Total de visualizações de página

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

QUANDO ME AMEI DE VERDADE - Kim McMillen

Quando me amei...
Kim McMillen


Auto-estima, Autenticidade, Amadurecimento, Respeito, Amor Próprio, Simplicidade, Humildade, Plenitude, Saber Viver - Fazem parte do seu dia-a-dia? 

Quando me amei de verdade, compreendi que em qualquer circunstância, eu estava no lugar certo, na hora certa e no momento exato. E, então pude relaxar. Hoje sei que isso tem nome...  AUTO ESTIMA!

Quando me amei de verdade, pude perceber que a minha angústia, meu sofrimento emocional, não passa de um sinal de que estou indo contra as minhas verdades. Hoje sei que isso é... AUTENTICIDADE!

Quando me amei de verdade, parei de desejar que minha vida fosse diferente e comecei a ver que tudo o que acontece contribui para o meu crescimento. Hoje chamo isso de... AMADURECIMENTO!

Quando me amei de verdade, comecei a perceber como é ofensivo tentar forçar alguma situação ou alguém apenas para realizar aquilo que desejo, mesmo sabendo que não é o momento ou a pessoa não está preparada, inclusive eu mesmo. Hoje sei que o nome disso é... RESPEITO!

Quando me amei de verdade, comecei a me livrar de tudo que não fosse saudável... Pessoas, tarefas, tudo e qualquer coisa que me pusesse para baixo. De início, minha razão chamou essa atitude de egoísmo. Hoje sei que se chama... AMOR PRÓPRIO!

Quando me amei de verdade, deixei de temer meu tempo livre e desisti de fazer grandes planos, abandonei os projetos megalômanos de futuro. Hoje faço o que acho certo, o que gosto, quando quero e no meu próprio ritmo. Hoje sei que isso é... SIMPLICIDADE!

Quando me amei de verdade, desisti de querer ter sempre razão e, com isso, errei muito menos vezes. Descobri a... HUMILDADE!

Quando me amei de verdade, desisti de ficar revivendo o passado e de me preocupar com o futuro. Agora, me mantenho no presente, que é onde a vida acontece. Hoje vivo um dia de cada vez. Isso é... PLENITUDE!

Quando me amei de verdade, percebi que a minha mente pode me atormentar e me decepcionar. Mas quando eu a coloco a serviço do meu coração, ela se torna uma grande e valiosa aliada. Isso é... SABER VIVER...

Não devemos ter medo dos confrontos... Até os planetas se chocam e do caos nascem as estrelas.



Enviado por: "Ucha Crystal" uchacrystal@yahoo.com.br

* * *

A PROFISSÃO DE JUPARÁ

A profissão de Jupará


           Jupará foi um dos tipos mais esquisitos da cidade, que se tornou bastante conhecido pela sua mania de prestar serviços relacionados com as pessoas falecidas como sejam: transportar caixões mortuários, capelas, vestir e velar o cadáver.

            O seu tipo de débil mental, alto, magro e feio, sempre metido nas roupas folgadas que ‘herdava’ dos mortos, causava medo às crianças e já estava se tornando numa verdadeira superstição sua passagem pela rua ou porta de uma casa onde houvesse uma pessoa doente. Era um agouro, diziam logo:  - Fulano não escapa, quando Jupará aparece o doente falece...

            Efetivamente, Jupará vagava pelas ruas da cidade, principalmente à noite, “farejando” um defunto, uma sentinela, quando encontrava, se oferecia logo para ir buscar o caixão e se a família do morto lhe permitisse, ele ficava na cabeceira do defunto, sacudindo as moscas, acendendo velas, sempre pronto para qualquer serviço.

x x x 

            Contam que certa noite lhe encarregaram de levar um caixão no lugar “Surubim”, na Estrada de Ferradas, porém ele na ansiedade de fazer o serviço, não prestou bem atenção ao que lhe recomendaram e levou o caixão para o “Salobrinho”, na estrada de Ilhéus.

            Enquanto a família do morto, lá no Surubim aguardava a chegada de Jupará, este vagava, altas horas da noite, pela localidade de Salobrinho, com o ‘envelope’ na cabeça, batendo de porta em porta e indagando: - Foi aqui que morreu um defunto?...

