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quinta-feira, 20 de outubro de 2022

O mascate libanês

 Cyro de Mattos



           O gringo Mansur desembarcou na estação do trem numa tarde de sol claro. Ao entrar na primeira rua de chão batido, depois de uma praça, sentiu no ar o odor denso de umas amêndoas secas que enchiam os armazéns de portas largas. Era o cheiro de resina do cacau. Encheu-lhe o peito o mesmo anseio dos que chegavam à região para realizar o sonho de ficar rico numa terra que oferecia a qualquer vivente muita benesse, graças à boa lavra das árvores dos frutos cor de ouro. Ele não chegava ali como outros com as mãos pobres. Trazia algum dinheiro, joias e uns caixotes contendo tecidos, tapetes, perfumes, sabonetes, talcos, carretéis de linha, tesouras, panelas, talheres, coisas miúdas e até vidrinhos com purgantes e óleo de rícino.

           De primeiro foi mascatear nos povoados, onde era aguardado com ansiedade e recebido com alegria por gente curiosa. Causava espanto aos tabaréus as novidades que trazia em mercadoria para ser vendida na porta das casas ou na pracinha pouco acostumada a visitas como aquela. Às vezes não se entendia o que ele falava naquela língua estranha, misturando as palavras e arranhando a voz, que saía engraçada. Ficava em cada povoado pouco tempo, resolvia penetrar a mata hostil, com a mercadoria nos baús em lombo de mula. Ia abrindo trilhas e atalhos, que serviam para interligar gente, que de tão distante na tapera e na roça de cereal plantada pelos fundos, na clareira aberta por machado e facão, não sabia um do outro. 

          Hoje aqui perto, amanhã nas lonjuras, sem os pais, irmãos, amigos, doce amor da bela amada, tangendo os burros com a mercadoria nos baús grandes. Nessas idas e vindas, ia formando caminhos que ligavam os povoados aos fundos da mata.

          Tecedor de sol e chuva, peito armazenado de solidões pela mata bruta. Respingava de suor no rosto, pulsando com o sangue dos ancestrais nas veias da madrugada. Picado por carrapato e mosquito, sedento, faminto, resmungando por trilhas e atalhos no mato grosso. Seda rara, tapete, broche, anel, perfume, linho, porcelana, revólver, rebenque, espora, lâmpada mágica. Tudo sacolejava nos baús que os burros levavam, já formando uma tropa pequena e nova.

          Alimentava-se nas veredas com o sonho de se tornar um dia fazendeiro de vastas roças de cacau, nas horas de maior solidão ajoelhava-se. Inclinava o peito para frente várias vezes seguidas. Apoiando-se com as mãos no chão coberto de folhas secas, contrito, sob o silêncio imenso da mata trevosa, beijava o chão e emitia cânticos orantes:

         

Ilumina-me, Alá

Com o teu espírito,

Ilumina-me,

Ilumina-me,

Deixa-me sentir

Aqui no coração

Todo o teu calor,

Todo o teu amor

Para sempre,

Para sempre.  

 

Ilumina-me, Alá,

Com o teu espírito,

Ilumina-me,

Ilumina-me,

Deixa-me sentir

Aqui na minha mente

O brilho bem forte

De todo o teu amor

Para sempre,

Para sempre.

 

 

Cyro de Mattos é escritor e poeta. Publicado por várias  editoras na Europa. Premiado no Brasil, Itália, Portugal e México. Membro da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa pela UESC.

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terça-feira, 18 de outubro de 2022

O PAÍS VAI VIVER



O país vai morrer?


Se você não vê crime na atitude de um candidato a presidente da República, ao desfilar em carreata cercado por traficantes carregando armas pesadas, desista de sua família, de seus valores, de sua identidade e do seu país. Você não é um cidadão, nem pai de família. Você é apenas um covarde, desprovido de princípios, que enxerga apenas conveniências e vantagens na sua convivência e relações do dia a dia.

O que o ex-presidiário fez no Complexo do Alemão (RJ), na última quarta-feira (12), foi perturbador e desmoralizante. Foi agressivo e altamente nocivo. Mostrou que aquele verme imundo deveria estar preso, se o STF não fosse, hoje, instituição voltada à proteção do crime e ao acobertamento dos atos mais vis e facinorosos de que se tem registro na história nacional. Fazer o quê, com tal STF cheio de degenerados morais?

O ex-presidiário mostrou quem é o chefe do crime organizado no país. Que vergonha, que tristeza, que avacalhação, que podridão, que depravação! Como é que indivíduo de tamanha periculosidade pode encontrar quem o suporte e o apoie, fora do círculo criminoso do qual é membro? Ele se expôs, mostrou quem é, exibiu por inteiro o seu caráter, ou a sua falta.

