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sexta-feira, 5 de agosto de 2022

 

UMA FIGURA DE AVENTUREIRO – Carlos Pereira Filho

 


            A notícia correu de boca em boca. O tenente que foi preso, no Posto Indígena, regressou com os soldados, desarmados e humilhados. As armas ficaram em poder dos comunistas, dizia o tenente, que são muitos e se acham entrincheirados.

          Todo mundo rumou para o quartel para ver a cara avacalhada do tenente Salatiel e os seus soldados, mas o quartel estava impedido com sentinelas de armas na mão. Um murmúrio se espalhava no seio da multidão, através de comentários de todos os feitios e para todos os sabores.

            Na farmácia do Tourinho, sentado num banco, Henrique Félix contava ao farmacêutico e a Carlos Sousa o que acabava de saber: que tinha chegado uma força do Governo para seguir rumo o Posto Indígena. Havia desembarcado no cais de Ilhéus e no dia imediato se transportaria para o campo de operação. Também narrou, pedindo reservas, mais uma das do doutor Coriolano Antunes. A família do fazendeiro, que ele mandara prender como comunista, mulher e sete filhos menores havia procurado o Dr. Coriolano. A mulher se ajoelhara aos seus pés e pediu pelo amor de Deus que mandasse soltar o seu marido. Confessou eu há dias ela e os filhos não comiam nem dormiam. Tivesse paciência, fosse bom, providenciasse a liberdade do marido. Ele não havia praticado nenhum mal, nunca foi comunista, nem sabia que diabo significava comunismo.

            O Dr. Coriolano, fumando um charuto barato, com uma cara achinesada e um cabelo de pastinha caído na testa, disse à mulher, fingindo sentimento, “que não podia fazer coisa alguma, a situação estava negra, em estado de guerra, com garantias constitucionais suspensas. Tinha pedido à polícia que não maltratasse o preso, seu vizinho, seu compadre, que prezava tanto. Não havia outro jeito senão aguardar com paciência o tempo passar. E depois, com aquele movimento do Posto Indígena, as coisas pioravam, falavam até em fuzilamento.”

            Novo berreiro da mulher, dos filhos. Novo apelo. Pelo amor de Deus, salvasse o marido, daria tudo pelo sua salvação, até a roça que era o pão daquelas crianças. Ao ouvir a palavra “da roça”, o Dr. Coriolano estremeceu. A caça estava chegando para o alvo mansamente, sem suspeitar de nada.

            E quando a comadre, depois de despedir-se ia saindo, com lágrimas nos olhos, o dr. Coriolano chamou-a e disse: - Vá à cadeia, tome aqui esta carta, comunique ao seu marido que tem de vender a fazenda senão ele será condenado como comunista e fuzilado.

            A mulher foi e encontrou o marido sentado, junto a outros presos. Narrou-lhe todo o episódio e a solução que ela e ele tinham de tomar para se livrarem daquela triste situação. O marido acabrunhado concordou. O irmão havia-lhe aconselhado a mesma coisa. Somente, agora, estava compreendendo a razão da sua detenção. Vendeu a roça miseravelmente barata ao próprio dr. Coriolano, que ainda ficou com uma parte do dinheiro, para mandar o delegado rasgar o processo e que jamais entregou ao delegado.

            Esses são os bons, concluiu Henrique Félix. Esse doutor foi o cidadão mais ladrão que apareceu nestas terras. E ainda tem defeitos piores, gosta das mulheres dos outros, adianta-se com as mocinhas e fala mal de todo o mundo, ataca a honestidade de toda a gente.

            Tourinho, que até então se conservava calado, pigarreou e falou: - Esse sujeito, quando chegou nesta terra, era um morto a fome, recebia consultas de vinte cruzeiros e ainda exigia comissão nas receitas.

