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sexta-feira, 10 de agosto de 2018

10 DE AGOSTO: DIA DE JORGE AMADO - Infância


Infância


Pouco me recordo de meu pai. Ficamos muito crianças eu e minha irmã, eu com cinco anos, quando ele morreu. Lembro-me apenas que minha mãe soluçava, os cabelos caídos sobre o rosto pálido e que meu tio, vestido de preto, abraçava os presentes com uma cara hipócrita de tristeza. Chovia muito. E os homens que seguravam o caixão andavam depressa, sem atender aos soluços de mamãe, que não queria deixar que levassem o seu marido.

Papai, quando vinha da fábrica, me fazia sentar sobre os seus joelhos e me ensinava o ABC com a sua bela voz. Era delicado e incapaz, como diziam, de fazer mal a uma formiga. Brincava com mamãe como se ainda fossem namorados. Mamãe, muito alta e muito pálida, as mãos muito finas e muito longas, era de uma beleza esquisita, quase uma figura de romance. Nervosa, às vezes chorava sem motivo. Meu pai tomava-a então nos seus braços fortes e cantava trechos musicais que faziam com que ela sorrisse. Nunca ralhavam conosco.

Depois que ele morreu, mamãe passou um ano meio alucinada, jogada para um canto, sem ligar aos filhos, sem ligar às roupas, fumando e chorando. Tinha ataques por vezes horríveis. E enchia de gritos dolorosos as noites calmas do meu Sergipe.

Quando após esse ano ela voltou ao estado normal e quis acertar os negócios de papai, meu tio provou, com uma papelada imensa, que a fábrica era dele só, pois meu pai - afirmava com o rosto vermelho e as mãos levantadas num gesto de escândalo - meu pai, meio louco e meio artista, deixara unicamente dívidas que meu tio pagaria para não se desmoralizar o nome da família.

Mamãe silenciou, coitada, e nos apertou nos seus braços, pois nós tremíamos toda a vez que meu tio aparecia com a sua cara vermelha, a sua barriga cultivada, a sua roupa de brim e aqueles olhos pequenos e perversos.

Vivia passando as mãos pela barriga. O meu tio... Mais velho que meu pai dez anos, cedo se tocara para o Rio de Janeiro, onde levou muito tempo sem dar notícias e sem que se soubesse o que fazia. Quando os negócios de meu pai estavam prósperos, ele escreveu a queixar-se da vida, dizendo que queria voltar. E veio, logo após a carta. Papai deu-lhe sociedade na fábrica.
Veio com a esposa, tia Santa, santa de verdade, pobre mártir daquele homem estúpido.

Papai vivia inteiramente para nós e para o seu velho piano. Na fábrica conversava com os operários, ouvia as suas queixas, e sanava os seus males quanto possível. A verdade é que iam vivendo em boa harmonia ele e os operários, a fábrica em relativa prosperidade. Nunca chegamos a ser muito ricos, pois meu pai, homem avesso a negócios, deixava escapar os melhores que lhe apareciam. Fora educado na Europa e tivera hábitos de nômade. Esquadrinhara parte do mundo e amava os objetos velhos e artísticos, as coisas frágeis e as pessoas débeis, tudo que dava idéia ou de convalescença ou de fim próximo. Daí talvez a sua paixão por mamãe. Com a sua magreza pálida de macerada, ela parecia uma eterna convalescente. Papai beijava as suas mãos finas devagar, muito de leve, com medo talvez que aquelas mãos se partissem. E ficavam horas perdidas em longo silêncio de namorados que se compreendem e se bastam. Não me recordo de tê-los ouvido fazer projetos.

Nós, eu e minha irmã, éramos como que bonecos para papai e mamãe.

Quando meu tio chegou mudou tudo. Ele não fora à Europa e se parecia muito com vovó, que fizera dos dezoito anos de vida em comum com meu avô uma dessas tantas tragédias anônimas e horríveis que nascem do casamento da estupidez com a sensibilidade. Dava nos filhos dos operários, o que não admirava, porque, como murmuravam pela cidade, ele espancava a esposa.

