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terça-feira, 7 de setembro de 2021
sexta-feira, 3 de setembro de 2021
O CORAÇÃO SELVAGEM DE CLARICE LISPECTOR - Cyro de Mattos
Cyro de Mattos
Quando estreou aos 23 anos com Perto do coração
selvagem (1943), Clarice Lispector causou impacto no ambiente literário e
na crítica especializada da época. É que o romance vinha com um discurso
diferente do que a tradição costumava conceber e executar no texto com bases no
psicologismo e nas referências dominantes da realidade social, fosse o contexto
da narrativa no meio urbano ou rural.
O romance abolia o tempo linear e usava o fluxo de
consciência para que a personagem no pensamento exprimisse suas incertezas e
tormentos. Nas circunstâncias do tempo exterior passava a ser vista por meio de
outro discurso, que fazia indagações sobre um coração selvagem, pulsando sem
encontrar algo que o fizesse em harmonia com o mundo.
A ficcionista inovadora chegava para revolucionar na forma
de contar a vida de Joana, personagem de caráter impulsivo, destemida, que
tentava encontrar a sua verdade na vida. Não gostava de pessoas bondosas e de
maneiras agradáveis. Desde pequena sente-se deslocada da vida exterior, adulta
se vê tomada pelas incertezas de como aconteciam suas maneiras de ser perante a
existência.
Ao escrever sobre a vida de Joana, que ficou sem a mãe e o
pai, a autora, sem o uso do tempo linear, mostrava com a aproximação do leitor
às circunstâncias existenciais da personagem como se contraponteavam as
relações críticas de uma mulher no contexto familiar. Clarice Lispector não
queria mais a fabulação e a linguagem tecidas com a coerência da ordem
exterior, mas como fatores mutilados pela desordem inventiva do sistema verbal,
a frase construída com a veemência de inconsequências, incoerências formais que
preferem dialogar no silêncio, meditar com o vazio, pois é no vazio que se
passa o tempo. Como certa vez ela disse em Onde estivestes de noite?
(1974, página 34), “mas quando se trata da vida mesmo – quem nos ampara? – pois
cada um é um. E cada vida tem que ser amparada por essa própria vida desse
cada-um.”
Tentando pôr em frases a mais oculta e sutil sensação,
desobedecendo a necessidade exigente de veracidade, Clarice Lispector
permitia-se em seu romance de estreia apenas a transmissão da continuidade do
clima narrativo. Com expressão própria e pioneira elaborava um discurso
que conservava a linguagem dizendo o máximo no mínimo da frase, com cortes
poéticos de dor pesada. Operava a palavra como lâmina, a causar
profundidades na leitura arguta que empreendia sobre os seres vivos e as coisas
permanentes, nas relações e nos estados de alma em que o coração selvagem vibra
e emerge de desafios e anseios.
O romance de estreia de Clarice Lispector não se
processa como simples relatório amparado por linguagem sedutora e enredo que
prende para o entretenimento. Para a autora, até na lírica do trivial se requer
do romance invenção na forma de romper com os meios tradicionais de narrar uma
história, oferecer acontecimentos que nem sempre resvalam por caminhos
previsíveis, fáceis de apreensão pelo leitor apressado, que não consegue
vislumbrar o sonho quando o processo criativo usa de reticências para dizer da
existência. Por temperamento, vê-se incapaz de tocar em assuntos como a náusea,
por exemplo, com um enfoque provido de introspeção na frase, pois sempre
transmite assim sensação de que a história não tem
desfecho lógico decorrente do feito extraordinário.
O desconhecido vicia em Clarice Lispector, o que revela é
tão novo, surpreendente, que se tem a impressão de que raros ficcionistas entre
nós tenham realizado como ela a proeza de falar do nada para desvendar o
tudo. De descobrir pulsações onde existem reflexos da vida no estreitamento do
peito, como se os batimentos do coração ocorressem com o seu brilho aceso para
iluminar a parte noturna do ser, de tal modo as situações emergem de um espelho
humano com suas possíveis refrações. Para tanto é preciso meditar com o
silêncio e dialogar com o vazio para extrair dessa ligação novos sentidos do mundo.
Não se queira em Clarice Lispector de Perto do coração
selvagem uma história representativa de vida, que tenha começo na
sequência cronológica do tempo, motivada pelos feitos extraordinários
desdobrados para um final coerente. A abstração na lógica do real se dá
porque a criatura humana é o ser do tempo. É cíclica a existência, que não tem
princípio nem fim. Seus personagens atormentados agora procedem às
avessas na órbita objetiva das circunstâncias abstraídas da realidade
exterior.