            Mas, reatando o fio dos acontecimentos, no dia seguinte chegou a tropa do governo. Centenas de soldados, passaram para Itapé, rumo ao Posto Paraguaçu. O ataque foi cerrado e violento. O Posto foi cercado por todos os lados e atrocidades se cometeram de toda sorte. Mortos e feridos a granel. Os chefes do movimento fugiram para Minas Gerais e a paz voltou a reinar no município.

            Dos tristes noticiários espalhados pela imprensa do País, com os devidos exageros, as responsabilidades caíram nas costas do interventor federal Juraci Magalhães e dos governantes seus auxiliares.

             O dr. Coriolano ganhou a batalha, alargou os seus domínios no Posto Paraguaçu e “comprou” a fazenda de cacau, do compadre que mandou meter na cadeia como comunista.

            E ainda ficou com o gadinho dos comunistas corridos do Colônia, seus vizinhos de fazenda.

 

(TERRAS DE ITABUNA – Cap. XXV)

Carlos Pereira Filho

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quinta-feira, 4 de agosto de 2022

Cyro de Mattos publica

livro sobre Jorge Amado

 


O escritor Cyro de Mattos acaba de publicar o livro Os saberes nas narrativas de Jorge Amado, reunindo 18 ensaios sobre a obra do famoso romancista, numa coedição da Fundação Casa de Jorge Amado e ALBA, editora da Assembleia Legislativa da Bahia. O livro traz o prefácio “Cyro Mattos e Jorge Amado: um encontro Grapiúna”, assinado pelo professor doutor em Letras Nelson Cerqueira, poliglota, membro da Academia de Letras da Bahia, ensaísta e ficcionista, e o posfácio “Cyro de Mattos pisando chão verdadeiro”, de Ângela Fraga, escritora e presidente da Fundação Casa de Jorge Amador (Salvador).

Este é o quinto livro de ensaio de Cyro de Mattoso, também é o quinto publicado pela Fundação Casa de Jorge Amado, com o selo editorial Casa de Palavras. Os outros foram Berro de Fogo e outras histórias, Canto a Nossa Senhora das Matas, Poemas Ibero Americanos e Canto até hoje, obra poética reunida, Prêmio das Arte Jorge Portugal, da Fundação Cultural do Estado e Lei Aldir Blanc. Ele já publicou 62 livros de criação pessoal e possui 15 livros publicados por editoras europeias.

Os ensaios inclusos em Os saberes nas narrativas de Jorge Amado são estes: O menino grapiúna, Romances da juventude, Negro valente e brigão, Mar de amor e morte, Meninos abandonados, Universo do cacau, Incursão em Itabuna, Da caatinga para o desconhecido, Vadiagem e marinhagem, Pastores da noite, Numa tenda dos milagres, Uma flor entre dois maridos, Duas mulheres guerreiras, Uma história de feitiçaria, O romancista acadêmico, O criador de personagens, Prosador e poeta, Autor para a garotada.

 

 


Cyro de Mattos e Jorge Amado: um encontro grapiúna*

                  Por Nelson Cerqueira**

 

É um encanto o encontro temático que Cyro de Mattos realiza com Jorge Amado ao apresentar em seu livro de ensaios um rico conjunto de saberes sobre a obra do famoso romancista baiano. Nas leituras de romances e de outros aspectos importantes, o ensaísta aborda primeiro a infância do romancista quando era ainda um menino grapiúna, na época da conquista da terra. Incursiona depois   sobre o universo do cacau, prossegue com os comentários sobre o fazer literário, no qual contempla estudos sobre os temas, personagens, invenções com base na realidade popular, enfim, em tudo que da narrativa prazerosa possa expressar uma forma de biografia da vida no ato da escrita.