Pobre tia Santa! Tão boa, amava tanto as crianças e rezava tanto que tinha calos nos dedos, provocados pelas contas do rosário. Morreu, e a doença foi o marido. Meu tio deflorara uma operária e fora viver com ela publicamente. Santa não resistiu ao desgosto e morreu com o rosário entre as mãos, pedindo a papai que não abandonasse o miserável.

A fábrica prosperou muito. Nunca consegui compreender por que o salário dos operários diminuiu. Papai, fraco por natureza, não tinha coragem de afastar titio da fábrica e um dia, quando tocava ao piano um dos seu trechos prediletos, teve uma síncope e morreu.

[...]

Quando meu pai morreu e após meu tio declarar a nossa miséria, fomos morar numa casinhola no começo de uma ladeira. Eu fiquei muito mais perto do proletariado da "Cu com Bunda" do que da aristocracia da decadente São Cristóvão.

Acostumei-me a jogar futebol com os filhos dos operários. A bola, pobre bola rudimentar, fazia-se de bexiga de boi cheia de ar. Tornei-me camarada de um garoto Sinval, rebento único de uma operária, cujo marido morrera em São Paulo, metido numas encrencas com a polícia, não sei bem por quê. Sei que os operários falava dele como de um mártir. E Sinval desancava os patrões o que mais que podia. Franzino, os ossos quase a aparecer, possuía no entanto uma voz firme e um olhar agressivo. Chefiava a gente nos furtos às mangas e cajus dos sítios vizinhos. E toda vez que meu tio passava, cuspia de lado. Dizia que apenas completasse dezesseis anos embarcaria para São Paulo, para lutar como seu pai. Só muito depois é que eu vim compreender o que significava tudo isso.

Frequentamos, eu e Elza, a escola. Mamãe fazia rendas e seus pais ajudavam o nosso sustento. Quando fiz quinze anos fui trabalhar na fábrica. Eu era então um rapazola forte, troncudo. O menino anêmico que eu fora se transformara em um adolescente de músculos rijos treinados em brigas de moleques.

Aparentava muito mais idade do que tinha realmente. Vivera sempre entre molecotes pobres da cidade, pobre que eu era como eles. Agora ia ser igual a eles completamente, operário da fábrica. Sinval não me diria mais com seu sorriso mofador:

- Menino rico...

Cinco anos aturei na fábrica a brutalidade do meu tio. Sinval, aos dezessete, vendera o que possuía em roupas e móveis e tocara para as fábricas ou para as fazendas de São Paulo. A primeira e última notícia que tivemos dele foi dois anos depois. Estava metido numa greve e esperava ser preso a qualquer momento. Depois nem uma carta, nem um bilhete, nada. Os operários afirmavam:

- Seguiu o destino do pai - e cerravam os punhos enraivecidos. Mas a fábrica apitava e eles se curvavam, magros e silenciosos.

Minhas mãos estavam então calejadas e meus ombros largos. Esquecera muito do pouco que aprendera na escola, mas em compensação sentia um certo orgulho da minha situação de operário. Não trocaria meu trabalho na fiação pelo lugar de patrão. Meu tio, o dono, estava bem mais velho e mais vermelho e mais rico. A barriga era o índice da sua prosperidade. À proporção que meu tio enriquecia ela se avolumava. Estava enorme, indecente, monstruosa. Poucas fortunas em Sergipe igualavam nesse tempo à sua. Dava esmolas unicamente ao convento (onde papava jantares) e ao orfanato. A este ele dava esmolas e órfãs. Não se podia contar pelos dedos, nem juntando os dos pés, o número de operárias desencaminhadas por meu tio.

Paixão que tive aos catorze anos por uma rameira gasta e sifilítica, com a qual iniciei a minha vida sexual. Amor, aos dezoito, platônico, por uma loura pequena do orfanato que foi ser freira, e enfim aos vinte, o pensamento de me amigar com a Margarida, operária como eu. Isso deu maus resultados. Meu tio andava também de olho na Margarida, que ostentava uns seios altos e alvos, junto a um rosto de criança travessa. Margarida um dia me contou que o patrão andava a apalpá-la. E ria, cínica. Eu acho que foi o seu riso que me fez ir às fuças de meu tio. Estraguei-lhe a cara hipócrita. Fui despedido.

