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terça-feira, 13 de junho de 2023

Escritor baiano Cyro de Mattos vence prêmio internacional Casa de las Americas

 

Nascido em Itabuna, autor de 84 anos se inspirou na infância vivida no sul da Bahia, entrevista a Kátia Borges katiamacces@gmail.com


Com a serenidade de quem já acumula importantes premiações, conquistadas por uma obra construída ao longo de mais de seis décadas, o escritor baiano Cyro de Mattos, 84, recebeu, em abril último, a notícia de que seu livro, Infância com bicho e pesadelo e outras histórias, foi o vencedor do Prêmio Casa de Las Américas deste ano. Trata-se de um dos mais antigos (é concedido desde 1960) prêmios literários internacionais, contemplando obras em espanhol, português, inglês e francês, desde que tenham sido escritos por autores nascidos na América Latina e Caribe. Lançado pela Assembleia Legislativa da Bahia (ALBA), em parceria com a Academia de Letras da Bahia (ABL), o livro premiado integra a coleção Mestres da Literatura Baiana e reúne contos e novelas que giram em torno da infância e da vida na região cacaueira. Nascido em Itabuna, sul da Bahia, Cyro já publicou, apenas no Brasil, mais de 60 livros em diversos gêneros e recebeu, entre outros, o Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras, o APCA e, por duas vezes, o Maestrale Marengo d’Oro, concedido pelo centro italiano Culturale Maestrale di Sestri Levante. Nesta entrevista, via e-mail, conversamos sobre maturidade, leituras, referências, influências, inteligência artificial e projetos ainda inéditos. 



Sabemos que esta não é sua primeira premiação literária de relevância, mas o que o Prêmio Casa de las Américas representa em sua trajetória na literatura nesse momento pós pandêmico?

Por ser um prêmio de tradição e prestigiado na América Latina vai dar visibilidade ao meu legado, que tem hoje um autor de 84 anos, com mais de 60 dedicados à literatura,   65 livros pessoais publicados no Brasil e  16 no exterior, entre o conto, romance, poesia,  ensaio, crônica, literatura infantil e juvenil.

Infância com Bicho e Pesadelo, o livro premiado, reúne contos e novelas e sai pela coleção Mestres da Literatura Baiana (edição da ALBA e da Academia de Letras da Bahia).  Nesse sentido, poderíamos afirmar que este reconhecimento se estende, de certo modo, à sua geração? O que particulariza sua geração de autores?

Minha geração é a chamada Geração Revista da Bahia, que atuava com um grupo de adolescentes sonhadores nas páginas da Revista da Bahia, editada por Juarez Paraíso, nos idos 60, em Salvador. Na semana encontrávamos na livraria Civilização Brasileira, na rua Chile, Biblioteca Pública na praça Tomé de Sousa e, aos sábados, em alguns bares da Rua da Ajuda.  Éramos eu, Alberto Silva, Marcos Santarrita, Ildásio Tavares, Oleone Coelho Fontes, Adelmo Oliveira, Fernando Batinga, Olney São Paulo, Nacif Ganem e Ricardo Cruz. Tinha também Maria da Conceição Paranhos. Em nossas leituras estávamos ávidos para descobrir mundos e gente, o grupo tinha como guru Carlos Falk, leitor voraz, muito inteligente, adiante de todos. Alguns desses rapazes se tornaram mais tarde artistas da palavra escrita no circuito nacional, como Marcos Santarrita e Ildásio Tavares, e até da linguagem cinematográfica, como Olney São Paulo. Por motivos afetivos, de solidariedade e identidade cultural, esse Prêmio Literário da Casa de las Américas, que conquistei recentemente, se estende a todos eles.

A leveza inquietante e a maturidade literária foram alguns dos argumentos do júri para justificar a premiação de Infância com Bicho e Pesadelo. Como se alcança esse equilíbrio? Ele é possível de ser, afinal, alcançado por um escritor?

 Literatura é forma de conhecimento da vida. Equilibra-nos entre os vazios e os medos. Expressa bem a vida com arte e engenho quanto consegue o equilíbrio entre inspiração e transpiração. É um processo constante em que entra a experimentação, faz-se necessário escrever, escrever, escrever, momento inseparável do ato de ler os grandes autores. O talento acentuado carimba no final o resultado proveitoso na jornada bonita de acontecer e ser. 

Pensando bem, como definimos um escritor? Como ele se faz, ao longo de décadas? Quais são seus portos, seus pontos de resistência após mais de 60 livros?

O sapo pula, o pássaro voa, o peixe nada. Sou escritor porque escrevo. Meu porto é meu amor pela literatura, ela tem mostrado que está contente com o meu trabalho.

E o leitor-escritor? Muito se fala sobre a questão do número “modesto” de leitores, em contraponto à volumosa quantidade de livros lançados a cada ano. Há, em sua opinião, uma relação de causa e consequência? Como vê essa questão?

 Verdade, escreve-se mais para o menos. Uma enxurrada de livros passa por debaixo da ponte, mas não fica. A literatura não teve antes a concorrência de outros meios, como o teatro e o cinema, hoje é e a tecnologia avançada com a linguagem visual, abrangente e instantânea. O autor tinha mais prestígio no antigamente. Não me parece é que o livro vá desaparecer em seu formato físico, sabemos onde existe o ser humano está o sonho, a questão e a incerteza, que a palavra escrita gera. A ferramenta visual da internet, que tem lá seus vícios e virtudes, agora possibilita nova leitura da vida, às vezes a narrativa ganha muito mais leitores, não se pode negar isso, às vezes traz prejuízos. Deixando fora esse tipo de competição massificada, não se pode deixar de considerar que a linguagem da arte é sempre específica e exige um leitor íntimo dos problemas estéticos, que têm a ver com a criatividade em si e a recepção do texto.   

