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terça-feira, 31 de janeiro de 2023

Entre 90 e 190

Ignácio de Loyola Brandão

 


Mil Yanomami subnutridos, mais 700 mil mortos pela covid. Não é genocídio?

Difícil não foi ter descoberto a doença, mas sim ter dado com ela tardiamente, obrigando-me a mudar rotinas, vícios, hábitos aos 86 anos. Principalmente vícios, manias. Dizem que tudo se ajeita com boa vontade. Apontem um ser humano que tenha a noção absoluta de boa vontade. Ou não acredito na humanidade?

Agora, com a diabete, ou o diabetes - acho pernóstico este modo de dizer - tive de me adaptar a um aparelhinho que fica grudado em mim, a fim de

medir os níveis de glicemia. O médico me deu os limites considerados normais e recomendou a medição pela manhã, antes do almoço, antes do jantar, no final da noite. Ao menos nos primeiros tempos. Os amigos Vera e Márcio, garantiram ser uma tranquilidade, pode-se viver uma vida normal com diabete. O que é vida normal? Aquele aparelho grudado em minha pele é um dedo-duro do bem. Mudou meu ritmo. E virou vício. Todos lemos livros distópicos em que seres humanos são controlados pela tecnologia. Assim me considero vivendo, comandado por um pequeno círculo, quase uma tatuagem.

Tomei um suco. Pode? Levo o sensor ao braço, 111. Posso. Alívio. Como um lanche na padaria com pão branco. O sensor acusa 176. Epa! Próximo ao limite de 190 que o doutor Ophir recomendou.

Doce? Passo longe. Nunca mais comi doce de leite de Viçosa, doce de abóbora ou batata doce de lanchonete de estrada, manjar branco com calda, pão de ló, bolo de rolo que a Maria Eduarda Brennand me manda do Recife, cocada branca. Foi comer e o sensor bater no 240 e tantos. Paniquei.

Como este sensor é caro, uso dois por mês, recorro a outro mais barato, que me pica o dedo, transfiro o sangue para uma plaquinha que revela o Índice. Entre um e outro há sempre uma diferença. O do sangue é sempre mais alto. E. . . ?

Vivo na gangorra. Medi, deu 78, ameaça de hipoglicemia, desmaio, como uma barrinha. Outra vez, deu 65, pavor, comi um chocolatinho. Normalizou. Poder comer para combatera hipoglicemia devia me dar prazer. Ao contrário, angustia. Mas este mundo é louco mesmo. Nunca mais comi massa, o que adoro, principalmente um Carbonara. Numa revolta, outro dia comi. Bebi duas taças de vinho. Depois medi. 122. Impossível. Desconfiei do reloginho. Não se pode viver desconfiado. Troquei o aparelho. Igual. Consulto ene vezes por dia, mas vivo bem. Sonho com números, 132, 176, 192, 214, 98, 76, 149 - aliás dá tanto 149, que não sei explicar. Nem são números para apostar na Mega Sena. Números.

Lembrei-me de O Homem Que Calculava, de Malba Tahan, ainda um livro curioso. Ele era feliz. Só estou feliz entre 90 e 190. Mas, e se der pane no aparelho. . . ? Mas estou vivo, e bem. Reclamar do quê?

O Estado de S. Paulo, 29/01/2023

 

https://www.academia.org.br/artigos/entre-90-e-190

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Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.


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segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

TREM VAZIO PASSANDO APÓS SAIR DA DESVIADA GANHANDO VELOCIDADE NA SUBIDA ...

Na Onda do Carnaval

Cyro de Mattos


 

             Onda humana que se movimenta com vibração incontida. Elimina-se a repressão, a solidão e a tristeza. A vida sob a pulsação rotineira dá lugar à liberdade de atitudes eróticas e críticas. O Rei Momo instaura o reinado da alegria, decreta que as formas usuais do viver sejam substituídas pelo mundo do sonho. O tom maior da euforia manifesta-se em ladeiras, praças e becos, em torno do reinado da alegria o preto torna-se branco, o masculino vira feminino, o pobre igual ao rico.

           O Carnaval no Rio de Janeiro não é o mesmo de Olinda, Recife, Salvador e outras cidades brasileiras. Conservando o elemento comum que os une, a participação coletiva que se extravasa na maior felicidade, o Carnaval no Rio tem na escola de samba sua marca pessoal. Na ópera popular, a se exibir na passarela do asfalto, sobressaem passistas, ritmistas, fantasias, carros alegóricos, samba-enredo, bateria com um grande número de figurantes, alas de baiana e comissões de frente. Figurações diversas que, em sua feição de cores e luxo, impressionam vivamente e deslumbram a quem assiste. A vida dança ritmos ardentes, solta desvairadas vibrações de corpo, cantos e prazeres numa maravilhosa ventura em torno do sonho. Em Olinda e Recife, bonecos gigantescos arrastam multidões sob o ritmo rápido do frevo. Passistas improvisam uma coreografia individual e frenética.

