Total de visualizações de página

sexta-feira, 5 de junho de 2020

LEMBRAI-VOS DO PASSADO – Marco Lucchesi


Cresci ouvindo histórias da Segunda Guerra.

Meus pais eram da Toscana. E os anos de 1943-1944 foram os mais cruéis numa Itália devastada.

Meu avô paterno deixou o campo de Mauthausen, o mesmo campo onde morreu o primo de minha mãe.

Não eram judeus, apenas antifascistas.

Como não prestar, aliás, solidariedade aos nossos irmãos judeus, agredidos por mentecaptos que usam a linguagem do terceiro reich como quem bebe um copo d’água?

 Meu pai era oito anos mais velho do que minha mãe. Egidio narrava a guerra em preto e branco, enquanto Elena Dati trazia imagens mistas da infância, coloridas. Seus olhos de menina viram fascistas fuzilando jovens da resistência. Egidio Lucchesi, mais de uma vez, duelou, vitorioso, com a morte. Conheceram a fome de perto, mas não perderam o orgulho.

Viviam na cidade de Massarosa, libertada pelos pracinhas da Feb, em setembro de 1944.

O general Zenóbio da Costa dormiu uma noite na casa de meu avô materno, Valente. Começava a história da minha família com o Brasil.

Aprendi com meus pais a amar a terra onde nasci e a não pactuar com a desigualdade. E ensinaram o bem comum, os valores da justiça e da liberdade.

Haverá base mais sólida para a afirmação da República?.

O Globo, 03/06/2020


 ...........

Marco Lucchesi - Sétimo ocupante da cadeira nº 15 da ABL, eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila , foi recebido em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha. Foi eleito Presidente da ABL para o exercício de 2018.


* * *

quinta-feira, 4 de junho de 2020

QUEM SABE LEVAMOS ESTE PAÍS A SÉRIO? – Percival Puggina

03.06.2020
por Percival Puggina 

Instalou-se no Brasil um estresse político que, mantido, conduzirá a um final infeliz. Ou seja, a tensão está aumentando e arrastando a nação a um estágio cada vez mais crítico. Não haverá solução boa pelo caminho das picuinhas e da crescente violência verbal e comportamental.

O quadro é alarmante. Chega-se ao fim de cada dia abastecido de notícias que amplificam os sentimentos de pânico, medo, revolta, e de uma raiva que arde no peito e clama pelo mau lenitivo chamado... vingança. Na política, passada a régua nessa conta, comprou-se por cem um estresse que talvez não valesse vinte. De outro lado, epidemia de temores é abastecida com dose diária de notícias alarmantes em que recordes são batidos e barreiras ultrapassadas, como se estivéssemos numa olimpíada funesta do obituário internacional.

O povo, que tanto agita os fantasmas mentais de alguns senhores da Suprema Corte, não tem culpa alguma na instabilidade política do país. O povo, o soberano povo, é vítima. É dele o desemprego, o prato magro do pouco alimento, o teto perdido, o lazer impossível, o beco sem saída, a esperança perdida, os longos dias vazios e as ainda maiores noites de insônia. Todos esses apertos passam longe, bem longe dos que exibem a musculatura do respectivo poder enquanto se encaram com aquele olhar gentil com que os boxeadores esquentam hormônios para a luta.

Muitos titulares de poder de Estado talvez se sentissem melhor se o povo se recolhesse em isolamento sanitário horizontal, em isolamento político vertical e num lockdown acústico de onde sequer suas vozes fossem ouvidas. No entanto, as manifestações populares estão salvando a democracia enquanto os poderes se provocam, rixam, e disputam supremacia onde deveria haver independência e harmonia.

Por longos meses, o governo vitorioso nas urnas buscou escorar-se no povo, com o qual Bolsonaro tem conexão incomum. No entanto, à medida que preservava o estilo e os laços com o povão, indispensáveis para manter suas salvaguardas no tabuleiro da política, ele perdia apoiadores naquela parcela da elite que votou nele, mas nunca o acolheu muito bem. Prefeririam, esses, um conservador estilo britânico, tipo Stanley Baldwin, ou seja, um Bolsonaro gentleman, que nunca existiu. Seu apoio perde vigor entre aqueles que, vendo as dificuldades enfrentadas pelo governo esperam dele uma atitude impossível. A atitude possível, perfeitamente possível, é dar o primeiro passo no rumo certo.