Como solucionar, a seu ver, o grande enigma, o nó górdio da leitura no Brasil?

O problema é complexo, mas não impossível de ser pelo menos atenuado. Falta seriedade e boa vontade dos governantes, dirigentes e administradores culturais. Somos um país de iletrados, sem hábito de leitura, um povo com poder aquisitivo baixo.  Sem virar a chave fica difícil mudar o quadro. É preciso projetos que solucionem primeiro problemas estruturais de nosso sistema político organizado. Há anos editoras em Porto Alegre, Belo Horizonte e Recife ampliam seus catálogos editoriais fazendo com que o autor circule em outras praças. As obras desses autores são distribuídas no circuito nacional de livrarias e espaços de cultura. O autor baiano quase sempre para publicar precisa bancar o livro. Publicar um livro de literatura no Brasil é sempre difícil, mesmo quando se tem uma obra consolidada. É caso raro o do autor que reside em Salvador ou no interior baiano quando consegue publicar sua obra em editora de grande porte situada no eixo do Rio e São Paulo, com circulação nacional. Nesse conjunto de falhas falta uma política institucional pública mais arrojada para fornecer meios e fazer com que a editora baiana já no nascimento tenha assim algum suporte, estímulo para sobreviver e crescer. É preciso também uma legislação que obrigue as universidades e colégios estudarem o autor baiano, no vestibular e na sala de aula. É preciso criar novas estratégias com os programas de apoio ao livro.  A Bahia tem de sobra bons autores. Com raras exceções, falta é o editor com espírito empresarial para esse tipo de atividade econômica. E uma política pública institucional que o estimule, com mecanismos eficazes para que ele progrida. Desenvolva e fortaleça um complexo editorial abrangente e ideal.

Como se descreveria, pessoalmente, como leitor? Quais autores contribuíram para a sua formação? Em que medida estes influenciaram o seu desenvolvimento como escritor, desde a estreia com Berro de Fogo, em 1966?

 Já fui um leitor voraz, o que foi natural. O corpo hoje reclama, a mente hesita, mas resisto, literatura é minha crença. O bom escritor ensina, provoca, surpreende, acrescenta.  Dostoiévski, Tchecov, Kafka, Faulkner e Fernando Pessoa com os heterônimos fizeram-me ganhar cancha como escritor, deram-me visões largas sobre meu ser-estar no mundo, profundidade no fazer literário, auscultações argutas na criatividade e consciência crítica na técnica moderna de elaborar o texto. Quanto ao Berro de Fogo, contos, minha estreia em 1966, está riscado de minha bibliografia, há muitos tempos. Seu texto aconteceu com  mais defeitos do que virtudes.  Isso não aconteceu só comigo. Lígia Fagundes Telles e Assis brasil, para citar dois autores importantes, eliminaram de seu legado os livros de estreia. Guimarães Rosa foi um impacto em nossa literatura com Sagarana, seu segundo livro. Seu primeiro tirou o segundo lugar em concurso da Academia Brasileira de Letras.  Quem venceu o concurso foi Luís Jardim com Maria Perigosa, longe de ser uma obra fundamental em nossas letras. Nem todos têm a sorte de fazer a estreia literária por cima, como foi o caso de Graciliano Ramos, Clarice Lispector e José J. Veiga, por exemplo.  Cacau, O País do Carnaval e Suor, primeiros romances de Jorge Amado, são frágeis, obras de autor imaturo. Machado de Assis se torna grande na prosa de ficção a partir de Papeis Avulsos.  Considero minha estreia Os Brabos, contos e novelas, que me rendeu o Prêmio Nacional Afonso Arinos da Academia de Brasileira de Letras, em 1978, por unanimidade, numa comissão julgadora constituída por Alceu Amoroso Lima, o relator, Herberto Sales, José Cândido de Carvalho, Adonias Filho, Afonso Arinos e Bernardo Elis. É o livro que me lançou em nível de autor nacional.  

Falamos no início sobre maturidade literária como uma qualidade sentida em sua obra pelo júri do Casa de las Américas, sente que a maturidade o afetou como escritor de algum modo? E os últimos acontecimentos sociais, sanitários e políticos do país? Como a realidade atinge a alma e a rotina do ficcionista?

O importante é ser pujante e denso no que se escreve, rico no que imagina e expressa, inaugurando novos sentidos. Minha literatura toca também nas feridas sociais e questões políticas. Basta ler meus livros de poesia motivados pelo rio Cachoeira, meu Cancioneiro do Cacau, história da civilização do cacau em verso, desde a conquista da terra até a decadência com a vassoura de bruxa, o romance Os Ventos Gemedores, em que a vitória pende para o lado dos despossuídos, e o romance transgressivo República Pinapá do Piripicado, condado que criei e tem a ver com o Brasil das corrupções e mazelas dos regimes políticos recentes.

O senhor transita com desenvoltura entre os gêneros literários, contos, romances, poemas, crônicas, ensaio e literatura infantil. Como se dá o seu processo criativo. Em geral, os formatos são definidos a partir das tramas ou, ao contrário?

Tudo é resultado de uma experiência de vida que se expressa no sistema verbal. O assunto vivenciado ou imaginado determina a linguagem para melhor expressá-lo. Não se trata de um comportamento mecanicista, mas compulsivo, que se encaixe melhor ao que pretendo dizer no texto proposto com alma e vida. Procuro dar sempre o máximo de mim, embora saiba que sou um grão no deserto onde tudo arrisco.

