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sábado, 19 de agosto de 2017

ITABUNA CENTENÁRIA: UM POEMA - Teu Amor, por Wagner Albertsson

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TEU AMOR


TEU AMOR É FOGO

QUE ILUMINA A NOITE,

É FONTE

QUE ALIVIA A VIDA,

É SONHO

QUE ACALENTA A ALMA,

É POESIA

QUE BEIJA O POENTE,

É ESTRADA

PARA OS MEUS PÉS INSEGUROS.



WAGNER ALBERTSSON

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ORLANDO VAI PRODUZIR SOMENTE ENERGIA RENOVÁVEL A PARTIR DE 2050

A cidade já se comprometeu a reduzir 90% de suas emissões de poluição atmosférica e gases de efeito estufa.
 15 de agosto de 2017

O país está ficando pequeno Trump diante de tantos compromissos firmados nos estados e cidades dos EUA. Desta vez, em votação unânime, o Conselho Municipal de Orlando decidiu adotar como meta o uso de eletricidade oriundo somente de fontes renováveis. As medidas devem permitir que o feito seja alcançado até 2050.

Já são quase 40 cidades nos Estados Unidos que se comprometem com o alvo “100% de energia limpa”. Em maio, por exemplo, o CicloVivo falou de Atlanta, veja aqui. A gestão defende  que, além de combater a mudança climática e a poluição, o movimento em direção à energia renovável aumentará as oportunidades econômicas, gerando mais empregos. Em 2016, só na Flórida, os empregos solares cresceram 10 vezes mais rápido do que a economia geral do estado, somando 1.700 novos empregos.

A cidade já se comprometeu a reduzir 90% de suas emissões de poluição atmosférica e gases de efeito estufa até 2040, de acordo com o Acordo Climático de Paris. Para conseguir isso, Orlando já estabeleceu o objetivo de alimentar 100% das operações municipais usando energia renovável até 2030. No ano passado, o Departamento de Energia dos EUA e a Fundação Solar declararam Orlando uma “Cidade SolSmart” por sua liderança na expansão de fontes de energia limpa.

“O poder do sol é mais barato para produzir eletricidade do que o poder de combustíveis fósseis, incluindo carvão e até gás natural. O que queremos fazer é manter a acessibilidade de nossas tarifas de energia. Muitas pessoas pensam que, ao mudar para energia solar, será mais caro, e esse não é o caso”, afirma Chris Castro, diretor de sustentabilidade da cidade.

A atitude de Orlando é muito significativa por ser a maior cidade da Flórida que se compromete com esse objetivo até agora. Além disso, é uma região muito turística, principalmente, por sua proximidade com a cidade Bay Lake, onde fica a Disneylândia.

“Esta administração [referindo-se à Trump] decidiu não honrar o nosso compromisso com o acordo climático de Paris, mas muitos prefeitos em todo o país pegaram as rédeas para dizer que, se não estamos fazendo isso no nível federal, é nossa obrigação lideramos em nível local”, afirma Buddy Dyer, prefeito de Orlando.

Redação CicloVivo



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sexta-feira, 18 de agosto de 2017

SONHO DOURADO – Por Geraldo Carneiro

Sonho dourado

 Sempre cultivei um sonho dourado: quando eu ficasse velho, queria ser guia turístico do Jardim Botânico.

Mas meu sonho, como tantos outros, fracassou. O Jardim Botânico está cheio de plaquinhas em português e inglês, explicando quase tudo. E, como se não bastasse, é dirigido por Sérgio Besserman Vianna, que é muito culto, sabe esclarecer os visitantes sobre os babados da chegada de Dom João VI ao Rio, fugindo das tropas de Napoleão.

Só me restaria explorar alguns detalhes, como o merecido prestígio da Caesalpinia echinata — ou pau-brasil, para os íntimos. Dizem que o pau-brasil tinha uma resina da qual se extraía uma tinta de cor avermelhada, muito em moda na Europa. Por isso portugueses e franceses — que sempre foram fashionistas — vieram saquear nossa Mata Atlântica. Segundo os estudiosos, havia cerca de 70 milhões dessas árvores na costa do Brasil. Hoje é raro encontrar uma única por aí, a não ser na poesia de Oswald de Andrade. Com o perdão do trocadilho, é uma árvore ex-tinta.

