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sexta-feira, 3 de setembro de 2021

O CORAÇÃO SELVAGEM DE CLARICE LISPECTOR - Cyro de Mattos



O Coração Selvagem de Clarice Lispector 

Cyro de Mattos


          Quando estreou aos 23 anos com Perto do coração selvagem (1943), Clarice Lispector causou impacto no ambiente literário e na crítica especializada da época. É que o romance vinha com um discurso diferente do que a tradição costumava conceber e executar no texto com bases no psicologismo e nas referências dominantes da realidade social, fosse o contexto da narrativa no meio urbano ou rural. 

           O romance abolia o tempo linear e usava o fluxo de consciência para que a personagem no pensamento exprimisse suas incertezas e tormentos. Nas circunstâncias do tempo exterior passava a ser vista por meio de outro discurso, que fazia indagações sobre um coração selvagem, pulsando sem encontrar algo que o fizesse em harmonia com o mundo.   

          A ficcionista inovadora chegava para revolucionar na forma de contar a vida de Joana, personagem de caráter impulsivo, destemida, que tentava encontrar a sua verdade na vida. Não gostava de pessoas bondosas e de maneiras agradáveis. Desde pequena sente-se deslocada da vida exterior, adulta se vê tomada pelas incertezas de como aconteciam suas maneiras de ser perante a existência.      

          Ao escrever sobre a vida de Joana, que ficou sem a mãe e o pai, a autora, sem o uso do tempo linear, mostrava com a aproximação do leitor às circunstâncias existenciais da personagem como se contraponteavam as relações críticas de uma mulher no contexto familiar. Clarice Lispector não queria mais a fabulação e a linguagem tecidas com a coerência da ordem exterior, mas como fatores mutilados pela desordem inventiva do sistema verbal, a frase construída com a veemência de inconsequências, incoerências formais que preferem dialogar no silêncio, meditar com o vazio, pois é no vazio que se passa o tempo. Como certa vez ela disse em Onde estivestes de noite?  (1974, página 34), “mas quando se trata da vida mesmo – quem nos ampara? – pois cada um é um. E cada vida tem que ser amparada por essa própria vida desse cada-um.” 

          Tentando pôr em frases a mais oculta e sutil sensação, desobedecendo a necessidade exigente de veracidade, Clarice Lispector permitia-se em seu romance de estreia apenas a transmissão da continuidade do clima narrativo.  Com expressão própria e pioneira elaborava um discurso que conservava a linguagem dizendo o máximo no mínimo da frase, com cortes poéticos de dor pesada. Operava a palavra como lâmina, a causar profundidades na leitura arguta que empreendia sobre os seres vivos e as coisas permanentes, nas relações e nos estados de alma em que o coração selvagem vibra e emerge de desafios e anseios.    

           O romance de estreia de Clarice Lispector não se processa como simples relatório amparado por linguagem sedutora e enredo que prende para o entretenimento. Para a autora, até na lírica do trivial se requer do romance invenção na forma de romper com os meios tradicionais de narrar uma história, oferecer acontecimentos que nem sempre resvalam por caminhos previsíveis, fáceis de apreensão pelo leitor apressado, que não consegue vislumbrar o sonho quando o processo criativo usa de reticências para dizer da existência. Por temperamento, vê-se incapaz de tocar em assuntos como a náusea, por exemplo, com um enfoque provido de introspeção na frase, pois sempre transmite assim  sensação de que a história não tem desfecho lógico decorrente do feito extraordinário.  

          O desconhecido vicia em Clarice Lispector, o que revela é tão novo, surpreendente, que se tem a impressão de que raros ficcionistas entre nós tenham realizado como ela a proeza de falar do nada para desvendar o tudo. De descobrir pulsações onde existem reflexos da vida no estreitamento do peito, como se os batimentos do coração ocorressem com o seu brilho aceso para iluminar a parte noturna do ser, de tal modo as situações emergem de um espelho humano com suas possíveis refrações.  Para tanto é preciso meditar com o silêncio e dialogar com o vazio para extrair dessa ligação novos sentidos do mundo. 

