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domingo, 15 de outubro de 2023

A vitória do menino

Cyro de Mattos


 

         A mãe dizia que aqui na vida tudo tem sua hora para acontecer e seu lugar para ser ocupado pelos seres e as coisas. Estava perto de receber o resultado do exame de admissão quando saberia então se seria aprovado. A expressão de confiança no rosto do menino denunciava uma esperança inabalável, motivada por tudo que veio sendo construído durante o ano inteiro, com os seus pensamentos direcionando-se para a realização da conquista tão desejada.  Chegava a sorrir de contente, da certeza que tinha agora da vitória prestes a acontecer, só pensando em chegar logo à sua casa para dividir a expectativa da vitória com os pais. A autoconfiança tomava conta da expressão do rosto, os contornos nítidos formando um desenho vibrante da vida, na medida em que apressava os passos, o corpo como se fosse de um passarinho, voando no chão. Sentia-se leve, imune a qualquer tipo de dúvida ou preocupação que pudesse surgir entre as noites tranquilas, horas de entrega na preparação. Tudo o que era desafio, incentivando-o sempre, parecia prestes a ser superado, enquanto esperava o resultado do exame de admissão.

         Mas à medida que o dia avançava na manhã clara, um sentimento desconhecido começou a se infiltrar em sua alma. A sombra da dúvida começou a se espalhar, confundindo aquela certeza inicial. O sorriso que antes brilhava em seu rosto agora se contorcia em uma expressão de insegurança. A lembrança da exigência de seu pai e o medo de decepcioná-lo começaram a pesar em seus ombros, transformando a alegria da manhã em uma tarde sombria. 

         Nunca o domingo fora tão ambíguo para ele como no começo desse mês de dezembro. O brilho do sol, que antes envolvia as coisas com um toque de magia, leveza e graça, agora lançava sombras que se confundiam com seus sentimentos conflitantes. E, nesse momento conflituoso, que o fazia oscilar nas ondas da dúvida, a vida se mostrava complicada e imprevisível, fazendo-o temer ante ao que antes considerava inquestionável.  A reação do pai, uma vez pilar de apoio que o fazia seguro, agora se transformava em um espectro amedrontador, e o medo da reprovação tornava o desejo de saber o resultado um grande tormento.

         Da pequena balaustrada de onde se via o pátio do colégio, a diretora   tocou o pequeno sino várias vezes, chamando os meninos e as meninas para tomar conhecimento do resultado no exame de admissão. Observara que só ia chamar o nome do candidato que tivesse sido aprovado.  Os candidatos eram muitos, vários vieram das roças onde moravam com os pais, de vilarejos perto ou de cidades vizinhas, menores do que a sua, dividida em duas partes pelo rio manso na descida quando era tempo de estio.

         Meninos e meninas aglomeravam-se no pátio do colégio, alguns estavam acompanhados da mãe. Todos em silêncio, aguardando, ansiosos, o resultado do exame de admissão, vários com aquela cor de medo no rosto, presos ao que daqui a instante seria anunciado pela voz da diretora do ginásio.  

          Fez um esforço para que as pernas não tremessem, mas não conseguia dominar o friozinho que dava na barriga.  De repente, o que era uma nebulosa dentro dele, num lance feito de emoção indescritível, transformou-se numa luz forte que clareou tudo dentro, repercutiu na alma como uma vibrante canção salpicada de notas alegres. E notas dessa canção, que chegava em boa hora, cheia de felicidade, envolveram o peito de menino franzino, abalando, em sua mensagem venturosa, seu pequeno coração. A diretora havia chamado o seu nome como um dos aprovados no exame de admissão.

(Capítulo do romance inédito Do menino se faz o homem)         

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Cyro de Mattos é escritor e poeta. Editado no exterior. Membro da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz -Uesc.

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sábado, 14 de outubro de 2023

O show de horrores da moda da década de 1970

 Ruy Castro



Sabe os "anos dourados"? São sempre aqueles de 30 anos atrás. Entre outras, porque você tinha 30 anos a menos e já se esqueceu das agruras e amarguras que viveu naquele tempo. Se isso é verdade, significa que, hoje, os anos dourados foram a década de 1990. Só que, na década de 1990, as pessoas também situavam os "anos dourados" 30 anos antes, ou seja, na década de 1960. E assim por diante. Nunca ouvi alguém dizer: "Que maravilha! Estamos vivendo nos anos dourados!"