São Paulo parecia à minha mãe e a Elza o fim do mundo. Por nada deixariam que eu fosse para lá. Eu comecei a falar em Ilhéus, terra do cacau e do dinheiro, para onde iam levas e levas de emigrantes. E como Ilhéus ficava apenas a dois dias de navio de Aracaju, elas consentiram que eu me jogasse, numa manhã maravilhosa de luz, na terceira classe do "Murtinho", rumo à terra do cacau, eldorado em que os operários falavam como da terra de Canaã.

Mamãe chorava, Elza chorava, quando me abraçaram na tarde em que segui para Aracaju - tomar o vapor. Eu olhei a velha cidade de São Cristóvão, o coração cheio de saudade. Tinha certeza de que não voltaria mais à minha terra.

Os filhos dos operários jogavam futebol com uma bexiga de boi cheia de ar.

(Fonte: ABL textos escolhidos)


Jorge Amado - Quinto ocupante da Cadeira 23 da ABL, eleito em 6 de abril de 1961, na sucessão de Otávio Mangabeira e recebido pelo Acadêmico Raimundo Magalhães Júnior em 17 de julho de 1961. Recebeu os Acadêmicos Adonias Filho e Dias Gomes.

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TEMPO E FELICIDADE


Olá, Meu nome é  Felicidade

Sou casada com o Tempo. Ele é responsável pela solução de todos os problemas. Ele constrói corações, cura machucados, vence a tristeza…

Juntos, eu e o Tempo tivemos três filhos: a Amizade, a Sabedoria, e o Amor.

A Amizade é a filha mais velha. Uma menina linda, sincera, alegre. A Amizade brilha como o sol,  une pessoas, pretendendo nunca ferir, sempre consolar.

A do meio é a Sabedoria.  Culta, íntegra, sempre foi mais apegada ao pai, o Tempo. A Sabedoria e o Tempo andam sempre juntos!

O caçula é o Amor. Ah! Como esse me dá trabalho! É teimoso, às vezes só quer morar em um lugar…

Eu vivo dizendo: Amor, você foi feito para morar nos  corações, não em apenas um só. O Amor é complexo, mas é lindo, muito lindo. Quando ele começa a fazer estragos eu chamo logo o pai dele, o Tempo, e  o Tempo vem fechando todas as feridas que o Amor abriu!

E tudo no final sempre dá certo, se ainda não deu, é porque não chegou o final.

Por isso, acredite sempre na família. Acredite no Tempo, na Amizade, na Sabedoria e no Amor.

Aí, quem sabe, eu, Felicidade, não bato à sua porta?

Palavra de hoje:

Tudo no Tempo de Deus, não no nosso!


(Autor desconhecido)


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quinta-feira, 9 de agosto de 2018

LÁGRIMAS NA CHUVA - CARTA DE UM MÉDICO AO DEPUTADO JAIR BOLSONARO


08/08/2018

Não nos conhecemos pessoalmente. Escrevo-lhe, em primeiro lugar, na condição de cidadão brasileiro; em segundo, na condição de eleitor e, só em terceiro e último lugar, como médico.

Não tenho qualquer procuração de “Entidades Médicas” para me manifestar em nome delas, não sei (nem quero saber) se meus colegas acreditam ou concordam com aquilo que vou narrar e lhe pedir.

Ingressei no serviço público municipal da minha cidade no ano 2000. Fui chefiado por um médico que é ex-réu em processo por crime contra o Sistema Financeiro Nacional por participar de um esquema de saque a descoberto contra Caixa Econômica Federal. Além disso foi também condenado por falsidade ideológica (teria recebido dinheiro público para “fazer pesquisa” quando já era funcionário ou algo assim).

Esse lixo humano não tinha, sequer, a hombridade e a coragem para se declarar petista – simplesmente fazia o serviço sujo para galgar degraus na carreira política em que mais tarde se tornou conhecido. Em 2003 me disse pessoalmente que faria o possível para acabar com a minha carreira.

