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quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

FLOR DA NOITE - Catulo da Paixão Cearense






É NOITE. Na guarapeira

de João Boiada, um vaqueiro,

(uns bebendo, outros fumando...)

agora estão palestrando:

 

um caçador, um campeiro,

um tangerino, um menino,

e um afamado assassino

de nome – Juca Pampeiro.

 

Todos tinham combinado,

n ‘um episódio qualquer,

contar um trecho da vida,

do presente ou do passado,

mas onde entrasse a mulher.

 

JOÃO BOIADA

(Vaqueiro)

 

Para que vocês me pedem

que eu fale do meu passado,

que nada de mais contém?

 

Sou filho de um boiadeiro

das bandas de Macarém.

 

Fale um outro que quiser,

porque só há neste mundo

para mim, uma mulher.

 

Essa mulher adorada

é minha e chama-se Rosa.

 

Rosa, que foi bonitinha,

Rosa, por quem floresci,

foi a mais bela vaquinha

que encontrei entre a boiada

de toda essa caboclada

do sertão em que nasci.

 

Rosa é mãe de nove filhos.

 

Se é rosa um tanto murchada,

inda é rosa e há de ser sempre

rosa, e nada mais que rosa,

rosa murcha, mas cheirosa,

rosa sempre perfumada,

rosa que me coube em sorte,

rosa até depois da morte,

embora rosa esfolhada.

 

Somos um: não somos dois.

 

O mundo p‘ra mim consiste

nesta Rosa, esta roseira,

no roseiral dos meus filhos

e neste rosal de bois.

 

Minha história aqui findou.

 

Aqui ou lá no outro mundo,

se é que Deus já me escutou,

eu hei de ver os meus netos,

meus filhos e meus bisnetos,

vaqueiros, tal qual eu sou.

 

Agora tem a palavra

o Campeiro Zé Maria.

 

 

ZÉ MARIA

(Campeiro)

 

Sou natural da Bahia,

dessa terra abençoada,

que é terra de outro campeiro,

do Ruy, esse cavaleiro,

que com a palavra enfeitiça

a humanidade assombrada,

e campeando o mundo inteiro,

como um Peão da Justiça,

leva a Deus, que é o Fazendeiro,

a rês que anda tresmalhada.

 

.........................................

.........................................

.........................................

 

Não conheço o sofrimento

que tem por causa a mulher.

Ame lá quem bem quiser.

 

Neste mundo malfadado,

Deus não fez coisa melhor

que correr atrás do gado.

 

Mulher é a nossa desgraça!

 

Mulher é como a cachaça,

que é em toda parte encontrada!

 

Mas quanto custa encontrar

um batedor de gemada

pra se poder campear?

 

João Boiada: o teu prazer

é só cuidar da boiada

e dos teus, que é a tua Graça!

 

Minha glória é a vaquejada!

 

Meu sonho é uma musicada

num touro novo de raça.

 

Assim vocês me desculpem,

se da mulher não lhes falo.

 

Não há mulher, por mais pura,

que possa ter a candura

do coração de um cavalo.

 

Fale agora o caçador...

 

 

MANUEL COCO

(Caçador)

 

Antes de falar do amor,

digo a vocês que é basteira

a gente andar na carreira,

se estrepando nos espinhos

dos matagais do sertão,

para dar uma mussica

na cauda de um barbatão.

 

Eu só combato de frente!

 

Tanto mato uma serpente,

uma onça impertinente,

como um simples tamatião.

 

Quanto saber é preciso

para cortar num instantinho,

o gorjear de um passarinho,

com um tiro, que, ao mesmo tempo,

destrua o dono e o seu ninho!

 

O espoucar de uma espingarda

leve e boa, como esta,

alegra toda a floresta.

 

Eu juro pelo tinhoso

e Deus, que nos céus está,

que o estrondar de uma garrucha

tem muito mais harmonia

do que a voz de um sabiá!

 

Sou viúvo de uma serrana,

a quem tive muito amor!

Mas a vida soberana,

a vida de um caçador,

não dá tréguas para um homem

preocupar-se com a dor.

 

Inda hoje, meus amigos,

com um tiro cá da comadre,

matei um tamanduá,

um parari, um bauá

e, de quebra, um canguçu.

 

E já que falei em tiro,

atiro agora palavra

pra cima do Brejaú.

 

 

LEOPOLDO BREJAÚ

(Cangaceiro)

 

Sou caçador, como tu,

mas só mato os racionais!

 

Tu matas, porque és ingrato,

os pobres dos animais,

que são os donos do mato.

 

Manuel Coco, é ser cruel,

é ter alma de covarde,

atirar num jumará,

que está saudando a manhã,

e matar uma anaquan,

a sonhadora da tarde!

 

O caçador é um malvado!

 

Eu mato somente o homem,

porque o homem, Manuel Coco,

é o bicho mais desgraçado.

 

Sou cangaceiro!... Que importa!

 

A virtude é coisa morta!...

 

Só a mulher nos conforta!...

 

Eu já tenho no costado

para mais de vinte crimes,

mas não quero que se atente

contra a honra das mulheres,

que as mulheres, Manuel Coco,

são as coisas mais sublimes.

 

Talvez leve a vida inteira

sem ter uma companheira,

porque esta vida guerreira

não deixa que me enraíze

muito tempo num lugar.

 

Mas, se um dia eu me casar,

só há de ser com a Marocas,

a morena mais catita

que anda cá nestas bibocas.

 

Sustente agora o motivo

o seu Vicente Canela.

 

 

VICENTE CANELA

(Freteiro)

 

Falarei, sem mais aquela.

 

Tenho noventa e seis anos e até hoje seis mulheres enterrei!!

 

Minha primeira consorte,

cuja morte inda lamento,

me deu tanto sofrimento,

que quase me sepultou!...