O contrário acontece muito: você odiar o tempo em que vive e se referir a ele como medíocre, hediondo, intolerável. No Brasil dos anos 1970, por exemplo, estávamos na ditadura, o que já era suficiente para nos fazer detestá-los. Mas ainda havia outro motivo: a moda masculina. Em nenhuma época do século 20, ela foi tão pavorosa e cafona. Qualquer evento para o qual as pessoas se "vestissem" tornava-se um show de horrores.

Tudo era tremendamente exagerado. Os paletós tinham lapelas gigantes, o que obrigava os colarinhos a serem também enormes e as gravatas, os famosos gravatões, a terem nós maiores que um punho fechado. Foi também a moda das gravatas-borboleta, do tamanho das borboletas da Amazônia. Os paletós eram cintados, com o que todo homem parecia ter ancas, e vinham em padrão xadrez, de listras ou de pespontos, em cores como verde-abacate e azul-bebê.

As calças tinham cintura alta e bocas de sino. Os sapatos eram de salto alto, o que nos obrigava a andar na ponta dos pés. Os penteados eram do tipo usado hoje pelos cantores sertanejos. E havia um chique-esporte: os inacreditáveis conjuntos safári. Entendeu o que estou querendo dizer?

Por que estou me lembrando disso? Porque, de uma pilha de revistas antigas, me caiu um catálogo da Ducal para 1973. Era outra forma de ditadura —as lojas só vendiam esse tipo de roupa. A alternativa, já possível em certos círculos, era andar nu.

Folha de São Paulo, 24/09/2023

https://www.academia.org.br/artigos/o-show-de-horrores-da-moda-da-decada-de-1970

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Ruy Castro - Nono ocupante da Cadeira nº 13, eleito em 6 de outubro de 2022, na sucessão de Sergio Paulo Rounet e recebido em 3 de março de 2023 pelo acadêmico Antonio Carlos Secchin.

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domingo, 8 de outubro de 2023

Lugar e Circunstância do Escritor

Cyro de Mattos

 


          Ser escritor é profissão ou apenas uma atividade dos que exercem a arte literária?  Thomas Mann afirma que não é profissão alguma, e, sim, uma maldição. Começa terrivelmente, muito cedo. O criador de A Montanha Mágica (Editora Globo, 1953) quis dizer com isso que o autor ao ser impelido pela força do destino para se manifestar sobre a vida carrega todo o peso terrestre dentro de si, suportando assim inúmeras situações conflitantes do existir nos ermos de seu calvário. Quando faz a leitura crítica do mundo, toma de empréstimo ao sonho a palavra com a sua natureza mítica. De onde vêm, para onde vão nessas antenas da raça tantos sentimentos e tendenciosas explicações?

          Há quem afirme que a literatura ajuda a viver o sofrimento que todos nós temos na vida. Carlos Drummond de Andrade acha que ela ajuda esse sofrimento ser um jogo divertido. O trivial lírico de Itabira afirmou que é escritor porque escreve. Ele nunca quis ser membro da Academia Brasileira de Letras, apesar das insistências, mas nunca abdicou da sua função de escritor, de alguém simples que gostava de falar como pássaro do cotidiano nos eventos da vida. Nunca lhe agradou essa maneira solene de ser diferente, não dava sentido à nossa incompletude, que gera incertezas e dramas diante das questões profundas.  

          Não é exagero achar que a literatura é uma profissão. É condição, ato ou efeito de professar, perseguir, proferir crenças e valores. Declarar publicamente ao outro o que somos no mundo. Nela confessamos nossa opinião sobre seres e coisas porque assim é nosso modo de ser-estar na existência. Profissão que não dá rendimentos para sobreviver, não devia ser assim, dado que é forma de conhecimento da vida, transmite ensinamentos fundamentais como o amanhecer. Exige esforço e labor. Sacrifício, doação.

