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segunda-feira, 11 de outubro de 2021

MAESTRO CHIQUINHO – Luiz Gonzaga Dias



Maestro Chiquinho I

 


E muitas vezes o luar de prata,

Viu-o vagueando pela noite fria.

Peregrino do belo em serenata,

E madrigais a deusa da harmonia.

 

A febre do talento ensandecia,

O artista em busca da riqueza abstrata

Com a razão, a glória lhe fugia

Cedo vencido pela sorte ingrata.

 

Vinha às vezes beijar-lhe a testa em fogo,

A musa amante condoída e terna,

Escutando o maestro, a angústia, e o rogo...

 

E noites solitário a luz da lua,

Da pauta escravo na tortura eterna,

Compunha sinfonias pela rua...

 

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Maestro Chiquinho II


 

Pela cidade a banda desfilava,

Na vibração dos dias festivais.

Sonoro o instrumental ao sol brilhava,

Desferindo harmonias marciais.

 

Na rua, roto, olhar parado, estava,

O Maestro e autor de peças magistrais.

Indiferente ao mundo que o cercava,

Nem mesmo o glória o importava mais.

 

- E a banda parou! Sentida a mágoa,

Invadiu corações – ninguém resiste,

À comoção que arrasa os olhos d’água.

 

Na festa agora, o entusiasmo é pouco...

A banda torna a sede, muda e triste:

 - O autor do dobrado estava louco!

 

Luiz Gonzaga Dias

(IMAGENS MUTILADA)

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O LEGADO DE ELVIRA FOEPPEL – Cyro de Mattos




 O Legado de Elvira Foeppel

 Cyro de Mattos

 

      Como Maura Lopes Cançado, autora de  O hospício é Deus (1965), diário, e O sofredor do ver (1968), contos, Elvira Foeppel deixou um legado literário pequeno, mas expressivo. Com Chão e poesia, pequeno volume com registros circunstanciais e anotações existenciais, fez a sua estreia em 1956, quando usa o diário como forma para exprimir a sua visão pessoal sobre o mundo. Nesses textos breves, já demonstra ser uma escritora preocupada com o indivíduo na condição do existir. Comparece ao chão de memórias curtas com pontos de vista pessoais, fazendo delas articulações agudas que ocupam espaços no sentido incomum de ambiguidades e ferimentos, entre a introversão e a denúncia de si mesma feita por um espírito inquieto, participante de uma força nova em nossa literatura.

       Com Círculo do medo, contos, 1960, essa escritora baiana nascida em  Ilhéus é saudada pela crítica como autora de textos inovadores no corpo da prosa de ficção breve desenvolvida entre nós. Elvira Foeppel introduz no conto elementos de vanguarda na estrutura e linguagem. O episódio, a trama, o ambiente, elementos presentes  numa prosa ficcional que se delineia objetiva, dependente de uma geografia humana exterior, em níveis horizontais no discurso, são abandonados para a construção de uma narrativa comprometida com a linguagem motivadora de mergulhos no fluxo da vida,  da atmosfera e do relevo dos personagens , que se aglutinam em torno de profunda percepção existencial, em cujo conteúdo o indivíduo emerge através dos conflitos universais, perpassados de angústia, náusea, solidão, amor, ódio e medo.

         Em Chão e poesia, a maneira de registrar a vida relaciona-se no campo expressivo próprio do eu inquietante, que comporta nos interiores pensamentos, divagações e pequenas percepções do mundo. Circulo do medo é o mundo ficcionalizado que se converte naquele espaço interior em que entram sentimentos atordoantes, sugestões que assaltam à mente carregadas de estranha beleza, além de exibir uma linguagem como instrumento de mergulho existencial destinado à criação de uma atmosfera, que quase sempre sufoca em sua morbidez. Observa-se que esse pequeno volume de contos é um repositório de peças de ficção sem didatismo do narrador onisciente, devaneios inúteis, informações do cotidiano ou lembranças sequenciadas no tempo sem verticalidades.  O que sobressai é o compromisso da autora em encarar a criação literária sem submissão à razão lógica. Inexiste assim o caso narrado através dos momentos de princípio, meio e fim, o tema que se impõe como resultado da recriação do real assentado na memória, no telurismo social ou nostálgico, no documento que revela a condição humana ligada ao urbano com os seus dramas diários adstritos à realidade circundante.

