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domingo, 1 de janeiro de 2023

O foguete e o teto

José Sarney



Quando eu era Governador, o Brigadeiro Délio Jardim de Matos deu-me uma notícia que aumentou a minha taquicardia e encheu de esperanças todo o Maranhão. A FAB estava escolhendo o local para erguer uma nova base capaz de lançar foguetes, para não termos somente uma - Barreira do Inferno, no Rio Grande do Norte -, pequena e limitada. Atendia também ao provérbio popular: 'Quem tem uma não tem nenhuma'. Entre os lugares em estudo estavam o Município de Amapá, no então Território do Amapá. Entre os outros sítios aparecia Alcântara, com grandes possibilidades. Coloquei então o meu esforço de lobista em ação e fiz tudo para que o Maranhão fosse escolhido. Verificados os dados técnicos, assim aconteceu. Íamos ter uma base com tecnologia capaz de competir com o mundo, por sua localização muito próxima da linha do Equador, no lançamento de foguetes e satélites. Disputaríamos todas as possibilidades da indústria espacial, inclusive a de participar da construção da rede mundial de comunicações. Nada de motivos bélicos.

Consolidada a escolha, dei todo o apoio para sua construção. Quando Presidente da República acompanhei ali o lançamento do pequeno foguete meteorológico que deu início às operações da Base de Alcântara. O Maranhão encheu-se de esperança de novas possibilidades de progresso. Em São José dos Campos iniciou-se o projeto ambicioso de um sistema autônomo, com base de lançamentos, vetores - foguetes - e satélites construídos no laboratório que tive a satisfação de construir nesse polo científico. Assinei também com a China um acordo de parceria na área.

Muitos anos depois acompanhei a tragédia da explosão do nosso foguete num acidente de lançamento, com a perda dos artefatos e dos melhores recursos humanos na área.

Agora, com uma nova janela de oportunidades aberta pela Base, a alugamos para que ali fosse lançado um foguete suborbital da Coréia do Sul. Estava marcada a empreitada para o dia 17 de dezembro, no solstício de verão, o mesmo dia em que a PEC do teto de gastos ia ser votada, resolvendo o problema do orçamento de dois governos inconciliáveis, o de Lula e o de Bolsonaro.

Levantei-me às cinco horas da manhã e às seis horas eu, minha mulher e os empregados estávamos na varanda de nosso apartamento, binóculos prontos, para ver o foguete subir. Soube depois que a orla mar estava também cheia de curiosos como nós. Às seis horas o coração batia forte e os olhos em Alcântara esperavam a contagem regressiva. Nada. Todos diziam 'Vamos esperar'. 'Será às seis e meia.' Nada. E o foguete não subiu. Eu quis compensar minha frustração esperando a votação da PEC com os 600 reais para o Bolsa Família, marcada para as nove horas. Esperei. Nada.

A Base de Alcântara avisou que o foguete não subiu por um defeito numa válvula. O Sr. Deputado Lyra avisou que a PEC não foi votada por um defeito de conversa em que faltou um diálogo de garganta, mas no dia seguinte seria votada. Fiz a ligação: o foguete vai subir.

Dia 18 repete-se o mesmo cerimonial. Levanto-me, espero que a válvula esteja up to date. Seis horas e nada. A Base avisa que houve um problema de ignição.

Estamos realmente numa fase de ignição. Os nervos à flor da pele, deputada mata marido, deputada corre pelas ruas de arma na mão e vai para o país das armas, enquanto nós ficamos com o foguete parado, e os nossos pobres do Bolsa Família colocam água no feijão.

Nem o Natal arrefece os ânimos. Amaral Eletrônico, um assessor de comunicação e inventor nas horas vagas me vem à memória. Ele fundou um 'instituto de física' e descobriu que a bomba atômica não foi desenvolvida em Los Alamos, mas no Brasil por um fogueteiro pernambucano, fabricante de foguetes de rabo de bambu, que soltou um que arrombou um bairro inteiro do Recife. Os americanos mandaram sequestrar o homem e daí resultaram as tragédias de Hiroshima e Nagasaki.

É assim que o mundo está funcionando: uma válvula e a chave de ignição do foguete da Coréia não sobe; os pobres do Bolsa Família tiveram que esperar até a última hora para que as válvulas das línguas que movimentam o Congresso entrassem em acordo.

Bom mesmo era o Severino Fogueteiro, morador do bairro de Santo Inácio, em Pinheiro, que tinha este slogan de seus foguetes de bambu e papel velho: 'Foguete? Só sobe no Inácio Fogueteiro.' Só chamando o Severino para resolver diálogo e foguete coreano.