           Não se vive de literatura, mas para a literatura, dentro dessa condição em que o autor procura liberar desejos e medos das zonas da razão e emoção. Essa é minha crença, tem sido minha paixão. A literatura vem demonstrando que gosta de mim, nesse meu jeito de respirar no trânsito da vida, assumir as afirmações e suportar as negações. É minha maneira de me sentir útil na vida quando simulo a realidade através da metamorfose da palavra e levo minha experiência do mundo aos outros. 

          A literatura organiza meus conflitos, oferta-me sonhos, equilibra-me no difícil gesto de viver, que, segundo Guimarães Rosa, é muito perigoso.  Nesse espaço vital da criação literária é que me encontro com as mentiras de verdade fornecidas na solidão solidária, deixo de ser um cadáver ambulante que procria. Convenço-me de que sou apenas esse pobre homem, contraditório, finito, provisório, andante e errante com suas ingenuidades e dramas, nesse momento intervalar entre o primeiro vagido e o último suspiro. Sem fazer a prosa de ficção ou o poema não sou um ente que pensa e tem emoção. Não tenho motivações para fazer leituras do mundo com as vestes da vida e da morte. Não consigo retirar dos dias personagens que se queimam com suas dúvidas, choram às escondidas, revelam suas incandescentes ternuras na parte noturna do ser.   

            A certa altura da entrevista que dava para alguns jornalistas, o romancista William Faulkner comentou sobre a alegria que tinha no ato de escrever. Ele disse: “Porém criar! Qual dentre vós, não tendo em si este fogo, pode conhecer esta alegria, por mais fugaz que ela seja?” Para o autor de O Som e a Fúria (Editora Portugália, Lisboa, 1969), o legítimo escritor é capaz de saber o que é esse fogo fugaz da ilusão. Sem essa alquimia do verbo no romance ou no conto não há o beijo, a lágrima, o riso, o epitáfio, a busca do sentido da tragédia que somos no mundo como seres imperfeitos.  

            É com esse fogo da ilusão, a que se referiu William Faulkner, que aceno para as coisas da vida que se foi, justamente me aconteço nesses versos do poema “A Roda do Tempo”: 

 

  Criei vaga-lumes

   Para vê-los à noite

  Brilhando no quarto.

 

 Nadei como um peixe ágil

 Nas águas mais claras

 Do Rio de Água Doce.  

 

Como um pássaro

Tive cada voo

 Com o vento mais alto.

 

Andei como bicho solto 

Sem ter medo de nada

Pelas ruas do mato. 

 

Mas a infância tem o sabor

De uma fruta doce que termina

Quando vem a idade dos homens.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                    Não é fácil caminhar nessa estrada das letras, a essa altura comprida. Há os que dizem que o escritor tem fome de fama quando escreve, quer permanecer para sempre nos outros com os seus sentimentos e com isso alcançar a imortalidade. São argumentos pueris de quem não tem humildade para reconhecer a obra valorosa que o autor conseguiu durante décadas. Não sabe que o autor legítimo no ato de exercer a palavra escrita tenta encontrar-se por entre os rumores de navegações agudas.  Não sabe de solidões pessoais e imaginadas na madrugada de um homem entre alegre e triste.  

            Jorge Luís Borges declara que escreve para viver.  Gabriel Garcia Márquez afirma que morre se não escrever, mas também morre se escrever. Escreve-se porque assim devia ser. Fica claro que escrevo não com sede de imortalidade. E que sei do meu tamanho e do lugar que ocupo no meio dos outros.  No fundo de tudo, bom não esquecer, nós somos iguais, entre nascer, viver e morrer. Cada um está aqui para contar a sua história. Como o vento, não ficamos, para isso fomos feitos, sonhamos e passamos. 

            Nada se pode fazer diante do inexorável fixado pelo tempo, esse senhor categórico, que tudo dá e toma, não muda, nós é que mudamos.  Ai de mim, ai de mim. Então lembro, no instante em que termino esse texto sobre o fazer literário, o que eu disse certa vez nos dois últimos versos de um soneto:

 

Da cabeceira para a foz 

Tantas explicações  

Para saber enfim

Que nada sei de mim. 

 

           Por isso escrevo para ser testemunho de meu tempo, sabendo que não vou mudar o mundo.

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Cyro de Mattos - Escritor e poeta. Membro Titular da Academia de Letras da Bahia e do Pen Clube do Brasil. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz.