Uma questão central da contemporaneidade é a literatura em tempos de Inteligência Artificial, quando máquinas “pensam” e produzem textos cada vez mais subjetivos. Em sua opinião, qual o desafio dos escritores hoje?

A Inteligência Artificial não cria sentido, é digital.  O que sabe sobre o amor? O inexorável? De Deus?  Vê nascer e vê morrer sem nada poder fazer?  Se não tem a razão e a emoção como pretende decifrar o peso de tantos enigmas?  Tem seus ganhos, utilidade, mas por enquanto fico no meu canto, escrevendo o meu tanto, com espanto e encanto.

Quais os projetos inéditos na gaveta e/ou no prelo neste momento?

Já está sendo preparada a tradução para o espanhol de Infância com Bicho e Pesadelo e outras histórias pelo Fondo Editorial da Casa de las Américas, em Havana, Cuba, com vistas à edição da obra na coleção Premio Literario Casa de las Americas. Assinei contrato de edição com a Almedina, matriz de Portugal e matriz Brasil, São Paulo, para dentro de cinco meses publicar o livro premiado. Aguardo o último parecer do Conselho Editorial da EDUEM, editora da Universidade Estadual de Maringá, Paraná, para possível publicação de O Mundo é uma criança com palhaço e lambança, infantil, capa e ilustrações de Ângelo Roberto.

Ao olhar para trás, sente que valeu a pena ter insistido na literatura?

Viver sem a literatura é impossível, sem a emoção e a razão a vida fica uma farsa.  Se tudo é logro, melhor é sabê-lo. Viver como ficcionista e poeta é transitar com os outros no reino da palavra metamorfoseada, vestido de nossa mentira verdadeira, que provoca o sofredor do ver, também diverte.

 

Fonte: Jornal Tribuna da Bahia, 12/6/2023

https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/escritor-baiano-cyro-de-mattos-vence-premio-internacional-casa-de-las-americas/

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quarta-feira, 7 de junho de 2023

O SIGNIFICADO DA VERDADEIRA FELICIDADE


 



 

 

 

" Eu quero lembrar do seu rosto para que quando eu te encontrar no céu, eu possa te reconhecer e te agradecer mais uma vez. "

 

Quando o bilionário nigeriano Femi Otedeola, em uma entrevista por telefone, foi perguntado pelo apresentador de rádio: "Senhor, o que você se lembra que fez de você o homem mais feliz da vida?"

Femi disse:

 "Passei por quatro estágios de felicidade na vida e finalmente entendi o significado da verdadeira felicidade."

 A primeira etapa era acumular riqueza e meios.  Mas nesta fase eu não consegui a felicidade que eu queria.

 Então veio a segunda etapa de coleta de objetos de valor e itens.  Mas percebi que o efeito dessa coisa também é temporário e o brilho das coisas valiosas não dura muito.

 Então veio a terceira etapa de conseguir grandes projetos.  Foi quando eu detinha 95% do suprimento de diesel na Nigéria e na África.  Eu também era o maior proprietário de navios na África e na Ásia.  Mas mesmo aqui não consegui a felicidade que imaginava.

 A quarta etapa foi quando um amigo meu me pediu para comprar cadeiras de rodas para algumas crianças deficientes.  Apenas cerca de 200 crianças.

 A pedido do amigo, comprei imediatamente as cadeiras de rodas.

 Mas o amigo insistiu que eu fosse com ele e entregasse as cadeiras de rodas para as crianças.  Eu me preparei e fui com ele.

 Lá eu dei essas cadeiras de rodas para essas crianças com minhas próprias mãos.  Eu vi o estranho brilho de felicidade nos rostos dessas crianças.  Eu os vi todos sentados nas cadeiras de rodas, se movimentando e se divertindo.

 Foi como se eles tivessem chegado a um local de piquenique onde estão compartilhando um prêmio acumulado.

 Senti uma alegria REAL dentro de mim.  Quando decidi sair, uma das crianças agarrou minhas pernas.  Tentei soltar minhas pernas suavemente, mas a criança olhou para meu rosto e segurou minhas pernas com força.

 Abaixei-me e perguntei à criança: Precisa de mais alguma coisa?

 A resposta que essa criança me deu não apenas me deixou feliz, mas também mudou completamente minha atitude em relação à vida.  Esta criança disse:

 "Quero lembrar do seu rosto, para que, quando eu o encontrar no céu, possa reconhecê-lo e agradecê-lo mais uma vez."


Pergunto: 

Pelo que você será lembrado depois de deixar essa vida?

Alguém desejará ver seu rosto novamente onde tudo importa?

 

(Recebi via WhatsApp sem menção de autoria)