          Não se queira em Clarice Lispector de Perto do coração selvagem uma história representativa de vida, que tenha começo na sequência cronológica do tempo, motivada pelos feitos extraordinários desdobrados para um final coerente.  A abstração na lógica do real se dá porque a criatura humana é o ser do tempo. É cíclica a existência, que não tem princípio nem fim. Seus personagens atormentados agora procedem às avessas na órbita objetiva das circunstâncias abstraídas da realidade exterior.   

          Vale lembrar que, no novo cenário herdado dos escombros de duas avassaladoras guerras mundiais, o existencialismo era a concepção de mundo que a filosofia oferecia para o ser humano caminhar no que parecia ser o abismo da razão. Dentro dessa nova corrente de pensar o homem na órbita de suas circunstâncias existenciais, Heidegger tem a concepção de que a criatura humana é um ser do tempo, para Sartre um ser da morte. A concepção da vida nessas formas existenciais do pensamento iria ser aproveitada por alguns de nossos ficcionistas no plano de suas criações.  

          Em Adonias Filho, o homem trágico era transportado da Grécia para viver na infância da selva situada no sul da Bahia, submisso às forças do destino, que o tratavam como um servo da morte em ambiente primitivo. O romancista de Memória de Lázaro reproduzia a concepção de Faulkner quando afirmava que o ser humano construía o seu destino trágico, era ele mesmo o agente da infelicidade e da loucura, das forças que o levam à dor e às paixões. Em Clarice Lispector, as essencialidades humanas permaneciam mergulhadas no silêncio e no vazio das coisas destituídas de datas.  Como ser do tempo, o homem não é divisível porque movimenta-se dentro do tempo, habita um território sem limites, em silêncio, quando e onde apenas ele é.  

          Como elo de um ciclo que existe entre as coisas vivas e as não vivas, transita ao largo de uma sofrida aprendizagem até se encontrar definitivamente na união sensual do dia para a sua hora mais crepuscular.   



*Cyro de Mattos é ficcionista, poeta e ensaísta. Autor de mais de 50 obras pessoais, de diversos gêneros. Premiado no Brasil e exterior. Membro da Academia de Letras da Bahia, Pen Clube do Brasil e Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. Distinguido com a Medalha Zumbi dos Palmares da Câmara de Vereadores de Salvador. Primeiro Doutor Honoris Causa da UESC. Publicado também em Portugal, Itália, França, Alemanha, Espanha e nos Estados Unidos.

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quinta-feira, 2 de setembro de 2021

MURMÚRIOS DA TARDE – Castro Alves

 


Murmúrios da Tarde

Castro Alves

 

                    Rosa! Rosa de amor purpúrea e bela.

                                                                            Garret

 

Ontem à tarde, quando o sol morria,

A natureza era um poema santo,

De cada moita a escuridão saía,

De cada gruta rebentava um canto,

Ontem à tarde, quando o sol morria.

 

Do céu azul na profundeza escura

Brilhava a estrela, como um fruto louro,

E qual a foice, que no chão fulgura,

Mostrava a lua o semicírculo d’ouro,

Do céu azul na profundeza escura.

 

Larga harmonia embalsamava os ares!

Cantava o ninho – suspirava o lago...

E a verde pluma dos sutis palmares

Tinha das ondas o murmúrio vago...

Larga harmonia embalsamava os ares.

 

Era dos seres a harmonia imensa,

Vago concerto de saudade infinda!

“Sol – não me deixes”, diz a vaga extensa,

”Aura – não fujas”, diz a flor mais linda;

Era dos seres a harmonia imensa!

 

“Leva-me! Leva-me em teu seio amigo”

Dizia às nuvens o choroso orvalho,

“Rola que foges”, diz o ninho antigo,

“Leva-me ainda para um novo galho...”

“Leva-me! Leva-me em teu seio amigo.”