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quarta-feira, 4 de outubro de 2023

Solidão em Gabriel García Márquez       

Cyro de Mattos


 

          A decadência do romance regionalista na literatura da América Latina, por volta de 1940, fez com que surgissem novos autores interessados pela temática universal, buscando operar o conto e o romance   não mais com os elementos supervalorizados da terra. A selva, o rio, o lhano e a zona andina não interessam mais com a sua grandeza e particularidades. Vale nesse tempo de sonho e desafio a imagem do homem contemporâneo com os vícios e virtudes de sua natureza pessoal.  Recorre-se então a Kafka, Joyce, Faulkner, Proust e Virgínia Woolf como influências positivas para a consciência crítica de novas técnicas no nível da história e no plano da elaboração formal.

           Uma literatura questionadora da essência humana vai surgindo para ocupar o lugar da geografia caracterizada pela paisagem física, que subjuga os valores do indivíduo.  O homem e seus aspectos essenciais, sua luta de transcender e de afirmação do seu caráter servem de motivação agora para as criações de contistas e romancistas.  E o que se percebe nessa mudança de atitude é o compromisso do escritor como testemunha do seu tempo, sem implicações de submissão do seu processo criativo à estética do regionalismo limitado, nem tampouco ao nível panfletário do conteúdo político.

          As interrogações e angústias desse homem contemporâneo são reveladas com novas técnicas, como vínculo de gravidade do   cotidiano. A modelação do espaço e tempo, a experimentação de nova   linguagem, o uso do mito, do onírico, do simbolismo e do monólogo interior são os meios empregados na narrativa interpelativa para mergulhar o leitor no mundo em processo, agora escavado em suas faixas metafísicas e de teor existencial. José Maria Arguedas, Alejo Carpentier, Julio Cortázar e José Revueltas são alguns desses nomes que se inscrevem na nova corrente de renovação da prosa de ficção hispano-americana. 

          Gabriel García Márquez tinha uma relativa notoriedade até 1961como escritor nos círculos intelectuais do México onde vivia e atuava como roteirista de cinema. Já havia escrito quatro livros, que obtiveram   resenhas favoráveis, mas que não lhe deram a fama de escritor maior de todos os tempos, como iria acontecer com Cem anos de solidão, publicado em 1967. Esse magnífico romance, que é como a assinatura especial do legado do autor colombiano, é considerado por alguns críticos o segundo mais importante da literatura mundial, sendo o primeiro Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes. Tornou-se em pouco tempo o mais importante do realismo mágico na literatura hispano-americana. O livro já vendeu mais de cinquenta milhões de exemplares, foi traduzido e publicado em mais de 32 idiomas, deu ao seu autor o Prêmio Nobel.

          Livro arrebatador, passivo de várias interpretações, quanto mais as suas páginas são lidas, a vontade quer, o coração sente e não cansa. Pode até a sua leitura ser dificultada e se tornar confusa com os nomes na história da família do coronel Aureliano Buendía, repetidos uma e outra vez.  Há quatro José Arcadio Buendía e três Aureliano Buendía nos cem anos em que decorre a história.  Esse comportamento na escrita fluente faz parte da estratégia para a construção da estrutura do romance. Mas nem essa particularidade, que pode confundir o leitor, tira do romance o seu poder mágico, a sedução do estilo no cronista que mescla a oralidade da linguagem com o imaginário fabuloso expresso com profundidade metafórica e largura intensa na ideia. Tanto isso é verdadeiro, faz sentir   sem esforço a realidade e a fantasia, que unidas aparentam ser uma coisa só como representação do mundo. 

           Para não usar o espaço tradicional, com a localização das cenas em determinado lugar do tempo histórico, evitar a narrativa linear operada através de acontecimentos extraordinários, com os momentos lineares de princípio, meio e fim, Gabriel García Márquez emprega o tempo circular no desenvolvimento da trama. Superpõe e justapõe situações com personagens do mesmo nome em gerações diferentes, como se girassem movidos pelo eixo da existência numa mesma órbita.

          Em certo trecho, lemos essa passagem sobre o círculo do tempo, no seu eterno retorno: 

 

 José Arcádio Segundo, ao reconhecer a voz de sua bisavó, vira a cabeça para a porta, tratou de sorrir e, sem saber, repetiu uma antiga frase de Úrsula.