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sábado, 3 de junho de 2023

Ode à Biblioteca

Marco Lucchesi



Quando meus olhos não falhavam, em noites de impiedosa insônia, eu apontava o telescópio para o céu. Mirava as nebulosas na distância, e o brilho antigo e novo das estrelas. Matéria de abandono, sintaxe e conjunção. Um repertório a cada nebulosa: o trânsito dos astros e o rumor de fundo. Eu colimava lentes, verbo e coração. E me perdia na fuga das galáxias, na espiral da Via-Láctea, reconhecida nas aldeias como Caminho das Antas. Cem bilhões de galáxias e quase o mesmo número de estrelas. Cifra assombrosa, incogitável. E, todavia, estranhamente próxima, se comparada à quantidade de neurônios. Carregamos um céu dentro de nós, o clarão da linguagem e das sinapses. Importa conjugar o transfinito, em patamares cada vez mais altos. E sem perder a humana condição. Lembro o convés do Raposo Tavares, quando subi o rio Negro, rumo a Novo Airão. Provei as extensões do Rio-Babel, a biblioteca viva da Amazônia, acervo do sistema Gaia, palimpsesto de múltiplos extratos (carbonífero e devoniano), a cuja coleção de obras raras correspondem quatrocentos bilhões de árvores. Quem sabe até – senão – o mesmo número de deuses? Estrelas. Árvores. Neurônios. As dimensões possíveis de um sistema. Como quem doma o Caos e faz uma defesa do infinito. Como quem sai do dicionário para a prosa, do arquivo aos metadados. Talvez, assim, a biblioteca de Babel, com alto brilho e densidade, seja a fornalha de uma estrela, volume líquido e gasoso, de livros vegetais e de xamãs, Apolo e Olorum.

Trata-se de um conceito universal, mosaico e labirinto: a geometria de Perec e Osman Lins. Talvez o delírio de Brás Cubas. Livros futuros, imaginários, Bolaño e Rabelais. E livros que podiam ter sido e que não foram. Suportes de papel ou nato-digitais, de verbo e de silêncio revestidos. Estrelas jovens e azuis. Ou mortas, cujo brilho não se apaga. A Biblioteca nasce de outro céu e de outra selva. É marca de um saber plural, sob o rigor da lógica do acréscimo. Lembra o famoso Hotel de Hilbert (do n + 1 às potências de números primos). E se mais mundo houvera, lá chegara. Não há, porém, limite algum. Somente o débito de espaço, pago a longo prazo. O mais do mundo aqui se encontra. A Biblioteca Nacional é dos mais belos ecossistemas do Brasil. Floresta de exemplos, natureza e cultura, memória social, que cada geração buscou guardar. Entre as bibliotecas do Oriente e do Ocidente, do Vaticano ou do Mali, todas subscrevem, sem hesitação, as palavras de Richard Bury: “O tesouro do conhecimento e da sabedoria, a que todos os homens aspiram, por instinto natural, supera em muito todas as riquezas do mundo reunidas; perto dele, as pedras preciosas se degradam, a prata se oxida e o ouro, areia fina, vira lama. Comparado ao seu esplendor, o Sol e a Lua são eclipsados, à sua doçura o sabor do mel e do maná tornam-se amargos”

Viajantes nos limites desse espaço, a bem de todos, para sempre inacabado. A biblioteca vive da soma dos tempos. Nutre-se de uma adição épica. Mais do que eterna, é sempiterna. Antes de ser lugar, é um conceito; antes de ser depósito, um sistema. Onívora, incontida. Seus muros se tornaram transparentes. Capítulo inovador, segundo Darnton, a “biblioteca sem paredes, acessível em toda a parte, contendo a quase totalidade do que se encontra nos acervos da cultura humana.” A Biblioteca Digital é um divisor de águas. Trata-se de uma conquista admirável. Precisamos ampliá-la, criando um robusto centro de dados, um centro de tecnologia da informação e comunicação. Cem milhões de acessos ano passado. A biblioteca é uma assembleia interminável, centro de cultura e difusão, que se renova com os leitores-cidadãos. Não há distância entre leitura e democracia. Não pode haver. A Biblioteca Nacional é um dos maiores bastiões da liberdade. Está no seu DNA, na vocação ecumênica, inimiga da censura, voltada aos metadados. Não admite a pós-verdade. Imune às fake News, Incapaz de rechaçar os próprios dados.

Eclipse do Sol e da Lua. Nosso maior tesouro e capital simbólico chama-se Biblioteca Nacional. A sexta cidade dos livros da Terra. A nossa mais antiga casa de cultura. Eis a razão pela qual a Biblioteca não é órgão de governo, mas de Estado; usa o plural, não se apequena em partes ou fração; não é trincheira ideológica, nem deve promover a parte contra o todo. Seu estatuto é a acolhida. Índices e motores de busca são lentes poderosas, que sondam a máquina do tempo e da leitura. Esta Casa possui 72 quilômetros de prateleiras. Seus hóspedes aumentam dia a dia. Não é pequena a taxa demográfica, que vai além de dez milhões. O mundo dos livros e o livro do mundo coincidem. Modelos de Universo inflacionário. Melhor dizendo: Multiverso. A travessia da Biblioteca é uma viagem terrestre e celeste: nas infovias, mapas e armazéns. Como disse J.L; Borges, bibliotecário de Babel: “Se um eterno viajante atravessasse, em qualquer direção, verificaria ao longo dos séculos que os mesmos volumes se repetem na mesma desordem (que, repetida, seria uma ordem: a Ordem). Minha solidão se alegra com essa elegante esperança.”

Avalista de um horizonte generoso, não fragmenta seu tempo e discurso, não cancela a matéria-prima da alteridade. Não perde o contexto, o pano de fundo informativo, não quebra a comunicação, não abandona uma razão estrutural.

