelino Lorens, o dono da farmácia senhor Benigno Azevedo,  o advogado Lafayette de Borborema. Outros moradores ficaram temporariamente. No início da rua, esquina com a praça Olinto Leone , ficava a ampla residência do senhor Carlos Maron, mais tarde transformada em sede do Itabuna Clube.  Esta casa foi depois demolida e em seu terreno erguido o prédio do Banco do Brasil.

            Além das casas residenciais, funcionavam na Paulino Vieira a alfaiataria do senhor Narciso Rocha, a pensão familiar de seu Pitta, a quitanda de dona Sinforosa, senhora gorda, de cabeleira branca, todos os dias sentada à porta esperando pela freguesia que procurava o seu carvão, enquanto o filho Zé Capenga (era chamado assim mesmo) atendia na parte da quitanda vendendo talhadas de jaca, bananas, verduras, frutas e tempero verde. Numa das esquinas ficava a selaria Flor do Brasil, de seu Zé Gomes, homônimo de outro Zé Gomes, que tinha uma sapataria mas adiante.

            Como nas residências de toda a cidade os fogões eram alimentandos a lenha ou a carvão, diariamente podiam ser vistas as figura dos carvoeiros com seus burros carregados de sacos deste produto, e o vendedor de lenha com os feixes de achas amarrados de cipó, também no lombo de burros, oferecendo pelas casas.

            A Paulino Vieira era uma rua gostosa de se morar pelas distrações que oferecia. No carnaval, era passagem dos blocos e mascarados, a começar pelo Zé Pereira , que acordava os moradores com o seu zabumba, já anunciando a folia. Até cortejo de casamento fazia a alegria da rua. Uma ou outra noiva que residia na rua da Jaqueira (final da avenida Fernando Cordier até o começo da Mangabinha), pela falta de transporte na cidade, passava vestida de noiva, com véu e ramalhete de flores na mão, acompanhada de seu cortejo de padrinhos e convidados, todos a pé, até a Igreja Matriz de São José, na praça Olinto Leone, ou à Capelinha de Santo Antônio. Era uma festa para os olhos de qualquer criança.

            Quando a noite chegava, a meninada da rua se juntava para as brincadeiras. As meninas faziam rodas de ciranda, cabra-cega, boca-de-forno, pulavam corda, tudo no meio da rua - sem o menor perigo, pois os poucos carros da cidade quase nunca circulavam à noite -, enquanto algumas famílias, cada qual sentada à sua porta usufruindo da fresca da noite, acompanhavam atentos o corre-corre dos filhos. Para os adultos, aquele bate-papo tranquilo, sentados ali no passeio, era o modo de encher a noite e deixar o tempo passar, numa época em que não havia ainda a televisão ou outro entretenimento, a não ser o cinema para aquele que gostavam de frequentá-lo. Todos se sentiam seguros. Logo ao anoitecer, um grupo de homens fardados de cáqui, de quepe e cassetete na mão, aparecia na rua marchando sob as ordens de um comandante, seu Moraes. Era a Guarda Noturna. Numa encruzilhada das ruas, eles paravam sob as ordens de um apito e, a uma determinação do chefe, se encaminhava cada um para a rua que lhe fora designada. Cada família conhecia o guarda da sua rua, sabia o seu nome, confiava nele. Ninguém tinha medo de sair, de ficar sentado à porta até mais tarde, de esquecer uma janela aberta ou uma cadeira no passeio. O guarda estava ali para proteger e dar segurança. Não havia assaltos. A violência só ocorria por altos interesses políticos ou econômicos.

            Com frequência, o silêncio da rua Paulino Vieira à noite era quebrado pela voz plangente de um seresteiro, o Chico Malandro, rapaz simples da Mangabinha, que  conforme o apelidaram, passava o dia sem trabalhar, saindo só à noite para dedilhar o seu violão e cantar as mágoas de amor.

            Situada entre a beira do Rio e a rua 7 de setembro, antiga Buri, a Paulino Vieira recebia desta muita influência nos dias de festa. Pelo Natal, a Sete de Setembro e a J.J. Seabra (antiga Rua da Lama) ficavam mais iluminadas. Mesas de jogos, desde a roleta ao jaburu e aos dados, eram instaladas na Sete de Setembro, em plena rua, fazendo a animação das festas natalinas. Nesses jogos, ouvia-se a voz dos responsáveis pela roleta ou dados chamando os passantes para que fossem tentar a sorte, lançando os dados sobre mesas forradas de oleado preto ou vermelho com grandes números pintados de branco. Adultos e crianças aí se juntavam para jogar,  sem o menor problema. Tudo era festa.

            Na rua Sete de Setembro (Buri), ainda na semana do Natal, vendedores expunham melancias, abacaxis, e mangas, que eram as frutas da época, em verdadeiros montes que se erguiam do chão desafiando a gula de quem quisesse se fartar. Na Praça Adami, eram armadas as quermesses cheias de brinquedos e prendas variadas, organizadas por senhoras da sociedade com fins beneficentes.