Os Divergentes, 27/12/2022

 https://www.academia.org.br/artigos/o-foguete-e-o-teto

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José Sarney - Sexto ocupante da Cadeira nº 38, eleito em 17 de julho de 1980, na sucessão de José Américo de Almeida e recebido em 6 de novembro de 1980 pelo Acadêmico Josué Montello. Recebeu os Acadêmicos Marcos Vinicios Vilaça e Affonso Arinos de Mello Franco.

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sábado, 31 de dezembro de 2022

Pelé, Pelé, Pelé

Cyro de Mattos              



O sonho no verde,  

um trunfo no tapete,

em solos da bola

de gênio a jogada.

                 

Em forma sonora

pelos pés antevê

o que é ser divino

no gol de placa.

 

Maracanã, Fonte Nova,

Mário Pessoa, os palcos

 em que me vi perplexo  

com a bola encantada.

 

Olhe o que ele apronta,

até o sol sorri, até a lua,

toda ela iluminada, vem

oferecer rosas de prata.

 

O piso apesar do buraco,

Pelé é Pelé, não importa,

a vida na bola que rola

tanto canta como baila,  

 

Os melhores sentidos

Quando há um rei mágico

Não têm incompletude,

A vida se faz de beleza rara.  

 


* Cyro de Mattos
é poeta e ficcionista. Detentor de prêmios literários importantes e, entre eles, o Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras, Associação dos Críticos Literários de São Paulo, Nacional de Poesia Ribeiro Couto (UBE-RJ), Internacional Maestrale Marengo d’Oro, Itália, duas vezes, Menção Honrosa do Jabuti, Nacional Pen Clube do Brasil e Nacional Cidade de Manaus. Publicado em oito idiomas.

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segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

Nélida

José Sarney


 

A morte de Nélida Piñón é para mim um golpe pessoal, tão estreita era a nossa amizade e tão profunda a admiração que lhe tinha. A conheci quando ainda estreávamos, eu tentando conciliar vocação e destino e ela com os passos largos que a fizeram rapidamente uma das maiores romancistas da língua portuguesa.

Não é preciso fazer um apanhado de sua obra colossal. Baste lembrar os reconhecimentos com nomes que dizem tudo: Juan Rulfo, Rosalía de Castro e Cervantes; ou que ganhou o maior prêmio da literatura espanhola. Sua obra expande-se do romance à memória, do conto ao ensaio, mas mantém-se vinculada a sua natureza de quase-migrante que a manteve brasileira, mas não a desfez galega, e ao seu profundo amor pela literatura.

Convivemos tantos anos… Sempre encarou a vida de frente, com suas circunstâncias, para citar Ortega y Gasset, sempre tirando delas as lições que sabiamente nos passava em sua obra.

Despedimo-nos dela, Marly e eu, com profunda tristeza, sabendo que deixa um imenso vazio na literatura hispano-americana — seu espaço era maior que o da literatura brasileira —, na Academia Brasileira de Letras e no nosso território afetivo. Saudade imensa!

Portal da ABL, 19/12/2022

 

https://www.academia.org.br/artigos/nelida

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José Sarney - Sexto ocupante da Cadeira nº 38 da ABL, eleito em 17 de julho de 1980, na sucessão de José Américo de Almeida e recebido em 6 de novembro de 1980 pelo Acadêmico Josué Montello. Recebeu os Acadêmicos Marcos Vinicios Vilaça e Affonso Arinos de Mello Franco.

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domingo, 25 de dezembro de 2022

Eu creio nessa manhã

Cyro de Mattos


 (Querido amigo Alfredo Com o poema do anexo, lembrando o querido amigo,  venho desejar-lhe um Natal de paz, saúde, alegria com poesia.

Abraço afetivo. Cyro )



Por que os homens

Amam a droga

E não da abelha

Os favos de mel?

 

Por que os homens

Amam as balas

E não a paz

Sem nenhum fuzil?

 

Por que os homens

Só enxergam o chão

E não a estrela

Em seus caminhos?

 

Por que os homens

Perfuram a rosa

Com a ponta aguda

E mais dura do espinho?

 

Viver amargos, sozinhos,

Viver nos escombros,

Viver na vida desigual,

É do que os homens gostam?

 

Mas eu creio nessa manhã

Anunciada pelo menino

Nascido na manjedoura.

No brilho dessa estrela                     

Espalhando o amor no chão.

 

Eu gosto de ouvir nesta hora

Essa canção que me afaga

Falando duma união geral,

Que viver vale a pena

Quando a vida é uma dança.

 

Com os homens como irmãos

No doce fruto da ternura,

No doce fruto da alegria

Sorrindo como criança.

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Cyro de Mattos - Cyro de Mattos é escritor e poeta. Membro Titular da Academia de Letras da Bahia e do Pen Clube do Brasil. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Um dos idealizadores da Academia de Letras de Itabuna (ALITA).