          Ao fechar o banco, o escritório, a indústria, o comércio, o Carnaval é sempre o mesmo. Com a sua máquina de fazer alegria, inventar o êxtase e o riso varre as formas de viver do mundo rotineiro, trazendo os ventos da utopia para empurrar a onda humana que canta e pula na avenida. Em Salvador, com ou sem turista, dinheiro ou sem dinheiro, vibra na tanga do índio, na mortalha suada da moça, vocifera, trepida ao som do trio elétrico, mexe, remexe sob a nova dinâmica dos ritmos negros, suaviza a vida quando passa numa onda mística com o bloco “Filhos de Ghandy”. Serve de extroversão a milhares de pessoas e de fuga aos que preferem à casa de praia ou de campo.

          Na quarta-feira de cinzas, quando o coral frenético silencia, o carnaval oferece a muitas pessoas uma oportunidade de ganhar o sustento nessa incrível arte da sobrevivência. Muitos nesse Brasil tropical e carnavalesco estão a postos para limpar o lixo da euforia.

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 Cyro de Mattos é escritor e poeta. Membro Titular da Academia de Letras da Bahia e do Pen Clube do Brasil. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz.

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sábado, 28 de janeiro de 2023

PP, PL e Republicanos formalizam bloco de apoio a Marinho no Senado

Supremo: uma proposta

José Paulo Cavalcanti

 


O que fazer para retomar mínimos de funcionalidade no Supremo?, eis a questão. Antes de seguir no tema é preciso recusar, veementemente, proposta (que vem sendo apresentada por alguns grupos) de fechar o órgão, recorrendo à força, o que nenhum espírito democrático deve admitir. Pois nada pode ser pior que a volta da Ditadura?

O primeiro problema (entre muitos) do Supremo Tribunal Federal é o excesso de processos. As Cortes Constitucionais importantes do Primeiro Mundo têm números entre si próximos e muito diferentes dos nossos. Nas últimas estatísticas anuais disponíveis julgaram, Estados Unidos, 80 casos; França, 80; Inglaterra, 82; Alemanha, 90. No Canadá, a Suprema Corte se reúne em janeiro, abril e outubro, para julgar apenas causas revestidas de 'public importance' ? segundo Gentili (Protective Rights in a Worldwide Rights Culture), na faixa de 60 por ano. Enquanto nós tivemos, apenas em 2022, o total de 89.738 casos julgados, ainda com um estoque de 21.899 processos em tramitação - segundo o CNJ, números agora de dezembro. É insensato.

Outro problema sério é que, por conta deste cenário, o Supremo acaba com seus Ministros decidindo (quase) sempre sozinhos. Não se trata de algo transitório, que possa vir a se ajustar com o tempo. Medidas paliativas até vem sendo tentadas; como anúncio feito neste fim de ano pela presidente do Supremo, Rosa Weber, de que vai editar Emenda Regimental estabelecendo limites temporais à permanência de processos com vista para Ministros. Além de outras medidas. Não vai resolver, perdão. Que se trata de algo mais profundo, estrutural. Veja-se a última estatística que divulgou o Supremo, em fins de 2020, com 81.356 decisões monocráticas em 99.569 processos julgados. Quase o mesmo dos anos anteriores. São números pantagruélicos. Inaceitáveis.

Pior é que o Supremo deseja ir ainda mais longe. Faz pouco, por exemplo, via ofício encaminhado a todos os tribunais, recomendou que, nos feitos representativos de controvérsia, ainda que se vislumbre questão meramente infraconstitucional, seja admitido o Recurso Extraordinário. A fim de permitir o pronunciamento do Supremo sobre a existência, ou não, de matéria constitucional em cada caso. Eventualmente, de repercussão geral.

Fosse pouco, há também outros problemas. Como o espiral de um poder supremo que passou a habitar o mais íntimo dos Ministros, convertendo o tribunal a ser um conglomerado formado por 11 capitanias hereditárias independentes, com cada Ministro decidindo o que quiser, como quiser e sem nenhum limite. Até invadindo, e faz isso cada vez mais, a competência privativa dos outros poderes. Num crescendo. Virou regra. Com todos protegidos pelo corporativismo, onde nenhum Ministro admite questionar decisões dos demais. Garantindo, assim, que suas próprias decisões também não o sejam.

