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quinta-feira, 2 de setembro de 2021
quarta-feira, 1 de setembro de 2021
O DESERTO E AS FORMAS - Marco Lucchesi
O deserto e as formas
Marco Lucchesi
Como definir a experiência do deserto, senão através de
aparente recorrência?
*
A tautologia surgiu no coração do deserto. Um anjo disse: A
= A. Mas quando veio o diabolus, descobrimos a cifra de um paraíso
perdido. A ≠ B.
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O deserto, antes dele. O deserto, dentro dele. O
pós-deserto. Três mundos que divergem, irredutíveis. A soma de matéria
incandescente.
*
Deserto: um texto em branco cheio de impurezas. O mistério
da noite que um cego vislumbra. A estática o precede, mudo e ruidoso. O nada é
pura fonte de eloquência.
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O que se perde se concentra no infinito.
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Três desertos me habitam. Síria, Marrocos, Mauritânia. Três
vozes que me ferem, inapeláveis.
*
O raso e o profundo se convertem mutuamente no deserto de
areia. Até as dunas não passam da dinâmica interna do Mesmo. Altura provisória.
Ondulação.
*
Deserto. Desejo. O corpo do céu. Toda a extensão moveu-se
para os sonhos. O timbre dessas vozes me descentra.
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Cruzar o deserto é como habitar o lado escuro da metáfora. A
potência da potência. Tudo e nada.
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Medir o índice subjetivo dos trânsfugas que acorrem ao
deserto.
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O deserto como ponto de encontro. O deserto como ponto de
fuga.
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A solidão de um casto criminoso. Ou o pecado de virgínea
solidão?
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Nenhum deserto é vazio. Nenhuma solidão, solitária. Nem
mesmo a morte foge à inscrição da história.
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A impossível transição do deserto rumo ao Nada.
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O deserto dos místicos. O deserto dos santos. O deserto de
ladrões e assassinos. Terra de não-lugar. Sonho de transumância.
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O deserto é desejo. Não possui geografia a aspiração de
habitá-lo. O deserto não é o infinito em ato. Se muito, um infinito
potencial.
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Pensar o deserto e desejá-lo. Fome de libertação. Um mundo
entre realidade e sonho: α-mundo. Assim, enquanto houver deserto, há esperança.
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Andrógino o deserto: meridiana ambiguidade. O tempo, imóvel,
lembra a eternidade. A parte e o todo permanecem indiscerníveis.
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O desvio para o vermelho chama-se aqui desvio do amarelo
alaranjado. Cada grão de areia, uma galáxia.
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Como guardar a diferença na entropia?
*
Não há história capaz de abranger o deserto. Apenas o mundo
marinho, estático e semovente, de Débussy.
*
Ninguém se afoga no deserto de pedra, conquanto é certo o
naufrágio em deserto de areia. A redundância da paisagem. O vento como alma do
Mesmo.
*
Contra o deserto, o princípio de individuação. Se água ou
terra pouco importa. Porque o deserto um dia já foi mar.
Revista Humanitas, 30/08/2021
https://www.academia.org.br/academicos/marco-lucchesi
Marco Lucchesi - Sétimo ocupante da cadeira nº 15 da ABL, eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila, foi recebido em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha. Foi eleito Presidente da ABL para o exercício de 2018.
* * *
terça-feira, 31 de agosto de 2021
CARTA DE ROBERTO JEFFERSON
Carta de Roberto Jefferson:
“Recebi, nesse momento, a Folha de ontem com o parecer da Procuradora Lindôra. É no sentido de que eu vá para casa, por razões de saúde pessoal, cumprir prisão domiciliar com tornozeleira. Agradeço, mas não aceito. É mais uma afronta à minha honra.
Preso por crime de opinião, numa decisão indecorosa e
arbitrária tomada por um ministro suspeito, pois litigante pessoal contra min,
que está requerendo execução antecipada da sentença condenatória de cem mil
reais, por alegados danos morais, que repilo.
Não aceito a coleira de tornozelo. Vejo o Zé Dirceu e o
Lula, condenados por grave corrupção em todas as instâncias, no mérito,
flanando pelo Brasil, ameaçando as Igrejas, defendendo a tomada do
poder pela força e armando coletivos vermelhos, como na Venezuela, para
violentar o povo cristão e patriota. Pior: ameaçando derrubar, pela força, o
governo honesto do Presidente Bolsonaro. E para mim, como para outros
conservadores, prisão domiciliar com tornozeleira, transformando meu lar num
canil, não aceito. É desonra, não me fará outra humilhação e afronta a
abominável e lombrosiana figura do Alexandre de Moraes. Fico onde estou.
Profetizo que o povo cristão patriota, antes que seja tarde
demais, com seu RUGIDO DE LIBERDADE, em 7 de setembro,[*] nos livrará desses URUBUS
que pousaram, com mau agouro, nas costas do Brasil.
