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sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

Os labirintos de Jorge Luís Borges

Cyro de Mattos

 


                 As metáforas de teor metafísico em Borges soam soberbas e nos deixam perplexos. Não é por acaso que no poema “Cambridge” afirma: “Somos nossa memória. Somos esse quimérico museu de formas inconstantes, esse montão de espelhos rotos.” Foi como também viu a nossa condição na vida o magistral poeta Fernando Pessoa, ao dizer que sonhar era saber essa ilusão nos reinos espectrais do tempo.

              O é, o foi e o será perduram em Borges por entre inúmeros labirintos. Em Buenos Aires quando segue caminhando, sentindo nas esquinas o hoje tão lento e o ontem tão breve, nessas esquinas “sem por que nem quando”.  Perscruta assim, entre a alba e a noite, esta história universal, sem esperar que “o rigor desse caminho, que teimosamente se bifurca em outro, tenha fim.” Em “El Aleph”, a história que acompanhamos abre o caminho de um novo tipo de literatura, do fantástico, do enredo que vai sendo devorado pelos labirintos da imaginação. Assim posto em cena labiríntica o plano fictício e ao mesmo tempo real de “El Aleph”, o microcosmos dos alquimistas e dos cabalistas consiste em um dos pontos do espaço que contém todos os pontos. Aqui, o personagem encontra esse lugar onde se encontram, sem se confundirem, todos os lugares do mundo, vistos de todos os ângulos.  

            No conto “Pierre Menard, autor do Quixote”, Borges imagina a história do homem que não queria compor outro Quixote, não pretendia conceber uma transcrição do original nem se propunha a copiá-lo. Sua soberba ambição era escrever O Quixote, páginas que coincidissem, palavra por palavra, linha por linha, com as de Miguel de Cervantes. Em “O Jardim dos caminhos que se dividem”, ele traça uma extensa adivinha ou parábola com o tempo, sendo talvez este para a crítica dos contos mais ricos escritos por Borges. Trata-se de história que espanta e encanta, pela dualidade em que se encontram a morte e o tempo.  Somente no último parágrafo o leitor pode achar a chave dessa ficção na forma tortuosa em que é executada.

            Em “O imortal”, o tema tratado agora é o da imortalidade dos homens. Borges foca a situação do homem que sempre procura fugir da morte, após o nascimento. Basta estar vivo para morrer a cada instante, pensa o homem. Nessa história impressionante, exercida com linguagem enigmática, percorre-se os labirintos do tempo e do espaço na tentativa de encontrar a cidade dos imortais, que de tão distante só existe na imaginação humana. Essa cidade, com sua arquitetura pródiga em simetrias, ainda que localizada no centro de um deserto desconhecido, enquanto existir ninguém no mundo poderá ser corajoso e feliz.  É tão horrível que a sua presença confunde o passado e o futuro.

            Borges a concebe, como um amontoado de palavras complexas, um  corpo de tigre ou de touro, onde pulularam monstruosamente, conjugando-se e odiando-se, dentes, órgãos e cabeças, podem (talvez) ser imagens aproximadas.

            Há quem afirme que o escritor só deve escrever sobre o que conhece, viu e viveu.  Essa maneira de postular o literário não se aplica a Jorge Luís Borges, o mais literário dos escritores, o que escreveu e imaginou o mundo como resultado do que leu e, logo depois que ficou cego em definitivo, enxergou como poucos seus caminhos metafísicos, sob o rigor do pensamento e da simetria. Tornou-se por isso mesmo um bruxo impressionante, que inventava com maestria enredos labirínticos e mitologias metafísicas, sem ter conhecido fisicamente a paisagem humana e a realidade objeto da sua escrita. E, assim, lendo e vendo com a alma, imaginando seus mundos criativos, num estilo sóbrio, passou a ser visto ele próprio como sinônimo de literatura, aquele que nos lega na poesia, no conto e no ensaio um universo fantástico, insólito e transcendente.

            A literatura esteve sempre na sua alma, soube isso desde o início, como um destino a cumprir. Aos seis anos comunicou à família que queria ser escritor. O menino fora muito cedo iniciado na leitura pela mãe, criatura adorável, que o incentivava a viver intelectualmente no mundo das letras. Na biblioteca do pai havia descoberto os livros, esse mundo fantástico das histórias fabulosas onde iria passar a vida toda. Em idade precoce começou a redigir os primeiros textos, um conto ao modo de Cervantes e um ensaio sobre mitologia clássica.