            Perto do amanhecer, cansado, botou o caixão no chão, deitou-se no mesmo e adormeceu.

            Pela manhã, houve assombração no Salobrinho. Muita gente correu, quando Jupará, acordando levantou-se do caixão...



DOCUMENTÁRIO HISTÓRICO ILUSTRADO DE ITABUNA, 1ª Edição -1968 - José Dantas de Andrade

* * * 

E AGORA ADERVAN? - Antonio Nunes de Souza

Foto DiárioBahia
E AGORA Adervan?


“A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e AGORA José?”

Esse é o começo do imortal poema de Carlos Drummond Andrade que, merecidamente, recito para meu querido amigo José Adervan, jornalista de primeira água, preocupado com a nossa região, principalmente com o município de Itabuna!

Como todos sabemos, fundador de um dos melhores jornais da região cacaueira, curiosamente, com o nome de AGORA!

“E AGORA José?” que nossa festa momescas acabou, o povo sumiu, a noite esfriou e, pela graça de Deus, você foi também no meio da festa antecipada que, por ironia do destino, antecipou também a sua morte?

Com uma vida bancária invejável, jornalística que fazia inveja, veia política fervorosa e ativa, bom comentarista, orador e político atuante, chefe de família e amigo como poucos!

“E AGORA José?”
Você não deixa somente saudades, está nos deixando uma bela prole que, certamente, dará continuidade a sua obra mais marcante, que é esse jornal diário de grande circulação, fundado as duras e sacrificantes penas, juntamente com meu querido primo Ramiro Aquino, levando e trazendo notícias desse mundo a fora! Criando polêmicas discursões sobre o destino do nosso estado e, consequentemente, do nosso país!

“E AGORA José?
Tenha certeza que será sempre lembrado pela sua orgulhosa e brilhante passagem entre nós, suas atuações impecáveis em clubes de serviços e várias outras instituições!

Sua falta nos deixa uma lacuna das grandes, mas, seguramente, estará orando por nós no reino dos céus, torcendo para que as coisas melhorem, como sempre fez durante sua dedicada vida!

Com tristeza, apresento as minhas condolências aos seus familiares, com o coração cheio de saudade, pela pessoa que você sempre foi!

“E Agora José?”
 A festa acabou,  a noite esfriou, o povo sumiu, levando você!



Antonio Nunes de Souza, escritor
Membro da Academia Grapiúna de Letras – AGRAL


* * *

domingo, 12 de fevereiro de 2017

GENTE QUE AMA ITABUNA - Frei Ludovico de Livorno

Foto do Acervo histórico de Itabuna
Frei Ludovico de Livorno 

Era natural da Itália.
Antes de vir para o Brasil, servira como capelão no exército de Napoleão Bonaparte, em suas campanhas pela Europa.
Veio em missão de catequese. Foi designado para servir no sul da Bahia, onde a civilização apenas ensaiava seus primeiros passos.
Ferradas foi o seu Quartel General, de onde comandou seus companheiros na difícil missão de catequizar os índios.

Logo conquistou o carinho dos moradores da região. Seu nome era pronunciado com respeito.

Grande orador era imprescindível nas festividades religiosas, nas Santas Missões, onde empolgava os ouvintes com sermões de rara beleza.

Era tido por muitos como possuidor de poderes sobrenaturais.

Certa ocasião, durante as Santas Missões, estava pregando, quando interrompeu sua prédica para exclamar visivelmente perturbado: Santo Deus Misericórdia! Acabam de matar o meu amigo... ( e disse o nome de conhecido fazendeiro, residente ali perto).

Horas depois, a notícia chegou: o tal fazendeiro havia morrido numa tocaia. 

Outra vez, o frade subia o rio Almada de canoa; a certa altura mostrando-se muito agitado pediu ao canoeiro para encostar a embarcação, saltou para terra firme e penetrou o terreiro de uma casa que ficava cerca de 600 metros da margem e encontrou o fazendeiro espancando um preto velho, escravo. Sua chegada fez o castigo ser encerrado, com o homem confuso, pedindo desculpas. Estes episódios da vida de Frei Ludovico fizeram a maioria das pessoas que deles tiveram conhecimento, classificá-los de “milagres”.