No aspecto construtivo do uso do saber da vida transposto para o plano do fazer literário, o ensaísta dá-nos uma visão humanista da criação e da vida existencial do célebre escritor.  Suas leituras assim sobre o legado amadiano facilitam o entendimento de uma obra de valor inconfundível para os novos e velhos leitores. Estão tão bem urdidas acerca do comportamento feito de saberes na escrita sensual e no imaginário do romancista que bem poderia esse livro de ensaios funcionar como um manual literário para alunos da escola secundária, das faculdades de letras e até mesmo para estudiosos que se disponham a rever e refazer conceitos assumidos e propalados. 

 

Sem falar na contribuição que poderia prestar a muitos segmentos da crítica formalista que impera no meios acadêmicos e universitários, nas mentes tradicionais às vezes tendenciosas, através de interpretações engajadas, padrões de dominância analítica  municiadas pelos preconceitos, situados esses no discurso crítico conforme concebe Hans Georg Gadamer, em Wahrheit und Methode, e até mesmo Francis Bacon, em seu Novum Organum, quando nos alerta para os ídolos cultivados na escuridão, nas imagens pelas quais se pode ficar aprisionado, sem ver a claridade dos seres e coisas nem vislumbrar uma face da verdade.

As narrativas de juventude, junto com o universo do cacau, pela primeira vez aparecendo na obra de Jorge uma incursão romanesca em Itabuna, se constituem em capítulos capilares para a hermenêutica de romances como Cacau, Terras do Sem Fim, Gabriela, Cravo e Canela, São Jorge dos Ilhéus, A Descoberta da América pelos Turcos e Tocaia Grande. Os saberes são apresentados aqui pelo ensaísta de forma erudita, referidos em crítica textual eclética, na qual são selecionadas personagens como testemunhas reais e fictícias, de acordo com o que se encaixa melhor para o resultado desejado no estudo. Nenhum personagem ou momento existencial descrito recebe favorecimento teórico, ao invés disso o ensaísta sempre vai descrevendo e provocando a reflexão do leitor, auxiliando-o na fixação de sua opinião, para assim ir mostrando o texto impregnado de lucidez interpretativa com os elementos extrínsecos e intrínsecos necessários à elucidação da escritura em conexão com a vida, tanto na forma quanto no conteúdo para conseguir o efeito. 

Parece que Cyro está abraçado com o melhor da crítica do século XIX quando se escrevia sem viés de preferência diante de um manuscrito, com uma disposição poética e alexandrina que impressionavam. Conscientemente usa elementos de muitas teorias literárias e filosofias da interpretação da obra e assim permite que as ideias se interconectem com a fatura romanesca de Amado, com sua existência, seu conhecimento abundante dos seres e das coisas, valores, razões, pensamento mágico e lógico, linguagens literárias e populares. Os saberes são apresentados, passo a passo, como numa atitude rosácea, conduzida por uma variedade de estilos, que nos lembram a lição de Hume quando observa que não existe um único caminho para se chegar à beleza, e pode ser, por isso mesmo, o que Cyro preferiu nesse modelo de práxis literária com diversos prismas para comentar os saberes de Jorge. O ensaísta debruça-se principalmente sobre fontes primárias do saber e do fazer, ao mesmo tempo que cobre o espaço de uma cultura mestiça do povo baiano com a variedade de ângulos que elaborou com felizes descobertas e achados importantes no correr do estudo.

O capítulo analisando Capitães da Areia está tão bem urdido que me trouxe de volta a análise que fiz das apropriações de Amado do universo medieval, a narrativa centrada em Pedro Bala, louro com sua cicatriz vermelha, a liderar o grupo, fugindo da tentativa bastarda de transformá-lo em negro, para atender a supostos preceitos do politicamente correto, tão em voga nesses dias de desvario em que se deseja até queimar todo o acervo de Monteiro Lobato. O enfoque desse romance de aspirações sociais mostra como nesses pobres meninos abandonados na areia acontecem mazelas, que são as de hoje, e que já existiam na década de 30, mas ainda recalcitrantes quase cem anos depois, no novo século.