            Além das frutas expostas no meio da rua e vendidas na maior fartura, a mercearia “O Vesúvio”, na mesma rua, chamava a atenção. Esta mercearia pertencia ao senhor Gaspar Fiilizzola, um italiano gordo, corado, atencioso e alegre, e nela era encontrada uma variedade grande de produtos. Sacos de avelãs, amêndoas, castanhas portuguesas, nozes, ficavam expostos aos passantes. Pendurados sobre o balcão, grandes presuntos e ótimos salames vindos do Sul do País apetitosos cachos de uva moscatel, cachos de passas vindos da Argentina enchiam os olhos. Sobre o balcão, queijos variados, caixas de frutas como maçãs, peras, e ameixas frescas, faziam as delícias das pessoas de maior poder aquisitivo. Havia muita fartura, especialmente pelas festas natalinas.

            Com a morte de seu Gaspar, o "Vesúvio" foi fechado, ficando só as padarias uma a dos irmãos Celestino, e a outra do senhor Senna. Mais tarde, na mesma rua Sete de Setembro, foi inaugurado o “O Pão de Leite”, de Zeca Franco, com massas finas, pães e bolos.

            Uma casa de tecidos aumentou o movimento da rua Sete de setembro: foi a ”Loja do Povo”, do sergipano Francino Nunes, recém-chegado a Itabuna. Esta loja, situada num terreno junto ao qual foi levantado, anos depois, um prédio da família Messias, marcava o fim da Rua Sete de Setembro, ex-Buri. Daí para frente era um terreno vazio, encharcado nos tempos de chuva, abrangendo o local onde é hoje o Jardim do O. Poucas casinhas se erguiam ali, e em duas delas residiam as então conhecidas rezadeiras dona Maria e dona Bertolina, muito procuradas para tirar “olhado” de menino doente ou que não queria comer. Para além desse terreno descampado, já na entrada da Avenida Garcia, ficava a rancharia dos sertanejos que traziam carneiros para vender, além de enormes requeijões. Depois da rancharia, lá pelas imediações do atual bairro Zildolândia, ficava o campo de futebol.

            Muitas modificações sofreram o Buri e a Rua da Lama com o alargamento, novo calçamento, novas construções, etc. A primeira recebeu o nome de Rua Sete de Setembro, a segunda, J.J. Seabra. Ambas foram mais tarde unificadas, na administração do prefeito José de Almeida Alcântara, com o nome de Avenida do Cinquentenário, em homenagem aos cinquenta anos de Itabuna como cidade. Muitos anos antes, porém, a Laranjeira já havia também mudado de nome, passando a ser Rua Coronel Paulino Vieira, nome de uma das mais dignas figuras do passado de Itabuna. Com o tempo, a Paulino Vieira foi sendo modificada. Seus moradores aos poucos foram saindo, e um comércio ativo ali surgiu. Quase todas as casas foram modificadas. Onde havia janelas, surgiram vitrinas. Das casas dos coronéis, uma foi demolida, e a outra, modificada. A rua perdeu a alegria pueril do passado, mas conservou a sua vitalidade sob outros aspectos, como nos mostra hoje o seu comércio atuante.

            Rua Paulino Vieira, onde nasci e passei toda a minha infância, ex-rua da Laranjeira, é por isso mesmo aquela que deixou marcas indeléveis na minha lembrança. Foi a rua das minhas brincadeiras, do pular corda, das cirandas, do chicotinho queimado e da boca de forno. A rua do São João alegrado pelas fogueiras, balões e fogos de artifício. A rua que me proporcionava acompanhar a vida do Cachoeira nos seus altos e baixos. Rua das serestas do Chico Malandro, do desfilar das tropas de cacau para o armazém do coronel, quando despertava a curiosidade da meninada com o tilintar dos guizos e chocalhos da besta-madrinha.

            Rua das boas lembranças de uma infância feliz.


(RETALHOS)
Helena Borborema

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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

MÁRIO DE ANDRADE – Frases


Frases 

Escrevo sem pensar, tudo o que o meu inconsciente grita. Penso depois: não só para corrigir, mas para justificar o que escrevi.

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O passado é lição para se meditar, não para se reproduzir.

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Eu sou um escritor difícil 
Que a muita gente enquizila,
Porém essa culpa é fácil
De se acabar duma vez:
É só tirar a cortina
Que entra luz nesta escurez.

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Minha obra toda badala assim: Brasileiros, chegou a hora de realizar o Brasil.

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Quando a alma fala, já não fala nada.

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Não devemos servir de exemplo a ninguém. Mas podemos servir de lição.

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Ela repetia sempre "Carlos", era a sensualidade dela. Talvez de todos... Se você ama, ou por outra se já deseja no amor, pronuncie baixinho o nome desejado. Veja como ele se moja em formas transmissoras do encosto que enlanguesce. Esse ou essa que você ama, se torna assim maior, mais poderoso. E se apodera de você. Homens, mulheres, fortes, fracos... Se apodera.

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São sempre assim os pais: quando as esperanças se projetam sobre um filho, o resto são sombras mal reparadas. Que vivam, e Deus os abençoe! Amém.

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Só o esquecimento é que condensa,

E então minha alma servirá de abrigo.


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Popular é o ruim gostoso.

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As pessoas não debatem conteúdo, apenas os rótulos.

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Mário Raul Morais de Andrade foi um poeta, escritor, crítico literário, musicólogo, folclorista, ensaísta e fotógrafo brasileiro. Foi um dos pioneiros da poesia moderna brasileira com a publicação de seu livro Pauliceia Desvairada em 1922. 

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