Se eu fosse guia, indicaria para refúgio dos namorados o Mirante da Imprensa — até o nome é sugestivo —, espécie de coreto construído diante do Lago Frei Leandro, de onde se pode enxergar as vitórias-régias, o Cristo Redentor e, conforme a voltagem da paixão, uma boa parte do infinito.

De volta às maravilhas do mundo real, o visitante achará a Fonte de Eco e Narciso, cuja história completa não consta da plaquinha. As duas figuras, inspiradas num personagem da mitologia grega que se apaixona por si mesmo — o que é muito comum hoje —, foram esculpidas para o Passeio Público, por Mestre Valentim, no fim do século XVIII. Depois removidas para o Jardim Botânico, mas mantidas uma distante da outra. Só mais tarde foram reunidas, por campanha promovida pelo admirável Antonio Callado, glória da literatura brasileira, que está completando cem anos de nascimento.

O ponto alto de minha visita guiada, no entanto, seria a fachada da Escola Imperial de Belas Artes. Quando eu era menino, pensava que aquilo fosse um palácio fantasma. Depois descobri que aquele misterioso portal fora desenhado pelo arquiteto Grandjean de Montigny. Ele veio ao Brasil com a Missão Francesa, para ensinar nossos artistas a imitar o estilo mais moderninho da época, o neoclassicismo. Com a demolição da escola, sua fachada foi transferida para o JB.

Segundo cronistas, Grandjean de Montigny acabou por radicar-se no Rio e adotar os costumes locais. Botou pra quebrar durante o entrudo de 1850, em que os foliões arremessavam uns nos outros baldes d’água, limões de cheiro, ovos, lama, o diabo. Graças à brincadeira, o francês contraiu uma infecção e faleceu pouco depois, no início de março. Em suma, Grandjean tornou-se tão carioca que morreu de carnaval.
O Globo, 13/08/2017

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Geraldo Carneiro - Sexto ocupante da Cadeira 24 da ABL, eleito em 27 de outubro de 2016, na sucessão de Sábato Magaldi e recebido em 31 de março de 2017 pelo Acadêmico Antonio Carlos Secchin.

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COM APARECIDA - Por Rute Caldas

Imagens ICAL

COM APARECIDA
 (Música a Nossa Senhora Aparecida)


Com Aparecida eu quero andar,
Com muita fé, disposição e oração,
Para levar Jesus aos meus irmãos
E encontrarmos a salvação!


Aparecida no rio foi achada,
Achada ela está em nossos corações!
Por isso é que podemos dizer que não podemos viver sem você (bis)


É a Padroeira do Brasil
Que foi achada num rio,
Por isso é que até hoje  é venerada como Nossa Senhora (bis)


Aparecida, hoje estamos aqui
E pedimos a sua proteção,
Para fazer sempre o bem ao irmão
E pedirmos a sua proteção!


Porque a vida não é só curtir
Tem que parar, para refletir,
E saber que só Jesus é o Caminho, a Verdade e a Fé! (bis)



Rute Caldas

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PAULINA CHIZIANE, PELA PRIMEIRA VEZ NA BAHIA

FLICA 2017

Candidata ao Prêmio Nobel da Paz em 2005  participa da Flica em outubro


Com um vasto histórico na defesa de causas que lhe caras, como a justiça e igualdade nas relações humanas, Paulina Chiziane virá à sétima edição da Festa Literária Internacional de Cachoeira (Flica), que acontece entre os dias 5 e 8 de outubro. Reconhecida como a primeira mulher a publicar um romance em Moçambique, a escritora compõe a mesa “A Máxima Potência que Habita as Palavras”, no sábado, dia 07, que terá a mediação de Lívia Natália e a participação de Elisa Lucinda.

Autora de trabalhos em forma de romance, conto e drama, ganhou o prêmio José Craveirinha pela obra "Niketche", em parceria com Mia Couto; a Ordem Infante Henrique, pelo governo português; a Ordem de Oficial do Cruzeiro do Sul, pelo Governo do Brasil; e o  troféu Raça Negra, edição 2014. Sua obra foi traduzida em vários idiomas, com homenagens nacionais e internacionais, transformadas em dramaturgia, dança, música, artes plásticas e radionovela.