        Os desajustes, abandonos, desencontros e momentos críticos das criaturas inventadas por Elvira Foeppel situam-se no plano da poetização de um clima, armado por quem sabe revestir a vida em torno de uma aura estética ligada à própria existência humana. O estar no mundo desses personagens com sentimentos em conflito valoriza-se no que tem de mais profundo pela sensibilidade da ficcionista e em sua pesquisa da forma discursiva. Esta não se faz no que pretende sugerir com qualquer concessão ao leitor mediano. Podem ser destacados em Circulo do medo os contos “O fio metálico do ódio”, “O aleijado” e “Afinal lá estava ela” como exemplos de mais autêntico mergulho nos interiores obscuros da criatura humana.

        Muro frio, romance publicado em 1962, tem lugar assegurado em nossa novelística de renovação esteticista, numa época em que a literatura brasileira converge para procedimentos de vanguarda. Quando então romancistas, contistas e poetas procuram executar a arte literária no plano da linguagem e no significado incomum  da forma  pesquisada, assim como na ficcionalização da vida apurada pelos fios da sensibilidade, sugestões e pontuação psicológica, elementos que apresentam com a sua fisionomia bastante impregnada  de sentimentos obscuros  do mundo. É uma nova literatura que obriga o leitor a pensar a narrativa como um todo, destituída na sua  construção do dizer fácil, fluente e permeado de lugares comuns. Nesse particular, Elvira Foeppel insere-se em nosso contexto literário como transgressora de estrutura, numa hora em que a nossa ficção ainda não era plena de procedimentos proustianos, mansfieldianos, joycianos e faulknerianos. Justamente quando o nosso corpo literário passa a ser inovado e acrescido de qualidade estética por romancistas da grandeza de João Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Adonias Filho e do contista Samuel Rawet.

      Muro frio é um romance articulado com poesia, música e memória, centrado em uma mulher que retorna à sua cidade para alcançar e ferir, na sua maneira de ser, pessoas na rua. Exprime pensamentos que atritam com a existência, sinaliza a dor do nada, constata juízos e preconceitos que fazem emergir uma angústia consciente, na qual a vida não se justifica nem é motivada. Romance que, em sua narrativa subjetiva, formada de breves capítulos, estende na memória um passado que tritura a infância, sentimentos espontâneos e desejos verdadeiros. Apresenta momentos do presente que apertam o olhar agudo de Marta no que amplamente vê, nos rumores de tudo que não chega a compreender e que a desnuda através da agonia e insolência, conduzindo-a dessa forma por paisagens de subsolo que perturba, espaços ocultos e tortuosos, feitos de vertigem, verdades oblíquas e ferocidades perigosas.

      Romance que fantasia a natureza humana com dolorosos silêncios que oprimem, desvenda Marta, morta num sonho. Com o seu ritmo poético faz pulsar um corpo de mulher possuída de ruídos selvagens, enquadrada numa cidade velha e pequena, repetitiva e enfadonha. Lá, onde a vida qual muro frio levanta sinais e gritos que não alteram o ritmo do viver. O espetáculo nada generoso do tempo no relacionamento das pessoas nutre-se de uma atmosfera com mentiras e excessos.

          O estilo sugestivo, que a autora usa para criar o clima tecido de sensações e percepções amargas, no qual se situa Marta, projeta um campo metafórico perturbador, que funciona no texto verbal, trabalhado em nível da forma, como momento singular da nossa emancipação literária no terreno da linguagem. E isso se dá   num corpo com mãos femininas que tão bem sabem inventar a língua literária, habilmente usá-la na estilização do drama e do cotidiano, como são exemplos disso Rachel de Queiroz, Clarice Lispector, Helena Parente Cunha e Lígia Fagundes Telles.