- Que se há de fazer – murmurou – o tempo passa.

                   - É verdade – disse Úrsula – mas não tanto.

Ao dizê-lo, teve consciência de estar dando a mesma resposta que recebera do Coronel Aureliano Buendía na sua cela de sentenciado e mais uma vez estremeceu com a comprovação de que o tempo não passava, como ela acabava de admitir, mas girava em círculo.

 

             A estrutura do livro, portanto, é circular, desde o começo da fundação de Macondo, um povoado fictício, até a sua apocalíptica destruição. Na trama que nos envolve a cada instante, os elementos da vida constante vão sendo expostos misturados com os sonhos, ocorrendo com habilidade a fusão das circunstâncias entre o pensamento mágico e o pensamento lógico. E dessa forma de combinação entre magia e informes lógicos, ilusões e raciocínios objetivos, o admirável narrador e não menos admirável ficcionista vai conseguindo extrair uma sobrecarga espantosa de emoções e acontecimentos inusitados na história dos Buendías. Com poesia e ritmo arrebatador, a narrativa gira do seu eixo vibratório entrelaçada por entre as zonas do mito, realidade e fábula.

           Para os críticos que ressaltam Cem anos de solidão como o romance que expressa a condição humana, o seu discurso é apreendido como o da história de todos os homens, com os seus sonhos, suas perdas, suas frustrações, suas lutas e seus lutos. Nesse discurso marcado de fatalidades e paixões conota-se o  clima de sonho  misturando  seres e coisas com tudo que se encontrasse na vida: “... as mulheres de rua, que arruinavam o sangue; as mulheres de casa, que pariam os filhos com rabo de porco;  os galos de briga, que provocavam mortes de homens e remorsos de consciência para o resto da vida; as armas de fogo, que só com serem tocadas condenavam a vinte anos de guerra; as empresas audaciosas, que só  conduziam ao desencontro e à loucura,  e tudo, enfim, tudo que Deus criara  com a sua infinita bondade e que o diabo pervertera” (p. 324).

          O casal José Arcadio Buendía e Úrsula Iguarán, que fundou Macondo com suas trinta casas no início, ruas iluminadas e ventiladas, teve três filhos: José Arcadio, que era um rapaz disposto e trabalhador; Aureliano, que contrasta com o irmão mais velho, via-se que era filosófico, sereno e muito introspectivo; e por último Amaranta, a típica dona de casa de uma família de classe média do século dezenove. Soma-se a estas personalidades   Rebeca, que foi enviada da antiga aldeia de José Arcadio e Úrsula, sem pai nem mãe. A história com a sua mitologia doméstica é   ritmada como os sons das cordas e sopros dos metais, à volta desta geração e dos seus descendentes, filhos, netos, bisnetos e trinetos, tendo como característica o fato de que todas as gerações foram acompanhadas por Úrsula, que viveu entre 115 e 122 anos, morrendo de velhice e cega.

            Atacada pela catarata, cega nos derradeiros anos de vida, mas ainda identificando nos detalhes e movimentos pessoas e coisas íntimas, graças à sua apurada visão imaginativa, esta centenária personagem dará conta de que as características físicas e psicológicas dos seus herdeiros estão associadas a um nome, sendo os José Arcadio de natureza impulsiva, extrovertidos e trabalhadores, enquanto os Aurelianos são pacatos, estudiosos e muito fechados no seu próprio mundo interior. Os Aurelianos terão ao longo do livro a missão desafiadora de desvendar os misteriosos pergaminhos de Melquíades, o Cigano, personagem guardador de um mundo singular, que foi amigo de José Arcadio Buendía. Os pergaminhos guardam o segredo da história dramática da família e apenas serão decifrados quando o último da estirpe estiver às portas da morte.

           O tema da violência,  que deforma o comportamento humano, do incesto em que os filhos do casal do mesmo sangue  nascem com o rabo de porco, a história da solidão, que não é  apenas a do coronel  Aureliano Buendía, mas a  de toda a sua família, desde a fundação de Macondo, quando  não se sabia os nomes das coisas, não se conhecia  uma dentadura postiça e  o gelo,  e  até que o último Buendía se suicida, cem anos depois, todos esses momentos dentro de um processo em que se alternam certos acontecimentos históricos, com guerras e revoluções civis, o amor em tempo instável de paixões e frustrações,  formam o painel  humano e  fantástico contendo o percurso de todos os seres humanos  no mundo. Expande-se uma humanidade fantástica na circularidade dos instantes em que marcas dramáticas e, ao mesmo tempo, cheias de um realismo mágico são expressões de um ritmo obsessivo, de grandeza insólita na escrita com extraordinária poetização da vida.  