 

Mas o tinhoso a levou.

 

A segunda... (oh!!... a segunda!)

foi a mulher mais ciumenta

que Deus no mundo encarnou...

 

Era um anjo de maldade,

uma fera de bondade,

e foi talvez só por isso

que o demônio a carregou.

 

A terceira... Eu lhes confesso:

era perversa e era boa!

 

Mais mansa que uma leoa,

depois de quatro semanas

de casada, foi-se embora

e nunca mais me tornou!

 

A quarta, a Chica Fumaça,

era uma punga de raça!...

Cria de um senhor de Engenho,

foi a minha tentação!

 

Amava-me com paixão!...

 

Mas tinha uma adoração

por uma santa: - a cachaça!

 

A quinta, a Zefa Bodinha,

era viva, engraçadinha,

e feia! Porque negar?

 

Mais mansa que uma criança,

nunca vi mulher mais mansa,

mais mansa pra namorar!

 

Para salvar minha honra,

quantos homens, meus amigos,

não teria de matar?!

 

A  minha sexta mulher

(quem me dera!... oh! Quem me dera!)

era também outra fera,

mas muito bem educada!

 

Sentindo algum azedume,

a fera tinha um perfume

que eu nunca vi neste mundo

numa flor mais perfumada!

 

A mulher não vale nada,

quando não cheira a ciúme!

 

Eu, com vaidade, lhes digo

que aqui neste pobre lombo

já levei muita tronchada,

mas apanhei com bravura.

 

Das águas que nós bebemos,

qual a mais fresca, a mais pura?

É a que nasce porejada

do ventre da pedra dura.

 

Seis mulheres enterrei!...

 

Mas inda não me emendei!

 

Sou noivo, amigos, sabei!

 

A minha noiva é formosa!

É a cabocla mais sestrosa

de toda esta redondela!

 

Ela há de ser meu coveiro

ou eu o coveiro dela,

ou não sou mais o freteiro,

o seu Vicente Canela.

 

Agora vamos ouvir-te,

Mata Brava, ó lenhador!

 

 

MATA BRAVA

(Lenhador)

 

Pois falarei, sim, senhor.

 

Se há glória em vencer um touro,

depois de no chão prostrá-lo;

 

se, montado num cavalo,

conduzir uma boiada

é uma bela e nobre ação;

 

se matar um cidadão

é uma vitória genial;

 

se é mostrar grande coragem

sangrar agora uma onça

e, depois, um cardeal...

 

eu lhes pergunto o que vale

este meu braço possante,

que vence uma perobeira,

qualquer árvore gigante,

só com um ferro, um ferro assim,

como este velho machado,

que repousa ao pé de mim?

 

Só é grande, meus amigos,

quem Deus já grande fizer.

 

Mas... sim... Antes que me esqueça,

eu vou dizer, num momento,

o que penso da mulher.

 

Não creio nem sou incréu...

 

Falo como um tabaréu...

 

Mas acho que todo homem

que casa com a formosura,

tem de cair na esparrela.

 

Ai daquele que procura

amor, na mulher que é bela!

 

Essa cabocla, a Gertrudes,

cabocla dos meus cuidados,

(pois já fez trinta e seis anos

que nós dois somos casados...)

é feia! Ninguém a quer!

 

Mas eu amo essa mulher,

que, por ser feia, é só minha!...

a mulher feia é rainha!

 

A formosura subjuga

e ruge em nossa cabeça,

como um tremendo tufão!

 

A fealdade é formosa,

 é serena, é caridosa

e vive no coração!

 

A mulher quanto mais bela

tanto mais é cobiçada!

 

Poderá ser incensada,

adulada e requestada,

vaidosamente adorada,

mas amada?... Isso é que não!

 

A beleza é uma ilusão!...

 

E eu penso não ser preciso

dizer-vos porque razão.

 

Graças a Deus, seu Vicente,

a minha feia Gertrudes

não tem mais do que um senhor!

 

A noite vai refrescando

e aquela estrela apontando

para o seu Pedro Carreiro,

parece que tem um gesto

um tanto provocador.

 

Ouçamos Pedro Carreiro,

que deve ser traquejado

nas meninices do amor.

 

 

PEDRO CARREIRO

(Carreiro)

 

Porque vens sangrar-me o peito,

Mata Brava, ó lenhador?!

 

A mulher feia ou formosa,

para mim não tem valor.

 

Tudo é carne, meus amigos!...

E a carne veio do barro!...

 

Minha mulher é meu carro

 

Como eu não toco viola,

quando me vou de viagem,

cantando com os meus boizinhos,

ele vai me acompanhando

com os guinchos pelos caminhos.

 

Os guinchos do seu mancar

são muito mais comoventes

que os cantos dos passarinhos!

 

Não há homem cá na terra

que seja mais venturoso

com uma mulher a seu lado,

do que um carreiro, orgulhoso,

quando conduz, presunçoso,

o seu carro idolatrado.

 

Para quem nasceu carreiro,

todo carro é uma mulher,

e o carreiro – um namorado!

 

Meus senhores, eu lhes juro

que nunca no coração,

nem mesmo quando era jovem,

eu senti o beijo impuro

de qualquer uma ambição.

 

Mas.. digo de coração:

se algum dia eu fosse dono

de incalculável tesouro,

mandava fazer um carro,

todo de ouro, todo de ouro!...

 

Não por vaidades banais,

mas para enche-lo de frutas,

macaxeiras e batatas,

jerimuns, canas, bananas,

de todas essas verduras

colhidas nos meus roçais,

e andar com meu carro de ouro

pelas ricas Avenidas,

dando isso tudo à pobreza

das gentes das Capitais.

 

E basta! Não digo mais.

 

A mulher!?... Ora!... A mulher!

