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sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

 

Papai Noel ontem e hoje

Cyro de Mattos


 

A cidade tinha pouco mais de quinze mil habitantes. Servira de burgo de penetração aos forasteiros que adentravam o continente na conquista e povoamento da terra. Tinha poucas ruas calçadas, um cinema, uma praça, pequena igreja, um ginásio, três bairros. O comércio era ativo na avenida principal. O rio corria manso no estio, era valente na enchente. Tinha peixe em abundância nas águas de fontes claríssimas. 

Ninguém podia imaginar que um dia fosse inventada a televisão, na tela de um aparelho mágico se assistiria tudo que estava acontecendo no mundo. Os brinquedos seriam fabricados pelos meios eletrônicos como resultados dos avanços tecnológicos. Na pequena cidade respirava-se um clima de estábulo quando chegava o mês de dezembro. Comemorava-se o Natal como se a cidade fosse uma família grande. Todos, dos ricos aos mais humildes, integravam-se no clima da festa, que anunciava a vinda do menino para fazer a proeza de estrela iluminando uma só mesa com todas as mãos. Papai Noel existia no imaginário de cada criança. A mãe lembrava, na semana próxima ao Natal, que o filho fosse escrever a carta, colocasse no sapato quando for dormir, pedindo a Papai Noel o presente que você quer ganhar nesse ano. Foi o que o menino fez no mesmo dia, pedindo que queria ganhar uma bola de couro daquela vez para jogar futebol com os amigos no campo da praça Camacan.

Na véspera de Natal, a mãe disse que fosse dormir cedo, Papai Noel podia passar por aqui e se encontrasse você acordado não vai deixar seu presente no sapato. Ele só deixa o presente no sapato se o menino estiver dormindo, não podia esperar o garoto pegar no sono, tem muita criança para presentear naquele dia especial, consagrado ao nascimento do menino Jesus na manjedoura.

O velocípede, o jogo de botão, o dominó, o jogo de dama, o realejo e o pião que rodava na mão foram presentes que Papai Noel deixara quando acontecia o Natal. Estavam no baú onde também guardava as revistas de quadrinhos, guri e gibi.

Quando chegou finalmente a véspera de Natal, obedeceu ao conselho da mãe, foi dormir cedo, na certeza de que Papai Noel não ia se esquecer dele.

Acordou no outro dia com sono. O susto esplêndido teve quando clareava dia. Lá estava no par de sapatos a bola de couro como o presente de Papai Noel, que atendera o seu pedido.

O domingo brilhava com a sua luz forte que caía do céu sobre todas as coisas. De calção e peito nu, chamou os meninos para escolher os times para mais uma partida de futebol. Como dono da bola, na formação de seu time, tinha preferência para escolher os garotos que fossem os melhores jogadores.

De agora em diante, com esse privilégio, o time que escolhesse seria vencedor em todas as partidas no jogo de futebol. E isso tinha que agradecer ao Papai Noel.

Passados tantos anos, o homem idoso não esqueceu que Papai Noel mora em um lugar que neva. Chega no trenó puxado por renas. Entra pela janela para deixar no sapato o presente que o menino pediu, isso porque as casas da sua cidade não possuem chaminé.

 Veste roupa vermelha, usa uma barba branca crescida, o gorro cobre os cabelos sedosos. Não faz rô, rô, rô, nem tira foto com a criança no supermercado. Não é pretexto para motivar as vendas no comércio nessa fase do ano. Não é um Papai Noel protagonista da sociedade consumista.

É um encantado, o homem idoso prefere esse, que faz bem, torna a vida viável como se fosse uma grande mentira de verdade.

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Cyro de Mattos é poeta,  ficcionista e Jornalista. Autor de 70 livros, premiado, editado no Brasil e exterior. É também advogado.


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sábado, 23 de novembro de 2024



O Jovem Juan Marcos Veio me Visitar Hoje

Cyro de Mattos

 


Neto do cronista Antônio Lopes e da artista plástica Conceição Portela. Estuda biblioteconomia na UESC. Vocação promissora de poeta. Domina o francês. Presenteei-lhe na oportunidade com meu livro De tes instants dans le poème. edição bilíngue, publicação das Editions du Cygne, Paris, Coleção Poesia do Mundo.

Enviei através desse jovem leitor para Seu Walter, vô materno do poeta promissor, um homem de 95 anos, o meu livro Vinte Poemas do Rio, aprovado três anos no vestibular da UESC. O vô materno de Juan enviou-me a singela lembrança de sua autoria: Histórias de Seu Walter.

A vida é boa e bela com encontros dessa natureza.

 

(Recebi via WhatsApp do poeta Cyro de Mattos)

 

Cyro de Mattos é poeta,  ficcionista e Jornalista. Autor de 70 livros, premiado, editado no Brasil e exterior. É também advogado.


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quarta-feira, 20 de novembro de 2024

Dia do Negro

Cyro de Mattos




Você sabe quantos morreram
Para me ver aqui escrevendo,
Comer moqueca de peixe,
Jogar futebol na várzea,
Ir pra escola pra aprender,
Dançar com suas danças,
Louvar com os seus santos,
Cantar com os seus cantos,
Dizer que o caráter vale,
Todos temos a mesma alma,
Não importa a cor de pele,
Somos iguais e diferentes?

 

Cyro de Mattos é poeta,  ficcionista e Jornalista. Autor de 70 livros, premiado, editado no Brasil e exterior. É também advogado.