           A arte literária de Elvira Foeppel chama a atenção também por ter a autora nascido no sul da Bahia e em nenhum momento eleger a civilização cacaueira com o seu modo singular de vida como tema do universo ficcional, a exemplo do que ocorre com os escritores Jorge Amado, Adonias Filho e outros com um legado de expressão consistente.  Nem sequer funde o regional com o espiritual em busca de alcançar o universal, nem une poesia e humanismo social para retratar a vida geograficamente localizada, dependente da realidade exterior.  Sua literatura é de construção poemática, por excelência, seu discurso também conceitua, afirma sem hesitar em seu fundo existencial, faz com o outro pense a vida em suas verticalidades, enigmas e abismos.  Passa longe de subjetivismos eleitos para insinuar geografias espirituais, solidões ou sensações frouxas de nosso ser-estar precário no mundo.

          A obra de Elvira Foeppel vem sendo estudada recentemente por Vanilda Mazzoni, que, juntamente, com Alicia Duhá Lose, resgatou boa parte do legado disperso, publicado no período de vinte e dois anos, compreendido entre março de 1950 e 1972, em periódicos de divulgação e amenidades. Esse trabalho cuidadoso resultou no livro Da sombra à luz, seleção de contos, publicado em 2005, pela Editus, editora da Universidade Estadual de Santa Cruz.

        Elvira Foeppel nasceu em Canavieiras, em 15 de agosto de 1923, mas com dois meses de idade a família transferiu-se para Ilhéus onde, na cidade de belas praias, passou a infância, adolescência e exerceu o magistério primário até transferir-se para o Rio de Janeiro. Foi colaboradora no Rio de Janeiro, com artigos e crônicas, das revistas “Leitura”, “Cadernos Brasileiros” e, com maior frequência, do “Suplemento Literário do Jornal do Brasil”, ao lado de José Edson Gomes, Judith Grossman, Reynaldo Jardim e Assis Brasil.  Seus contos participam de antologias no Brasil. Deixou inédito Íntimos da Morte, romance. Faleceu no Rio de Janeiro, em 28 de julho de 1998.

 

Leituras Sugeridas

FOEPPEL, Elvira. Chão e poesia, memórias curtas, Organização Simões Editora,  Rio de Janeiro, 1956.

 ---------------------- Círculo do medo, contos, Editora Leitura, Rio de Janeiro, 1960.

  ----------------------Muro frio, romance, Editora Leitura, Rio de Janeiro, 1961.

------------------------ Da sombra à luz, contos, seleção de Vanilda Salignac Mazzoni e Alícia Duhá Lose, Editus, editora da UESC, Ilhéus, Bahia, 2004.

MAZZONI, Vanilda. A violeta grapiúna, ensaio, Editus, Editora da UESC, Ilhéus, 2003.

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Cyro de Mattos é escritor e poeta. Membro efetivo das Academias de Letras da Bahia, de Itabuna e de Ilhéus. Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz. 

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sábado, 9 de outubro de 2021

DESENHOS DE ÂNGELO ROBERTO - Juarez Paraíso



 Desenhos de Ângelo Roberto

 Juarez Paraíso

 

            Ângelo Roberto é conhecido na Bahia como um Mestre do Desenho. São mais de cinquenta anos de prática intensiva na área do desenho de bico de pena, da ilustração e da caricatura. Embora tenha domínio da programação visual e da técnica de murais, pode-se dizer que Ângelo Roberto é essencialmente um desenhista, pela dedicação quase exclusiva e constante. Pertence à segunda geração de artistas modernos da Bahia, década de 1960. Realizou o curso oficial de pintura e os cursos livres de gravura, cerâmica e escultura da Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia, tendo convivido com   Riolan Coutinho, Helio Oliveira, José Maria, Henrique Oswald, Udo Knoff, Mendonça Filho, Mario Cravo Junior, Rescala, e muitos outros notáveis artistas, responsáveis, como ele mesmo, pela internacionalização da arte moderna na Bahia.

            O desenho é linguagem artística basilar, utilizada pelos artistas através dos tempos e em todas as áreas da realização plástico-visual. Como forma independente de linguagem plástica, emancipa-se a partir do Renascimento e com pontas de metal, grafites, tintas, luz, materiais tridimensionais, incisões, técnicas as mais diversas, tradicionais ou ultra modernas, realiza com os suportes apropriados a forma concebida pelo artista. Vencidos os preconceitos impostos pela ausência da cor e características do desenho acadêmico como expressão da forma sobre o suporte bidimensional, desenho linear, (do desenhista), de manchas (do pintor), de contrastes volumétricos, (do escultor), Picasso desenha com a luz e, na arte contemporânea, incluindo a fantástica contribuição do computador, vale qualquer recurso, vinculado ou não ao hibridismo reinante. Mas no momento em que são inventadas e disputadas as técnicas mais sofisticadas como desejo e marca de atualização técnica, o que mais seduz nos Desenhos de Ângelo Roberto é justamente a simplicidade dos meios, dos recursos técnicos. Prevalece a inteligência e a sensibilidade das soluções formais, transcendendo os limites do desenho tradicional para uma concepção comprometida com o conceito de design, pela presença constante da estruturação da forma, no sentido mais amplo do dualismo figura-fundo e da criatividade plástica.                         