 

Que pensas tu, Pamperino,

dessa feroz jararaca?

 

JUCA PAMPERINO

(Criminoso)

 

 

É que não há neste mundo

mulher que velha uma faca!

 

Meu pai foi o assassino

de nome mais celebrado.

 

Foi também assassinado.

 

Morreu velho, com cem anos,

mas sempre triunfador.

 

Meu avô era um caboclo

valente e duro de umbigo

e que só tinha prazer,

quando encarava o perigo.

 

A todos que o respeitassem,

tratava com cortesia,

mas quem lhe fizesse  alguma,

pagava no mesmo dia.

 

Meus irmãos: a humanidade

nunca teve coração!

 

Deus, que fez todo o animal,

lhe dando à luz da razão,

só negou esse condão

ao homem, - rei da criação,

e à mulher, que é racional,

só por isso, meus amigos:

- por se ter feito rainha

do grande rei bestalhão!!

 

Eu não nasci para amar!...

 

Eu nasci para matar!

 

E, contudo, sou cristão,

pois mato por devoção!

 

Se não me engano, umas dez,

ou, talvez, doze mulheres

já dormem sono profundo

nos carcavões do outro mundo,

porque delas me enfadei.

 

Amigos, meu coração

é desta pernambucana,

que eu amo e sempre amarei!

 

Nessas correntes de palha

do Amor, o grande canalha,

jamais eu me acorrentei!

 

Quando vejo uma chinoca

querer fazer-me um vencido,

para, depois de iludido,

motejar do meu sofrer,

varejo-lhe a mão na boca,

arranco-lhe o coração

e dou aos cães pra comer!

 

Eu nunca matei um bicho

só por prazer bestial,

mas vocês não imaginam

meu prazer, minha alegria,

quando enterro a ponta fria

do meu dengoso punhal,

do meu punhal de assassino,

num coração feminino,

que é fonte de todo o mal.

 

Toda a paixão é funesta!

 

Amor, sem sangue, não presta!

 

Amor? É com o Tangerino,

ali, com aquele menino,

que anda sempre apaixonado,

a cantar, atrás do gado,

constantemente a sonhar!

 

CHICO TANGERINO

(Tangerino)

 

Seu Pamperino!... Eu respeito

o seu modo de pensar.

 

Agora, não me crimine,

se eu lhe disser, francamente,

que eu só nasci para amar.

 

O senhor diz que as mulheres

nasceram predestinadas

para morrer à facadas!

 

E, as mulheres, para mim,

são criaturas celestes,

são fadas abençoadas.

 

O homem de coração

não melindra uma mulher,

porque a mulher é divina!

Se a mulher não tem juízo,

é que a mulher, inda velha,

continua a ser menina!

 

Eu amo uma cafuzinha,

uma flor tão formosinha,

como o senhor nunca viu.

 

É filha de Mecejana...

 

Sua avó é uma serrana,

que lá para aquelas bandas

por muito tempo floriu.

 

Eu não sei se será minha!...

 

Mas já fiz uma promessa

à Virgem Santa das Dores,

que é minha boa madrinha.

 

Já me disseram maldosos

que ela gosta de um mocinho

de nome – Antonio Mangaba,

que é muito rico e formoso,

e que vive a tanger porcos

lá pra os sertões de Aguapaba.

 

Não sei que será de mim!

 

Mas se eu souber algum dia

que a mulher que é minha eleita

vive alegre e satisfeita

por ser muito bem casada,

pedirei à Santa Virgem,

que vive por muitos anos

com o tangedor da porcada.

 

Fale agora o Zé Mateus,

esse aclamado ancião,

que já tem mais de cem anos,

que foi o maior sambeiro

das festas deste sertão.

 

ZÉ MATEUS

(Sambador)

 

Fui sambador, Tangerino!

 Fui sambador, meu menino!

E sambador sem rivais!

 

Estas pernas, hoje bambas,

foram rainhas de sambas,

em noites que não vêm mais.

 

Que importa que os cantadores

cantassem lá seus amores

nos seus pinhos gemedores

e nas violas “cruéis”,

se eu, debaixo destas solas,

trazia duas violas,

a soluçar nos meus pés?!

 

Ai, noites de São João!

 

Noites do Santo dos Santos!

 

Alma das cordas e cantos

e das fogueiras do amor!

Mãe dos abraços e beijos,

dos inocentes desejos

dos foliões sertanejos

e deste teu sambador!

 

Foi n’uma das tuas noites

que eu vi a Chica dos Patos,

que era a fada destes matos,

- a terra natal de Deus!

 

A Chica que está tão feia!

 

Ela que era uma sereia!

E é hoje a minha candeia,

mãe dos doze filhos meus!

 

Foi n’uma das tuas noites,

das tuas noites gloriosas,

quando, n’um monte de rosas,

com estes pés beijava o chão,

que eu perdi, n’uma umbigada,

(vinha rompendo a alvorada!)

peito e alma e coração!

 

(Como se perde, São João,

meu São João, meu santo amigo,

o pobre do coração

n’uma pancada de umbigo?!)

 

Tudo passa neste mundo!

 

Só a saudade é que fica!

 

Coitada da pobre Chica!

 

Com que dor vejo os seus olhos,

pela idade emurchecidos,

seus cabelos branquecidos,

seus braços encarquilhados!

 

E aqueles frutos do seio,

que já foram tão viçosos,

e que parecem, saudosos,

dois ninhos abandonados!

 

Amigos! Sejamos francos!

 

Viver de cabelos brancos,

a relembrar o passado,

que inda morto, nos conforta,

pode ter muita poesia,

mas é sentir a agonia

da mocidade, já morta!

 

Mocidade... Ó mocidade!

Tu me deixaste!... És ingrata!

Eu tanto por ti chorei,

tanto por ti solucei,

que, afinal, me conformei

com a velhice, a enfermidade,

que lentamente me mata!