                Filiado à corrente do realismo mágico, expressão que não agradava ao autor de Cem anos de solidão, que achava como eventos naturais aqueles que aconteciam na aparência irreal, em Macondo, o romance está impregnado de momentos inusitados do cotidiano.  A peste da insônia que deixa os moradores de Macondo sem memória, desligados do mundo,  submissos à  inércia repetitiva e enfadonha dos fatos e atos; as borboletas que acompanham Maurício Babilônia, a ascensão de Remédios, a Bela, levada pelos lençóis ao céu;  as crianças  nascidas com o  rabo de porco como fruto de incesto;  a caixa com cartas dos parentes e amigos levada  para os mortos,  colocada  dentro do caixão do falecido; os mortos que apareciam e conversavam com os vivos; todas estas situações são encaixadas nas cenas  como se resultassem de uma lógica racional, que comanda o tempo cronológico dos habitantes de Macondo. A realidade, assim, não é trabalhada para que, desfeita, se instaure o mágico, visto que este faz parte das manifestações da vida no cotidiano.

        Da leitura desse soberbo romance constata-se que Macondo tornou-se em pouco tempo um território incorporado definitivamente ao mapa da literatura ocidental, alcançou um espaço inserido no contexto político-histórico da América Latina.  Além disso, foi transformado em uma espécie de sinônimo do realismo mágico, representativo, mesmo que idilicamente, do desejo de unidade da América Latina.

        O livro deixa que seu espaço, por onde circulam personagens e ações, seja visto como referencial relativo ao Caribe, à Colômbia e por consequência à América Latina. Pode ser visto como uma espécie de metáfora da situação latino-americana, entrelaçada com a história da Colômbia, suas guerras civis e militares, traições, lutas pelo poder, entre liberais e conservadores, atos absurdos como o massacre de três mil trabalhadores, acuados e fuzilados pelo Exército, que manda levar os corpos em vagões de trem para que fossem jogados no mar. 

.        Outros críticos pensam Cem anos de solidão dentro do cruzamento entre história e mito, e, nessa interpretação metafórica, o romance deve ser visto como criação e síntese do mundo. Trata-se de uma metáfora da condição humana revelada através dos membros da família Buendía. No entanto, entre os que interpretam como uma grande metáfora da condição humana e aqueles que concebem a invenção ímpar do romancista colombiano como uma chave de acesso ao contexto histórico do continente, não se pode deixar de considerar que esse livro tem o tamanho eterno do homem, com todo o seu medo de sombras, que o acompanham no mundo e não se explicam desde não sei quando. Para que sobrevivam sempre, basta que o coração as aceite como camadas noturnas do ser. 

    .     Na circularidade do tempo, no fatal determinismo que comanda com rigor  a vida dos Buendía, no tamanho soberbo da solidão que pesa sobre seus personagens principais e secundários, na impotência ante as forças indomáveis da natureza e dos instintos humanos,  na obra vista como  a denúncia dos problemas sociopolíticos locais, na matança dos trabalhadores, na violência imposta pelo poder, no roubo de terras e na opressão ostensiva sobre os excluídos e fracos, esse romance de expressão imensa construído sob o ritmo de uma orquestração extraordinária possui  suficiente autonomia  como se fosse uma ficção-poema de intensa carga lírica.  Plasmada de simbolismos, a palavra aqui, tomada emprestada ao sonho para revelar as verdades e ilusões do cotidiano, poreja de magia e música surpreendentes, que alcançam os melhores níveis da criação literária com repercussão universal.

             Gabriel García Márquez ficou mergulhado em dezoito meses de trabalho para escrever Cem anos de solidão, enfrentando toda espécie de privação face o esgotamento das reservas econômicas. Já não tinha as mínimas condições para suprir as necessidades domésticas imediatas no final da conclusão do romance.  Recorria à venda das joias restantes da esposa Mercedes e aos objetos da casa.