Muitas vezes, ao longo dos anos, ouvi dizer que “o Brasil é maior do que a crise”, e tem sido. No entanto, se mais estável, com instituições melhores, seria um país melhor para seus filhos. Este é o país de Bonifácio, de Nabuco, de Caxias, de Pedro II, de Mauá. Não será derrotado num conflito de picuinhas! As urnas falaram alto em 2018 e exigem respeito, principalmente daqueles, tão poderosos e arrogantes, que a ninguém julgam dever respeito.

Zele Deus por esta sua nação.

_____________________________
* Percival Puggina (75), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+.
.................. 

* * *


quarta-feira, 3 de junho de 2020

O ROMANCISTA AFRÂNIO PEIXOTO - Cyro de Mattos


O Romancista Afrânio Peixoto

Cyro de Mattos


            Baiano de Lençóis, Afrânio Peixoto (1876-1947) formou-se em medicina. Dedicou-se  à  higiene e medicina legal. Passou a infância e mocidade em Canavieiras, no sul da Bahia,  município onde foi plantada a primeira muda de cacau trazida do Pará, que produziria uma lavra de duração  permanente, tornada poderosa ao se espalhar  tempos depois pelo  território sulino do Estado.
            Ainda não se configura  no romance Maria Bonita, de Afrânio Peixoto,   o legítimo  homem do cacau,  ávido por ser o dono de um fruto poderoso, fomentador de riquezas,  motivador de tocaias e lutas sangrentas.  O cacau não é assim  determinante de  conflitos extremos na teia romanesca de Maria Bonita,  ficando  visível que a lavra dos frutos dourados à época  dava  os seus primeiros passos sem a épica de um parto difícil,   que se fez  na terra fértil, com a mata ainda não descoberta  e cercada de perigo. O cacau concorre em Maria Bonita  somente  para que a terra seja apresentada com uma cor diferente, insipiente como fonte de riqueza,  basta notar que as amêndoas do fruto   eram secadas  no tabuleiro com rodas e trilhos de madeira, transportadas depois  para Canavieiras  através da canoa,  pelo rio Pardo.
          Em Maria Bonita,  o autor  pode ser visto como visionário dos temas propostos pelo Movimento  da Semana de Arte Moderna de  22, em São Paulo, os quais correspondiam ao que tudo  nas primeiras décadas do século XX  situasse a problemática de nossa realidade social e cultural.  Essa coordenada mostra-se evidente   quando o romancista transpõe para o plano literário o cenário regional com o arraial de Jacarandá, o ponto de encontro  de populações disseminadas pelas margens do rio Pardo e outros cursos d’água  numa zona de algumas léguas, que se estendiam “ainda para o interior nos barracões de piaçava, do Campinho ou do Zinco, ou nas minas de  diamantes do Salobro.”
             Com um  caldeamento humano heterogêneo, formado por gente de nível social e cultural baixo,  algumas pessoas se distinguiam no arraial  pela educação, préstimos provados,  condição econômica privilegiada como donos de fazendas.  Na relação dos personagens nucleares, viviam na   fazenda  Boa Vista  como os donos da terra os Moreira, representados por Dona Mariana, matriarca autoritária, e  o marido Quinquim, “homenzinho murcho, de fisionomia inexpressiva,  barba grisalha’, de temperamento pusilânime. A família completava-se com os  três filhos, Pequenina, Diogo e Luís.  A matriarca  reunia  nas mãos todos os  poderes, era sisuda, impetuosa, enquanto o marido, a prole, os agregados e o povo de Jacarandá respeitavam  a sua vontade forte.