Vale lembrar que, no novo cenário herdado dos escombros de
duas avassaladoras guerras mundiais, o existencialismo era a concepção de mundo
que a filosofia oferecia para o ser humano caminhar no que parecia ser o abismo
da razão. Dentro dessa nova corrente de pensar o homem na órbita de suas
circunstâncias existenciais, Heidegger tem a concepção de que a criatura humana
é um ser do tempo, para Sartre um ser da morte. A concepção da vida nessas
formas existenciais do pensamento iria ser aproveitada por alguns de nossos ficcionistas
no plano de suas criações.
Em Adonias Filho, o homem trágico era transportado da
Grécia para viver na infância da selva situada no sul da Bahia, submisso às
forças do destino, que o tratavam como um servo da morte em ambiente primitivo.
O romancista de Memória de Lázaro reproduzia a concepção de Faulkner
quando afirmava que o ser humano construía o seu destino trágico, era ele mesmo
o agente da infelicidade e da loucura, das forças que o levam à dor e às
paixões. Em Clarice Lispector, as essencialidades humanas permaneciam
mergulhadas no silêncio e no vazio das coisas destituídas de datas. Como
ser do tempo, o homem não é divisível porque movimenta-se dentro do
tempo, habita um território sem limites, em silêncio, quando e onde apenas ele
é.
Como elo de um ciclo que existe entre as coisas vivas e as
não vivas, transita ao largo de uma sofrida aprendizagem até se encontrar
definitivamente na união sensual do dia para a sua hora mais
crepuscular.
*Cyro de Mattos é ficcionista, poeta e ensaísta. Autor de mais de 50 obras pessoais, de diversos gêneros. Premiado no Brasil e exterior. Membro da Academia de Letras da Bahia, Pen Clube do Brasil e Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. Distinguido com a Medalha Zumbi dos Palmares da Câmara de Vereadores de Salvador. Primeiro Doutor Honoris Causa da UESC. Publicado também em Portugal, Itália, França, Alemanha, Espanha e nos Estados Unidos.
* * *
quinta-feira, 2 de setembro de 2021
MURMÚRIOS DA TARDE – Castro Alves
Murmúrios da Tarde
Castro Alves
Rosa! Rosa de amor purpúrea e bela.
Garret
Ontem à tarde, quando o sol morria,
A natureza era um poema santo,
De cada moita a escuridão saía,
De cada gruta rebentava um canto,
Ontem à tarde, quando o sol morria.
Do céu azul na profundeza escura
Brilhava a estrela, como um fruto louro,
E qual a foice, que no chão fulgura,
Mostrava a lua o semicírculo d’ouro,
Do céu azul na profundeza escura.
Larga harmonia embalsamava os ares!
Cantava o ninho – suspirava o lago...
E a verde pluma dos sutis palmares
Tinha das ondas o murmúrio vago...
Larga harmonia embalsamava os ares.
Era dos seres a harmonia imensa,
Vago concerto de saudade infinda!
“Sol – não me deixes”, diz a vaga extensa,
”Aura – não fujas”, diz a flor mais linda;
Era dos seres a harmonia imensa!
“Leva-me! Leva-me em teu seio amigo”
Dizia às nuvens o choroso orvalho,
“Rola que foges”, diz o ninho antigo,
“Leva-me ainda para um novo galho...”
“Leva-me! Leva-me em teu seio amigo.”
“Dá-me inda um beijo, antes que a noite venha!
“Inda um calor, antes que chegue o frio...”
E mais o musgo se conchega à penha
E mais às penha se conchega o rio...
“Dá-me inda um beijo, antes que a noite venha!”
E tu no entanto no jardim vagavas,
Rosa de amor, celestial Maria...
Ai! Como esquiva sobre o chão pisavas,
Ai! Como alegre a tua boca ria...
E tu no entanto no jardim vagavas.
Eras a estrela transformada em virgem!
Eras um anjo que se fez menina!
Tinhas das aves a celeste origem.
Tinhas da lua a palidez divina,
Eras a estrela transformada em virgem!
Flor! Tu chegaste de outra flor mais perto,
Que bela rosa! Que fragrância meiga!
Dir-se-ia um riso no jardim aberto,
Dir-se-ia um beijo que nasceu na veiga...
Flor! Tu chegaste de outra flor mais perto!...
E eu que escutava o conversar das flores,
Ouvi que a rosa murmurava ardente:
“Colhe-me, ó virgem, - não terei mais dores,"
“Guarda-me, ó bela, no teu seio quente...”
E eu escutava o conversar das flores,
“Leva-me! Leva-me, ó gentil Maria!”
Também então eu murmurei cismando...
“Minh’alma é rosa, que a geada esfria...