Vejam as fotos do ex-presidente e ex-presidiário, usando chapéu do Comando Vermelho e a abreviatura CPX, que quer dizer “cupincha”. Que dizem os senhores ministros do TSE? Que diz o ministro Benedito Gonçalves, que responde a inquérito sobre propina recebida da Odebrecht? Nosso país está sendo dominado pelos piores bandidos. É isso que você deseja para os seus filhos? É esse o futuro com o qual você sonha? Deus, ó Deus, imploremos aos céus!

 

(Recebi por e-mail sem menção de autoria)

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sábado, 15 de outubro de 2022

Escritor Cyro de Mattos Participa da Feira Literária de Joinville

 


             A EDUEM, editora da Universidade Estadual de Maringá, no Paraná, participará da feira de livros de Joinville, a ser realizada em Santa Catarina, de 17 a 21/10/22, quando então irá divulgar no evento alguns autores do seu catálogo, através de vídeos de lançamentos recentes de seus livros. Entre as obras que serão apresentadas na Feira está Kafka, Faulkner, Borges e Outras Solidões Imaginadas, de Cyro de Mattos, cuja apresentação da obra foi gravada pelo autor em vídeo para ser exibido durante o evento.  O livro tem capa do consagrado artista plástico Juarez Paraíso e prefácio de Gerana Damulakis.

               Em Kafka, Faulkner, Borges e Outras Solidões Imaginadas, temos quinze textos que funcionam como incursões prazerosas sobre o tema da criação literária motivada pela solidão. O desenvolvimento temático em quinze autores clássicos universais mostra que interessa ao escritor baiano Cyro de Mattos usar o pensamento reflexivo para sentir com intensidade o que as páginas desses ficcionistas abordados dizem da arte literária como forma de conhecimento da vida.

                Aldous Huxley, Anton Tchekhov, Fernando Pessoa, Fiódor Dostoiévski, Franz Kafka, F. Scott Fitzgerald, Gabriel García Márquez, James Joyce, Jorge Luís Borges, José Saramago, Julio Cortázar, Miguel Torga, Sherwood Anderson, Sophia de Mello Breyner Andresen   e William Faulkner formam aqui um conjunto de autores, que nas visões de mundo convidam-nos a habitar o imaginário por meio da contemplação dos sonhos. Nos vícios da solidão, remete-nos à impossibilidade da fuga no drama, à perda de identificação sob o domínio do ilógico, aos labirintos no curso sem saída, à convivência das neuroses, à catarse na dor, simbolizando o real pior do que ele é. Às vezes possibilitam a observação de tipos de convivência inusitada em que o ser humano se vê esmagado sem perspectiva de horizonte. Em Kafka, Faulkner, Borges e Outras Solidões Imaginadas, autores geniais remetem o leitor ao ser ambíguo e limitado, contraditório e falho, que, em seu destino gregário de animal social, elege a vida submissa ou além dos padrões materiais.

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quinta-feira, 13 de outubro de 2022

Recordações

Antônio  Baracho



A viagem à fazenda foi interessante.

Seguíamos enfileirados, o dono da propriedade, minha prima e eu.

O vaqueiro ia na frente, na sua montaria.

Contornamos íngreme boqueirão,  

de onde se contemplava do alto uma cachoeira que deslizava.

O trote era lento, devido ao terreno acidentado.

O importante era quem nos guiava: jovem muito calmo,

com a experiência e conhecimento do local.

A vista era muito bonita com a mata verdejante, altos jequitibás,

Maçarandubas frondosas, ipês e muitas jaqueiras.

Os animais estavam devidamente selados e ajustados para não haver surpresa.

Atravessamos dois córregos sem oferecer algum perigo.

Antes do pôr do sol

chegamos na casa humilde do trabalhador que já nos esperava

com a esposa e suas três filhas. A mais velha chamava-se Iara.

Depois que houve a apresentação e cumprimentos dos moradores

fomos tomar banho no riacho que ficava próximo da residência.

E assim pudemos nos refazer após a viagem cansativa.

Após ter servido o jantar

e o céu completamente estrelado com a presença definitiva da noite,

Iara contou a estória da caipora que mora na mata,

com o seu lindo olhar de menina da roça.

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Antônio Baracho, membro da Academia Grapiúna de Letras-AGRAL, ocupante da cadeira nº 11. 

E-mail: antoniobaracho@hotmail.com.


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