 

“Dá-me inda um beijo, antes que a noite venha!

“Inda um calor, antes que chegue o frio...”

E mais o musgo se conchega à penha

E mais às penha se conchega o rio...

“Dá-me inda um beijo, antes que a noite venha!”

 

E tu no entanto no jardim vagavas,

Rosa de amor, celestial Maria...

Ai! Como esquiva sobre o chão pisavas,

Ai! Como alegre a tua boca ria...

E tu no entanto no jardim vagavas.

 

Eras a estrela transformada em virgem!

Eras um anjo que se fez menina!

Tinhas das aves a celeste origem.

Tinhas da lua a palidez divina,

Eras a estrela transformada em virgem!

 

Flor! Tu chegaste de outra flor mais perto,

Que bela rosa! Que fragrância meiga!

Dir-se-ia um riso no jardim aberto,

Dir-se-ia um beijo que nasceu na veiga...

Flor! Tu chegaste de outra flor mais perto!...

 

E eu que escutava o conversar das flores,

Ouvi que a rosa murmurava ardente:

“Colhe-me, ó virgem, - não terei mais dores,"

“Guarda-me, ó bela, no teu seio quente...”

E eu escutava o conversar das flores,

 

“Leva-me! Leva-me, ó gentil Maria!”

Também então eu murmurei cismando...

“Minh’alma é rosa, que a geada esfria...

“Dá-lhe em teus seios um asilo brando...

“Leva-me! Leva-me, ó gentil Maria!...”

 

                    Rio de Janeiro, 12 de outubro de 1869

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Antônio de Castro Alves nasceu na comarca de Cachoeira, Estado da Bahia, a 14 de abril de 1847, sendo filho do médico Antônio Alves e de sua mulher, D. Clélia Brasília da Silva Castro. Faleceu na cidade do Salvador a 6 de julho de 1871. Na expressão de Afrânio Peixoto Castro Alves “Pôs suas ideias à frente do seu sentimento e, num tempo em que a miséria da escravidão não comovia ninguém,  despertou com os seus poemas arrebatadores, piedosos ou indignados, a sensibilidade humana e patriótica da geração que, vinte anos mais tarde, viria a conseguir a liberdade. Por isso lhe deram o nome invejável de Poeta dos Escravos. Das alturas do seu gênio compreendera que não há grande homem sem uma grande causa social a que tenha servido, e não aspirava a outra glorificação que a dessa obra realizada. A morte, depois, não importaria...

 

De tumba da infâmia erguer um povo

Fazer de um verme – um rei.

Depois morrer... que a vida está completa

- Rei ou tribuno. César ou poeta,

Que mais quereis, depois?

Basta escutar do fundo lá da cova

Dançar em vossa lousa a raça nova

Libertada por vós...”

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BRASIL SUA LUTA NÁO É CONTRA O SANGUE E NEM CONTRA. A CARNE, MAS CONTRA ...

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

O DESERTO E AS FORMAS - Marco Lucchesi


 

O deserto e as formas

Marco Lucchesi

 

Como definir a experiência do deserto, senão através de aparente recorrência?

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A tautologia surgiu no coração do deserto. Um anjo disse: A = A.  Mas quando veio o diabolus, descobrimos a cifra de um paraíso perdido. A ≠ B.

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O deserto, antes dele. O deserto, dentro dele. O pós-deserto. Três mundos que divergem, irredutíveis. A soma de matéria incandescente. 

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Deserto: um texto em branco cheio de impurezas. O mistério da noite que um cego vislumbra. A estática o precede, mudo e ruidoso. O nada é pura fonte de eloquência.  

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O que se perde se concentra no infinito.

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Três desertos me habitam. Síria, Marrocos, Mauritânia. Três vozes que me ferem, inapeláveis.

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O raso e o profundo se convertem mutuamente no deserto de areia. Até as dunas não passam da dinâmica interna do Mesmo. Altura provisória. Ondulação.