Exerceu sua ação evangelizadora entre índios e desbravadores da região por 30 anos.
Aos 85 anos de idade, cansado, foi para Salvador e recolheu-se ao Convento dos Capuchinhos onde faleceu em 12 de abril de 1875.

Em lugar do frei Ludovico de Livorno ficou outro frade de nome Luiz de Grava, que já vinha desenvolvendo brilhante trabalho não somente de catequese, como na fundação de novos núcleos coloniais e aldeamentos. Morreu afogado no rio Cachoeira quando regressava para Ferradas de canoa.


 (DOCUMENTO HISTÓRICO E ILUSTRADO DE ITABUNA)  

José Dantas de Andrade.

* * *

A CATEQUESE DOS ÍNDIOS NA HISTÓRIA DO BRASIL - Carlos Sodré Lanna

29 de janeiro de 2017

Transcorria o ano de 1556. Dom Pero Fernandes Sardinha — ­nosso primeiro bispo — tomava a nau Nossa Senhora da Ajuda, acompanhado de eclesiásticos, pessoas da sociedade e famílias inteiras rumo a Portugal.

 Morte de Dom Pero Fernandes Sardinha e sobreviventes da nau Nossa Senhora da Ajuda, que foram devorados pelos índios caetés (gravura de A.F. Lemaitre)
Um acidente fatal a fez soçobrar pouco depois de zarpar de Salvador. Os que escaparam ao naufrágio — e foram muitos — acabaram capturados e devorados pelos ferozes índios caetés, na margem esquerda do rio São Miguel, ainda hoje indicada graças à crença popular.

Eis um acontecimento característico do estado dos índios brasileiros por ocasião da chegada dos nossos primeiros colonizadores e missionários.

Para darmos uma ideia da mudança ocasionada pelo influxo do Cristianismo e da civilização, apresentaremos, neste primeiro artigo de uma série de três, um quadro geral da situação em que se encontravam os aborígines na época do descobrimento do Brasil.

Nomadismo e promiscuidade

Talvez a maior descoberta dos portugueses ao desembarcarem em nossas terras tenha sido os próprios índios, um tipo humano ainda não conhecido pelos lusos em nenhuma parte do mundo. A única ciência dos indígenas era a floresta. O objetivo de suas vidas era comer, beber, caçar, combater e matar…

As aldeias que construíram — as tabas ­duravam no máximo quatro anos: as madeiras apodreciam, as palmas dos tetos de suas ocas já não os cobriam e toda a caça da redondeza estava exterminada.

Se alguma tribo se dedicava precariamente à agricultura, as terras cultiváveis estavam cansadas, o que obrigava os silvícolas a se mudarem de local. Além de predadores da natureza, nossos índios, com seus costumes nômades, jamais conheceram qualquer tipo de desenvolvimento.

 Cunhambebe, famoso cacique canibal, que se vangloriava de ter devorado grande quantidade de inimigos

Os laços sociais que os uniam eram de tal maneira frouxos que essas pequenas tribos se fracionavam cada dia mais. As constantes guerras de extermínio entre elas constituíam motivo para que se debilitassem e diminuíssem em número.

Nessas pobres almas predominava o instinto de vingança. Iniciadas as rixas que eram transmitidas de pais para filhos, não se poderia esperar nenhum sentimento de abnegação em favor do interesse comum e tampouco da posteridade.

Ao contrário de certas visões idílicas que alguns autores indigenistas procuram dar à vida tribal, ela se caracteriza pela mais completa promiscuidade, causadora de todas as espécies de doenças e vícios morais.

Vários cronistas da época relatam que os índios, antes da conversão, moravam em casas compridas — as ocas — cuja superfície era de trezentos ou quatrocentos palmos por cinquenta de largura; suas paredes eram de palha e o teto recoberto de folhas de palmeiras. Dentro delas viviam esparramados indistintamente cerca de cem a duzentos silvícolas. Entrando na oca, via-se a todos e tudo quanto nela se encontrava. Uns cantavam, outros riam, outros choravam, alguns preparavam farinha, outros o cauim etc. Havia pequenos fogos por todos os lados dando uma aparência de labirinto ou de um pequeno inferno.