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domingo, 10 de novembro de 2024

Nosso Herói Jipe e Maria Camisão

Por Cyro de Mattos

 


                 Jipe não era apenas mais um doido manso com suas esquisitices que habitou minha infância cheia de sentimentos e graça. Era o mais querido por gente grande e pequena. Hélio Pólvora, nascido em Itabuna, ficcionista dos melhores da moderna literatura brasileira, dedicou-lhe o conto “No Peito o Motor”, que faz parte do livro Estranhos e Assustados, publicado pela editora Francisco Alves, Rio, 1977. Teve várias edições, deu ao autor o Prêmio Nacional da Fundação Castro Maia.

              Depois do conto primoroso do conterrâneo Hélio, tive a ousadia de escrever um texto de ficção breve sobre nosso herói do trânsito, que de repente se achara que era de corpo e alma um jipe. O título do meu texto é “Um Jipe nas Nuvens”. Faz parte do livro Nada Era Melhor, da Editus, 2017, é uma reunião de contos curtos ou romancinho da infância, se quiserem. Jipe aparece no meu romance Eterno Amanhecer, ainda inédito, com mais estaque.

            Os meninos de meu tempo consideravam os doidos mansos como uma gente indefesa, ingênua, engraçada, sofrida, invenção do destino. Tanta consideração tínhamos por eles, que meu livro Zurububuruna, Editora Batel, Rio, 2024, poesia satírica em formato de cordel, sobre uma gente que habita com suas vilanias uma localidade imaginária, é dedicado aos doidos mansos de minha terra, claro que na homenagem não podia faltar nosso famoso Jipe.


                 Eis a dedicatória no meu livro Zurububuruna:          

                                    Aos doidos mansos de minha terra, que não fazem mal a uma mosca. Ingênuos, indefesos, perseguidos pelo fado. Incansáveis intérpretes da vida diária, riso do trânsito. Mula-Manca, Maria Camisão, Ciro Mergulhador, o tal Jipe falado. Zeles Carnavalesco, mais Chiranha, mais Paturi, meio azoado, entre outros, dedico com muito gosto esses versos de pé quebrado.

                       

          Maria Camisão vestia uma camisa folgada, mangas compridas, de tão grande batia nos joelhos. Ela era de estatura baixa, os cabelos sempre assanhados, a boca desdentada.  Alguns diziam que guardara como lembrança meia dúzia de camisas do seu homem, um preto alto e forte. Vivia do ganho da roupa que lavava para a família abastada. Nas horas de crise aparecia na avenida do Cinquentenário. Revoltava-se, xingava a Deus e o mundo. Comentava-se que ela havia ficado adoidada depois que o marido amanheceu enforcado na cadeia, dizem que a mando do delegado Nero, que armara para ele uma cilada. O delegado mandou que os dois soldados tomassem as caças moqueadas e prendessem na feira o homem chamado Barba Preta.  Não demorou, não se sabe como, o delegado passou a ser o dono da rocinha de cacau e cereais, que o negro Barba Preta havia plantado nas Salteadas.

            Escrever sobre esses tipos curiosos de minha terra, convenhamos, é atender com prazer no tempo o aceno das distâncias. O aceno dos dias com sua graça e lamento. Eles preenchiam a minha infância como um episódio relevante da vida, sem que nada me custasse

 

Cyro de Mattos é poeta,  ficcionista e Jornalista. Autor de 70 livros, premiado, editado no Brasil e exterior. É também advogado.

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sexta-feira, 8 de novembro de 2024

OAB-BA vai homenagear 

Cyro de Mattos no dia 6

 


A Ordem dos Advogados da Bahia vai homenagear Cyro de Mattos com a Comenda Barachísio Lisboa no dia 6 de dezembro, às 18 horas, em cerimônia a ser realizada no auditório da OAB, Seção de Itabuna, na rua Rufo Galvão, 170, centro, em uma celebração por seus mais de 50 anos de exercício profissional, de maneira competente e ilibada, na Comarca de Itabuna e em outras da região do Sul da Bahia. O advogado exerceu a profissão nas áreas cível, trabalhista e penal, além de ter sido juiz classista da classe patronal na Junta de Conciliação e Julgamento de Itabuna.

O nobre causídico Barachísio Lisboa foi um dos advogados mais proeminente da segunda metade do século XX no Estado da Bahia, atuando nas comarcas do interior e no Tribunal de Justiça da Bahia. Nascido em Ituberá deixou vasta clientela que acorreu aos seus serviços profissionais, dando ensejo à criação do renomado grupo dos Advogados Associados do Escritório Barachísio Lisboa, localizado em Salvador, que já alcança três gerações de prestigiados profissionais do Direito, incluindo filhos, netos e bisnetos.

Cyro de Mattos é formado pela Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia. É também jornalista e escritor, publicado no Brasil e exterior. Autor de 70 livros de diversos gêneros, premiado no Brasil e exterior. Membro da Academia de Letras da Bahia, Academia de Letras de Ilhéus e Academia de Letras de Itabuna, do qual é um dos fundadores e Presidente de Honra. Pertence ao Pen Clube do Brasil. Sobre a homenagem que lhe está sendo prestada pela OAB-Bahia disse: “Recebi a notícia da homenagem pela OAB-BA surpreso e assustado. Ainda advogo, muito pouco, só em causa própria quando o pleito merece. O tempo vai nos levando, a gente continua trabalhando e sonhando, acreditando no estado de direito e no milagre da literatura, dona da linguagem que mais chega perto como forma de conhecimento para nos dizer o que é a vida, a morte, o homem, esse desconhecido, que mata pelo prazer de matar, às vezes nem enterra.


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