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Os sonhos de Nélida

Arnaldo Niskier



Foi uma amizade de muitos anos. É grande, pois, a dor sentida pela perda da escritora Nélida Piñon, que faleceu em Portugal, aos 85 anos de vida.

Tive o privilégio de ser o seu vice-presidente, na ABL, em 1997. Quantas ideias criativas e generosas, na primeira gestão de uma mulher à frente da Casa de Machado de Assis. Lembro que as bem sucedidas visitas guiadas nasceram da sua imaginação. E muitas outras profícuas iniciativas.

Autora consagrada de 'A República dos Sonhos', Nélida escreveu mais de 20 livros, todos com bela repercussão inclusive internacional. Doou ao seu amado Instituto Cervantes mais de 7 mil livros e documentos. Hoje, enriquece um belíssimo acervo que fica no bairro de Botafogo.

Ela foi uma intransigente defensora dos direitos humanos, especialmente das mulheres e dos negros. Escreveu sistematicamente sobre isso.

E amou seus cachorrinhos, o primeiro dos quais foi o famoso pinscher Gravetinho Piñon e, depois, vieram a pinscher Susy e a chihuahua Pilara Piñon, com os quais, inclusive, viajou para diversos países. Sua cultura era um poderoso misto de galego e português.

Fomos amigos por mais de 30 anos. Ela era formada em jornalismo pela PUC-Rio, com obras espalhadas por cerca de 30 países. Carioca, teve também um grande apreço pela sua descendência espanhola. Costumava se pintar antes de se apresentar e vestir sua melhor roupa. Era um ritual que sempre respeitava, com toda solenidade. Foi uma escritora de vários estilos, como demonstrou no seu clássico 'Vozes do deserto'. Sua paixão pela literatura veio desde cedo. E, assim, ganhou o Prêmio Príncipe de Astúrias, além de dois Prêmios Jabuti.

Pode-se registrar na sua rica biografia uma amizade relevante com famosos escritores como Gabriel Garcia Marques e Mário Vargas Llosa, com os quais costumava sempre se corresponder. Dizia que 'os livros nasceram pra viajar'. E ela ia com eles, espalhando suas ideias pelo mundo.

A perda de Nélida Piñon não é sentida apenas pela ABL, mas pelo país de um modo geral, pois ela foi uma figura muito querida. Sempre demonstrou solidariedade com os que sofrem, especialmente em nosso país.

Site Chumbo Gordo, 23/12/2022

 

https://www.academia.org.br/artigos/os-sonhos-de-nelida

 

Arnaldo Niskier - Sétimo ocupante da Cadeira nº 18 da ABL, eleito em 22 de março de 1984, na sucessão de Peregrino Júnior e recebido em 17 de setembro de 1984 pela acadêmica Rachel de Queiroz. Recebeu os acadêmicos Murilo Melo Filho, Carlos Heitor Cony e Paulo Coelho. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 1998 e 1999

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sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

Saudação de Final de Ano - Mensagem do Comandante do Exército Brasileiro

A Zanga e o Sorriso de Papai Noel

                               Cyro de Mattos



Barba branca, cabelos compridos, brilhantes, sedosos. Botas pretas, folgadas, cetim vistoso encarnado no vermelho.
Sorriso, abraço, ritual de arminho inocente, peito venturoso em carícia do velhinho bondoso.  
Saco enorme de brinquedos. Véspera de Natal, o shopping com suas ondas de gente, vindo pra cá, indo pra lá. Escadas rolantes, subindo, descendo. 
A cidade inteira em festa.
Guardador de ternas surpresas, a criançada em volta.
Foto, sorriso gordo, magia branca de velho pacífico.
Sorria, meu bom velhinho, sorria.
O que está acontecendo?
Nada de sorrir. Cansado do mesmo gesto, todos os anos.
Alegria para os outros, para ele não, nada de prometerem um presente para fazê-lo sorrir.
Aprisionado o célebre sorriso, rô, rô, rô...
Sem dar o abraço fraterno, aquecer o pequeno coração.
Rosto abraçado ao rancor.
Uma criança teve medo. Outra chorou. Teve uma que fugiu estabanada.
Até que uma chegou junto. Deu-lhe um abraço, fervoroso.  Um beijo.
Disse:
- Feliz Natal, Papai Noel!
Comovido. Olhos azuis aguados.
Como num berço quente.
Abraçou uma a uma.
Tirou fotos, sorriso sereno.
Rô, rô, rô...
O Natal com cheiro de estábulo.
Retomado nos ares cativantes.
Sorridentes. Festivos.  

 

Cyro de Mattos é ficcionista e poeta. Membro titular da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz.

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