Essas tabas eram escura, malcheirosas e esfumaçadas. À guisa de camas, os infelizes nativos usavam uma espécie de rede que exalava um odor horripilante, pois eles eram tão preguiçosos que nem se levantavam para satisfazer suas necessidades naturais.

Índios canibais

Eram seres humanos inteiramente rudimentares, ferozes, astutos, mentirosos e traiçoeiros. E, além do mais, eram canibais.

As cerimônias de matanças públicas serviam de pretexto para festas e ajuntamentos. Daí a denominação de “antropofagia ritual” que lhes deram. Os aborígines comiam seus inimigos por vingança. Suas expedições guerreiras tinham também como fim proverem-se de carne humana.

Durante os combates, os índios visavam sobretudo à captura de prisioneiros. Após uma luta preliminar, os guerreiros de ambos os lados precipitavam-se uns contra os outros, esforçando-se para desarmar o adversário e aprisioná-lo vivo. Os mortos e feridos no campo de batalha eram dizimados e devorados imediatamente, levando-se também diversas partes assadas para casa. A expedição vitoriosa fazia uma entrada triunfal em todas as tabas aliadas, ao longo do caminho. Ao chegar à aldeia de origem, as tropas obrigavam o prisioneiro a gritar: eu, vossa comida, cheguei!

Nenhum deles podia escapar ao sacrifício ritual para o qual era destinado. Caso adoecesse, os indígenas levavam-no mata adentro e partiam-lhe o crânio, deixando o cadáver insepulto. A duração do cativeiro variava muito, pois os velhos eram mortos sempre no retomo da expedição, enquanto os jovens poderiam manter-se cativos por vários meses, até anos.

Marcada a data da execução, todos os vizinhos e aliados eram convidados a tomar parte no festim. Passavam a noite precedente, num simulacro de vigília, a dançar, cantar e beber. Logo ao alvorecer, várias mulheres conduziam a vítima amarrada pela cintura até a praça da execução, no centro da aldeia, em meio a grande alvoroço. Aparecia então, no pátio, o carrasco dançando com um enorme tacape nas mãos, e, aproximando-se do prisioneiro, o brandia com toda força, quebrando-lhe a cabeça.

Mal o mísero massacrado caísse morto, velhas índias precipitavam-se sobre ele para recolher em uma cuia o sangue e os miolos que eram engolidos ainda quentes. Em seguida, o cadáver era assado como se fosse um porco e depois esquartejado, levando-se então os pedaços às cabanas em meio a gritos de alegria. Os selvagens acreditavam que, comendo a carne do inimigo, apropriavam-se de suas qualidades e manifestavam sua superioridade sobre ele.

Antropofagia doméstica

Algumas tribos comiam por culto membros de sua família que faleciam, dando-lhes, como pensavam, um digno sepultamento em seus próprios estômagos.

Nas tribos que praticavam a antropofagia era freqüente encontrar esse canibalismo doméstico, mágico ou participativo. Ele procede da crença de que, pela ingestão das carnes de um indivíduo, dá-se a mais íntima união possível com ele, e por conseguinte, a participação em suas qualidades: coragem, vigor, destreza etc. Daí os banquetes sagrados em que eram comidos, em festividades solenes, os personagens tidos como superiores: o cacique, o pajé, os guerreiros ou heróis, freqüentemente pessoas da própria tribo.

Assim, a fim de se revestirem das qualidades desejadas de seus antepassados, surgiu em várias tribos o costume de ingerir-lhes, em rituais fúnebres, as cinzas com bebidas especiais.

Um mês após o funeral do familiar, desenterravam seu cadáver, já em adiantadíssimo estado de putrefação, e o colocavam em uma grande panela sobre o fogo, até que lhe extinguissem as partes moles. Os odores fétidos exalados durante o ato completavam aquele ritual macabro. Quando os ossos ficavam carbonizados, eram triturados e reduzidos a pó. Este, por sua vez, era colocado em grandes cuias de madeira cheias de bebidas. Todo o grupo presente bebia então esta mistura até a última gota, crendo que as virtudes do morto haviam se transmitido a todas as pessoas que a ingeriam.