 

Agora, o que me maltrata,

não és tu! Mas a saudade 

de ti, minha mocidade!

Esta saudade infinita!

 

Esta serpente maldita,

que se enrosca dentro d’alma,

só para roubar a calma

de um pobre velho vencido,

pela angústia encanecido,

com as suas forças quebradas

e um par de pernas inchadas,

que mal se podem mover,

pernas que já não são minhas,

mas que já foram rainhas,

e já fizeram, vaidosas,

muitas morenas dengosas,

muitas caboclas mimosas

por elas endoidecer!!

 

Mas, não!! Saudade bendita!

 

Não me deixes! Ressuscita

os meus triunfos de amores

daqueles sambas de então,

em que estes pés sedutores,

hoje tão cheios de dores,

já foram dois beija-flores,

voejando sobre o papogo

das rosas embraseadas

dessas roseiras de fogo,

dessas rosadas fogueiras

das noites de São João!

 

Amigos!... Por caridade,

demos um “morra” à Velhice

e outro “morra” à Enfermidade,

essas duas cascavéis,

e afinem vossas violas,

vossas violas revéis,

gritando todos comigo,

para que a dor nos conforte:

Viva a Vida e morra a Morte,

e bebamos, recordando

o tempo dos seresteiros,

em que, eu, o rei dos sambeiros,

rodopiando nos terreiros

das choças dos menestréis,

trazia, n’um pé de alferes,

a alma inteira do samba,

a ternura das violas,

a inspiração dos violeiros,

e o coração das mulheres,

debaixo destes meus pés!!!

 

Sim! Cantemos a saudade,

pois que tanto bem nos quer!

 

Mas, agora, meus senhores,

quem vai falar da mulher

é o grande rei dos cantores,

Flor da Noite!... O Trovador!

 

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Dada a palavra ao violeiro

pelo grande sambador,

no recanto do terreiro

abriu as flores cheirosas

um cheiroso jasmineiro.

 

Até parece que Deus,

que a prima também consola,

para escutar a viola

tinha descido dos céus!

 

Pela sua descensão,

um galo de voz castiça

rezou a primeira missa

no grande altar do sertão.

 

Tudo em silêncio ficou!...

 

Foi quando o rei dos violeiros,

com a viola levantando,

foi a garganta afinando

pelo gemido da prima,

e pelo canto do galo,

que n’um soluço vibrou.

 

E foram estes os versos

que o caboclo improvisou:

 

“Não sei se posso dizer-vos,

com todo o ardor e paixão,

os versos que eu sinto agora

palpitando na sonora

viola do coração.

 

Vou consultar a vontade

desta de pinho – a Senhora,

que, às vezes, quer e outras vezes,

voluntariosa, não quer!

 

Não lhe estranho esses caprichos,

porque a viola é uma mulher.

 

O céu, todo rendilhado,

de estrela apavonado,

agora que a terra dorme

nestas horas mais desertas,

parece as asas abertas

de uma borboleta enorme,

voando em busca de Deus!

 

Pois bem: ouvi-me o que eu penso

dos homens e das mulheres,

nestes simples versos meus.

 

“Q sol é homem! É firme!

A lua é mulher – Varia!

O sol tem sangue de fogo!

A lua, calma e dolente,

tem sangue de gelo!... É fria!

 

De manhã, heroicamente,

vibrando um canto de guerra,

na crista daquela serra,

vê-se o sol enrubescer!

 

E a lua, com os seus caprichos,

que anda sempre com as estrelas

comadreando em cochichos,

não tem hora de nascer!

 

Finda a missão da jornada,

o sol, à hora aprazada,

vai-se numa apoteose

de azul e de rosicler!

 

A lua, sempre aluada,

sempre e sempre irrefletida,

não tem hora de partida!

Segundo a sua nevrose,

vai-se embora, quando quer!

 

O sol, que é o sol, (sempre o mesmo!)

na severa austeridade,

como o emblema da verdade,

caminha com impavidez!

 

A lua, se é hoje inteira,

amanhã vem por metade,

e, assim, vai escasseando...

vai minguando... vai minguando...,

até sumir-se de vez!

 

O sol fecunda as sementes

com os jorros incandescentes

dos raios embraseados!

 

A lua, essa alcoviteira,

só fecunda a sementeira

dos corações namorados!

 

O sol, sempre obediente

às ordens do Onipotente,

(com toda a sua energia),

nunca teve a ousadia,

de invadir a uma só noite

as plagas celestiais!

 

Mas quem já não viu a lua

deixar a noite, que é sua,

para andar no céu de dia,

desrespeitando a harmonia

das próprias leis naturais?!

 

Mesmo em nuvens empanado,

o sol, másculo e fecundo,

desde o princípio do mundo,

não deixou de iluminá-lo

com o facho do seu clarão!

 

A lua, se tem vontade,

nos brinda com a claridade,

para depois, sem piedade,

deixar-nos noites e noites

em completa escuridão!

 

                ----------

 

Mas se o sol, o sol radioso,

se o sol é um pão luminoso,

um cérebro em combustão,

a lua magnificente

há de ser, eternamente,

a hóstia do coração.

 

Se o sol morre combatendo,

em sangue rubro fervendo,

no meio de um fogaréu,

a lua sempre falece

rezando triste uma prece

e com saudades do céu!

 

O sol, desde que alvorece,

chama os grandes lutadores

para viver e lutar!...

 

A lua, quando anoitece,

surgindo em seus resplendores,

vai chamando os sonhadores

para com ela sonhar!

 

O sol, em perpétuo anseio,

sem escrúpulo, sem receio,

com a sua luz vigorosa,

com o seu fulgor requeimante,

descobre tudo o que é feio

e tudo que é repugnante!...