         Maria Bonita é  um romance de amor com linguagem agradável, equilibrado nas descrições do ambiente,  que se presta à  ocorrência das cenas,  personagens  típicos e costumes  mostrados nas linhas de seu enredo   com infiltrações românticas. Apresenta Maria Bonita como um tipo de criatura bem descrita  nos traços externos e interiores, que lhe dão crédito para ser inscrita com a sua beleza e caráter  na galeria  dos personagens femininos de nossa prosa de ficção.
           Luís apaixona-se por Maria Bonita,  reconhecida por Dona Mariana como criatura de origens indignas,  classe social inferior,   sem  a grandeza aristocrática para casar com um de seus filhos. Em seus rompantes neuróticos, a arrogante  matriarca alardeava ser descendente de Diogo  Álvares Cabral, o Caramuru, e Catarina Paraguaçu,  o casal que representava a origem da nobre família brasileira.  Filho seu não estava destinado para se casar com qualquer grapiunazinha*, gente de nível baixo.
          Quando mais precisava da proteção e carinho,  Maria Bonita se vê  abandonada por Luís,  que  prefere fugir a enfrentar situação adversa, mostrando-se sem brios nessa hora em que o amor  cobra coragem de quem deve se mover pelo sentimento forte do coração apaixonado.   Obedeceu  às ordens da mãe e vai para a  Capital terminar os estudos.  De  retorno a Cajazeira toma conhecimento que Maria Bonita estava casada com João, homem  atencioso, leal, dedicado  à esposa e ao filho que tinha com ela.  Sem conseguir abafar  a vontade de se encontrar com Maria Bonita,   sente que não ficara esquecido o seu amor verdadeiro.
           O final com ritmo de tragédia,  que obedece às determinantes do destino, cujas forças não se pode mudar, acontece com o desespero de  Maria Bonita. As mãos em garra  arranham o rosto num gesto alucinado, “embora sem culpa, era a causa  de tudo.” Culpa de tanta desgraça e todo o mal.
          Afrânio Peixoto é herdeiro moderado do Machado de Assis analista e do José Alencar descritivo. Usa os diálogos no momento certo com  bom aproveitamento,  recorre  aos  versos dos poetas populares e os   insere no texto, tornando a narrativa prazerosa. Estiliza  a linguagem em nível de como é falada e da norma culta  codificada pelo gramático, sem transmudá-la como cópia integral da fala do povo corrompida, mas  que faz comunicativa a língua na sua dinâmica.
           Se o espaço do romance regionalista  configura-se no alcance  do ambiente, tipos  e costumes, em Maria Bonita a criatura humana mostra-se como o  foco dos conflitos da sua própria condição,  caracterizada pela beleza  e formosa presença de  mulher. Pelo conteúdo vê-se que o romance tem como centro a  beleza de uma mulher, que desde criança os que a  conhecem querem  bem,  embora o mundo não perdoe a ninguém quando se é dono de atraente atributo.  Certo trecho do romance informa que  “é  motivo de infelicidade não ser quase igual a todo mundo ou a muita gente no mundo”.  A observação completa-se numa  aferição de essência dramática  sobre a vida.   “A beleza, o talento, a riqueza, são dons funestos: despertam cobiça e inveja, nunca simpatia e afeição.” (O artigo ora publicado integra  o  livro Prosa e Poesia no Sul da Bahia, um testemunho crítico, reunindo estudos sobre 47 prosadores e poetas do sul da Bahia, no prelo da Editora Via Litterarum).