Seu primeiro livro foi lançado em 1990, o romance "Balada de amor ao vento". Também é autora dos romances "Ventos do apocalipse" (1992), "O sétimo juramento" (2000), "Niketche – uma história de poligamia" (2002) e "O alegre canto da perdiz (2007)”. Em 2008 publicou o livro de contos "As andorinhas".

"As heroínas sem nome", em coautoria com a angolana Dya Kassembe (2008), e "Quero ser alguém" (2011) são seus livros de entrevistas. Escreveu também os ensaios "Na mão de Deus", em coautoria com Maria do Carmo da Silva (2012), Por quem Vibram os Tambores do Além, com coautoria de Rasta Pita (2013), e "Ngoma Yethu”, com Mariana Martins (2015). Também é autora do drama "Ocupali" (2016). Este ano, lançou os versos poéticos "O Canto dos Escravos".

Sua obra lhe valeu a nomeação como uma das mil mulheres pacíficas do mundo pelo Movimento Internacional de Paz, One Thousand Peace Women, 2005, publicações de contos em jornais da Europa, Ásia, Africa e América, e participação em conferências de arte e literatura em Moçambique e em diferentes universidades da Europa, Ásia, Africa e América.

Em 2005, foi candidata ao Prêmio Nobel da Paz pelo movimento One Thousand Peace Womem for Nobel Prize, em reconhecimento ao seu trabalho de escrita militante pela causa da justiça e igualdade nas relações humanas do seu país, reconhecimento do trabalho social na promoção da mulher e dos grupos esfavorecidos.

Flica 2017 - A sétima edição da Flica, entre os dias 5 e 8 de outubro, segue trazendo para o Recôncavo Baiano influentes nomes da literatura nacional e internacional, com programação para adultos e crianças. Em 2017, estão programados debates literários, lançamento de livros, exposições, apresentações artísticas, contações de histórias e saraus.

A festa costuma atrair mais de 20 mil visitantes a Cachoeira. Uma novidade deste ano será a curadoria. O escritor e jornalista Tom Correia assume a função ocupada, em 2016, por Emmanuel Mirdad, um dos idealizadores e coordenador geral da Flica.
  
O Governo do Estado da Bahia apresenta a Flica 2017. O projeto é realizado pela Cali e Icontent e tem patrocínio do governo, por meio do Fazcultura, e apoio do Hiperideal, Coelba e da Prefeitura Municipal de Cachoeira.

Serviço
Festa Literária Internacional de Cachoeira - Flica 2017
​Quando: ​5 a 8 de Outubro 
Onde: Cachoeira/Ba


-- 
Mais informações à imprensa:
Laboratório da Notícia - 3272 4263
WhatsApp: (71) 98794-1251
Facebook: Laboratório da Noticia
Twitter: @laboratoriodanoticia

Instagram: @laboratoriodanoticia 

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quinta-feira, 17 de agosto de 2017

MARIA VALÉRIA REZENDE E FRANKLIN CARVALHO PARTICIPAM DE MESA NA FLICA

FLICA 2017:


Maria Valéria Rezende e Franklin Carvalho participam de mesa na Flica
Autores falam sobre “Memória, obsessões e outras matérias-primas da ficção na sexta-feira, dia 6 de outubro.

Dois autores premiados participam da mesa “Memória, obsessões e outras matérias-primas da ficção” na sexta-feira, dia 6 de outubro, na Festa Literária Internacional de Cachoeira (Flica). Maria Valéria Rezende Franklin Carvalho participam do evento e contam, no bate-papo, com a mediação de Milena Britto.

Maria Valéria Rezende nasceu em Santos (SP), onde viveu até os 18 anos. Em 1965, entrou para a congregação de Nossa Senhora – Cônegas de Santo Agostinho. Dedicou-se sempre à educação popular, primeiro na periferia de São Paulo. A partir de 1972, no Nordeste, vivendo em Pernambuco e depois na Paraíba, no meio rural, até 1988. Desde então, em João Pessoa, onde está até hoje.

Em 2001, lançou seu primeiro livro de ficção, batizado de “Vasto mundo”. É também autora de “Voo da guará vermelha”, ”Modo de apanhar pássaros à mão”, “Quarenta dias” (ganhador do Prêmio Jabuti na categoria romance, em 2015). “Outros cantos” foi selecionado pelo programa Petrobras Cultural, ganhador do prêmio Casa de Las Américas na categoria Literatura Brasileira. 