Em certo momento da leitura que fiz preferi também ficar com o ângulo idealizado de Amado no que diz respeito à imagem de personagens com a dimensão dos contrastes raciais, dentro das discussões da época, lideradas por Gilberto Freire em sua tese de estudos multirracial, escrita sob a orientação de Franz Boas, vinculada a uma época em que se buscava novas ideias sobre raças para dar uma resposta ao crescente arianismo defendido por Adolf Hitler.

As narrativas de pesquisas e memórias, contidas nesses saberes de Jorge Amado, abordando a cidade da Bahia assentada numa cultura popular mestiça e sua preferência pela vida urbana, com feitiçarias e heróis míticos como os de Os Pastores da Noite e Tenda dos Milagres, assim como os ensaios sobre as mulheres heroínas e guerreiras com suas imagens impregnadas de ousadia e coragem,  são todas elas excelentes leituras para compreender a dimensão do ficcionista e seu compromisso com as questões sociais, lutas de classe e escárnio à burguesia dominante.

           É magnífica a interpretação do ensaísta sobre a realidade da vida popular  no romance de Jorge Amado, como um dos saberes configurado na expressão mística, fantástica, mágica, socialista, enfatizado em Tenda dos Milagres, Os Pastores da Noite, O Sumiço da Santa e Dona Flor, mas que navega em toda a narrativa do romancista, desde País do Carnaval, a englobar, até mesmo, seu relato de caráter autobiográfico, onde existência e imaginação se misturam como vinho e água durante certa navegação de cabotagem.

            O ensaísta Cyro de Mattos teve a iluminação para tratar de todas as variações de realismos e estilos literários usados por Jorge Amado de uma forma poética e grapiúna, dialogando com os pés na terra, viajando por toda complexificação do flutuar de teorias, usando aqui a ali alguma fonte teórica, mas mantendo em suas leituras dos saberes a base maior para o entendimento do autor: sua fortuna crítica literária. Do ponto de vista crítico é marcante como esse conjunto de ensaios ou crônicas teorizantes sobre o amado escritor baiano adote como pano de pesquisa as obras do romancista e uma dose de referências a muitas ações conjuntas, de amizade, advindas das relações sociais, vivências e convivência no mundo grapiúna, no universo pré-místico do cacau, e que também inclui nelas a religiosidade trazida pelos descendentes de africanos, sobretudo a religião dos orixás, ijexá e dos Bantus de Angola e sul da África.

Os capítulos sobre o criador de personagens, o prosador e o poeta, não podem deixar de ser apreciados com cuidado, em razão de sua riqueza de detalhes.

Resulta esse livro de um conjunto de ensaios que produzem uma análise clara e imprescindível para o conhecimento da obra de Jorge Amado. O ensaísta Cyro distribui também farto conhecimento sobre os personagens masculinos e femininos. Aponta como ocorre a fusão entre engenho e arte para traçar o modo de construção desses protagonistas, tanto no romancista estudado como em outros da grandeza de Machado de Assis e Graciliano Ramos. Tem razão quando pergunta como esquecer Baleia, de Graciliano Ramos, Moby Dick, de Melville, Dona Flor ou Pedro Archanjo, do autor de Tenda dos Milagres, personagens que ocupam lugar de destaque na galeria das fascinantes criações de todos os tempos, eternizadas como referências obrigatórias na literatura ocidental.

Por fim, lembremos que Jorge Amado rompeu com o partido comunista, mas permaneceu, em toda sua dimensão de construção narrativa, ligado às verdades essenciais de um sistema organizado com feição igualitária. Podemos ver isso na delimitação de personagens, dentro da estética com mensagens de teor libertário conduzido para um mundo melhor. Escreveu neste sentido a fábula infantil O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, tão bem lembrada por Cyro em um de seus lúcidos ensaios. 