Taba ou aldeia indígena encontrada pelos primeiros colonizadores e missionários (gravura de A.F. Lemaitre)

Fundação dos aldeamentos

Pero Vaz de Caminha lê para o comandante Pedro Álvares Cabral, o Frei Henrique de Coimbra e o mestre João a carta que será enviada ao rei D. Manuel I.
Foi esse o sinistro panorama encontrado pelos primeiros missionários que para cá vieram, com a intenção de iniciar a catequese desses silvícolas e implantar a civilização cristã em nossa pátria.

Segundo estimativas geralmente aceitas, na época do Descobrimento, o Brasil contaria com cerca de cinco milhões de índios. O grande mérito de Portugal foi transformar a catequese na base de sua obra colonizadora. “Contudo, o melhor que dela se pode tirar parece-me que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar”, escreveu Pero Vaz de Caminha a el-Rei de Portugal, Dom Manuel, narrando a descoberta da Terra de Vera Cruz.

Os maiores entraves para sua conversão foram: a antropofagia, a poligamia, as bebedeiras, o nomadismo intermitente, as guerras entre tribos vizinhas e a inconstância nos propósitos.

Se os missionários se contentassem tão-só em percorrer as aldeias dos nativos, além de todos os tipos de riscos que enfrentariam, o resultado seria precário. O que eles ensinassem em um mês, por falta de exemplo ou de exercício, perderiam no outro. Com o nomadismo intermitente dos índios, ao voltarem os missionários a uma tribo que haviam catequizado pouco antes, em vez dela encontrariam cinzas.

Era necessário o mais depressa possível fixar os indígenas ao solo, afastando os já batizados da influência dos que permaneciam pagãos. De outra maneira, não seriam extirpadas as indecisões nem a volta aos costumes antigos.

A catequese dos índios seria uma quimera enquanto não se organizassem os aldeamentos, com regime próprio e autoridade. As primeiras tentativas de formação das aldeias indígenas ocorreram na Bahia. Elas foram a modalidade mais eficaz e original de colonização aplicada no Brasil, primeira semente das célebres reduções jesuítas.


Mem de Sá, o terceiro Governo-Geral, concedeu todo o apoio aos primeiros missionários jesuítas e favoreceu a fundação de aldeamento dos silvícolas.
Para ser eficaz e completa, a atividade dos missionários precisava ser apoiada pelas autoridades públicas. O terceiro Governador Geral do Brasil, Mem de Sá (1558–­1572), concedeu todo apoio moral e material aos primeiros missionários jesuítas, comandados pelo padre Manoel da Nóbrega.

Sob a influência da milícia de Santo Inácio, os Governadores-Gerais deram a tais aldeamentos regalias quase municipais. Com efeito, tinham eles uma legislação especial que regulamentava os bens dos índios, sua separação em relação aos portugueses, o comércio entre eles e o regime de trabalho, baseado nas instituições portuguesas.

Começou desse modo a grande obra de catequese junto aos silvícolas brasileiros, cujo desenrolar trataremos no próximo artigo.

____________
Bibliografia:
1. Padre Serafim Leite, História da Companhia de Jesus no Brasil, Livraria Portugalia, Lisboa, 1938.
2. Francisco Adolfo de Varnhagen, História Geral do Brasil, Edições Melhoramentos, São Paulo, 1959.
3. Alfred Metraux, A religião dos tupinambás, Cia.
Editora Nacional, São Paulo, 1979.
4. Allcionilio Bruzzi Alves da Silva, A Civilização Indígena do Uaupés, Libreria Ateneo Salesiano, Roma, 1977. 