Céus e terra - Franklin Carvalho é autor do romance “Céus e terra”, que venceu a edição 2016 do Prêmio Nacional Sesc de Literatura, do Serviço Social do Comércio. A obra, que ficou à frente de 793 concorrentes, foi lançada em novembro. Embora seja ficção, o romance surgiu a partir de pesquisas sobre Antropologia da Morte realizada com vistas a obter vaga em mestrado na Universidade Federal da Bahia.  

Jornalista, pós-graduado em Direito e Processo do Trabalho e assessor de imprensa, o baiano, natural de Araci, tem 48 anos e é autor de dois livros de contos independentes, “Câmara e cadeia” (2004) e “O encourado” (2009). Em 2015, recebeu o 2º lugar no Prêmio de Jornalismo Barbosa Lima Sobrinho - Direitos Humanos, da Seção Bahia da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-BA), na categoria Webjornalismo. 

Flica 2017 - A sétima edição, que acontece entre os dias 5 e 8 de outubro, segue trazendo para o Recôncavo Baiano influentes nomes da literatura nacional e internacional, com programação para adultos e crianças. Em 2017, estão programados debates literários, lançamento de livros, exposições, apresentações artísticas, contações de histórias e saraus.

Todos os anos, escritores de diversos matizes se reúnem para debater e interagir com o público, que tem acesso gratuito a todas as atrações do evento. A festa costuma atrair mais de 20 mil visitantes a Cachoeira. Uma novidade deste ano será a curadoria. O escritor e jornalista Tom Correia assume a função ocupada, em 2016, por Emmanuel Mirdad, um dos idealizadores e coordenador geral da Flica. 

O Governo do Estado da Bahia apresenta a Flica 2017. O projeto é realizado pela Cali e Icontent e tem patrocínio do Governo do Estado, por meio do Fazcultura, e apoio do Hiperideal, Coelba e da Prefeitura Municipal de Cachoeira.

Serviço
Festa Literária Internacional de Cachoeira - Flica 2017
Quando: 5 a 8 de Outubro 
Onde: Cachoeira/Ba

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Mais informações à imprensa:
Laboratório da Notícia - 3272 4263 /WhatsApp: (71) 9 8794-1251
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A ESTREIA LITERÁRIA DE MARGARIDA FAHEL – Cyro de Mattos


A Estreia Literária de Margarida Fahel

                                      Cyro de Mattos


           Com o romance Nas dobras do tempo (2015), Margarida Fahel  faz sua estreia na literatura de boa qualidade produzida por autores nascidos no Sul da Bahia, uns focando a temática do cacau,  outros desenvolvendo assuntos dos mais diversos da natureza humana, sem dependência de geografia humana  exterior,  como é o caso das vozes femininas de Elvira Foeppel e  Sonia Coutinho.
   
           O romance  Nas dobras do tempo  tem como tema o amor, com suas dores e flores, solidões tantas, e logo desponta  com pontos positivos no texto construído  através de  técnica moderna na forma de narrar. Costurado   por vozes de mulheres que chegam do silêncio como ondas e que se estendem nas dobras do tempo como um lençol enorme, o monólogo interior neste romance é usado  para externar situações da alma, ora agudas, ora ternas,  trazendo à tona surpresas,  que ultrapassam os limites do acontecimento e se fazem solidárias.

           O tempo desfia lembranças  nas confissões postas em certo epistolário, nas  situações  retiradas de um diário,   que guarda  segredos na poeira dos dias ao invés de joias.  Além disso, espantos, nessa mesma ideia do amor, fundamentam-se nos  acenos da memória para dar   conhecimento das  vias  percorridas por  duas linhagens no rio da vida.
 
           Na teia romanesca bem urdida pelo tempo fragmentado,  o  texto  vai sendo juntado com  pedaços da vida, formando um mosaico cujo corpo transita  à feição de interioridades  do coração,  entre  tristezas e alegrias.  Constituído de mergulhos na eterna duração do tempo,  que se curva no âmago de  criaturas vivendo a umidade dos sonhos e a secura dos desejos, essas  vozes femininas  ora chegam de longe  impregnadas  de incandescente ternura, ora renascem das cinzas  nas cores que comovem  na saudade.