            Depois de desenhar os mais variados temas, Ângelo Roberto concentra-se no desenho de cavalos. São 30 desenhos de excepcional qualidade plástica, formando um indivisível conjunto pela atração mutua de suas unidades. É como uma sequência cinematográfica, onde cada fotograma tem a sua autonomia e independência estética.  Elegância, agilidade, força, beleza e expressividade plástica é o que simboliza o cavalo, tema que desde a pré-história tem sido constante na história da arte. Em perfeita sincronização com a natureza, o artista transcende a beleza do animal, eternizando-a através dos processos da abstração plástica.

          Ângelo Roberto é principalmente um artista da linha e do tracejado, das impressionantes tramas de bico de pena. O contraste elegido é simples, mas eficaz. O completo domínio artesanal do artista tece uma incrível tessitura gráfica, um incrível trabeculado, estrutura linear composta por traços pacientemente superpostos, com mais ou menos transparência, jamais obstruindo a passagem da luz que emana do papel. A volumetria é reduzida e controlada com sutileza e o segredo está no controle da transparência e da natureza da textura visual, na dependência da acumulação e posição espacial do tracejado retilíneo, sendo notável as passagens da luz entre as figuras e o fundo. Mestre do bico de pena, Ângelo Roberto já produziu centenas de desenhos de grande beleza plástica (gráfica). Com os atuais desenhos demonstra uma prodigiosa imaginação e memória visual no desafio de um só tema e com o máximo de economia dos recursos materiais. Um sensível e intenso sentimento de harmonia emana da conjugação de linhas, atraindo o movimento do olhar, seduzido pela suavidade do ritmo criado pelo artista. A expressividade plástica sobrepõe-se à simples configuração temática, graças ao desenho despojado e contemplado pelo talento do artista, pela depurada percepção seletiva e notável poder de síntese, próprio dos grandes desenhistas figurativos.

            A anatomia natural é substituída pela anatomia artística. Assumindo a posição de frontalidade para as imagens naturais, o artista concebe a redução da cabeça conferindo mais força e elegância corporal. Com magistral interpretação, Ângelo Roberto utiliza-se do movimento continuo para a configuração básica da imagem virtual do cavalo, representando a  sua energia incontida, e, mesmo em posicionamento estático, o movimento dirigido cria as tensões visuais necessárias para a estruturação  rítmica do conjunto.  A dimensão do desenho torna-se espaço-temporal. O artista alcança a síntese dos movimentos pela constante modulação da linha, com dimensões e intensidades precisas e, ao contrário do congelamento da reprodução fotográfica do movimento, Ângelo Roberto pratica com talento e maestria os processos de abstração da forma natural, através da linha, das deformações dimensionais e da abstração monocromática.

             Nos atuais desenhos, o artista introduz suavemente a cor em alguns desenhos, mas também como forte contraponto à estrutura gráfica, quando o círculo de cor intensa cria um novo e poderoso fulcro de atração visual, com tendência a monopolizar a atenção do perceptor, não fosse a atração irresistível da riqueza formal dos cavalos. Ao contrário, contribui para intensificar o jogo de tensões visuais, enfatizando as distensões e contrações do movimento dirigido, do ritmo criado pelo artista. O círculo também cria o espaço cenográfico e de integralização temática, definindo a concepção espacial dos desenhos em termos de dupla composição, pois a visualização plástica imediata realiza-se no bidimensional pela frontalidade das imagens e pelo suporte branco do papel, branco que também pode ser percebido como profundidade espacial expandida para os limites da imaginação, quando interpretado o círculo como o Sol.