            Foi no ano em que começou a Primeira Guerra Mundial que a família de Borges viajou para a Europa. Em Genebra faz os estudos superiores, na Espanha participa de saraus e publica poemas em revistas espanholas. Quando regressa a Buenos Aires, encontra uma cidade diferente, que o encanta e o inspira para escrever os seus textos labirínticos, de temas metafísicos. Condenado à cegueira, que vinha gradualmente afetando-o, desde a infância, não viu nela nada de especialmente patético ou dramático. Submeteu-se a oito operações e, nesse ocaso gradativo, ficou cego desde os fins de 1950 para a leitura e a escrita.  Nessa oportunidade havia escrito o “Poema das Dádivas” e já era diretor da Biblioteca Nacional. Comentou então da esplêndida ironia que Deus reservou para ele, concedendo-lhe oitocentos mil livros e a escuridão.

            Condenado à cegueira por herança paterna, o poeta e prosador que especulou sobre “o livro dos livros”, observando que não sabe se existe ou se é sonhado por Deus, lança-nos, em labirintos poéticos arquitetados de luzes e sombras, histórias fabulosas com galerias de espelhos onde ele explora o tema da dupla identidade. Jorge Luís Borges é o “fazedor” de outra dimensão da literatura, enredada no imprevisível, distante do previsível operado pelos realistas com os elementos da exterioridade circunstante, em que os dados da objetividade são transpostos para o texto, dando ao ficcionista uma feição de copiador literário.

            É um fazedor de literatura no melhor sentido, com textos extremamente criativos na direção de contos maravilhosos, ditados pelo pensamento e com uma imaginação prodigiosa. Falou-nos de um homem, “que se propõe fazer uma pintura do universo. Depois de muitos anos, cobriu uma parede nua com imagens de navios, torres, cavalos, armas e homens, só para descobrir, no momento de sua morte, que desenhara um retrato de seu próprio rosto.”

            Labiríntica, como nesse personagem, é a natureza da literatura de Jorge Luís Borges, alimentada e respirada em todos os livros que havia lido. Ele sempre viu a literatura como forma de conhecimento do mundo, fundamental como o amanhecer. Se não resolve os problemas cruciais da vida, como certa vez declarou, só com ela e sua linguagem que salva é que podemos atravessar o nosso lado noturno e alcançar o dia. 

             Por tantas qualidades excepcionais de um fino e instigante ficcionista, não se pode deixar de considerar o que, no final do longo artigo “Uma História do Conto”, dosado com humor, importantes sinalizações sobre o gênero e seus melhores autores, o escritor Guilhermo Cabrera Infante acentua a respeito dos contos excepcionais de Jorge Luís Borges:

             Foi Borges quem disse de Quevedo que não era um escritor, mas uma literatura. Com maior justiça se pode dizer o mesmo de Borges. Ele sozinho, em sua remota Buenos Aires, que depois dele sempre está perto, aqui ao lado, virando a página, Borges sozinho fez do conto toda uma literatura e até mais, uma teoria literária. Não preciso citar nenhum título, pois vocês conhecem todos. Mas são contos não para ler, e sim para reler, recordar, memorizar e sempre nos assombrar. Não só com sua cultura e seu humor, mas também com sua arte narrativa. 


Leituras Sugeridas 

FERREIRA, Serafim. Jorge Luís Borges, coletânea, Editorial Presença, Lisboa, 1965.

JOSEF, Bela. História da literatura hispano-americana, Editora Vozes, Petrópolis, RJ, 1971.

CERQUEIRA, Dorine. América América: amostragem da ficção hispano atual, Editus, editora da UESC, Ilhéus, 2011.

BORGES, Jorge Luís. Entrevista em A história é amarela, coletânea, Editora Abril, São Paulo, 2017.

INFANTE, Guilhermo Cabrera. Uma história do conto, “Folha de São Paulo”, 30 de dezembro de 2001.

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Cyro de Mattos é ficcionista e poeta. Também editado no exterior. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa da UESC.

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domingo, 27 de novembro de 2022

🔴Agora a pouco Movimentação no Rio de Janeiro

 Raquel

 Cyro de Mattos

 


          É uma criatura afável, que sorri com prazer quando o assunto é literatura, em especial poesia. Comunicadora social de mão cheia. Integra o corpo de membros efetivos da Academia de Letras de Itabuna, na qual ocupa a cadeira 25, cuja patrona é Elvira Foepel.  Com os seus gestos atenciosos e ao mesmo tempo vibrantes, a entidade ganha brilho, reveste-se com generosos cantos, cores suaves. Trescala bem-estar por entre os seus pares.