Universo conjuga todos os tempos. A nostalgia do todo não permite desidratar o presente ou sequestrá-lo. Seu algoritmo trabalha a favor da pesquisa e da emancipação. Seu ofício transparente apura o trânsito informático, a pertinência e o valor da esfera pública. Nenhuma concessão à infocracia. Os algoritmos desta Casa possuem uma finalidade virtuosa. Instrumentos de acessos. E de conhecimento radial. Tesauros, ontologias. A Biblioteca não perde seu caráter multicêntrico. Sociedade de iguais, centrada no viés do bem comum, na conjunção da diferença. Não se limita ao curto prazo. Namora a longa duração. O presente infinito não esgota suas forças. O passado distante não é exílio e o futuro pode-se apressar. Projeto de igualdade, construção de paz e saber. O papel do bibliotecário se renova, sempre mais estratégico, num um paradigma aberto, segundo a Bibliotech, de John Palfrey, nova mundivisão e formas de pesquisa. Outros regimes de memória e mídia. A biblioteca anfíbia, virtual e analógica, duplicou as tarefas da preservação. Se antes era a química do papel e o ambiente – umidade, acidez, tinta ferrogálica –, agora são hackers, perda de dados, migração de tecnologia. O delicado olhar entre átomos e bits. Porque o digital não é eterno e imutável. A inteligência do processo deverá contemplar as novas materialidades. A nossa meta é a conquistar do espaço. Mais apetite à fome de guardar. Protocolos internacionais de cooperação. Transmitir o conhecimento entre gerações de profissionais que formam esta Casa. Levar a Biblioteca ao seio da República. Promover seminários nacionais e internacionais, mostras, publicações. Leitura em todos os quadrantes. E recuperar o acervo de obras perdidas.

Tempo de diálogo, com o Brasil e o Sul Global. A delicadeza como princípio ativo. A diplomacia do livro. Ouvir os agentes públicos da Casa, avalistas da memória, embaixadores do futuro. Ativos e aposentados. Permitam citar Zé Basto, cliente da Casa das Palmeiras: “O livro deve entrar no coração”. Frequentei bibliotecas mundo afora. Antes da crise sanitária, fui a aldeias e comunidades, escolas prisionais e terras quilombolas. Dou testemunha do gênio de nosso povo, diante da riqueza das dificuldades e a escassez de recursos. Todos imersos no cosmos – da língua materna, da biblioteca –enquanto organismo vivo, heterodoxo. Continuarei a visitá-los, sempre que possível. O presidente da Casa precisa testemunhar um sentimento solidário e democrático, a partir da república dos livros. A Biblioteca deve ser o espelho do país. Guardar todas as línguas e cosmogonias. Ninguém pode ficar de fora. A Compadecida e Diadorim, Paulo Honório e Policarpo, grafites urbanos e literatura de cordel, Lampião no Inferno e a massa flutuante de esperança. Espelho. Verbo. Imagem. Travessia. Para a terceira ou quarta margem fluvial. Futuro do pretérito e agora do passado, buscando diálogos: Sócrates e Ọ̀rúnmìlà, Isabelle Stengers e Davi Kopenawa. Harpas sonoras do sul.   

Antes do convite da ministra Margareth Menezes, planejava regressar ao Brasil para ficar dois meses navegando no Amazonas, com as gramáticas tikuna e nheengatu. Eu me via entre os volumes da selva, a visitar caciques nas aldeias. E, no entanto, aqui me vejo, na floresta dos livros, na missão de reconstruir o diálogo e o respeito da diversidade. Meu telescópio é o acervo. Essa é a minha constelação, meu atlas celeste. E a partir dessa confederação de luz, abrir um dos capítulos essenciais da história: aperfeiçoar os instrumentos da democracia e reconstrução do país.

 

Discurso de posse na Biblioteca Nacional, 30/05/2023

 

Marco Lucchesi - Sétimo ocupante da cadeira nº 15 da ABL, eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila , foi recebido em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha. Foi eleito Presidente da ABL para o exercício de 2018, 2019, 2020 e 2021.

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segunda-feira, 29 de maio de 2023

Discurso da Gratidão

por Cyro de Mattos

 


Primeiramente minha gratidão a Deus, que me deu a vida. À minha esposa Mariza, meu suporte físico e espiritual durante 50 anos de união conjugal. Aos meus três filhos e seis netos, pelo incentivo.

À confreira Janete Ruiz, que teve a ideia dessa homenagem. À confreira Raquel e ao confrade Wilson pelo apoio. Aos confrades e confreiras que aprovaram a iniciativa generosa, mas penso que outros integrantes desta instituição mereceriam a honraria.

Já vai longe o tempo em que recebi a primeira distinção relevante no meu currículo de vida literária. Foi em 1968, no Rio. Vendi meus livros de Direito do escritório de advocacia, que havia estabelecido aqui em Itabuna, com uma clientela considerável proveniente da área trabalhista, quando então resolvi migrar para o Rio onde seguiria minha carreira literária. Paralelamente, optei pelo jornalismo para sobreviver lá na cidade grande.

O Rio e São Paulo naquela época formavam o tambor cultural do Brasil. Quem quisesse ter repercussão na carreira literária devia migrar cedo para uma das duas metrópoles. Já repórter e redator do Diário de Notícias no Rio, ainda como um moço do interior baiano espantado com a cidade de muita gente e edifícios que altos sinalavam para as nuvens, sentia-me estranho aos meios e costumes da metrópole. Foi aí que tive uma boa surpresa. Conquistava em 1968 o prêmio Internacional Miguel de Cervantes, patrocinado pela Casa dos Quixotes, para autores de língua portuguesa. O conto que me deu o prêmio foi Inocentes e Selvagens. Era a primeira vez que um autor brasileiro conquistava a láurea. Não preciso dizer da alegria.

Vieram outras conquistas literárias e distinções importantes, como foram ressalvadas aqui pela confreira Raquel Rocha. Veio minha entrega

pela progressão e honra de nossa instituição, conforme destacou a confreira Janete Ruiz. A última de nossas conquistas literárias, sem dúvida a mais relevante, se deu recentemente com o Prêmio Literário Casa de las Americas, para o livro Infância com Bicho e Pesadelo e Outras Histórias.