“Dá-lhe em teus seios um asilo brando...
“Leva-me! Leva-me, ó gentil Maria!...”
Rio de Janeiro, 12 de outubro de 1869
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Antônio de Castro Alves nasceu na comarca de Cachoeira, Estado da Bahia, a 14 de abril de 1847, sendo filho do médico Antônio Alves e de sua mulher, D. Clélia Brasília da Silva Castro. Faleceu na cidade do Salvador a 6 de julho de 1871. Na expressão de Afrânio Peixoto Castro Alves “Pôs suas ideias à frente do seu sentimento e, num tempo em que a miséria da escravidão não comovia ninguém, despertou com os seus poemas arrebatadores, piedosos ou indignados, a sensibilidade humana e patriótica da geração que, vinte anos mais tarde, viria a conseguir a liberdade. Por isso lhe deram o nome invejável de Poeta dos Escravos. Das alturas do seu gênio compreendera que não há grande homem sem uma grande causa social a que tenha servido, e não aspirava a outra glorificação que a dessa obra realizada. A morte, depois, não importaria...
De tumba da infâmia erguer um povo
Fazer de um verme – um rei.
Depois morrer... que a vida está completa
- Rei ou tribuno. César ou poeta,
Que mais quereis, depois?
Basta escutar do fundo lá da cova
Dançar em vossa lousa a raça nova
Libertada por vós...”
* * *
quarta-feira, 1 de setembro de 2021
O DESERTO E AS FORMAS - Marco Lucchesi
O deserto e as formas
Marco Lucchesi
Como definir a experiência do deserto, senão através de
aparente recorrência?
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A tautologia surgiu no coração do deserto. Um anjo disse: A
= A. Mas quando veio o diabolus, descobrimos a cifra de um paraíso
perdido. A ≠ B.
*
O deserto, antes dele. O deserto, dentro dele. O
pós-deserto. Três mundos que divergem, irredutíveis. A soma de matéria
incandescente.
*
Deserto: um texto em branco cheio de impurezas. O mistério
da noite que um cego vislumbra. A estática o precede, mudo e ruidoso. O nada é
pura fonte de eloquência.
*
O que se perde se concentra no infinito.
*
Três desertos me habitam. Síria, Marrocos, Mauritânia. Três
vozes que me ferem, inapeláveis.
*
O raso e o profundo se convertem mutuamente no deserto de
areia. Até as dunas não passam da dinâmica interna do Mesmo. Altura provisória.
Ondulação.
*
Deserto. Desejo. O corpo do céu. Toda a extensão moveu-se
para os sonhos. O timbre dessas vozes me descentra.
*
Cruzar o deserto é como habitar o lado escuro da metáfora. A
potência da potência. Tudo e nada.
*
Medir o índice subjetivo dos trânsfugas que acorrem ao
deserto.
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O deserto como ponto de encontro. O deserto como ponto de
fuga.
*
A solidão de um casto criminoso. Ou o pecado de virgínea
solidão?
*
Nenhum deserto é vazio. Nenhuma solidão, solitária. Nem
mesmo a morte foge à inscrição da história.
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A impossível transição do deserto rumo ao Nada.
*
O deserto dos místicos. O deserto dos santos. O deserto de
ladrões e assassinos. Terra de não-lugar. Sonho de transumância.
*
O deserto é desejo. Não possui geografia a aspiração de
habitá-lo. O deserto não é o infinito em ato. Se muito, um infinito
potencial.
*
Pensar o deserto e desejá-lo. Fome de libertação. Um mundo
entre realidade e sonho: α-mundo. Assim, enquanto houver deserto, há esperança.
*
Andrógino o deserto: meridiana ambiguidade. O tempo, imóvel,
lembra a eternidade. A parte e o todo permanecem indiscerníveis.
*
O desvio para o vermelho chama-se aqui desvio do amarelo
alaranjado. Cada grão de areia, uma galáxia.
*
Como guardar a diferença na entropia?
*
Não há história capaz de abranger o deserto. Apenas o mundo
marinho, estático e semovente, de Débussy.
*
Ninguém se afoga no deserto de pedra, conquanto é certo o
naufrágio em deserto de areia. A redundância da paisagem. O vento como alma do
Mesmo.
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Contra o deserto, o princípio de individuação. Se água ou
terra pouco importa. Porque o deserto um dia já foi mar.
Revista Humanitas, 30/08/2021
https://www.academia.org.br/academicos/marco-lucchesi
Marco Lucchesi - Sétimo ocupante da cadeira nº 15 da ABL, eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila, foi recebido em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha. Foi eleito Presidente da ABL para o exercício de 2018.
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