 

A lua, mais caridosa,

com a sua doce meiguice,

com a sua alma nazarena

e o coração lacrimal,

consola toda velhice,

toda lágrima queixosa,

porque é mulher e tem pena

da miséria universal!

 

Se o rei do dia, acordando,

abre a corola dos ninhos,

despertando os passarinhos,

para fazê-los cantar,

quando a rainha da noite

perlustra as plagas sidéreas,

remexe até nas artérias

do cérebro azul do mar!

 

Desde o instante em que transmonta,

sem repousar um momento,

a mourejar, solitário,

o sol, o eterno operário,

vai varrendo o firmamento

das infindas amplidões,

para, depois, vir a lua,

 rodeada de escravas de ouro,

ostentar todo o tesouro

das suas constelações!

 

O sol, que é o pai das queimadas,

das plantas carbonizadas

faz as grandes adubadas,

para com o sangue das cinzas

reverdecer o sertão!

 

Depois é que vem a lua,

como irmã de caridade,

com o seu óleo de piedade,

refrescar as queimaduras

da pobre vegetação.

 

O sol, o químico eterno,

que todos nós veneramos,

faz da terra, que habitamos,

um grande laboratório,

para a vida eternizar:

mas basta que a lua esponte

e os círios de ouro estelares

acenda nos seus altares,

onde começa a rezar,

 para que logo transforme

o céu, n’um zimbório enorme,

o espaço, n’um templo augusto,

e a Terra, n’um grande altar.

 

Mas para dizer-vos tudo

o que me vem à lembrança,

 nestes versos que improviso,

segundo a vossa vontade,

eu vos direi, finalmente,

que o sol é sempre a Esperança,

e a lua é sempre a Saudade!”

 

         ***

 

Nesse instante, muito longe,

na crista verde da serra,

o azul do céu desmaiou!

 

Um galo alegre e saudoso,

batendo as asas, nervoso,

no seu clarim, clarinou!

 

Então o rei dos cantores,

com os olhos postos ao longe,

refinando a garganta

pela nota cristalina

do galo que além cantou,

 

“Companheiros”, exclamou:

 

“É a lua que se anuncia!

É a noiva do rei do dia!

A Sagrada Eucaristia

da mulher, Mãe de Jesus,

porque ela é o seio da noite

que nutrifica as saudades

de todas as orfandades,

com o leite da sua luz!

 

E para que fique eterna

a Saudade desta noite,

desta palestra assistida

pela presença de Deus,

como o velho Zé Mateus,

para que a dor nos conforte,

 

afinem vossas violas,

a Jesus Cristo louvemos,

e n’um só grito, gritemos:

Viva a Vida e morra a Morte.”

 

Quando o verso derradeiro

saiu do peito altaneiro

de Flor da Noite, o violeiro,

ao terminar a canção,

houve uma salva de palmas

de todas aquelas almas,

vibrantes de comoção,

porque, meigamente nua,

vinha despontando a lua,

em plena ressurreição!!

 

(POEMAS BRAVIOS)

Catulo da Paixão Cearense


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“Catulo Cearense é a flor máxima da flora sertaneja. A sua obra é obra de arte e não de artifício. Não é a poesia anônima dos quadros do sertão, , onde a beleza é um relâmpago fugitivo. O seu livro é essa beleza captada, acarinhada, penetrada. É o relâmpago prisioneiro, pelas páginas em fora, como uma esteira de luz.”

                                                         

Amoroso Lima - Tristão de Athayde

(da Academia de Letras)


* * *

domingo, 4 de dezembro de 2022

ENCONTRO DE ESCRITORES NA PENÍNSULA DE MARAÚ

 Mario de Lima, produtor do encontro


Debater o livro e a leitura tem se tornado uma prática comum na Bahia, colocando o estado de uma vez por todas na rota dos eventos nacionais literários. Sem fugir a esta tendência, o distrito de Barra Grande, na península de Maraú, na Bahia, se prepara para um encontro de escritores, ponto inicial da futura festa das letras no paraíso baiano. Nos dias 8, 9 e 10 de dezembro, em Barra Grande, ocorrerá o primeiro Encontro de escritores que reunirá importantes nomes da literatura baiana. Confirmaram presença: Állex Leilla, João Filho, Wladimir Saldanha, Herculano Assis, Heitor Brasileiro, Pawlo Cidade, Gustavo Felicíssimo, Mario de Lima e Santiago Fontoura. Para Mario de Lima, um dos curadores do evento, "o livro é um farol fincado nos sonhos projetando luz e sabedoria sobre a realidade do leitor. Encontros e festas literárias possibilitam isso”.

O evento acontecerá no espaço multicultural Morada do Saber, em Barra Grande, e contará com oficinas de contos e poesia, feira de livros, show musicais e rodas de conversa com participação interativa da plateia do início ao fim do debate, diferente das mesas comuns de discussão em nesses encontros. Acompanhe a programação.

 

PROGRAMAÇÃO

DIA 8 DE DEZEMBRO (QUINTA)

18h — Palestra de abertura com o poeta João Filho.

Tema: A influência do modernismo na poesia brasileira contemporânea;

19h30 — Coquetel de abertura e recepção dos participantes com fala inspiradora de Mario de Lima, escritor e morador de Maraú, seguido do lançamento do seu novo livro: Será o Benedito? Cantos de liberdade no Vale do Cricaré.

20h — Apresentação musical com o Duo + um Samba

 

DIA 9 DE DEZEMBRO (SEXTA)

9h — Oficina de criação literária. Tema: HAICAI.

Duração: 3 horas.

Facilitador: Gustavo Felicíssimo, haijin e editor da Mondrongo;

18h — Debate com os poetas João Filho e Wladimir Saldanha

Tema: O novo underground estético na poesia

Seguido do lançamento dos novos livros dos autores

19h30 — Bate-papo com os escritores Állex Leilla e Pawlo Cidade.