Imperava então, na cidade onde eu moro, a “Pyongyang dos Pampas”, o verdadeiro “maoísmo na área da saúde”. O Município era controlado pela Organização Criminosa Petista desde 1988.

Trabalhando em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), vi pessoas morrendo em cadeiras de plástico, vi funcionários com nível de segundo grau mandando embora pacientes HIV positivos com febre de quarenta de graus dizendo que “não era nada grave”.

Atendi doentes que ficaram por semanas em corredores aguardando leito em Unidade de Terapia Intensiva e vi pacientes psiquiátricos correndo nus dentro do serviço no qual eu fazia meus plantões.

Tudo anotei, descrevi e denunciei ao Conselho Regional de Medicina estimulando mais ainda, contra mim mesmo, o ódio e a perseguição política na carreira funcional.

Respondi a dezenas de sindicâncias e a um processo administrativo por insuficiência em “Estágio Probatório” cujas avaliações eram feitas com base nos relatos de enfermeiras, técnicos de enfermagem e membros da “comunidade” cabendo à médica que era minha chefia direta - petista histérica que hoje está dentro do nosso Sindicato Médico - subscrever o que diziam de mim (coisa que ela fez sem qualquer problema de consciência).

Em 2004, sem saber mais “o que fazer comigo” que pedia desesperadamente para ser transferido e trabalhar num Hospital e não numa (UPA), fui mandado para outra espelunca igual a primeira – meu chefe, outro lixo petista, um alcoolista formado em Medicina, tinha ficha no antigo DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), ficou famoso por assédio sexual contra funcionárias e as revistas que fazia nas suas bolsas quando algo desaparecia. Estimado pelo comando local do tráfico de drogas, não teve comigo tratamento diferente.

Em 2007, doente e deprimido, consegui, depois de laudo da MINHA psiquiatra, ter minhas funções limitadas a um Hospital da cidade – neste hospital o Diretor era o médico que foi meu chefe na primeira UPA onde comecei minha carreira no Serviço Público.

Depois disso tudo ficou claro pra mim que eu não podia mais trabalhar em UPA alguma como médico do Serviço Público. Procurei então mudar de especialidade e me tornei intensivista (até então era clínico e cardiologista) após prestar a Prova de Título da entidade que representa esta especialidade no Brasil.

Fiz isso com intuito, mais uma vez, de ficar longe do terror, do descaso, do verdadeiro inferno que são as UPAS e serviços de Emergência no nosso país para qualquer médico que não seja corrupto, louco ou comunista.

Em 2010 ingressei, também através de concurso público, na carreira como médico intensivista de um Hospital Federal (na verdade uma autarquia) que era então comandado pelo Partido Comunista do Brasil.

Toda minha história já era então conhecida no meio médico da cidade – entre "colegas" (ou entre os que pensam que são médicos) eu já era visto como “louco” e “paranoico que se considera perseguido pelo PT”.

Em 2014, depois de ter escrito sobre o Programa Mais Médicos, depois de me insurgir contra as barbaridades que vi acontecerem dentro da Unidade de Terapia Intensiva em que eu trabalhava, uma médica (em conluio com os comunistas da Direção) me acusou de “violência contra mulher”.

Um “juizeco” do trabalho (de primeiro grau) da minha cidade completou o serviço sujo solicitado pela escória, pela ralé do PT, PSOL e PC do B. Eu fui exonerado e o Hospital ganhou o processo trabalhista que movi contra ele porque na Segunda Instância foram os colegas de ideologia da Ministra Rosa Weber (ex-presidente do TRT-4) que julgaram o recurso apresentado pelo meu advogado.

Nessa época eu já era conhecido nacionalmente por “mandar Dilma chamar um médico cubano” na ocasião do seu “mal-estar” no debate com o corrupto e chefe de quadrilha, então candidato à Presidência da República, Aécio Neves.

Capitão Bolsonaro (assim o chamo agora porque sou também tenente da reserva da Força Aérea Brasileira), tudo isso que escrevi acima é apenas parte da minha história no Serviço Público como Médico. Eu não tenho aqui interesse algum de despertar piedade ou pedir ao senhor qualquer coisa – meu objetivo hoje é deixar o Brasil e ser médico em outro país.