Fico pensando agora como reagiria meu pai Augusto quando soubesse que tinha um filho como autor de 65 livros pessoais publicados no Brasil, 16 no exterior, com vários prêmios de categoria, distinções outorgadas por instituições importantes. Meu pai era um homem iletrado, aprendera a ler e a escrever por esforço próprio. Tudo ele fez com trabalho, esforço e economia para que os filhos fossem gente: o mais velho, José Orlando, se tornasse um médico respeitável, o mais novo, começasse a carreira de advogado nas pegadas de um profissional competente. O irmão mais velho tornou-se um médico de alto valor aqui em Itabuna. Cirurgião elogiado durante décadas de dedicação e amor à Medicina, foi provedor da Santa Casa de Misericórdia com louvores. O filho caçula fora uma decepção para o pai, trocara o certo pelo duvidoso.

O pai disse:

- Você pretende viver nas nuvens, seguindo uma profissão que não existe, não bota comida no prato, aqui na cidade ninguém dá importância a quem vive de escrever livros. – De rosto triste na expressão inconformada concluiu: - Esse negócio de ser escritor só serve pra quem não tem juízo.

Eu observei:

- Meu pai é o que gosto, ser escritor não dá dinheiro nem conceito, reconheço, mas vou seguir o meu destino.

Perguntei-lhe se ele já havia ouvido falar no famoso romancista Jorge Amado, era uma referência para quem quisesse seguir a carreira de escritor.

Ele respondeu que já ouvira falar em Jorge Amado, mas era um caso raro, acrescentando que devemos seguir a regra e não a exceção, onde para se alcançar as metas tudo é mais difícil.

O pai não podia pensar diferente, com o saber que aprendera na escola da vida, queria o melhor para mim.

Certamente hoje, se estivesse aqui comigo, ficaria calado, entre estranho e assustado.

Seria bom, agradável, se ele dissesse:

- Filho eu não sabia que o tempo estava preparando uma boa surpresa pra mim e pra sua mãe Josefina.

O tempo, esse avantajado cavaleiro soberano. Sabe das coisas, conhece os caminhos, dá e toma, tudo bebe e lambe.

Antes de se recolher para se reconfortar no sono, depois de mais um dia de trabalho, gostaria que o meu pai dissesse de voz calma:

- Meu filho, você é um escritor de verdade.

Passados tantos janeiros, entre dias alegres e tristes, estou recebendo neste momento singular distinção como Presidente de Honra da Academia de Letras de Itabuna, instituição com finalidades culturais que ajudei a fundar com um grupo de pessoas sonhadoras. Fico comovido com a iniciativa. Recebo a homenagem como reconhecimento ao meu legado, minha participação na instituição que se tornou um capítulo importante em minha vida.

Por isso mesmo, não vejo outra maneira de agradecer essa homenagem a não ser repetindo o que disse em meu poema de louvor à Academia de Letras de Itabuna e que hoje serve como a letra do hino oficial da instituição.

A cidade contigo conhece

Que a vida não é coisa vã,

É a palavra solta a dizer

A beleza de cada manhã.

Imortal é tua maneira de ser,

Tua luz que nunca se apaga,

Ideal é a página que escreves

Pra voar com as asas da alma.

Tudo vale, tudo anda com Deus,

Que nos deu a razão e a emoção,

O sentido de viver com o amor

Pra dizer o que vem do coração.

O sentido de viver com o amor

Pra dizer o que vem do coração.


Obrigado a todos e a todas por este momento cativante.

*Discurso proferido por Cyro na homenagem que recebeu como Presidente de Honra da Academia de Letras de Itabuna, no auditório do Hospital de Olhos, em 27 de maio de 2023.

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quinta-feira, 25 de maio de 2023

Bicentenários

José Sarney

 


Temos uma tendência a pensar que os anos são bons ou maus, mas, parafraseando Ortega y Gasset, podemos dizer que os anos são os anos e suas circunstâncias. Falei nas últimas semanas de dois bicentenários de nascimento, o do Parlamento brasileiro e o de Gonçalves Dias.

Ali mesmo na velha cidade de Caxias, no Alto Itapicuru, onde nasceu a 10 de agosto o filho de Dona Vicência que seria o maior poeta brasileiro, havia poucos dias - no dia 31 de julho - tinham se rendido as tropas portuguesas comandadas pelo Major Fidié, selando a adesão do Maranhão à Independência. Na verdade, o mercenário Cochrane declarara a adesão feita no dia 28, já que o saque ao patrimônio da cidade, seu real objetivo, era coisa resolvida e não soubesse qual era a situação no interior. Coisa feia para uma coisa tão bonita como o congraçamento dos maranhenses em torno da Independência. Mas mesmo essa paz se arrastaria por mais um bom tempo, pois os portugueses, aqui no Maranhão como em todo o Brasil, eram a plutocracia que, de fato, governava.