Seguido do lançamento dos novos livros de ambos

DIA 10 DE DEZEMBRO (SÁBADO)

9h — Continuação da Oficina de criação literária e conclusão com a apresentação dos haicais produzidos durante a atividade; 

18h — Debate: O modernismo na poesia de Sosígenes Costa

Com Heitor Brasileiro Filho e Herculano Assis

19h30 — Sarau aberto com participação dos convidados e de toda a comunidade, incluindo recital com os haicais produzidos na oficina de criação literária;

20h30 — Encerramento.


Mais informações pela página do evento no Instagram @FliMaraú

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sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

Os labirintos de Jorge Luís Borges

Cyro de Mattos

 


                 As metáforas de teor metafísico em Borges soam soberbas e nos deixam perplexos. Não é por acaso que no poema “Cambridge” afirma: “Somos nossa memória. Somos esse quimérico museu de formas inconstantes, esse montão de espelhos rotos.” Foi como também viu a nossa condição na vida o magistral poeta Fernando Pessoa, ao dizer que sonhar era saber essa ilusão nos reinos espectrais do tempo.

              O é, o foi e o será perduram em Borges por entre inúmeros labirintos. Em Buenos Aires quando segue caminhando, sentindo nas esquinas o hoje tão lento e o ontem tão breve, nessas esquinas “sem por que nem quando”.  Perscruta assim, entre a alba e a noite, esta história universal, sem esperar que “o rigor desse caminho, que teimosamente se bifurca em outro, tenha fim.” Em “El Aleph”, a história que acompanhamos abre o caminho de um novo tipo de literatura, do fantástico, do enredo que vai sendo devorado pelos labirintos da imaginação. Assim posto em cena labiríntica o plano fictício e ao mesmo tempo real de “El Aleph”, o microcosmos dos alquimistas e dos cabalistas consiste em um dos pontos do espaço que contém todos os pontos. Aqui, o personagem encontra esse lugar onde se encontram, sem se confundirem, todos os lugares do mundo, vistos de todos os ângulos.  

            No conto “Pierre Menard, autor do Quixote”, Borges imagina a história do homem que não queria compor outro Quixote, não pretendia conceber uma transcrição do original nem se propunha a copiá-lo. Sua soberba ambição era escrever O Quixote, páginas que coincidissem, palavra por palavra, linha por linha, com as de Miguel de Cervantes. Em “O Jardim dos caminhos que se dividem”, ele traça uma extensa adivinha ou parábola com o tempo, sendo talvez este para a crítica dos contos mais ricos escritos por Borges. Trata-se de história que espanta e encanta, pela dualidade em que se encontram a morte e o tempo.  Somente no último parágrafo o leitor pode achar a chave dessa ficção na forma tortuosa em que é executada.

            Em “O imortal”, o tema tratado agora é o da imortalidade dos homens. Borges foca a situação do homem que sempre procura fugir da morte, após o nascimento. Basta estar vivo para morrer a cada instante, pensa o homem. Nessa história impressionante, exercida com linguagem enigmática, percorre-se os labirintos do tempo e do espaço na tentativa de encontrar a cidade dos imortais, que de tão distante só existe na imaginação humana. Essa cidade, com sua arquitetura pródiga em simetrias, ainda que localizada no centro de um deserto desconhecido, enquanto existir ninguém no mundo poderá ser corajoso e feliz.  É tão horrível que a sua presença confunde o passado e o futuro.

            Borges a concebe, como um amontoado de palavras complexas, um  corpo de tigre ou de touro, onde pulularam monstruosamente, conjugando-se e odiando-se, dentes, órgãos e cabeças, podem (talvez) ser imagens aproximadas.

            Há quem afirme que o escritor só deve escrever sobre o que conhece, viu e viveu.  Essa maneira de postular o literário não se aplica a Jorge Luís Borges, o mais literário dos escritores, o que escreveu e imaginou o mundo como resultado do que leu e, logo depois que ficou cego em definitivo, enxergou como poucos seus caminhos metafísicos, sob o rigor do pensamento e da simetria. Tornou-se por isso mesmo um bruxo impressionante, que inventava com maestria enredos labirínticos e mitologias metafísicas, sem ter conhecido fisicamente a paisagem humana e a realidade objeto da sua escrita. E, assim, lendo e vendo com a alma, imaginando seus mundos criativos, num estilo sóbrio, passou a ser visto ele próprio como sinônimo de literatura, aquele que nos lega na poesia, no conto e no ensaio um universo fantástico, insólito e transcendente.

            A literatura esteve sempre na sua alma, soube isso desde o início, como um destino a cumprir. Aos seis anos comunicou à família que queria ser escritor. O menino fora muito cedo iniciado na leitura pela mãe, criatura adorável, que o incentivava a viver intelectualmente no mundo das letras. Na biblioteca do pai havia descoberto os livros, esse mundo fantástico das histórias fabulosas onde iria passar a vida toda. Em idade precoce começou a redigir os primeiros textos, um conto ao modo de Cervantes e um ensaio sobre mitologia clássica.

            Foi no ano em que começou a Primeira Guerra Mundial que a família de Borges viajou para a Europa. Em Genebra faz os estudos superiores, na Espanha participa de saraus e publica poemas em revistas espanholas. Quando regressa a Buenos Aires, encontra uma cidade diferente, que o encanta e o inspira para escrever os seus textos labirínticos, de temas metafísicos. Condenado à cegueira, que vinha gradualmente afetando-o, desde a infância, não viu nela nada de especialmente patético ou dramático. Submeteu-se a oito operações e, nesse ocaso gradativo, ficou cego desde os fins de 1950 para a leitura e a escrita.  Nessa oportunidade havia escrito o “Poema das Dádivas” e já era diretor da Biblioteca Nacional. Comentou então da esplêndida ironia que Deus reservou para ele, concedendo-lhe oitocentos mil livros e a escuridão.