Escrevo-lhe por considerar minha obrigação, em primeiro lugar, tornar público aquilo que aconteceu comigo e, em segundo, dizer ao senhor aquilo que considero ser prioridade na área da saúde se o senhor, porventura, conseguir se eleger. O que deve ser dito é o seguinte:

Toda Rede Hospitalar Brasileira foi destruída pelo Regime Petista. UPA’s são lugares criados para esconder a morte de pacientes que deveriam estar dentro de hospitais: a UPA é um lugar em que se atende tudo aquilo que não é suficientemente grave e poderia ser resolvido num posto de saúde, ou coloca a vida do paciente em risco e ele deveria estar dentro de um Hospital.

Deputado Bolsonaro, enquanto existir SUS no Brasil o PT e o comunismo na área da Saúde vão estar vivos.

O senhor não poderá acabar com o SUS pois será impedido pela Constituição Federal, mas pode mudar toda História da Saúde Pública se afastar, se exonerar e expulsar de dentro do Ministério da Saúde, a corja, a ralé de alcoolistas, pederastas, pedófilos, viciados, corruptos, vagabundos e estelionatários do PT, PSOL e PC do B que hoje MANDAM e DESMANDAM na Saúde Pública Brasileira e que fizeram comigo (e com centenas de outros médicos) isso que narrei no início da carta.

Acabe, eu lhe imploro, com a Ditadura Comunista na Saúde Pública, não ceda mais um centavo sequer para postos de saúde e UPA’s – o Brasil foi transformado num “postão”!

Ajude a reconstruir a Rede Hospitalar Brasileira, lute para FECHAR e não para abrir mais faculdades de Medicina! Colabore com as entidades médicas na formação de um plano de carreira e de um piso salarial mínimo em todo país, ajude os médicos brasileiros a se fazerem respeitar pela Imprensa Vagabunda Petista que hoje nos massacra expulsando os escravos cubanos (falsos médicos) trazidos por Dilma Rousseff e por outro bandido da minha profissão chamado Alexandre Padilha.

Não sei se o senhor vai conseguir se eleger: acredito que pode ser assassinado a qualquer momento pela Organização Criminosa que comanda o Brasil ou que as urnas possam ser fraudadas dando a vitória a quem puder ser controlado por ela.

Minha história eu tornei pública. Ela vai passar despercebida como "lágrimas na chuva" (como diria aquele androide do filme "Blade Runner"), mas com o meu voto o senhor pode contar.

Cordiais Saudações,

Médico cardiologista em Porto Alegre


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INCRÍVEIS CRÉDULOS - Ana Maria Machado


Incríveis crédulos 

Incrédulos, assistimos a coisas incríveis. Candidatos que se gabam de não entender nada do que é necessário para governar, ou negam a existência de déficit. Ou se vangloriam de crer que é possível gastar sem limite e que o dinheiro público (seu, meu, nosso) não acaba nem falta nunca. Como quem acha que cartão de crédito é só uma forma de adiamento sem fim e sem consequências, mesmo que a dívida cresça qual bola de neve. Para eles, não basta ver para crer. Despreparados, preferem ignorar, na atual crise, o papel desempenhado pela perda de credibilidade e de confiança no país.
Audiências enormes seguem programas na televisão, convencidas de que é verdade o que “testemunhas” contam sobre curas milagrosas. Há ainda os que fecham os olhos aos efeitos trágicos sofridos por quem arrisca a vida acreditando em promessas mirabolantes de juventude eterna e bumbum duro, feitas por espertalhões.
E a toda hora vemos que, sem pensar nas consequências que sofrem e sofrerão, há eleitores que continuam a crer em juras mentirosas de políticos que se apregoam salvadores, a acenar com obviedades que parecem bem intencionadas mas não explicam qual o plano, projeto ou programa que será capaz de realizá-las.
Ao separar fé e fato, religião e política, a democracia busca manter Estado e igrejas em campos diferentes. Mas o Brasil deseduca: dá isenção fiscal para religiões, e transforma em ótimo negócio a proliferação de igrejas e seitas. Pomos vigários e vigaristas no mesmo saco. Estimulamos crendices e sectarismo (palavra da mesma raiz que seita), ótimos para eleger quem vai governar só para si e os seus, com ou sem ajuda da Márcia em reunião discriminatória no palácio do governo. Ou com aparelhamento de órgãos públicos. Ou apadrinhamentos de todo tipo.
Acredite se quiser. Mas as palavras revelam. Podem nos fazer pensar. E escolher melhor. Afinal, são da mesma raiz: crer , crente , crédulo, crendice, incrível, crédito, credibilidade, credencial.
O Globo, 06/08/2018