           Nascido em Arataca, Colômbia, em 6 de março de 1927, Gabriel García Márquez foi jornalista, editor e ativista político colombiano. Faleceu no dia 17 de abril de 2014, aos 87 anos, na cidade do México. Em pleno brilho do ouro da glória.

 

 Leituras Sugeridas

MÁRQUEZ, Gabriel García. Cem anos de solidão, Editora Record, Rio de Janeiro, trigésima edição.

JOSEF, Bela. História da literatura hispano-americana, Editora Vozes, Petrópolis, RJ, 1971.

CERQUEIRA, Dorine. America América: amostragem da ficção hispano atual, Editus, editora da Uesc, Ilhéus, Bahia, 2011.

 

*O texto “Solidão em Gabriel García Márquez” integra o livro Kafka, Faulkner e Borges e outras solidões imaginadas, da EDUEM, editora da Universidade Estadual de Maringá, Paraná.

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quarta-feira, 27 de setembro de 2023

Pegando fogo

José Sarney



A marchinha de Francisco Mattoso lança o grito que nos últimos dias está na pele de todos: “Meu coração amanheceu / Pegando fogo, fogo, fogo!” Coração e braços e pernas estão assando com o caloraço de setembro. Nada da morena que passou perto: foram os recordes de temperatura que nos deixaram assim.

Nós aqui no Maranhão até que escapamos das temperaturas quarentenárias e não precisamos entrar em quarentena, mas no Sul Maravilha a coisa foi feia. Felizmente nós somos um povo que é antes de tudo um forte e não tivemos a mortandade que as canículas deste século têm feito no hemisfério norte, sobretudo entre os velhinhos como eu. Lá, quando a maré de caldo quente vem chegando, eles precisam começar as campanhas: “fique em casa”, “hidratação de hora em hora”, “feche bem a casa”.

Feche a casa? Pois é. Na Europa eles descobriram que as casas, bem isoladas para manter-se aquecidas no inverno, funcionam no verão para não deixar entrar o calor. Aqui nessa nossa cidade de São Luís temos felizmente os ventos alísios passando pelas casas de pé direito alto e ventilação cruzada, solução equatorial que nos deixaram os construtores portugueses.

Mas de onde vem este fogo infernal? Hoje não há dúvida de que das mudanças climáticas provocadas pelo homem. Aqui no Brasil não temos, infelizmente, dado a contribuição que devíamos. Continuamos desmatando e tocando fogo, a passos largos, na Amazônia, no Cerrado, até na Mata Atlântica — na minúscula fração da Mata Atlântica que ainda está de pé. É claro que o centro do problema está na Floresta Amazônica, que é tão generosa e acolhedora para o homem e que ele teima em destruir.

No começo do século passado ficou muito conhecido um livro — aliás o nome de um livro — de Alberto Rangel. Era um escritor empolado e difícil de ler, mas o nome colou e virou um apelido injusto. Aliás o conto que dá nome ao livro fala de um engenheiro que invectiva a floresta, que, na voz de Rangel, “poderia responder”:

“Fui um Paraíso. Para a raça íncola nenhuma pátria melhor, mais farta e benfazeja. Por mim as tribos erravam no sublime desabafo dos instintos de conservação… Inferno verde do explorador moderno, vândalo inquieto… alma ansiada de paixão por dominar a terra virgem que barbaramente violenta. Eu resisto à violência dos estupradores…”

O livro foi prefaciado pelo extraordinário Euclides da Cunha. E se a visão de Rangel é a oposta do “inferno verde”, a explicação de Euclides tem o toque do livro inacabado, “O Paraíso Perdido”. “Daí as surpresas. […] as mudanças extraordinárias e visíveis ressaltam no simples jogo das forças físicas mais comuns. É a terra moça, a terra infante, a terra em ser, a terra que ainda está crescendo…”Seu plano era falar do impacto, da dificuldade de apreender, compreender a floresta. “…o que se me abria às vistas desatadas naquele excesso de céus por cima de um excesso de águas[,] lembrava (ainda incompleta e escrevendo-se maravilhosamente) uma página inédita e contemporânea do Gênese.”

