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domingo, 23 de outubro de 2022
sábado, 22 de outubro de 2022
quinta-feira, 20 de outubro de 2022
O mascate libanês
Cyro de Mattos
De primeiro foi
mascatear nos povoados, onde era aguardado com ansiedade e recebido com alegria
por gente curiosa. Causava espanto aos tabaréus as novidades que trazia em
mercadoria para ser vendida na porta das casas ou na pracinha pouco acostumada
a visitas como aquela. Às vezes não se entendia o que ele falava naquela língua
estranha, misturando as palavras e arranhando a voz, que saía engraçada. Ficava
em cada povoado pouco tempo, resolvia penetrar a mata hostil, com a mercadoria
nos baús em lombo de mula. Ia abrindo trilhas e atalhos, que serviam para
interligar gente, que de tão distante na tapera e na roça de cereal plantada
pelos fundos, na clareira aberta por machado e facão, não sabia um do outro.
Hoje aqui perto, amanhã nas lonjuras, sem os pais, irmãos,
amigos, doce amor da bela amada, tangendo os burros com a mercadoria nos baús
grandes. Nessas idas e vindas, ia formando caminhos que ligavam os povoados aos
fundos da mata.
Tecedor de sol e chuva, peito armazenado de solidões pela
mata bruta. Respingava de suor no rosto, pulsando com o sangue dos ancestrais
nas veias da madrugada. Picado por carrapato e mosquito, sedento, faminto,
resmungando por trilhas e atalhos no mato grosso. Seda rara, tapete, broche,
anel, perfume, linho, porcelana, revólver, rebenque, espora, lâmpada mágica.
Tudo sacolejava nos baús que os burros levavam, já formando uma tropa pequena e
nova.
Alimentava-se nas veredas com o sonho de se tornar um dia
fazendeiro de vastas roças de cacau, nas horas de maior solidão ajoelhava-se.
Inclinava o peito para frente várias vezes seguidas. Apoiando-se com as mãos no
chão coberto de folhas secas, contrito, sob o silêncio imenso da mata trevosa,
beijava o chão e emitia cânticos orantes:
Ilumina-me,
Alá
Com o teu espírito,
Ilumina-me,
Ilumina-me,
Deixa-me sentir
Aqui no coração
Todo o teu calor,
Todo o teu amor
Para sempre,
Para sempre.
Ilumina-me, Alá,
Com o teu espírito,
Ilumina-me,
Ilumina-me,
Deixa-me sentir
Aqui na minha mente
O brilho bem forte
De todo o teu amor
Para sempre,
Para sempre.
Cyro de Mattos é escritor e poeta. Publicado por várias editoras na Europa. Premiado no Brasil,
Itália, Portugal e México. Membro da Academia de Letras da Bahia. Doutor
Honoris Causa pela UESC.
* * *
quarta-feira, 19 de outubro de 2022
terça-feira, 18 de outubro de 2022
O PAÍS VAI VIVER
O país vai morrer?
Se você não vê
crime na atitude de um candidato a presidente da República, ao desfilar em
carreata cercado por traficantes carregando armas pesadas, desista de sua
família, de seus valores, de sua identidade e do seu país. Você não é um
cidadão, nem pai de família. Você é apenas um covarde, desprovido de
princípios, que enxerga apenas conveniências e vantagens na sua convivência e
relações do dia a dia.
O que o ex-presidiário fez no Complexo do Alemão (RJ), na última
quarta-feira (12), foi perturbador e desmoralizante. Foi agressivo e altamente
nocivo. Mostrou que aquele verme imundo deveria estar preso, se o STF não
fosse, hoje, instituição voltada à proteção do crime e ao acobertamento dos
atos mais vis e facinorosos de que se tem registro na história nacional. Fazer
o quê, com tal STF cheio de degenerados morais?
O ex-presidiário
mostrou quem é o chefe do crime organizado no país. Que vergonha, que tristeza,
que avacalhação, que podridão, que depravação! Como é que indivíduo de tamanha
periculosidade pode encontrar quem o suporte e o apoie, fora do círculo
criminoso do qual é membro? Ele
se expôs, mostrou quem é, exibiu por inteiro o seu caráter, ou a sua falta.
Vejam as fotos do
ex-presidente e ex-presidiário, usando chapéu do Comando Vermelho e a
abreviatura CPX, que quer dizer “cupincha”. Que dizem os senhores ministros do
TSE? Que diz o ministro Benedito Gonçalves, que responde a inquérito sobre
propina recebida da Odebrecht? Nosso país está sendo dominado pelos piores
bandidos. É isso que você deseja para os seus filhos? É esse o futuro com o
qual você sonha? Deus, ó Deus, imploremos aos céus!
(Recebi por e-mail sem menção de autoria)
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sábado, 15 de outubro de 2022
Escritor Cyro de Mattos Participa da Feira Literária de Joinville
A EDUEM,
editora da Universidade Estadual de Maringá, no Paraná, participará da feira de
livros de Joinville, a ser realizada em Santa Catarina, de 17 a 21/10/22,
quando então irá divulgar no evento alguns autores do seu catálogo, através de
vídeos de lançamentos recentes de seus livros. Entre as obras que serão
apresentadas na Feira está Kafka, Faulkner, Borges e Outras Solidões Imaginadas,
de Cyro de Mattos, cuja apresentação da obra foi gravada pelo autor em vídeo
para ser exibido durante o evento. O
livro tem capa do consagrado artista plástico Juarez Paraíso e prefácio de
Gerana Damulakis.
Em Kafka,
Faulkner, Borges e Outras Solidões Imaginadas, temos quinze textos que
funcionam como incursões prazerosas sobre o tema da criação literária motivada
pela solidão. O desenvolvimento temático em quinze autores clássicos universais
mostra que interessa ao escritor baiano Cyro de Mattos usar o pensamento
reflexivo para sentir com intensidade o que as páginas desses ficcionistas
abordados dizem da arte literária como forma de conhecimento da vida.
Aldous Huxley, Anton Tchekhov,
Fernando Pessoa, Fiódor Dostoiévski, Franz Kafka, F. Scott Fitzgerald, Gabriel
García Márquez, James Joyce, Jorge Luís Borges, José Saramago, Julio Cortázar,
Miguel Torga, Sherwood Anderson, Sophia de Mello Breyner Andresen e William Faulkner formam aqui um conjunto
de autores, que nas visões de mundo convidam-nos a habitar o imaginário por
meio da contemplação dos sonhos. Nos vícios da solidão, remete-nos à impossibilidade
da fuga no drama, à perda de identificação sob o domínio do ilógico, aos
labirintos no curso sem saída, à convivência das neuroses, à catarse na dor,
simbolizando o real pior do que ele é. Às vezes possibilitam a observação de
tipos de convivência inusitada em que o ser humano se vê esmagado sem
perspectiva de horizonte. Em Kafka, Faulkner, Borges e Outras Solidões
Imaginadas, autores geniais remetem o leitor ao ser ambíguo e limitado,
contraditório e falho, que, em seu destino gregário de animal social, elege a
vida submissa ou além dos padrões materiais.
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