           Ficamos seduzidos com o que ela faz pela Academia. Disponibilidade anímica, muitas vezes com sacrifício pessoal, está sempre de prontidão pelo bom fazer da Academia de Letras de Itabuna. Emerge dela com uma candura que impressiona a todos que recebem sua presteza.  

          Exerce a profissão de psicanalista, é querida pelos pacientes, que muito agradecem seus cuidados e acertos para afugentar os bichos temerários da alma. Eles fogem com as maneiras competentes de Raquel, os ramos de luz que se entreabrem dos fundos de sua alma e molham de alento os que vão em busca de seu auxílio. 

           Sua casa está sempre iluminada, ventilada, juntamente com o maridão Wald e às filhas Mel e Lunna, duas pérolas.  O convívio ameno dos quatros demonstra que o sentimento mais forte que temos só pode ser o amor, principalmente quando se propaga entre o homem e a mulher por anos lavados de entendimento, sem medos. 

          Conheci Raquel quando era presidente da Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania. Certa vez, ao adentrar em meu gabinete encontrei em cima da mesa um DVD, a secretária disse-me que foi uma moça que havia deixado para que eu quando pudesse e quisesse fosse assistir o documentário que ela fez.  Foi o que fiz em casa.  Era um documentário sobre a Amazônia, dirigido por Raquel, que demonstrava com as tomadas de cena um talento e sensibilidade marcantes, de cineasta que sabe das coisas.  Assim nasceu nossa admiração e amizade.

          Indiquei mais tarde Raquel para que dirigisse um documentário sobre Itabuna, para constar da programação do centenário da cidade. Foi outra maravilha que ela realizou para ser exibida na tela.  Os que lotaram as dependências do teatro do Centro de Cultura Adonias Filho de Itabuna vibraram a cada lance das entrevistas tomadas com pessoas simples e significativas de uma cidade do interior, seus hábitos e falares que faziam rir, alguns comoventes.   A cineasta colocava na tela com toques de humanidade capturados do cotidiano o cidadão puro e verdadeiro, advindo do bom relacionamento que se tem pela vida.

          Criatura leve, leitora proveitosa da boa literatura. É isso aí o que por enquanto tenho a dizer sobre a amiga e confreira Raquel. Vocês saberão mais quando tiverem a sorte de conhecê-la de perto. 

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Cyro de Mattos é escritor e poeta. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Publicado nos Estados Unidos, Dinamarca, Rússia, Portugal, Espanha, Itália, França e Alemanha. Membro efetivo das Academias de Letras da Bahia, de Ilhéus e Itabuna.  Doutor Honoris Causa da UESC.

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LÍNGUA TURCA: AMA AZUN! - Marco Lucchesi


Idioma de densas camadas

Entrei cedo na escola dos ventos, nas ondas frias e atrevidas. Não sei aonde me vou, se nas águas do Bósforo ou da Guanabara.

Tecida de onda e vento, a língua de Istambul. Ouço rumores do livro didático: tekneler yavas geçiyor, nos barcos que deslizam vagarosos.

Rio de Janeiro, também uma Istambul dos trópicos. Leio o diário de Baghdãdĩ, ao narrar a chegada de um navio otmano, vindo para uma secreta missão ao império do Brasil. Disfarçados, assistem à missa de Páscoa na antiga Igreja da Sé.

Guardo de tudo hüzün e saudade. Leio Machado e Tapinar, íntimos de Sterne, como se amigos fossem entre si. A música do Memorial de Aires e do Instituto de regulação dos relógios (Saatleri ayaarlama enstitüsü). E reúno versos de Drummond e Nâzım Hikmet, Yunos Emre e Henriqueta Lisboa. Vizinhos potenciais, nas prateleiras, no mundo aberto.

O turco é língua de densas camadas. Pedra acesa na escuridão; fosforescente quanto ao timbre das vogais. Tremas  que cobrem o "o" e o "u"; formas longa e breve do "a"; o "i" com ou sem ponto. Não há vogal de férias. São oito que trabalham. Delas depende a vocação aglutinante, conduzida pela harmonia vocálica. Quase demissonárias, as proporções. Porque os casos gramaticais resolvem tudo, ou quase. Como os desenhos de um tapete universal.

No início, o turco parece um mosaico. Um tipo de quebra-cabeça rigoroso, até ficarmos íntimos das peças. Da língua escura nasce a luz de Caravaggio.

A parte desse undo dedique Bizâncio. Fiz amizade ou traduzi vários poetas: Bejan Matur, Ataol Behramoğlu, Tozan Alkan. Passei a traduzido e interrogado. Sem falar com Yunus e o citado Nâzım.

Minha proximidade com o árabe e o persa foram determinantes, para cantar Yine bir gülnihal, de Dede Efendi.