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Ana Maria Machado - Sexta ocupante da Cadeira nº 1 da ABL, eleita em 24 de abril de 2003, na sucessão de Evandro Lins e Silva e recebida em 29 de agosto de 2003 pelo acadêmico Tarcísio Padilha. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 2012 e 2013.

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ESTAÇÕES DO AMOR - Gibran Khalil Gibran



Estações do amor

Adotarei o amor por companheiro e o escutarei cantando, e o beberei como vinho, e o usarei como vestimenta. Na aurora o amor me acordará e me conduzirá aos prados distantes. Ao meio dia conduzir-me-á à sombra das árvores onde me protegerei do sol como os pássaros. Ao entardecer conduzir-me-á ao poente, onde ouvirei a melodia da natureza despedindo-se da luz, e contemplarei as sombras da quietude adejando no espaço. À noite o amor abraçar-me-á, e sonharei com os mundos superiores onde moram as almas dos enamorados e dos poetas.

Na Primavera andarei com o amor lado a lado! E cantaremos juntos entre as colinas! E seguiremos as pegadas da vida, que são as violetas e as margaridas! E beberemos a água da chuva, acumulada nos poços, em taças feitas de narcisos e lírios.

No Verão deitar-me-ei ao lado do amor sobre camas feitas com feixes de espigas, tendo o firmamento por cobertor e a lua e as estrelas por companheiras.

No Outono irei com o amor aos vinhedos e nos sentaremos no lagar! E contemplaremos as árvores se despindo das suas vestimentas douradas e os bandos de aves migratórias voando para as costas do mar.

No Inverno sentar-me-ei com o amor diante da lareira! E conversaremos sobre os acontecimentos dos séculos e as histórias das nações e dos povos.

O amor será... Meu tutor na juventude! Meu apoio na maturidade! Meu consolo na velhice! O amor permanecerá comigo até o fim da vida! Até que a morte chegue, e a mão de Deus nos reúna de novo!

  
"Gotas de Crystal 01" <gotasdecrystal@gmail.com>

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Gibran Khalil Gibran - Poeta libanês, viveu na França e nos EUA. Também foi um aclamado pintor. Seus textos apresentam a beleza da alma humana e da Natureza, num estilo belo, místico, conseguindo com simplicidade explicar os segredos da vida, da alegria, da justiça, do amor, da verdade.


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quarta-feira, 8 de agosto de 2018

10 DE AGOSTO: DIA DE JORGE AMADO – Promoção

Clique sobre a foto, para vê-la no tamanho original

(Rio de Janeiro, 1954 – promoção)


            Na manhã de domingo trabalho na redação de um manifesto – quantos redigi? -, Janaína e João Jorge chegam do banho de mar em correria, trazem e exibem prospectos atirados de avião sobre Copacabana e Ipanema, inundam a praia e as ruas. Entregam-me, ficam à espera de minha reação, Janaína risonha, gozadora, João Jorge de cara fechada, pronto para a briga.

            A campanha anticomunista ganha os céus, dois teco-tecos sobrevoam o bairro, a serviço da Liga Anticomunista, organização presidida pelo Almirante Pena Boto – a guerra contra os comunistas é um bom negócio, rende juros altos, como irão se arranjar agora os Pena Boto da vida, sem o ouro de Moscou para aplicar no medo dos ricalhaços e arrancar as verbas? Vão lastimar o fim da URSS, acabou-se o que era doce de coco, rapadura.