* * *

CARTA DO SENADOR PÚBLIO LENTULUS AO IMPERADOR TIBÉRIO CEZAR, DESCREVENDO AS CARACTERÍSTICAS FÍSICAS E MORAIS DE JESUS

        
"Sabendo que desejas conhecer quanto vou narrar, existindo nos nossos tempos um homem, o qual vive atualmente de grandes virtudes, chamado Jesus, que pelo povo é inculcado o profeta da verdade, e os seus discípulos dizem que é filho de Deus, criador do céu e da terra e de todas as coisas que nela se acham e que nela tenham estado; em verdade, ó César, cada dia se ouvem coisas maravilhosas desse Jesus: ressuscita os mortos, cura os enfermos, em uma só palavra: é um homem de justa estatura e é muito belo no aspecto, e há tanta majestade no rosto, que aqueles que o veem são forçados a amá-lo ou temê-lo. Tem os cabelos da cor amêndoa bem madura, são distendidos até as orelhas, e das orelhas até as espáduas, são da cor da terra, porém mais reluzentes.

         Tem no meio de sua fronte uma linha separando os cabelos, na forma em uso nos nazarenos, o seu rosto é cheio, o aspecto é muito sereno, nenhuma ruga ou mancha se vê em sua face, de uma cor moderada; o nariz e a boca são irrepreensíveis.

         A barba é espessa, mas semelhante aos cabelos, não muito longa, mas separada pelo meio, seu olhar é muito afetuoso e grave; tem os olhos expressivos e claros, o que surpreende é que resplandecem no seu rosto como os raios do sol, porém ninguém pode olhar fixo o seu semblante, porque quando resplende, apavora, e quando ameniza, faz chorar; faz-se amar e é alegre com gravidade.

         Diz-se que nunca ninguém o viu rir, mas, antes, chorar. Tem os braços e as mãos muito belos; na palestra, contenta muito, mas o faz raramente e, quando dele se aproxima, verifica-se que é muito modesto na presença e na pessoa. É o mais belo homem que se possa imaginar, muito semelhante à sua mãe, a qual é de uma rara beleza, não se tendo, jamais, visto por estas partes uma mulher tão bela, porém, se a majestade tua, ó Cézar, deseja vê-lo, como no aviso passado escreveste, dá-me ordens, que não faltarei de mandá-lo o mais depressa possível.

         De letras, faz-se admirar de toda a cidade de Jerusalém; ele sabe todas as ciências e nunca estudou nada. Ele caminha descalço e sem coisa alguma na cabeça. Muitos se riem, vendo-o assim, porém em sua presença, falando com ele, tremem e admiram.

         Dizem que um tal homem nunca fora ouvido por estas partes. Em verdade, segundo me dizem os hebreus, não se ouviram, jamais, tais conselhos, de grande doutrina, como ensina este Jesus; muitos judeus o têm como Divino e muitos me querelam, afirmando que é contra a lei de Tua Majestade; eu sou grandemente molestado por estes malignos hebreus.

         Diz-se que este Jesus nunca fez mal a quem quer que seja, mas, ao contrário, aqueles que o conhecem e com ele têm praticado, afirmam ter dele recebido grandes benefícios e saúde, porém à tua obediência estou prontíssimo, aquilo que Tua Majestade ordenar será cumprido.

         Vale, da Majestade Tua, fidelíssimo e obrigadíssimo... Públio Lentulus, presidente da Judéia Lindizione setima, luna seconda.”

-------------
         (Este documento foi encontrado no arquivo do Duque de Cesadini, em Roma. Essa carta, onde se faz o retrato físico e moral de Jesus, foi mandada de Jerusalém ao imperador Tibério César, em Roma, ao tempo de Jesus.)




* * *

LIVRO - Wagner Albertsson

LIVRO


MORRE O HOMEM
FICA O LIVRO
PARA SER LIDO
POR OUTROS
HOMENS.

A LETRA
NO PAPEL
É ETERNA
E ACOMPANHA
O TEMPO
EM OUTROS 
PAPÉIS,
EM OUTRAS MÃOS.

MAS O SENTIDO
DO QUE EXISTE
PERMANECE,
EM DIFERENTES TEMPOS
EM EXTROVERTIDAS MENTES.

O HOMEM
PASSA
PORQUE NÃO
É TINTA; 
NEM TAMPOUCO
PAPEL.
MAS FICARÁ
CRAVADO
NOS SÉCULOS
SE FOR LIVRO
E IMAGINAÇÃO.



WAGNER ALBERTSSON

* * *