Foi o que fez, em abril deste ano de 1823, Cipriano Barata, meio expulso das Cortes de Lisboa - onde era deputado pela Bahia - por seu nativismo e de uma Salvador ainda ocupada pelas tropas de Madeira, passou a publicar, em Recife, a Sentinela da Liberdade na Guarita de Pernambuco. Pernambuco estava numa transição entre a Revolução Pernambucana, de 1817, e a Confederação do Equador, de 1824. O Frei Joaquim do Amor Divino Caneca, que fora preso em 1817 pelo Conde dos Arcos como capitão de guerrilhas sob o comando do Coronel Suassuna, e fora solto em 1821, fazia oposição aos governos do Imperador D. Pedro, embora tivesse celebrado missa de ação de graças pela sua aclamação ao título, em dezembro do ano anterior. A 17 de março de 1823 escrevera uma carta subversiva no Correio do Rio de Janeiro de João Soares Lisboa e a 25 de dezembro começará a escrever a Typhis Pernambucana, folha central na explosão nativista do ano seguinte - quando Recife será bombardeada pelo mesmo mercenário escocês, enquanto o batalhão de José Joaquim de Lima e Silva, com seu sobrinho Luís Alves como ajudante e sob o comando de seu irmão Francisco de Lima e Silva, avança por terra. O tio manda enforcar Frei Caneca - e, como todos se negassem a executar a pena bárbara, o faz arcabuzar.

O futuro Duque estreara no Batalhão do Imperador lutando a 28 de março de 1823. Seu tio traiu logo o comandante mercenário francês Labatut e, no dia 2 de julho, concretizara a adesão da Bahia à Independência, com a expulsão do General Madeira.

Nessa coisa da Independência meu tataravô Manuel de Sousa Martins fora um precursor, proclamando no dia 24 de janeiro de 1823, em Oeiras, a capital do Piauí, a adesão da Província. De lá marchara para Campo Maior - adesão a 2 de fevereiro - onde pouco depois, no dia 13 de março, se travou a grande Batalha do Jenipapo, que o Fidié ganhou e onde perdeu a guerra.

Feio foi o que aconteceu em Belém do Pará. Cochrane foi vitorioso a 15 de agosto. No dia 16 de outubro houve uma revolta contra os portugueses, que continuavam mandando na cidade. Um Grenfell, assecla do escocês, mandou trancar os brasileiros no porão do brigue São José Diligente, onde, aglomerados e sem ar, foram ainda por cima arcabuzados e cobertos de cal viva. No dia 22 eram 252 os mortos sufocados, marcados pelas faces embranquecidas e os olhos e lábios arroxeados como 'com cara de palhaços', nome que passou a denominar o brigue fúnebre.

Mas concluo essas notas de bicentenário lembrando o de uma heroína, Maria Leopoldina, nascida Leopoldina Carolina Josefa de Habsburgo-Lorena, nossa Imperatriz, que no dia 17 de fevereiro deu à luz a princesa Paula do Brasil e em novembro ficou grávida da princesa Francisca do Brasil. Educada com esmero, se interessava sobretudo por botânica e mineralogia - seu amigo José Bonifácio de Andrada e Silva era grande mineralogista e grande botânico. Ela trouxe de Viena uma comitiva de sábios, entre eles Spix e Martius, autores de registros fundamentais de nossas fauna e flora, inclusive o Flora Brasiliensis, que catalogou mais de 22 mil espécimes de mais de dois mil gêneros.

Portal Metrópoles Online , 23/05/2023

https://www.academia.org.br/artigos/bicentenarios

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José Sarney - Sexto ocupante da Cadeira nº 38 da ABL, eleito em 17 de julho de 1980, na sucessão de José Américo de Almeida e recebido em 6 de novembro de 1980 pelo Acadêmico Josué Montello. Recebeu os Acadêmicos Marcos Vinicios Vilaça e Affonso Arinos de Mello Franco.

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quarta-feira, 24 de maio de 2023

O Rio

Cyro de Mattos


 

Nasce de um olho que pulsa na terra. Desce a montanha num fio e encontra o leito, que o espera dormindo no sono milenar da terra. Bebe nuvem, come terra e segue no passo de cobra. Às vezes cai em outro rio, vira réptil enorme com o volume de água que lhe dá mais força. Atravessa a floresta, o deserto e a várzea com seus pastos verdes à margem, povoados de reses.

 Passa a ponte, contorna a vila, avista a cidade. Desce ao largo, sereno, bonito de ser visto. Despede-se das últimas casas na curva. Leva as cores que as borboletas tecem nos barrancos. Os sons das manhãs e tardes na linguagem formada pelos pássaros. Desde não sei quando acontece no seu destino de rio, rumo à sua morada última, onde rapidamente esquece o que era doce. O peixe, o espelho, o murmúrio entre as pedras polidas em carícia de água. Conversas com a lua, cantigas de lavadeira, casos de pescador. Os modos do areeiro com a pá, retirando a areia nos trechos rasos, do aguadeiro que traz a água boa e pura. Quando encontra o mar, o rio esquece bichos como a lontra e o jacaré, que abocanham o peixe, apurando a fome num estilo irado. Esquece até mesmo a pancada formosa. O vento, o sol, a chuva, seus eternos companheiros de viagem.

 Areia, pedra, peixe: tão água. Rio-mar de tão grande. Falo do rio Amazonas, como não poderia deixar de ser. Se for de águas negras o ano inteiro, refiro-me ao rio Negro. Se deixar a terra fresca nas margens, depois da enchente, certamente é o Nilo no milagre que faz surgir tantas lavouras para as populações ribeirinhas. Se for pequeno, transborda nas cheias, traz árvore, bicho grande morto, submerge casas. E assusta.

Os seres humanos sempre tiveram atração pela água, que é fundamental à sobrevivência. As grandes civilizações surgiram às margens de rios, citando-se aqui o Tigre e Eufrates, o Nilo, o Yangtse-Kiang. Cidades importantes brasileiras ficam às margens de rios: São Paulo, Porto Alegre, Recife, Aracaju, Belém e Manaus. Itabuna, chão de meu nascimento, também nasceu às margens do rio Cachoeira, que divide a cidade em duas partes.