            Militante de base – seria mesmo de base? Nunca frequentei célula, sempre a cumprir tarefas da direção, especiais -, escritor conhecido, a Liga do Almirante oferece-me galardão de líder, prerrogativas de chefe: o volante na mão de Janaína, João Jorge me entrega o dele, refere-se a este vosso criado: o texto e o desenho. Ressalta minha notoriedade, promove-me, já me esqueci dos xingos, os de sempre, traidor da Pátria, vendido a Moscou,  capacho de Prestes, mas me lembro do desenho: balanço-me no regalo de uma rede, dois camaradas do Partido, amigos meus, o juiz Irineu Joffily, o advogado Letelba Rodrigues de Brito, empunham abanos, com eles fazem mais delicioso meu descanso, com a brisa dos leques combatem o calorão: regalias de paxá comunista, Pena Boto reclama cadeia e processo.

            Leio e vejo, caio na gargalhada, Jana e Juca riem comigo, mas Zélia se indigna: cães da reação, ratos de sarjeta, agentes do imperialismo, se ela encontrasse esse tal de Pena Boto lhe diria poucas e boas. Punho fechado, lhe mostraria quem é traidor da pátria, seu canalha! Jana e Juca recolhem o riso, empunham os tacapes, armam-se em guerra.

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            “Do sangue derramado na luta pela posse da terra, adubo sem igual, não floresceram apenas as roças de cacau, os frutos de ouro da riqueza, floresceu também a cultura Grapiúna, singular. A poesia e a ficção nasceram da conquista da mata, da colonização de sergipanos e árabes, da luta contra o feudalismo – os primeiros sindicatos rurais do Brasil surgiram nas lavras do cacau e a lei medieval foi rompida por moços socialistas, João Mangabeira exerceu a Prefeitura de Ilhéus.

            Os coronéis do cacau queriam orgulhar-se de filhos doutores, advogados, médicos, engenheiros, lá fomos nós para os colégios da capital, os dos padres jesuítas, maristas, salesianos, os leigos, o Ginásio Ipiranga de Isaías Alves de Almeida*. Nos internatos aprendemos português e aritmética. Nas roças, nos povoados, na gestação das cidades aprendemos a vida. Assim brotou a flor da poesia, Sosígenes Costa, Florisvaldo Mattos, Telmo Padilha, amadureceu o fruto da ficção, Elvira Foeppel, Adonias Filho, James Amado, Sônia Coutinho, Hélio Pólvora, Cyro de Mattos, Euclides Neto, o árabe Jorge Medauar, o sergipano Marcos Santarrita, os doutores do cacau, filhos dos coronéis. Sou um deles, possuo um mérito, único: ter sido aquele que primeiro começou a contar a saga das terras grapiúnas”.

*Isaías Alves de Almeida (1888/1968), educador.
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JORGE AMADO - Quinto ocupante da Cadeira 23 da ABL, eleito em 6 de abril de 1961, na sucessão de Otávio Mangabeira e recebido pelo Acadêmico Raimundo Magalhães Júnior em 17 de julho de 1961. Recebeu os Acadêmicos Adonias Filho e Dias Gomes.

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OBSERVADOR ISOLADO - Péricles Capanema


7 de agosto de 2018
♦  Péricles Capanema

Vou falar das eleições, enveredando antes — apenas na aparência — por um desvio. Não é de hoje, para tristeza nossa, o Brasil tem sociedade enormemente atrofiada, em especial se considerarmos até onde poderia ter chegado. Um exemplo. Pesquisa recente aponta que mais de 30% dos brasileiros são analfabetos funcionais, proporção que se mantém estável há 10 anos.

Boa parte do restante não está distante daí, pois só 12% se comunicam com adequação pela escrita. Imaginem o que essa chaga significa de exclusão social. Nem falo do Estado, ali existe atrofia, claro, porém o que choca à primeira vista é a elefantíase. Paquidermes doentes têm membros e órgãos com movimentos atrofiados.