Creio em Deus, um Supremo renovado nos libertará da tirania
atual.
Nossa Força e Vitória é Jesus.
Com amor,
Roberto Jefferson"
*07/09/2021
segunda-feira, 30 de agosto de 2021
CRIANÇA DIZ CADA UMA! - Arnaldo Niskier
Num país de memória curta, temos o dever de reavivar o nosso patrimônio cultural, não deixando que as nossas raízes históricas esmoreçam. Nesse contexto, trazer à tona a trajetória de personalidades de grande sucesso tem um significado extremamente relevante.
Tive o privilégio do convívio com um dos maiores dramaturgos
da segunda metade do século 20. Meu compadre Pedro Bloch (1914-2004), padrinho
do meu filho Celso, foi também um nome de grande importância na medicina, como
um dos melhores foniatras do seu tempo.
Atualmente, muito se preconiza quanto à humanização da
saúde. O legado de Pedro Bloch não pode figurar fora desses ensinamentos. Além
de ele próprio ouvir os pacientes miúdos, recolhendo matéria-prima para seus
estudos e textos, dava voz à meninada, reproduzindo suas histórias. Assim,
amplificou o contato revelador que ele anotava através dessa peculiar percepção
do mundo.
Não foram poucas as vezes que eu o ouvi declarar o quanto
gostava de ser reconhecido como 'o homem que conta historinhas de criança': 'O
mundo infantil é cheio de mistério e poesia, suspense e humor [. . . ] Seria de
desejar que todos os pais guardassem as frases mais expressivas dos filhos,
como verdadeiros tesouros. Mas o que ocorre, normalmente, é que se conserva um
flagrante fotográfico inexpressivo ou uma botinha, um boneco, uma mecha de
cabelo. Quase nunca percebem que o que a criança diz, em suas diferentes fases,
são pedacinhos de alma dessa criança', afirmava com sabedoria.
Bloch manteve uma seção humorística, contando historinhas de
criança, nas revistas Manchete e Pais & Filhos, que depois transformou em
livros, com os seus anedotários infantis. Fundador da Federação Brasileira de
Otorrinolaringologia (precursora da Sociedade Brasileira de
Otorrinolaringologia), atendia, principalmente, crianças, de onde tirou
inspiração para os seus mais de cem livros, a maioria infanto-juvenis. Fundou o
Grêmio Científico e Literário e colaborou para diversos jornais e revistas
escolares.
Foi extremamente inovador, para a época, a noção da criança
como um ser único e portador de relativa autonomia. Delineava-se, com imensa e
efetiva contribuição do trabalho de Bloch, o esboço de uma nova definição de
criança que se percebeu no Brasil, especialmente a partir do final da década de
1960.
Destaca-se, na fala desse grande médico, jornalista,
dramaturgo e escritor, uma linha de pensamento que percebe e considera a
criança não apenas como receptora de estímulos culturais disponibilizados pelos
adultos, mas também como produtora autônoma de significados.
No teatro, seu grande sucesso foi 'As Mãos de Eurídice', que
estreou em 13 de maio de 1950, com Rodolfo Mayer no papel do homem que retorna
à sua antiga casa, depois de perder o dinheiro e a amante. O monólogo teve
sucesso imediato e logo passou a ser apresentado pelos teatros do Brasil e do
mundo. Encenada mais de 60 mil vezes em cerca de 45 países, a peça fez de Bloch
o dramaturgo brasileiro mais traduzido e representado no exterior.
O Estado de S. Paulo, 29/08/2021
https://www.academia.org.br/artigos/crianca-diz-cada-uma
Arnaldo Niskier - Sétimo ocupante da Cadeira nº 18 da ABL,
eleito em 22 de março de 1984, na sucessão de Peregrino Júnior e recebido em 17
de setembro de 1984 pela acadêmica Rachel de Queiroz. Recebeu os acadêmicos
Murilo Melo Filho, Carlos Heitor Cony e Paulo Coelho. Presidiu a Academia
Brasileira de Letras em 1998 e 1999.
* * *
sexta-feira, 27 de agosto de 2021
25 CURIOSIDADES SOBRE MACHADO DE ASSIS QUE VOCÊ JAMAIS IMAGINARIA...
Machado de Assis, um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos. Mais do que leitura obrigatória nas disciplinas de literatura em todo o território nacional, Machado de Assis foi talentosíssimo retratador da sociedade de sua época, sendo incrivelmente atual até os dias de hoje.