 

*Grapiúna é assim chamado o pioneiro ou o que nasceu no tempo da conquista da terra.  Ao longo dos anos, o termo passou a significar aos que se identificam com as tradições e valores de uma civilização criada com bases na lavra do cacau, no sul da Bahia.  

**Nelson Cerqueira é escritor, tradutor, poeta, professor doutor em Letras.

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quarta-feira, 3 de agosto de 2022

PURCINA MERGULHADA EM TREVAS - Ignácio de Loyola Brandão



É um volume pequeno, mas impacta e comove. Atualíssimo. Dona Purcina, a Matriarca dos Loucos, da Oficina da Palavra de Teresina, foi escrito com dor por Cineas Santos, filho desta matriarca nordestina, acolhedora e generosa. Por que a produção do Norte e Nordeste não chega a São Paulo e ao Rio? Há um vácuo e perdemos momentos de emoção. Purcina, figura complexa, autoritária, doce e feita de certezas. Diz Cineas que ela, simples doceira do sertão, 'com sua lógica enviesada, encontrava solução para os problemas mais complexos'. Acrescenta: 'Para os muitos que a amavam foi extremamente doloroso vê-la no final da vida, ausente de si mesma, sequestrada pelo mal de Alzheimer'.

Este livro se encontra ao lado de quatro volumes que considero fundamentais no gênero. O Álbum Branco, em que Joan Didion estuda o luto, e Noites Azuis, em que a mesma autora fala do envelhecimento e da senilidade; De Profundis, de José Cardoso Pires que sofreu um AVC, com perda total de memória; e Perto das Trevas, de William Styron, que mergulhou em profunda crise de depressão.

Cineas, em linguagem seca, fala da própria mãe com angústia, mas sem melodrama. Os momentos de apagão e lucidez. O dia em que ela gritou por socorro, estava com uma onça dentro do quarto. Na verdade, ela via a própria figura refletida em um espelho. Cobriram todos espelhos da casa. Ou quando, logo após negar água a um moleque, ela aconselhou o filho a jamais deixar de dá-la a um sedento. Outra vez, Cineas chegou: 'A bênção dona Purcina! Ela: Deus lhe dê vergonha. Cineas: A senhora sabe que dia é hoje? Ela: Não sou dona de dia nenhum. Cineas: 20 de setembro, dona Purcina, dia do aniversário de seu filho mais querido. Ela: Que filho? Ele: Eu. Ela: E quem lhe disse que você é meu filho? Cineas: Quer dizer que resolveu me desfilhar? Sou um sem mãe, sem rumo, sem tudo, um maior abandonado? Quem vai querer me adotar? Ela: Deixe de bestagem, você não é meu filho, é meu irmão. E devia dar graças a Deus. Cineas: Irmão? E que ganho isso? Ela: Se fosse meu filho, era obrigado a cuidar de mim, sendo irmão, cuida se quiser'. Percorremos instante a instante a agonia de uma memória que mergulha nas trevas.

Purcina é cuidada pela filha. 'Cuidar de alguém com Alzheimer é meio caminho para a loucura', diz o filho. E a mãe pirava, inquieta, agressiva, ansiosa. Não reconhecia mais a própria casa. Colocava três vestidos, um sobre o outro, para que não a roubassem, tomava sorvete e cuspia, dizendo que estava quente demais. Médicos deveriam ler esse livro, poético, humano. Quando romperemos esta muralha invisível que atravessa o meio do Brasil? E o Alzheimer? Terá cura um dia?

Um dia, gritou por socorro, tinha uma onça no quarto. Na verdade, ela via sua imagem no espelho.


Folha de S. Paulo, 31/07/2022

https://www.academia.org.br/artigos/purcina-mergulhada-em-trevas


Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11 da ABL, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.