            Condenado à cegueira por herança paterna, o poeta e prosador que especulou sobre “o livro dos livros”, observando que não sabe se existe ou se é sonhado por Deus, lança-nos, em labirintos poéticos arquitetados de luzes e sombras, histórias fabulosas com galerias de espelhos onde ele explora o tema da dupla identidade. Jorge Luís Borges é o “fazedor” de outra dimensão da literatura, enredada no imprevisível, distante do previsível operado pelos realistas com os elementos da exterioridade circunstante, em que os dados da objetividade são transpostos para o texto, dando ao ficcionista uma feição de copiador literário.

            É um fazedor de literatura no melhor sentido, com textos extremamente criativos na direção de contos maravilhosos, ditados pelo pensamento e com uma imaginação prodigiosa. Falou-nos de um homem, “que se propõe fazer uma pintura do universo. Depois de muitos anos, cobriu uma parede nua com imagens de navios, torres, cavalos, armas e homens, só para descobrir, no momento de sua morte, que desenhara um retrato de seu próprio rosto.”

            Labiríntica, como nesse personagem, é a natureza da literatura de Jorge Luís Borges, alimentada e respirada em todos os livros que havia lido. Ele sempre viu a literatura como forma de conhecimento do mundo, fundamental como o amanhecer. Se não resolve os problemas cruciais da vida, como certa vez declarou, só com ela e sua linguagem que salva é que podemos atravessar o nosso lado noturno e alcançar o dia. 

             Por tantas qualidades excepcionais de um fino e instigante ficcionista, não se pode deixar de considerar o que, no final do longo artigo “Uma História do Conto”, dosado com humor, importantes sinalizações sobre o gênero e seus melhores autores, o escritor Guilhermo Cabrera Infante acentua a respeito dos contos excepcionais de Jorge Luís Borges:

             Foi Borges quem disse de Quevedo que não era um escritor, mas uma literatura. Com maior justiça se pode dizer o mesmo de Borges. Ele sozinho, em sua remota Buenos Aires, que depois dele sempre está perto, aqui ao lado, virando a página, Borges sozinho fez do conto toda uma literatura e até mais, uma teoria literária. Não preciso citar nenhum título, pois vocês conhecem todos. Mas são contos não para ler, e sim para reler, recordar, memorizar e sempre nos assombrar. Não só com sua cultura e seu humor, mas também com sua arte narrativa. 


Leituras Sugeridas 

FERREIRA, Serafim. Jorge Luís Borges, coletânea, Editorial Presença, Lisboa, 1965.

JOSEF, Bela. História da literatura hispano-americana, Editora Vozes, Petrópolis, RJ, 1971.

CERQUEIRA, Dorine. América América: amostragem da ficção hispano atual, Editus, editora da UESC, Ilhéus, 2011.

BORGES, Jorge Luís. Entrevista em A história é amarela, coletânea, Editora Abril, São Paulo, 2017.

INFANTE, Guilhermo Cabrera. Uma história do conto, “Folha de São Paulo”, 30 de dezembro de 2001.

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Cyro de Mattos é ficcionista e poeta. Também editado no exterior. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa da UESC.

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domingo, 27 de novembro de 2022

🔴Agora a pouco Movimentação no Rio de Janeiro

 Raquel

 Cyro de Mattos

 


          É uma criatura afável, que sorri com prazer quando o assunto é literatura, em especial poesia. Comunicadora social de mão cheia. Integra o corpo de membros efetivos da Academia de Letras de Itabuna, na qual ocupa a cadeira 25, cuja patrona é Elvira Foepel.  Com os seus gestos atenciosos e ao mesmo tempo vibrantes, a entidade ganha brilho, reveste-se com generosos cantos, cores suaves. Trescala bem-estar por entre os seus pares.

           Ficamos seduzidos com o que ela faz pela Academia. Disponibilidade anímica, muitas vezes com sacrifício pessoal, está sempre de prontidão pelo bom fazer da Academia de Letras de Itabuna. Emerge dela com uma candura que impressiona a todos que recebem sua presteza.  

          Exerce a profissão de psicanalista, é querida pelos pacientes, que muito agradecem seus cuidados e acertos para afugentar os bichos temerários da alma. Eles fogem com as maneiras competentes de Raquel, os ramos de luz que se entreabrem dos fundos de sua alma e molham de alento os que vão em busca de seu auxílio. 

           Sua casa está sempre iluminada, ventilada, juntamente com o maridão Wald e às filhas Mel e Lunna, duas pérolas.  O convívio ameno dos quatros demonstra que o sentimento mais forte que temos só pode ser o amor, principalmente quando se propaga entre o homem e a mulher por anos lavados de entendimento, sem medos. 

          Conheci Raquel quando era presidente da Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania. Certa vez, ao adentrar em meu gabinete encontrei em cima da mesa um DVD, a secretária disse-me que foi uma moça que havia deixado para que eu quando pudesse e quisesse fosse assistir o documentário que ela fez.  Foi o que fiz em casa.  Era um documentário sobre a Amazônia, dirigido por Raquel, que demonstrava com as tomadas de cena um talento e sensibilidade marcantes, de cineasta que sabe das coisas.  Assim nasceu nossa admiração e amizade.

          Indiquei mais tarde Raquel para que dirigisse um documentário sobre Itabuna, para constar da programação do centenário da cidade. Foi outra maravilha que ela realizou para ser exibida na tela.  Os que lotaram as dependências do teatro do Centro de Cultura Adonias Filho de Itabuna vibraram a cada lance das entrevistas tomadas com pessoas simples e significativas de uma cidade do interior, seus hábitos e falares que faziam rir, alguns comoventes.   A cineasta colocava na tela com toques de humanidade capturados do cotidiano o cidadão puro e verdadeiro, advindo do bom relacionamento que se tem pela vida.

