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segunda-feira, 5 de setembro de 2022

VERSÍCULOS

Cyro de Mattos


 

Reparem

O beija-flor,

De Deus

Aviãozinho,

Frescurinha

De ventilador.

No corrupio,

No frufru,

Alegrinho

Quando vê

A suave flor.

Amar e beijar

Essa a vida do ar.

 

Do espírito

Maligno,

Impiedoso,

Invejoso,   

Esfacelador,

Deus vos livre

Desse bicho

Horrendo

Com seu jeito

Pervertido

De machucar 

O que é belo.

 

Cruz-credo! 
Da cegueira

Do espiritado,

Do espinho

Que fura

E não cura
Deus vos livre.

 

Da empáfia

Do indigno

E seu veneno 

Estejam atentos.

 

Cyro de Mattos - Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia, Academia de Letras de Ilhéus e Academia de Letras de Itabuna. Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz.

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quarta-feira, 31 de agosto de 2022

ITABUNA CENTENÁRIA UM POEMA: Via Láctea (Olavo Bilac)


VIA LÁCTEA 

(Olavo Bilac)


 

Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.

 

Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac foi um jornalista, contista, cronista e poeta brasileiro, considerado o principal representante do parnasianismo no país. Foi membro fundador da Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira 15 da instituição, cujo patrono é Gonçalves Dias. 

(Wikipédia)

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 Academia de Letras de Itabuna lança Hino oficial

 


A Academia de Letras de Itabuna (ALITA) sentir-se-á honrada com a presença de Vossa Senhoria e família na sessão de lançamento de seu hino oficial, que será realizada no dia 16 de setembro, às 19,30, no auditório do Hospital de Olhos Beira-Rio, com a apresentação do Coral da CEPLAC; haverá também na oportunidade o lançamento do livro Os Saberes nas Narrativas de Jorge Amado, de Cyro de Mattos.

Letra: Cyro de Mattos,Música: Marcelo GanemInterpretação: Coral dos Servidores da CEPLAC

Local: Auditório do Hospital de Olhos Beira Rio.Data: 16/09/2022Horário: 19:30



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terça-feira, 30 de agosto de 2022



 

Quadrinhas

Cyro de Mattos

 

Ingratidão tira afeição,

Pior se feita pelo irmão,

Sendo a vida boa e bela,

Uns não dão valor a ela.

 

O ímpio com certeza  

Faz a beleza ficar feia,   

Põe as amargas na pança,   

Rancor grande na veia.      

 

A soberba é farto vício,

O duro orgulho também,

Bebe e lambe essas drogas  

Quem nunca gosta do bem. 

 

Sem justeza o audaz vivente,   

Descontente chuta o menos,

Sua cegueira não permite 

Ter remorso, volte atrás.  

 

Deus o livre do pequeno,

Sua presença mal lhe faz,

Com os comparsas comilões   

O seu arroto vale mais.

 

Cyro de Mattos é contista, poeta, romancista, ensaísta, cronista e autor de livros para crianças. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia.  Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz.

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segunda-feira, 29 de agosto de 2022

Jô 2: Ser H na vida

Ignácio de Loyola Brandão



As noites de nosso grupinho com Jô Soares começavam com um rabo de galo no 'Jeca', esquina da Ipiranga com São João, ainda não tanto celebrada. Aperitivo para diminuir o estresse do dia, se é que aquilo era estresse, adorávamos a tensão jornalística. Prosseguíamos com uma parada num banco da Praça da República para decidir onde ir. Ficávamos ali entre oito e meia e nove. Parece loucura, o tempo era outro. Hoje não atravesso praça ao meio-dia.

A decisão era a mesma, jantar no Clubinho, o Clube dos Artistas e Amigos da Arte, no porão do Instituto dos Arquitetos, na Rua Bento Freitas. Durou de 1945 aos anos 70. Bebida e comida baratas e um picadinho imbatível (que reencontrei agora no Bar da Dona Onça, da Janaína Rueda). Ali estavam, sempre, Polera, pianista - que, se não me engano, era irmão de Joubert de Carvalho, autor da canção Maringá -, Rebolo, Mario Gruber e Clovis Graciano, Sérgio Milliet, Arnaldo Pedroso d'Horta, Marcos Rey e seu irmão e Mário Donato, cujo romance Presença de Anita tinha sido best-seller fenomenal, o que levava Jô a dizer, 'o melhor pornô que já li, dá tesão e é boa literatura'.

Ali circulava Maiza Strang da Rocha, jovenzinha, autora de um romance, Incerteza, de 1959, que deu uma entrevista ao nosso Dorian Jorge Freire dizendo coisas como 'o homem esquece que a mulher tem direito de ter sexo' - ou seja, foi pioneira do feminismo. Pela entrevista, Jô, naquela noite, pagou o jantar de todos e, imenso, redondo, abraçou apertado o Dorian, que pequenino, magérrimo, quase foi sufocado.

As noites eram longas e os lugares, muitos. Vinha o roteiro dos 'inferninhos', designação estranha, nunca definida. Eram bares onde rolava prostituição disfarçada. Ali as mulheres ficavam à espera do chamado dos homens para uma bebida e o acerto do quantum pelo programa. A região era a boca de luxo. Aquelas mulheres deviam ter sempre ao lado um homem que era um falso noivo, falso marido, etc. Este acompanhante era chamado de 'H' e era pago pelo dono da boate para fingir companhia. Não era um cafetão. Jô, Gilberto di Pierro - antes de ser o célebre colunista Giba Um -, Marco Antonio Rocha - depois editorialista deste jornal - , o jornalista José Roberto Pena, um dos criadores da revista Quatro Rodas, David Aierbach, comentarista político, e eu, algumas vezes consideramos a possibilidade de, tendo fracassado na vida, quando velhos, lá pelos 60 anos, sermos um H, sem nada a fazer, sentados num bar, ganhando um uísque, talvez obtendo uma graça de graça de uma daquelas jovens. Dorian e Pena morreram há muito anos, Marco e eu sobrevivemos, Jô tornou-se um gênio que deixou um vazio no ar. Lamento, continuarei.

O Estado de S. Paulo, 28/08/2022

 https://www.academia.org.br/academicos/ignacio-de-loyola-brandao

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Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11 da ABL, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.

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