Para conhecer melhor o autor de Dom Casmurro, Memórias
Póstumas de Brás Cubas e muitas outras obras já eternizadas, confira abaixo 25
curiosidades sobre este grande nome da literatura brasileira:
1- Nascimento
Joaquim Maria Machado de Assis nasceu em 21 de junho de
1839, na cidade do Rio de Janeiro. O futuro escritor foi batizado na mesma
igreja onde seus pais casaram.
2- Pais
O pai de Machado de Assis era um descendente de escravos que
trabalhava como pintor de paredes. A mãe, portuguesa de Açores, faleceu quando
Machado tinha 10 anos. Sua única irmã morreu vítima de sarampo com sete anos de
idade.
3- Educação
Segundo os seus biógrafos, Machado nunca teve educação
formal. Para ajudar a família, chegou a trabalhar como engraxate e vendedor de
balas e doces.
4- Línguas
O escritor era fluente em francês, língua que aprendeu com
um padeiro. O alemão e o inglês Machado aprendeu estudando sozinho.
5- Caligrafia
A caligrafia do escritor era tão ruim que, às vezes, até ele
tinha dificuldade de entender o que escrevia.
6- Saúde
Machado de Assis tinha epilepsia. Além disso, o autor de
Iáiá Garcia e Dom Casmurro, entre outras obras, era gago.
7- Trabalho
Aos 17 anos, Machado passou a trabalhar na Tipografia
Nacional onde, ao ser flagrado lendo escondido, quase foi demitido.
8- O primeiro poema
O primeiro poema de Machado de Assis chama-se Ela, e foi
publicado em 1 855 na revista Marmota Fluminense. Na época, Machado contava
apenas 15 anos.
9- O primeiro conto
O primeiro conto publicado em uma revista saiu em 1858,
quando o escritor tinha 19 anos. O conto se chamava Três Tesouros Perdidos e
também foi publicado na revista literária Marmota Fluminense.
10- O primeiro livro
O primeiro livro publicado por Machado de Assis foi
Crisálidas, de poemas. Na época, Machado contava 35 anos de idade. O primeiro
livro de contos – cujo título era Contos Fluminenses -, saiu no ano seguinte.
11- Casamento
Carolina Machado, a esposa do escritor, era quatro anos mais
velha que ele. O casamento só terminou depois de 35 anos, com a morte de
Carolina. Dizem que era ela quem revisava os textos do escritor.
12- Memórias Póstumas de Brás Cubas
Como era comum na época, Memórias Póstumas de Brás Cubas foi
publicado em folhetins e só mais tarde lançado em livro.
13- Pseudônimos
Machado de Assis utilizou 21 pseudônimos ao longo da
carreira. Na revista A Semana Ilustrada, usava o pseudônimo de Dr. Semana.
14- Romantismo e Realismo
A obra de Machado de Assis tendia, no início para o
Romantismo (como no caso de Helena). Mais tarde, ele abraçou o Realismo (como
em Dom Casmurro).
15- Romances
Os principais romances de Machado de Assis são: Dom
Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Helena, Quincas Borba, Esaú e Jacó,
Memorial de Aires, Iaiá Garcia e A Mão e a Luva.
16- Xadrez
O jogo predileto de Machado de Assis era o xadrez. Ele
participou do primeiro campeonato de xadrez disputado no Brasil. As peças
usadas pelo escritor estão até hoje em exposição na ABL – Academia Brasileira
de Letras.
17- Academia Brasileira de Letras
A Academia Brasileira de Letras teve Machado de Assis como
um de seus fundadores. Ao invés de ocupar a cadeira número 1, ele ficou com a
23. O patrono da cadeira número 1 foi o escritor cearense José de Alencar.
18- Amizades
Machado era amigo de Mário de Alencar, filho do escritor
cearense José de Alencar.
19- Jornais e revistas
Machado escreveu em diversos jornais e revistas da sua
época, entre os quais A Semana Ilustrada, Diário do Rio de Janeiro, Jornal das
Famílias, Revista da Semana, Correio Mercantil e O Espelho.
20- Dramaturgia
Apesar de ser conhecido apenas como romancista e cronista,
Machado era poeta e dramaturgo, chegando a escrever nove peças de teatro entre
1860 e 1906.
21- Obra
No total, ele escreveu sete livros de contos, cinco de
poesia, nove de teatro e nove romances.
22- Nova Friburgo
Em 1878, o escritor foi obrigado a passar uma temporada na cidade de Nova Friburgo para se tratar de uma infecção nos olhos.
23- Últimas palavras
Segundo alguns biógrafos, as últimas palavras de Machado de
Assis antes de morrer foram: “A vida é boa”.
24- Cerimônia fúnebre
O discurso da cerimônia fúnebre de Machado de Assis foi
feito por Rui Barbosa.
25- Morte
Machado foi sepultado no cemitério São João Batista em 1908,
mas seus restos mortais foram transferidos para a sede da Academia Brasileira
de Letras em 1999.
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