* Grapiunazinha, diminutivo de grapiúna, termo de origem indígena, que significa os que chegaram ao sul da Bahia no tempo da conquista e povoamento da terra.

...............
Cyro de Mattos,  escritor e poeta. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia, Pen Clube do Brasil, Academia de Letras de Ilhéus e Academia de Letras de Itabuna. Autor premiado no Brasil, Portugal, Itália e México.

* * *

terça-feira, 2 de junho de 2020

SAÚNA - Catulo da Paixão Cearense



Saúna
Catulo da Paixão Cearense


A Albino Forjaz de Sampaio

De todas as fazendolas
que nos sertões conheci,
a do Monte da Espinhela
foi a Fazenda mais bela
e a mais alegre que eu vi.

O dono daquela joia,
o major Felix Lindóia,
tinha garbo em ser o tipo
da lealdade suprema.

Cavalheiroso e gentil,
era um filho do Brasil,
um brasileiro da gema.

No entanto o major Lindóia,
com alma sempre propensa
para o amor e a caridade,
era cego de nascença!

Delicado, mas austero,
na sua boca sanguínea
nunca um sorriso abrolhou!

E todos assim diziam
que se o major não sorria,
o major nunca chorou!

Constava a sua família
da mulher – dona Benvinda –
e de sua filha – a Beatriz.

Cego embora, esse homem santo
proclamava-se feliz.

No mundo cheio de escolhos,
que importa que Deus tivesse
lhe apagado a luz dos olhos?!

Os bigodinhos canoros,
os cebites, os cronquís,
os curiós, os bentevis
e os mais lindos cardeais,
faziam dos bambuais
os seus palcos de folhagens,
onde, a brincar nas ramagens,
ruflando as suas plumagens,
vinham dar seus recitais.

A olência dos benjoeiros,
o aroma dos cajueiros,
das odorosas limeiras,
das flóreas mexiriqueiras...
o perfume dos cajás,
a essência dos laranjais
e o cheiro verde do mato,
era uma luz que lhe entrava
pelos dois olhos do olfato.

Se não via com os seus olhos
a sua nédia boiada,
 a valente cavalhada
e os seus rebanhos luzidos,
pelos olhos dos ouvidos,
nas tardes harmoniosas
e nas manhãs extremosas,
enxergava a sinfonia
dos seus agrestes gemidos.

Não creio que Adão e Eva
no seu olimpo cheiroso
possuíssem mais cantores
do que os célebres tenores
daquele Éden verdoso.

A Fazenda tinha fama
pelo infindo panorama
dos horizontes azuis!

Naquelas florestas bravas,
em sua idade infantil,
numa tarde pastoril,
com certeza andou Jesus.

Naquele Éden formoso,
o major Felix Lindóia
era um feliz, um ditoso!

Numa noite eu e o major
estávamos palestrando
de coisas já repassadas
de um outro tempo melhor.
E como tinha a meu lado
um pinho bem afinado,
preludiando uns gemidos
nas cordas desse violão,
eu comecei a cantar
o meu Luar do Sertão.

Enquanto a voz derramava
por toda a amplidão sonora,
extasiado eu fitava,
(no encanto daquela hora...)
o doce e sublime encanto
do céu, que mais se estrelava
e até parecia o manto
azul de Nossa Senhora!

Pois bem: dolorosamente,
no fundo do coração,
sentindo a grande piedade
daquela infelicidade
de ele cego ter nascido,
carinhosa e bruscamente,
interrompendo a canção,
eu lhe disse, comovido:

“o senhor não faz ideia
deste cenário estrelado,
desta esplêndida epopeia
que estou contemplando agora,
vendo o céu, maravilhado,
pontilhado de amarelo,
aberto, como um flabelo,
na sua glória divina!”

E o major, em voz cadente,
olhando-me cegamente,
respondeu: “Não é mais belo
do que minh’alma imagina!”

E notando o meu silêncio,
acrescentou: “Continue,
que a sua canção à lua
é de um efeito estupendo!

Com os olhos do meu espírito,
vejo a beleza da noite,
como o senhor está vendo!...

O que eu não sei, meu amigo,
- assim me disse, sorrindo –
é se o senhor sente n’alma
o turbilhão de saudades,
que estou agora sentindo!!”

                        ***

Mas deixemos o major
e aquela noite tão bela,
e falemos de Saúna,
d’uma pequena cadela,
que era a imagem da desgraça
naquela rica Fazenda.

Entre os cachorros de raça,
a pobre era desprezada
por todos lá da vivenda.

Mártir, velha, escorraçada,
quase no extremo da vida,
andava sempre escondida,
e não morria esfomeada,
porque às vezes, lhe tocava
um frangalho de comida,
que a outro cão sobejava.

Diga, embora, uma heresia,
mas eu confesso que, um dia,
vendo os olhos de Saúna,
lembrei-me dos santos olhos
da Santa Virgem Maria!

A sua melancolia
era saudosa e macia,
como a sombra do luar!
Quanta dor, quanta poesia
e quanta filosofia
chorava naquele olhar.

A morte é sempre bondosa
com os deserdados da sorte!

Por isso é que eu acho a vida
muito mais misteriosa
e indecifrável que a morte.