Tenho o livro-monumento dos poetas otomanos, o divã de Eliot, quase outra língua, sortidae plural. Forma sagrada, corânica, no alfabeto persa.

Mais tarde, com a decisão fonocêntrica, iniciada no século 19 e ultimada com a reforma de Atatürk, ocorreu uma das maiores aventuras língua adentro. Dois autores, dentre outros, levaram-me ao coração do processo, Geoffrey Lewis (The turkish language: a catastrophic success) e Negris Ertürk (Grammatology and literary modernity in Turkey).

Fantasmas sonoros, imagéticos, redivivos, sonhos de laços míticos, laboratório, tubos de ensaio, espelho côncavo.

O mito de Instambul serviu, como Florença, a imprimir na cera a forma de uma língua. Ao mesmo tempo, a chuva torrencial de neologismos, empréstimos das línguas asiáticas afins. E as tantas sugestões de Ataç, Atay, Sayılı. A língua com seus jogadores de cartas.

Depois veio a teoria do sol, a güneş dil teorisi, sonho, baliza e represa ao processo radical de substituição semântica, das palavras persas e árabes, em prol de uma ilusória pureza (öz türkçe). A teoria de Kergic, distante da ciência e pura ideologia, fez do turco a mãe de todas as línguas. Criava, a bem dizer, uma trégua no campo da reforma linguística. Dois espectros de uma suposta fala adâmica de origem turca (sem base etimológica): yaltrik > elétrico e Ama uzum ("Mas é grande") > Amazônia!

Não morreram certas franjas ideológicas. Um olho no Ocidente e outro na mítica Turan, com Ziya Gökalp.

Os relógios de Tanpınar  batem hoje bem mais livres. O instituto perde a razão de ser. A língua mede o presente infinito, porque dispõe de um vasto patrimônio. Cidades invisíveis, como as de Calvino, de Xinjiang e Sarajevo. Não lhe faltam recursos. Importa o modo de aplicar tanta riqueza. Não faltaram poetas, prontos a gastar a generosa herança.

Comecei dizendo que entrei cedo na escola dos ventos, nas ondas frias e atrevidas. O Bósforo e a Guanabara.

O vento de Instambul. Sopra incessante em toda parte. É brisa delicada ou temporal. Corre para um destino irreverssível. Flecha do tempo, abraça agora passado e futuro. Entre o Flamengo e Üsküdar. Ventro que varre as velhas ruas de Bizâncio. Sopra nas ilhas Maricá e na torre de Gálata. Vento que nada pede para si. Apenas beleza de seu torso nu.

comunitàitaliana | novem, 19/11/2022

 

https://www.academia.org.br/artigos/lingua-turca-ama-uzun

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Marco Lucchesi - Sétimo ocupante da cadeira nº 15 da ABL, eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila , foi recebido em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha. Foi eleito Presidente da ABL para o exercício de 2018, 2019, 2020 e 2021.

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quinta-feira, 24 de novembro de 2022

Vigésimo Quinto Dia Nas Ruas Da Bahia

O Poeta

 Cyro de Mattos

   


    

 Tinha ido comprar remédios para a esposa.

 Encontrei com ele na farmácia.

 Deu-me tapinha no ombro.

- Bom dia poeta, ele disse.

 Senti um friozinho na barriga.

- De que você me chamou? – perguntei.

- Poeta, não gostou?

- Não é bem assim, você exagerou. 

Ele quebrou o silêncio.

- A floresta dos poetas é grande, cabem todos, inclusive o medíocre cheio de bajuladores, acrescentando: - Você cabe nela, por merecimento.

Retornei.

- Poeta foi Homero, Dante, Pessoa, Camões, Eliot, Drummond, Pablo       

 Neruda e Carlos Drummond de Andrade, todos eles geniais.

 Inconformado ele:

 - E daí? Você é dos nossos, para honra e glória da comunidade.

 Ponderei.

 - Você é generoso.

 Perguntou curioso:

 - E como é que você quer que eu diga quando falar de você?

- Inventor de ingenuidades ou leitor curioso de poetas geniais.

Dessa vez, ele não disse nada.

Pagou o remédio que comprou, saiu com a cara de quem nada

gostou do que eu disse no final.

Paguei o remédio que comprei, saí da farmácia pensativo, lá adiante monologuei.

- Meu Deus, o que sou mesmo?

Tinha aquele mesmo friozinho na barriga. 

 

Cyro de Mattos é escritor e poeta. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Publicado nos Estados Unidos, Dinamarca, Rússia, Portugal, Espanha, Itália, França e Alemanha. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa pela UESC.


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