          Criatura leve, leitora proveitosa da boa literatura. É isso aí o que por enquanto tenho a dizer sobre a amiga e confreira Raquel. Vocês saberão mais quando tiverem a sorte de conhecê-la de perto. 

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Cyro de Mattos é escritor e poeta. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Publicado nos Estados Unidos, Dinamarca, Rússia, Portugal, Espanha, Itália, França e Alemanha. Membro efetivo das Academias de Letras da Bahia, de Ilhéus e Itabuna.  Doutor Honoris Causa da UESC.

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LÍNGUA TURCA: AMA AZUN! - Marco Lucchesi


Idioma de densas camadas

Entrei cedo na escola dos ventos, nas ondas frias e atrevidas. Não sei aonde me vou, se nas águas do Bósforo ou da Guanabara.

Tecida de onda e vento, a língua de Istambul. Ouço rumores do livro didático: tekneler yavas geçiyor, nos barcos que deslizam vagarosos.

Rio de Janeiro, também uma Istambul dos trópicos. Leio o diário de Baghdãdĩ, ao narrar a chegada de um navio otmano, vindo para uma secreta missão ao império do Brasil. Disfarçados, assistem à missa de Páscoa na antiga Igreja da Sé.

Guardo de tudo hüzün e saudade. Leio Machado e Tapinar, íntimos de Sterne, como se amigos fossem entre si. A música do Memorial de Aires e do Instituto de regulação dos relógios (Saatleri ayaarlama enstitüsü). E reúno versos de Drummond e Nâzım Hikmet, Yunos Emre e Henriqueta Lisboa. Vizinhos potenciais, nas prateleiras, no mundo aberto.

O turco é língua de densas camadas. Pedra acesa na escuridão; fosforescente quanto ao timbre das vogais. Tremas  que cobrem o "o" e o "u"; formas longa e breve do "a"; o "i" com ou sem ponto. Não há vogal de férias. São oito que trabalham. Delas depende a vocação aglutinante, conduzida pela harmonia vocálica. Quase demissonárias, as proporções. Porque os casos gramaticais resolvem tudo, ou quase. Como os desenhos de um tapete universal.

No início, o turco parece um mosaico. Um tipo de quebra-cabeça rigoroso, até ficarmos íntimos das peças. Da língua escura nasce a luz de Caravaggio.

A parte desse undo dedique Bizâncio. Fiz amizade ou traduzi vários poetas: Bejan Matur, Ataol Behramoğlu, Tozan Alkan. Passei a traduzido e interrogado. Sem falar com Yunus e o citado Nâzım.

Minha proximidade com o árabe e o persa foram determinantes, para cantar Yine bir gülnihal, de Dede Efendi.

Tenho o livro-monumento dos poetas otomanos, o divã de Eliot, quase outra língua, sortidae plural. Forma sagrada, corânica, no alfabeto persa.

Mais tarde, com a decisão fonocêntrica, iniciada no século 19 e ultimada com a reforma de Atatürk, ocorreu uma das maiores aventuras língua adentro. Dois autores, dentre outros, levaram-me ao coração do processo, Geoffrey Lewis (The turkish language: a catastrophic success) e Negris Ertürk (Grammatology and literary modernity in Turkey).

Fantasmas sonoros, imagéticos, redivivos, sonhos de laços míticos, laboratório, tubos de ensaio, espelho côncavo.

O mito de Instambul serviu, como Florença, a imprimir na cera a forma de uma língua. Ao mesmo tempo, a chuva torrencial de neologismos, empréstimos das línguas asiáticas afins. E as tantas sugestões de Ataç, Atay, Sayılı. A língua com seus jogadores de cartas.

Depois veio a teoria do sol, a güneş dil teorisi, sonho, baliza e represa ao processo radical de substituição semântica, das palavras persas e árabes, em prol de uma ilusória pureza (öz türkçe). A teoria de Kergic, distante da ciência e pura ideologia, fez do turco a mãe de todas as línguas. Criava, a bem dizer, uma trégua no campo da reforma linguística. Dois espectros de uma suposta fala adâmica de origem turca (sem base etimológica): yaltrik > elétrico e Ama uzum ("Mas é grande") > Amazônia!

Não morreram certas franjas ideológicas. Um olho no Ocidente e outro na mítica Turan, com Ziya Gökalp.

Os relógios de Tanpınar  batem hoje bem mais livres. O instituto perde a razão de ser. A língua mede o presente infinito, porque dispõe de um vasto patrimônio. Cidades invisíveis, como as de Calvino, de Xinjiang e Sarajevo. Não lhe faltam recursos. Importa o modo de aplicar tanta riqueza. Não faltaram poetas, prontos a gastar a generosa herança.

Comecei dizendo que entrei cedo na escola dos ventos, nas ondas frias e atrevidas. O Bósforo e a Guanabara.

O vento de Instambul. Sopra incessante em toda parte. É brisa delicada ou temporal. Corre para um destino irreverssível. Flecha do tempo, abraça agora passado e futuro. Entre o Flamengo e Üsküdar. Ventro que varre as velhas ruas de Bizâncio. Sopra nas ilhas Maricá e na torre de Gálata. Vento que nada pede para si. Apenas beleza de seu torso nu.

comunitàitaliana | novem, 19/11/2022

 

https://www.academia.org.br/artigos/lingua-turca-ama-uzun

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Marco Lucchesi - Sétimo ocupante da cadeira nº 15 da ABL, eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila , foi recebido em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha. Foi eleito Presidente da ABL para o exercício de 2018, 2019, 2020 e 2021.

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