Mas, suavizando os acúleos
de toda aquela paixão,
Saúna tinha a piedade
De um piedoso coração.

Entre os bichos prediletos
que o major mais estimava,
tinha o primeiro lugar
um papagaio faceiro,
que levava o dia inteiro
e a noite inteira a falar.

Tudo o que se lhe dizia,
coçando a rósea cabeça,
de pronto reproduzia.

Pois ouvi: o belo Louro,
o inestimável tesouro,
de pescoço todo de ouro
e o corpo de verde mar,
era o amigo singular
de Saúna, a cachorrinha,
que, inocente, se entretinha,
ouvindo-o tagarelar.

Quando, às vezes, lhe faltava
um osso para o jantar,
era belo, era sublime,
ver aquele papagaio,
como quem comete um crime,
às ocultas, lhe ofertar
alguns bocados gostosos
do seu gostoso manjar.

O Louro sabia o nome
de toda a raça canina,
e chamava, pela tarde,
os cachorros, um por um!...
Chamava todos por ordem,
sem se esquecer de nenhum!

Mas o nome de Saúna
era o que mais lhe sabia!
Pela manhã, de tardinha,
a todo o instante do dia,
aquele nome tão doce
vinte vezes proferia!

Mas diz um velho ditado:

“Não há mal que sempre dure,
nem bem que não tenha fim”.

Pois foi assim, foi assim,
que um dia a mártir leprosa,
desdentada, cancerosa,
os olhos tristes, fechou,
e, mais feliz, descansou!

Sim!... Foi Deus quem a levou!

Saúna foi encontrada
com a barriga toda inchada,
junto à porta do curral.

E morta, rígida e fria,
nos seus olhos inda eu lia
aquela filosofia
da dor irracional!

E só porque já fedia,
foi que o vaqueiro Zé Marco
enterrou a pobrezinha
ao pé d’um velho Pau d’Arco.

Pois bem: nesse mesmo dia
em que Saúna expirou,
(quem sabe?! Talvez de fome!...)
o bondoso papagaio
chamando pelo seu nome,
com aquela doce meiguice,
e me olhando de soslaio,
a cabecinha inclinou.

- Saúna morreu! – lhe disse.

- “Morreu?!” – ele perguntou!

E depois de eu repetir-lhe
esta palavra importante,
as suas penas ruflando,
pôs-se, alegre, assobiando
uns cantos sentimentais!

Mas, desde aquele momento,
pelo nome de Saúna
não chamou! Não chamou mais!!

Meu Deus!... Porque não fizeste
os homens irracionais...



POEMAS BRAVIOS
Catulo da Paixão Cearense
                
 * * * 





segunda-feira, 1 de junho de 2020

TELA DIGITAL TRAZ RISCOS PARA BEBÊS – Luís Dufaur

segunda-feira, 1 de junho de 2020


O melhor brinquedo para uma criança de poucos anos é outra criança: é feliz, curioso e criativo

Luis Dufaur

Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs





O melhor brinquedo para uma criança de poucos anos é outra criança: é feliz, curioso e criativo.

As telas digitais quando melhoram as qualidades o fazem isoladamente, aumentando o risco de fragmentar o aprendizado explicou o psiquiatra infantil Christian Plebst, Coordenador para América Latina da Academy for Mindful Teaching – AMT Holanda, em artigo para “La Nación”.

Por isso, a reputadíssima American Pediatric Society dos EUA afirma que antes dos 18 meses de idade, nenhum menino deve estar na frente de uma tela digital.

O risco da exposição precoce à imagem digital é interferir no desenvolvimento da mente, do cérebro e do corpo inteiro.

Hoje, distúrbios graves de linguagem, aprendizado, atenção e conexão são detectados em crianças e adolescentes que são superexpostos a telas virtuais, diz o Dr. Plebst.

O bom é que limitando as imagens digitais às crianças, elas “se reconectam” consigo mesmas e com os outros.

O maior perigo das imagens cibernéticas está em entregar-lhes a criança muito cedo, sem limites ou excessivamente.

Nenhuma criança precisa delas antes dos três anos de idade, insiste o especialista, apoiado na autoridade da American Pediatric Society.