Rio que inspira poetas e prosadores. Os sinais visíveis da escrita escorrem por caminhos de água e aos poucos vão erguendo um mundo. Não tem rio que se compare com aquele que banha nossa infância. Veja o que nos diz Fernando Pessoa, o genial poeta português, nesses versos: “O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, / Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia/ Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia...” Quer dizer assim o poeta que o Tejo desce da Espanha, entra no mar de Portugal, “toda a gente sabe isso”, mas ninguém tem conhecimento do rio que passa na aldeia do poeta. Porque menos conhecido, pertencendo a menos gente, “é mais livre e maior o rio de minha aldeia”, observa. O rio de Fernando Pessoa, como o Cachoeira, “não faz pensar em nada. Quem está ao pé dele está só ao pé dele.”, a navegar com gentes, coisas, num calendário que emerge de sentimento e pensamento. Soletra manhãs e noites por meio da palavra chamada saudade, essa janela íntima que as criaturas humanas gostam de abrir em seu estar no mundo.

 O homem cumpre cuidar o mundo em que vive, mas não é isso o que se vê há muito tempo. Não se toca com o que desfaz em pouco instante, ceifando aquilo que a natureza demorou anos para fazer com saber e arte. Uma lástima. É comum ver agora o rio agonizando, morrendo de sede, como a dizer: viver assim não vale a pena, ao invés do amor que dou, tanta morte me trazem. E dizer que qualquer rio só quer viver saudável, em perfeito entendimento com a natureza. Não como o rio de minha terra, que há anos chora água em sua descida triste. Nem de longe parece o rio de minha infância. De tão viscoso agora, com os detritos despejados por bocas de vômitos, de dia e de noite.

A mãe natureza dá poderes ao homem, fazendo da vida uma aliança proveitosa, que se renova nas estações, entre o despontar dos verdes e a colheita dos maduros. Na minha infância lembro das canoas que os pescadores traziam carregadas de peixe. Mas a natureza cobra um preço alto quando é maltratada. Não perdoa aquele que a fere sem hesitar um minuto.

 O homem vem desprezando a terra com nascentes puríssimas, afugentando as nuvens derramadeiras de chuva com a derrubada das matas. Na sua aptidão de disseminar a escuridão das coisas, prefere apertar com as mãos neutras a goela das águas. No cortejo que ofende a muitos, como se nada de mais estivesse acontecendo, continua fora do rio que brilha no raso e guarda tesouros no fundo.

 Numa capacidade incrível de persistir dentro da bruma.

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Cyro de Mattos
é escritor de contos, crônicas, romance, poemas, literatura infantojuvenil, ensaio e memorialista. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Possui prêmios literários importantes. Também é editado no exterior.

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quarta-feira, 17 de maio de 2023

Desviados da ternura

Cyro de Mattos



Dor é vida, sofremos porque vivemos, li no poeta Jorge de Lima. A vida torna-se leve quando habitada com amor. Há milênios que as religiões estão tentando mostrar ao ser humano que só o amor constrói. Braço ao abraço a rota fica mais fácil. Há milênios, nós os humanos estamos construindo a história de nossa condição com intolerâncias, violência, egoísmo, traição, infâmia, em atestado absurdo, quase sem fim, do quanto gostamos de cultivar o ódio, fazer uso da farsa e vaidade, escrever a vida às avessas. Desviados da ternura, mais para urubu do que para curió. O que sabe hoje o nosso pobre coração humano de Deus? Do enigma, da dor e do amor?

Essa lição fácil, dar alpiste aos desvalidos, injustiçados, pássaros tristes com as penas doídas, o filho unigênito de Deus, aquele homem de coração solidário, pleno de amor, ensinou no dia a dia. Por onde andou o seu coração foi para dizer que Deus existe. Podemos senti-lo na flor do coração. Basta amar o outro. A flor do coração sente-se em outros que em afeto se juntam. O semeador de esperança, curador de enfermidades, vencedor da morte, o que abriu as portas da esperança, o bem amado salvador da humanidade, no país dos que elegiam a vida sustentada com os valores materiais, em que o ouro e a prata ocupavam a primazia, disseminava que como cantiga plantada na ciranda do deserto a morada neste planeta se faz possível com todas as mãos numa só comunhão.

Ghandy lembra que a cada dia a natureza produz o suficiente para nossas carências. Se cada um de nós tomasse o que lhe fosse necessário, não haveria pobreza no mundo. Ninguém morreria de fome. O genial Charles Chaplin fala do caminho da vida com beleza e liberdade. Lamenta que tenha ocorrido o desvio da ternura. Ressalta que a inveja, o ciúme e a cobiça envenenaram a alma dos homens, ergueram muralhas de ódio no mundo, fazendo-nos marchar a passos de ganso para a miséria e horror dos morticínios.

Gostava de oferecer um abraço de bom coração a qualquer um quando percorria a cidade, em seu rito de amar o próximo como se fosse a si mesmo. Em linguagem simples, com amenidade de nuvem, dizia que todos nós somos missionários. Consistia a prática em doar-se ao outro, semear o amor entre os excluídos de uma vida digna, muitos deles sem saber a razão da fome e sede. Ele assim prosseguia sereno, ao mesmo tempo que era o pai, o filho, o irmão.

Homem que doou a vida ao outro como a maior prova de amor.  Um libertador para os enfermos e possuídos do mal. O que foi enviado para ser crucificado como resultado da bondade que a todos ofertou. O que no último gemido ainda pediu ao Pai eterno que nos perdoasse, não sabíamos o que estávamos fazendo com o Amor.

 

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Cyro de Mattos é ficcionista, poeta e ensaísta

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