Estado de espírito preocupante, como nação estamos nos acostumando à decadência, poucos vêm falando do Brasil como País do futuro, reflexões antes correntes, carregadas de tons esperançosos e até de ufanismo por vezes infantil. Exemplo tocante e ingênuo de tal propensão foi o livro do conde Afonso Celso “Por que me ufano de meu país”. Temos atenuantes, as decepções repetidas corroeram crenças, as esperas dilatadas exauriram ânimos. Imaginem, o livro do simpático conde é de 1900!

Enfim, se o ufanismo louvaminheiro era ruim, nunca o foi a esperança. Não é o que de momento assistimos, repito. O público parece aceitar resignado um presente cinza e a perspectiva de porvir inexpressivo. E ainda existe pessoal que brinca com a situação desoladora, destilando fel em comentários agridoces.

Não é consolação, mas tal apatia dissolvente golpeia ainda pessoas, famílias, regiões. Aos milhões. Basta olhar ao redor de nós, gente acomodada, apática, em situações gritantemente inferiores à sua condição originária. O último imperador da China, Pu Yi (1908-1967) passou seus últimos anos como funcionário apagado da burocracia maoísta. Deixou escorrer os anos como jardineiro e bibliotecário. Comenta-se, vivia conformado. Pior. Até mesmo satisfeitinho!

Terrível exemplo de decadência e demolição de personalidade. Poderia ser jardineiro e bibliotecário, ocupações dignas, mas o olhar precisava estar imerso na grandeza que a Providência lhe destinara, esmigalhada pelos infortúnios. Para todos, para não afundar cada vez mais, a única reação decente é a inconformidade enérgica (quando possível, o exercício intenso, com norte, das potencialidades indolentes). Não vislumbro outro caminho para restauração, prosperidade e felicidade; pelo menos para manter para si e diante dos outros o respeito devido.

Não houve desvio, fiquei no trilho. Estamos em período eleitoral, o combate à atrofia deveria ser a prova dos nove, o teste tornassol de todas propostas; de outro ponto de vista, o substrato dos debates.

Se a proposta nos ajudar a sair do poço da atrofia e escalar a montanha da plenitude, será aproveitável. Na educação, economia, privatização, reforma previdenciária, controle fiscal, segurança, saúde pública, ciência e tecnologia, enfim, em tudo, a simpatia deveria ir para candidatos, cujos compromissos (e exemplo de vida) estimulem o desenvolvimento de potencialidades nos campos em que a administração pública tenha condições de influir. Soltar amarras, desburocratizar, diminuir impostos, aumentar as responsabilidades de cada pessoa pelo seu próprio destino (condição de autonomia), limitar o poder do Estado e ampliar o âmbito de ação das forças sociais, destravariam o nosso potencial. E nos forneceriam recursos para atender aos fracos e desvalidos.

Em suma, a busca da plenitude, perseguida com senso de proporção e animada pela justiça é caminho real para a inclusão social. Perto de nós temos exemplos dilacerantes de escolhas que atrofiam, Cuba e Venezuela no destaque, xodós da esquerda católica e do petismo, de cujos efeitos cruéis deveríamos fugir como da peste.

Nelson Rodrigues certa vez afirmou: “Aprendi a ser o máximo possível de mim mesmo”. Conhecimentos e hábitos podem nos levar ao máximo possível de nós mesmos. No conhecimento estão as percepções. Com auxílio de Deus, tantas vezes é possível entrever o que a Providência preparou pelo arranjo de qualidades pessoais e circunstâncias do meio para pessoas e grupos sociais. São vocações das mais variadas naturezas, divisadas por sintomas de difícil explicitação. O mesmo vale para o Brasil, tema que transcende campanhas eleitorais, sei bem, mas substancialmente é o grande assunto subjacente ao charabiá da ocasião. Queiramos ou não, o substrato de tudo que se debate é a escolha da plenitude versus atrofia.

Por que intitulei o artigo de observador isolado? Poucos analisam assim, são hoje uns isolados. Contudo, vista desse mirante, a paisagem é mais ampla e instrutiva. Meu convite cordial, observem também daqui o panorama.




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