 

Juarez Paraíso

Artista plástico, Professor Emérito da Universidade Federal da Bahia, Membro da Academia de Letras da Bahia e da Associação Brasileira de Críticos de Arte

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sexta-feira, 8 de outubro de 2021

ITABUNA CENTENÁRIA UM SONETO: À Dinamene – Luís de Camões

 


À Dinamene

Luís de Camões

 

Alma minha gentil, que te partiste

Tão cedo desta vida descontente,

Repousa lá no Céu eternamente

E viva eu cá na Terra sempre triste.

 

Se lá no assento etéreo, onde subiste,

Memória desta vida se consente,

Não te esqueças daquele amor ardente

Que já nos olhos meus tão puro viste.

 

E, se vires que pode merecer-te

Alguma coisa a dor que me ficou

Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

 

Roga a Deus, que teus anos encurtou,

Que tão cedo de cá me leve a ver-te

Quão cedo de meus olhos te levou.

 




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Luís Vaz de Camões – o príncipe dos poetas portugueses e um dos maiores do mundo, nasceu em 1524 e faleceu, aos 56 anos, em 1580. Seu poema épico Os Lusíadas é justamente considerado uma das obras-primas do espírito humano e por isso o colocam ao lado de Homero e Vergílio. Disse o filósofo alemão Schlegel que Camões, sozinho, vale por uma literatura. Estudou em Coimbra. Frequentou a corte de D. João III, onde passou a cortejar a dama do Paço Dona Catarina de Athaide (a Natércia de seus versos). Esses amores o levaram à desgraça, à prisão e ao desterro, donde retornou com Os Lusíadas, aparecidos em julho de 1572. Lutou na África e na Índia. Escreveu também peças de teatro e poesias líricas, tão célebres quanto o seu poema épico. Seus sonetos são dos mais notáveis que se escreveram e bastariam eles para o consagrarem como um dos gênios da humanidade.

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quarta-feira, 6 de outubro de 2021

CNBB abre consulta sobre a Campanha de 2023!

LANÇAMENTO DO LIVRO "O GIGANTE E A BICICLETA E OUTRAS BELAS CRÔNICAS”

 


Às 19h, na quinta-feira, dia 14 de outubro de 2021, pela plataforma do Youtube e retransmitida pela rede Facebook.

Com: 

Cyro de Mattos

Ivo Korytowsky

Jane Hilda Badaró.

Participação Especial: Wilson Leite Mendes

Mediador: Pawlo Cidade


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terça-feira, 5 de outubro de 2021

CIRCUNSTÂNCIAS DE JOACI GOES – Cyro de Mattos



Circunstâncias de Joaci Goes

Cyro de Mattos

 

          Houve quem observasse que a discussão sobre o tema o intelectual e o homem pragmático nada oferece de produtivo, daí ficar relegada ao plano teórico superado. Contudo, não é tarefa simples estabelecer a noção sobre os limites entre os dois agentes, fazer o esclarecimento do que é ser intelectual, pensador da vida, e o sujeito usuário da práxis imediata, que vê o mundo pelas dimensões concretas das necessidades materiais.

          Quando um homem nasce, se vê numa circunstância concreta, na qual tem de viver como um ser social, atravessar pontes para construir uma de suas dimensões, por consequência histórica. Como vínculo de gravidade, está conectado a um aqui e um agora em que lhe coube viver. Por ser uma combinação de valores, sua historicidade é um modo de submissão a ser isto ou aquilo, pois viver é estar numa circunstância crítica e nela fazer determinadas coisas com exclusão de todas as outras.

          O homem pode ser encontrado com uma personalidade versátil no seu estar no mundo, atuar como pensador da vida e ser o agente que dá importância aos valores materiais. É possível vê-lo no horizonte histórico do viver e no fundo pessoal da vocação, que tende para a vida pragmática. É com a vocação que incide na afirmação e faz da vida humana individual um acréscimo importantíssimo do destino como ser gregário, usuário do pensamento e do sentimento, atributos que são pertencentes a ele mesmo.