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segunda-feira, 1 de agosto de 2022

 

Dísticos

Cyro de Mattos *



 

O bandolim

Tocou tanto para a lua no jardim

que ficou com as cordas de prata

 

A Garça

Em cima da pedra,

a noiva pernalta

 

Infância

O mundo é uma criança

com palhaço e lambança

 

O Grilo

Todo o peso terrestre

nesse cricri constante

 

O Beija-flor

Beijar e amar

essa a vida do ar

 

A Isca

Quando vem à tona

como se arrisca

 

Adivinha

No avião faz proezas  

e é o rei da criação?

 

A Poesia

Sentimento e pensamento

nos fios sem fim do sonho

 

O Cais

Água batendo

pedra em saudade

 

O Rio

Morrendo de sede

Cachoeira o seu nome

 

O Canário

Pinga cantiga no paraíso

começando de novo.

 

A Canção

Doce como a chuva

venha comigo se molhar

 

A Casa

As flores no vaso

a mesa só ternura 

 

A Harpa

Cativante nos céus

enquanto as nuvens sonham

 

O Pinto

Minúsculo amanhecer

no pio no trisco

 

Os Janeiros

A cidade de brinquedo

um tempo de frutas

 

As Formigas

De folhinha em folhinha

o amor pela natureza

 

 O Campeador

No meu burrico

venço a solidão

 

A Hiena

Gargalhada anuncia

o espectro da fome

 

O Cão

O meu cão em hino

músculos me festejam

 

A Avó

Saudade assim

fixa o ouro na memória

 

O Coqueiro

Abano do vento

folhas pestanejam

 

 

*Cyro de Mattos é ficcionista, poeta e ensaísta

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domingo, 31 de julho de 2022

RECORDAÇÕES DE UMA TERRA MARAVILHOSA - Carlos Pereira Filho



            Carlos Sousa, durante muitos anos, viveu em Itabuna. Teve roça de cacau, fazenda de pecuária, indústrias, e um grande número de amigos. Desfrutou das melhores condições sociais, políticas e econômicas. Não foi feliz, fracassou no comércio, na lavoura, na pecuária. Fracassou, onde todos prosperavam. Faliu, onde todos enriqueceram. Perdeu o nome, ele que poderia ser considerado um homem de bem e onde um simples trabalhador rural conseguia, em pouco tempo, o pomposo título de “coronel do cacau”, título de riqueza e consideração.

            Afastou-se de Itabuna, sem uma queixa, sem mágoa, sem ressentimento. Não havia amealhado o ouro, mas havia vivido numa terra maravilhosa, na convivência de seres humanos, dotados de qualidades, de inteligência, de capacidade de trabalho, um gênio empreendedor.

            Jamais poderia esquecer-se de Oscar Marinho, das suas palestras macias, sutis, maliciosas, da sua objetividade e daquela expressão que usava, quando confessava que tinha dois corações, um do lado direito, que funcionava para os negócios, outro do lado esquerdo, que funcionava para a vida do seu corpo. Carlos Sousa só possuía o coração do lado esquerdo.

            E de outros velhos companheiros, como Zacarias de Sousa Freire, de Ápio Lopes, Nicodemos Barreto, Artur Nilo de Santana, Astério Rebouças, Alfeu Suzart de Carvalho, Martinho Conceição, lutadores do progresso itabunense. Isto para não falar mais do Tourinho da farmácia, das suas palestras, das suas má-criações.

            Nunca ouviu Tourinho falar bem de um companheiro. Dos santos, ele só se referia bem a São José; ao resto não dava a menor atenção. Num tempo em que todo mundo respeitava os “responsos” do Moura Teixeira, para curar moléstias e picadas de serpentes, Tourinho mangava abertamente desses “milagres”.

            Gente ordinária, Carlos Sousa havia também conhecido, em Itabuna, mas preferia esquecê-la, como aquele pecuarista do “Pau Vermelho”.

            Que homem estúpido, malcriado, cheio de si, como se ele no invés do dinheiro, valesse alguma coisa. Também essa gente servia para contraste. Se não fosse um cidadão miserável como esse, como poderia avaliar a bondade de um cidadão, como foi Astério Rebouças?