           Fundem-se  no presente diante dos  idênticos sentimentos de quem as escuta, como se viessem com o propósito de  unir momentos distantes de duas pessoas em um só, numa só palavra, num só gesto,  num só amor. No  intuito de reavivar    a natureza humana  de  uma  mesma unidade, revestem-se de confissões, admirações e lamentos,  até que o tempo se decida na conversão dos ais, das cicatrizes do efêmero,   dos brilhos ligados  à vida nos  gestos calmos.

           Esse senhor soberano, o tempo, que sabe das  coisas e dos  caminhos,  aqui  se mostra  vestido de delicadezas, mesmo nos momentos aguçados de tristeza, e que   vão  sendo apresentados pelas vozes dessas  mulheres vividas  em momentos diferentes, distantes,  mas que  o souberam em horas  similares do amor. Entrelaçadas  muitas vezes com o sofrimento, suas vozes  terminam com uma explicação em forma de visões,   pressentimentos e intuições.
 
           Nessas quatro mulheres, a bisavó Marie Bertha, a  avó Marie Élise, a mãe Maria Teresa e a filha  Luísa - enovelam-se  com os fios eternos do sonho a teia romanesca,  tecida com cuidado e sem pressa na pele do  tempo. Em linguagem descontínua e digressiva, para romper com a narrativa linear do romance tradicional, o discurso  tantas vezes lírico,   indo e vindo no flash-back, refere-se à vida em grito, sua fluência nas dores,  conduzida por gesto  de esperanças, nas  purezas, no medo, nos  amores. Até nas dores, nas tristezas fabricadas por esse  senhor soberano,  aquele  que tudo sabe, escorre e lambe, acontecem  situações que tocam uma música com as teclas do bem. O romance percorre  espaços cadenciados com afeto para no  final  chegar à paz,  não fosse a  autora dotada de um sensibilidade acurada posta a serviço do amor como a verdade que faz o sentido.
        
O mundo imaginado por Margarida Fahel nos dá a sensação de que essas mulheres, embora distantes no tempo, sempre andaram  juntas, tamanha é a união de suas vozes , que vão e voltam, chegam do silêncio como a pureza das brisas para o fluxo e o refluxo de  constatações segundo os critérios do tempo. Não se perderam nas rugas, na prata dos cabelos,  estiveram em cada dia, hora e minutos,   todas elas na mágica suprema  que o rio da vida plasma. Escreve  nas águas  tudo que é acontecimento, escorre seu curso  por entre os sulcos da descida, e que  a memória guarda.  

           Assim,  na foto  que a memória retém,  na carta que  ata lembranças e acende o coração nos rumores  das distâncias, percebemos  a  tristeza escondida no rosto sério da bisa Bertha, por  trás das  ordens, na cozinha às negras, no canavial aos escravos, na roça de cacau  aos trabalhadores. Também escutamos pulsações sublimes  no sorriso mais doce de outras personagens nucleares,  na serenidade do gesto,  numa certa e singela ironia. Escutamos gritos em silêncio,  que ferem a aparente calma do corpo e contagiam  a vida, como diz Luísa Bresson Koch Monteiro, personagem  que conta sua história e, ao mesmo tempo,  escuta as de seus antepassados, num tempo em que mulheres não  contradiziam, sempre devotadas e obedientes, segundo os costumes da época, reservando-se por isso ao esquecimento e exílio as  que  se rebelavam.  

           Tantas lágrimas, tantas e tantas alegrias! Saudades, muitas saudades! Tantas coisas na memória, tantas coisas e  rostos e falas inscritas na memória, nas células, na pele gravadas!

           Romance de disposições líricas, que é arrastado nos altos e baixos da corrente anímica,  tomando nos caminhos e descaminhos das criaturas como referência as  dobras perenes do tempo,  a estrutura não se configura com   tendência para completar-se com o épico e o trágico  por uma exigência da representação dramática da vida, decorrente da própria essência, nem tampouco por incapacidade da autora. Da vida quer a ideologia desse romance fornecer a utopia apenas  como uma  representação ideal,    desprovida  de tensão perturbadora dos sentidos,  com o delírio de gestos  lancinantes do comportamento humano, em  redemoinho de conflitos gerados  por entre uma paisagem  rotulada de maldita, sob o domínio do inferno.
 