Mas o que fazer para retomar mínimos de funcionalidade no Supremo?, eis a questão. Antes de seguir no tema é preciso recusar, veementemente, proposta (que vem sendo apresentada por alguns grupos) de fechar o órgão, recorrendo à força, o que nenhum espírito democrático deve admitir. Pois nada pode ser pior que a volta da Ditadura. A questão, então, é buscar uma solução adequada, madura e democrática, para o Brasil de hoje. E o curioso é que ela existe ? fazer com que o Supremo seja semelhante a todas as demais cortes constitucionais. Simples assim. O que nos remete somente a dois pontos que deveriam ser alterados:

O Supremo passa a ser apenas uma Corte Constitucional. Como os demais tribunais similares, no mundo. Julgando menos casos, por deixar de ser instância revisora de outros tribunais. Convertido em uma Corte assim, última instância das causas infraconstitucionais passa a ser o STJ. Inclusive nos Habeas Corpus. Com enormes vantagens para o funcionamento da Justiça, no país. Inclusive reduzindo uma instância, para início do cumprimento das penas. E, sobretudo, tornando mais rápidos os processos. Permitindo que o Supremo passe a se ocupar apenas da Constituição, função típica de uma Corte Constitucional. Não mais serão aceitas decisões monocráticas, no Supremo. Para lembrar, ditas decisões monocráticas, em tribunais constitucionais como os que conhecemos no mundo, simplesmente não existem. Só no Brasil. Nesse campo, cumpre apenas lembrar um ponto que vale a pena explicar. Nos Estados Unidos e na Grã Bretanha, em situações de extrema gravidade, quando não esteja reunida a corte, até pode um ministro decidir. Mas essa decisão fica suspensa, requerendo seja convocado o plenário, em regime de urgência, para deliberar a respeito. E, para valer, a maioria (ou a totalidade) da Corte deve aprovar. Ninguém decide sozinho, pois, essa é a regra de ouro com todos os tribunais (menos em nosso Supremo). Por não fazer sentido, numa Democracia moderna, tanto poder concentrado em apenas uma pessoa. Devendo as decisões serem todas, sempre, coletivas. Não de um Ministro, apenas, mas do tribunal.

Agora, em 2023, teremos um novo Congresso. E mudanças como essas aqui propostas, para funcionar, requerem apenas alteração da Constituição (PEC). Com vontade política, pode ser feita sem maiores problemas. Ainda quando os poderosos Ministros do Supremo não gostem, e tentem trazer para seu curul (aquela poltrona em que sentam) alguns partidos políticos que se acostumaram a lhes usar nas suas demandas. Que, contra egos, o interesse coletivo deve prevalecer.

Em resumo, pode ser feita. E deve. Por ser o melhor, para nosso Brasil.

FERNANDO LYRA, ministro da Justiça. Essa historinha foi contada pelo próprio. E segue agora porque tem relação com o momento atual do Brasil, com levas de pretendentes (nem sempre qualificados) a cargos públicos. Nomeado presidente da Fundação Joaquim Nabuco, já no dia seguinte à posse o presidente do PT de Pernambuco foi visitá-lo. Trazia, com ele, relação de 77 sindicalistas que deveriam ocupar todos os 77 cargos em comissão da FUNDAJ. Político experiente, o amigo Lyra concordou. E, dia seguinte, mandou especificações para cada um dos cargos pretendidos. A partir dos nomes que ele próprio escolhera, para cada um desses cargos. Só um exemplo, no mais cobiçado (por ser o de maior remuneração):

- Para Museólogo Chefe é necessário: 1. Ser formado em museologia. 2. Ter mestrado. 3. Ter doutorado, de preferência em Paris. 4. Ter, pelo menos, 8 anos de estágio no Museu do Vaticano.

E por aí foi, com todos os outros cargos. Uma semana depois, nada, e ele mandou esse bilhete:

- Como ainda não indicaram os companheiros, vou nomear ocupantes provisórios. Só até chegar as indicações de vocês.

Resultado, acabou sua gestão e nenhum dos cabos eleitorais da relação original chegou a ser nomeado. Saudades de um tempo em que a política, longe da selvageria de hoje, ainda se fazia com engenho e arte.

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P.S. : A todos e cada um desejo um futuro esplendoroso. Feliz Ano Novo, pois. E agora os netos, o 'mar salgado' (Pessoa, em Mensagem), a rede e os livros me esperam. Razão pela qual encerro, por breve tempo, essa participação aqui. Para voltar a escrever só depois do Carnaval, se Deus quiser.

Site Chumbo Gordo, 30/12/2022

 

https://www.academia.org.br/artigos/supremo-uma-proposta

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José Paulo Cavalcanti - Nono ocupante da Cadeira nº 39 da ABL, eleito em 25 de novembro de 2021, na sucessão de Marco Maciel e recebido em 10 de junho de 2022 pelo Acadêmico Domício Proença Filho.

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Senador Rogério Marinho se levanta contra tirania de Moraes e faz discur...

MICHELLE RÁPIDA QUE NEM RÁIO.