            Tudo isso pertencia ao passado. Agora, em outra terra, Carlos Sousa tratava de uma vida, exercia outras atividades. O mundo não mudava. Sempre foi assim. No particular, Moura Teixeira talvez estivesse com a razão, quando afirmava que, neste vale de lágrimas, a vida é passageira, é uma provação.

            Em Itabuna ele, Carlos Sousa, passara uma parte da sua vida. Certamente o espírito que vivia no seu corpo era aquele que lhe havia revelado, numa sessão, “D. Ceci”, o espírito de um insatisfeito. Um espírito  que lutava para possuir uma fortuna imensa, para acumular riqueza enorme. Tanto que se metia em dezenas de negócios, com uma ânsia desesperadora de enriquecer. Não se contentava com o pouco, queria muito, dominar o muito, e por isso mesmo caíra como pássaro sem asas. Antes assim. Pior seria que seu espírito fosse atormentado pela ganância furiosa e a sovinice miserável que dominavam aquele médico, Dr. Coriolano Antunes. Que monstruosidade, que sofrimento! O homem  só queria ganhar e não gastar. Era de uma miserabilidade incompreensível. E como sofria a sua mulher! Coitada, não tinha direito a nada, nem a se vestir, nem a comer, nem a se divertir e, ainda, era obrigada a suportar a falta de respeito do marido, com as amas, as visitas, que frequentavam a sua casa. Parecia a Carlos Sousa que a provação do Dr. Coriolano se revestia de uma pena mais severa, mais dura. Quantos corpos, quantas vidas, não necessitaria o espírito do Dr. Coriolano para purificar-se até ao ponto de estender a mão para dar uma esmola?

            Enfim Carlos Sousa não queria pensar muito nestas coisas, com medo de perder o juízo. Estava pobre e fora de Itabuna.

            Consolava-se, é verdade, com as revelações espiritualistas, mas, no fundo, tinha a certeza de que tudo isso era consequência da luta materialista e capitalista. Luta cruel da concorrência, na qual um empobrecia, outro enriquecia. Um acumulava, outro se esvaziava. Homens e nações se empenhavam nessa batalha tremenda de amontoar riquezas e, quando um homem, ou uma nação conseguia amealhar, outro homem e outra nação sofriam as consequências e eram levados à miséria. Os resultados se positivavam em desequilíbrios sociais que levavam à fome, às revoluções e à guerra, de quando em quando.

            Falava-se num mundo melhor que a Rússia estava criando. Não acreditava muito nesse mundo povoado pelos homens secularmente defeituosos.

            Os homens, como as feras, como as serpentes, possuíam qualidades que o nascimento dava e somente a cova tirava. Quantos homens, antes e depois de Cristo, tinham imaginado um mundo mais justo e mais tolerante, no qual a infância não sofresse e a velhice não permanecesse abandonada?

            A cobiça humana sepultava os sentimentos bons. Muitas vezes ele sonhava que a humanidade era um pantanal sem fim, no qual brotava, , de longe em longe, a flor da virtude representada num lírio, alvo, como a luz da manhã, que entrava pela janela do seu quarto na casa que morava â beira do oceano, no bairro proletário do Malhado, na cidade de Ilhéus. Pensava nestas coisas e se contentava. Afinal de contas a felicidade não estava na riqueza como não estava na pobreza. Encontrava-se na paz do espírito. Não havia nas suas mãos dinheiro que desse para comprar o que desejava de luxo ou capricho; existia, todavia, espaço para o seu espírito elevar-se, pairar no reino das coisas belas e maravilhosas, que somente a inteligência pode construir, para lenitivo e paz da consciência.

 

(TERRAS DE ITABUNA – Cap. XXIX)

Carlos Pereira Filho

HOJE: Motociata pró Bolsonaro em Niterói - Bruno Jonssen e Carlos Jordy