A tecnologia nos jovens põe em risco o aprendizado de habilidades sensíveis e fundamentais
como a empatia, a capacidade de fazer amigos, se relacionar social e profissionalmente

A tecnologia em idades muito jovens põe em risco o aprendizado de habilidades sensíveis e fundamentais, como a empatia, a habilidade que nos permite nos colocar no lugar do outro e ajustar nossos pensamentos, atitudes e ações desenvolvendo nossa capacidade de fazer amigos, nos relacionar social e profissionalmente.

Muitas vezes em locais públicos vemos jovens mudos, absortos pelo smartphone ou equivalente, incapazes de manter o convívio com outros jovens que estão a seu lado também como mortos aos próximos.

Mal sinal que fala da impotência para se relacionar. E mal pressagio para a vida profissional, afetiva ou familiar.

Através do jogo com outra pessoa, diz o psiquiatra infantil, nós nos socializamos e estabelecemos os fundamentos da inteligência emocional.

Inteligência emocional, o que é isso? Desde o nascimento, o bebê vai conhecendo o mundo embora não consiga se expressar, ele aprende a diferenciar, a relacionar as vozes, gestos, atitudes corporais, intenções e fatos.

Por essa via pega a essência do espírito dos pais e da família, da natureza e do mundo. Em certo sentido nessa hora se modela tudo o que ele vai ser no futuro.

Através de múltiplos canais sensoriais, o adulto e o bebê se conectam de um modo muito profundo, embora menos perceptível.

Da mesma maneira que um Bluetooth, concede o Dr. Plebst para os mais entrosados na tecnologia mas já com dificuldades para entender as sutilezas da realidade.

O bebê aprende a diferenciar, a relacionar as vozes, gestos, atitudes corporais,
intenções e fatos de modo natural não virtual

Mas, é dessa forma que um mar de informações sensoriais, emocionais e cognitivas flui entre mãe, pai e filhos.

Essas informações nos modificam o tempo todo na vida inteira sendo vitais para o desenvolvimento das qualidades humanas mais sutis.

As qualidades assim adquiridas são essenciais para gerar e desenvolver estados crescentes de amor, empatia, compaixão, alegria e paz, e também para entender e aprender a domar nossa raiva, tristeza, inveja e egoísmo.

A exposição precoce e excessiva à tecnologia prejudica os sistemas visual e auditivo, limitando a maturação da atenção, da vontade, da criatividade, da imaginação e do jogo simbólico, pilares do senso comum e da inteligência emocional.

Os monitores estão gerando um mar de crianças e jovens com dificuldades em manter a atenção, a menos que seja algo muito novo e excitante, como nos videojogos mais violentos. Isso é deformante e danoso.

O mundo puramente virtual está em choque de fundo com a família, a vizinhança, a natureza, a amizade, o esporte, os grupos em que o jovem deve se inserir na sociedade.

Os ótimos antídotos para esses perigos começam com o relacionamento com outras crianças. Vemos que os pequenos pedem insistentemente um pouco mais de tempo de jogos, até com os pais e outros adultos porque sentem essa necessidade.

O Dr. Christian Plebst, da Academy for Mindful Teaching – AMT Holanda

O Dr. Plebst mostra que interagir com os pequenos não é algo supérfluo e pesado. É uma oportunidade imperdível de estar presente e vivo enriquecendo a infância das crianças.

O trabalho muitas vezes impede que possamos exercer esse relacionamento profundamente enriquecedor. Então é preciso garantir que as pessoas responsáveis, idealmente da família ou educadores, conheçam os riscos das telas digitais, porque são muito altas.

Os adultos devemos procurar mais intervalos para nos conectarmos com as crianças.

O mundo precisa mais desse relacionamento fornecedor da verdadeira diversão, alegria e equilíbrio emocional.

E ninguém é melhor para isso do que os pais para os filhos. Muito melhor do que qualquer tela de LCD, conclui o especialista.

 

https://revculturalfamilia.blogspot.com/2020/06/tela-digital-traz-riscos-para-bebes.html?utm_source=feedburner&utm_medium=email&utm_campaign=Feed%3A+ValoresInegociveisRespeitoVidaFamliaEReligio+%28Valores+inegoci%C3%A1veis%29


* * *