          Essas considerações vêm à mente quando lembro de companheiros de minha geração, que se destacaram com seus atributos pessoais na escala da vida e, entre eles, o moço Joaci Goes, que conheci no Colégio da Bahia (Central), nos idos de 1955. Cursávamos o clássico, era um ano mais adiantado do que ele. Às vezes encontrava com o moço na biblioteca do colégio, ele com os olhos mergulhados sobre algum livro que tratasse do conhecimento humano cujo autor e tema lhe chamassem a atenção. Em outro momento, no papo fraternal, era para me aconselhar que não deixasse de ler O Espirito das Leis, de Montesquieu, um dos livros fundamentais do Iluminismo, básico para a inspiração do estado moderno com os três poderes independentes, e O Contrato Social, de Rousseau, o livro que inspirou a Revolução Francesa e motivou o célebre lema da igualdade, fraternidade e liberdade. E ainda mais: A Vigésima Quinta Hora, de Constantin Virguil Gheorghiu, o romancista romeno que nos mostrava a expressão da dor com os horrores da guerra, afundando o homem no abismo da razão e na negação absurda do sentimento da liberdade.

          Tempos depois encontraria o intelectual inquieto na Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia. Ele sempre com aquele espírito animado para discutir com os colegas sobre temas de filosofia, sociologia e literatura. Com o instrumental que conseguiu armazenar sobre diversos campos do conhecimento, só poderia se destacar como um universitário virtuoso, dotado de ideias, conhecedor da problemática social do indivíduo e de outras linguagens que ensinam a leitura do mundo em termos axiológicos.

          Compareceu com artigos lúcidos às páginas da revista Ângulos, do Centro Acadêmico Rui Barbosa, cujo editor era o acadêmico João Eurico Matta, um mito entre os universitários. A revista tinha como colaboradores o professor Antônio Luís Machado Neto, o cineasta Glauber Rocha, os poetas João Carlos Teixeira Gomes e Florisvaldo Mattos, o pensador marxista Carlos Nelson Coutinho, o crítico literário Davi Sales, os ficcionistas João Ubaldo Ribeiro e Sônia Coutinho, o ativista político Nemésio Sales e tantos outros.

          Diplomado na turma de 1962, da gloriosa Faculdade de Direito da UFBA, com o canudo na bagagem e o anel no dedo, regressei ao interior para exercer a profissão de advogado. Em minha terra natal, seguia alguns companheiros de geração em Salvador, que tomaram rumos diversos. De Joaci soube que se tornara empresário bem-sucedido, jornalista respeitável, articulista dos bons, fundador de jornal importante na imprensa soteropolitana.

          Quis o destino que me encontrasse com ele na Academia de Letras da Bahia. Era o espaço que encontrara em boa hora para escrever páginas valorosas de sua biografia, fazer acréscimos de natureza cultural à honrosa instituição e exercer uma faceta que eu ainda não conhecia, a do orador de dicção envolvente, que unia sem esforço, na palavra eloquente, fácil, a memória prodigiosa à erudição com citações certeiras de autores universais. Nessa ocasião não faltava o humor para tirar do sério os que ouviam o orador vestido de crenças e verdades, histórias e fatos memoráveis, que a todos hipnotizava.

          De uns anos para cá tornou-se ensaísta de primeira linha, autor de alentados volumes com estudos críticos sobre os gigantes da alma, como A Inveja Nossa de Cada Dia e Anatomia do Ódio. Em A Força da Vocação no Desenvolvimento das Pessoas, publica uma espécie de dicionário em que analisa cinquenta e uma personalidades marcantes do país. Ao perceber uma carência de títulos no mercado que ensinassem como governar um município, estado, ou mesmo um país, o baiano Joaci Góes desenvolveu alguns estudos e assim criou um corpo de ideias para lançar o seu próprio livro sobre o assunto: Como Governar um Estado.

          Bom saber que como ensaísta de temas que acompanham o homem ao curso dos tempos vem tendo boa receptividade no ambiente cultural brasileiro, em especial entre os expoentes da crítica especializada.

 

          *Cyro de Mattos é autor de 80 livros, de diversos gêneros. É também publicado em Portugal, Itália, França, Espanha, Alemanha, Dinamarca, Rússia e Estados Unidos. Membro da Academia de Letras da Bahia, Ordem do Mérito do Governo da Bahia, Pen Clube do Brasil e Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Distinguido com a Medalha Zumbi dos Palmares da Câmara de Vereadores de Salvador. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México.

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