           Apesar dessa ausência do elemento trágico, melhor e intenso,  diante  do qual o mundo vivido é marcado por episódios na luta pela terra, dotando suas passagens com cenas extraordinárias  impregnadas do drama,  não   deixa de tocar  nas feridas do sistema organizado,  com base  na  escravidão do trabalho exercido pelos negros vindos da África. De  aludir  à norma  que relegava a mulher ao código da resignação,  imposto pelo homem com o seu privilegiado mandonismo.

           O tempo histórico do romance,  no vaivém das lembranças,  situa-se  a partir do  final  do século  XIX, quando Ilhéus era uma vila,  a economia hesitante baseava-se  no cultivo da cana de açúcar e  lavouras de pouca duração. Alcança  os  primeiros passos tímidos da lavra cacaueira, depois da abolição da escravatura, e  se reencontra na rota do progresso movido pela força do cacau, que torna  a Vila dos Ilhéus,  antes  de casas feias, ruas estreitas e descuidadas,  em um município poderoso. Das gentes que chegam da Europa,  alemães e franceses,  em fins do século XIX, para pisar o chão de um novo mundo,  conquistá-lo com o trabalho e dele haurir  as benesses, são tiradas algumas  personagens que convencem  em razão da beleza de caráter e firmeza de  vida.
   
           A perspectiva literária que a autora encontra para a montagem  de  Nas dobras do tempo, fora da efervescência da lavoura cacaueira com seus dramas gerados pela conquista da terra,  resulta em  fatura valorosa  de sua missão como ficcionista moderna. No diário da bisavó Bertha, no cofre, em que não se guardou  joias, nas dores sepultadas com as cores da dureza,   em   retalhos de vida  descobertos no sofrimento da avó  Élise, nas tristezas do avô Hans, nas  saudades do avô Pierre, e “como pássaro saído de uma cartola mágica, a verdade sobre Anísio”, o negro de olhos verdes, tudo que se desprende deste romance em forma do doloroso e do afetivo faz lembrar os versos do poeta, dizendo, “quando em ti  existo/,  e eras tu e a realidade/, em que te respiro e observo/, perduro e  me fui  e fico."

           Numa outra linhagem, como em círculos que se atam, estendem-se,  associam-se,  paralelamente  à linhagem da família de Maria Teresa  Koch Monteiro, outros pontos nodais do novelo romanesco  são desatados, ferindo  na  abordagem  elegante a  miséria amarrada aos rastros da verdade quando então fora  encoberta pelos passos desgraçados da  escravidão dos negros.

           Anísio e Jovanina. Anísio, Justina, e Maria Adelaide. Anísio, Justina,  Maria Adelaide e Ivan. Ivan e eu, Luísa... Eu, a depositária desses retalhos. Todos eles, agora costurados com fios de dor e de amor. Um grande lençol tecido e bordado  pela aparente incoerência  do destino.

           A Luísa, a sempre amada por Ivan, advogado brilhante, culto, vítima de traição por um colega de escritório, que o levaria a uma prisão injusta, coube  a missão de emendar e estender este lençol aos que desejem percorrer as trilhas do amor vivido por personagens criados com alma, sensibilidade arguta, narrativa  que nos prende com intensidade de vida.  Na trama do destino, e ouso  dizer  por escolha existencial,  coube a Margarida Fahel,  construir um romance  denso e cativante, de narradora de fôlego, imaginação com  asas largas do lirismo, dando-nos  certezas sobre o difícil e complexo gesto do viver,  como essa que diz , sem hesitar,   com tanta pureza, plena de verdade,  que só o amor salva. E mais perdura se flui com o perfume do jasmim.


Referências

 FAHEL, Margarida. Nas dobras do tempo, editora Mondrongo, Itabuna, Bahia, 2015.

STAIGER, Emil. Conceitos fundamentais da poética, Edições Tempo Brasileiro, Rio, 1972.
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Cyro de Mattos - Ficcionista e poeta. Publicado em inglês, francês, italiano, espanhol, alemão, dinamarquês, russo. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. É membro titular da Academia de Letras da Bahia,da Academia de Letras de Ilhéus e membro fundador da Academia de Letras de Itabuna. Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz-UESC.

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