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Deserto. Desejo. O corpo do céu. Toda a extensão moveu-se para os sonhos. O timbre dessas vozes me descentra.

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Cruzar o deserto é como habitar o lado escuro da metáfora. A potência da potência. Tudo e nada.

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Medir o índice subjetivo dos trânsfugas que acorrem ao deserto.

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O deserto como ponto de encontro. O deserto como ponto de fuga.

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A solidão de um casto criminoso. Ou o pecado de virgínea solidão?

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Nenhum deserto é vazio. Nenhuma solidão, solitária. Nem mesmo a morte foge à inscrição da história.

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A impossível transição do deserto rumo ao Nada.

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O deserto dos místicos. O deserto dos santos. O deserto de ladrões e assassinos. Terra de não-lugar. Sonho de transumância.

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O deserto é desejo. Não possui geografia a aspiração de habitá-lo. O deserto não é o infinito em ato. Se muito, um infinito potencial. 

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Pensar o deserto e desejá-lo. Fome de libertação. Um mundo entre realidade e sonho: α-mundo. Assim, enquanto houver deserto, há esperança.

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Andrógino o deserto: meridiana ambiguidade. O tempo, imóvel, lembra a eternidade. A parte e o todo permanecem indiscerníveis.

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O desvio para o vermelho chama-se aqui desvio do amarelo alaranjado.  Cada grão de areia, uma galáxia.

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 Como guardar a diferença na entropia?

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Não há história capaz de abranger o deserto. Apenas o mundo marinho, estático e semovente, de Débussy.

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Ninguém se afoga no deserto de pedra, conquanto é certo o naufrágio em deserto de areia. A redundância da paisagem. O vento como alma do Mesmo.

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Contra o deserto, o princípio de individuação. Se água ou terra pouco importa. Porque o deserto um dia já foi mar.


Revista Humanitas, 30/08/2021

https://www.academia.org.br/academicos/marco-lucchesi

 



Marco Lucchesi
- Sétimo ocupante da cadeira nº 15 da ABL, eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila, foi recebido em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha. Foi eleito Presidente da ABL para o exercício de 2018.

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MILITARES PRONTOS, BRASÍLIA COM MEDO E O POVO CONFIRMA DIA 7 | Felipe Lintz

terça-feira, 31 de agosto de 2021

CARTA DE ROBERTO JEFFERSON

Carta de Roberto Jefferson:



“Recebi, nesse momento, a Folha de ontem com o parecer da Procuradora Lindôra. É no sentido de que eu vá para casa, por razões de saúde pessoal, cumprir prisão domiciliar com tornozeleira. Agradeço, mas não aceito. É mais uma afronta à minha honra.

Preso por crime de opinião, numa decisão indecorosa e arbitrária tomada por um ministro suspeito, pois litigante pessoal contra min, que está requerendo execução antecipada da sentença condenatória de cem mil reais, por alegados danos morais, que repilo.

Não aceito a coleira de tornozelo. Vejo o Zé Dirceu e o Lula, condenados por grave corrupção em todas as instâncias, no mérito, flanando pelo Brasil, ameaçando as Igrejas, defendendo a tomada do poder pela força e armando coletivos vermelhos, como na Venezuela, para violentar o povo cristão e patriota. Pior: ameaçando derrubar, pela força, o governo honesto do Presidente Bolsonaro. E para mim, como para outros conservadores, prisão domiciliar com tornozeleira, transformando meu lar num canil, não aceito. É desonra, não me fará outra humilhação e afronta a abominável e lombrosiana figura do Alexandre de Moraes. Fico onde estou.

Profetizo que o povo cristão patriota, antes que seja tarde demais, com seu RUGIDO DE LIBERDADE, em 7 de setembro,[*] nos livrará desses URUBUS que pousaram, com mau agouro, nas costas do Brasil.

Creio em Deus, um Supremo renovado nos libertará da tirania atual.

Nossa Força e Vitória é Jesus.

Com amor,

Roberto Jefferson"


*07/09/2021

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