Mas a nossa visão contemporânea, para nós que podemos ver a floresta de avião ou mesmo do espaço, ainda é muitas vezes de incompreensão. Mesmo quando se vê as imagens com sensores que veem através do dossel das grandes árvores e se vê a devastação, há uma resistência em compreendermos a finitude que também a alcança. E aí se toca fogo. E nossa floresta está pegando fogo, causa e resultado das mudanças climáticas.

A coisa é difícil. Assim vamos ficar na situação de outra marchinha, essa de Haroldo Lobo e Nassara: “Allah-la-ô ô ôôô / Mas que calor ô ôôô / Atravessamos o deserto de Saara / O sol estava quente / Queimou a nossa cara / Allah-la-ô, ô ôôôôô / Mas que calor, ô ôôôô ô...”

Imirante, 26/09/2023

 https://www.academia.org.br/artigos/pegando-fogo

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José Sarney - Sexto ocupante da Cadeira nº 38, eleito em 17 de julho de 1980, na sucessão de José Américo de Almeida e recebido em 6 de novembro de 1980 pelo Acadêmico Josué Montello. Recebeu os Acadêmicos Marcos Vinicios Vilaça e Affonso Arinos de Mello Franco.

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quinta-feira, 14 de setembro de 2023

Ruy Póvoas fala de seu nascimento, sua infância e seu propósito.

A propósito do conto machadiano Pílades e Orestes (ou casadinhos de fresco)

 Godofredo de Oliveira Neto



O colega fazia conferência no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, no centro do Rio, no belo prédio construído nas primeiras décadas do século XIX, onde funcionou a Academia Real Militar. O IFCS vai tremer, me confidenciou ele, que chegou ao local junto comigo. Ele faria a conferência ao lado de um professor da Universidade de Berlim, um dos maiores militantes da causa gay na Europa, o colega precisou. Gênero, identidades e política o tema. O professor brasileiro abriu a conferência. Leu umas frase que me soaram conhecidas.

- "A união dos dois era tal que uma senhora chamava-lhes casadinhos de fresco". Me lembrei das frases no conto Pílades e Orestes, do Machado . Nunca pensara em Quintanilha e Gonçalves (os personagens do conto) desse prisma. Mas me assustei. Alguém da plateia interrompeu brutalmente a exposição gritando " você não vai nos dizer que Machado de Assis escreveu texto com esse viés de gênero!"

Outros levantaram a voz criticando o exaltadinho, pedindo silêncio. A coisa logo degringolou. Choveram acusações, houve quem cuspisse em vizinhos de cadeira na plateia. E é aí que eu entro. O que que o professor da Letras acha? Gelei. Tinha tido um pesadelo horrível à noite e ainda estava sonolento. Meu professor de Latim do Colégio Santo Antônio de Blumenau, Frei Odorico Durieux, me passava um sabão: quer dizer que o meu aluno preferido, que consegue passar para o Português trechos inteiros da Eneida e verter para o Latim trechos mal traduzidos para o português, o maior latinista discente que tive até hoje, gosta, como me disseram, de ouvir música profana que elogia belzebu e a devassidão em pura blasfêmia?

- É só brincadeira, respondi. É carnavalização.

Como reação, meus dois ouvidos doeram com as palmadas tipo telefone desferidas pelo amado professor. A pergunta da plateia do IFICS doeu igual.

Respondi academicamente: As pulsões do personagem tornam o pecado uma realidade, mas o leitor não é o pecador - se existisse pecado aí.

O texto alforria o leitor . Fez-se silêncio na plateia. Também achei confusa a minha resposta, mas me abriu espaço para sair e pegar o ônibus em direção ao Fundão. Esqueci de precisar que madame K. estava comigo no evento - você lacrou, ela disse baixinho. Até hoje não entendi bem o sentido de lacrou. Fui, através das janelas embaçadas do busão, apreciando a paisagem carioca saudoso do frei Odorico. Os ouvidos doíam.

Facebook/ Redes Sociais, 14/09/2023

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Godofredo de Oliveira Neto - Sexto ocupante da Cadeira nº 35, eleito em 9 de junho de 2022, na sucessão de Candido Mendes de Almeida e recebido em 2 de setembro de 2022 pela Acadêmica Ana Maria Machado.

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